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▬ O dia 25 de Julho foi um dia de alegria e felicidade. Alegria porque o padre Miguel celebrou os seus 88 anos e entrou na contagem dos 89. De felicidade, porque do rosto do padre Miguel, dos seus olhos um brilho inigualável irradiava e dos seus lábios um sorriso indisfarçado de satisfação porque mais um ano passava na sua vida.
 

A celebração eucarística de acção de graças, celebrada com simplicidade e com a preocupação de não a alongar muito para não cansar o festejado, foi uma celebração sentida onde o padre Miguel acabou por partilhar os seus sentimentos. Recordou ele: “Faz hoje um ano eu disse que tinha que pedir desculpas a Deus, porque ainda não tinha aprendido a agradecer o rebuçado que todos os anos Lhe pedia, e Ele sempre mo dava. Neste ano, quero dar graças a Deus pelo rebuçado que Ele me concedeu, mas já não tenho coragem de lhe pedir mais um rebuçado. Peço-Lhe que me ajude a viver o tempo de vida que Ele ainda me conceder…”. O rebuçado era para ele o ano vida que sempre pedia em cada aniversário.

O almoço, preparado no átrio do andar da comunidade religiosa, foi ocasião para continuar a festa com a presença do aniversariante, que apesar de doente e na sua cadeira de rodas, animou a todos com a sua conversa sempre recheada das suas tiradas de um requintado e finíssimo sentido de humor, como sempre foi característico no padre Miguel. Soprou energicamente as velas do bolo de aniversário e não resistiu a partir o bolo e a prová-lo.

O dia de Domingo, dia do Senhor, dia Pascal por excelência para a tradição cristã, havia de ser também para o padre Miguel o dia da sua libertação e da verdadeira Páscoa na sua vida. De manhã estava cansado e com pouco ânimo. À pergunta do superior sobre o primeiro dia da contagem para os 89 anos, o padre Gino disse: “Sim, este é o meu primeiro dia dos 89 anos para a glória de Deus”. Praticamente estas haviam de ser as suas últimas palavras. À hora do almoço, enquanto tomava a refeição, desfaleceu e partiu definitivamente para o Pai ‘para a glória de Deus’. Nem os inexcedíveis esforços das equipas do INEM conseguiram impedir esta passagem já tão preparada e não menos desejada pelo nosso confrade padre Miguel Corradini. Às duas horas e cinco minutos do dia 26 de Julho de 2009, foi assinada a Declaração de Óbito de Gino Corradini, natural de Suzzara-Mântua (Itália). “Gino” era o seu nome civil e de Baptismo e “Miguel”, o nome assumido na Profissão Religiosa, a 29 de Setembro de 1939.

Durante os dias em que o seu corpo esteve em câmara ardente na Capela do Instituto Missionário foram inúmeros os que passaram a prestar a sua última homenagem – pessoas das capelas onde habitualmente celebrava, pessoas das suas relações, sacerdotes, religiosas, membros da Ordem dos Romeiros do Senhor da Serra onde ele ia frequentemente pregar, ex-alunos… Muitas foram as pessoas que telefonaram para a Comunidade Religiosa apresentando as condolências…várias foram as mensagens enviadas por e-mail…

Na segunda-feira, a comunidade religiosa celebrou uma muito sentida missa de corpo presente por volta das 12.30.

Na terça-feira, ao fim da tarde, chegaram de Itália as sobrinhas Cristina e Beatrice acompanhadas de D. Giorgio, pároco da terra do padre Miguel. Pelas 18.30 foi celebrada mais uma missa de corpo presente, presidida pelo pároco de Santa Cruz, paróquia a que pertenciam as capelanias onde durante os últimos 23 anos ele exerceu o seu ministério pastoral.

Quarta-feira, 29 de Julho foi o dia da sepultura do padre Miguel, que teve lugar após uma solene eucaristia de exéquias, presidida pelo Bispo de Coimbra, D. Albino Mamede Cleto, concelebrada por cerca de meia centena de sacerdotes da congregação e da diocese, entre os quais se destacava a presença do Superior Geral da Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus, padre José Ornelas de Carvalho, e o nosso Superior Provincial, padre José Zeferino Policarpo Ferreira. Uma numerosa assembleia de cristãos, onde não faltavam religiosas das comunidades onde prestou os seus serviços pastorais, enchia a capela do Instituto Missionário Sagrado Coração, prestando uma última homenagem ao querido falecido.

Foi aos ombros dos escuteiros do CNE e FNA dos agrupamentos de Vialonga, dos quais foi fundador, e do agrupamento de Santa Cruz com quem sempre muito simpatizou, que o padre Miguel foi transportado até à sua última morada no Cemitério da Conchada em Coimbra.
A sua memória permanecerá viva no coração dos seus confrades e de quantos com ele privaram, nos vários lugares por onde passou e nas diversas actividades pastorais que sempre exerceu com amor e zelo, “Para a glória de Deus”, como sempre gostou de dizer. Neste ‘ano sacerdotal’ a partida do padre Miguel, longe de ser uma perda, constitui um estímulo a uma maior vivência cristã para quantos o conheceram e amaram, cristãos em geral, seminaristas, religiosos e sacerdotes.

“Não posso pedir a Deus a saúde, mas posso pedir-Lhe que me substitua”, assim o referiu, certamente com intenção, na última eucaristia que concelebrou na presença da sua comunidade, do Mestre de noviços e dos noviços.

» Constantino Tiago, scj