Assistimos a inúmeras notícias sobre a Cimeira do Clima em Glasgow. Foram vários os anúncios de maior empenho no combate às alterações climáticos e à desflorestação, mas também se falou de uma maior cooperação entre os países. Como não podia deixar de ser nestas ocasiões mediáticas, foram prometidos mundos e fundos, ou seja, grandes investimentos para resolver os problemas cada vez mais dramáticos que nos afectam.

Tudo isto poderá soar a música aprazível aos nossos ouvidos, mas poderá também não passar de uma tentativa de agradar à opinião pública, dizendo-nos aquilo que precisamente queremos ouvir. Certo e sabido é que da teoria à prática pode ir uma longa distância… tão longa que com frequência não chega a ser percorrida…

Aquilo que é realmente prioritário e urgente é a mudança do nosso actual estilo de vida, não só porque é pouco sustentável, mas também porque constitui um insulto à vida e condição dos mais pobres. Precisamos de fazer um sério exame de consciência, que nos ajude a reconhecer que nos adaptamos a um estilo de vida burguesa, consumista e hedonista, que é incomportável para o planeta. Ao mesmo tempo, precisamos de configurar esta mudança nos estilos de vida, com atitudes concretas e em contexto comunitário e relacional. O papa Francisco sugere que passemos «do consumo ao sacrifício, da avidez à generosidade, do desperdício à capacidade de partilha, numa ascese que significa aprender a dar, e não simplesmente renunciar. É um modo de amar, de passar pouco a pouco do que eu quero àquilo de que o mundo de Deus precisa. É libertação do medo, da avidez, da dependência» (LS 9).

Mudar de estilo de vida exige um regresso à sobriedade, à simplicidade e ao sentido da medida. Mudar de estilo de vida exige um regresso à moderação, à sensatez e à vigilância que não cede à sedução das coisas. Mudar de estilo de vida exige um regresso à gratuidade, à procura da qualidade e não da quantidade das relações e dos interesses e a um uso sóbrio do tempo e da comunicação. É tempo de sermos mais sóbrios: sóbrios nas habitações, nos meios de transporte, no uso do dinheiro, no uso dos bens, etc.

A mudança do estilo de vida é exigida não apenas pela emergência ecológica em curso, mas também – e talvez mais ainda – pela recuperação do humanismo ecológico e da “verdade” do homem. Esta é, de facto, uma urgência «e não se pense que estes esforços são incapazes de mudar o mundo. Estas acções espalham, na sociedade, um bem que frutifica sempre para além do que é possível constatar; provocam, no seio desta terra, um bem que sempre tende a difundir-se, por vezes invisivelmente. Além disso, o exercício destes comportamentos restitui-nos o sentimento da nossa dignidade, leva-nos a uma maior profundidade existencial, permite-nos experimentar que vale a pena a nossa passagem por este mundo» (LS 212).

José Domingos Ferreira, scj