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Nestes últimos dias, ficou-me na memória aquela senhora, proprietária de um quiosque, que me dizia que, durante o confinamento, vinha muita gente comprar a raspadinha, apenas para sair de casa, dar um passeio e conversar.

Na mesma linha, uma fisioterapeuta contava-me que tinha tido pacientes que a única coisa que queriam era conversar um pouco e, como por motivos de saúde se podia sair de casa, então aproveitavam e apareciam no consultório. Eu próprio dei-me conta que algumas pessoas se acercavam a mim para conversar um pouco, pois não tinham mais ninguém com quem o fazer. Além disso, na zona onde resido, há uns espaços destinados aos mais velhos que aí se juntam para jogar cartas e falar entre eles, mas há muito que estão encerrados e não lhes foram dadas alternativas…

De facto, a solidão é uma dinâmica que corrói lentamente o ser humano. Não só lhe suga a alegria e a esperança, como lhe insufla quantidades enormes de tristeza e desânimo. A solidão deprime uma pessoa, leva-a a ver tudo cinzento e a não esperar melhores tempos. Estes confinamentos que agora estamos a abandonar – espero que por muito tempo – aumentaram a solidão de muitas pessoas. A triste realidade é que estamos cada vez mais sós, mesmo se temos equipamentos electrónicos que tentam iludir essa mesma sensação de isolamento. De facto, «a sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos. Encontramo-nos mais sozinhos do que nunca neste mundo massificado, que privilegia os interesses individuais e debilita a dimensão comunitária da existência» (FT 12). Esta solidão instalada promove o salve-se quem puder e é geradora de indiferença. Onde a solidão cresce e se afirma, enfraquece o sentido comunitário e toda a possibilidade de construir uma sociedade onde todos tenham um espaço reconhecido.

O Cristianismo é uma realidade essencialmente comunitária e não pode abdicar desta dimensão. Na verdade, «ninguém se salva sozinho, só é possível salvar-nos juntos» (FT 32). De qualquer forma, também o Cristianismo tem sofrido com este enfraquecimento dos laços comunitários, o que é visível na vida das nossas comunidades cristãs, que, mesmo assim, continuam a ser uma das maravilhas deste mundo. Só é pena que não nos demos conta disto!…

Indica-nos o papa Francisco «um óptimo segredo para sonhar e tornar a nossa vida uma bela aventura. Ninguém pode enfrentar a vida isoladamente; precisamos duma comunidade que nos apoie, que nos auxilie e dentro da qual nos ajudemos mutuamente a olhar em frente. Como é importante sonhar juntos! Sozinho, corres o risco de ter miragens, vendo aquilo que não existe; é juntos que se constroem os sonhos» (FT 8). Este estilo de vida – competitivo e acelerado – tem produzido isolamento e abandono. Precisamos então de desenvolver um estilo alternativo que nos faça crescer na consciência de que somos povo, família e comunidade.

José Domingos Ferreira, scj