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A Laudato si’ é uma encíclica que quer, desde o início, promover um intenso diálogo com todos os seres humanos, pois «o urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral» (LS 13). Este não é um aspecto secundário ou uma simples coincidência, mas representa uma das linhas de força mais insistentes ao longo de todo o texto. Aliás, basta dar uma olhadela ao capítulo V para ver como todos os cinco subtítulos incluem a palavra “diálogo”.

Efectivamente, o papa Francisco quer-nos a todos a dialogar uns com os outros, vencendo a tentação de nos barricarmos nas nossas fortalezas e castelos ou simplesmente de nos escondermos nos nossos guetos e redomas. O problema ecológico alcançou proporções de tal ordem que não seremos capazes de o superar sem o contributo activo e positivo de todos os seres humanos. Cada um de nós pode fazer alguma coisa para reparar este mundo ferido…

Esta aposta firme estende-se também ao diálogo ecuménico. De facto, as várias igrejas cristãs têm aprendido, nos últimos anos, que há uma estreita ligação entre o diálogo ecuménico e o cuidado do ambiente. É o reconhecimento desta realidade que leva o patriarca ecuménico Bartolomeu a falar num “ecumenismo do ambiente”. Neste nosso mundo, há cristãos que são perseguidos e mortos por criminosos, que não estão preocupados em saber se são ortodoxos ou católicos ou evangélicos. Da mesma forma, um planeta doente não fará qualquer destrinça entre os cristãos, de modo a poupar uns e castigar outros. As dimensões exorbitantes desta crise ecológica pedem que coloquemos em segundo plano as divisões históricas que nos foram afastando uns dos outros.

O empenho em alcançar um desenvolvimento sustentável e integral constitui uma oportunidade para aproximar os diversos discípulos de Jesus. Por isso, o papa Francisco não hesitou em trazer a reflexão ecológica do patriarca Bartolomeu para dentro do universo católico, ao falar da «necessidade de cada um se arrepender do próprio modo de maltratar o planeta, porque todos, na medida em que causamos pequenos danos ecológicos, somos chamados a reconhecer a nossa contribuição – pequena ou grande – para a desfiguração e destruição do ambiente». Também quanto à afirmação do pecado ecológico, o seu contributo é assinalável, ao afirmar que «quando os seres humanos destroem a biodiversidade na criação de Deus; quando os seres humanos comprometem a integridade da terra e contribuem para a mudança climática, desnudando a terra das suas florestas naturais ou destruindo as suas zonas húmidas; quando os seres humanos contaminam as águas, o solo, o ar… tudo isso é pecado. Porque um crime contra a natureza é um crime contra nós mesmos e um pecado contra Deus» (LS 8).

José Domingos Ferreira, scj