A oração tornou-se hoje algo incrivelmente difícil, o que leva a que muitos desistam de rezar, assim que se confrontam com os primeiros obstáculos. De facto, são muitos – mesmo entre os cristãos – aqueles acham que a oração é algo de inútil, enquanto outros consideram que é uma perda de tempo.

As comunidades cristãs ensinam e transmitem muitos conteúdos, mas deixaram de ser escolas de oração, deixaram de ser aqueles espaços onde se aprendia a dialogar com Deus. Parece que as próprias comunidades religiosas se deixaram vencer pelos vírus da dispersão e do activismo e já não experimentam o entusiasmo de outros tempos em viver em comunhão com Deus.

Se a oração comunitária ainda prevalece na sua dimensão litúrgica, a oração pessoal eclipsou-se de uma forma impressionante. Deixamos de rezar, o que significa que perdemos o interesse em cuidar da nossa amizade com Aquele que é o mistério último da vida. Deixamos de rezar, porque passamos a colocar a nossa confiança última noutro rochedo que não Aquele que é o Criador de todas as coisas. Mas deixar de rezar é também escancarar as portas à idolatria, que entrará de maneira subtil e crescerá como uma epidemia…

É particularmente curiosa esta coincidência entre a crise da oração e a crise ecológica. Com efeito, ambas são vítimas deste antropocentrismo exagerado e doentio, que dilui a relação com Deus, que enfraquece a natural capacidade de contemplação e que promove uma vivência ofegante e ansiosa do tempo. Mas, se pensarmos bem, não poderia ser doutro modo, pois tanto a oração como o contacto com a natureza apelam a um descentramento do ser humano. Tanto a oração como o contacto com a natureza reivindicam um ser humano mais humilde, capaz de admitir as próprias fraquezas e que se aceite pequeno perante a imensidão de Deus e do próprio mundo. Neste sentido, se, na raiz da crise ecológica actual, está uma redução da natureza a simples matéria-prima, que pode ser sugada até se converter em lixo, na raiz da crise da oração, está também uma redução da oração a simples actividade de reflexão, em vista de um ajustamento do próprio equilíbrio psicológico.

Voltar a rezar terá consequências positivas para a conversão ecológica de que todos hoje necessitamos. Como diz o papa Francisco, «é possível necessitar de pouco e viver muito, sobretudo quando se é capaz de dar espaço a outros prazeres, encontrando satisfação nos encontros fraternos, no serviço, na frutificação dos próprios carismas, na música e na arte, no contacto com a natureza, na oração» (LS 223). Os cristãos precisam que lhes recordem que uma renovada consciência ecológica começa a ser forjada no silêncio da oração.

Se a vida é adaptação ao ambiente e são aqueles que se conseguem adaptar que acabam por sobreviver, então a oração é adaptação a Deus como o nosso ambiente derradeiro.

José Domingos Ferreira, scj