Liturgia

Eventos Janeiro 2026

  • Sábado do Tempo do Natal

    Sábado do Tempo do Natal

    3 de Janeiro, 2026

    Lectio

    Primeira leitura: 1 João 3, 7-10

    7Filhinhos meus, que ninguém vos engane. Quem pratica a justiça é justo, sendo como Ele, que é justo. 8*Quem comete o pecado é do diabo, porque o diabo peca desde a origem. Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo. 9*Todo aquele que nasceu de Deus não comete pecado, porque um germe divino permanece nele; e não pode pecar, porque nasceu de Deus. 10*Nisto é que se distinguem os filhos de Deus e os filhos do diabo: todo aquele que não pratica a justiça não é de Deus, nem aquele que não ama o seu irmão.

    O que distingue um cristão é a conduta recta e justa, afirma João contra os gnósticos (cf. V. 7). Praticar a justiça é aceitar a vontade de Deus. Pelo contrário, «quem comete o pecado é do diabo» (v. 8). Quem peca está contra o mundo de Deus, não pode ser filho de Deus. É filho do diabo. Cristo venceu o mal e instaurou os tempos da salvação. Os seus discípulos são chamados a lutar contra o pecado e a praticar a justiça. João distingue duas formas de ser filho: a filiação divina e a filiação humana. Quem se abre à acção do Espírito, torna-se filho de Deus; quem se fecha ao Espírito e rejeita a Deus entrega-se ao diabo: «Todo aquele que nasceu de Deus não comete pecado, porque um germe divino permanece nele» (v. 9); «Quem comete o pecado é do diabo» (v. 8).

    O filho de Deus deixa crescer nele e dar frutos a semente da Palavra. Por isso não pode pecar. Deu espaço a Deus e permanece em Cristo que actua na sua vida. Há pois que permanecer abertos ao Espírito e em atitude de permanente conversão.

    Evangelho: João 1, 35-42

    35*No dia seguinte, João encontrava-se de novo ali com dois dos seus discípulos. 36*Então, pondo o olhar em Jesus, que passava, disse: «Eis o Cordeiro de Deus!» 37Ouvindo- o falar desta maneira, os dois discípulos seguiram Jesus. 38Jesus voltou-se e, notando que eles o seguiam, perguntou-lhes: «Que pretendeis?» Eles disseram-lhe: «Rabi .que quer dizer Mestre. onde moras?» 39Ele respondeu-lhes: «Vinde e vereis.» Foram, pois, e viram onde morava e ficaram com Ele nesse dia. Era ao cair da tarde.

    40*André, o irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram João e seguiram Jesus. 41*Encontrou primeiro o seu irmão Simão, e disse-lhe: «Encontrámos o Messias!» .que quer dizer Cristo. 42*E levou-o até Jesus. Fixando nele o olhar, Jesus disse-lhe: «Tu és Simão, o filho de João. Hás-de chamar-te Cefas» .que significa Pedra.

    Mais uma vez, João Baptista dá testemunho de Jesus e leva alguns dos seus discípulos a seguirem Jesus. O texto apresenta-nos, por um lado, o facto histórico do chamamento dos primeiros discípulos descrito como descoberta do mistério de Cristo e, por outro lado, a mensagem teológica sobre a fé e o seguimento de Jesus. O caminho para alguém se tornar discípulo tem alguns traços característicos: tudo começa com o testemunho e o anúncio de uma testemunha qualificada, João Baptista, neste caso: «Eis o Cordeiro de Deus!»; segue-se o caminho do discipulado: «seguiram Jesus»; encontro pessoal e de comunhão com o Mestre: «Foram... viram onde morava... ficaram com Ele». O encontro compreende um colóquio em que Jesus fala da sua identidade e convida a uma experiência de vida com Ele. Esta experiência termina com uma profissão de fé: «Encontrámos o Messias!», que depois se torna apostolado e missão. De facto, André, um dos que fez a experiência, levou o irmão a Jesus, que lhe muda o nome de Simão para Pedro, isto é, Cefas para indicar a missão que haverá de realizar na Igreja.

    Meditatio

    Gostaríamos de saber muito mais sobre este primeiro encontro dos discípulos com Jesus. Mas o evangelista limita-se a referir o essencial.

    João Baptista indica o Cordeiro de Deus e... cala-se. Não retém os discípulos. Entrega- os a Jesus. Eles ficam encantados com a pessoa de Jesus, com a sua grande humanidade, que lhes enche as medidas.

    O caminho para chegarmos ao conhecimento de Jesus é observar o comportamento das pessoas que se encontraram com Ele. Penetrar no mistério de Jesus é observar o mundo que O rodeia e dar-nos conta do modo como Ele se relaciona com as pessoas.

    O chamamento dos discípulos ao seguimento do Mestre é um evento que se repete na Igreja. Jesus chama-nos pessoalmente ao discipulado. E também nos pode chamar a uma particular experiência de vida e de missão com Ele, tal como chamou os apóstolos. Esse chamamento faz-se ouvir na vida de cada um de nós. É importante que saibamos ler os acontecimentos da nossa vida e, penetrando no Coração de Jesus, saibamos indicá-Lo também aos outros.

    Na vida de cada um de nós há um dia, um encontro com Ele, que marca uma mudança radical de vida: o chamamento pessoal e imprevisível de Deus em vista da missão. Muitas vezes, serve-Se de outros para nos chamar: podem ser os pais, um sacerdote, um livro, um retiro espiritual, mas é sempre Ele que chama ao seguimento para a construção de um mundo novo. O importante é que estejamos atentos para que não passe em vão.

    Quando Jesus se apresentou a João, junto ao rio Jordão, a missão do Baptista estava a acabar: o amigo do esposo deve saber retirar-se quando chega o esposo. Um ensinamento importante para quem se dedica ao apostolado, à orientação espiritual dos irmãos...

    A nossa vocação dehoniana exige muita generosidade para ser vivida. Somos chamados a oferecer-nos com Cristo sacerdote e vítima pela salvação do mundo, dos pecadores (Cf. Heb 13, 12-15). Não se trata de um chamamento para seres excepcionais e extraordinários; é um chamamento a viver Cristo em profundidade, generosamente, com simplicidade, modéstia e humildade, no escondimento, sem erguer bandeiras e sem vitimismos, mas com confiança, não nas nossas forças, mas na "consolação", que também é força do Espírito Santo (cf. 2 Cor 1, 3ss; Act 9, 13). Para nós, Oblatos-SCJ é "um dom particular" (Cst. 13), "uma graça especial" (Cst. 26) de testemunho, para recordar a todos os nossos irmãos cristãos (leigos, sacerdotes, religiosos), com a nossa vida, com escritos e com a palavra, a sua vocação baptismal, participação no sacerdócio de Cristo.

    A "vida de união à oblação de Cristo como o único necessário" (Cst. 26) ou, como se dizia no tempo do Pe. Dehon, a vida de vítima, é, em si mesma, a vocação do cristão consciente e coerente no seguimento de Cristo (cf. Lc 9, 23-24).

    Oratio

    Senhor Jesus, ensina-me a ser teu discípulo, a procurar onde moras a permanecer aí Contigo. Os teus apóstolos mostram-me quão importante é estar Contigo, permanecer em Ti. Tu mesmo ensinas ao rezar: «Tu em Mim e Eu neles...» (cf. Jo 17). Essa é a tua habitação! Mas para habitar Contigo é preciso seguir-Te. Seguir-Te é já habitar Contigo, é o caminho para a habitação definitiva. Habitar Contigo na pobreza e na humildade, habitar Contigo na justiça, habitar Contigo na misericórdia... Senhor Jesus, quero habitar Contigo, permanecer em Ti, não só na oração, mas também em todas as outras actividades do meu dia. Quero permanecer em Ti onde quer que te encontres: na alegria ou no sofrimento, no trabalho ou na inactividade. Quero permanecer em ti em cada momento, porque em Ti encontro o amor, a alegria e a paz. Amen.

    Contemplatio

    S. João, filho de Salomé, era parente de Jesus. Pensa-se que foi educado em Cana, não longe de Nazaré e que viu alguma vez Jesus durante a sua infância e a sua juventude.
    É o primeiro a juntar-se a Jesus na sua vida pública. Mal escutou a voz profética de S. João Baptista, «Ecce Agnus Dei», seguiu Jesus com Santo André, escuta-o longamente, passa o dia junto dele.
    Pouco depois, é chamado ao apostolado. Deixa tudo generosamente: o seu pai, os seus barcos de pesca, os criados. Nada custa àquele que ama.
    Mas Jesus ama-o por sua vez. Toma-o com os seus íntimos no milagre da filha de Jairo, na transfiguração, na agonia.
    É sobretudo no Cenáculo que é preciso considerar este amor recíproco do Mestre e do discípulo. João repousa sobre o Coração de Jesus! (Leão Dehon, OSP 3, p. 403).

    Actio
    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Mestre, onde moras?» (Jo 1, 28)

  • Tempo do Natal – Segunda-feira depois da Epifania

    Tempo do Natal – Segunda-feira depois da Epifania

    5 de Janeiro, 2026

    Tempo do Natal – Segunda-feira depois da Epifania

    Lectio

    Primeira leitura: 1 João 3, 22-4, 6

    Caríssimos, temos plena confiança diante de Deus, 22*e recebemos dele tudo

    o que pedirmos, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos o que lhe é agradável. 23*E este é o seu mandamento: que acreditemos no Nome de seu Filho, Jesus Cristo, e que nos amemos uns aos outros, conforme o mandamento que Ele nos deu. 24*Aquele que guarda os seus mandamentos permanece em Deus e Deus nele; e é por isto que reconhecemos que Ele permanece em nós: graças ao Espírito que nos deu.

    1*Caríssimos, não deis fé a qualquer espírito, mas examinai se os espíritos são de Deus, pois muitos falsos profetas apareceram no mundo. 2Reconheceis que o espírito é de Deus por isto: todo o espírito que confessa Jesus Cristo como vindo em carne mortal é de Deus; 3*e todo o espírito que não faz esta confissão de fé acerca de Jesus não é de Deus. Esse é o espírito do Anticristo, do qual ouvistes dizer que tem de vir; pois bem, ele já está no mundo. 4*Meus filhinhos, vós sois de Deus, e venceste-los, porque é mais poderoso o espírito que está em vós do que aquele que está no mundo. 5*Eles são do mundo; por isso falam a linguagem do mundo, e o mundo ouve-os. 6*Nós somos de Deus. Quem conhece a Deus ouve-nos; quem não é de Deus não nos ouve. É por isto que nós reconhecemos o espírito da verdade e o espírito do erro.

    Para conhecermos a vontade de Deus, precisamos de praticar o discernimento. João oferece-nos neste texto alguns critérios para reconhecermos o espírito de Deus e

    o espírito do mundo: a fé em Cristo («que acreditemos no Nome de seu Filho, Jesus Cristo»); o amor fraterno («que nos amemos uns aos outros»); a fidelidade aos mandamentos de Deus (cf. v. 24). O Apóstolo também sugere algumas atitudes fundamentais para alcançar esse objectivo: a oração, como compromisso pessoal em realizar o que Ele manda (v. 22); a profissão de fé autêntica em Cristo Jesus; a caridade activa em favor dos irmãos. O primeiro critério para distinguir os verdadeiros dos falsos profetas é a confissão de fé em Cristo Senhor «vindo na carne» (v. 2). Quem exclui Jesus da sua vida tem o espírito do anticristo (cf. 2, 18). Os falsos profetas, que querem apresentar um cristianismo diferente, vêm do mundo e, por isso, são escutados por ele. Os crentes, pelo contrário, são de Deus e Deus está neles. A sua vitória é certa porque é dom da fé recebida de Cristo (Jo 16, 33), que é mais poderosa que o anticristo (v. 4; Jo 12,31). O segundo critério é eclesial: quem se mostra dócil à Igreja, vem de Deus

    (v. 6). A fé do cristão é adesão à doutrina proposta pelos guias da comunidade eclesial, onde se encontra o Espírito de Deus, que é preciso escutar e testemunhar.

    Evangelho: Mateus 4, 12-17.23-25

    12*Naquele tempo Jesus ouviu dizer que João fora preso, retirou-se para a Galileia. 13Depois, abandonando Nazaré, foi habitar em Cafarnaúm, cidade situada à beira-mar, na região de Zabulão e Neftali, 14para que se cumprisse o que o profeta Isaías anunciara: 15*Terra de Zabulão e Neftali ,caminho do mar, região de além do Jordão, Galileia dos gentios.16O povo que jazia nas trevasviu uma grande luz; e aos que jaziam na sombria região da morte surgiu uma luz.17*A partir desse momento, Jesus começou a pregar, dizendo: «Convertei-vos, porque está próximo o Reino do Céu.»

    23*Depois, começou a percorrer toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do Reino e curando entre o povo todas as doenças e enfermidades. 24A sua fama estendeu-se por toda a Síria e trouxeram-lhe todos os que sofriam de qualquer mal, os que padeciam doenças e tormentos, os possessos, os epilépticos e os paralíticos; e Ele curou-os. 25*E seguiram-no grandes multidões, vindas da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e de além do Jordão.

    Depois da prisão de João Baptista por Herodes, Jesus deixa Nazaré e fixa residência em Cafarnaúm, na Galileia dos gentios, que outrora fora ocupada pelosassírios (733 a. C). É aí que começa a brilhar o Evangelho de Jesus e o exemplo da sua vida (v. 16; cf. Is 8, 23-9, 1-2). Segundo S. Mateus, Jesus começa a pregação do Reino de Deus na Galileia dos gentios porque tem em mente a missão universal da salvação. A palavra que dirige aos judeus e aos pagãos é a mesma: «Convertei-vos, porque está próximo o Reino do Céu» (v. 17).

    Depois, Jesus percorre as sinagogas, prega «o Evangelho do Reino» e realiza milagres «curando entre o povo todas as doenças e enfermidades» (v. 23). A sua pregação suscita grande entusiasmo, a sua fama espalha-se até à Síria e causa grande impressão em toda a região. Muitos acorriam ao seu encontro. Nas suas viagens missionárias, era acompanhado por muitos miraculados (curados de várias doenças, libertos dos demónios, etc.). Jesus é o verdadeiro Servo de Deus que carrega sobre si as enfermidades de toda a humanidade (cf. Is 53, 4). A sua pregação é exortação e súplica para que todos acolham na sua vida o dom divino da reconciliação e da salvação, que o Pai celeste oferece gratuitamente e generosamente a to
    dos.

    Meditatio

    O tema de Cristo luz do mundo é o aspecto teológico mais arcaico e mais presente na liturgia de Natal, especialmente na celebração da meia-noite. A liturgia actual recorda Isaías: "Um povo que caminhava nas trevas viu uma grande luz…" (9,2) e Lucas "a glória do Senhor envolveu-os de luz"(2,9). “Uma nova luz brilhou aos nossos olhos”, canta o Prefácio I.

    O evangelho de hoje retoma o tema da luz. Lucas narra que Jesus, logo ao chegar à Galileia dos gentios, «começou a pregar», revelando-se verdadeiramente divino e humano: divino, porque fala em nome de Deus, anunciando o Reino de Deus; humano, porque se mostra cheio de compaixão para com todos os necessitados. Este aspecto divino e humano é fundamental na revelação de Jesus. João mantém-se fiel a essa revelação, como verificamos na primeira leitura. O Apóstolo não nos oferece pensamentos altíssimos para reconhecermos o espírito de Deus. Dá-nos um critério simples e concreto: «todo o espírito que confessa Jesus Cristo como vindo em carne

    mortal é de Deus». Temos, assim, um sinal decisivo para avaliar as nossas inspirações. Se a nossa espiritualidade nos levar para fora da nossa condição quotidiana, para o mundo do sonho e da evasão, não estamos a ser fiéis a Cristo. Pelo contrário, se encontramos Jesus «na carne», isto é, na nossa vida quotidiana, no lugar concreto onde vivemos trabalhamos, nas nossas responsabilidades de cada dia, somos verdadeiros discípulos, estamos em comunhão com Ele.

    A comunhão com Cristo, ou a união com Ele, é fundamental na nossa vida decristãos. É o centro da nossa fé. É condição essencial para nos salvarmos. Ele é, de verdade, «a chave, o centro, o fim do homem, e de toda a história humana» (GS 10). Estar em comunhão, estar unido a Cristo é acreditar n´Ele, fiar-se n´Ele, deixar-se transformar por Ele, aceitá-lo como modelo de comportamento: «Dei-vos o exemplo para que façais como Eu fiz» (Jo 13, 15). Esta fé-comunhão com Jesus torna-se uma força dinâmica e criadora, tendente ao testemunho e acção, para que Cristo e a sua mensagem são conhecidos e aceites pelos homens. Os encontros com Jesus encerram e manifestam uma força transformante extraordinária, porque desencadeiam um verdadeiro processo de conversão, de comunhão e de solidariedade humana.

    O encontro com Cristo, especialmente na Palavra e na Eucaristia, realiza a nossa união com Ele, a comunhão com Ele, que nos dão confiança e ardor, lançando- nos “pelos caminhos do mundo ao serviço do Evangelho” (Cst. 82), para levarmos a sua luz a todos os que ainda jazem nas trevas e sombras da morte, e nos tornarmos bons samaritanos da humanidade.

    Oratio

    Senhor Jesus, ao nasceres em Belém, não só renovaste o género humano, mas também o esplendor do próprio sol, trazendo esperança e vida a todos aqueles que jazem nas trevas do erro. Tu és o fim da história humana porque, por meio de Ti, a salvação é dada a todos os homens. Nós Te agradecemos pela tua palavra, a Boa Nova do amor do Pai, com que vieste salvar-nos e pelo exemplo de vida concreto que nos deste, quando viveste no meio de nós.

    Que o testemunho da nossa vida cristã se torne irradiação de amor para com os irmãos que ainda não Te conhecem ou vivem no erro. Nós Te agradecemos porque a tua Palavra, proclamada há tantos séculos, ainda hoje continua viva e penetrante, capaz de renovar os nossos corações, e a nossa relação contigo e com os nossos irmãos.

    Aumenta a nossa fé na tua Palavra para que possamos tomá-la a sério, fazendo dela critério de discernimento dos factos e dos problemas da vida que tanto nos afligem. Que, iluminados pela tua Palavra, possamos tornar-nos luz para todos quantos Te buscam de coração sincero, e conforto para com todos os que sofrem. Amen.

    Contemplatio

    O Sagrado Coração quis uma vez exprimir toda a intensidade e toda a universalidade da sua misericórdia. Tinha diante de si os seus discípulos, mas a sua palavra dirigia-se para mais longe. Expunha a sua doutrina, falava da sua Igreja e dizia: «Vós todos que sofreis, vós todos que estais em aflição, vinde e Eu vos curarei, vinde e Eu vos aliviarei: Venite et ego reficiam vos». Vós todos, em todos os tempos, vinde, que Eu tenho sede de vos aliviar. Vinde sem medo,

    Eu sou omnipotente, o meu Pai deu-me todo o seu poder: omnia mihi tradita sunt a Patre meo. Vinde todos, tenho sede de fazer misericórdia.

    «Se tivesse ficado no céu, não poderíeis vir a mim. Pensaríeis que eu estou demasiado distante, demasiado poderoso, que a minha glória vos assusta e que a minha grandeza vos intimida. Mas Eu fiz-me pequeno como vós. O Verbo fez-se carne. Veio na Judeia e permanece no Tabernáculo. Está muito perto de vós, vinde, só tendes de dar um passo.

    «Vede, desde a Visitação Eu próprio vou levar as minhas graças a Zacarias, a Isabel, a João Baptista. Faço o mesmo visitando-vos na Eucaristia. Vinde a mim.

    «Não ousareis apresentar-vos diante de meu Pai? Vinde, vou ao Templo apresentar-vos comigo nos braços de Maria.

    «Estais doente, pobre, entristecido e necessitado, vinde, vinde todos. Traziam-me todos os doentes e Eu curava-os a todos, por pouca confiança que tivessem. Vinde todos e vinde com confiança». (Leão Dehon, OSP 2, p. 278).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra: «Convertei-vos, porque está próximo o Reino do Céu» (Mt 4, 17).

  • Tempo do Natal – Terça-feira depois da Epifania

    Tempo do Natal – Terça-feira depois da Epifania

    6 de Janeiro, 2026

    Tempo do Natal – Terça-feira depois da Epifania

    Lectio

    Primeira leitura: 1 João 4, 7-10

    7*Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus. 8*Aquele que não ama não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor. 9*E o amor de Deus manifestou-se desta forma no meio de nós: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que, por Ele, tenhamos a vida. 10*É nisto que está o amor: não em termos sido nós a amar a Deus, mas em ser Ele mesmo que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados.

    João, que já falou sobre o amor, volta agora a falar dele numa perspectiva mais positiva (cf. 3, 11.15.22). O amor é necessário porque «o amor vem de Deus» (v. 7) e porque «Deus é amor» (v. 8). Porque a identidade de Deus é o amor, Deus ama, perdoa, dá-se em nós. Todo o autêntico amor humano encontra fundamento no amor de Deus. Quem ama é gerado por Deus e conhece-O (cf. v. 7).

    Se o amor é a essência de Deus, só temos um caminho para chegar a Deus: amar. Mas não se trata de amar como pensavam os gnósticos ou os inimigos da comunidade joânica, que julgavam amar a Deus porque sentiam a necessidade de O conhecer. A natureza do amor, para João, consiste no facto de que Deus nos amou «por primeiro», por sua iniciativa gratuita. Este amor manifestou-se na Incarnação do Filho, sem a qual continuaríamos pobres e incapazes de conhecer o amor verdadeiro e de termos a vida (vv. 9-10; Rm 3, 25; 5, 8; 2 Cor 5, 21). O amor que Jesus mostrou por nós foi um amor concreto, desinteressado, dedicado e libertador. Chegou ao dom da própria vida. O nosso amor por Deus é sempre resposta a essa iniciativa do Pai. E, só conhece o Pai, aquele que percorre o caminho que leva ao amor do irmão (cf. Mc 12, 29-31): «Nisto reconhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 35).

    Evangelho: Marcos 6, 34-44

    34Naqueke tempo: Jesus viu uma grande multidão e teve compaixão deles, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, então, a ensinar-lhes muitas coisas. 35A hora já ia muito adiantada, quando os discípulos se aproximaram e disseram: «O lugar é deserto e a hora vai adiantada. 36Manda-os embora, para irem aos campos e aldeias comprar de comer.» 37* Jesus respondeu: «Dai-lhes vós mesmos de comer.» Eles disseram-lhe: «Vamos comprar duzentos denários de pão para lhes dar de comer?» 38Mas Ele perguntou: «Quantos pães tendes? Ide ver.» Depois de se informarem, responderam: «Cinco pães e dois peixes.» 39Ordenou-lhes que os fizessem sentar por grupos na erva verde. 40E sentaram-se, por grupos de cem e cinquenta. 41*Jesus tomou, então, os cinco pães e os dois peixes e, erguendo os olhos ao céu, pronunciou a bênção, partiu os pães e dava-os aos seus discípulos, para que eles os repartissem.

    Dividiu também os dois peixes por todos. 42Comeram até ficar saciados. 43*E havia ainda doze cestos com os bocados de pão e os restos de peixe. 44*Ora os que tinham comido daqueles pães eram cinco mil homens.

    Jesus é o Bom Pastor que se compadece da multidão, porque eram como ovelhas sem pastor (v. 34). Como novo Moisés, instrui aqueles que O rodeiam (a comunidade cristã) com a sua palavra (a Palavra de Deus) e alimenta-a multiplicando

    o pão e os peixes (a Eucaristia). Em tudo isso envolve os discípulos (a Igreja): «Dailhes vós mesmos de comer» (v. 37). Toda esta cena descrita por Marcos tem como pano de fundo a assembleia dos filhos de Israel no deserto e a celebração eucarística dos primeiros discípulos de Jesus. Os vários pormenores da narrativa denunciam o tal pano de fundo teológico já referido: o lugar deserto, a erva verde, as pessoas sentadas em pequenos grupos (cf. Ex 18, 25); depois, o erguer dos olhos para o céu, a bênção, a fracção do pão, a distribuição do pão com a ajuda dos discípulos (cf. Jo 6, 1-13; 1 Cor 11, 23-34; Mt 26, 26-29; Mc 14, 22-25; Lc 22, 14-20). Os cinco mil homens comeram, ficaram saciados, e ainda sobejaram «doze cestos com os bocados de pão e os restos de peixe» (v. 43). Nada se deve perder da mesa de Cristo. O que mais espanta os discípulos não é tanto o poder de fazer milagres do Mestre, mas é, sobretudo, o poder de dar aos homens o necessário para viverem cada dia. As palavras e os actos de Jesus incidem no concreto da vida dos homens e na história, transformando-as e abrindo-as à comunhão com Deus.

    Meditatio

    O evangelho de hoje mostra-nos o amor, a ternura e a generosidade de Jesus. O Senhor comove-se diante da multidão que O seguiu, «porque eram como ovelhas sem pastor», e dá-lhes o pão: o pão da sua palavra («Começou, então, a ensinar-lhes muitas coisas»)e o pão material que é, acima de tudo, prefiguração da sua vontade em nos alimentar com o seu corpo e o seu sangue. O verdadeiro pão é Ele. Estamos perante um novo milagre do maná (cf. Ex 16), feito por Jesus, o novo Moisés, revelador escatológico e mediador dos sinais de Deus (cf. Ex 4, 1-9), num novo êxodo: é o símbolo da Eucaristia, verdadeiro alimento do povo de Deus. É preciso comer o pão vivo descido do céu para ter a vida e entrar em comunhão íntima com Jesus.

