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O papa Francisco recorda que «a espiritualidade cristã propõe uma forma alternativa de entender a qualidade de vida, encorajando um estilo de vida profético e contemplativo, capaz de gerar profunda alegria sem estar obcecado pelo consumo» (LS 222). Esta afirmação vigorosa está carregada de consequências para a nossa vida.

Em primeiro lugar, é um apelo que se dirige a todos os cristãos, mas que ressoa, de maneira especial, aos ouvidos daqueles que são especialmente consagrados, sobretudo se tivermos em conta a reiterada insistência do Papa na dimensão profética da Vida Consagrada. Com efeito, esta forma de vida, desde a sua essência mais pura e profunda, configura um estilo de vida contracultural, crítico e questionador de usos, práticas e costumes profundamente arraigados em nós, mas pouco saudáveis.

Em segundo lugar, nesta proposta de uma nova maneira de entender a qualidade de vida, está subjacente uma advertência quanto a uma perspectiva redutora que identifica essa mesma qualidade de vida com um estilo consumista. Vários sectores da nossa sociedade têm-se esforçado por veicular a ideia que quanto mais consumirmos mais felizes seremos e melhor realizados nos descobriremos. Ora, é precisamente este vínculo que é posto em dúvida nas palavras do Papa. Incumbe, por isso, a todos os cristãos demonstrar que este é um vínculo excessivo e forçado, com consequências devastadoras para o nosso planeta.

Uma vida de qualidade não advém do acesso folgado e refastelado ao consumo, mas antes duma alegria alimentada por um estilo de vida profético e contemplativo. Dito de outro modo, é possível experimentar a alegria, quando contemplamos o mundo natural; é possível gozar a alegria, quando nos solidarizamos com os mais pobres e desfavorecidos e somos capazes de ser a sua voz; é possível viver a alegria, quando pomos em prática um estilo de vida sóbrio e humilde, que nos permita alegrar-nos com o que temos, sem estarmos obcecados por aquilo que não temos.

A consolidação dum estilo de vida profético e contemplativo implica redescobrir a natureza como o cenário privilegiado para a experiência estética. Precisamos de cuidar melhor das nossas actividades – lúdicas, pastorais, fraternas – ao ar livre. De facto, é a partir do assombro, do gozo e da beleza, que experimentamos ao contemplar o mundo natural, que podemos aceder à experiência transcendente. Este salto do natural para o sobrenatural é possível, porque a criação é o reflexo da beleza e da bondade de Deus. Os nossos jovens precisam muito de passeios, caminhadas e peregrinações ao ar livre. Por isso, não devemos descurar «a relação que existe entre uma educação estética apropriada e a preservação de um ambiente sadio. Prestar atenção à beleza e amá-la ajuda-nos a sair do pragmatismo utilitarista. Quando não se aprende a parar a fim de admirar e apreciar o que é belo, não surpreende que tudo se transforme em objecto de uso e abuso sem escrúpulos» (LS 215).

José Domingos Ferreira, scj