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A alegria joga um papel activo na consolidação duma ecologia verdadeiramente integral. O exemplo de São Francisco de Assis não é obra do acaso ou pura coincidência, mas revela como uma ecologia integral pode ser «vivida com alegria e autenticidade» (LS 10). De facto, uma maior sobriedade e moderação pode caminhar de mãos dadas com uma vida jubilosa e contente. Não será por vivermos com menos coisas que seremos necessariamente mais tristes e infelizes.

A ecologia integral reclama uma qualidade superior de alegria, que ponha em evidência que se trata de um dom do Espírito Santo e que, portanto, brota do coração humano e não é produzida tecnologicamente a partir de fora. Esta nova perspectiva quer salientar que a alegria não é um adorno supérfluo, mas seja exigência e fundamento da vida humana.

Com S. Francisco de Assis, podemos aprender que «o mundo é algo mais do que um problema a resolver; é um mistério gozoso que contemplamos na alegria e no louvor» (LS 12). O cuidado da criação tem, por isso, de ser gerador de alegria, expressa e exteriorizada em canto, em poesia, em música, em adoração e em festa.

A dura realidade é que o nosso estilo de vida tem muita dificuldade para viver a alegria e este parece ser um problema transversal a toda a sociedade. Neste sentido, é curioso notar a insistência do papa Francisco no tema, simplesmente a partir dos títulos de alguns dos seus textos: Evangelii Gaudium, Gaudete et Exsultate, Amoris Laetitia

Está-se a tornar cada vez mais difícil «tomar contacto directo com a alegria do outro» e parece estar a crescer «uma profunda e melancólica insatisfação nas relações interpessoais ou um nocivo isolamento» (LS 47). Deste modo, apostar por uma ecologia integral vivida com alegria e autenticidade é defender «um modelo não consumista de vida, alegria e convivência» (LS 112), pois a alegria que nos é pedida não é essa satisfação de quem acaba de comprar o último grito da moda ou o gadget mais avançado do mercado.

Eis-nos então perante a possibilidade de escolher «um estilo de vida profético e contemplativo, capaz de gerar profunda alegria sem estar obcecado pelo consumo» (LS 222). Não devemos perder de vista que, como refere o Papa, «as pessoas que saboreiam mais e vivem melhor cada momento são aquelas que deixam de debicar aqui e ali, sempre à procura do que não têm, e experimentam o que significa dar apreço a cada pessoa e a cada coisa, aprendem a familiarizar-se com as coisas mais simples e sabem alegrar-se com elas» (LS 223).

A ecologia integral não se imporá num ápice, mas é importante que em cada dia «caminhemos cantando», de modo que «as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança» (LS 244). Deste modo alcançaremos «a terra da alegria».

 

José Domingos Ferreira, scj