    Estamos pera
    nte a revelação do pão que é eficaz para comunicar a vida queperdura para além da morte. É Jesus, pão de vida, que dá a imortalidade a que se alimenta dele, a quem na fé interioriza a Palavra e assimila a sua vida. Escutar interiormente Jesus é alimentar-se do pão celeste e saciar a fome que há em nós. Como o Pai é fonte de vida para o Filho, também o Filho é fonte de vida para quem participa na Eucaristia. Jesus recebe a vida do Pai e dá-a ao crente, não só agora, mas para sempre. Dá-lhe a vida eterna que é amor, participação no mistério pascal de Cristo, no mistério de uma carne vivificada pelo Espírito, que permite um laço profundo com Deus, tal como o que existe entre o Pai e o Filho.

    A primeira leitura fala-nos da ternura e da generosidade de Jesus como manifestação do amor do Pai. Deus, que é amor, enviou o seu Filho ao mundo para que tivéssemos a vida por Ele. Contemplemos esse amor do Pai e do Filho por nós. Correspondamos a esse amor com uma vida coerente com quanto Deus fez por nós. Partilhemo-lo com os irmãos. Amemos com Ele e como Ele. Isso é viver a nossa vocação oblativa.

    De facto, a oblação, entendida como amor e imolação, compreendida e vivida na união à oblação de Cristo, exprime toda a nossa vida, como consagrada, no tempo e no espaço.

    A oblação, entendida como “presença activa” do amor de Cristo em nós (Cst. 2) torna-se o respiração da alma, o ritmo próprio do amor de Cristo, activamente presenteno tempo e no decurso da nossa vida. É “um tempo para Deus no mundo” (Urs Von

    Balthasar), para todos os homens, para toda a criação (cf. Cst nn. 19-22). Nesta perspectiva, a nossa oblação é redentora e reparadora: alarga-se no espaço a todos os homens e a “toda a criação” (n. 22; Cf. Rom 8, 19-25).

    Para isto é que “Deus enviou o Seu Filho unigénito ao mundo” (1 Jo 4, 9), a fim de que “tivéssemos a vida por Ele” (1 Jo 4, 9).

    Oratio

    Senhor, como são numerosas e magníficas as provas de amor que nos deste: criaste o universo grande e maravilhoso, e deste-nos a vida e a inteligência para admirarmos as suas belezas. Mas, mais do que tudo isso, mostraste-te nosso Pai, dando-nos a maior prova do teu imenso amor, quando nos enviaste o teu Filho como Salvador.

    É, na verdade, um Deus de amor! Por tua iniciativa, generosa e gratuita, fizeste tudo para que não permanecêssemos longe de Ti, teus inimigos. Selaste uma aliança com o teu povo eleito, apesar das suas muitas traições. Finalmente, deste-nos, pelo teu Filho, a Igreja como mãe e lugar de salvação. O teu Coração é realmente magnânimo. E, como se não bastasse tudo o que já tinhas feito por nós, saciaste-nos com o novo maná: o pão da Palavra e da Eucaristia, os sacramentos do teu amor. Preocupaste-te em saciar o homem nas suas necessidades materiais e espirituais, manifestando especial predilecção pelos que sofrem e pelos pobres.

    Obrigado, Senhor, por tudo quanto fizeste e continuas a fazer por nós, revelando-nos a tua verdadeira identidade que é seres Amor. Amen.

    Contemplatio

    Jesus preparou-se desde a sua incarnação. Considerava-se como o pão da vida. A sua carne e o seu sangue eram destinados ao sacrifício. Ele era o cordeiro de Deus, votado à imolação.

    Quando ia ao templo, nos dias de festa legal, pesava-lhe ver durarem as figuras ineficazes do sacrifício redentor. O seu Coração ardia de desejo de ver suceder a realidade à figura. Exprimia no Cenáculo este desejo de toda a sua vida: «Desejei comer esta páscoa convosco».

    Preludia o sacrifício eucarístico pela mudança da água em vinho e pela multiplicação dos pães.

    Fala disso longamente no belo discurso que S. João nos reporta no seu capítulo sexto. «Eu sou o pão da vida, diz. O maná não era senão uma figura, não dava a graça, a vida sobrenatural. Vós comereis o meu corpo e o meu sangue, eles alimentarão em vós a vida do espírito e vos hão-de preparar para a ressurreição…»

    A preparação remota não é tudo; quando chega o momento de celebrar o sacrifício eucarístico e de instituir a comunhão, Jesus multiplica os actos de preparação próxima.

    Pregou durante vários dias a penitência e os juízos de Deus aos seus discípulos. Propôs às suas meditações as parábolas das virgens e dos talentos e anuncia a destruição de Jerusalém e do último juízo. Ofereceu-lhes o exemplo da humilde penitência de Maria Madalena na refeição em casa de Simão.

    Na última hora, mostra-lhes pela surpreendente cerimónia do lava-pés que pureza exige
    a celebração da missa e da comunhão.

    E nós, como nos preparamos? Quais são as nossas disposições remotas e próximas? Talvez, ai! A indiferença, a frieza, a distracção! (Leão Dehon, OSP 2, p. 606).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra: «Todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus, pois Deus é amor» (1 Jo 4, 7).

  • Tempo do Natal – Quarta-feira depois da Epifania

    Tempo do Natal – Quarta-feira depois da Epifania

    7 de Janeiro, 2026

    Tempo do Natal – Quarta-feira depois da Epifania

    Lectio

    Primeira leitura: 1 João 4, 11-18

    11*Caríssimos, se Deus nos amou assim, também nós devemos amar-nos uns aos outros. 12*A Deus nunca ninguém o viu; se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu amor chegou à perfeição em nós. 13Damos conta de que permanecemos nele, e Ele em nós, por nos ter feito participar do seu Espírito. 14*Nós

    o contemplámos e damos testemunho de que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo. 15*Quem confessar que Jesus Cristo é o Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus. 16*Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele. Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele.17*É nisto que em nós o amor se mostra perfeito: se somos no mundo como Ele foi e se esperamos confiantes o dia do juízo. 18No amor não há temor; pelo contrário, o perfeito amor lança fora o temor; de facto, o temor pressupõe castigo, e quem teme não é perfeito no amor.

    Se «Deus é amor», isso tem consequências na vida cristã. É o que João afirma no texto que escutamos hoje. Primeiro, para possuir a Deus, o amor recíproco é o caminho mais excelente. Este amor é o meio mais eficaz para que o amor de Deus permaneça nos crentes como presença experimencial e seja perfeito à imitação do amor vivido por Cristo (cf. v. 12). Segundo, a posse do Espírito é dom que nos guia no nosso caminho interior de vida espiritual (cf. v. 13). Terceiro, a fé em Jesus Salvador do mundo: «Quem confessar que Jesus Cristo é o Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus» (v. 15). Só quem acredita no Filho de Deus feito homem, conhece e ama a Deus.

    Para que o amor a Deus cresça em nós, é preciso ultrapassar o temor (vv. 17-18). Quando chegar a hora do juízo final, o discípulo de Jesus terá uma certa familiaridade com Ele que lhe dará confiança (cf. v. 17), porque terá amado os irmãos com o mesmo amor com que foi amado por Jesus. Nisto consiste a perfeição do amor: confiar em Deusno dia do juízo, porque tratará os crentes como filhos muito amados. É uma confiança que se torna certeza de vitória.

    Evangelho: Marcos 6, 45-52

    Depois de ter matado a fome a cinco mil homens, 45*Jesus obrigou logo os seus discípulos a subirem para a barca e a irem à frente, para o outro lado, rumo a Betsaida, enquanto Ele próprio despedia a multidão. 46Depois de os haver despedido, foi orar para

    o monte. 47*Era já noite, a barca estava no meio do mar e Ele sozinho em terra. 48*Vendo-os cansados de remar, porque o vento lhes era contrário, foi ter com eles de madrugada, andando sobre o mar; e fez menção de passar adiante. 49Mas, vendo-o andar sobre o mar, julgaram que fosse um fantasma e começaram a gritar, 50pois todos
    o viram e se assustaram. Mas Ele logo lhes falou: «Tranquilizai-vos, sou Eu: não temais!» 51*A seguir, subiu para a barca, para junto deles, e o vento amainou. E sentiram um enorme espanto, 52*pois ainda não tinham entendido o que se dera com os pães: tinham o coração endurecido. Depois da multiplicação dos pães e dos peixes, Jesus ordenou aos discípulos que passassem à outra margem, enquanto Ele ia rezar (cf. v. 46). Era frequente em Jesus esta oração a sós com o Pai, na solidão e no silêncio, mas que não deixava de ser solidária com os discípulos. Estes encontravam-se em dificuldades na travessia do mar da vida: surpreendera-os a noite e o vento contrário. Então Jesus vai ao encontro deles caminhando sobre o mar. Faz menção de passar adiante para não se impor com um milagre (cf. 48). Mas, diante da perturbação deles, ao ouvir o grito que lançaram, acalma o vento e diz-lhes: «Tranquilizai-vos, sou Eu: não temais!» (v. 50).

    O espanto dos discípulos, unido à falta de fé em Jesus, invadiu-lhes o coração, porque não tinham compreendido o sinal dos pães e a própria identidade do seu Mestre, como Messias e Filho de Deus. As perspectivas de Jesus e dos discípulos são diferentes: eles têm «o coração endurecido» (v. 52), tal como Israel no deserto. Para reconhecer o rosto do Mestre, a comunidade precisa de acolhê-lo na sua barca e confiar nele, invocando-o na oração, pois não faltarão momentos de provação, de tempestade.

    Meditatio

    A multiplicação dos pães, em que os Apóstolos tinham participado activamente, deixou-os humanamente satisfeitos e eufóricos. Jesus teve de fazê-los aterrar. Para isso, mandou-os para o mar… As dificuldades encontradas, ao passarem para a outra margem, obrigam-nos a abandonar as suas demasiadamente humanas e enchem-nos de terror. É então que Jesus intervém: «Tranquilizai-vos, sou Eu: não temais». Retomada a confiança, compreendem que tem que avançar com Ele, como Salvador, mais para o alto: «pois ainda não tinham entendido o que se dera com os pães, pois tinham o coração endurecido». Jesus terá que falar-lhe várias vezes da sua paixão para os fazer avançar na fé e na disponibilidade ao seu chamamento.

    A primeira leitura faz-nos tomar consciência do amor infinito do Pai, que é amor, que «mandou o seu Filho como Salvador do mundo», e quer viver em comunhão connosco, seus filhos muito amados. A união perfeita entre Deus e o crente realiza-se, em primeiro lugar, no contacto com a Palavra de D
    eus e, depois, na participação na mesa eucarística. A nossa carne, o nosso sangue misturam-se, então, com a carne e o sangue de Deus. Somos transformados. Somos divinizados. «Não somos nós que transformamos Deus em nós», afirma Santo Agostinho, «somos nós que somos transformados em Deus». A Eucaristia é o lugar privilegiado para o encontro com Cristo vivo, fonte e cume da vida da Igreja, garantia de comunhão com o Corpo de Cristo e participação na solidariedade, como expressão do mandamento de Jesus: «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei» (Jo 13, 34).

    O amor para com os irmãos é consequência e sinal do amor a Deus (cf. 1 Jo 4, 12). Também este aspecto da caridade fraterna tem a sua realização plena na Eucaristia: «Participando realmente no Corpo do Senhor ao partilhar o pão eucarístico, somos elevados à comunhão com Ele e entre nós» (LG 11). Este amor torna-se em nós uma força transformadora e operativa, capaz de afastar o temor, porque quem ama não teme e quem come o corpo e o sangue de Cristo tem a vida em plenitude.

    A “presença activa” (Cst. 2) do amor de Cristo na nossa vida, para o Pe. Dehon, como para nós, realiza-se, sobretudo, na escuta da Palavra e na Eucaristia celebrada, comungada e adorada, que realizam a nossa união a Cristo. Essa união permite-nos receber de Cristo, «videira verdadeira» (cfr. Jo 15, 1) a seiva divina, que é o Espírito Santo, que produz em nós os seus frutos, os doze frutos que nos indica o

    Catecismos da Igreja e os frutos carismáticos que espera de nós, dehonianos. Pela força do Espírito, podemos ser, como Jesus e em Jesus, amor, reparação, imolação, isto é, Oblatos do Coração de Cristo, com os conteúdos atribuídos pelo Pe. Dehon a este nome original. São mistérios de amor que têm a sua origem no baptismo (água) e

    o seu alimento na Eucaristia (sangue). O Espírito, tal como transforma o pão e o vinho em Cristo, assim também transforma os nossos corações. “Fazei isto em memória de Mim” não se refere apenas à liturgia do rito eucarístico, mas também à liturgia da nossa vida: ser oblação (amor e imolação) para Deus e para os irmãos, como Cristo é oblação do Seu Corpo, do Seu Sangue, de todo o Seu ser por nós. Fazer da nossa vida “uma missa permanente” (Cst. 5). Oratio

    Obrigado, Jesus, por todos os teus dons, particularmente pelo da Eucaristia, que Te torna presente entre nós. Verdadeiramente, a Eucaristia realiza-se as palavras de João Evangelista: «fez-se carne e ergueu a sua tenda no meio das nossas» (cfr. Jo 1, 14).

    Na Eucaristia dás-Te a cada um de nós como alimento que dá a vida. Verdadeiramente, quem Te come, vive de Ti, da vida que de Ti recebe.

    Na Eucaristia, dás-nos como alimento o teu Corpo e Sangue, que nos enchem de força para caminharmos rumo ao encontro definitivo com o Pai.

    Obrigado, Jesus! Mil vezes, obrigado!

    Quanto gostaria de corresponder a esse imenso dom do teu amor, dando-me, contigo e como Tu, aos meus irmãos, especialmente aos mais carenciados! Enche-me do teu Espírito para que, como Tu, me torne Eucaristia, pão puro para glória do Pai, e pão bom que os irmãos possam comer. Amen.

    Contemplatio

    A confiança na bondade de Jesus menino deve tornar-se para nós a confiança no Coração de Jesus. Todos os mistérios permanecem no Coração de Jesus. Ele apresenta-nos o céu mesmo, e particularmente na santa Eucaristia, as amabilidades, a simplicidade e os sacrifícios do seu nascimento. Ele pede-nos a mesma confiança quepediu a Maria e a José. É sob esta condição que a nossa oblação lhe agradará.

    Durante o tempo do ano litúrgico consagrado ao mistério da santa Infância, vamos com confiança ter com o Menino divino a Belém. Parece que ele nos estende os braços. Extendebat membra quaerens Matris favorem. A comunhão no mistério de Belém é uma união de confiança e de amor. O Coração de Jesus menino parece que nos grita para que vamos ter com ele com confiança. Que aqueles que têm particularmente necessidade desta confiança se detenham de preferência neste mistério. Será sempre fácil dar o seu coração com tanta simplicidade e tanto amor: Sic nasci voluit qui amari voluit, non timeri (S. Pedro Crisólogo). O Coração de Jesus menino não quer que nós tenhamos medo dele. Para nós ele só tem graças e bondades. Apparuit gratia Dei Salvatoris (Tit 2, 11). «Benignitas et humanitas apparuit Salvatoris (Tit 3, 4). O Salvador é muito amável e bom».

    Eu uno-me à piedosa e humilde adoração dos pastores de Belém. Eu dedico uma doce confiança ao Coração do divino Menino. A sua doçura e a sua amabilidade cativaram o meu coração (Leão Dehon, OSP 2, p. 213-214).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra: «Tranquilizai-vos, sou Eu: não temais» (Mc 6, 50).

  • Tempo do Natal – Quinta-feira depois da Epifania

    Tempo do Natal – Quinta-feira depois da Epifania

    8 de Janeiro, 2026

    Tempo do Natal – Quinta-feira depois da Epifania

    Primeira leitura: 1 João 4, 19- 5, 4

    Caríssimos: 19*Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro. 20*Se alguém disser: «Eu amo a Deus», mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê.

    21*E nós recebemos dele este mandamento: quem ama a Deus, ame também o seu irmão.

    1*Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo nasceu de Deus; e todo aquele que ama a Deus Pai ama também aquele que nasceu de Deus. 2É por isto que reconhecemos que amamos os filhos de Deus: se amamos a Deus e cumprimos os

    seus mandamentos; 3*pois o amor de Deus consiste precisamente em que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são uma carga, 4*porque todo aquele que nasceu de Deus vence o mundo. E este é o poder vitorioso que venceu o mundo: a nossa fé.

    Neste texto entrelaçam-se dois temas: o amor cristão (vv. 19-21) e a fé em Jesus, componentes de um único mandamento (vv. 1-4; 3, 21). O amor e o ódio são inconciliáveis.

    O amor cristão conhece três relações: o amor de Deus para connosco, o nosso amor para com Deus e o nosso amor para com os irmãos. O amor a Deus e aos irmãos estão intimamente ligados: «quem ama a Deus, ame também o seu irmão» (v. 21). Mais: o verdadeiro amor a Deus manifesta-se no amor aos irmãos: «aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê» (v. 20). O amor cristão tem a sua origem em Deus, porque «Ele nos amou primeiro» (v. 19), como verdadeiros filhos. Pertence-nos agora corresponder ao amor e gerar amor. Não foi o homem que alcançou a Deus com o seu amor, mas o contrário: Deus veio ao nosso encontro, em Jesus. Se amamos os outros, temos a prova real de que Deus nos alcançou. É fácil ser tentado a refugiar-se no amor de Deus, esquecendo os irmãos. Refugiar-se na esfera do divino, desinteressando-se pela esfera humana, era práticados gnósticos. É pela fé que sabemos que Deus nos ama. O fiel amado, que «nasceu de Deus» (v. 1), ama o Pai e o Filho, mas também todos os irmãos, nascidos de Deus. Só a fé e o amor, nascidos da filiação divina, permitem ao cristão vencer tudo quanto se opõe a Cristo, vivendo os seus mandamentos (vv. 3-4).

    Evangelho: Lucas 4, 14-22a

    Naquele tempo: 14Impelido pelo Espírito, Jesus voltou para a Galileia e a sua fama propagou-se por toda a região. 15Ensinava nas sinagogas e todos o elogiavam. 16*Veio a Nazaré, onde tinha sido educado. Segundo o seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para ler. 17Entregaram-lhe o livro do profeta Isaías e, desenrolando-o, deparou com a passagem em que está escrito: 18*«O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, 19a proclamar um ano favorável da parte do Senhor.» 20Depois, enrolou o livro, entregou-o ao responsável e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. 21*Começou, então, a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir.» 22Todos davam testemunho em seu favor e se admiravam com as palavras repletas de graça que saíam da sua boca.

    A actividade evangelizadora de Jesus na Galileia caracteriza-se pela força do Espírito, pelo entusiasmo das pessoas que O escutam e pela sua fama que se espalha por toda a parte. Na sinagoga de Nazaré, lê e interpreta Is 61, 1-2, aplicando o texto à sua pessoa, e fazendo dele o texto programático da sua acção como Messias. Com Ele começa, de facto, o ano jubilar (cf. Lv 25, 10); com Ele desceu o Espírito de Deus sobre a terra, que traz a salvação a humanidade: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir» (v. 21).

    O Espírito consagrou Jesus como Messias. O Reino que anuncia será a verdade, a liberdade e a novidade do mundo, que fará nascer naqueles que O escutam e seguem. O povo fica admirado com as suas palavras e dá testemunho dele

    (v. 22). A libertação trazida por Jesus destina-se particularmente aos pobres, aos oprimidos, aos prisioneiros e aos cegos, porque são os mais disponíveis para acolher a sua mensagem, e a acção do Espírito de Deus. A palavra de Jesus é «alegre notícia» de vida nova para todos os homens. Masé uma palavra exigente, que comporta a cruz e a ressurreição. É no mistério pascalque o crente encontra a plenitude e a comunhão com Deus. É este o êxodo que todo o homem deve realizar na sua vida, se quer também colaborar na libertação dos irmãos, viver no Espírito e participar na glória de Jesus Cristo ressuscitado.

    Meditatio

    «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir.» A liturgia faz-nos tomar consciência da situação privilegiada em que nos encontramos, em relação aos habitantes de Nazaré. Verdadeiramente, o mistério de Cristo cumpriu-se. Quando Jesus pronunciou o seu discurso em Nazaré, a transformação do homem estava apenas a começar. Depois
    veio a morte e a ressurreição do Senhor pelas quais se cumpriu toda a Escritura. E nós vivemos o tempo da plenitude, ainda que não vejamos Jesus com os olhos da carne.

    João continua a insistir na união entre o amor a Deus e o amor aos irmãos. Todo o evangelho é anúncio do amor de Deus tornado visível na pessoa do Verbo Encarnado, Jesus de Nazaré. Amar a Deus é colocar-se na sua perspectiva. Ele ama todo o ser criado e não hesita em entregar o próprio Filho unigénito para a salvação de todos os homens. Viver para os outros, dar-se, sacrificar-se pelo seu bem é viver como Deus, é actuar o que Jesus quer que façamos.

    Esta fé anima a nossa caridade cristã, mas também se torna uma enorme força de luta contra o pecado que é a exploração, a intolerância, a injustiça, a violência e o egoísmo.

    Mas o mal belo testemunho do amor a Deus e aos irmãos é manifestar, não só com palavras, mas também com obras, que estamos no coração de Deus.

    Ao encarnar, o Verbo, fez-Se de tal modo solidário com os homens que esvazia ”a Si mesmo” (Fil 2, 7) da glória que possuía na preexistência junto do Pai (cf. Jo 17, 5). Preferiu recebê-la do Pai, como exaltação pelo seu sacrifício (cf. Fil 2, 9), por meio da Ressurreição: “Servo” (Fil 2, 7) torna-Se “Senhor” (Fil 2, 11).

    Quanto a S. João, a relação “solidariedade” – revelação é o princípio chave de interpretação do seu Evangelho, a começar pelo Prólogo que nos apresenta “o Verbo feito carne” (1, 14), de Quem “vemos a… glória”, isto é, o amor nas palavras e nas obras, na morte e na ressurreição.

    No amor de Cristo, experimentamos o amor do Pai (cf. Jo 1, 18; 1Jo 4, 9-10). Em Cristo “conhecemos e cremos no amor que Deus nos tem” (1Jo 4, 16). Esta experiência e esta fé leva-nos a amar com e como Cristo: em união com Ele e à maneira d´Ele.

    Oratio

    Louvado sejas, Senhor, porque abriste ao homem, sedento de felicidade, o caminho do amor. Louvado sejas, Senhor dos pequenos e dos pobres que, pelo teu Filho, nos ensinaste que é na vida simples e pobre que nos revelas o teu amor preveniente e generoso. Louvado sejas, Senhor da paz e da vida, porque nos deste o teu perdão, fazendo-nos experimentar a alegria do teu amor e da tua misericórdia.

    Dá-nos, Senhor, o teu Espírito de luz e de verdade, para que possamos aprender a caminhar na luz do teu sol que é vida e alegria Que te amemos sempre e cada vez, dando-te o primeiro lugar no nosso coração tantas vezes inquieto e à busca de novidades. Só Tu podes saciar a nossa sede de felicidade e de vida. Fica connosco, Senhor. Sê nosso companheiro de caminhada, porque sem Ti nada podemos fazer, e só em Ti encontramos repouso. Amen.

    Contemplatio

    Foi um segredo que Deus se reservou, o de saber se Ele nos teria dado o seu Filho na Incarnação no caso de o homem ter perseverado na justiça na qual o tinha criado. A escola seráfica sustenta a afirmativa e nós inclinamo-nos a admiti-la. Nada nos espanta no amor divino. Teria sido um dom menor dar-nos o seu Filho único como irmão, como rei, como pontífice, do que dar-no-lo como resgate. Mas este desígnio de amor que Deus concebeu de viver por assim dizer mais intimamente connosco fazendo-se um dos nossos, de nos elevar mais alto fazendo-se nosso irmão, de nos santificar de um modo mais sublime fazendo-se nosso pontífice, não o teria igualmente concebido se nós não tivéssemos pecado? S. Paulo parece confirmar o nosso sentimento, quando ele diz que o que torna mais admirável o amor de Deus é que Ele quis dar-nos o seu Filho mesmo depois de nós termos pecado (Rom 5, 8). Commendat caritatem suam Deus in nobis quoniam cum adhuc peccatores essemus… Christus pro nobis mortuus est.

    Podemos, portanto, pensar, que Deus tinha, mesmo fora das exigências da Redenção, o desígnio de nos dar o seu Filho como nosso rei, nosso irmão e nosso amigo (Leão Dehon, OSP 2, p. 196).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra: «Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro» (1 Jo 4, 19).

