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Quando no nosso coração se dá a passagem do ressentimento à gratidão, tem origem uma transformação profunda em nós e no mundo à nossa volta. De facto, aprendemos então a ser receptores em vez de usurpadores e abusadores, mas aprendemos também «a ver o sofrimento e a dor do mundo não como interrupções perturbadoras, mas como convites a mudar o coração» (H. Nouwen)

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Se a crise ecológica adquiriu um carácter de grande emergência, este é um sinal de que o nosso coração endurecido se resiste a mudar e que sente muita dificuldade em inflamar-se de gratidão. No estado actual do nosso planeta, constatamos uma vez mais como o Amor não é amado. As dores que infligimos à criação e o sofrimento dos mais pobres são as chagas contemporâneas de Cristo na cruz.

Por isso, é curioso constatar que o mal que fazemos à criação é uma exteriorização daquilo que levamos no nosso interior. Efectivamente, quando cedemos ao ressentimento, permitimos que uma raiva fria e agonizante se instale no nosso coração e, de modo progressivo, o endureça e insensibilize. Tornamo-nos então desconfiados, cínicos e deprimidos e tudo isto, com o tempo, se tornará uma maneira de ser.

H. Nouwen chega a dizer que «o ressentimento é uma das qualidades da vida mais perversas, pois torna muito difíceis os relacionamentos e a vida em comunidade. Impede-nos de procurarmos o perdão, rouba-nos a alegria e a liberdade interior para agirmos de forma criativa e faz com que nos agarremos aos sentimentos negativos como única forma de encontrarmos uma identidade. Então tornamo-nos aquilo que combatíamos e regredimos para as pequenas satisfações da raiva não expressa».

A conversão ecológica passa por nos libertarmos do ressentimento e abraçarmos a gratidão. Quando esta mudança acontecer, veremos «crescer as peculiares capacidades que Deus deu a cada crente», mas também seremos impelidos «a desenvolver a nossa criatividade e entusiasmo para resolver os dramas do mundo, oferecendo-nos a Deus como sacrifício vivo, santo e agradável». Nesse momento, cada cristão já «não vê a sua superioridade como motivo de glória pessoal nem de domínio irresponsável, mas como uma capacidade diferente que, por sua vez, lhe impõe uma grave responsabilidade derivada da sua fé» (LS 220).

A «grata contemplação do mundo» (LS 214) é uma forma especial e única de olhar a realidade. Não é simples curiosidade nem distracção para os sentidos. Na verdade, só seremos capazes de contemplar agradecidamente o mundo, quando nos descobrirmos infinitamente amados por Deus e dominados por uma alegria que não podemos conter. Então, aprenderemos a descobrir o mundo na sua beleza mais radical e sentir-nos-emos preenchidos e completados por esse bem. Receber tanto amor sem o merecer nem nunca o conseguir explicar, fará inevitavelmente disparar o sensor da gratidão…

José Domingos Ferreira, scj