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Males que também podem vir por bem?

Já são muitos os dias que levamos de estado de emergência e de isolamento social. E não sabemos ao certo quando irá terminar.

É um tempo difícil, todos o reconhecemos, porque nos impede de continuar a exercer, como gostaríamos, a nossa missão quotidiana.

Impede, ou faz com que o façamos de maneira diferente, que encontremos formas de nos adaptar às circunstâncias e às contingências. É uma situação que não desejávamos e que não esperávamos. Podemos lamentar todo o tempo esta enorme dificuldade que nos atormenta e desespera, ou podemos tentar descobrir o que a situação traz de positivo…

Não vou teorizar acerca desta pandemia que nos toca a todos. Não é muito o meu estilo alinhar em teorias da conspiração ou na ideia de castigos divinos. É um mal que está aí, que ganhou dimensões inimagináveis, que chegou onde ninguém pensaria que pudesse chegar. É um mal de que estamos a procurar defender-nos e resguardar-nos, que muitos combatem incansavelmente, na linha da frente ou simplesmente tudo fazendo para não contaminar outros, um mal para o qual muitos, em todo o mundo, procuram remédio.

Apesar de todos os constrangimentos e contratempos, é um mal que trouxe algum bem:

  • de repente, apercebemo-nos que precisamos mesmo uns dos outros, que somos importantes para muitos, que precisamos de nos ver, de nos beijar e nos abraçar;
  • demos conta que havia coisas importantes ou até imprescindíveis na nossa vida que, afinal, até nem eram tão importantes e começámos a valorizar pequenas coisas, gestos muito simples, aparentemente sem importância;
  • antes parecia que não tínhamos tempo para nada nem para quase ninguém e agora nem sabemos muito bem o que fazer a tanto tempo;
  • conhecemos vizinhos, começámos a falar com eles e até cantámos com eles à janela ou à varanda;
  • afinal até temos jeito para cozinhar, limpar e arrumar e até nem é assim tão mau estar em casa e passar tanto tempo com a família ou com a comunidade;
  • entramos numa onda de solidariedade e interajuda sem precedentes e concluímos que até podemos ser úteis aos outros…

A lista poderia continuar por aí abaixo, quase até ao infinito.

O meu desejo é que todas estas coisas boas não acabem mal possamos voltar “à normalidade” e voltemos a correr de um lado para o outro. Que Deus, a família, a comunidade, os amigos, os vizinhos, os irmãos mais desprotegidos e necessitados continuem a ter lugar na nossa lista de prioridades e a nossa atenção redobrada.

Não alinho no slogan que mais anda por aí: não vai ficar tudo bem, porque já não está tudo bem, quando há centenas de milhares de mortos e milhões de infetados, quando milhões já perderam o seu emprego e têm dificuldade em garantir o próprio sustento e o da família. Não está tudo bem, nem vai ficar tudo bem… mas podemos fazer a nossa parte para que tudo fique o melhor possível. Se acreditarmos mais uns nos outros, se dermos mais importância ao bem do que ao mal… amanhã será melhor! Mais do que nunca, a nossa solidariedade e a nossa partilha contam! Fazemos parte da solução, todos contamos e somos importantes na reconstrução de um mundo profundamente abalado.

P. José Agostinho Sousa, scj
#dehonianos #scj #estamosemcasa