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A liturgia fornece-nos o momento oportuno para lançarmos um olhar para a Sagrada Família de Nazaré. Não um olhar de relance, mas um ver atento; não um ver superficial, mas um olhar contemplativo. Há muito que podemos aprender, sempre que nos detemos a observar Jesus, Maria e José.

Maria é «a mãe que cuidou de Jesus» e que «agora cuida com carinho e preocupação materna deste mundo ferido», compadecendo-se do «sofrimento dos pobres crucificados e das criaturas deste mundo exterminadas pelo poder humano». Na verdade, «elevada ao Céu, é Mãe e Rainha de toda a criação» (LS 241). A seu lado, destaca-se São José, pois, «com o seu trabalho e presença generosa, cuidou e defendeu Maria e Jesus, e livrou-os da violência dos injustos, levando-os para o Egipto». Com efeito, «também ele nos pode ensinar a cuidar, pode motivar-nos a trabalhar com generosidade e ternura para proteger este mundo que Deus nos confiou» (LS 242).

Esta referência à Sagrada Família de Nazaré abre uma via para salientar «a importância central da família, porque é o lugar onde a vida, dom de Deus, pode ser convenientemente acolhida e protegida contra os múltiplos ataques a que está exposta, e pode desenvolver-se segundo as exigências de um crescimento humano autêntico. Contra a denominada cultura da morte, a família constitui a sede da cultura da vida. Na família, cultivam-se os primeiros hábitos de amor e cuidado da vida, como, por exemplo, o uso correcto das coisas, a ordem e a limpeza, o respeito pelo ecossistema local e a protecção de todas as criaturas. A família é o lugar da formação integral, onde se desenvolvem os distintos aspectos, intimamente relacionados entre si, do amadurecimento pessoal. Na família, aprende-se a pedir licença sem servilismo, a dizer “obrigado” como expressão duma sentida avaliação das coisas que recebemos, a dominar a agressividade ou a ganância e a pedir desculpa quando fazemos algo de mal. Estes pequenos gestos de sincera cortesia ajudam a construir uma cultura da vida compartilhada e do respeito pelo que nos rodeia» (LS 213).

Perante esta economia que anestesia e depois mata, a família é, por excelência, esse lugar das coisas importantes, que nunca se podem quantificar em números e em dinheiro. Nela são transmitidos os valores que funcionarão como a bússola orientadora ao longo de toda a vida. Nela é modelada a fisionomia humana e espiritual que reforça a dignidade de cada um de nós.

Se é verdade que «muitas vezes há um consumo excessivo e míope dos pais que prejudica os próprios filhos, que sentem cada vez mais dificuldade em comprar casa própria e fundar uma família» (LS 162), devemos estar cientes de que não basta afirmar que a família é a «célula basilar da sociedade». De facto, estamos todos chamados a cuidar das várias famílias, para que o ideal da família não se torne uma miragem ou um simples ser de razão.

José Domingos Ferreira, scj