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O coronavírus chegou, viu e, até ao momento, está a vencer. Tem conseguido perturbar a nossa vida como provavelmente mais ninguém até hoje o havia feito. Pessoalmente, nunca me passou pela cabeça que pudesse chegar o domingo em que, ao contrário de todos os outros até aqui, não sairia de casa para celebrar a missa…

Nestes dias, o medo pode aflorar à superfície, com a agravante de que, em geral, o medo pensa pouco. Vamos escutando os pedidos a ficarmos em casa e a restringirmos os nossos movimentos ao estritamente necessário. Ironia das ironias, é na quaresma que se ouve falar de quarentena e aquilo que não fizemos pela nossa vontade e convicção, estamos a fazê-lo movidos pelo medo de um vírus.

Afinal de contas, o coronavírus vem mostrar que é possível um outro estilo de vida, porque, de repente, tudo aquilo que considerávamos essencial e imprescindível já não o é. Este é o momento em que ganha peso e propriedade aquele nosso dito proverbial «vão-se os anéis e fiquem os dedos».

Talvez agora estejamos verdadeiramente preparados para escutar e acolher estas palavras: «a espiritualidade cristã propõe uma forma alternativa de entender a qualidade de vida, encorajando um estilo de vida profético e contemplativo, capaz de gerar profunda alegria sem estar obcecado pelo consumo. É importante adoptar um antigo ensinamento, presente em distintas tradições religiosas e também na Bíblia. Trata-se da convicção de que «quanto menos, tanto mais». Com efeito, a acumulação constante de possibilidades para consumir distrai o coração e impede de dar o devido apreço a cada coisa e a cada momento. Pelo contrário, tornar-se serenamente presente diante de cada realidade, por mais pequena que seja, abre-nos muitas mais possibilidades de compreensão e realização pessoal. A espiritualidade cristã propõe um crescimento na sobriedade e uma capacidade de se alegrar com pouco. É um regresso à simplicidade que nos permite parar a saborear as pequenas coisas, agradecer as possibilidades que a vida oferece sem nos apegarmos ao que temos nem entristecermos por aquilo que não possuímos. Isto exige evitar a dinâmica do domínio e da mera acumulação de prazeres» (LS 222).

Esta época pode realmente ser uma grande oportunidade para darmos mais valor e atenção às pequenas coisas da vida de cada dia, sobretudo àquelas que são normalmente preteridas. Podemos descobrir o prazer de ler um bom livro ou o gosto de cuidar do jardim de casa. Podemos dedicar mais tempo à oração e à meditação da Palavra de Deus, pois noutras alturas o tempo poderá não ser muito. Podemos também ligar para aqueles amigos com quem já não falamos há muito tempo. Enfim, há uma gama alargada de possibilidades que podemos realizar em tempos de isolamento social. O melhor disto tudo é que agora não há desculpas…

José Domingos Ferreira, scj