O diálogo é formado a partir da mistura de vários ingredientes, que lhe dão um sabor e uma consistência únicos. De facto, a pessoa dialogante é modelada a partir de uma boa dose de paciência e de perseverança, de discrição e de eficácia, de coragem, de abertura e de respeito pelo outro. Estes ingredientes formam o coração do diálogo e estruturam a própria personalidade.

Por conseguinte, não compreendemos o que é o diálogo, se o reduzimos a um simples entretenimento ou uma ocupação dos tempos livres. Não estamos perante uma técnica de marketing ou «uma troca febril de opiniões», e muito menos sequências de «monólogos que avançam em paralelo e que se impõem à atenção dos outros pelo seu tom alto e agressivo» (FT 200). A abertura ao diálogo molda os intervenientes de uma forma muito própria e especial.

O diálogo aparece como a alternativa que emerge entre a fuga da realidade e a violência destrutiva, «entre a indiferença egoísta e o protesto violento» (FT 199). A nossa sociedade parece mover-se entre estes dois pólos e dá a impressão de não reconhecer a existência doutros caminhos possíveis. Por isso, fazem falta pessoas que apontem alternativas válidas e credíveis; fazem falta verdadeiros peritos no diálogo; fazem falta homens e mulheres disponíveis para percorrer este caminho.

O diálogo favorece o desenvolvimento da sociedade, particularmente daqueles intervenientes que aceitam comunicar entre si. O crescimento da sociedade dá-se «quando as pessoas, através do diálogo, têm a coragem de levar a fundo uma questão» (FT 212), não se ficando por considerações superficiais, medíocres ou interesseiras. Uma sociedade amadurece quando as pessoas não se escudam em posturas defensivas como se fossem cavaleiros a defender a sua dama. Uma sociedade cresce quando ousamos sair das nossas trincheiras e fortalezas para nos sentarmos à mesma mesa.

Não obstante, o diálogo encontra-se ameaçado pelo excesso de ruído que se sente hoje. De facto, «a difusão altissonante de factos e reivindicações nos media, o que faz muitas vezes é obstruir as possibilidades do diálogo, pois permite a cada um manter, intactas e sem variantes, as próprias ideias, interesses e opções, desculpando-se com os erros alheios. Hoje predomina o costume de denegrir rapidamente o adversário, aplicando-lhe atributos humilhantes, em vez de se enfrentarem num diálogo aberto e respeitoso, onde se procure alcançar uma síntese que vá mais além. O pior é que esta linguagem, habitual no contexto mediático duma campanha política, generalizou-se de tal maneira que a usam diariamente todos» (FT 201).

Sem dúvida, o diálogo é um caminho mais exigente do que fácil, mais sinuoso do que rectilíneo, mais esforçado do que inato. Mas é sempre um caminho que vale a pena…

José Domingos Ferreira, scj