  • Tempo do Natal – Sexta-feira depois da Epifania

    Tempo do Natal – Sexta-feira depois da Epifania

    9 de Janeiro, 2026

    Tempo do Natal – Sexta-feira depois da Epifania

    Primeira leitura: 1 João 5, 5-13

    Caríssimos: 5*E quem é que vence o mundo senão aquele que crê que Jesus é

    Filho de Deus? 6*Este, Jesus Cristo, é aquele que veio com água e com sangue; e não só com a água, mas com a água e com o sangue. E é o Espírito quem dá

    testemunho, porque o Espírito é a verdade. 7Pois são três os que dão testemunho: 8o

    Espírito, a água e o sangue; e os três coincidem no mesmo testemunho. 9*Se aceitamos o testemunho dos homens, maior é o testemunho de Deus; e o testemunho

    de Deus está em que foi Ele a dar testemunho a respeito do seu Filho. 10*Quem crê no Filho de Deus tem esse testemunho consigo. Quem não crê em Deus faz de Deus mentiroso, uma vez que não crê no testemunho que Deus deixou a favor do seu Filho.

    11*E este é o testemunho: Deus deu-nos a vida eterna, e esta vida está no seu Filho.

    12*Quem tem o Filho de Deus tem a vida; quem não tem o Filho também não tem a

    vida. 13*Escrevi-vos estas coisas, a vós que credes no nome do Filho de Deus, para que tenhais a certeza de ter convosco a vida eterna.

    A vitória do cristão sobre o mundo é a fé. Para alcançar essa vitória, precisa de enfrentar uma luta interior e exterior contra tudo o que é mundano e realizar a vontade de Deus. A certeza da vitória vem da força da vida divina e da união com Deus. Portanto, é a fé em Cristo, Filho de Deus, o único meio para vencer o mundo (v. 5; cf. Jo 20, 30-31).

    Jesus veio para dar a vida e, quem acredita nele, tem a vida eterna (cf. v. 21). Esta vida eterna, que Jesus trouxe à humanidade é certa, porque Ele a ofereceu no começou da sua vida pública pelo baptismo («água») (cf. Jo 1, 31), e o fim da sua existência terrena pela morte na cruz («sangue») (cf. Jo 6, 51; 19, 34), e sempre actualizada na Eucaristia.

    É sobre este testemunho tríplice e concorde que se funda a manifestação de Deus em Cristo, seu Filho ( vv. 7-8). Há aqui reflexos da polémica do Apóstolo contgra os gnósticos que afirmavam que a divindade de Jesus se uniu à humanidade n o baptismo, mas na morte se separou da humanidade, de tal modo que apenas morreu o homem Jesus. Quem refuta este testemunho do Espírito de Deus, recusa a fé em Cristo, que é esta união de vida e de morte. A acção do Espírito entretece a vida sacramental (baptismo, confirmação, eucaristia), por meio da qual o crente é inserido no mistério de Cristo e é~e capaz de dar testemunho dele e viver em comunhão com Deus (vv. 11-13).

    Evangelho: Lucas 5, 12-16

    Naquele tempo: 12*Estando Jesus numa das cidades, apareceu um homem coberto de lepra. Ao ver Jesus, caiu com a face por terra e dirigiu-lhe esta súplica: «Senhor, se quiseres, podes purificar-me.» 13Jesus estendeu a mão e tocou-lhe, dizendo: «Quero, fica purificado.» E imediatamente a lepra o deixou. 14*Ordenou-lhe, então, que a ninguém o dissesse, mas acrescentou: «Vai mostrar-te ao sacerdote e oferece pela tua purificação o que Moisés ordenou, para lhe servir de prova.» 15A sua fama espalhava-se cada vez mais, juntando-se grandes multidões para o ouvirem e para que os curasse dos seus males. 16*Mas Ele retirava-se para lugares solitários e aí se entregava à oração.

    Jesus cura um leproso e mando-o ao sacerdote para fazer a oferta pela purificação (cf. Lv 14) e para servir de testemunho a todos da sua presença messiânica no meio do povo. O judaísmo, de facto, considerava a cura da lepra um dos sinais d
    a vinda do Messias (cf. Lc 7, 22).

    A cura é descrita com alguns elementos típicos: o pedido do doente («Senhor, se quiseres, podes purificar-me»: v. 12), a resposta positiva de Jesus, que toca o doente e o cura («Quero, fica purificado.»: v. 13), o envio ao sacerdote («Vai mostrar-te ao sacerdote…»: v. 14). O leproso, marginalizado da comunidade, depois de curado é reinserido nela. Esta cura é também símbolo do perdão e da misericórdia de Deus, e é fundamento da vida da Igreja (cf. Jo 20, 23).

    Uma nota final de Lucas apresenta um aspecto particular da pessoa de Jesus: depois da cura, e no meio da fama que se espalha, Jesus retira-se a sós para rezar. É da oração que vem a força de Jesus e o seu fascínio irresistível. A oração serve-lhe também para rever a sua missão à luz do projecto do Pai.

    Meditatio

    Jesus é, não só mestre, mas também modelo de oração.
    S. Lucas é o evangelista que mais se compraz em apresentar Jesus em

    oração, especialmente sobre os montes e em lugares solitários: “Jesus… foi conduzido pelo Espírito ao deserto” (Lc 4, 1; cf. Mt 4, 1; Mc 1, 12); “Jesus retirava-se para lugares solitários a fim de rezar” (Lc 5, 16; cf. 9, 18; 11, 1; 22, 40-46); “Jesus subiu ao monte para rezar e passou toda a noite em oração” (Lc 6, 12; cf. 9, 28; Mc 6, 46; Jo 6, 15). S. Lucas recorda também duas orações de Jesus na cruz sobre o Calvário: “Pai, perdoa- lhes porque não sabem o que fazem” (23, 34) e “Pai, nas tuas mãos entrego o Meu espírito” (23, 46). É evidente a predilecção de Jesus pelo silêncio e pela solidão, a fim de mergulhar na contemplação. A oração é o lugar do Seu repouso, do Seu encontro com o Pai. Pensemos numa oração muito simples, feita de amoroso silêncio, com uma única invocação: “Abbá, Pai”.

    Rezar não é tentar obter de Deus o que nos agrada, o que julgamos importante para os nossos próprios projectos. Rezar leva-nos a entrar na perspectiva de Deus, partindo do seu amor. É contemplar o rosto do Pai que ternamente olha os seus filhos. É encontro com alguém que nos ama, e deixar-nos apanhar pelo Seu amor.

    Não é fácil rezar. Exige aprendizagem, trabalho exigente, não porque é superior às nossas forças, mas porque é uma experiência que jamais se esgota, um caminho onde sempre permanecemos discípulos.

    A oração não é tanto um exercício de amar a Deus, mas de se deixar amar por Ele. É acolhimento do Seu amor, da Sua palavra, dos Seus projectos, dos Seus

    desejos. É experimentar silenciosamente e serenamente a Sua presença, como Maria a experimentava no seu seio.

    Mas a oração é também resposta ao dom que Deus nos faz de si mesmo e de todas as suas graças e bênçãos. A oração é louvor, acção de graças, oferta, intercessão, festa e liturgia da vida. Levar a vida à oração. Levar a oração à vida.

    O coração da oração cristã é entrar no mistério da filiação divina: estar em Deus no Espírito pelo Filho, como o Filho está no mistério do Pai.

    Os números 71 e 76 das nossas Constituições falam da oração pessoal de intimidade e de continuidade, para passar da contemplação à acção, do amor de Deus ao amor do próximo; todavia, para a cultivar e viver, é preciso amor ao silêncio e à solidão (não ao isolamento), que favorecem também uma fiel e fervorosa oração comunitária, porque, se “sem espírito de oração, esmorece a oração pessoal; sem a oração comunitária, definha a comunidade de fé” (Cst. 79).

    Recordemos outras duas afirmações das nossas Constituições acerca da oração, não só pessoal, mas também comunitária: “Reconhecemos que da oração assídua dependem a fidelidade de cada um e das nossas comunidades, bem como a fecundidade do nosso apostolado.” (Cst. 76); “Fazendo-nos progredir no conhecimento de Jesus, a oração estreita os laços da nossa vida comum e abre-a constantemente à sua missão” (Cst 78).

    Oratio

    «Senhor, se quiseres, podes purificar-me». Purifica-me todo o meu pecado: do meu egoísmo, da minha auto-suficiência, da minha dissipação. Estende-me a tua mão, toca-me e faz-me ouvir a tua palavra salvadora: «Quero, fica purificado». Então, serei um membro vivo e activo da minha comunidade, da Igreja. Então, terei ouvidos para escutar a tua palavra, olhos para contemplar o teu amor, mãos para participar na realização da tua obra de salvação no mundo. Então, poderei apresentar-me diante de Ti, participar da tua intimidade, da tua vida e, Contigo apresentar-me diante do Pai para rever a minha vida e a minha missão, à luz do seu projecto de amor. Faz-me redescobrir o dom da oração e conduz-me ao Cenáculo para reviver o mistério do Pentecostes e reavivar em mim o dom do teu Espírito. Amen.

    Contemplatio

    É na medida da sua fé que os doentes obtêm de Nosso Senhor a sua cura, os possessos a sua libertação.

    Era necessário recordar aqui todos os milagres de Nosso Senhor e citar todo o evangelho. – “Não encontrei tanta fé em Israel”, exclama Nosso Senhor diante da humildade crente do centurião. – «Ó mulher, como é grande a tua fé!», diz à cananeia. – «Credes que o possa fazer?», pergunta aos cegos de Cafarnaúm». – «Se podes crer!», responde ao pai do lunático: tudo é possível a quem crê. – «Que seja feito segundo a vossa fé!», diz em várias circunstâncias. – «Senhor, se quiserdes, diz o leproso de Galileia, podeis purificar-me». – «Crê somente e a tua filha viverá», diz a Jairo. – A vários repete: «A vossa fé vos salvou». Aos apóstolos que se afligem por não poderem operar algumas curas, Nosso Senhor revela o motivo da sua impotência: «É por causa da vossa incredulidade». – «Homens de pouca fé, onde está então a vossa confiança?», diz-lhes, no meio dos terrores da tempestade. – Promete-lhes que operarão prodígios se tiverem a fé somente como um grão de mostarda. – E a última censura que lhes dirige, antes de subir ao céu, é de terem tão lentamente acreditado nas testemunhas da sua ressurreição. – Senhor, aumentai a minha fé e curai-me de todas as minhas enfermidades (Leão Dehon, OSP 4, p. 168).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra: «Senhor, se quiseres, podes purificar-me». (Lc 5, 12)

  • Tempo do Natal – Sábado depois da Epifania

    Tempo do Natal – Sábado depois da Epifania

    10 de Janeiro, 2026

    Tempo do Natal – Sábado depois da Epifania

    Lectio

    Primeira leitura: 1 João 5, 14-21

    Caríssimo:14*Esta é a plena confiança que nele temos: se lhe pedimos alguma coisa segundo a sua vontade, Ele ouve-nos. 15E, dado que sabemos que nos vai ouvir em tudo o que lhe pedirmos, estamos seguros de que obteremos o que lhe pedimos. 16*Se alguém vir que o seu irmão comete um pecado que não leva à morte, peça, e dar-lhe-á vida. Não me refiro aos que cometem um pecado que não leva à morte; é que existe um pecado que conduz à morte; por esse pecado não digo que se reze. 17Toda a iniquidade é pecado, mas há pecados que não conduzem à morte. 18*Nós bem sabemos que todo aquele que nasceu de Deus não peca, mas o Filho de Deus o guarda, e o Maligno não o apanha. 19E bem sabemos que somos de Deus, ao passo que o mundo inteiro está sob o poder do Maligno. 20*Bem sabemos também que o

    Filho de Deus veio e nos deu entendimento para conhecermos o Verdadeiro; e nós estamos no Verdadeiro, no seu Filho, Jesus Cristo. Este é o Verdadeiro, é Deus e é vida eterna. 21*Meus filhinhos, guardai-vos dos ídolos.

    Ao terminar a sua carta, João retoma os temas da segurança da fé e a coerência na vida do cristão, acrescentando o da oração confiante. A oração que o crente dirige ao Pai tem por finalidade obter a vida para aqueles cujos pecados «não conduzem à morte» (vv. 16-17). Há pecados que conduzem à morte: os que rompem definitivamente a comunhão com Deus. Mas há pecados que não rompem essa comunhão definitivamente e não levam à morte. João diz que é bom rezar por estes últimos, para que sejam readmitidos à comunhão com Deus. O importante é que esta oração seja feita de acordo com a vontade de Deus, e não segundo os próprios interesses.

    Ao terminar carta com três afirmações do apóstolo que sublinham a certeza que ele tem acerca do ensinamento que deu aos crentes: quem nasceu de Deus não peca e escapa ao domínio de Satanás (v. 18); o crente pertence a Deus e não ao mundo, porque se trata de duas realidades opostas e inconciliáveis (v. 19); a certeza da vinda de Jesus até nós dá-nos a possibilidade de escaparmos do mal e de entrarmos na comunhão com Deus e com o seu Filho.

    A carta encerra com o apelo de João a que os cristãos recusem o culto aos ídolos para possuírem a verdade que é Jesus.

    Evangelho: João 3, 22-30

    22*Naquele tempo, Jesus foi com os seus discípulos para a região da Judeia e ali convivia com eles e baptizava. 23Também João estava a baptizar em Enon, perto de Salim, porque havia ali águas abundantes e vinha gente para ser baptizada.

    24João, de facto, ainda não tinha sido lançado na prisão. 25Então levantou-se uma discussão entre os discípulos de João e um judeu, acerca dos ritos de purificação. 26Foram ter com João e disseram-lhe: «Rabi, aquele que estava contigo na margem de além-Jordão, aquele de quem deste testemunho, está a baptizar, e toda a gente vai ter com Ele.» 27*João declarou: «Um homem não pode tomar nada como próprio, se isso não lhe for dado do Céu. 28*Vós mesmos sois testemunhas de que eu disse: ‘Eu não sou o Messias, mas apenas o enviado à sua frente.’ 29*O esposo é aquele a

    quem pertence a esposa; mas o amigo do esposo, que está ao seu lado e o escuta, sente muita alegria com a voz do esposo. Pois esta é a minha alegria! E tornou-se completa! 30*Ele é que deve crescer, e eu diminuir.»

    Enquanto a actividade missionária de Jesus e a do Baptista florescia, surge um episódio que perturba os discípulos de João: uma discussão com alguém que provavelmente tinha recebido o baptismo da mão dos discípulos de Jesus. O tema em discussão é o valor da purificação do baptismo dado pelos rabis e a relação entre os dois ritos. A resposta do Baptista sublinha um princípio geral válido para todo o homem que realiza uma missão: na história da salvação ninguém pode apropriar-se de uma determinada função, se ela não lhe for conferida por Deus (v. 27); além disso, afirma a superioridade de Jesus (v. 28). E, para explicar melhor a relação que tem com Jesus, explica a superioridade da missão própria de Jesus com um exemplo tirado do ambiente judaico: a relação entre o amigo do esposo e o esposo durante a festa nupcial (cf. Is 62, 4-5; Mt 22, 1-14; Lc 14, 16-24).

    Nesta comparação, João Baptista não tem dificuldade em reconhecer Jesus no papel de Messias-esposo, vindo para celebrar as núpcias messiânicas com a humanidade, e, portanto, aponta a si mesmo como discípulo-amigo do esposo. Ele pôde conhecer o Messias que dá início à sua missão e recolhe os primeiros frutos do seu trabalho. Por isso, se alegra, pois constata a realização definitiva do projecto salvífico de Deus. E compreende que chegou o momento de se retirar: «Ele é que deve crescer, e eu diminuir» (v. 30).

    Meditatio

    É admirável verificar como João Baptista manifesta alegria numa circunstância em que nós, geralmente, manifestamos tristeza. Jesus estava a ter mais sucesso do que João. Os discípulos do Baptista andam preocupados e manifestam essa preocupação: «Rabi, aquele que estava contigo na margem de além-Jordão, aquele de quem deste testemunho, está a baptizar, e toda a gente vai ter com Ele.» (v. 26).

    A carreira de João está a chegar ao fim. E ele reconhece que é essa a sua vocação: «Vós mesmos sois testemunhas de que eu disse: ‘Eu não sou o Messias, mas apenas o enviado à sua frente. O esposo é aquele a quem pertence a esposa; mas o amigo do esposo, que está ao seu lado e o escuta, sente muita alegria com a voz do esposo. Pois esta é a minha alegria! E tornou-se completa! Ele é que deve crescer, e eu diminuir.»(v. 28-30).

    Estas palavras enchem-nos de admiração, certamente. Mas é preciso irmos mais além. Na relação uns com os outros: quantas invejas! Quantos ciúmes! Na relação, particularmente, com Cristo: somos mensageiros, precursores, servos do Senhor! E nada mais! Não é em nós, ou nos nossos interesses, que aqueles queevangelizamos se devem fixar. É em Cristo. O apóstolo há-de ser transparente como o vidro para que, olhando-o, os fiéis vejam mais além, vejam o Senhor.

    Quantas vezes, na nossa vida de apóstolos acontecem coisas que noscontrariam. Não bastam aguentar, sofrer! É preciso acolher com alegria! São essas coisas que nos tornam semelhantes a Jesus. As próprias doenças, as humilhações,

    são chamamentos de Jesus. Há que reconhecê-los como manifestação da sua vontade. Não quer que soframos, certamente! Mas quer que soframos como Ele! Então a nossa alegria será plena!

    Se todo sofrimento tem uma sua misteriosa fecundidade apostólica, com maior razão a tem a«cruz do apóstolo», os inúmeros sofrimentos que acompanham toda a acção apostólica e que, por vezes, são coroados com a morte, com o martírio. Que centrou a sua vida e a sua acção na união à oblação de Cristo, até à imolação, aceita todos os sofrimentos como graça. A morte é a sua suprema graça, pois nela se realização a oblação total, a imolação. Nessas circunstâncias realiza-se para o apóstolo,como para Cristo, a parábola do “grão de trigo caído na terra: se… não morrer, permanece só; se, pelo contrário, morrer, produz muito fruto” (Jo 12, 24). É mesmo a morte que revela a autenticidade profunda da vida, para além dos sucessos e dos insucessos; revela como vivemos e para quem vivemos: para Cristo e como Cristo, sacerdote e vítima, mais ainda, sacerdote porque vítima.

    Oratio

    Senhor Jesus, obrigado pelos ensinamentos que hoje, mais uma vez, repartes comigo tão abundantemente. Obrigado, especialmente que, na história da salvação, ninguém pode apropriar-se de uma determinada função, se ela não lhe for conferida por Ti. Que eu Te reconheça como Messias-Esposo, que vieste ao mundo para celebrar as núpcias messiânicas com a humanidade. Que me reconheça como teu discípulo-amigo, colaborador e solidário. Que jamais me deixe levar por ciúmes em relação aos meus irmãos empenhados na actividade apostólica. Que eu jamais ceda a tentação de centrar as atenções dos fiéis em mim, mas seja sempre como uma vidraça transparente, uma simples e clara mediação, para que todos Te reconheçam e acolham como Salvador do mundo, porque só Tu deves crescer, e eu dimunuir. Amen.

    Contemplatio

    Não era conveniente que o Precursor mostrasse o mesmo espírito com que nosso Senhor havia de ser amado? Não deveria Nosso Senhor ensinar-nos a humildade todos os dias da sua vida pelos seus exemplos e conselhos? … Excelência da humildade. Mas, porque é preciosa a humildade? É preciosa porque é a verdade, é o remédio para o nosso orgulho. É a verdade. Que era eu antes de nascer? Que era eu ao ser formado? Lodo, terra, miséria. Que era eu depois do meu nascimento? Um inimigo de Deus, privado da graça e da razão. Que sou, agora? Um pecador frágil, capaz das mais vergonhosas fraquezas sem a graça. Que serei eu, mais tarde? Serei presa dos vermes e podidrão, a minha alma será presa das chamas, se não for humilde de espírito e de coração.

    A humildade é remédio para o nosso orgulho. Mas, para isso, não basta reconhecer o próprio nada e aceitar as humilhações merecidas. Aceitando-as, não fazemos mais do que o nosso dever, não reparamos nada e podem dizer-nos: «Somos servos inúteis».

    Não aceitou Nosso Senhor as humilhações? Foi até pelas suas humilhações imerecidas que nos testemunhou o seu amor, reparando o nosso orgulho. Foi por isso que Ele amou os menosprezados e que foi verdadeiramente humilde de coração.

    Queremos realmente curar o nosso orgulho, reparar as nossas faltas e ajudar conforme as necessidades o nosso próximo com as nossas reparações? Amemos a humildade, amenos ser menosprezados e amenos as humilhações. Como o orgulho afasta a graças, assim a humildade a atrai! O Coração de Jesus ama os humildes (L. Dehon, OSP 4, pp 555-557).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra: «Ele é que deve crescer, e eu diminuir» (Jo. 3, 30)

  • I Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    I Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    12 de Janeiro, 2026

    Tempo Comum - Anos Pares I Semana - Segunda-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 1 Samuel 1, 1-8

    1*Havia em Ramataim um homem de Suf, nas montanhas de Efraim, chamado Elcana, filho de Jeroam e neto de Eliú, da família de Toú e do clã de Suf, de Efraim. 2*Tinha duas mulheres, uma chamada Ana e outra Penina. Esta tinha filhos; Ana, porém, não tinha nenhum. 3*Todos os anos, este homem subia da sua cidade a Silo, para adorar o SENHOR do universo e oferecer-lhe um sacrifício. Aí se encontravam os dois filhos de Eli, Hofni e Fineias, sacerdotes do SENHOR. 4Cada vez que Elcana oferecia um sacrifício, dava a porção correspondente à sua mulher Penina, bem como aos seus filhos e filhas. 5*Mas dava uma porção dupla a Ana, porque a amava mais, embora o SENHOR a tivesse tornado estéril. 6Além disso, a sua rival afligia-a duramente, humilhando-a, por o SENHOR a ter feito estéril. 7*Isto repetia-se todos os anos, quando Ana subia ao templo do SENHOR; Penina zombava dela. Ana chorava e não comia. 8Seu marido dizia-lhe: «Ana, por que choras? Por que não comes? Por que estás triste? Não valho para ti tanto como dez filhos?»

    Os livros de Samuel são talvez os mais modernos de toda a Sagrada Escritura. Neles, Deus faz-se presente ao homem, ao homem concreto, ao homem pecador mas também generoso, com todas as contradições que o caracterizam. Deus já não se revela directamente. Mas está presente na piedade de David, na sua generosidade, no seu arrependimento. O homem é sacramento de Deus. Este humanismo caracteriza os livros de Samuel e o seu exemplo é o rei David, rodeado por uma coroa de outras personalidades concretas: Samuel, Saúl, Jónatas... Deus parece intervir quando parece que tudo tinha acabado. Israel fora derrotado, e parecia não haver salvação possível. Mas Deus continuava presente e activo no silêncio, no escondimento. A nação iria ressurgir. A mensagem da derrota será confiada a uma criança levada pela mãe para o templo. Mas a mesma criança terá por missão anunciar e preparar uma nova era. Samuel há-de ungir o primeiro rei de Israel. Ana conceberá e dará à luz um filho. Depois do pranto, virá a oração e a escuta da mesma por Deus. Samuel será uma das maiores figuras vetero-testamentárias de Jesus, no Qual se hão-se realizar as promessas de Deus.

    Evangelho: Mc 1, 14-20

    14Depois de João ter sido preso, Jesus foi para a Galileia, e proclamava o Evangelho de Deus, 15*dizendo: «Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho.» 16*Passando ao longo do mar da Galileia, viu Simão e André, seu irmão, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. 17E disse-lhes Jesus: «Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens.» 18Deixando logo as redes, seguiram-no. 19Um pouco adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam no barco a consertar as redes, e logo os chamou. 20E eles deixaram no barco seu pai Zebedeu com os assalariados, e partiram com Ele.

    «Acreditai no Evangelho». Estas palavras mostram que Jesus exige ao discípulo uma atitude nova e radical. Vão na mesma linha as duas cenas de vocação. Os discípulos são chamados a um novo êxodo, a um caminho inaudito do evangelho: «Vinde comigo»; «Deixando logo as redes, seguiram-no». Todo este dinamismo parte do olhar e do chamamento de Jesus. Não parte de uma iniciativa voluntarista, moralista ou generosa do homem. Não é o homem que parte ao encontro de Deus. É Deus que vem ao encontro do homem. A Encarnação torna-se possível o seguimento, o caminhar com Jesus, o Filho de Deus feito homem. O seguimento de Jesus implica «deixar» algumas pessoas, algumas coisas, alguns projectos pessoais, o que sempre requer algum sacrifício. Mas é possível, porque o olhar de Jesus precede a tomada dessas decisões. Jesus que passa, vê e chama é a estrutura que possibilita abandonar tudo e segui-l´O. Jesus vem ao nosso encontro para mudar o nosso destino.

