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A cidadania ecológica não se reduz ao acesso, conhecimento e respectivo manuseamento da informação, mas reclama sempre a consolidação de hábitos quotidianos, que manifestem uma vontade firme de caminhar numa determinada direcção.

Poder aceder à informação é um movimento muito importante e bastante facilitado nos dias de hoje, sobretudo por causa da influência das novas tecnologias. No entanto, estar informado será insuficiente, se não conduzir ao desenvolvimento de práticas, que respondam às crescentes exortações e advertências científicas. A este nível, o grande risco que corremos é o de nos habituarmos a consumir in-formação, que, sem nunca se converter em formação, rapidamente resvalará para a de-formação.

A experiência ensina-nos que «a existência de leis e normas não é suficiente, a longo prazo, para limitar os maus comportamentos, mesmo que haja um válido controlo» (LS 211). Estas leis e normas – geralmente de carácter proibitivo e penalizante – poderão ser úteis a curto prazo, ao contribuírem para uma primeira abordagem na consciencialização das populações. No entanto, a formação de eco-cidadãos pede que se assuma o nobre «dever de cuidar da criação com pequenas acções diárias, e é maravilhoso que a educação seja capaz de motivar para elas, até dar forma a um estilo de vida» (LS 211). Por mais pequenas que sejam, estas «acções espalham, na sociedade, um bem que frutifica sempre para além do que é possível constatar e que sempre tende a difundir-se, por vezes invisivelmente» (LS 212). Não basta dizer que nos preocupa a degradação do nosso planeta; é urgente que essa pré-ocupação se transforme numa ocupação real e efectiva. Cada um, apesar das suas limitações ou poucas possibilidades, pode fazer sempre alguma coisa e ninguém tem o direito de desprezar esse contributo.

A incapacidade de alguns cristãos em alterar os seus hábitos é um sinal preocupante da sua incapacidade em retirar «todas as consequências do encontro com Jesus» (LS 217). Poderá dar conta de uma visão marcadamente espiritualista do seguimento de Jesus, que facilmente se ressente da falta de compromisso na transformação das realidades do nosso mundo. Neste sentido, torna-se necessário estabelecer itinerários formativos (catequéticos e pastorais) e instâncias de discernimento comunitário (por exemplo, dar corpo a uma correcção fraterna ecológica) que promovam a tomada de decisões e a incorporação de novos hábitos. A assunção de práticas concretas será um bom indicador da nossa conversão ecológica.

O caminho passa por explorar e aprofundar as grandes motivações da nossa fé cristã, que hão-de alimentar e sustentar as necessárias transformações quotidianas. Estas – devidamente enraizadas no nosso seguimento de Jesus Cristo – hão-de despertar em nós e nas comunidades cristãs um novo modo de habitar o mundo.

José Domingos Ferreira, scj