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Depois de «um tempo de confiança irracional no progresso e nas capacidades humanas, uma parte da sociedade está a entrar numa etapa de maior consciencialização. Nota-se uma crescente sensibilidade relativamente ao meio ambiente e ao cuidado da natureza, e cresce uma sincera e sentida preocupação pelo que está a acontecer ao nosso planeta» (LS 19). Os sinais de cansaço do nosso planeta já não podem ser ignorados nem desprezados. Embora alguns continuem a negar a gravidade dos sintomas, é possível reconhecer em muito boa gente um desejo de mudança.

Daqui brota, com toda a naturalidade, o apelo a que «o nosso seja um tempo que se recorde pelo despertar duma nova reverência face à vida, pela firme resolução de alcançar a sustentabilidade, pela intensificação da luta em prol da justiça e da paz e pela jubilosa celebração da vida» (LS 207). O caminho que temos pela frente é longo e talvez ainda estejamos a dar os primeiros passos, mas esta é, sem sombra de dúvidas, uma exortação – e um programa de vida – que se dirige a toda a humanidade e da qual ninguém se pode eximir. De maneira concreta, os consagrados são convidados a assumir e encarnar este desafio nas suas vidas e na vida dos seus institutos.

O apelo a uma «conversão ecológica» reclama que os homens e mulheres especialmente consagrados concedam mais espaço à dimensão ecológica no seu ser e fazer, na sua identidade e missão. A sensibilidade ecológica não pode ser mais uma moda passageira, entre tantas outras que a cada passo vêm e vão. Também não se trata de acrescentar um corpo estranho a uma realidade secular, que não está preparada para acolher essa nova perspectiva. É exactamente o contrário! Esta sensibilidade existiu sempre no coração da Vida Consagrada, embora, com o passar do tempo, se tenha turvado e obnubilado. De modo particular, as tradições franciscana e beneditina dão conta do grande relevo que esta perspectiva teve na história na Vida Consagrada. Reactivar hoje esta dimensão ecológica, portanto, não é mais que regressar às origens mais genuínas desta forma de seguimento de Jesus.

Em bom rigor, a encíclica Laudato si’ só se refere uma vez à Vida Consagrada, quando pede que «nos nossos seminários e casas religiosas de formação, se eduque para uma austeridade responsável, a grata contemplação do mundo, o cuidado da fragilidade dos pobres e do meio ambiente» (LS 214). Estas palavras dizem-nos que toda e qualquer educação ambiental implica «recuperar os distintos níveis de equilíbrio ecológico: o interior consigo mesmo, o solidário com os outros, o natural com todos os seres vivos, o espiritual com Deus» (LS 210). Deste modo, a Vida Consagrada emerge como esse âmbito de vida, no qual estes quatro níveis se podem entretecer de forma única e sólida, pondo de manifesto que consagrar-se a Deus é escolher uma vida plena e totalizante.

José Domingos Ferreira, scj