Cá estamos nós, a tentar fazer chegar notícias do Gurúè, embora não se adivinhe fácil a nossa tarefa, já que as tecnologias por aqui funcionam com alguma dificuldade.
É verdade, depois das aventuras e peripécias de uma viagem inenarrável, encontramo-nos finalmente na nossa terra de Missão. Até aqui chegarmos, tivemos que enfrentar vicissitudes tais como: perder malas e caixas, sermos divididos em diversos aviões, fazermos escalas não previstas…
A chegada a Maputo deixou-nos desolados: estávamos a chegar a uma espécie de cidade fantasma, com pessoas aos magotes, a caminhar sem rumo, a andar de bicicleta sem se saber bem com objectivo, a passar por cima de buracos e esgotos das supostas estradas e dos chamados caminhos que conduziam a casas que invariavelmente se pareciam com barracas. Em todo o lado havia gente a vender qualquer coisa a alguém que nada comprava. Logo a seguir… vinham as grandes mansões dos senhores do dinheiro ou dos ilustres representantes das outras nações do mundo. Era assim, uma cidade carregada de contrastes, onde a miséria extrema convivia lado a lado com o luxo digno de uma qualquer grande cidade ocidental.
Amenizou esta visão o inexcedível acolhimento dos nossos confrades que trabalham na Casa Padre Dehon. Rapidamente nos sentimos em casa e nos acomodamos o melhor que era possível nas instalações disponíveis.
No Sábado arrancámos para Quelimane, desta vez com bagagem completa, já que a que se havia perdido inicialmente tinha entretanto aparecido. Milagre dos milagres, chegou tudo ao minúsculo aeroporto de Quelimane, onde o acolhimento dos confrades voltou a ser de igual qualidade.
O destino era mesmo o Gurúè. Depois de uma noite tranquila e festiva em Quelimane, lá arrancámos logo de manhã, no “machibombo” que nos levaria ao destino há tanto esperado e desejado.
E cá estamos nós, a trabalhar a todo o gás: a biblioteca já tem muito mais livros e começa a ficar organizada; os computadores do armazém e escritório já estão montados; as aulas de inglês já começaram; o estudo da machamba já está a ser feito; o laboratório de Físico-Química começa a ganhar forma; as comunidades vão começar a ser visitadas a partir de amanhã; o estudo da realidade empresarial e comercial da cidade está já a ser feito por três especialistas na matéria. O grupo está muito entusiasmado e está a gerar grande simpatia em toda a gente que frequenta o Centro Polivalente Leão Dehon e a Escola Básica Industrial do Gurúè.
Estamos cercados por belíssimas paisagens, mas é também grande a pobreza que nos rodeia. Já deu para ver que este é o lugar que mais gente atrai no Gurúè: trabalhadores, estudantes, leitores que frequentam a biblioteca, gente que vem confessar-se… é um movimento constante.
Bichinhos não faltam por estas paragens. Mas não consta que até agora alguém tenha sido demasiado incomodado por qualquer um deles, nomeadamente pelos picadores. No mercado da terra há de tudo um pouco. Houve até quem fosse tentado a comer uma espetadinha de ratos, com pelo e tudo!
Até breve. Um abraço.

| José Agostinho F. Sousa, scj |