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Sempre me chamou a atenção as pessoas mais velhas que diziam que, no seu tempo, tinham de aprender tudo de memória, desde os rios às linhas de comboio. O mais surpreendente para mim, porém, era quando explicavam que não tinham apenas de decorar os nomes dos rios ou das linhas de comboio de Portugal, mas também as das então ditas colónias africanas. Isto parecia-me uma tarefa que tinha tanto de hercúleo como de desperdício de tempo; contudo era um sinal inequívoco de uma grande capacidade de memória.

Hoje a memória já não tem o mesmo peso de antes. O mundo digital vem-nos dizer que não precisamos de decorar o que quer que seja, pois, com o acesso permanente à internet, podemos fazer consultas e elucidar as nossas dúvidas. É curioso que os mais novos fiquem tão espantados, quando ouvem declamar um poema de cor. Parecem tão habituados a essa espécie de memória digital a que sempre podem recorrer, que saber um poema de cor é algo doutro mundo. De facto, o youtube está cheio de vídeos que mostram o que aconteceu; a wikipedia tem todas as datas necessárias; e por aí adiante…

A memória está muito presente nos idosos, embora sejam também eles quem mais se queixam de que já não se lembram de muita coisa. Ainda que de raspão, é inevitável fazer uma referência ao Alzheimer. Além disso, o recurso ao «esqueci-me» serve para justificar tanta coisa na nossa vida, que a falta de memória parece vir em nosso favor, como se de um anjo da guarda se tratasse.

A perda de memória é algo preocupante, sobretudo naquilo que se refere ao esquecimento das nossas referências. Esquecer o passado é o primeiro passo para voltar a repeti-lo, sem ter aprendido nada com ele. Por isso, a memória é, por excelência, uma capacidade espiritual. A Bíblia é um longo livro de memórias, um enorme trabalho de releitura do passado, um esforço para que a memória não se perca. A capacidade de ler a nossa história, de descobrir nela a acção de Deus e dar-se conta como Ele nos foi conduzindo, exige uma memória viva, capaz de meditar no coração aquilo que se viveu de muitos modos. Guardar na memória aquilo que Deus fez por nós dá-nos confiança para enfrentar o futuro, até porque, se nos descobrimos amados e protegidos por Deus no passado, não há razões para que tal não continue a suceder no presente e no futuro.

O papa Francisco fala duma memória «ecológica» e diz: «a história da própria amizade com Deus desenrola-se sempre num espaço geográfico que se torna um sinal muito pessoal, e cada um de nós guarda na memória lugares cuja lembrança nos faz muito bem. Quem cresceu no meio de montes, quem na infância se sentava junto do riacho a beber, ou quem jogava numa praça do seu bairro, quando volta a esses lugares sente-se chamado a recuperar a sua própria identidade» (LS 84).

 

José Domingos Ferreira, scj