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Depois de um dia quase normal de trabalho, ontem, ao fim da tarde senti que devia ir à Praça de S. Pedro. Algo me dizia que, à quinta votação, teríamos papa. Fui com o meu confrade Pe. Paulo. Chegámos por volta das 18h20 e, a custo, conseguimos furar por entre a multidão e encontrar um lugar muito bom para observar os acontecimentos. Na minha mente desfilavam os nomes e as imagens de quatro ou cinco cardeais considerados favoritos. “Qual deles seria o Papa?” Mas, ao mesmo tempo, com o Pe. Paulo, interrogava-me: “E se não for nenhum deles?”. Minutos depois das 19h00 de Roma, saía fumo branco da chaminé. A multidão exultou e aplaudiu. Os sinos começaram a repicar e a ansiedade crescia: “Quem será o eleito?”. Passada quase uma hora, acenderam-se as luzes no corredor das “loggie” da basílica. Minutos depois, abria-se a porta da “loggia” principal e surgia o Cardeal Turan: “Anuncio-vos uma grande alegria: temos Papa; o eminentíssimo e reverendíssimo senhor, senhor Jorge Mário, cardeal da santa madre Igreja, Bergoglio”. Os gritos e aplausos da multidão não me deixaram escutar o nome que o novo Papa escolhera. Entretanto comecei a ouvir na praça “Francesco! Francesco!” E surgiu Francisco I, com os seus óculos semiescuros, acenando timidamente à multidão, falando sem grande fluência e com um italiano bastante primário. A primeira impressão foi de algum desencanto. Mas, observando melhor e pensando no que o novo Papa ia dizendo, deixei-me tomar pelo entusiasmo. A sua simplicidade no modo de se apresentar e de falar, o pedido de oração pelo seu predecessor, a referência a Maria e, sobretudo, aquele implorar ao povo que pedisse a Deus que o abençoasse, antes de, ele mesmo, abençoar a todos em nome de Deus, com o impressionante silêncio que se seguiu, acabou por conquistar a mim próprio e a toda a multidão, que rompeu em sentidos e prolongados aplausos. Impressionou-me também positivamente o facto de Francisco I se apresentar como bispo de Roma, insistindo nessa sua qualidade primeira, e referindo a Bento XVI como bispo emérito de Roma. Que pode isto significar? Os próximos tempos o dirão.

O nome escolhido, Francisco, também é claramente significativo, pois se refere ao santo de Assis, aquele a quem Cristo pediu que restaurasse a sua igreja, o homem que contestou a Igreja-poder, mantendo-se nela, pregando a humildade e a simplicidade com a sua própria vida, construindo uma Igreja, sobretudo, comunhão, fraternidade. Francisco é também o amigo da natureza, o homem da paz, o mensageiro do diálogo com o Islão.

Por todas estas razões, e muitas outras, penso que entraram na Cúria Romana “Buenos Aires” que darão os seus frutos. Com a eleição de Francisco I, vivemos na Igreja uma nova esperança. E não podemos deixar de agradecer a Deus que sempre gosta de nos surpreender com as suas iniciativas maravilhosas.

Fernando Fonseca, scj