Se estamos acostumados a percorrer a natureza nos seus trilhos, já nos teremos dado conta da vulnerabilidade que a caracteriza em cada momento e em cada lugar.

A beleza excelsa de uma flor não lhe garante uma existência duradoura. O carácter irrequieto dos pequenos pássaros não os exime de serem uma presa fácil para os predadores. E até uma árvore de grande porte não consegue escapar aos desejos do lenhador. Em cada verão, os incêndios no nosso país mostram-nos o quanto a natureza é vulnerável às mais diversas adversidades e como aquilo que demora muitos anos a formar-se pode ser destruído numa questão de segundos. Um dos espectáculos mais tristes será certamente o de atravessar uma área florestal, alguns dias após um grande incêndio: tudo é negro e sem vida!

A natureza é dádiva permanente de si. Ela dá-se em alimento; produz o ar que respiramos; é cor, som e beleza que nos entra pelos sentidos; é a terra em que nos movemos e existimos. O ser humano não existe em contraposição com a natureza, mas precisa dela para viver de uma forma harmoniosa e feliz. Ela oferece-se continuamente, mas também está exposta aos mais diversos perigos. Da mesma forma, a natureza é a mãe que nos ensina que também nós, seres humanos, somos vulneráveis e estamos facilmente expostos aos perigos que nos assolam a cada passo.

Neste sentido, uma das consequências deste afastamento progressivo entre o natural e o humano foi precisamente a perda da consciência da nossa própria vulnerabilidade. Pensamos que a ciência e a tecnologia nos podiam resolver todos os problemas e que poderiam ser inclusivamente o escudo protector contra tantas ameaças, vindas dos mais diversos quadrantes. Vimo-nos, de repente, envoltos numa aura de força e de poder e acabamos por perder o sentido daquilo que somos e da realidade que nos envolve. Vimo-nos, de repente, envoltos numa aura de força e de poder e acabamos por nos esquecer que também somos terra e fragilidade. Com efeito, não nos podemos esquecer que «a constante distracção nos tira a coragem de advertir a realidade dum mundo limitado e finito» (LS 56).

Esta dolorosa tragédia do Covid vem recordar-nos que não só somos extremamente frágeis, como precisamos de voltar ao contacto com a natureza. Os sucessivos confinamentos mostraram como precisamos de percorrer as ruas das cidades e os trilhos dos montes, pois não fomos feitos para ficar presos em casa. O contacto com a natureza enche-nos de saúde e reforça a nossa vitalidade, mas também diminui o stress e acalma a nossa ansiedade. Por conseguinte, «um mundo frágil, com um ser humano a quem Deus confia o cuidado do mesmo, interpela a nossa inteligência para reconhecer como deveremos orientar, cultivar e limitar o nosso poder» (LS 78). Aliás, a nossa vocação é precisamente a de «colaborar com a terra e proteger a sua fragilidade» (LS 90).

José Domingos Ferreira, scj