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O papa Francisco gosta de lembrar que «Deus é ternura» (GE 134). É verdade que é um Deus poderoso que criou o universo, mas o seu poder infinito não nega nem dilui a sua ternura paterna. «Na Bíblia, o Deus que liberta e salva é o mesmo que criou o universo» (LS 73).

Se a criação é uma prova do amor de Deus, então cada criatura é objecto da sua ternura. Até «a vida efémera do ser mais insignificante é objecto do seu amor e, naqueles poucos segundos de existência, Ele envolve-o com o seu carinho» (LS 77).

É esta a lógica que o Evangelho nos con­vida a abraçar. Somos chamados a sair ao encontro do outro e a deixarmo-nos tocar pela sua presença física que interpela, pelo seu sofrimento e suas rei­vindicações, pela sua alegria contagiosa. É por isso, que a encarnação de Jesus é o convite a participar na «re­volução da ternura» (EG 88). Jesus não quer apenas que toquemos a carne sofredora dos outros, quer também que renunciemos a procurar aqueles abrigos pessoais ou comunitários que permitem manter-nos à distância do dra­ma humano. Este é o caminho para «entrar em contacto com a vida concreta dos outros e conhecermos a força da ternura» (EG 270).

Por conseguinte, não nos deixemos enganar com aquilo que se passa à nossa volta. «Não pode ser autêntico um sentimento de união íntima com os outros seres da natureza, se ao mesmo tempo não houver no coração ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos» (LS 91). Não podemos partilhar a vida com a gente e dar-nos generosamente, sem antes reconhecer que cada pessoa é digna da nossa dedicação. Esta dignidade não se deve particularmente ao seu aspecto físico, às suas capacidades ou às satisfa­ções que nos pode dar, mas porque é obra e criatura de Deus. «Cada ser humano é objecto da ternura infinita do Senhor, e Ele mes­mo habita na sua vida. Na cruz, Jesus Cristo deu o seu sangue precioso por essa pessoa. Indepen­dentemente da aparência, cada um é imensamen­te sagrado e merece o nosso afecto e a nossa dedicação. Por isso, se consigo ajudar uma só pessoa a viver melhor, isso já justifica o dom da minha vida» (EG 274). Pelo contrário, «se vivemos tensos, arrogantes diante dos outros, acabamos cansados e exaustos. Mas, quando olhamos os seus limites e defeitos com ternura e mansidão, sem nos sentirmos superiores, podemos dar-lhes uma mão e evitamos de gastar energias em lamentações inúteis» (GE 72).

Um grande modelo deste estilo de vida marcado pela ternura é S. José. «No Evangelho, aparece descrito como um homem justo, trabalhador, forte; mas, da sua figura, emana também uma grande ternura, própria não de quem é fraco mas de quem é verdadeiramente forte, atento à realidade para amar e servir humildemente. Também Ele nos pode ensinar a cuidar, pode motivar-nos a trabalhar com generosidade e ternura para proteger este mundo que Deus nos confiou» (LS 242).

José Domingos Ferreira, scj