O Natal e a Epifania, com o Batismo do Senhor, formam um colorido tríptico que nos revela a identidade de Jesus Cristo e a sua missão. O Natal mostra-nos Jesus verdadeiro homem; a Epifania manifesta-O Luz das nações; o Batismo revela-O Filho muito amado de Deus, sobre quem repousa o Espírito, enviado para realizar a missão de recriar o mundo e os homens.
Mateus faz uma descrição grandiosa e solene do Batismo do Senhor: o Céu aberto, o Espírito a pairar sobre as águas do Jordão, a voz de Deus a proclamar “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência”.
Jesus apresenta-se a João como o último dos pecadores, para receber o batismo. O Profeta, mais uma vez, fica confuso. Esperava o enviado de Deus como alguém poderoso, preparado para julgar o povo e batizá-lo “no Espírito Santo e no fogo” (cf. Mt 3,11). Mas Jesus apresenta-Se simples e modesto, a pedir o batismo de conversão. E tranquiliza João ao dizer-lhe: “Deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça”. O Senhor entra nas águas do Jordão, e o Profeta batiza-O. Quando emerge, abrem-se os céus, e desce sobre Ele o Espírito em forma de pomba, enquanto o Pai proclama solenemente: “Este é o meu Filho muito amado, em quem pus toda a minha complacência”. Fica completa a revelação de Jesus: é verdadeiro homem, Luz das Nações, Filho muito amado do Pai, Messias, Salvador.
Jesus de Nazaré é o Filho/”Servo” dotado do Espírito e enviado pelo Pai para trazer a justiça às nações e realizar a nova criação do mundo e dos homens (cf. Is 42, 1-7). S. Máximo de Turim, ao comentar o batismo do Senhor, escreve: “Quando o Salvador desce à água, toda ela fica limpa para o nosso Batismo, e é purificada a fonte, para que os povos futuros possam receber a graça batismal. Antecipa-se, pois, Cristo a receber o Batismo, a fim de que os povos confiadamente Lhe sigam o exemplo e se façam cristãos.”
Fazer-se cristão é tornar-se discípulo do Filho muito amado de Deus, e participar dessa filiação. Somos filhos no Filho. Por isso, as palavras escutadas no batismo de Jesus, ecoaram no meu batismo e no de todos os que foram batizados antes de mim. Continuam a ecoar, e hão de ecoar sempre, no batismo de todos quantos renascem ou virão a renascer “da água e do Espírito” (Jo 3, 5).
No batismo, somos regenerados, tornamo-nos nova criação. Se, pela primeira criação tínhamos em nós, como “marca de origem”, um reflexo do Criador, cujo espírito se movia sobre a superfície das águas iniciais (cf. Gn 1, 2), depois da nova criação, em Cristo, tornando-nos filhos de Deus, circulam em nós cromossomas divinos. Circula em nós a vida de Deus.
É a maravilhosa obra divina iniciada na Encarnação do Verbo. Nós, os cristãos do Ocidente, ao contemplarmos o mistério, costumamos deter-nos na humilhação de Deus que, por nosso amor, se faz homem semelhante a nós. Os nossos irmãos do Oriente preferem contemplar a elevação do homem que, graças à Encarnação do Verbo, à sua ação entre nós, à sua morte e ressurreição, se torna filho de Deus, participante da natureza divina. Se, ao encarnar, o Filho de Deus Se esvaziou a si mesmo, para ser identificado como homem (cf. Fl 2, 7), fê-lo para que o homem pudesse identificar-se com Deus. A grandeza e a dignidade do ser humano, por miserável que seja, tem o seu fundamento na criação; a grandeza e a dignidade do batizado, ainda que pecador, tem o seu fundamento na regeneração batismal. O homem, todo o homem, criado por Deus à sua imagem e semelhança, merece sempre respeito e em todas as circunstâncias. O batizado, todo o batizado, santo ou pecador, permanece sempre “filho muito amado” de Deus, e tem direito ao nosso respeito e ao nosso amor. Lembremos a parábola do filho pródigo (cf. Lc 15, 11-32).
“Em ti pus toda a minha complacência”. Como em Cristo, seu Filho único, Deus compraz-se em nós, porque não nascemos da carne nem da vontade do homem, mas d’Ele (Jo 1,13). Nascemos de Deus e vivemos de Deus, como toda a criança vive da vida recebida do seu pai. Fomos imersos na Fonte da vida, para nos tornarmos um, como a água e a Fonte. Habitamos Deus, como Deus quis habitar-nos (Jo 1, 14): “É preciso que sejamos filhos de Deus e vivamos da vida dos filhos de Deus” (P. Dehon).
Pe. Fernando Fonseca, SCJ.
Todos os batizados são filhos muito amados de Deus, em quem Ele se compraz. Na criação do mundo novo e da nova Humanidade, Deus vivencia, e certamente de modo mais intenso, o que experimentou no princípio, quando terminou a primeira criação do mundo e do homem: “contemplou toda a sua criação, e viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31).