Viver o tempo da Paixão através da arte
O Domingo de Ramos marca o início da Semana Santa e possui um significado teológico profundo, caracterizado por uma forte ambivalência, isto é, a transição entre o triunfo e a humilhação, entre a aclamação e a proclamação da fé.
Este acontecimento da entrada de Jesus na cidade santa para sofrer a Paixão em benefício de todos — do qual a liturgia, neste domingo, faz memória — anuncia a realeza humilde de Jesus e a natureza do seu reino, que não é do domínio político ou militar, mas de paz, de serviço e de humildade.
Para a liturgia, esta celebração festiva e solene contém em si todo o Mistério Pascal, pois os ramos simbolizam a vitória e a vida, enquanto a Paixão simboliza o sofrimento e a morte como condição necessária para essa vitória. Isto mesmo teremos ocasião de constatar num primeiro quadro sobre o qual vamos meditar.
É de referir também que, apesar da sua dramaticidade, esta celebração, no início da Semana Maior, recorda-nos a alegria no serviço e seguimento de Jesus Mestre. Para ilustrar isto, servi-me das palavras oportunas e cheia de sabedoria de Bento XVI, quando refere que “é necessário, novamente, fazer compreender que o prazer não é tudo. Que o cristianismo nos dá alegria, como o amor dá alegria. Mas o amor é também sempre uma renúncia a si mesmo. O próprio Senhor nos ofereceu a fórmula do que é o amor: quem se perder a si mesmo, encontrar-se-á; quem ganhar e se conservar a si mesmo, perder-se-á. É sempre um Êxodo e, portanto, também um sofrimento. A verdadeira alegria é algo distinto do prazer; a alegria aumenta e amadurece sempre no sofrimento, em comunhão com a Cruz de Cristo. Somente aqui nasce a verdadeira alegria da fé.” (Papa Bento XVI, Discurso ao clero da Diocese de Aosta, 25.07.2005).
Por fim, há que referir a simbólica dos ramos nesta celebração. A bênção dos ramos e o posterior gesto de os levar para casa não constituem um rito supersticioso ou de proteção “mágica”. Para a Igreja, os ramos que os fiéis levam consigo e guardam em casa durante o ano servem para lhes recordar que seguimos a Cristo tanto na alegria (ramos) como na dor (cruz), aguardando a glória da Ressurreição.
O mistério da Páscoa de Jesus:
um acontecimento passado, que se torna evento de salvação no presente, para o futuro
As representações de Cristo crucificado são inúmeras na arte ocidental. Todas têm como fundamento e fonte de inspiração os textos dos quatro evangelhos. E todas são de grande beleza e riqueza, pois cada artista, ao seu modo, oferece aos espectadores interpretações diversas e originais, deixando transparecer a riqueza e a grandeza do mistério, sem nunca o esgotar.
No sentido de ajudar a viver este domingo e a semana santa, proponho o seguinte quadro.
https://artvee.com/dl/the-crucifixion-4#00
O quadro da Crucificação (séc. XV) que propomos é atribuído ao artista conhecido como Mestre de Dreux Budé, que muitos historiadores de arte identificam como sendo o pintor francês André d’Ypres. Esta pintura parece fazer parte de um tríptico constituído por outros dois quadros: um que representa a prisão de Jesus no Getsémani e outro que representa Cristo ressuscitado junto de um sepulcro. O painel da crucificação seria o quadro central; trata-se de uma composição muito bela, rica em detalhes e densa de significado teológico e espiritual.
A cruz de Cristo está ao centro, ladeada pelos outros dois crucificados (cf. Lc 23,33): o bom ladrão (à direita de Jesus) e o mau ladrão (à esquerda). O crucificado à esquerda injuria Cristo, e a sua posição transparece dor e desespero. É um drama triste: morre ao lado da esperança e da salvação, mas não se deixa salvar. Aliás, é importante referir que este crucificado se situa ao lado da representação terrível dos condenados ao inferno.
Por outro lado, o crucificado à direita reconhece Jesus e todo o bem que Ele fez — em especial, a sua bondade e o perdão para com os pecadores —, pedindo o milagre do perdão e da misericórdia. Porque assim o pediu e quis, recebe a promessa de Jesus de estar com Ele no Paraíso naquele mesmo dia (cf. Lc 23,42). Por isso, este crucificado é colocado, na pintura, em paralelo com a representação da cidade de Jerusalém, isto é, a cidade da paz e o seu fundamento.
