Falar em fecundidade nos dias que correm é um exercício de uma grande ambiguidade: não será um insulto ou uma provocação? Não será uma forma de ironia mordaz ou uma piada de mau gosto? Quem fala em fecundidade não está a revelar uma falta de sentido da realidade, como se andasse nas nuvens? A verdade é que, nos dias de hoje, são muitos os sinais de morte à nossa volta. São inúmeras as manifestações de uma grave crise de fecundidade

Em primeiro lugar, a natureza mostra-se cansada e doente, por causa das agressões constantes com que nós a violentamos. «A terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo» (LS 21) e devemos reconhecer que «nunca maltratámos e ferimos a nossa casa comum como nos últimos dois séculos» (LS 53).

Em segundo lugar, são também muitos os sinais de morte na sociedade humana: «as guerras, os atentados, as perseguições por motivos raciais ou religiosos e tantas afrontas contra a dignidade humana vão-se multiplicando cruelmente em muitas regiões do mundo, a ponto de assumir os contornos daquela que se poderia chamar uma “terceira guerra mundial por pedaços”» (FT 25).

Em terceiro lugar, há mesmo uma crise de fecundidade biológica nas sociedades ditas mais modernas, que conhecem de perto as dificuldades de muitos casais jovens em gerar filhos. Na verdade, «a falta de filhos, que provoca um envelhecimento da população, juntamente com o abandono dos idosos numa dolorosa solidão, exprimem implicitamente que tudo acaba connosco, que só contam os nossos interesses individuais» (FT 19). No nosso país, estamos a habituar-nos tranquilamente a uma baixa taxa de natalidade e suspeito que a pandemia a tenha agravado mais ainda. As famílias têm cada vez menos filhos e parece que ter dois filhos é um absurdo.

Em quarto lugar, o Cristianismo, na Europa, apresenta-se em decadência, com igrejas vazias, com pouca capacidade de mobilizar os mais jovens, com vários escândalos a ensombrar a vida das comunidades. A imagem que frequentemente transparece da Igreja é a de uma mulher idosa, cansada, esgotada e deprimida.

São sinais verdadeiramente dramáticos, que nos deixam apreensivos e preocupados. É uma situação que põe em dúvida algumas das nossas convicções mais firmes e sólidas. Parece que caminhamos no meio de escombros, onde não é possível nascer nada. Podemos sentir então uma enorme vontade de repetir como o homem da parábola: «Há três anos que venho procurar fruto nesta figueira e não o encontro. Corta-a; para que está ela a ocupar a terra?» (Lc 13,7).

No entanto, diz-nos o papa Francisco que «o Evangelho não cessa de ser Boa Nova enquanto não for anunciado a todos, en­quanto não fecundar e curar todas as dimensões do homem, enquanto não unir todos os homens à volta da mesa do Reino» (EG 237). Estamos chamados a dar fruto…

José Domingos Ferreira, scj