Print Friendly, PDF & Email

O papa Francisco escreveu que «a gravidade da crise ecológica obriga-nos, a todos, a pensar no bem comum e a prosseguir pelo caminho do diálogo que requer paciência, ascese e generosidade, lembrando-nos sempre que a realidade é superior à ideia» (LS 201).

O reconhecimento da importância da ascese pode soar surpreendente e estranho aos nossos ouvidos. Nestas últimas décadas, fomos fartamente alimentados por um consumo desenfreado, por uma ténue consciência dos limites, por uma reduzida tolerância à frustração e também por uma impulsividade entregue a si própria. O «destempero megalómano» (LS 114), que está na base desta crise ecológica, deve-se também ao esquecimento e consequente ausência da ascese, enquanto capacidade de se auto-controlar e assim alcançar um desejável equilíbrio pessoal.

O descrédito em que caiu a ascese ficou a dever-se ao vínculo próximo estabelecido com a renúncia. De facto, a renúncia aparece-nos hoje como um aspecto tão desconfortável e até contra natura, que fomos levados a negá-la a todo o custo e com todos os meios ao nosso dispor. À partida, renunciar parece-nos algo negativo e inclusivamente castrador para a realização do ser humano. Efectivamente, temos dificuldade em compreender como a renúncia pode contribuir para um ser humano mais feliz.

Não obstante, o papa Francisco pede-nos que passemos «do consumo ao sacrifício, da avidez à generosidade, do desperdício à capacidade de partilha, numa ascese que significa aprender a dar, e não simplesmente renunciar. É um modo de amar, de passar pouco a pouco do que eu quero àquilo de que o mundo de Deus precisa. É libertação do medo, da avidez, da dependência» (LS 9).

Uma nova visão da ascese, certamente mais positiva e atraente, pode contribuir para um mundo mais sustentável, pois torna-se evidente a necessidade de uma maior moderação nos nossos usos e costumes e a afirmação de uma sobriedade feliz e apaziguada. Aliás, é importante recordar que Jesus «não se apresentava como um asceta separado do mundo ou inimigo das coisas aprazíveis da vida [;…] encontrava-se longe das filosofias que desprezavam o corpo, a matéria e as realidades deste mundo» (LS 98).

A renúncia pela renúncia não serve de muito, mas uma renúncia que nos permita ser mais generosos com aqueles que têm menos que nós é completamente diferente. A ascese começa por ser uma renúncia ao desperdício, até porque, para dar apenas um exemplo, «a comida que se desperdiça é como se fosse roubada da mesa do pobre» (LS 50). A ascese pode então tornar-se um modo válido de amar…

José Domingos Ferreira, scj