Junto à cruz encontra-se a Virgem Maria que, esmagada pela dor, parece desfalecer perante os condenados e todo aquele drama, que se torna um teodrama. A Mãe Dolorosa é sustentada pelo apóstolo João, a quem Jesus confia a sua mãe. O discípulo está vestido de vermelho, cor que manifesta o drama do sacrifício de Jesus e do seu martírio pela salvação de todos; ao mesmo tempo, confirma o discípulo como autêntica testemunha do mistério que ali se cumpre (cf. Jo 19,35), conduzindo, assim, muitos à fé.
Os evangelhos referem que junto à cruz de Jesus, de perto e de longe, se encontram algumas mulheres. Entre elas destaca-se a figura de Maria Madalena (cf. Jo 19,25), que nos relatos da Paixão e da Ressurreição assume um papel relevante. Este destaque é também acolhido pelo artista que, aqui, pinta Maria Madalena por detrás da mãe de Jesus, amparando-a; apesar de sofrer, a sua dor não se compara à dor lacerante da mãe. Maria Madalena é reconhecível na pintura, graças aos seus longos cabelos loiros, que se podem observar por baixo da sua touca branca.
Neste conjunto de pessoas junto à cruz de Jesus, no lado esquerdo, apenas o discípulo chora, limpando os olhos com um lenço branco. Quanto às mulheres, o choro é contido, pois o seu lamento e sofrimento são interiores, mais intensos, profundos e conformados à paixão do Senhor.
No lado oposto, à direita, vemos aos pés da cruz dois soldados que jogam dados, para ver qual deles ficará com a túnica roxa de Cristo, estendida no chão. A cor roxa, símbolo da penitência, recorda-nos que Jesus tomou sobre si as nossas dores e suportou os nossos pecados no seu corpo — Ele que não cometeu pecado algum (cf. Is 53,4; 1Pd 2,21-24). Segundo a nossa observação, esta preocupação dos soldados parece fútil em comparação com a grandeza do que acontece no Calvário. Trata-se de uma atitude indiferente e insensível de quem está habituado à violência e à frieza dos dramas humanos.
Contudo, é de referir que o evangelista São João atribui a esta ação dos soldados um grande significado teológico e espiritual, elevando a túnica à categoria de símbolo: ela simboliza a Igreja que se quer unida e nunca dividida. Este tema será muito considerado pelos Padres da Igreja, que prolongarão esta intuição sacramental de João a respeito da Igreja.
Nesta pintura, o artista representa também os acontecimentos que precederam ou seguiram a crucificação. À direita, presenciamos a representação da descida de Jesus à mansão dos mortos; assim, associa-se o acontecimento da morte de Jesus ao evento da sua ressurreição. Aqui, o Senhor apresenta-se revestido com um manto branco e, num só gesto, destrói as correntes e as portas da morte e do inferno para libertar as almas dos justos.
Deste modo, Cristo aparece três vezes no mesmo quadro, antes e depois da sua morte, em episódios sucessivos, numa espécie de “banda desenhada”. Uma visão aterradora pode observar-se à direita, ao fundo: um terrível demónio que, sobre uma estrutura estranha, recebe no fogo eterno as almas dos condenados.
Como foi dito, o quadro está dividido pela cruz de Cristo, nitidamente em duas partes, mostrando assim um jogo de simetria. Ao inferno, à direita, corresponde a cidade de Jerusalém, à esquerda, a qual poderá também significar a Jerusalém celeste referida no Apocalipse (cf. Ap 21 e 22). Esta é a cidade ideal e divina que se opõe ao inferno.
Por outro lado, o caminho de Jesus até ao Calvário, à esquerda, carregando a cruz, opõe-se à sua descida à mansão dos mortos, que se encontra à direita, logo após a crucificação.
Este quadro é de uma beleza excecional, especialmente pela capacidade de representar, num todo harmonioso, os múltiplos aspetos do mistério da paixão, morte e ressurreição de Cristo e a sua aplicação à vida dos crentes. Trata-se, por isso, de uma obra não só teológica, mas também catequética, pois ilustra a fé, proclamando-a, celebra a fé, contemplando-a, e exorta à fé, advertindo para uma vida justa e santa, perante a ameaça da condenação e a promessa da recompensa eterna junto de Deus e dos seus santos.
Qual o nosso valor?
Da pequena crucificação à grande imitação de Cristo
A nossa segunda proposta de meditação, parte da seguinte pintura.
https://www.nga.gov/artworks/46118-small-crucifixion
Um outro tipo de quadro, pelo contrário, coloca o acento no sofrimento de Jesus através de um impacto visual mais forte. É o caso da obra do pintor alemão Matthias Grünewald (séc. XV-XVI), pintada nos inícios do Renascimento.
