Por esta altura, as ruas das nossas cidades estão densamente polvilhadas com os cartazes das campanhas eleitorais. Ao estilo de uma montra de supermercado, não é difícil encontrar numa rotunda vários cartazes emparelhados com os principais candidatos dos maiores partidos políticos. Cada um deles tenta prometer-nos o céu, ainda que de formas diversas. Estranho que nunca nos tenhamos queixado desta forma de poluição visual, mas a toleremos de modo muito pacífico e resignado…

Com a proximidade das eleições, faz-nos bem reler o capítulo quinto da encíclica Fratelli Tutti, que se intitula precisamente «a política melhor». Digo que nos faz bem, porque precisamos de alguém – e o papa Francisco fá-lo com mestria – que nos ajude a reconhecer a bondade e a importância da boa política, quando estamos mais do que habituados a ver e a rever as mostras do seu exercício irresponsável. Somos muito indulgentes com os nossos políticos e calamo-nos passivamente perante acontecimentos que nos envergonham enquanto nação. Talvez já nos tenhamos acostumado a um certo estado de coisas e pensemos que não é possível percorrer outro caminho. Talvez achemos que é inevitável aguentar o ruído constante, a politiquice mais barata, a manipulação dos dados, a ocultação da realidade e até o brincar com o sofrimento das pessoas…

Nessas páginas, o Papa apresenta a distinção entre amor “elícito” e amor “imperado”. É uma distinção estranha e nada comum. O mais provável é que a maioria das pessoas nunca tenha ouvido falar em coisa semelhante. No entanto, ela ajuda-nos a compreender melhor a especificidade do “amor político” e a perceber a sua riqueza e profundidade.

Enquanto o primeiro «expressa os actos que brotam directamente da virtude da caridade, dirigidos a pessoas e povos», o segundo «traduz os actos de caridade que nos impelem a criar instituições mais sadias, regulamentos mais justos, estruturas mais solidárias» (FT 186). Por exemplo, ajudar um idoso a atravessar um rio é uma forma de amor “elícito”, enquanto construir uma ponte sobre esse rio, de modo a permitir que esse idoso e muitos outros possam atravessar o rio com mais facilidade e segurança, é o amor “imperado” em acção. O amor “elícito” é algo que está facilmente ao nosso alcance, mas o amor “imperado” é mais específico de quem governa e toma decisões.

Em suma, o político tem uma capacidade extraordinária de fazer o bem às pessoas e à sociedade. Pode contribuir para a melhoria das condições de vida de muita gente e a sua acção positiva pode alastrar a lugares remotos. Isto significa que a política não pode ficar refém de pessoas corruptas e sedentas de poder, mas, pelo contrário, deve ser exercida por homens e mulheres que a vivam como vocação e em espírito de serviço, isto é, homens e mulheres que desejem ardentemente o bem comum e estejam dispostos a lutar por ele.

José Domingos Ferreira, scj