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De uma forma lancinante, o Covid-19 tem-nos ajudado a compreender, na expressão de Viriato Soromenho-Marques, um fio condutor, ténue, quase invisível, que une todas as criaturas, sejam os humanos, ou os animais, ou as montanhas e as vagas do oceano: a fragilidade.

De facto, no meio desta pandemia, as nossas supostas seguranças e apoios têm caído como castelos de cartas ao sopro de uma leve brisa… O que se pode dizer, nesta altura, dos lares onde vivem tantos dos nossos idosos? Pensávamos que eles estavam seguros aí dentro, mas este vírus tem-nos mostrado que não. O que dizer também do medo que se instalou e que fez com que tanta gente deixasse de ir ao hospital, não fosse entrar saudável e sair infectado? É de uma ironia atroz que o hospital se possa tornar o lugar onde se fica doente…

A fragilidade, por um lado, é aquilo que torna a existência das criaturas vulnerável ao sofrimento, à dor e à injustiça. Por outro lado, ela é também aquilo que aproxima os seres uns dos outros, que os faz crescer na solidariedade, que os eleva na cooperação, que conduz a uma interdependência mútua. No caso dos humanos, esta fragilidade incita a que nos superemos e nos transcendamos a cada passo.

Por conseguinte, a fragilidade não é uma falha a ser corrigida, ou um defeito a ser suprimido, ou uma nódoa que devemos esconder. Pelo contrário, ela é a via que nos aproxima uns dos outros e nos leva a cuidar da nossa casa comum. Aqui está uma nova perspectiva duma realidade que tantas vezes nos custa aceitar, até ao ponto de a negarmos insistentemente. Como é fácil passar a vida a esconder algo que, afinal de contas, é comum a toda a forma de vida!!!… Podemos então dar-nos conta de como uma certa forma de autonomia e um desejo de auto-suficiência são ilusões anestesiantes, que nos enganam e afastam daquilo que realmente somos.

A existência no seu conjunto está unida pelos laços de uma imensa fragilidade, que se expressa no modo como os seres se disseminam, se fragmentam e se diluem no espaço e no tempo. Toda a criação é percorrida por um sopro cósmico de vida e mortalidade. A natureza é, por isso, uma realidade marcada pela «fragilidade» (LS 16) e a nossa missão, a este nível, passa por «reconhecer» (LS 78), «proteger» (LS 90) e «cuidar» (LS 214) essa fragilidade, ou dito doutra forma, aprender a amá-la.

O cuidado – palavra actualmente muito em voga, talvez mais nas palavras que nos gestos – tem a sua razão de ser precisamente no reconhecimento desta fragilidade ontológica, comum a todos os seres vivos. Na verdade, somos chamados a cuidar dos mais frágeis, porque também nós precisamos e precisaremos que, num ou noutro momento, nos cuidem. Não importa se são crianças, ou doentes, ou idosos ou pobres. O importante é que assumamos este dever de cuidar dos frágeis, sem esquecer que o planeta se encontra nesse grupo…

José Domingos Ferreira, scj