    Meditatio

    Um início infeliz não deve levar ao desânimo, mas à esperança. Deus é capaz de transformar em alegria as situações mais tristes. A esterilidade de Ana, que lhe causava tanto sofrimento interior e exterior, que fazia dela uma mulher sem futuro, tornou-se fecundidade feliz. Deus só permite o sofrimento para nos dar bens maiores. Os sofrimentos de Ana eram agravados pela zombaria da sua rival, que com ela ia ao templo. Também hoje encontramos pessoas que, cumprindo escrupulosamente os deveres cultuais, não têm igual cuidado nas relações com os irmãos, particularmente com os que sofrem, avivando-lhes as feridas e os sofrimentos. Elcaná, pelo contrário, experimentando no templo a misericórdia e a ternura de Deus, empenha-se em reproduzi-la no seu âmbito familiar e consola a esposa amada. O tempo novo inaugurado pelo Senhor requer comportamentos novos, marcados pela misericórdia. A conversão a que Jesus apela passa também por aí: «arrependei-vos e acreditai no Evangelho» (v. 15). Jesus afirma que «Reino de Deus está próximo» e não que já chegou. Também não fala de batalhas e de vitórias, mas de conversão e de fé. Quem O escuta e se aproxima d´Ele, entra no Reino; quem não se converte, quem não se volta para Deus, e permanece agarrado às suas ideias sobre o Reino, permanece fora dele. Também nós corremos o risco de nos iludirmos, confundindo o Reino de Deus com vitórias fáceis sobre as dificuldades, com a plena satisfação de todos os nossos desejos. Mas Jesus avisa-nos: «O Reino de Deus não é questão de comida ou bebida, mas de caridade, paz e alegria no Espírito Santo». Para entrar nele, é preciso converter-se e acreditar. Acreditar é uma experiência de vida, é aderir com toda a nossa pessoa a Cristo, porque o Evangelho, antes de ser um livro, uma doutrina, é para nós uma pessoa: Jesus Cristo. O lugar teológico da conversão é o nosso coração, biblicamente entendido como o eu profundo, onde se tomam as decisões existenciais pelo bem e pelo mal, por Cristo ou contra Ele.

    Oratio

    Senhor, o mistério do Natal tornou mais próximo o teu reino, ajudou a nossa fé, porque o teu Filho Jesus se fez nosso companheiro, nosso irmão, convidando-nos com maior insistência a converter-nos e a acreditarmos. Agora está presente no meio de nós o teu Reino, isto é, a caridade, a alegria, a paz. Que nos pode impedir de encontrá-lo? É verdade que ainda não é a sua manifestação plena; mas o Reino de Deus já se dilata dentro de nós para nossa alegria. Que, também entre os povos e nações cresça a justiça, a paz e a alegria. Amen.

    Contemplatio

    O Salvador não vinha oferecer-nos um só meio de salvação, o baptismo, Ele que dizia a S. Pedro que era preciso perdoar setenta vezes sete. Ele também, depois de S. João Baptista, prega a penitência: «Os temp os cumpriram-se, dizia, o Reino de Deus chega! Fazei penitência e crede no Evangelho» (Mc 1, 14). A penitência e a fé não são apenas a condição para entrar na Igreja, mas também para aí viver e perseverar nas vias da salvação. Jesus diz aos discípulos de Emaús: «Era preciso que o Cristo sofresse e ressuscitasse, e que a penitência fosse pregada em toda a parte em seu nome para a remissão dos pecados» (Lc 24, 46). O reino de Cristo sobre a terra é o reino da penitência: penitência para a primeira conversão, penitência para toda a remissão dos pecados (Leão Dehon, OSP 4, p. 217s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavrra «Reino de Deus está próximo» (Mc 1, 15).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • I Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    I Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    13 de Janeiro, 2026

    Tempo Comum - Anos Pares I Semana - Terça-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 1 Samuel 1, 9-20

    Naqueles dias, Ana levantou-se, depois de ter comido e bebido em Silo. O sacerdote Eli estava instalado no seu assento, à entrada do templo do SENHOR. 10Ana, profundamente amargurada, orou ao SENHOR e chorou copiosas lágrimas. 11*E fez um voto, dizendo: «SENHOR do universo, se te dignares olhar para a aflição da tua serva e te lembrares de mim. Se não te esqueceres da tua serva e lhe deres um filho varão, eu o consagrarei ao SENHOR, por todos os dias da sua vida, e a navalha não passará sobre a sua cabeça.» 12Ela repetiu muitas vezes a sua oração diante do SENHOR; Eli observava o movimento dos seus lábios. 13*Ana, porém, falava só para si e apenas movia os lábios, sem se lhe ouvir palavra alguma. 14Eli, julgando-a ébria, disse-lhe: «Até quando durará a tua embriaguez? Vai-te embora e deixa passar o efeito do vinho de que estás cheia.» 15Ana respondeu: «Não é assim, meu senhor; a verdade é que sou uma mulher de espírito atribulado; não bebi vinho nem álcool; apenas estava a desabafar as minhas mágoas na presença do SENHOR. 16*Não tomes a tua serva por alguma das filhas de Belial, porque só a grandeza da minha dor e da minha aflição é que me fez falar até agora.» 17Eli respondeu: «Vai em paz e o Deus de Israel te conceda o que lhe pedes.» 18*Ana respondeu: «Que a tua serva mereça o teu favor.» A mulher foi-se embora, comeu e nunca mais houve tristeza em seu rosto. 19No dia seguinte pela manhã, prostraram-se diante do SENHOR e voltaram para sua casa, em Ramá. Elcana conheceu Ana, sua mulher, e o SENHOR lembrou-se dela. 20*Ana concebeu e, passado o seu tempo, deu à luz um filho, ao qual pôs o nome de Samuel, porque dizia: «eu o pedi ao SENHOR.»

    A Escritura fala-nos de muitas mulheres estéreis: como Sara, Rebeca, Raquel, a mãe de Sansão, e Isabel, mãe de João Baptista. Também Ana, mãe de Samuel, era estéril. Elcaná, seu marido, é compreensivo e incita-a a reagir, a comer, a não ficar triste. Mas Ana, como toda a mulher em Israel, considera a esterilidade um castigo de Deus. Por isso, refugia-se na oração, seu único conforto e esperança. Pede ao Senhor um filho. Fá-lo de modo pessoal, discreto, rezando em voz baixa. Sabe que Deus a escuta. Não se importa com o juízo dos homens, mesmo do sacerdote Eli, porque sabe que Deus perscruta os corações e conhece os seus sentimentos mais íntimos. Ana reza intensamente em seu coração. Faz uma verdadeira oração do coração, onde se encontra com Deus e se abre a Ele, esquecendo tudo quanto a rodeia. O seu coração une-se ao Coração de Deus, entra em comunhão com Ele. E Deus escuta-a. O sacerdote Eli, que começa por confundir Ana com uns tantos casos patológicos que passavam por Silo, acaba por reconhecer a sua humildade e sinceridade. O caso de Ana torna-se, para ele, um sinal de Deus. As suas palavras indicam implicitamente que a oração de Ana fora ouvida. E a mulher, que antes estava triste e amargurada, acolhe serenamente as palavras de Eli: «Vai em paz e o Deus de Israel te conceda o que lhe pedes» (v. 17).

    Evangelho: Mc 1, 21-28

    21*Entraram em Cafarnaúm. Chegado o sábado, veio à sinagoga e começou a ensinar. 22*E maravilhavam-se com o seu ensinamento, pois os ensinava como quem tem autoridade e não como os doutores da Lei. 23*Na sinagoga deles encontrava-se um homem com um espírito maligno, que começou a gritar: 24«Que tens a ver connosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos arruinar? Sei quem Tu és: o Santo de Deus.» 25E Jesus repreendeu-o, dizendo: «Cala-te e sai desse homem.» 26Então, o espírito maligno, depois de o sacudir com força, saiu dele dando um grande grito. 27Tão assombrados ficaram que perguntavam uns aos outros: «Que é isto? Eis um novo ensinamento, e feito com tal autoridade que até manda aos espíritos malignos e eles obedecem-lhe!» 28E a sua fama logo se espalhou por toda a parte, em toda a região da Galileia.

    O povo dava-se conta de que Jesus não se limitava a explicar os profetas anteriores, mas que se apresentava, também ele, como profeta, investido de um poder que lhe vinha de Deus.: ensinava com autoridade e curava os doentes. O ensino de Jesus era verdadeiramente eficaz. Marcos gosta de apresentar Jesus como Mestre: desde o começo do seu evangelho, Jesus é Aquele que ensina. Depois vêm os encontros com o «espírito maligno» (v. 23). Qual é a postura de Jesus diante da crença popular nos demónios? Sabemos quanto horror causavam no homem primitivo as doenças mentais, e sobretudo a epilepsia. O comportamento desses doentes dava a entender que estavam «possessos», que tinha entrado neles outra pessoa, o «espírito maligno». Por isso, o doente mental ou epiléptico, era um ser execrável, que era preciso afastar a golpes e com torturas de toda a espécie. É claro que o núcleo, deste e doutros relatos semelhantes, não é a existência ou a inexistência dos espíritos malignos, mas o comportamento de Jesus diante dessas situações, tais como eram vistas e interpretadas pelos seus contemporâneos: nos Evangelhos, tal como nos Actos do Apóstolos, os demónios são afastados pelo poder de Deus e não por meios mágicos, ou seja com exorcismos dirigidos a um espírito ou pelo recurso a meios materiais. Jesus tem o poder do Reino de Deus e usa-o desde o princípio para evangelizar e para libertar o homem a todos os níveis, também corporal, e de tudo quanto o «possui» e oprime, sem a preocupação de o interpretar, coisa aliás difícil, uma vez que, pela Encarnação, era verdadeiro homem, contextualizado no seu tempo e na sua cultura. Para Marcos, Jesus é o santo de Deus, cujas palavras têm poder divino e, por isso, renovam, transformam e refazem o homem em todas as suas dimensões.

    Meditatio

    Todos somos tentados a ver a provação e o sofrimento como desgraça, isto é, como falta de graça, falta dos favores de Deus e, por isso mesmo, também como ausência ou morte do próprio Deus. Ana parece partilhar desta mentalidade perante a sua esterilidade; por isso pede a Deus a graça, o dom de um filho. Mas a aflição pode tornar-se ocasião de graça, por exemplo, de uma oração mais intensa. Ana rezava e chorava, diz o texto. As lágrimas reforçavam a sua oração e provocavam uma relação mais íntima e profunda com Deus. Que mais é preciso para demonstrar a fecundidade da provação e do sofrimento? Mas, no caso de Ana, verificamos outro fruto da provação: o dom e a oferta a Deus. Ana faz voto de oferecer a Deus o filho que lhe for dado. Parece haver incoerência nas palavras de Ana: «se te dignares olhar para a aflição da tua serva e te lembrares de mim, se não te esqueceres da tua serva e lhe deres um filho varão, eu o consagrarei ao SENHOR, por todos os dias da sua vida» (v. 11). Mas é a oferta de Ana que provoca o dom de Deus; a aflição leva a uma troca de dons, torna-se meio de comunhão. O evangelho realça a autoridade, a decisão e a clareza da palavra de Jesus. Essa palavra é luz e eficácia também diante dos espíritos malignos. As palavras humanas de Jesus manifestam-n´O como Palavra divina, que liberta o homem da servidão do demónio, o cura e lhe confere uma vida serena. A Palavra de Deus incarnada liberta o homem de toda a espécie de males. Por isso, a nova criação, realizada pelo próprio Deus, exclui o sofrimento. Todavia, no momento presente, o homem ainda continua a participar na luta dramática contra o mal, deve atravessar o deserto do sofrimento. Mas não caminha só. Deus vai com o homem e dá-lhe tudo quanto precisa para transformar o sofrimento em ocasião de graça. «A vida reparadora será, por vezes, vivida na oferta dos sofrimentos suportados com paciência e abandono, mesmo na noite escura e na solidão, como eminente e misteriosa comunhão com os sofrimentos e com a morte de Cristo pela redenção do mundo. «Alegro-me nos sofrimentos suportados por vossa causa e completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja"»(Col 1,24) (Cst 24).

    Oratio

    Senhor Jesus, Tu falas com autoridade. A tua palavra divina é fundamento seguro para a minha vida. Apoiado nela, deixo de ser criança, deixo de ser batido pelas ondas e levado por qualquer vento de doutrina, ao sabor do jogo dos homens, da astúcia que maliciosamente leva ao erro, e posso testemunhar a verdade no amor, crescer em tudo para Ti, que és a cabeça da nova humanidade. Sobre a tua palavra, sobre Ti, que és a Rocha eterna, quero construir a minha vida, viver a minha vocação e realizar a minha missão. Em quem mais me poderei apoiar? Só Tu tens palavras de vida eterna. Por isso te abro hoje a minha mente e o meu coração. Ilumina a minha caminhada, dá suporte à minha vida. Assim serei verdadeiro filho do Pai, verdadeiro filho da luz, como são aqueles que realmente se encontram Contigo. Amen.

    Contemplatio

    «Porque me chamais: Senhor! Senhor! E não fazeis o que eu digo?» (Lc6, 46). «Muitos me dirão no juízo: Senhor! Senhor! Não profetizámos em vosso nome, não expulsámos demónios em vosso nome?». E responder-lhes-ei na presença de todos: «Nunca vos conheci! Retirai-vos de mim, operários da iniquidade!» (Mt 7). - «Quem vem a mim, escuta as minhas palavras e as põe em prática, comparo-o ao homem sábio, que cava fundamentos profundos e constrói a sua casa sobre a rocha; a chuva cai, as correntes transbordam, os ventos sopram e se desencadeiam com furor sobre aquela casa; ela não cai nem mesmo é abalada, porque os seus fundamentos repousam sobre a rocha. - Mas se alguém escuta as minhas palavras e as não mete em prática, comparo-o a um insensato que constrói a sua casa sobre a areia, sem fundações; vêm a chuva, as torrentes, os ventos furiosos: a casa desmorona-se imediatamente e não é mais do que um montão de ruínas» (Lc 6; Mt 7). O sólido fundamento é Jesus. É preciso que nos mantenhamos unidos a Ele pelo pensamento, pelo coração e por uma acção incessante (Leão Dehon, OSP 4, p. 99).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra: «Completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja» (Cl 1, 24).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • I Semana - Quarta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    I Semana - Quarta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    14 de Janeiro, 2026

    Tempo Comum - Anos Pares I Semana - Quarta-feira Lectio

    Primeira leitura: 1 Samuel 3, 1-10.19-20

    Naqueles dias, 1O jovem Samuel servia o Senhor sob a direcção de Eli. O Senhor, naquele tempo, falava raras vezes e as visões não eram frequentes. 2Ora certo dia aconteceu que Eli estava deitado, pois os seus olhos tinham enfraquecido e mal podia ver. 3A lâmpada de Deus ainda não se tinha apagado e Samuel repousava no templo do Senhor, onde se encontrava a Arca de Deus. 4O Senhor chamou Samuel. Ele respondeu: «Eis-me aqui.» 5Samuel correu para junto de Eli e disse-lhe: «Aqui estou, pois me chamaste.» Disse-lhe Eli: «Não te chamei, meu filho; volta a deitar-te.» 6O Senhor chamou de novo Samuel. Este levantou-se e veio dizer a Eli: «Aqui estou, pois me chamaste.» Eli respondeu: «Não te chamei, meu filho; volta a deitar-te.» 7Samuel ainda não conhecia o Senhor, pois até então nunca se lhe tinha manifestado a palavra do Senhor. 8Pela terceira vez, o Senhor chamou Samuel, que se levantou e foi ter com Eli: «Aqui estou, pois me chamaste.» Compreendeu Eli que era o Senhor quem chamava o menino e disse a Samuel: 9«Vai e volta a deitar-te. Se fores chamado outra vez, responde: «Fala, Senhor; o teu servo escuta!» Voltou Samuel e deitou-se. 10Veio o Senhor, pôs-se junto dele e chamou-o, como das outras vezes: «Samuel! Samuel!» E Samuel respondeu: «Fala, Senhor; o teu servo escuta!» 19Samuel ia crescendo, o Senhor estava com ele e cumpria à letra todas as suas predições. 20Todo o Israel, desde Dan até Bercheba, reconheceu que Samuel era um profeta do Senhor.

    Samuel é uma das figuras mais significativas do Antigo Testamento, uma figura plurifacetada: sacerdote, profeta e juiz. É protagonista da transição da fase das tribos para o regime monárquico. A vocação de Samuel está enquadrada num contexto de simplicidade e sublimidade, serenidade e dramatismo, silêncio e eloquência, quietude e dinamismo. A mãe tinha-o oferecido a Deus para o serviço do templo. Aí permaneceu silencioso e escondido durante alguns anos. Agora o Senhor chama-o, durante a noite, - «A lâmpada de Deus ainda não se tinha apagado e» v. 3, - tempo propício para a revelação, pois não havia o ruído das coisas, descansavam os sentidos do corpo e estavam mais sensíveis os da alma. O Senhor chama três, quatro vezes: «Samuel! Samuel!». Um chamamento divino nunca é anónimo. Dirige-se sempre a uma pessoa concreta, a uma pessoa que Deus ama. Samuel ainda não é capaz de reconhecer imediatamente a voz de Deus. Por isso, o Senhor usa uma pedagogia adaptada: chama gradualmente, dá tempo ao homem, repete o chamamento... À terceira vez, entra em cena um intermediário, Eli, que ajuda Samuel a reconhecer a voz de Deus. As mediações humanas são importantes para sairmos da dúvida, da incerteza. Samuel escuta Eli e faz-se totalmente disponível para Deus: «Fala, Senhor; o teu servo escuta!» (v. 9). Samuel evoca, em várias situações, a figura de João Baptista. Lucas sublinha esses paralelismos: em ambos os casos estamos em ambiente sacerdotal, e ambas as anunciações acontecem no santuário; nos dois casos, as mães são estéreis e os filhos são consagrados nazireus Lc 1, 7. 15-17.25. Mas o mais forte paralelismo talvez esteja no facto de ambos anunciarem uma nova fase da história da salvação. João Baptista é o último dos profetas e anuncia a plenitude dos tempos. Samuel é o primeiro dos profetas e consagra os inícios da monarquia, onde ocupa papel de destaque a dinastia de David, da qual havia de nascer o Messias.

    Evangelho: Mc 1, 29-39

    Naquele tempo, 29saindo da sinagoga, foram para casa de Simão e André, com Tiago e João. 30A sogra de Simão estava de cama com febre, e logo lhe falaram dela. 31Aproximando-se, tomou-a pela mão e levantou-a. A febre deixou-a e ela começou a servi-los. 32À noitinha, depois do sol-pôr, trouxeram-lhe todos os enfermos e possessos, 33e a cidade inteira estava reunida junto à porta. 34Curou muitos enfermos atormentados por toda a espécie de males e expulsou muitos demónios; mas não deixava falar os demónios, porque sabiam quem Ele era. 35De madrugada, ainda escuro, levantou-se e saiu; foi para um lugar solitário e ali se pôs em oração. 36Simão e os que estavam com Ele seguiram-no. 37E, tendo-o encontrado, disseram-lhe: «Todos te procuram.» 38Mas Ele respondeu-lhes: «Vamos para outra parte, para as aldeias vizinhas, a fim de pregar aí, pois foi para isso que Eu vim.» 39E foi por toda a Galileia, pregando nas sinagogas deles e expulsando os demónios.

    Jesus rompe com o estilo nos rabinos, na sua relação com as mulheres. Aproxima-se da sogra de Pedro, toma-a pela mão, cura-a e, maior novidade ainda, deixa-se servir por ela. Assim inverte todos os parâmetros das relações sociais, dando ao «serviço» um novo estilo e um novo conteúdo. «Servir» é a essência do programa messiânico de Jesus, que está no meio de nós como «quem serve» (Lc 22, 27). É também a característica fundamental que Jesus deixa aos discípulos, antes de morrer. Neste sentido, a sogra de Pedro, torna-se protótipo do crente libertado e que pode oferecer o seu serviço aos irmãos. Depois de um dia cheio de trabalho e de êxitos apostólicos, Jesus não se deixa levar pelo entusiasmo do povo, mas refugiou-se no deserto para se encontrar a sós com o Pai e orar. Aí encontra a força necessária para dizer a Pedro: «Vamos para outra parte». Jesus não se detém a saborear os êxitos apostólicos. Parte para que a Boa Nova chegue a todo o lado, também às pequenas aldeias perdidas na acidentada geografia da Galileia.

    Meditatio

    A Liturgia de hoje leva-nos a reflectir sobre a importância da busca da vontade de Deus, e da sua realização, na vida dos crentes. Discernir a vontade de Deus, saber claramente o que devemos fazer na nossa vida, e em cada um dos seus momentos, é um desafio nem sempre fácil de realizar. O próprio Jesus nos faz ver essa dificuldade: deve tomar a decisão de partir para um tempo de oração no deserto, quando todos O procuravam (cf. v. 37) e exigiam a sua atenção e cuidados. Mas Jesus compreendeu que não devia ficar em Cafarnaúm, mas partir a pregar a Boa Nova noutras aldeias e cidades. O Evangelho mostra-nos que a decisão clara e serena de Jesus se baseia na oração: «De madrugada, ainda escuro, levantou-se e saiu; foi para um lugar solitário e ali se pôs em oração» (v. 35). Não se diz que rezava para conhecer a vontade do Pai, mas simplesmente que rezava, de madrugada, apesar do cansaço do dia anterior. Assim compreendemos quanto é importante rezar para fazer um bom discernimento da vontade de Deus a nosso respeito. Esta oração deve ser assídua, independentemente dos problemas que vão surgindo na nossa vida. O clima de união com Deus e de oração, propício ao bom discernimento, não pode ser criado apenas no momento em que &e acute; preciso tomar decisões. Podemos certamente, para uma decisão concreta, pedir a luz de Deus que, na sua misericórdia nos pode escutar. Mas se não vivermos em clima de permanente união com Deus, corremos o risco de não sabermos discernir a sua vontade, porque não estamos no mesmo cumprimento de onda que Ele. Além disso, as nossas más inclinações podem levar-nos por caminhos que não são os de Deus. Pode haver momentos em que devemos procurar a vontade de Deus na oração durante um tempo mais prolongado. Mas, se vivermos em união habitual com Ele, rezaremos com a absoluta certeza de que nos vai escutar e dar a sua luz, porque habitualmente procuramos conhecer e cumprir a sua vontade. Samuel ainda não conhecia o Senhor, nem recebera a revelação da sua palavra. Por isso, Deus tem de chamá-lo repetidamente, até que o menino ponha de parte a interpretação espontânea da voz que escutava e reconheça a voz do Senhor na oração. Isto também nos interessa. Havemos de aprender a rezar, a escutar a Deus na oração, em cada uma das fases da nossa vida. A história desta criança que não reconhece a voz de Deus, e se julga chamado pelo sacerdote Eli, repete-se muitas vezes na vida de cada um de nós. Temos que aprender a escutar, a conhecer e a reconhecer a voz do Senhor desde pequeninos. Mas, ao longo da vida, devemos reaprendê-lo várias vezes, porque Deus não fala sempre do mesmo modo, nas diversas fases da nossa vida. Como Samuel, também nós precisaremos da orientação de alguém mais experimentado nas coisas de Deus, de um director espiritual, para não corrermos o risco de fazermos falsas interpretações da sua voz e da sua vontade. Como todo o cristão, também o religioso deve estar decidido a procurar a vontade de Deus e a pô-la em prática com a ajuda do Espírito. E tudo isto com a santa liberdade dos filhos de Deus. Devemos ter a humilde convicção de que não é sempre fácil conhecer essa vontade, e realizá-la perfeitamente. Daqui nasce a exigência de ter um irmão mais velho que nos ajude, e de ter o superior, que tem o carisma, recebido do Espírito, para guiar. Se Deus nos chamou para a vida religiosa comunitária, certamente nos deu os meios para a vivermos. Um destes meios é o serviço do superior. Nem sempre os conteúdos de uma obediência são, com absoluta certeza, vontade de Deus. Mas, se não estiverem em contradição com a Sua lei, é certamente vontade de Deus que obedeçamos, convencidos de que "Deus faz com que tudo concorra para o bem daqueles que O amam" (Rm 8, 28).

    Oratio

    Senhor Jesus, Samuel, na disponibilidade conquistada, depois de algum esforço, dispôs-se a cumprir a vontade de Deus na sua vida. Tu próprio, diante das solicitações concretas do teu ambiente de vida, privilegiaste a missão recebida do Pai. Infunde em mim o teu Espírito Santo, que me una intimamente a Ti, reze em mim e anime a minha oração, para que esteja sempre disponível a procurar e a cumprir a vontade do Pai. Como a Virgem de Nazaré, quero dizer-te hoje: «Faça-se em mim segundo a tua palavra». O teu projecto de salvação enche-me de admiração e alegria. Na verdade, fizeste em mim maravilhas e, com a minha humilde colaboração, queres fazê-las em todos os homens e mulheres da terra. Mostra-me o que queres que faça nesse projecto de amor: Eis-me aqui, Senhor; faça-se em mim segundo a tua vontade.

