João: profecia em carne e osso

És Tu Aquele que há de vir ou devemos esperar outro? O profeta das boas notícias está em crise: tem dúvidas e pede ajuda. Os santos estão sujeitos a estes momentos. A própria Virgem de Nazaré, perturbada com a saudação do anjo, interroga-se e recebe explicações.  José, perplexo e angustiado com a gravidez de Maria, pensando repudiá-la, também recebe, em sonho, explicações reconfortantes do Anjo.

A nossa fé anda à mistura com dúvidas e interrogações. Deus conhece as nossas limitações e não deixa de ser misericordioso connosco. Jesus diz ao pai que pede a cura do filho epilético: tudo é possível a quem crê. O homem, reconhece a debilidade da sua fé e balbucia: Eu creio! Ajuda a minha pouca fé. Jesus compreende-o e cura-lhe o filho (cf. Mc 9, 23). A fé não consiste em aceitar ideias ou teorias sobre Deus. É adesão cordial ao Senhor. Cresce na medida em que experimentamos o seu amor, a sua compaixão, a sua misericórdia.

Jesus não responde diretamente à questão apresentada pelos enviados de João. Não lhes oferece definições, teorias. Não responde “sim” ou “não”. Narra factos que hão de servir de sinal ao Batista. Conta histórias de pessoas que, à sua palavra, tocados por Ele, recuperaram a vista, foram curados da lepra, recomeçaram a andar, voltaram a ouvir. Refere episódios de mortos que voltaram à vida. Fala do anúncio do Evangelho aos pobres.

Estes factos, narrados por Jesus, falam de comunicação de vida. São sinais claros da sua identidade. Isaías anunciara o “Ungido” de Deus a curar-nos das nossas enfermidades, a libertar-nos das nossas opressões e prisões, a anunciar a Boa Nova aos pobres, a dar-nos vida, e vida com qualidade. Ele mesmo afirma que veio ao mundo para que tenhamos vida e a tenhamos em abundância (cf. Jo 10, 10). O pecado tem consequências. Mas Deus não nos quer a vegetar como os cardos do deserto, ou vergados como os juncos dos pântanos. A glória de Deus é o homem vivo (Ireneu de Lião). Por isso, o Senhor não desiste de nós, de nos recuperar. Não abdica do seu projeto de salvação. Os milagres realizados por Jesus e a Boa Nova anunciada aos pobres provam-no.

A Encarnação do Verbo marca, efetivamente, o começo de uma nova criação e de uma nova humanidade, do Reino de Deus. E a ação regeneradora de Deus começa onde a vida está mais ameaçada ou até perdida. Começa pelos últimos da sociedade: os pobres, os doentes, os oprimidos, os violentados, os que perderam a vida… Jesus cura-nos e liberta-nos para restaurar em nós a vida, a humanidade plena, a dignidade, a condição de pessoas livres e íntegras. Para nos tornar filhos de Deus.

Que fostes ver ao deserto? Depois de responder aos enviados de João, Jesus interroga-os. Convida-os a contarem as suas próprias histórias, as suas experiências com o Batista: que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? Um homem vestido com roupas delicadas? Um profeta?

Não sabemos o que responderam esses homens. Não conhecemos as histórias que contaram sobre o Profeta e a sua ação neles. Mas Jesus conclui apresentando João como o maior dos Profetas, o Precursor do Messias. Aquele homem austero, curtido pela Palavra, não é só o maior dos Profetas: é Profecia em carne e osso. “Ensinava eloquentemente com os seus exemplos”, escreve o Padre Dehon.  Noutro passo do Evangelho, João Batista afirma que Jesus veio batizar-nos no Espírito Santo e no fogo. Purificados do pecado, habitados pelo Espírito, marcados pela Palavra, somos chamados a ser no mundo, hoje, profetas coerentes e sólidos como João. Profecia em carne e osso.

 

Pe. Fernando Fonseca, SCJ