Print Friendly, PDF & Email

Costuma-se dizer que, quando o argumento é fraco, deve-se aumentar o tom de voz. Esta afirmação não pretende defender o argumento da força, mas antes a força da convicção. Provavelmente, já todos teremos escutado alguém que, ainda que diga coisas sabidas ou mesmo banais, o consegue comunicar com uma convicção tal que ficamos presos e atentos do princípio até ao fim do discurso. A convicção produz este efeito.

Dá-se com a convicção algo semelhante àquilo que acontece quando abastecemos o depósito de um carro. Chegados ao posto de abastecimento, vemos que existem duas possibilidades e que uma delas – ainda que um pouco mais cara – garante mais quilómetros e uma vida mais longa ao motor. A convicção acrescenta algo…

Neste sentido, as convicções de fé enriquecem a tão necessária e urgente conversão ecológica. A fé cristã não pode permanecer indiferente perante a actual situação do mundo que habitamos. Ela possui energias que promovem um cuidado mais eficaz da criação. Conhecer e desenvolver essas convicções é então uma forma de criarmos condições mais adequadas para este processo de conversão ecológica.

A primeira convicção é «a consciência de que cada criatura reflecte algo de Deus e tem uma mensagem para nos transmitir» (LS 221). Os medievais falavam no «livro da natureza», que era preciso aprender a ler e que era uma fonte extraordinária de conhecimento e de sabedoria. Na base desta consciência, está uma outra, aquela que diz que o artista deixa sempre a sua assinatura na obra que cria. Do mesmo modo, ao criar o mundo, Deus deixou impresso nele algo que nos fala do seu amor e da sua solicitude por todos os seres.

Outra convicção é «a certeza de que Cristo assumiu em si mesmo este mundo material e agora, ressuscitado, habita no íntimo de cada ser, envolvendo-o com o seu carinho e penetrando-o com a sua luz» (LS 221). Jesus encarnou plena e totalmente no nosso mundo. Não só não fez acepção de pessoas, mas também não excluiu criatura alguma deste mundo criado. Jesus de Nazaré assumiu a humanidade na sua plenitude e a natureza como base insubstituível para a vida humana. Neste sentido, a ressurreição não marca uma ruptura com o mundo criado, mas uma presença ainda mais profunda e misteriosa.

Segue-se «o reconhecimento de que Deus criou o mundo, inscrevendo nele uma ordem e um dinamismo que o ser humano não tem o direito de ignorar» (LS 221). Ainda que muitos contestem a lei natural, somos capazes de individuar ciclos na natureza e constatar a existência duma ordem. Respeitá-la é cuidar do ambiente.

Estas convicções podem acelerar o nosso compromisso ecológico e levar-nos a abraçar com mais força e determinação a conversão ecológica que hoje nos pede o papa Francisco.

José Domingos Ferreira, scj