    Contemplatio

    As palavras, as inspirações divinas não merecem esta docilidade do nosso coração? Os mistérios da sua vida, as suas acções, os seus sofrimentos são dignos da consideração respeitosa que nos pede e do nosso respeito humilde e religioso. Se soubéssemos a paz, a alegria, as luzes de espírito, que encontraríamos nesta união, nesta intimidade respeitosa com Nosso Senhor! Se conhecesses o dom de Deus! Recordemos os exemplos dos Santos. Job encontrava a sua consolação na sua humilde submissão à vontade de Deus e na sua docilidade às palavras divinas. A minha consolação consiste, dizia, em aceitar os castigos divinos e não contradizer a palavra divina. Samuel ainda criança agradava a Deus pela sua docilidade: «Falai, Senhor, dizia, o vosso servo escuta» (1Sam 3). David dizia: «Por muito que me custe e mesmo que as ordens divinas sejam severas, escutarei a palavra divina» (Sl 16, 4). Santo Agostinho dizia: «Aquele que escuta a palavra de Deus com negligência é tão culpável como aquele que deixasse cair por terra o corpo de Jesus Cristo por sua culpa» (Hom 26). Para nós, os amigos e os devotos do Sagrado Coração, esta docilidade não é mais fácil e mais consoladora ainda? É ao Coração de Jesus que vamos buscar directamente a luz, a graça e a força. O Coração de Jesus abriu-se para nos revelar os seus sentimentos, os seus desejos, as suas alegrias, as suas tristezas, as suas promessas: Haurietis aquas in gaudio de fontibus Salvatoris (Leão Dehon, OSP 4, p. 571).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra: «Fala, Senhor; o teu servo escuta!» (1 Sam 3, 9).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • I Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    I Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    15 de Janeiro, 2026

    Tempo Comum - Anos Pares I Semana - Quinta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 1 Samuel 4, 1-11

    1A palavra de Samuel foi dirigida a todo o Israel. Israel saiu ao encontro dos filisteus para lhes dar combate. Acamparam junto de Ében-Ézer e os filisteus acamparam em Afec. 2Os filisteus puseram-se em linha de combate frente a Israel, e começou a batalha. Israel foi vencido pelos filisteus, que mataram em combate cerca de quatro mil homens. 3O povo voltou ao acampamento e os anciãos de Israel disseram: «Porque é que o Senhor nos derrotou hoje diante dos filisteus? Vamos a Silo e tomemos a Arca da aliança do Senhor, para que Ele esteja no meio de nós e nos livre da mão dos nossos inimigos.» 4O povo mandou, pois, buscar a Silo a Arca da aliança do Senhor do universo, que se senta sobre querubins. Os dois filhos de Eli, Ofni e Fineias, acompanhavam a arca. 5Quando a Arca da aliança do Senhor chegou ao acampamento, todo o Israel lançou um grande clamor, que fez a terra tremer. 6Os filisteus, ouvindo-o, disseram: «Que significa este grande clamor no acampamento dos hebreus?» Souberam que a Arca do Senhor havia chegado ao acampamento. 7Tiveram medo e disseram: «O Deus deles chegou ao acampamento. Ai de nós! Até agora nunca se ouviu coisa semelhante. 8Ai de nós! Quem nos salvará da mão desse Deus excelso? É aquele Deus que feriu os egípcios com toda a espécie de pragas no deserto. 9Coragem, ó filisteus! Portai-vos varonilmente, não suceda que sejais escravos dos hebreus como eles o são de vós. Esforçai-vos e combatei.» 10Começaram a luta; Israel foi derrotado e todos fugiram para as suas casas. O massacre foi tão grande que ficaram mortos trinta mil homens de Israel. 11A Arca de Deus foi tomada, e os dois filhos de Eli, Hofni e Fineias, pereceram.

    Os filisteus chegaram a Canaã quase ao mesmo tempo que os filhos de Israel. Dispunham de uma técnica superior à deles: conheciam a forja para trabalhar metais e eram os únicos que tinham armas desse tipo. Por isso, apesar de serem menores em número, os filisteus foram um problema sério para Israel. Mas o centro de interesse do nosso texto não é de ordem militar, mas teológico. O centro das atenções é a Arca e, em última análise, Deus, de quem a Arca é expressão sensível. No primeiro recontro os filisteus bateram Israel. Os anciãos deram a culpa ao Deus da Aliança: «Porque é que o Senhor nos derrotou hoje diante dos filisteus?» (v. 39). O povo não se resigna e põe Deus à prova: «Vamos a Silo e tomemos a Arca da aliança do Senhor, para que Ele esteja no meio de nós e nos livre da mão dos nossos inimigos» (v. 39). Mas, ao desencadear-se uma nova batalha, Israel sofre uma nova e terrível derrota. A própria Arca é roubada pelos filisteus. Os filhos de Eli são mortos em combate e o próprio sacerdote cai morto ao receber a notícia da completa derrota. Parece o fim. Mas Deus, fiel às suas promessas, estava atento e tinha uma reserva de esperança: Samuel. Dali para a frente, o filho de Elcaná e de Ana torna-se o representante do povo santo e leva consigo o destino da nação. Este episódio encerra várias lições. Sublinhemos apenas duas: a Aliança inclui privilégios, mas também exigências; a Arca, o Templo, os «sacramentos», não são meios mágicos para pôr Deus a nosso serviço.

    Evangelho: Mc 1, 40-45

    Naquele tempo, 40um leproso veio ter com Ele, caiu de joelhos e suplicou: «Se quiseres, podes purificar-me.» 41Compadecido, Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: «Quero, fica purificado.» 42Imediatamente a lepra deixou-o, e ficou purificado. 43E logo o despediu, dizendo-lhe em tom severo: 44«Livra-te de falar disto a alguém; vai, antes, mostrar-te ao sacerdote e oferece pela tua purificação o que foi estabelecido por Moisés, a fim de lhes servir de testemunho.» 45Ele, porém, assim que se retirou, começou a proclamar e a divulgar o sucedido, a ponto de Jesus não poder entrar abertamente numa cidade; ficava fora, em lugares despovoados. E de todas as partes iam ter com Ele.

    A lepra era uma doença aterradora, porque excluía da comunhão com o povo de Deus: «Impuro! Impuro!» gritava o leproso, à distância, para que ninguém dele se aproximasse (Lev 13, 45). Os rabinos consideravam o leproso como um morto. A sua cura era tão improvável como a ressurreição. No texto que escutámos, o leproso atreve-se a aproximar-se de Jesus. E Jesus acolhe-o e toca-o, contra as normas vigentes. As leis só obrigam na medida em que concorrem para o bem do homem. É um tema que irá repetir-se ao longo do segundo evangelho e em Paulo. Pode haver momentos em que o cristão, levado pela sua consciência humanizadora, tenha de recorrer à «objecção de consciência». Operada a cura, Jesus manda ao leproso que não faça publicidade dela, mas se apresente aos sacerdotes para que o reintegrem na comunidade. O objectivo da cura não era fazer publicidade apologética, mas reintegrar o marginalizado. A salvação já não se encontra na separação e na marginalização, mas na reintegração porque, com Jesus, entrou no mundo o próprio poder salvífico de Deus, que se põe do lado dos pobres e dos últimos da sociedade dos homens. A nova sociedade inaugurada por Jesus não marginaliza ninguém, não separa, não exclui, porque Jesus aboliu o sistema que separava o puro do impuro tal como o entendia o mundo judaico. O cristão é um homem livre para Deus e para os outros. A Igreja deve estar na linha da frente para que a liberdade se torne real para todos os homens.

    Meditatio

    A primeira leitura mostra-nos que é possível iludir-nos com uma falsa confiança em Deus. Isso pode acontecer se mantivermos com Ele uma relação religiosa simplesmente aparente, expressa por um aparato cultual mais ou menos sofisticado, ou pela simples declaração de boas intenções. A verdadeira relação com Deus exige honestidade, ausência de fingimento. Os hebreus, vencidos pelos filisteus, vão buscar a Arca da Aliança, esperando que a sua presença lhes alcance a vitória. Mas acontece o pior: além de perderam a batalha, perdem também a Arca, que é roubada pelos filisteus. A sua confiança foi completamente frustrada. Toda estas desgraças já tinham sido anunciadas a Samuel: Deus tinha dito ao jovem que não estava contente com o culto que Lhe era prestado. Os próprios filhos do sacerdote Eli desonravam o Senhor, com o seu mau comportamento. Teria de haver um castigo. E houve. Diante da infidelidade do povo de Deus, de nada serviu a própria Arca da Aliança. Não se pode viver na infidelidade e esperar uma intervenção milagrosa de Deus, quando surge um problema. É preciso viver em comunhão permanente com Ele, buscando e realizando a sua vontade, servindo-o generosamente. Dizendo isto, será bom lembrar que, apesar de tudo, a nossa confiança em Deus nunca é frustrada, mesmo quando sofremos as consequências dos nossos pecados. Mas não havemos de esperar intervenções miraculosas de Deus quando merecemos a provação. Deus não deixará de escutar as nossas preces, e de actuar, mas não necessariamente para nos livrar das tribulações justamente merecidas. No caso de que nos fala a leitura, os filisteus levam a Arca da Aliança, coisa ainda mais dramática para os hebreus do que a própria derrota militar. Perdendo a Arca, que mantinha unido o povo, parecia ter chegado o fim do mesmo povo. Mas não é o que acontece. Os filisteus são atingidos por várias desgraças e vêem-se obrigados a devolver a Arca. E assim começa a história do Templo de Jerusalém. A Arca é primeiramente colocada em Silo. Mas quando David conquista Jerusalém é levada para lá. Assim, com uma derrota, começa a história do triunfo do Templo de Jerusalém, de David, da prosperidade de Israel, das maiores promessas de Deus ao seu povo. É bom manter sempre a confiança em Deus, mesmo quando nos abandona às consequências do nosso pecado. Quando menos esperamos, pode abrir-nos horizontes que jamais teríamos sonhado. Para o P. Dehon, o culto a prestar a Deus há-de ser um "culto de amor e de reparação", um culto que envolve "toda a vida" (Cst. 7), transformando-a numa "missa permanente" (Cst. 5). É esse culto que nos cura da lepra do pecado e cura a humanidade, reunindo-a no Corpo de Cristo e consagrando-a para Glória e Alegria de Deus (cf. Cst 25).

    Oratio

    Pai santo, animados pelo teu Espírito, oferecemo-nos a Ti, em união com o Sagrado Coração de Jesus, para vivermos a sua oblação como resposta ao teu amor. Consagramos-Te a nossa vida, orações e acções, alegrias e sofrimentos, como sacrifício de amor e reparação. Eis-nos aqui, ó Pai, para fazermos a tua vontade. Amen.

    Contemplatio

    Nosso Senhor, ao apresentar-se aos doentes ou ao atraí-los a si pela sua incomparável bondade, exigia apenas uma condição para os curar: uma confiança absoluta n'Ele. S. João Baptista, não operando milagres, contentava-se em pregar a penitência com o zelo de Elias. Mas aquele que tinha vindo para salvar o que estava perdido exigia antes de tudo a confiança. Ao leproso que se prostra cheio de confiança diante d'Ele, dizendo: «Senhor, se quiseres, podes curar-me», apressa-se a responder: «Quero, fica curado». A outros, que lhe pedem socorro para si ou para os seus filhos, diz: «Credes? Tendes confiança? Tudo é possível a quem crê». E o pobre pai da criança endemoninhada exclama então: «Eu creio, Senhor, ajuda a minha incredulidade». Se estes judeus carnais tinham confiança bastante para obter a sua cura, que diremos nós dos cristãos dos nossos dias, dos cristãos piedosos que não têm nenhuma ou que a têm tão fraca que não persevera? Mas nós, apóstolos do Sagrado Coração, que opera tantas maravilhas no meio de nós, se nos faltasse a confiança, isso seria um ultraje considerável para com este divino Coração, seria dizer-lhe: «Não, vós não sois assim tão bom, nem poderoso bastante, e eu não confio em vós. Por conseguinte não vos amo». Esta blasfémia implícita não deixaria afastar de nós a sua divina misericórdia. A confiança e o amor mantêm-se bem perto. Aquele que ama é amado e não duvida da bondade do seu amigo (Leão Dehon, OSP 2, p. 282).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra: «Senhor, se quiseres, podes purificar-me» (Mc 1, 40).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • I Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    I Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    16 de Janeiro, 2026

    Tempo Comum - Anos Pares I Semana - Sexta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 1 Samuel 8, 4-7.10-22a

    Naqueles dias, 4Reuniram-se todos os anciãos de Israel e vieram ter com Samuel a Ramá. 5Disseram-lhe: «Estás velho e os teus filhos não seguem as tuas pisadas. Dá-nos um rei que nos governe, como têm todas as nações.» 6Esta linguagem - 'dá-nos um rei que nos governe' - desagradou a Samuel, que se pôs em oração diante do Senhor. 7O Senhor disse-lhe: «Ouve a voz do povo em tudo o que te disser, pois não é a ti que eles rejeitam, mas a mim, para que Eu não reine mais sobre eles.10Referiu Samuel todas as palavras do Senhor ao povo que lhe pedia um rei. 11E disse: «Eis como será o poder do rei que vos há-de governar: tomará os vossos filhos para guiar os seus carros e a sua cavalaria e para correr diante do seu carro. 12Fará deles chefes de mil e chefes de cinquenta, empregá-los-á nas suas lavouras e nas suas colheitas, na fabricação das suas armas e dos seus carros. 13Tomará as vossas filhas como suas perfumistas, cozinheiras e padeiras. 14Há-de tirar-vos também o melhor dos vossos campos, das vossas vinhas e dos vossos olivais, e dá-los-á aos seus servidores. 15Cobrará ainda o dízimo das vossas searas e das vossas vinhas, para o dar aos seus cortesãos e ministros. 16Tomará também os vossos servos, as vossas servas, os melhores entre os vossos mancebos e os vossos jumentos, para os colocar ao seu serviço. 17Cobrará igualmente o dízimo dos vossos rebanhos. E vós próprios sereis seus servos. 18Então, clamareis por causa do rei que vós mesmos escolhestes, mas o Senhor não vos ouvirá.» 19Porém, o povo não quis ouvir a voz de Samuel. Disse: «Não! Precisamos de ter o nosso rei! 20Queremos ser como todas as outras nações; o nosso rei administrará a justiça, marchará à nossa frente e combaterá por nós em todas as guerras.» 21Samuel ouviu todas as palavras do povo e referiu-as ao Senhor. 22Então, o Senhor disse: «Faz o que te pedem e dá-lhes um rei.»

    Em Israel existiam duas correntes: uma a favor da monarquia e outra contra a monarquia. Acabou por vencer a corrente favorável à monarquia e Deus, diríamos nós, condescendeu com a nova forma de governo e converteu-a em meio para levar por diante a obra da salvação (cf. 1 Sam 1, 12). A corrente antimonárquica apontava as consequências sociais da instituição da monarquia: enriquecimento da família real e dos nobres à custa do povo, que será cada vez mais pobre. Os profetas apontam o dedo contra esses abusos. Basta lembrar as censuras de Natã a David (2 Sam 12), as de Elias a Acab e Jesabel (1 Re 21). Vários reis favorecem a idolatria, ou não tomam medidas eficazes contra ela. A monarquia pressupõe a secularização da concepção teocrática da comunidade israelita, que assim entra no jogo político do Médio Oriente, facto que trará descalabro e desastres sucessivos. O povo já não confia unicamente em Deus. Quer um rei como as outras nações. Quer certezas, garantias mais evidentes. Só um rei poderá realizar a união das tribos. Deus condescende e exorta Samuel a dar um rei ao povo. As consequências negativas não se fazem esperar. Então, nasce o profetismo. Os profetas censuram com frequência as injustiças, a paganização do culto, a política de alianças com as grandes potências do Médio Oriente. Os autores sagrados fazem uma avaliação pessimista e negativa da instituição monárquica.

    Evangelho: Mc 2, 1-12

    1Dias depois, tendo Jesus voltado a Cafarnaúm, ouviu-se dizer que estava em casa. 2Juntou-se tanta gente que nem mesmo à volta da porta havia lugar, e anunciava-lhes a Palavra. 3Vieram, então, trazer-lhe um paralítico, transportado por quatro homens. 4Como não podiam aproximar-se por causa da multidão, descobriram o tecto no sítio onde Ele estava, fizeram uma abertura e desceram o catre em que jazia o paralítico. 5Vendo Jesus a fé daqueles homens, disse ao paralítico: «Filho, os teus pecados estão perdoados.» 6Ora estavam lá sentados alguns doutores da Lei que discorriam em seus corações: 7«Porque fala este assim? Blasfema! Quem pode perdoar pecados senão Deus?» 8Jesus percebeu logo, em seu íntimo, que eles assim discorriam; e disse-lhes: «Porque discorreis assim em vossos corações? 9Que é mais fácil? Dizer ao paralítico: 'Os teus pecados estão perdoados', ou dizer: 'Levanta-te, pega no teu catre e anda'? 10Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar os pecados, 11Eu te ordeno - disse ao paralítico: levanta-te, pega no teu catre e vai para tua casa.» 12Ele levantou-se e, pegando logo no catre, saiu à vista de todos, de modo que todos se maravilhavam e glorificavam a Deus, dizendo: «Nunca vimos coisa assim!»

    A «palavra», em Jesus, consiste em «falar» e em «fazer». Por isso, as curas realizadas por Jesus são «palavra». Marcos, depois de nos dizer que Jesus «anunciava a palavra» (v. 2), oferece-nos um exemplo plástico dessa «palavra actuante». O foco da narrativa que ouvimos está nas palavras: «para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar os pecados...». O milagre confirma o poder de reconciliação com Deus reivindicado por Jesus. A atenção é mudada de um mal físico para um mal mais profundo, o pecado, que paralisa o homem, impedindo-o de avançar segundo o projecto de Deus. Os escribas compreendem o alcance das palavras de Jesus. Mas não estão dispostos a aceitar uma tal «blasfémia», porque só Deus pode perdoar os pecados. Jesus reage reforçando a sua afirmação: «Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar os pecados, Eu te ordeno: levanta-te» (vv. 10-11). O milagre é sinal do poder de Jesus. A cura do paralítico é uma síntese da palavra pregada por Jesus. O reino de Deus está próximo, porque Deus decidiu oferecer o seu perdão aos homens. Esse perdão introduz o homem todo, corpo e espírito, na salvação.

    Meditatio

    O povo de Israel confiava no poder de um rei que realizasse a união das tribos, promovesse o bem-estar de todos e conduzisse os exércitos contra os seus inimigos. Deus condescende. Exorta Samuel a dar um rei ao povo, mas o Seu plano vai por diante e há-de surpreender aqueles que confiavam mais na ajuda humana do que na ajuda divina. O evangelho mostra-nos a diferença entre a ajuda que vem dos homens e a ajuda oferecida por Deus. Os quatro amigos do paralítico puseram-no num catre e levaram-no a Jesus. Que mais podiam fazer? Por sua vez, Jesus faz o que só Deus pode fazer pelo homem: «levanta-te, pega no teu catre e vai para tua casa» (v. 11). O Senhor cura o doente da paralisia e do pecado: «os teus pecados estão perdoados» (v. 5). O poder de Deus, manifestado em Jesus, transforma totalmente o paral& iacute;tico, que recupera as forças para carregar o catre e assumir responsabilidades: «levanta-te, pega no teu catre e vai para tua casa» (v. 11). O homem redimido pelo poder de Deus torna-se capaz de viver de acordo com a sua nova condição. O evangelho alerta-nos para o poder da palavra eficaz de Deus, que ultrapassa os limites do poder humano em que, tantas vezes, pomos a nossa confiança: perdoar os pecados é muito mais do que a cura de uma paralisia. Os escribas estavam limitados pela imagem de Deus, que eles mesmos tinham criado. Por isso, não estavam para acolher a força libertadora do Reino. Também nós não devemos deixar-nos condicionar pela rigidez das formas mentais e das instituições humanas, mas estar abertos para acolher a presença activa de Deus que, com gestos gratuitos e inesperados, vem ao encontro dos nossos limites. O primeiro acto de amor, a primeira humildade e, portanto, liberdade consiste em aceitar-nos como somos, em ter confiança em nós mesmos para termos confiança em Deus: "Não temas Abraão, Eu sou o teu escudo..." (Gn 15, 1); "Com o meu Deus saltarei muralhas" (cf. Sl 18(17), 30. Moisés fez brotar água do rochedo (cf. Ex 17, 1-7); também das tuas incapacidades e fraquezas Deus pode fazer brotar a vida. O importante é não dobrar-nos sobre nós mesmos, não ficar a chorar por causa das nossas fraquezas, dos nossos limites, não deixar de procurar a Deus, também na obscuridade, também tropeçando. Então não conta o que és, mas o que procuras ser, como S. Agostinho, experimentarás que Deus nunca esteve tão próximo de ti como quando O procuras. Só, vales certamente pouco; mas, com Deus, podes fazer muito. Se te sentes mais um vale do que um monte, lembra-te que também os vales dão glória a Deus. Deus pode mudar o "vale de lágrimas numa fonte de água" (Sl 84(83), 14).

    Oratio

    Pai, quero hoje pedir-te uma fé capaz de abrir telhados, de fazer descer o catre, em que jazo tomado de tristeza, até ao âmago da vida, ao coração da história, para me encontrar diante de Jesus. Perdoado e curado por Ele, poderei regressar a casa, ser restituído a mim mesmo e aos meus e cooperar eficazmente na construção do Reino. Como aqueles homens, que ajudaram o paralítico, quero fazer o que estiver ao meu alcance para que todos possam encontrar-se com Jesus, teu Filho, para serem perdoados e curados pelo poder eficaz da sua palavra salvadora. Amen.

    Contemplatio

    Não é um doente de longe em longe que Nosso Senhor cura, opera curas em massa e em grande número. Em Cafarnaúm, impõe as mãos a todos os doentes que lhe apresentam e todos são curados (Lc 4, 40). Algum tempo depois teve lugar esta cena tão comovente: uma multidão considerável seguiu-o ao longo do lago. A sua habitação é assaltada por esta multidão que lhe apresenta um grande número de doentes. Uma virtude miraculosa saía dele para os curar. Chegam a descobrir o tecto da casa, para chegarem a apresentar ao Salvador um paralítico estendido sobre um catre. O Salvador, tocado pela sua fé cura ainda este doente depois de todos os outros (Lc 3). Na primeira Páscoa, opera tantos milagres que um grande número de Judeus é conquistado para a fé (Jo 2, 23). Na sua primeira missão na Galileia, Nosso Senhor cura toda a fraqueza e toda a enfermidade (Mt 4). Sobre o Monte das Bem-aventuranças, multidões de infortunados doentes, vindos da Judeia e mesmo de Tiro e de Sídon, são curados apenas pelo toque do seu manto. Antes da primeira e da segunda multiplicação dos pães, Jesus cura primeiro as multidões dos doentes e de enfermos que se comprimem à sua volta. Desde o início das missões de Pereia, Nosso Senhor renova os milagres das missões de Galileia, e em cada etapa são curas tão extraordinárias como numerosas (Mt 19). «Por toda a parte aonde Jesus chegasse, diz-nos S. Marcos, nas aldeias e nas cidades colocavam os doentes no meio das praças públicas, pedindo-lhe que lhes permitisse tocarem ao menos na borda do seu manto. E todos os que lhe tocavam eram curados» (Mt 6). Os apóstolos, enviados pelo Mestre, operam em todos os lugares em seu nome os mesmos prodígios (Mt 11). Mesmo no dia dos Ramos, vemo-lo curar ainda, nos átrios do Templo, os cegos e os coxos que lhe imploram (Mt 21) (Leão Dehon, OSP 4, p. 138s.).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • I Semana - Sábado - Tempo Comum - Anos Pares

    I Semana - Sábado - Tempo Comum - Anos Pares

    17 de Janeiro, 2026

    Tempo Comum - Anos Pares I Semana - Sábado

    Lectio

    Primeira leitura: 1 Samuel 9, 1-4.17-19;10, 1a

    Havia um homem da tribo de Benjamim chamado Quis, filho de Abiel, filho de Seror, filho de Becorat, filho de Afia, filho de um benjaminita, que era um guerreiro forte e valente. 2Tinha um filho chamado Saul, mancebo de bela presença. Não havia em Israel outro mais belo do que ele; sobressaía entre todos dos ombros para cima. 3Tendo-se perdido as jumentas de Quis, pai de Saul, disse ele ao filho: «Toma um criado contigo e vai procurar as jumentas.» 4Atravessaram a montanha de Efraim e entraram na terra de Salisa, sem nada encontrar; percorreram a terra de Chaalim, mas em vão; na terra de Benjamim, tão-pouco as encontraram. 17Quando Samuel viu Saul, o Senhor disse-lhe: «Este é o homem de quem te falei. Ele reinará sobre o meu povo.» 18Saul aproximou-se de Samuel à porta da cidade e disse-lhe: «Rogo-te que me informes onde está a casa do vidente.» 19Respondeu Samuel: «Sou eu mesmo o vidente; sobe na minha frente ao lugar alto, porque hoje comerás comigo, e amanhã te deixarei partir, depois de responder às tuas preocupações. 1Samuel tomou então um frasco de óleo, derramou-o sobre a cabeça de Saul e beijou-o, dizendo: «O Senhor ungiu-te príncipe sobre a sua herança».

    A unção de Saúl por Samuel é o centro do texto um tanto novelesco e folclórico que acabámos de escutar. Com a unção de Saúl, começa a histórica da monarquia em Israel, apesar de ele ter ainda muito de juiz. A monarquia em sentido pleno começará com David. Em perspectiva teológica, merecem realce dois aspectos: o rito da unção e a intervenção de Samuel como ministro da mesma. A unção é um rito religioso pelo qual o ungido passava a ser uma pessoa consagrada e participava, de algum modo, na santidade de Deus. Santificado pela unção e adoptado como filho por Deus, o rei podia exercer funções sagradas. Será David a erguer o primeiro altar a Javé, em Jerusalém (2 Sam 24, 25) e a manifestar o desejo de erguer um templo (2 Sam 7, 2-3), mas será Salomão a construí-lo e a presidir à liturgia da dedicação (1 Re 5-8). Jereboão funda os santuários de Betel e de Dan, e recruta sacerdotes que os sirvam, ordenando o calendário dos mesmos (1 Re 12, 26-33). Todavia, não se pode certamente dizer que o rei seja sacerdote em sentido estrito. As funções enumeradas são mais as de um chefe de um estado teocrático. Mas convém assinalar que o rei é um «ungido» e «messias», um «salvador», notas que hão-de caracterizar um futuro rei ideal que se começa a esperar. O episódio da unção de Saúl também revela o modo de agir de Deus: a vida de Saúl mostra o amor gratuito com que Deus escolhe aqueles que hão-de servir o seu povo. Saúl personaliza uma realeza que o povo não estava preparado a receber, apesar de a ter reclamado. Quer mesmo voltar atrás. Mas Deus quer levar por diante o seu projecto. Pedimos a Deus que actue. Mas quando essa actuação mexe connosco, nos exige submissão e obediência, tentamos resistir. Mas é a sua vontade que tem de prevalecer.

