Bem podeis imaginar a imensa alegria que sinto em poder participar nesta Concelebração Eucarística, em que dois confrades vão ser ordenados diáconos. E para mais, em ambiente celebrativo de acção de graças pela próxima beatificação do Fundador e no contexto do mês de Maria e do Ano Eucarístico.

1. As leituras bíblicas da liturgia hodierna projectam alguma iluminação cristã sobre este momento celebrativo comunitário. S. Paulo, na 2ª leitura, refere-se ao Primado da Graça: «a justiça de Deus vem pela fé em Jesus Cristo…; todos são justificados de maneira gratuita pela sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus». Como sabemos, o Apóstolo dos Gentios, em conflito aberto com a tradição judaica, é o grande pregador da gratuidade da salvação. Não são as obras que salvam. É a fé em Cristo.

Mas uma fé – adverte S. Paulo – que «opera pela caridade». É que – como explica S. Tiago – a fé sem obras está morta (cf. Tg 2, 17). O texto evangélico de hoje vai no mesmo sentido: «Nem todo aquele que Me diz “Senhor, Senhor” entrará no Reino dos Céus, mas só aquele que faz a vontade de Meu Pai…». E a 1ª leitura faz-nos compreender que a fidelidade ao Deus da Aliança passa pelo cumprimento dos Seus mandamentos. O Povo de Deus deve guardar a Lei no coração e pô-la em prática.

2. Como muito bem observava João Paulo II, a respeito do Primado da Graça «há uma tentação que sempre insidia qualquer caminho espiritual e também a acção pastoral: pensar que os resultados dependem da nossa capacidade de agir e programar. É certo – continua o Papa – que Deus nos pede uma real colaboração com a Sua graça, convidando-nos, por conseguinte, a investir, no serviço pela causa do Reino, todos os nossos biblioteca de inteligência e de acção; mas, ai de nós, se esquecermos que “sem Cristo, nada podemos fazer” (cf. Jo 15, 5)… Não será uma fórmula a salvar-nos, mas uma Pessoa e a certeza que Ela nos infunde: Eu estarei convosco…» (Novo Millennio Ineunte, 38 e 29).

De tantas maneiras, mas de uma maneira muito especial na Eucaristia. Aí temos a presença “real” do Ressuscitado no meio dos Seus. Como explicava Paulo VI, «chama-se “real”, não a título exclusivo, como se as outras presenças não fossem “reais”, mas por excelência, porque é substancial e porque por ela se torna presente Cristo completo, Deus e homem» (Mysterium Fidei, 1965). A Eucaristia é Jesus Cristo em pessoa. Não é uma coisa ou objecto sagrado.

Por isso, neste Ano da Eucaristia, João Paulo II interpelava-nos no sentido de reavivar a consciência desta presença misteriosa, invisível, mas real, de Cristo no meio de nós, tanto na celebração da Missa, como no culto eucarístico. Isso vem na continuidade do seu insistente apelo, desde o início do Pontificado, para volvermos e fixarmos permanentemente o olhar no Senhor Jesus.

Diz-nos Ele: «Contemplar o rosto de Cristo e contemplá-Lo com Maria é o “programa” que propus à Igreja, na aurora do terceiro milénio, convidando-a a fazer ao largo no mar da história, lançando-se com entusiasmo na nova evangelização. Contemplar Cristo implica saber reconhecê-Lo, onde quer que Se manifeste, com as suas diversas presenças, mas sobretudo no sacramento vivo do seu corpo e do seu sangue. A Igreja vive de Jesus eucarístico, por Ele é nutrida, por Ele é iluminada…

«Cada esforço de santidade, cada iniciativa para realizar a missão da Igreja, cada aplicação dos planos pastorais deve extrair a força de que necessita do mistério eucarístico e orientar-se para ele, como o seu ponto culminante (Ecclesia de Eucharistia, 2003, 6 e 60).

3. A espiritualidade do Padre Dehon, tal como a viveu e recomendou aos seus religiosos, sublinha precisamente esta centralidade da Eucaristia na vida cristã e na missão da Igreja. Na linha de Santa Margarida Maria, ele vive a espiritualidade do Coração de Jesus, no seu pendor marcadamente eucarístico. Conforme afirma, «a devoção ao Coração de Jesus é sobretudo eucarística. Onde encontraríamos o Coração de Jesus melhor que na Eucaristia» (OSP III, 659)? E continua: «para ficar sempre connosco, Cristo inventou o Sacramento do Amor» (OSP II, 418).

A Eucaristia brota, pois, do amor imenso do Coração de Jesus. É realmente o Seu “Testamento”, o Seu último e veemente desejo, como explicita S. Lucas, no início da narração da instituição da Eucaristia: «Tenho desejado ardentemente comer esta Páscoa convosco, antes de padecer» (22,15). E. S. João: «Ele que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor até ao extremo» (13, 1).

Construir sobre a rocha, como nos recomenda o texto evangélico, consiste em centrar a nossa vida e ministério em Cristo. O mundo está mudando e continuará a mudar. «Cristo é o mesmo, ontem, hoje e sempre» (Heb 13, 8). O mundo não precisa do poder da Igreja, mas de Cristo e do Seu Evangelho.

Percorrendo o caminho do Meu Predecessor – afirma o novo Papa Bento XVI – «também eu me proponho prosseguir, unicamente preocupado em proclamar ao mundo inteiro a presença viva de Cristo… Ao assumir o seu ministério, o novo Papa sabe que a sua missão é fazer resplandecer, diante dos homens e mulheres de hoje, a luz de Cristo: não a sua luz, mas a de Cristo… O meu Pontificado tem início, quando a Igreja está vivendo um ano especial, dedicado à Eucaristia. Como não vislumbrar, nesta coincidência providencial um elemento, que deve caracterizar o ministério que me foi confiado»?

4. Esta feliz coincidência, caros confrades que ireis ser ordenados diáconos, também vos poderá sugerir e lembrar que a fonte da vossa diaconia está na Eucaristia. Sois, com certeza, chamados ao Serviço da Palavra e da Caridade, mas sempre a partir do Serviço do Altar e para conduzir os cristãos ao encontro de Jesus Eucarístico.

Todos nós desejamos ansiosamente a beatificação do nosso Fundador. Não se trata apenas de uma questão de «honra do convento». Constitui um apelo à fidelidade ao carisma das origens, como caminho de santidade e de apostolado, centrado na Eucaristia. É por aí que passa a «refundação» do Instituto, preconizada pelo último Capítulo Geral, para melhor servir a Igreja.

O «enlevo eucarístico», recomendado pelo Papa, deve exprimir-se, seja na Celebração Eucarística quotidiana, continuada na Adoração, como também – e partir daí – numa vida religiosa apostólica, que, conforme exprimimos todas as manhãs no Acto de Oblação, deve assumir «forma eucarística»: ser – na expressã
o do Padre Dehon – uma «Missa Permanente» de entrega e disponibilidade.

Caros candidatos ao diaconado, a ordenação diaconal não é a tomada de posse de um cargo na Igreja. É a unção do Espírito Santo, que vos habilita a seguir o caminho de Cristo, que veio, não para ser servido, mas para servir e dar a vida.

Na «comunhão dos santos» e contando com a presença do Padre Dehon, invoquemos, por intercessão de Maria, a vinda do Espírito Santo, com a abundância dos Seus dons, para que vos faça autênticos servidores do Evangelho da Graça, que tem a sua expressão privilegiada no Sacramento do Amor, donde brota uma existência transformada pelo amor.
Assim seja!

| + António, Bispo de Angra |