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Uma ecologia integral, segundo a proposta do papa Francisco, é uma ecologia do coração. Não se trata de construir uma ecologia sentimentalista, mas de crescer na consciência que é nesse lugar íntimo e profundo que se joga a felicidade humana, mas também o cuidado da criação. É nesse espaço interior e único que começa verdadeiramente a nossa transformação e a transformação do mundo à nossa volta.

De facto, não é a mesma coisa um «coração ferido pelo pecado» e dominado pela «violência» (LS 2) e um coração cheio de «ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos» (LS 91). Não é igual um «coração aberto a uma comunhão universal» (LS 92) ou um coração vazio, que necessita vorazmente de «objectos para comprar, possuir e consumir» (LS 204). Esta constatação seria suficiente, por si só, para nós levar a prestar mais atenção ao nosso coração, a buscar momentos de silêncio para o poder escutar e conhecê-lo melhor…

O caminho passa então por «reconhecer os próprios erros, pecados, vícios ou negligências, e arrepender-se de coração, mudar a partir de dentro». Precisamos de «fazer a experiência duma conversão, duma mudança do coração» (LS 218), que é algo bem distinto das mudanças cosméticas que tantas vezes se fazem neste nosso mundo e que se propõem como a única solução possível para os problemas. Precisamos de nos convencer que «a acumulação constante de possibilidades para consumir distrai o coração e impede de dar o devido apreço a cada coisa e a cada momento» (LS 222). Precisamos de nos convencer que «não basta o progresso actual e a mera acumulação de objectos ou prazeres para dar sentido e alegria ao coração humano» (LS 209). Torna-se necessário então desenvolver «uma atitude do coração, que vive tudo com serena atenção, que sabe manter-se plenamente presente diante de uma pessoa sem estar a pensar no que virá depois, que se entrega a cada momento como um dom divino que se deve viver em plenitude» (LS 226).

Esta mudança é possível, porque «o Espírito, vínculo infinito de amor, está intimamente presente no coração do universo, animando e suscitando novos caminhos» (LS 238). A nossa fé apoia-se nesta convicção profunda que, «no coração deste mundo, permanece presente o Senhor da vida que tanto nos ama» (LS 245). Por outro lado, não nos podemos esquecer que «não há sistemas que anulem, por completo, a abertura ao bem, à verdade e à beleza, nem a capacidade de reagir, que Deus continua a estimular no mais fundo dos nossos corações» (LS 205).

Como nos faz bem escutar estas palavras consoladoras e estimulantes, que nos lembram que «fomos concebidos no coração de Deus e, por isso, cada um de nós é o fruto de um pensamento de Deus. Cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um é necessário» (LS 65).

José Domingos Ferreira, scj