    Evangelho: Mc 2, 13-17

    Naquele tempo, 13Jesus saiu de novo para a beira-mar. Toda a multidão ia ao seu encontro, e Ele ensinava-os. 14Ao passar, viu Levi, filho de Alfeu, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: «Segue-me.» E, levantando-se, ele seguiu Jesus. 15Depois, quando se encontrava à mesa em casa dele, muitos cobradores de impostos e pecadores também se puseram à mesma mesa com Jesus e os seus discípulos, pois eram muitos os que o seguiam. 16Mas os doutores da Lei do partido dos fariseus, vendo-o comer com pecadores e cobradores de impostos, disseram aos discípulos: «Porque é que Ele come com cobradores de impostos e pecadores?» 17Jesus ouviu isto e respondeu: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os enfermos. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.»

    A atenção que Jesus dispensa à «gente» (´am há-rets, em hebraico), isto é, aqueles que não observavam a Lei segundo a interpretação rigorista, chocava os mestres de Israel. Estes chamavam «pecadores» a essa «gente» não só devido a eventuais culpas morais, mas também pelo facto de não observarem rigorosamente a Lei e os costumes dos fariseus. Nesse sentido, também Jesus era um «pecador»: não obrigava os discípulos aos rituais de purificação antes das refeições (7, 1-5) e recusava a casuística farisaica sobre o sábado (2, 23-28). Mateus é considerado pecador porque se contamina no contacto com os pagãos. A resposta de Jesus aos doutores da Lei não é uma justificação dos pecadores, mas a verificação dessa realidade. Os cobradores de impostos, conhecidos como pecadores, não pretendiam ocultar os seus defeitos e passar por justos. Pelo contrário, os «doutores da Lei», sendo também eles pecadores, pretendiam passar por justos, e julgavam não precisar do perdão de Deus. Mateus é chamado ao discipulado no momento em que exercia a sua profissão «mundana». Para os fariseus, havia profissões incompatíveis com a verdadeira religião. Para Jesus, não há profissão que exclua do discipulado cristão. O único impedimento ao seguimento de Cristo é considerar-se «justo» e «são»: «Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores» (v. 17).

    Meditatio

    Saúl foi o primeiro «ungido» como príncipe de Israel, o Povo de Deus. A palavra «ungido» (unctus, em latim), traduz a o termo grego «Kristos» e o termo hebraico «mashiá», que em português deram os termos «cristão» e «Messias». Depois de Saúl, David será ungido rei. Esta unção significava uma transformação do homem eleito por Deus que, todavia, conservava todos os seus limites e misérias humanas, e não podia comunicar a ninguém a sua consagração. Só Jesus, o verdadeiro «ungido do Senhor», poderá comunicar a sua unção, a dignidade real, que torna o homem capaz de dominar o mundo segundo a vontade de Deus, para tudo Lhe seja finalmente submetido. O episódio de Saúl também nos manifesta a eficácia e a misericórdia do agir de Deus. O projecto gratuito de Deus prece as iniciativas de Saúl. A acção divina realiza-se em situações normais, quase banais. Saúl não recebe um cargo honorífico, mas a habilitação para um serviço. E tudo acontece com naturalidade, sem dar nas vistas. A eficácia da palavra de Deus nada tem a ver com o barulho do mundo. O chamamento de Mateus também acontece num contexto de naturalidade. Enquanto os fariseus fogem do contacto com aqueles que consideram pecadores, Jesus, como é seu hábito, vai ao encontro deles e convida mesmo Levi a entrar no grupo dos discípulos e a levar vida comum com Ele: «Segue-me» (v. 14). Nós também somos tentados a afastar-nos dos pecadores, pelo menos considerando-nos fora desse grupo. Os outros são pecadores; nós não. E esquecemos S. Paulo que nos diz que fomos justificados, mas não pelos nossos méritos (cf. Rm 3, 24). Somos pecadores justificados gratuitamente, somos pecadores perdoados. Tudo isto nos deve encher de compaixão, de misericórdia, de gratidão e do desejo de acolher a todos. Estas são virtudes do Coração de Jesus, que devemos cultivar, se quisermos ajudar os outros a aproximarem-se d´Ele, a serem melhores.

    Oratio

    Senhor, ensina-me a procurar-te e a encontrar-te, não só onde estás, mas também onde eu estou. Ensina-me a seguir-te, não a partir deste ou daquele lugar ideal, mas do sítio onde me encontro. Ensina-me a reconhecer os teus passos na minha breve história, e na longa história do mundo e da Igreja. Ensina-me a encontrar-te na alegria e na dor, na esperança e no desespero. Dá-me um coração puro para Te ver. Acende em mim o desejo ardente de Te encontrar e de Te seguir pelo caminho do Evangelho, o único que leva à vida em abundância. Dá-me um coração compassivo, misericordioso, grato e desejoso de acolher a todos, para todos conduzir ao teu Coração. Amen.

    Contemplatio

    Depois da Ascensão, S. Mateus foi o primeiro dos discípulos do Salvador que escreveu os discursos e a vida do bom Mestre. Deu ao seu livro o belo nome de Evangelho, isto é, boa nova; era, de facto, uma feliz notícia para todos os homens o anúncio da sua libertação da escravatura do demónio e da sua reconciliação com Deus pelos méritos do seu Filho, incarnado no seio de uma virgem, e imolado sobre a cruz. O símbolo do Evangelho de S. Mateus é um homem, porque ele começa pela geração divina do Verbo. S. Mateus, como S. Lucas, estende-se sobre os amáveis mistérios da infância de Nosso Senhor, deve tê-los aprendido da santa Virgem. Narra a adoração dos magos, a fuga para o Egipto, o massacre dos inocentes, o regresso do Egipto para Nazaré. Dá-nos bastante extensamente o sermão sobre a montanha e as parábolas de Nosso Senhor, o seu Evangelho é verdadeiramente o da doutrina de Nosso Senhor. É ele quem nos revela a característica do Coração de Jesus na sua vida privada e pública. Reteve e repetiu estas belas palavras de Jesus: «Aprendei de mim que sou doce e humilde de Coração». S. Mateus é a testemunha destas belas virtudes do Coração de Jesus, imitou-as. Imitemo-las depois dele (Leão Dehon, OSP 4, p. 275s).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra: «Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores» (Mc 2, 17).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • II Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    II Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    19 de Janeiro, 2026

    Tempo Comum - Anos Pares II Semana - Segunda-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 1 Samuel 15, 16-23

    Naqueles dias, 16Samuel disse a Saul: «Cala-te! Vou dizer-te o que o Senhor me disse esta noite.» Saul respondeu: «Fala.» 17Samuel disse: «Apesar de te considerares pequeno, acaso não te tornaste chefe das tribos de Israel, e não te ungiu o Senhor rei de Israel? 18O Senhor enviou-te a essa expedição, dizendo: 'Passa ao fio de espada esses amalecitas pecadores e combate contra eles até ao completo extermínio.' 19Porque não ouviste a sua voz e te lançaste sobre os despojos, fazendo o que desagrada ao Senhor?» 20Respondeu Saul a Samuel: «Eu obedeci à voz do Senhor, fui pelo caminho que Ele me traçou, trouxe Agag, rei dos amalecitas, e exterminei esse povo. 21O povo somente tomou dos despojos algumas ovelhas e bois, como primícias do que devia destruir, para os sacrificar ao Senhor, teu Deus, em Guilgal.» 22Samuel replicou-lhe, então: «Porventura, o Senhor se compraz tanto nos holocaustos e sacrifícios como na obediência à sua palavra? A obediência vale mais do que os sacrifícios, e a submissão, mais do que a gordura dos carneiros.23A desobediência é tão culpável como a superstição, e a insubmissão é como o pecado da idolatria. Visto, pois, que rejeitaste a palavra do Senhor, também Ele te rejeita e te tira a realeza!»

    Saul é tão maltratado na Bíblia, que chega a inspirar compaixão. No nosso texto, é acusado por não ter sacrificado a Deus todos os despojos, o que pressupõe falta de fé e de obediência a Deus. Saul não foi certamente um santo. Mas o autor sagrado parece ter carregado as tintas para fazer realçar a pessoa de David, cuja figura, com o decorrer do tempo, vai sendo cada vez mais idealizada até chegar à do rei perfeito apresentado no primeiro livro das Crónicas. O elemento mais considerável da narrativa está na declaração de Samuel: a obediência vale mais do que o sacrifício. Trata-se de uma relevante conquista do pensamento religioso: mais do que os actos de culto, que podem não estar em sintonia com a fé, valoriza-se a vida; mais do que aos actos externos de culto, dá-se importância à atitude interior da pessoa que os pratica. A oferta sacerdotal e existencial de Jesus será caracterizada pela obediência vivida no amor.

    Evangelho: Mc 2, 18-22

    Naquele tempo, 18os discípulos de João e os fariseus guardavam o jejum. Vieram dizer-lhe: «Porque é que os discípulos de João e os dos fariseus guardam jejum, e os teus discípulos não jejuam?» 19Jesus respondeu: «Poderão os convidados para a boda jejuar enquanto o esposo está com eles? Enquanto têm consigo o esposo, não podem jejuar. 20Dias virão em que o esposo lhes será tirado; e então, nesses dias, hão-de jejuar.» 21«Ninguém deita remendo de pano novo em roupa velha, pois o pano novo puxa o tecido velho e o rasgão fica maior. 22E ninguém deita vinho novo em odres velhos; se o fizer, o vinho romperá os odres e perde-se o vinho, tal como os odres. Mas vinho novo, em odres novos.»

    Ao contrário dos grupos religiosos do seu tempo, incluindo o de João Baptista, os discípulos de Jesus não praticavam o jejum. Porquê? Porque Jesus tinha introduzido no mundo o tempo gozoso das núpcias entre Deus, o esposo, e o seu povo, a esposa. Não fazia sentido reiterar um sinal que indicava luto. Além disso, não havia que precipitar os acontecimentos: tempos viriam em que a adesão dos discípulos a Jesus havia de lhes custar momentos difíceis em que, para fazer penitência, não seria preciso estabelecer o jejum. As palavras sobre o «pano novo em roupa velha» e sobre «vinho novo em odres velhos» convidam-nos a compreender a novidade introduzida pelo Evangelho, confirmando a suspensão do sinal do jejum. Neste texto, Jesus também polemiza contra um ritualismo que, como todos os ritualismos, pretende planificar a própria salvação, esquecendo que ela é uma iniciativa absoluta de Deus.

    Meditatio

    «A obediência vale mais do que os sacrifícios» (1 Sam 15, 22). A nossa relação com Deus é verdadeira quando é modulada pela obediência à sua vontade. Podemos ser tentados a buscar segurança em interpretações arbitrárias da Palavra de Deus ou em formas de culto à medida dos nossos interesses. Mas a obediência ao Senhor é a nossa única segurança. Obedecer a Deus significa estar de alma e coração atentos e disponíveis às inspirações do Espírito, preferindo-as ao nosso bom senso. Significa também estar dispostos a converter-nos a uma maior autenticidade nas nossas formas de culto, de modo que exprimam e motivem a nossa vida. Jesus também pede disponibilidade superior à dos fariseus, muito preocupados com coisas a fazer ou a evitar: «Ninguém deita remendo de pano novo em roupa velha, pois o pano novo puxa o tecido velho... E ninguém deita vinho novo em odres velhos...mas vinho novo, em odres novos» (vv. 22-23). Jesus não escolheu para apóstolos fariseus conhecedores da Lei, mas indisponíveis; escolheu pessoas talvez menos cultas, mas abertas à graça, às novidades de Deus. Em cada Eucaristia, Jesus enche-nos de um vinho novo, de um vinho forte e generoso, que é o seu sangue. Esse vinho faz explodir a nossa generosidade, o nosso entusiasmo, o nosso zelo, o nosso amor. Se isso não acontece, há que pedir-Lhe um «odre novo», um coração novo, que é o seu próprio Coração. Só unidos ao Coração de Jesus, tendo em nós os seus sentimentos, podemos receber em nós o vinho novo da Nova Aliança. Lembram-nos as nossas Constituições: «Do Coração de Cristo, aberto na cruz, nasce o homem de coração novo, animado pelo Espírito» (n. 3). Este nascimento, preanunciado a Nicodemos (cf. Jo 3, 3.5), realizou-se na transfixão do Lado, onde a água que brota de Cristo é sinal do dom do Espírito, do Baptismo, do nascimento da Igreja e, na Igreja, de cada um de nós. "O homem de coração novo" é uma expressão bíblica: "Dar-vos-ei um coração novo" (Ez 36, 26; cf. Sal 51(50), 12). NO AT e no NT o coração é o lugar onde o homem encontra Deus. E esse encontro torna-se total e efectivo no "Coração de Cristo, aberto na cruz"(Cst. 3). De facto, Jesus em vista da nossa "conversão permanente" (Cst. 144), convida-nos a irmos à escola do Seu Coração: «Aprendei de Mim que sou manso e humilde de coração» (cf. Mt 11, 29). S. Paulo também exorta a nos "revestir-nos do homem novo, criado segundo Deus, na justiça e na santidade verdadeira" ( Ef 4, 24; cf. Col 3, 9-11). A realidade do "homem de coração novo, animado pelo Espírito", que nasce do "Coração de Jesus, aberto na cruz" (Cst 3) é um tema importante p ara o Pe. Dehon e para nós. Por isso, é várias vezes retomado nas Constituições (cf. nn. 10.11.21.39).

    Oratio

    Senhor Jesus, abre a minha mente e o meu coração para receber o grande dom do teu Espírito, de modo que eu não rebente, qual odre velho, mas seja repleto de uma vida nova, que Te dê glória e seja útil aos meus irmãos. Animado pelo mesmo Espírito, farei, não a minha, mas a vontade do Pai, e crescerei na inteligência do coração, para não me encerrar em certezas da minha razão, mas permanecer aberto à exigências da tua Palavra, fonte de vida e de novidade. Amen.

    Contemplatio

    «Eis-me aqui, meu Deus, para vos servir e para fazer a vossa vontade: «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra». Esta é a regra, Maria obedece. Está escrito na lei, no Levítico e no Êxodo. A jovem mãe apresentar-se-á no templo para ser purificada, quarenta dias depois do nascimento de um filho e oitenta dias depois do nascimento de uma filha. Maria não costuma hesitar quando se trata da lei. Cumpre tudo à letra, segundo a Lei de Moisés. No quadragésimo dia, está em Jerusalém. Não examina se está dispensada pelo carácter sobrenatural da sua maternidade... Como o seu divino Filho, renuncia a todo o privilégio e, contente com a sorte comum, obedece à lei. Jesus obedece e deixa-se levar, apresentar, resgatar, Maria obedece também e deixa-se purificar. Como Jesus, Maria leva no meio do seu Coração a lei de Deus, como sua regra de vida. Oh! Como esta obediência pontual, humilde, heróica, condena todas as nossas hesitações, toda a nossa procura de excepções e de dispensas! Maria podia dizer: Eis a serva do Senhor. E eu posso dizer: Ecce venio: eis que venho, Senhor, para obedecer, para fazer a vossa vontade. Sou teu servo. Em que é que ainda sou recalcitrante à lei, à vontade divina? Examinar-me-ei e mudarei (Leão Dehon, OSP 3, p. 119s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra: «A obediência vale mais do que os sacrifícios» (1 Sam 15, 22).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • II Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    II Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    20 de Janeiro, 2026

    Tempo Comum - Anos Pares II Semana - Terça-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 1 Samuel 16, 1-13

    Naqueles dias, o Senhor disse a Samuel: «Até quando chorarás Saul, tendo-o Eu rejeitado para que não reine em Israel? Enche o teu chifre de óleo e vai. Quero enviar-te a Jessé de Belém, pois escolhi um rei entre os seus filhos.» Samuel respondeu: «Como hei-de ir? Se Saul souber, irá tirar-me a vida.» 2O Senhor disse: «Levarás contigo um novilho e dirás que vais oferecer um sacrifício ao Senhor. 3Convidarás Jessé para o sacrifício e Eu te revelarei o que deverás fazer. Darás por mim a unção àquele que Eu te indicar.» 4Fez Samuel como o Senhor ordenara. Ao chegar a Belém, os anciãos da cidade saíram-lhe ao encontro, inquietos, e disseram: «É de paz a tua vinda?» 5Ele respondeu: «Sim. Venho oferecer um sacrifício ao Senhor; purificai-vos e acompanhai-me para o sacrifício.» Ele mesmo purificou Jessé e os filhos e convidou-os para o sacrifício. 6Logo que entraram, Samuel viu Eliab e pensou consigo: «Certamente é este o ungido do Senhor.» 7Mas o Senhor disse a Samuel: «Que te não impressione o seu belo aspecto, nem a sua alta estatura, pois Eu rejeitei-o. O que o homem vê não importa; o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração.» 8Jessé chamou Abinadab e apresentou-o a Samuel, que disse: «Não é este o que o Senhor escolheu.» 9Jessé trouxe-lhe, também, Chamá. E Samuel disse: «Ainda não é este o que o Senhor escolheu.» 10Jessé apresentou-lhe, assim, os seus sete filhos, mas Samuel disse: «O Senhor não escolheu nenhum deles.» 11E acrescentou: «Estão aqui todos os teus filhos?» Jessé respondeu: «Resta ainda o mais novo, que anda a apascentar as ovelhas.» Samuel ordenou a Jessé: «Manda buscá-lo, pois não nos sentaremos à mesa antes de ele ter chegado.» 12Jessé mandou então buscá-lo. David era louro, de belos olhos e de aparência formosa. O Senhor disse: «Ei-lo, unge-o: é esse.» 13Samuel tomou o chifre de óleo e ungiu-o na presença dos seus irmãos. E, a partir daquele dia, o espírito do Senhor apoderou-se de David. E Samuel voltou para Ramá.

    A Bíblia apresenta-nos três versões do acesso de David à vida pública: como bom músico, entrou ao serviço de Saul, que andava triste e abatido, para o alegrar (1 Sam 16, 14-23); indo levar provisões aos seus três irmãos mais velhos, que faziam parte do exército de Saul, dispõe-se a combater Golias, vencendo-o, caindo nas graças do rei que o põe ao seu serviço (1 Sam 17, 12-30); sendo o mais novo e o mais fraco dos filhos de Jessé, é ungido rei por indicação de Deus (1 Sam 16, 1-13). O relato da unção de David por Samuel segue um esquema comum a quase todos os relatos de eleição, a começar pelo próprio povo de Israel que é eleito, não por ser o mais numeroso nem por ser melhor que os outros, mas por puro amor de Deus (Dt 7, 7-8). O esquema repete-se no Antigo e no Novo Testamento. Paulo vê-o verificar-se na eleição do novo Povo de Deus, a Igreja. Ao observar a igreja de Corinto, escreve: «Considerai, pois, irmãos, a vossa vocação: humanamente falando, não há entre vós muitos sábios, nem muitos poderosos, nem muitos nobres. Mas o que há de louco no mundo é que Deus escolheu para confundir os sábios; e o que há de fraco no mundo é que Deus escolheu para confundir o que é forte. O que o mundo considera vil e desprezível é que Deus escolheu; escolheu os que nada são, para reduzir a nada aqueles que são alguma coisa.» (1 Cor 1, 26-28). Deus actua com absoluta liberdade, suscitando surpresa.

    Evangelho: Mc 2, 23-28

    23Passeava Jesus através das searas num dia de sábado, os discípulos puseram-se a colher espigas pelo caminho. 24Os fariseus diziam-lhe: «Repara! Porque fazem eles ao sábado o que não é permitido?» 25Ele disse: «Nunca lestes o que fez David, quando teve necessidade e sentiu fome, ele e os que estavam com ele? 26Como entrou na casa de Deus, ao tempo do Sumo Sacerdote Abiatar, e comeu os pães da oferenda, que apenas aos sacerdotes era permitido comer, e também os deu aos que estavam com ele?» 27E disse-lhes: «O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. 28O Filho do Homem até do sábado é Senhor.»

    Este breve texto realça a autoridade definitiva de Jesus e um dos princípios centrais do Evangelho: a libertação da «alienação legal». Como dirá S. Paulo, Cristo veio libertar o homem da tirania da Lei (cf. Rom 3, 20; 4, 13; 6, 14; 8, 2; Gal 1, 4-5, etc). A autoridade do «filho do homem» é uma autoridade em favor do homem. Jesus não veio condenar o homem, mas salvá-lo de toda a alienação, em primeiro lugar da alienação legal. Marcos não indica claramente o objecto da transgressão dos discípulos. Mas, mais do que eles, é Jesus que é posto em questão. O Senhor responde: «Nunca lestes o que fez David, quando teve necessidade e sentiu fome, ele e os que estavam com ele?» (v. 25). Se o velho rei, por motivos de força maior, podia passar sobre a lei, quanto mais Jesus o podia fazer! Mais ainda: a autoridade de Jesus permitia-lhe ab-rogar o sábado e substituí-lo por outro dia. O Evangelho transcende a «ordem estabelecida». O cristão relativiza a ordem legal quando ela não está «em função do homem».

    Meditatio

    «O homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração» (1 Sam 16, 7). Deus não se deixa impressionar pela imponência de Eliab, nem pela beleza de Saul. Escolheu para rei de Israel o mais novo dos filhos de Jessé, que nem julgara necessário chamá-lo do meio do seu rebanho. Deus não olha às aparências, mas ao coração. E o de David agradou-lhe! Por isso disse a Samuel: «Ei-lo, unge-o: é esse.» (1 Sam 16, 12). A escolha de David é figura da de Jesus, o novo David, que vem na mansidão e na humildade para fazer a união, não de um só povo, mas de todos os povos, de todos os homens. O pequeno pastor Belém, David, é figura do Bom Pastor, que cuida das suas ovelhas, as defende dos lobos, as guia para os prados verdejantes e para as águas cristalinas, e morre pela unidade do rebanho. Deus é o Senhor das pessoas, que conhece, pois foi Ele Quem lhes plasmou o coração. Mas é também o Senhor do tempo e da história. Por isso, actua com liberdade absoluta nas suas escolhas e nas suas acções. Mas essa liberdade coincide com o seu amor, que se manifesta na predilecção pelos pequenos e no absoluto respeito pelo primado da pessoa humana. As opções de Deus podem desorientar-nos e pôr em crise as nossas regras, as nossas leis, as nossas seguranças humanas, quando não temos na devida conta as pessoas con cretas e as suas necessidades. O respeito pela dignidade e pela liberdade da pessoa humana é a primeira caridade que devemos a cada irmão. Esta caridade é também esperança activa daquilo que os outros podem vir a ser, por absoluta iniciativa de Deus, ou com a ajuda do nosso apoio fraterno. A caridade afasta todo e qualquer preconceito em relação às pessoas concretas com quem nos encontramos, vivemos ou temos de trabalhar. Todo o Evangelho é uma defesa da dignidade da pessoa humana, especialmente quando é espezinhada nos pobres, nos marginalizados, como os leprosos, ou nas pessoas desprezadas, como os pecadores, publicanos, prostitutas. "O sábado foi feito para o homem - diz Jesus - e não o homem para o sábado" (Mc 2, 27). Para realçar a dignidade da pessoa humana, Jesus realiza muitos milagres ao sábado (cf. Mc 3, 1-6; Lc 14, 1-6; Jo 5, 1-14) e convive com todos, mesmo os com os pecadores. Respeitar o homem e fazer-lhe bem, especialmente quando carenciado, é uma lei maior que todas as outras. É mesmo o melhor modo de santificar o sábado, de prestar culto a Deus.

    Oratio

    Obrigado, Senhor, Deus nosso Pai, pela revelação progressiva do teu projecto de amor, definitivamente realizado em Jesus, Bom Pastor da humanidade. Dá-nos um coração semelhante ao d´Ele, um coração manso e humilde, um coração justo e compassivo para com todos. Assim seremos bons samaritanos da humanidade, e obreiros da paz e da comunhão entre os homens. Obrigado pela tua palavra, que nos convida e nos provoca a sabermos discernir a verdade das coisas lembrando-nos de que és o Senhor de tudo e de todos. Amen.

