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Ao início, até nem prestei muita atenção. Passado algum tempo, comecei-me a aperceber da situação. Hoje é motivo suficiente para mudar de estação ou mesmo desligar o rádio, quando vou a conduzir. Refiro-me ao anúncio – repetitivo e insistente até à exaustão – a um programa de emagrecimento, que é transmitido na emissora católica portuguesa. A verdade é que, mesmo entre os mais jovens, a preocupação em ser e manter-se magro é muito forte, pelo que não me admira que aquele anúncio passe tantas vezes na rádio.

Uma adequada educação ecológica implica educar as crianças e os jovens para que se alimentem de modo saudável, o que é algo mais do que comer. A sociedade, com os seus constantes apelos sedutores, nem sempre ensina as pessoas a alimentar-se da melhor forma. Na verdade, uma alimentação correcta implica conhecer o valor dos alimentos, seja ao nível dos seus nutrientes, seja também quanto à sua proveniência. Uma alimentação correcta está muito distante daquele consumismo frenético e compulsivo, de quem come como se não houvesse amanhã e, portanto, ingere quantidades de alimento muito superiores àquelas de que realmente necessita. Alguns, ao dia seguinte, procuram ainda compensar os exageros com uma prática desportiva digna de um atleta de alta competição… Uma alimentação correcta, porém, vai ainda mais longe e pede que se faça da nossa mesa um lugar de encontro e de fraternidade, e não só um espaço de ostentação, de desperdício e de veleidades.

Como sinal concreto e forma de nos recordar esta verdade, o papa Francisco pede que paremos «a agradecer a Deus antes e depois das refeições. Proponho aos crentes que retomem este hábito importante e o vivam profundamente. Este momento da bênção da mesa, embora muito breve, recorda-nos que a nossa vida depende de Deus, fortalece o nosso sentido de gratidão pelos dons da criação, dá graças por aqueles que com o seu trabalho fornecem estes bens, e reforça a solidariedade com os mais necessitados» (LS 227).

Diz-se que é à mesa que se conhece as pessoas, porque é aí que se pode desenvolver uma relação serena e amistosa. À mesa a pessoa revela-se, não apenas por aquilo que diz, mas também pela forma como come. Uma «ansiedade doentia» (LS 226) dá origem a um apetite voraz, a uma impulsividade descontrolada e a uma concupiscência destemperada, que acabará por trazer consequências negativas para a nossa saúde.

Quando formos capazes de nos alimentarmos de um modo saudável e equilibrado, é possível que outras dimensões da nossa vida percorram o mesmo caminho de moderação e de temperança. É que, se há alguma verdade na afirmação «nós somos aquilo que comemos», mais verdade parece existir na afirmação «nós somos como comemos».

José Domingos Ferreira, scj