Assiste-se no nosso país a uma concorrência inédita e feroz entre as principais cadeias de supermercados. Esta competição sem regras nem discernimento apresenta alguns sinais alarmantes, a que importa estar atento para tomar medidas que ponham algum travão a este estado de coisas. Não nos podemos esquecer que a concorrência é um «dos “mitos” da modernidade baseados na razão instrumental» (LS 210).

Em primeiro lugar, vemos aparecer de forma vertiginosa novos supermercados em qualquer lugar e, quando uma cadeia constrói o seu estabelecimento num sítio, surgem logo outros dois ou três nas imediações. Parece não existir qualquer racionalidade neste processo nem uma autoridade que regule tais movimentos, porque não se consegue descortinar uma lógica que sustente tudo isto. É que nem sequer são edifícios que se distingam pela sua beleza ou sentido arquitectónico…

Em segundo lugar, na televisão, somos inundados com enxurradas de anúncios publicitários, campanhas e promoções, repetidos vez após vez, até à exaustão. Pensemos como ficamos soterrados com a publicidade alusiva ao início da actividade escolar e como o mesmo anúncio pode aparecer duas vezes no mesmo intervalo do telejornal. Parecem seguir à risca o refrão que diz «água mole em pedra dura tanto dá até que fura». É um óptimo exercício à nossa paciência, mas nem todos passam com distinção neste exame…

Esta competição verdadeiramente louca e destravada tem conseguido eliminar aqueles pequenos estabelecimentos de bairro, onde as pessoas se conhecem pelo nome e onde o merceeiro conhece o gosto pessoal dos seus fregueses. Estes pequenos comerciantes, efectivamente, não têm como se defender perante uma agressividade como aquela que é praticada pelas grandes cadeias e não lhes resta outro caminho que não seja o tentar aguentar-se até ao dia em que encerrarão definitivamente. Neste sentido, estamos a preferir esses estabelecimentos onde não somos conhecidos nem reconhecidos, apenas porque nos deixamos seduzir por umas quantas promoções encantatórias.

Falamos de crise ecológica e de alterações climáticas, mas a nossa sede consumista não conhece nem limite nem freio e o exemplo está na proliferação sem controlo destes espaços comerciais, com os seus horários alargados, sete dias por semana. Quando não se tem nada para fazer, é sempre possível dar uma saltada ao supermercado, mesmo se isso implica trazer aquilo que não nos faz falta. Esquecemo-nos que “quanto mais se compra, mais propensão há para o desperdício”.

Após anos a encerrar escolas, hospitais e outros serviços sociais, os supermercados não têm qualquer problema em aparecer em qualquer canto do nosso país, preferindo obviamente o litoral ao interior. Convertem-se assim nos verdadeiros pontos de interesse do lugar onde se encontram.

José Domingos Ferreira, scj