    Contemplatio

    É a fé, de facto, que é o princípio de todas as graças de Maria. Toda a vida do Salvador parece contrária às promessas do anjo. - «O vosso filho, disse-lhe Gabriel, será altamente reconhecido como Filho do Altíssimo; o Senhor dar-lhe-á o trono de David seu pai; reinará para sempre sobre a família de Jacob, e o seu reino não terá fim». Quantos factos pareceram afastados destas promessas! Jesus nasce pobre, leva durante trinta anos uma vida obscura; na sua vida pública, sobrevive de esmolas e é alvo de inveja, de ódio; depois desenvolve-se o drama da paixão. E Maria conservava a sua fé. Oh! Como devemos corar pela nossa falta de fé e de vida sobrenatural! (Leão Dehon, OSP 4, p. 22).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra: «O homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração» (1 Sam 16, 7).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • II Semana - Quarta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    II Semana - Quarta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    21 de Janeiro, 2026

    Tempo Comum - Anos Pares II Semana - Quarta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 1 Samuel 17, 32-33.37.40-51

    Naqueles dias, David foi levado à presença do rei Saul e disse-lhe: 32«Ninguém desanime por causa desse filisteu! O teu servo irá combatê-lo.» 33Disse-lhe Saul: «Não poderás ir lutar contra esse filisteu. Não passas de uma criança, e ele é um homem de guerra desde a sua mocidade.» 37E acrescentou: «O Senhor, que me livrou das garras do leão e do urso, há-de salvar-me igualmente das mãos desse filisteu.» Disse-lhe o rei: «Vai, e que o Senhor esteja contigo.» 40E tirou a armadura. Tomou o seu cajado e escolheu no regato cinco pedras lisas, pondo-as no alforge de pastor que lhe servia de bolsa. Depois, com a funda na mão, avançou contra o filisteu. 41Este, precedido do escudeiro, aproximou-se de David, 42mediu-o com os olhos e, vendo que era jovem, louro e de aspecto delicado, desprezou-o. 43Disse-lhe: «Sou eu, porventura, um cão, para vires contra mim de pau na mão?» E amaldiçoou David em nome dos seus deuses. 44E acrescentou: «Vem, que eu darei a tua carne às aves do céu e aos animais da terra!» 45David respondeu: «Tu vens para mim de espada, lança e escudo; eu, porém, vou a ti em nome do Senhor do universo, do Deus dos esquadrões de Israel, a quem tu desafiaste. 46O Senhor vai entregar-te hoje nas minhas mãos e eu vou matar-te, cortar-te a cabeça e dar os cadáveres do campo dos filisteus às aves do céu e aos animais da terra, para que todo o mundo saiba que há um Deus em Israel. 47E toda essa multidão de gente saberá que não é com a espada nem com a lança que o Senhor triunfa, porque Ele é o árbitro da guerra e Ele vos entregará nas nossas mãos!» 48Levantou-se o filisteu e avançou contra David. Este também correu para as linhas inimigas ao encontro do filisteu. 49Meteu a mão no alforge, tomou uma pedra e arremessou-a com a funda, ferindo o filisteu na fronte. A pedra penetrou-lhe na cabeça, e o gigante tombou com o rosto por terra. 50Assim venceu David o filisteu, ferindo-o de morte com uma funda e uma pedra. E, como não tinha espada na mão, 51David correu para o filisteu e, quando já estava junto dele, arrancou-lhe a espada da bainha e acabou de o matar, cortando-lhe a cabeça. Vendo morto o seu guerreiro mais valente, os filisteus fugiram.

    No combate, que o texto nos descreve, mais do que dois homens, David e Golias, enfrentam-se duas teses, duas políticas: a tese da política da fé contra a tese da política da força e da técnica humanas. É significativa a descrição de Golias, filisteu, povo que já dominava a força dos metais e fabricava armas desse tipo. David, pelo contrário, incapaz de usar essas armas, enfrenta Golias «em nome do Senhor» (v. 45). «Uns confiam nos carros, outros nos cavalos: nós confiamos no nome do Senhor, nosso Deus» (cf. Sl 20, 8). Confiar em Deus, mais do que nos homens e nos meios humanos é um tema recorrente na Bíblia. O nosso texto realça a fé de David que enfrenta uma situação ignominiosa para o povo e para a fé em Deus; a impotência do rapaz, mas também a sua fé na Providência divina, já tantas vezes experimentada; o conteúdo religioso do desafio que é o confronto entre os deuses e o único Deus verdadeiro. Assim se conclui que a verdadeira fé pode enfrentar e desfazer as mais ameaçadoras dificuldades. Tudo isto coincide com a chamada doutrina da pobreza espiritual, já formulada por S. Paulo: «Basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza.» De bom grado, portanto, prefiro gloriar-me nas minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo. Por isso me comprazo nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições e nas angústias, por Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte» (2 Cor 12, 9-10).

    Evangelho: Mc 3, 1-6

    1Jesus entrou de novo na sinagoga, onde estava um homem que tinha uma das mãos paralisada. 2Ora eles observavam-no, para ver se iria curá-lo ao sábado, a fim de o poderem acusar. 3Jesus disse ao homem da mão paralisada: «Levanta-te e vem para o meio.» 4E a eles perguntou: «É permitido ao sábado fazer bem ou fazer mal, salvar uma vida ou matá-la?» Eles ficaram calados. 5Então, olhando-os com indignação e magoado com a dureza dos seus corações, disse ao homem: «Estende a mão.» Estendeu-a, e a mão ficou curada. 6Assim que saíram, os fariseus reuniram-se com os partidários de Herodes para deliberar como haviam de matar Jesus.

    O texto que a liturgia nos propõe hoje contém a quinta e última polémica de Jesus com os seus adversários. No fundo é uma reafirmação de que o Evangelho transcende toda a «ordem estabelecida», e que ela deve ser relativizada quando não concorrer para o bem do homem. O clima está cada vez mais carregado: Jesus mostra indignação e amargura; os seus interlocutores revelam obstinação e astúcia e tramam a morte de Jesus (v. 6). Mas o Senhor não se deixa intimidar. Continua fielmente o seu serviço profético, insistindo numa instituição sabática que sirva o homem. É um drama que se irá repetir muitas vezes até ao fim. Fazer bem ao homem, exigirá a Deus o preço da eliminação do seu Filho.

    Meditatio

    As leituras de hoje ensinam-nos a enfrentar as lutas e as dificuldades da vida de modo correcto. Acanhar-se, como fizeram Saul e o seu exército, que «ficaram assombrados e cheios de medo» (1 Sam 17, 11), não é solução. Mas uma esperança ilusória, que leve a refugiar-se em Deus de modo genérico, esperando tudo dele, contando apenas com a sua presença no meio de nós, como de algum modo tinham feito os israelitas na batalha em que perderam a arca do Senhor (cf. 1 Sam 4, 11), também não é solução. David mostra-nos como enfrentar adequadamente as nossas lutas. Não se deixa dominar pelo medo, pela falta de coragem, e procura os meios para enfrentar o combate: «tomou o seu cajado e escolheu no regato cinco pedras lisas, pondo-as no alforge de pastor que lhe servia de bolsa. Depois, com a funda na mão, avançou contra o filisteu» (1 Sam 17, 20). São instrumentos humildes e quase ridículos, diante do equipamento «moderno» do filisteu. Mas eram aqueles de que podia dispor. Quanto ao resto, confiava em Deus. Quando dispomos de todos de meios que julgamos necessários, podemos confiar mais neles do que em Deus. Mas, quando nos sentimos pobres, avançamos porque Deus o quer e no-lo pede. É a atitude da pobreza espiritual de que falará S. Paulo: «Basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza.» De bom grado, portanto, prefiro gloriar-me nas minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo. Por isso me comprazo nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições e nas angústias, por Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte» (2 Cor 12, 9-10). David faz o que pode e confia em De us. Alcança um triunfo que só poderá ser atribuído a Deus. Por isso, todos ficarão a saber que há um Deus em Israel (1 Sam 17, 46). Se a primeira leitura nos fala de vitória, a vitória de um «fraco», que Deus apoia, o evangelho também nos fala de vitória, a vitória de Jesus sobre a paralisia do homem e sobre a interpretação opressiva da Lei por parte do fariseus. Certamente todos podemos ler nestas páginas da Escritura algumas experiências de luta nossas. Provavelmente já todos nos encontramos perante situações que parecem exigir forças e meios superiores àqueles de que dispomos, ou julgamos dispor. Talvez, alguma vez, nos tenhamos sentido bloqueados, incapazes de actuar, condenados à impotência, reduzidos a objectos da compaixão dos outros. A Palavra de Deus convida-nos à ousadia, a actuar: «em nome do Senhor» (1 Sam 17, 45), isto é, pondo n´Ele a nossa confiança. Não podemos ficar sempre à espera de nos sentir idóneos para enfrentarmos os desafios que nos são postos. Há que avançar com os meios de que dispomos, conscientes dos nossos limites, das nossas paralisias, confiando no Senhor. E a vitória irá acontecer, para que se «saiba que há um Deus em Israel» (1 Sam 17, 46). Num mundo que nos enche de angústias e nos torna muitas vezes pessimistas, porque nos parece que "tudo... jaz sob o poder do maligno" (1 Jo 5, 19), Cristo, "Homem novo" (Ef 4, 24) dá-nos coragem, ilumina-nos, pacifica-nos e dá-nos alegria (Cf. Jo 20, 20-21), porque n´Ele, "apesar do pecado, dos fracassos e da injustiça, a redenção é possível, oferecida e já está presente (Cst. 12). Insistimos sobretudo na convicção de que «está presente». "Corramos com perseverança a carreira que nos é proposta, com os olhos fixos em Jesus, autor e consumador da fé" (Heb 12, 1-2), que deu a Sua vida por nós e, agora, glorioso, intercede por nós junto do Pai (Cf. Heb 7, 25). E Jesus não faltará às Suas promessas: "Não vos deixarei órfãos..." (Jo 14, 18).

    Oratio

    Senhor, dá-me a graça de viver a paradoxal condição da esperança cristã que me leva a fazer tudo o que posso, aceitando a pobreza dos meios de que disponho e pondo toda a minha confiança em Ti, que gostas de fazer maravilhas com instrumentos fracos. Liberta-me do medo que me bloqueia e do sentimento de inferioridade que me paralisa. Faz-me acreditar que, em mim, serás sempre vitorioso. Amen.

    Contemplatio

    «Satanás, escreve S. Margarida Maria, está enraivecido por ver que, pelo meio salutar da amável devoção ao Sagrado Coração, verá escaparem-se dele muitas almas que julgava já possuir. Assim ameaçou que faria surgir obstáculos a tudo o que se fizesse para estabelecer essa devoção. «É preciso que estejamos resolvidos a suportar generosamente todas as dificuldades e borrascas de Satanás, e não nos devemos espantar por todas as contradições que havemos de encontrar trabalhando pelo estabelecimento do reino deste amável Coração». «As cruzes e as oposições são uma das marcas mais seguras de que a coisa vem de Deus e que ele deve ser muito glorificado pelo reino do Sagrado coração do seu divino Filho» (Carta à Madre de Saumaise). «Para mim, diz ainda, quanto mais vejo dificuldades, quanto mais mágoas, calúnias e dores encontro mais me sinto fortalecida e encorajada a prosseguir, e mais esperança tenho no pensamento de que Deus será glorificado e que tudo resultará para a glória deste amável Coração, para a salvação de muitas almas, porque estas obras só se realizam por meio das contradições» (Carta 47 à Irmã Joly). Aqui está o nosso programa de acção: Coragem e perseverança, apesar de todas as contradições. Trabalhemos no reino do Sagrado Coração nas almas e nas sociedades. Satanás há-de opor mil embustes a todos os nossos passos. Nada detesta tanto como este reino do Sagrado Coração que prepara a sua derrota definitiva (Leão Dehon, OSP 3, p. 50s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra: «Vou a ti em nome do Senhor!» (1 Sam 17, 45).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • II Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    II Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    22 de Janeiro, 2026

    Tempo Comum - Anos Pares II Semana - Quinta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 1 Samuel 18, 6-9; 19, 1-7

    Naqueles dias, 6ao regressar o exército, depois de David ter morto o filisteu, de todas as cidades de Israel as mulheres saíram ao encontro de Saul, cantando e dançando alegremente, ao som de tambores e címbalos. 7E, à medida que dançavam, cantavam em coro: «Saul matou mil, mas David matou dez mil.» 8Saul irritou-se em extremo e ficou sumamente desgostoso por isso. E disse: «Dão dez mil a David e a mim apenas mil! Só lhe falta a coroa!» 9A partir daquele dia, não voltou a olhar para David com bons olhos. 1Saul falou ao seu filho Jónatas e a todos os seus servos da sua intenção de matar David. Mas Jónatas, filho de Saul, amava cordialmente David 2e preveniu-o, dizendo: «Saul, meu pai, quer matar-te. Procura fugir amanhã de manhã; foge para um lugar oculto e esconde-te. 3Sairei em companhia de meu pai, até ao lugar onde tu te encontrares; falarei com ele a teu respeito, para ver o que ele pensa, e depois avisar-te-ei.» 4Jónatas falou bem de David a seu pai e acrescentou: «Não faças mal algum ao teu servo David, pois ele nunca te fez mal; pelo contrário, prestou-te grandes serviços. 5Arriscou a vida, matando o filisteu, e o Senhor deu, assim, uma grande vitória a Israel. Foste testemunha e alegraste-te. Porque queres pecar contra o sangue inocente, matando David sem motivo?» 6Saul ouviu as palavras de Jónatas e fez este juramento: «Pela vida do Senhor, David não morrerá!» 7Então, Jónatas chamou David, contou-lhe tudo isto e apresentou-o novamente a Saul. David voltou a estar ao seu serviço como antes.

    A acção salvífica de Deus realiza-se na história, tantas vezes marcada pelos limites, fragilidades e pecados dos homens. A inveja de Saul não leva a melhor sobre a graça divina que já actua claramente em David, que se vai afirmando cada vez mais como o eleito do Senhor. Porque é que, estando Saul em franca decadência, não se pensa em Jónatas para lhe suceder, mas em David? Não é fácil responder. Mas parece certo que o autor sagrado quis realçar a figura de David e tudo concebeu e escreveu em função desse objectivo. Neste contexto, adquire maior relevância e simpatia a amizade aberta, generosa e desinteressada que o filho de Saul mostra para com David. Se a inveja de Saul agride David, a amizade de Jónatas salva-o. Há grandes males e grandes bens que passam pelas nossas paixões. E Deus pode actuar por meio delas. Da nossa parte, se não devemos deixar-nos dominar por elas, também havemos de pô-las ao serviço do Senhor.

    Evangelho: Mc 3, 7-12

    Naquele tempo, 7Jesus retirou-se para o mar com os discípulos. Seguiu-o uma imensa multidão vinda da Galileia. E da Judeia, 8de Jerusalém, da Idumeia, de além-Jordão e das cercanias de Tiro e de Sídon, uma grande multidão veio ter com Ele, ao ouvir dizer o que Ele fazia. 9E disse aos discípulos que lhe aprontassem um barco, a fim de não ser molestado pela multidão, 10pois tinha curado muita gente e, por isso, os que sofriam de enfermidades caíam sobre Ele para lhe tocarem. 11Os espíritos malignos, ao vê-lo, prostravam-se diante dele e gritavam: «Tu és o Filho de Deus!» 12Ele, porém, proibia-lhes severamente que o dessem a conhecer.

    Nos textos escutados nos últimos dias, Jesus mostra que é inútil querer aproveitar as instituições judaicas para nelas infundir a novidade evangélica do reino de Deus. Então retira-se para o mar de Genesaré. A sua acção, que até aí se desenvolvera na sinagoga, ou perto dela, abria-se agora a horizontes mais vastos. Começa uma nova secção do evangelho de Marcos. A actividade de Jesus alarga-se e causa admiração nas multidões. Mas é ainda um entusiasmo superficial, que não leva à decisão da fé (6, 6). Entretanto, Jesus vai preparando uma nova família formada por pessoas que mostram verdadeira disponibilidade para com Ele e cria para elas a escola do discipulado. A palavra e a acção de Jesus, na Galileia, colocam-no no centro das atenções. Mas, não buscando interesses pessoais, mas os de Deus, Jesus proíbe aos demónios falarem dele. Ele não é um curandeiro, mas o enviado do Pai que narra o que Deus quer dar a conhecer de Si mesmo, e o que pede aos mesmos homens, que estão mais interessados em procurar a si mesmos do que a Deus, inclusivamente nos seus actos religiosos.

    Meditatio

    Quantas vezes nos sentimos mal interpretados nas nossas palavras e nos nossos actos. Quantas vezes nos damos conta de que não somos reconhecidos nem acolhidos na nossa verdade. E tudo isso nos causa sofrimento. Pior ainda quando nos sentimos alvo da inveja e do ciúme dos outros por sermos quem somos. David alcança uma grande vitória. As mulheres, nos seus cantares, comparam-no com Saul: «Saul matou mil, mas David matou dez mil» (1 Sam 18, 7). O rei fica irritado e decide matar David. Às vezes, os nossos elogios aos outros podem prejudicá-los, porque provocam a inveja de terceiros. Parece que Jesus quer evitar a inveja dos sacerdotes, dos escribas e dos fariseus. Por isso é que impõe silêncio aos espíritos malignos, que proclamavam a sua identidade: «Tu és o Filho de Deus!» (Mc 3, 12). O comportamento de Jónatas é um bom exemplo de reconciliação. David, seu amigo, tornara-se involuntariamente seu rival. Mas Jónatas não leva a mal. Atreve-se mesmo a defender David diante de Saul: «Não faças mal algum ao teu servo David, pois ele nunca te fez mal; pelo contrário, prestou-te grandes serviços. Arriscou a vida...» (1 Sam 18, 4). Jónatas é quase uma figura de Cristo. Como Ele, dá-nos exemplo daquela humildade de coração e daquela caridade que constroiem a união e a paz. Jesus, em vez de acusar os culpados, lava-lhes os pés, purificando-os das culpas e reconstruindo a unidade. A atitude de Jónatas é de enorme generosidade e amor à verdade, tal como será a de Jesus. Assim deve ser também a nossa atitude de discípulos, colocando-nos do lado da verdade, que nos torna humildes, caridosos, objectivos e sem hostilidade contra ninguém. Devemos aprender com Jónatas. Precisamos, sobretudo, de ir à escola de Jesus e aprender d´Ele a mansidão e a humildade do coração (Cf. Mt 11, 29). A humildade é o caminho da caridade e, portanto, do serviço por amor, especialmente pelos "pequenos", "por aqueles que sofrem" (Cst. 18). Para ser humildes, não é suficiente "sentir-se humildes", é preciso "tornar-se humildes", como Jesus no lava-pés: "Dei-vos o exemplo... Eu, o Mestre e Senhor... Sabendo estas coisas, sereis felizes se as puserdes em prática" (Jo 13, 14-15.17). "Deveis lavar os pés uns aos outros" (Jo 13, 14). É o serviço aos irmãos, de que Cristo nos deu o exemplo mais heróico, até ao dom da vida (Cf. Jo 15, 13), até Se tornar alimento e bebida para nós (Cf. n. 17). "Neste amor de Cristo encontramos a certeza de alcançar a fraternidade humana e a força de lutar por ela" (Cst. 18).

    Oratio

    Senhor Jesus, quando me sentir incompreendido, não reconhecido e não acolhido na minha verdade, quando me sentir alvo da inveja e do ciúme de alguém, dá-me um espírito de serenidade, de calma, de paz semelhante àquele que Te animou durante a tua gloriosa Paixão. Que jamais me deprima, desanime, ou perca tempo em justificar-me, mas, animado pelo Espírito Santo, continue a viver e a actuar em sintonia com a tua vontade e a missão que me confias na Igreja e no mundo. Não faltarão ocasiões para a verdade venha ao de cima serenamente e, à volta dela, será construída aquela unidade pela qual rezaste. Amen.

    Contemplatio

    Há que ler o livro do amor. Um dia, quando S. Margarida Maria fazia leitura espiritual, Nosso Senhor disse-lhe: «Quero fazer-te ler no livro da vida onde está contida toda a ciência do amor». E descobrindo-lhe o seu Coração, fez-lhe ler estas palavras: «O meu Coração reina no sofrimento, triunfa na humildade e alegra-se na unidade». Quando sofremos pacientemente por amor do Sagrado Coração, ele reina verdadeiramente em nós. Quando somos humildes ele triunfa; quando estamos unidos a ele, ele encontra nisso o seu prazer. Noutro dia, em que ela tinha longamente adorado o Santíssimo Sacramento, Nosso Senhor disse à santa: «Tudo o que puderes fazer e sofrer com a minha graça, deves meter no meu Coração para ser convertido num bálsamo precioso que será o óleo desta lâmpada, a fim de que tudo seja consumido pelo fogo do meu divino amor». Um dia, em que ela desejava ardentemente receber Nosso Senhor, disse-lhe: «Meu Senhor, ensinai-me o que quereis que eu vos diga. - Nada, respondeu Ele, senão estas palavras: Meu Deus, meu único e meu tudo, vós sois tudo para mim e eu sou toda para vós. Estas palavras suprirão todos os actos que quiseres fazer e servir-te-ão de preparação nas tuas acções». É sempre a lição de amor que se lê no Sagrado Coração (Leão Dehon, OSP 4, p. 349s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra: «O meu Coração reina no sofrimento, triunfa na humildade e alegra-se na unidade». (Jesus a Santa Margarida Maria).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • II Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    II Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    23 de Janeiro, 2026

    Tempo Comum - Anos Pares II Semana - Sexta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 1 Samuel 24, 3-21

    Naqueles dias, 3Saul tomou consigo três mil homens escolhidos em todo o Israel, foi em busca de David e dos seus homens pelos rochedos de Jelim, só acessíveis às cabras monteses. 4Chegando perto dos apriscos de ovelhas que encontrou ao longo do caminho, Saul entrou numa gruta para satisfazer as suas necessidades. No fundo desta gruta, encontrava-se David com os seus homens, 5os quais lhe disseram: «Eis o dia do qual o Senhor te disse: 'Eu entregarei o teu inimigo nas tuas mãos, para que faças dele o que quiseres.'» David levantou-se e cortou sigilosamente a ponta do manto de Saul. 6E logo o seu coração se encheu de remorsos por ter cortado a ponta do manto de Saul. 7E disse aos seus homens: «Deus me guarde de fazer tal coisa ao meu senhor, o ungido do Senhor, estender a minha mão contra ele, pois ele é o ungido do Senhor!» 8David conteve os seus homens com estas palavras e impediu que agredissem Saul. O rei levantou-se, afastou-se da gruta e prosseguiu o seu caminho. 9Depois, levantou-se David e saiu da caverna atrás de Saul, clamando: «Ó rei, meu senhor!» Saul voltou-se, e David, inclinando-se, fez-lhe uma profunda reverência. 10E disse David a Saul: «Porque dás ouvidos ao que te dizem: 'David procura fazer-te mal'? 11Viste hoje com os teus olhos que o Senhor te entregou nas minhas mãos, na gruta. O pensamento de te matar assaltou-me, incitou-me contra ti, mas eu disse: 'Não levantarei a mão contra o meu senhor, porque é o ungido do Senhor.' 12Olha, meu pai, e vê se é a ponta do teu manto que tenho na minha mão. Se eu cortei a ponta do teu manto e não te matei, reconhece que não há maldade nem revolta contra ti. Não pequei contra ti e tu, ao contrário, procuras matar-me. 13Que o Senhor julgue entre mim e ti! Que o Senhor me vingue de ti, mas eu não levantarei a minha mão contra ti. 14O mal vem dos perversos, como diz um provérbio antigo; por isso, não te tocará a minha mão. 15Mas a quem persegues, ó rei de Israel? A quem persegues? Um cão morto? Uma pulga? 16Pois bem! O Senhor julgará e sentenciará entre mim e ti. Que Ele julgue e defenda a minha causa, e me livre das tuas mãos.» 17Logo que David acabou de falar, Saul disse-lhe: «É esta a tua voz, ó meu filho David?» E Saul elevou a voz, soluçando. 18E disse a David: «Tu portas-te bem comigo, e eu comporto-me mal contigo. 19Provaste hoje a tua bondade para comigo, pois o Senhor havia-me entregado nas tuas mãos e não me mataste. 20Qual é o homem que, encontrando o seu inimigo, o deixa ir embora tranquilamente? Que o Senhor te recompense pelo que fizeste comigo! 21Agora eu sei que serás rei e que nas tuas mãos estará firme o reino de Israel.

    À medida que avançamos na leitura do primeiro livro de Samuel, verificamos que a figura de David é cada vez mais engrandecida, muitas vezes à custa da de Saul. É certo que também Saul pronuncia belas palavras sobre David: «É esta a tua voz, ó meu filho David?» E Saul elevou a voz, soluçando. 18E disse a David: «Tu portas-te bem comigo, e eu comporto-me mal contigo. 19Provaste hoje a tua bondade para comigo, pois o Senhor havia-me entregado nas tuas mãos e não me mataste». Mas faltou-lhe dar o último passo: libertar-se do ódio, da inveja e da sede de vingança, oferecendo a David o abraço da reconciliação. O que faltou a Saul, superabundou em David: venceu Golias, triunfou nos campos de batalha, e triunfou sobre si mesmo ao controlar a paixão do ódio e da vingança até limites que suscitam comoção e emocionam. A nobreza e a magnanimidade de David são realmente notáveis. O contraste com Saul fica ainda mais evidente, mostrando a justeza do seu afastamento e da eleição do humilde filho de Jessé.

    Evangelho: Mc 3, 13-19

    Naquele tempo, 13Jesus subiu a um monte, chamou os que Ele queria e foram ter com Ele. 14Estabeleceu doze para estarem com Ele e para os enviar a pregar, 15com o poder de expulsar demónios. 16Estabeleceu estes doze: Simão, ao qual pôs o nome de Pedro; 17Tiago, filho de Zebedeu, e João, irmão de Tiago, aos quais deu o nome de Boanerges, isto é, filhos do trovão; 18André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o Cananeu, 19e Judas Iscariotes, que o entregou.