Profundamente espiritual, Grünewald pinta os temas religiosos num estilo muito próprio e místico. Na pintura, sobressai a figura de Cristo sobre um fundo de céu verde-azul — uma mistura cromática que procura exprimir uma atmosfera inquietante e angustiante.
A dramaticidade deste ambiente é potenciada pela representação do eclipse solar e pela tonalidade “apocalíptica” e expectante que a obra revela. Este pormenor vai ao encontro do Evangelho de Lucas que, ao narrar a morte de Jesus, refere que se fizeram trevas sobre toda a terra porque o sol se eclipsou (cf. Lc 23,44-45).
Nesta representação não encontramos, junto a Jesus, nem os dois condenados nem a multidão. Estão apenas presentes três figuras, exemplos de coragem, fidelidade e amor.
À direita está o apóstolo João que, comovido e suplicante, olha para o seu Senhor numa atitude de quem se implica com o que acontece no Calvário, recordando-nos de que «a Cruz é o significado maior do amor maior, aquele amor com o qual Jesus quer abraçar a nossa vida» (Papa Francisco, Discurso na Via-Sacra da JMJ Lisboa, 04.08.2023).
À esquerda vemos a Virgem Maria que, de pé, com o rosto semiescondido e conformado, vive na intimidade a sua dor, unindo-a à do seu Filho. As suas mãos revelam uma oração intensa e abandonada. Por fim, temos Maria Madalena ajoelhada aos pés da cruz. A sua atitude parece menos conformada e a sua dor mais expressiva e audível, visível na posição do corpo e no movimento das mãos e da boca. Encontra-se, por enquanto, num processo de conformidade e de aceitação humilde da vontade de Deus.
Ao olhar para o quadro, o espectador confronta-se rapidamente com Jesus crucificado, cujo corpo se encontra profundamente maltratado, ferido, lacerado e cravado por farpas. Os seus pés, as suas mãos contorcidas e a expressão do rosto manifestam as terríveis dores físicas e o sofrimento interior que Ele suporta por nosso amor. Tendo vivido num período histórico muito difícil e incerto, Grünewald mostra na sua pintura que o Filho de Deus, pela sua Encarnação, assumiu a nossa condição humana e veio tomar parte nos sofrimentos da humanidade, carregando as nossas dores, embora fosse inocente e não tivesse cometido pecado algum. Pelas suas chagas fomos curados (cf. 1Pd 2,21-24).
Além disso, através desta pequena crucificação, o artista convida os espectadores-fiéis a partilhar as dores de Cristo em favor da humanidade carente de salvação e a tomarem eles próprios a sua cruz, seguindo os passos de Jesus — em cuja boca não se encontrou mentira e que, insultado, não respondia com injúrias; maltratado, não respondia com ameaças, mas entregava-se a Deus, que julga com justiça (cf. 1Pd 2,21-24).
Estas verdades da fé cristã, expressas através da arte, não se encontram apenas em Grünewald. Trata-se de uma experiência de fé, de uma corrente de espiritualidade proveniente do ambiente espiritual da Europa do Norte, marcado por movimentos místicos e pela devoção às Cinco Chagas de Cristo. Efetivamente, é neste contexto que se afirma e ganha entusiasmo a leitura do livro intitulado A Imitação de Cristo, um texto largamente divulgado no século XV, que exorta à imitação e ao seguimento de Cristo através de uma devoção muito pessoal e de uma relação particular e íntima com o Senhor, valorizando a vida interior e a piedade.
A representação causa, então, um grande impacto e uma certa repulsa. Tudo isto tem como motivo suscitar o horror ao pecado e a contrição, tocando os corações e as consciências para o sacrifício de Cristo, e reconhecer, assim, que cada homem foi resgatado e salvo por um alto preço. Esta afirmação fundamenta-se no ensino paulino: “Fostes comprados por um alto preço! Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo” (1Cor 6,20) e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus. Esta exortação ao reconhecimento daquilo que somos e do amor de Cristo por nós, levado ao extremo, é também entoada nas nossas assembleias quando se canta: “Por aquilo que o Senhor fez por ti, reconhece quanto vales para Ele!” Portanto, o nosso valor é uma cruz; isto é, um Cristo crucificado.
Pe José Nélio da Silva Gouveia, scj
Centro de Espiritualidade do Seminário de Nossa Senhora de Fátima – Alfragide

