Já percebemos que este confinamento irá durar mais tempo do que aquele que desejaríamos à partida. Não fazemos a mínima ideia de como será a Páscoa este ano, mas, para a maioria de nós, quanto mais cedo tudo isto acabar melhor. É que já nos sentimos cansados e aborrecidos com todos estes sacrifícios, restrições e alterações abruptas. Além disso, a primavera já está no horizonte, a natureza já se mostra preparada para despontar e com ela chega sempre aquela vontade súbita de sair do estado de hibernação invernal.

Penso que o Covid-19, com os seus confinamentos e quarentenas, constitui uma oportunidade de ouro para redescobrirmos a nossa interioridade. Ao remeter-nos para dentro das nossas casas, o Covid-19 parece convidar-nos a entrar no nosso coração e reaprender a escutar a sua voz, a dar-lhe mais atenção e tempo de antena, a deixá-lo respirar mais à vontade. Nós não somos apenas aparência, aspecto físico, exterioridade. Somos muito mais do que isto… Não temos de viver esta etapa como se de um bloqueio se tratasse, mas podemos viver estes tempos como um momento de incubação de motivações, anseios e expectativas. Podemos viver estes tempos como sementeira de novas árvores para darem outros frutos no futuro.

A verdade é que a nossa vida pré-covid, com a sua velocidade vertiginosa, com a sua ansiedade voraz, com o seu ritmo frenético e sem freio, nos levava, de uma forma quase imperceptível, a silenciar o nosso coração, a não dar atenção aos sinais que ele ia dando, a cultivar mais a aparência que a interioridade. Andávamos a correr de um lado para o outro, não tínhamos tempo para uma conversa tranquila, rezar era um luxo a que não nos podíamos dar, ler a Palavra de Deus um desejo irrealizável e distante. Passávamos o tempo a pensar no que teríamos de fazer a seguir e muitas vezes não conseguíamos retirar um tempo para nós, para nos perguntarmos simplesmente como estamos…

Não sei se alguma vez chegaremos a uma resposta, mas agora que temos tantos holofotes centrados nos nossos lares, agora que nos preocupamos com a situação dos nossos idosos, agora que nos vemos realmente impossibilitados de os visitar, tínhamos tempo para eles, antes do aparecimento do Covid? Ou esses lares eram simplesmente um depósito de gente descartada?

O Covid, de forma intempestiva e dolorosa, veio pôr um travão a tudo isto. Ainda não sabemos se, quando ele se for embora, tudo voltará ao que era dantes ou se aprenderemos a viver de uma maneira mais saudável, mais pausada, mais oxigenada. Trata-se, obviamente, de uma decisão nossa ou, melhor dito, de uma decisão de cada um de nós. O que me parece evidente é que podemos escolher o caminho que doravante queremos seguir…

José Domingos Ferreira, scj