    Jesus forma a sua nova família, um grupo de pessoas dispostas a acolhê-lo, embora também elas devam ainda converter-se. Embora falemos de família, para acentuar a relação pessoal e afectiva que deve existir entre Jesus e os seus discípulos, o grupo apresenta uma valência estrutural mais ampla: são o novo Israel, os fundamentos da futura Igreja. Tudo acontece sobre um «monte». Os montes são lugares propícios para as revelações de Deus (cf. 6, 43; 9, 2). As grandes decisões de Deus sobre o seu povo foram tomadas sobre os montes (cf. Ex 1, 20; 24, 12; Num 27, 12; Dt 1, 6-8, etc). Aqui é Cristo que chama, escolhe e constitui a comunidade. Marcos não diria isto, se não acreditasse que Jesus era Deus. O grupo é convocado para «ir ter com Ele» (v. 13 e, em primeiro lugar, para «estar com Ele» (v. 14). O novo povo de Deus constitui-se à volta de Jesus, que se apresenta como referência absoluta, assumindo uma função que pertencia à Lei. Isto causava escândalo aos Judeus. Os discípulos recebem os próprios poderes de Jesus, actuando com a força do Evangelho. A vocação implica a missão, está em função dela.

    Meditatio

    David, perseguido por Saul, tem oportunidade de se vingar dele, matando-o. Mas respeita a sua dignidade e oferece-lhe mais uma oportunidade de reconciliação: «Deus me guarde de fazer tal coisa ao meu senhor, o ungido do Senhor, estender a minha mão contra ele, pois ele é o ungido do Senhor!... Se eu cortei a ponta do teu manto e não te matei, reconhece que não há maldade nem revolta contra ti. Não pequei contra ti e tu, ao contrário, procuras matar-me. 13Que o Senhor julgue entre mim e ti!». O reconhecimento da dignidade do outro, dignidade querida por Deus, é a base da reconciliação, em qualquer conflito. David dá-nos também um belo exemplo de fidelidade, cheio de actualidade, num mundo onde a falta dela já quase não causa espanto. Mas Deus é fiel, e o homem, criado à imagem e semelhança de Deus, não pode deixar de ser fiel. Os apóstolos, chamados a partilhar a vida e a missão de Jesus, aprenderão que a lealdade e a fidelidade comportam o dom de si mesmo. A lealdade e a fidelidade que, antes de serem virtudes cristãs, são virtudes humanas que libertam o homem dos caprichos dos seus instintos e das emoções passageiras. A fé leva-me a ser leal e fiel porque me revela a lealdade e a fidelidade de Deus. Todo o cristão, e particularmente o religioso, deve "respeito" e "lealdade" para com os seus semelhantes e especialmente para com os seus superiores, ainda que nem sempre sejam modelos de virtude. A violência, mesmo contra os inimigos, n&ati lde;o é uma atitude digna dos discípulos d´Aquele que disse: "Aprendei de Mim que sou manso e humilde de coração" (Mt 11, 29). Muito menos digna será quando visar satisfazer a ânsia de domínio, privando os outros da sua liberdade, ou instrumentalizando-os para afirmação de si mesmo. É fechar-se no próprio egoísmo, sem reconhecer a dignidade humana dos outros, e despedaçando a verdadeira relação pessoal. O Oblato-Sacerdote do Coração de Jesus, e quantos quiseram partilhar a sua espiritualidade, deve ter a serena consciência de que todos somos fracos e imperfeitos, incluindo as autoridades civis e religiosas, que todavia respeita e trata com lealdade.

    Oratio

    Senhor, meu Deus, que, em Jesus Cristo, reconciliaste o mundo Contigo, dá-me um coração leal e fiel, um coração disponível e generoso que faça de mim um profeta e servidor da reconciliação. Obrigado pelo exemplo de David, que leal e fiel a Saul, que o persegue, lhe oferece um gesto de reconciliação. Obrigado pelo exemplo de Paulo, que, perseguido pelos seus próprios irmãos de raça, testemunha a generosidade de Deus que, também a eles, oferece a reconciliação em Cristo. Obrigado, sobretudo, pelo exemplo de Jesus que, ao morrer pela salvação do mundo, oferece o perdão àqueles que o matam. Faz-me caminhar na mansidão e na humildade, conforme o desejo do Coração de Jesus, teu Filho, para que me torne arauto e obreiro da unidade pela qual rezou e ofereceu a Si mesmo na cruz. Amen.

    Contemplatio

    Sebastião, zeloso no cumprimento de todos os seus deveres, tinha sido desde cedo educado para os cargos militares. Era um oficial amável, hábil, pontual. É pela sua bondade e pela sua justiça que ganha influência junto dos seus homens e até no serviço das prisões, o que lhe permite tornar-se útil a muitos dos cristãos e mesmo ganhar pagãos para a fé. Pelas suas qualidades de cidadão e de oficial ganhou as boas graças do imperador Diocleciano, que o fez capitão da primeira companhia dos guardas. Quando a sua religião foi descoberta, Diocleciano mandou-o chamar e repreendeu-o pela sua ingratidão. Mas Sebastião pode responder que observou fielmente todos os deveres da sua carreira. Acrescenta que se não ofereceu pelo imperador sacrifícios a Júpiter, a Marte, a Esculápio, rezou, no entanto, por ele e pelo império, dirigindo-se ao Deus do céu, o único verdadeiro e poderoso e a Jesus Cristo seu único Filho. Belo modelo de fidelidade a todos os deveres civis e militares! A fé não destrói as qualidades naturais, mas eleva-as e fortalece-as. A religião não impede de servir o soberano e a pátria, pelo contrário, torna este serviço mais fiel e mais dedicado. Como S. Sebastião, cumpramos todos os nossos deveres naturais e cívicos, ao mesmo tempo que servimos a Cristo com amor (Leão Dehon, OSP 3, p. 74s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra: «Ensina-me, Senhor, a mansidão e a humildade» (cfr. Mt 11, 29).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • II Semana - Sábado - Tempo Comum - Anos Pares

    II Semana - Sábado - Tempo Comum - Anos Pares

    24 de Janeiro, 2026

    Tempo Comum - Anos Pares II Semana - Sábado

    Lectio

    Primeira leitura: 2 Samuel 1, 1-4.11-12.19.23-27

    Naqueles dias, David regressou da derrota que infligiu aos amalecitas e esteve dois dias em Ciclag. 2Ao terceiro dia, apareceu um homem que vinha do acampamento de Saul, com as vestes rasgadas e a cabeça coberta de pó. Chegando perto de David, prostrou-se por terra e fez-lhe uma profunda reverência. 3David perguntou: «De onde vens?» Respondeu ele: «Escapei do acampamento de Israel.» 4Disse-lhe David: «Que aconteceu? Conta-me tudo.» Ele respondeu: «As tropas fugiram do campo de batalha, muitos tombaram, e Saul assim como seu filho Jónatas pereceram.» 11Então, David rasgou as suas vestes, e todos os que estavam com ele o imitaram. 12E prantearam, choraram e jejuaram até à tarde, por amor de Saul, de seu filho Jónatas, do povo do Senhor e do povo de Israel, porque tinham sido passados ao fio da espada. 19«A Honra de Israel pereceu sobre as colinas! Tombaram os heróis! 23Saul e Jónatas, amados e gloriosos, jamais se separaram, nem na vida nem na morte, mais velozes do que as águias, mais fortes do que os leões. 24Filhas de Israel, chorai sobre Saul! Ele vestia-vos de púrpura sumptuosa e ornava de ouro as vossas vestes.25Tombaram os heróis no campo de batalha! Jónatas, morto sobre as tuas colinas! 26Jónatas, meu irmão, que angústia sofro por ti! Como eu te amava! O teu amor era uma maravilha para mim mais excelente que o das mulheres. 27Como tombaram os heróis e se destruíram as armas de guerra!»

    Saul é o fundo negro em que ressalta a figura de David. Já o vimos várias vezes. Hoje verificamo-lo novamente. Saul, devido à sua má conduta, foi abandonado e recusado por Deus (1 Sam 15). Hoje, executa-se a sentença (1 Sam 31). É o fim trágico de uma vida marcada por um destino sinistro e fatídico. David chora sinceramente a desgraça de Saul e do seu amigo Jónatas. Parece uma elegia guerreira, sem referências religiosas. Na verdade, todos estes factos ilustram as vicissitudes do Povo de Israel, libertado do Egipto por Deus e sempre suspenso no fio da sua graça e do seu julgamento. A lamentação de David é uma tomada de consciência da não-redenção em que o povo, vítima dos filisteus, vive naquele momento. Por outro lado, a elegia revela a nobreza de alma do eleito do Senhor, preocupado com o seu povo, admitindo a relativa grandeza do seu adversário, capaz de ternura para com o amigo Jónatas. O Senhor escuta a lamentação como uma sentida invocação em momento de prova.

    Evangelho: Mc 3, 20-21

    Naquele temo, 20Jesus chegou a casa com os seus discípulos. E de novo a multidão acorreu, de tal maneira que nem podiam comer. 21E quando os seus familiares ouviram isto, saíram a ter mão nele, pois diziam: «Está fora de si!»

    A presença e a actividade de Jesus adquirem notável ressonância. Mas essa ressonância não leva necessariamente à fé. Jesus tem de enfrentar as primeiras recusas, a começar pela dos seus familiares que decidem tomar medidas drásticas contra os embaraços que lhes estava a causar. A consanguinidade não é suficiente para criar sintonia com o Evangelho. O discípulo de Jesus também está sujeito a ser isolado e hostilizado, até pelos seus familiares.

    Meditatio

    A primeira leitura, tendo como pano de fundo o ódio e a crueldade de Saul, realça a magnanimidade e a lealdade de David, um homem segundo o coração de Deus (cfr. Act 13, 13). Um mensageiro anuncia a David a morte de Saul e de Jónatas numa batalha contra os filisteus travada no monte Gelboé. Havia mais de um ano que David fugia de Saul, que via nele um perigoso rival, andando de terra em terra, e acabando por se refugiar na própria região dos inimigos de Israel, que eram os filisteus. Nesse momento, encontrava-se em Ciclag. A notícia da morte de Saul devia enchê-lo de alegria. Todavia David reage com uma dor profunda e sincera. Rasga as vestes em sinal de luto, chora, jejua, e entoa uma emocionante elegia: «A Honra de Israel pereceu sobre as colinas! Tombaram os heróis!... Saul e Jónatas, amados e gloriosos...tombaram... no campo de batalha! » (cfr. 2 Sam 1, 19-24). O sofrimento de David com a morte de Saul e de Jónatas vem na linha do respeito, da lealdade e da fidelidade ao rei, «ungido do Senhor», e da sincera amizade por Jónatas. Jamais o jovem filho de Jessé respondeu ao ódio com o ódio, à crueldade com a crueldade. Jónatas tornou-se o mais caro amigo de David: «Jónatas, meu irmão, que angústia sofro por ti! Como eu te amava! O teu amor era uma maravilha para mim mais excelente que o das mulheres» (2 Sam 1, 26). A verdadeira amizade tem como preço o dom de si mesmo e tem como ganho a experiência do amor. David, com a sua generosidade, com a sua magnanimidade, ensina-nos a viver como homens e mulheres «segundo o coração de Deus». O amor cristão não é algo de genérico, de vago. Dirige-se a pessoas muito concretas, com limites, defeitos e pecados. O próximo são aqueles que encontramos no caminho, talvez caídos e cobertos de chagas. O amor cristão vai até aos próprios inimigos: «Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem» (Mt 5, 44). Também quem professa a castidade consagrada não pode viver um amor desencarnado, um amor que corra o risco de não amar ninguém. A Sagrada Escritura diz-nos: "A doçura de um amigo dá segurança à alma" (Prov. 27, 9); "Um amigo fiel é uma protecção" (Sir 6, 5); "Por um amigo, podes perder dinheiro" (Sir 29, 20). Pensemos na amizade de Jónatas, que amava David como a si mesmo (cf. 1 Sam 18, 1-5; 20, 1-41). Pensemos no discípulo que Jesus amava (cf. Jo 13, 23). E pensemos em "Jesus (que) amava Marta, a sua irmã e Lázaro" (Jo 11, 5).

    Oratio

    Obrigado, Senhor, porque Te declaras meu amigo e me permites tratar-Te como amigo: «Já não vos chamo servos, mas amigos» (Jo 15, 15). Obrigado por todos os amigos que me tens dado e por todos quantos me convidas a amar, homens e mulheres. Os amigos fazem-me conhecer a mim mesmo, e fazem-me conhecer-Te a Ti. Obrigado pelas alegrias e pelos sofrimentos que vivemos juntos. Com eles, aprendi que a partilha multiplica os dons e que, dando generosamente, recebemos com abundância. Obrigado por cada um dos meus amigos, que têm sido presenças de luz e de esperança na minha vida. Lembra-te daqueles que ainda não experimentaram a amizade, ou que se sentiram atraiçoados pelos amigos. Que todos possam experimentar-Te como Amigo, sempre presente e fiel, sempre leal e generoso. Amen.

    Contemplatio

    Nosso Senhor deseja que nós vamos ter com ele com simplicidade. - O discípulo: Senhor, começo com um acto de simplicidade pedindo-vos hoje que vós mesmo faleis comigo. - O Salvador: Compreendei a santa liberdade e simplicidade com as quais deveis viver comigo: «Sede simples como pombas» (Mt 10). Não peço uma tensão penosa do espírito para estar atento a pensar em mim em todo o instante. Quando tiverdes passado algum tempo sem me produzirdes actos de amor, em vez de desesperardes e de crerdes que jamais podereis fazer o que espero de vós, vinde ter comigo simplesmente. Dizei-me com uma ternura cheia de abandono, que me amais; pedi-me perdão por me haverdes esquecido e não penseis mais nisso. Agi da mesma maneira nestas mil pequenas fraquezas de que os vossos dias estão cheios. Não vos desoleis por não terdes feito melhor do que o não podeis. Oferecei-me todos os pequenos sacrifícios que quiserdes, mas guardai-vos de passar o vosso tempo a contar tudo o que fazeis. Os pequenos sacrifícios que eu peço devem ser-me oferecidos espontaneamente: Deus ama aquele que dá com alegria (2Cor 9,7). Falai-me como um amigo fala ao seu amigo, um filho a sua mãe. «Já não vos chamo servos, mas amigos», dizia aos meus discípulos. «Recebestes o espírito de adopção de filhos», diz-vos S. Paulo (Rom 8). Imaginai que sois um menino admitido junto de mim em Nazaré e comportai-vos comigo como faríeis se esta imaginação fosse realidade. O meu coração faz as suas delícias com estas efusões cheias de candura e de simplicidade: As minhas delícias são estar com os filhos dos homens. (Leão Dehon, OSP 3, p. 44).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra: «Um amigo fiel é uma protecção» (Sir 6, 5)»

    | Fernando Fonseca, scj |

  • III Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    III Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    26 de Janeiro, 2026

    Tempo Comum - Anos Pares III Semana - Segunda-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 2 Samuel 5, 1-7.10

    1Todas as tribos de Israel foram ter com David a Hebron e disseram-lhe: «Aqui nos tens: não somos nós da tua carne e do teu sangue? 2Tempos atrás, quando Saul era nosso rei, eras tu quem dirigia as campanhas de Israel e o Senhor disse-te: 'Tu apascentarás o meu povo de Israel e serás o seu chefe.'» 3Vieram, pois, todos os anciãos de Israel ter com o rei a Hebron. David fez com eles uma aliança diante do Senhor, e eles sagraram-no rei de Israel. 4David tinha trinta anos quando começou a reinar e reinou quarenta anos: 5sete anos e seis meses sobre Judá, em Hebron, e trinta e três anos em Jerusalém, sobre todo o Israel e Judá. David em Jerusalém (1 Cr 11,4-9; 14,1-7) - 6O rei marchou com os seus homens para Jerusalém, contra os jebuseus, que habitavam aquela terra. Estes disseram a David: «Não entrarás aqui; serás repelido até por cegos e coxos.» Isto queria dizer: «Nunca entrarás aqui.» 7Contudo, David apoderou-se da fortaleza de Sião, que é a Cidade de David. 10Deste modo, David ia-se fortificando e o Senhor, Deus do universo, estava com ele.

    A unção de David por Samuel espelha o sentido profundamente religioso e carismático que sempre teve a autoridade em Israel. Mas essa unção não parece ter sido obra de Samuel, mas dos homens de Judá, primeiro (2 Sam 2, 4) e, depois, dos anciãos de Israel (5, 3). David entrou no exército de Saul como chefe de mercenários (1 Sam 18, 5); depois passou ao serviço dos filisteus, que o fizeram príncipe de Ciclag (1 Sam 27, 6); finalmente fui ungido rei pelas tribos do sul em Hebron, onde reinou sete anos e meio (2 Sam 5, 5). Num segundo momento foi reconhecido como rei das tribos do norte e, uma vez conquistada Jerusalém, estabeleceu nela a capital. A conquista de Jerusalém impunha-se por razões políticas: situada entre os territórios de Israel e de Judá, não pertencia a nenhum deles, mas aos Jebuseus e, por isso, podia ser aceite por ambas as partes do novo reino. A cidade foi tomada pela milícia pessoal de David, sublinhando que não ficava integrada nem em Israel nem em Judá, mas permanecia como cidade neutral, centro autónomo do poder do rei. O v. 10 repete o refrão teológico, e poderia representar a conclusão original da história de David, do seu sinuoso caminho desde as pastagens de Belém até ao domínio de Sião. Com a conquista de Jerusalém, as tribos unificadas sentem-se seguras e podem dedicar-se a outras actividades, inclusivamente culturais. Na escola de escribas, surge o movimento Javista que compõe a primeira síntese histórico-salvífica, a fim de assinalar a missão e o destino de Israel como paradigma e fonte de salvação para todos os povos da terra.

    Evangelho: Mc 3, 22-30

    22E os doutores da Lei, que tinham descido de Jerusalém, afirmavam: «Ele tem Belzebu!» E ainda: «É pelo chefe dos demónios que expulsa os demónios.» 23Então, Jesus chamou-os e disse-lhes em parábolas: «Como pode Satanás expulsar Satanás? 24Se um reino se dividir contra si mesmo, tal reino não pode perdurar; 25e se uma família se dividir contra si mesma, essa família não pode subsistir. 26Se, portanto, Satanás se levanta contra si próprio, está dividido e não poderá subsistir; é o seu fim. 27Ninguém consegue entrar em casa de um homem forte e roubar-lhe os bens sem primeiro o amarrar; só depois poderá saquear-lhe a casa. 28Em verdade vos digo: todos os pecados e todas as blasfémias que proferirem os filhos dos homens, tudo lhes será perdoado; 29mas, quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca mais terá perdão: é réu de pecado eterno.» 30Disse-lhes isto porque eles afirmavam: «Tem um espírito maligno.»

    O «tribunal» vindo de Jerusalém, não podendo negar a evidência prodígios que Jesus operava, insinua que é por Belzebu que expulsa os demónios. Jesus enfrenta decidida e corajosamente os seus caluniadores, ainda que «em parábolas», para os refutar. Evidencia as suas contradições: se fosse Satanás a expulsar Satanás, não era preciso estar preocupados com ele, porque o seu poder tinha chegado ao fim. As palavras de Jesus, cheias da ironia que Marcos várias vezes anota, são uma profecia: efectivamente o reino de Satanás estava prestes a findar, porque se aproximava o reino dos céus, ou melhor, já estava presente. Libertar os pecadores do poder de Satanás e da escravidão do pecado era um sinal claro de que Jesus actuava em nome de Deus. Dizer que actuava pelo poder do «espírito maligno» era blasfemar contra o Espírito Santo.

    Meditatio

    David fez tudo pela unidade de Israel. Foi generoso e leal com Saul, que o perseguia, vestiu-se de luto quando soube da sua morte e matou os assassinos dos parentes do rei. Estas atitudes levaram as tribos de Israel a reconhecê-lo como rei. Se assim não fosse, David não seria mais do que senhor de Judá. Agindo como agiu, assumiu o poder sobre as tribos do Norte e do Sul e, ao conquistar Jerusalém, ergueu o reino de Israel, que havia de governar durante 40 anos, e que é figura do reino messiânico. No evangelho, Jesus fala do reino dividido de Satanás para mostrar o poder do Espírito. A figura do reino dividido e rebelde, do homem forte amarrado e espoliado, contrasta com o Reino eterno do perdão, contra o qual ninguém consegue opor-se com êxito, e onde todos serão acolhidos e salvos. Só o mau uso da nossa liberdade poderá excluir-nos do Reino, se nos levar a blasfemar contra o Espírito Santo, confundindo o Filho do Homem com Satanás. Meditando nos esforços de David para realizar a unidade do reino de Israel, e no Espírito Santo como força de união, rezemos pela unidade da Igreja. Apesar da vontade de Jesus, e da sua oração para «que todos sejam um» (Jo 17, 21), a Igreja continua dividida, dificultando que «o mundo creia» (Jo 17, 23) A união e a caridade entre os cristãos podem ser vividas a vários níveis. O mais perfeito é expresso por Jesus em forma de oração, quando pede que os seus discípulos se amem uns aos outros como as Três Pessoas da Santíssima Trindade se amam: "Não rogo só por estes, mas também por aqueles que, graças à sua palavra, hão-de acreditar em Mim, para que todos sejam um. Como Tu, ó Pai, estás em Mim e Eu em Ti, sejam também eles uma só coisa, para que o mundo creia que Tu Me enviaste" (Jo 17, 20-21). A união e a caridade são, por si mesmas, um poderoso apostolado. A falta delas dificulta a eficácia apostólica. O "Sint unum" (Jo 17, 21) é um mote caro ao Pe. Dehon, e proposto a quantos partilham o seu carisma e a sua missão. «Unidos... à intercessão de Cristo, somos chamados a colocar toda a nossa vida ao serviço da Aliança de Deus com o seu Povo e a promover a unidade dos cristãos e de todos os ho mens. "Porque há um único pão, nós todos formamos um só corpo, pois todos participamos desse único pão" (1 Cor 10,17)» (Cst 84). Queremos, deste modo, responder ao convite de encontro e de comunhão que Cristo nos faz por meio do sinal privilegiado da sua presença, que é a Eucaristia, que celebramos, comungamos e adoramos (cf. Cst 84)

    Oratio

    Senhor Jesus, Tu disseste: «Todo o reino, dividido contra si mesmo, fica devastado; e toda a cidade ou casa, dividida contra si mesma, não poderá subsistir» (Mt 12, 25). Hoje quero pedir-te pela unidade da tua Igreja. Que sejamos todos «um só», como Tu e o Pai são «um só», «para que o mundo creia». Que a unidade da Igreja esteja sempre, pelo menos, nos nossos desejos, para que não comprometamos a união e a comunhão entre nós, os que acreditamos em Ti. Amen.

    Contemplatio

    «Meu Pai, dizia Nosso Senhor na sua oração, aqueles que me destes, quero que onde eu estiver eles também estejam comigo, para que vejam a glória que me destes. Reconheceram que me enviastes. Dei-lhes a conhecer o vosso nome, as vossas divinas perfeições, a vossa santidade, a vossa misericórdia/485, o vosso amor inefável, e pelo dom do Espírito Santo dá-los-ei a conhecer ainda mais, para que vos conheçam melhor, vos amem mais e se tornem sempre mais dignos do vosso amor e assim o amor com o qual me amastes esteja neles e ameis neles as imagens do vosso Filho bem-amado, os membros do corpo místico do qual sou o chefe...» Nesta oração ao seu Pai, Nosso Senhor indicava toda a união que devemos ter com a santa Trindade e particularmente com ele. Do seu lado, ele está unido a nós: deu-nos a conhecer o seu Pai, o Deus do amor, manifestavi nomem tuum hominibus, quos dedisti mihi de mundo. Comunicou-nos a palavra de seu Pai, a revelação divina, os segredos do seu conselho divino, Verba quae dedisti mihi, dedi eis. Nós também estamos unidos a ele. Como seus discípulos, recebemos a sua palavra e conservámo-la nos nossos corações com fidelidade, sermonem tuum acceperunt et servaverunt. Reconhecemos que a sua palavra era a palavra de Deus mesmo. Acreditámos na sua natureza divina e na sua missão, cognoverunt quia a te exivi et crediderunt quia tu me misisti (Jo 17). Esta união consumar-se-á no céu (Leão Dehon, OSP 3, p.484s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra: «Que todos sejam um» (Jo 17, 21).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • III Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    III Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    27 de Janeiro, 2026

    Tempo Comum - Anos Pares III Semana - Terça-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 2 Samuel 6, 12b-15.17-19

    12Disseram ao rei que o Senhor abençoara a casa de Obededom e todos os seus bens por causa da Arca de Deus. Foi, pois, David e transportou-a da casa de Obededom para a Cidade de David, com grande regozijo. 13E a cada seis passos que davam os que transportavam a Arca do Senhor, sacrificavam um boi e um carneiro. 14David, cingindo a insígnia votiva de linho, dançava com todas as suas forças diante do Senhor. 15O rei e todos os israelitas conduziram a Arca do Senhor, soltando gritos de alegria e tocando trombetas. 17Introduziram a Arca do Senhor e colocaram-na no seu lugar, no centro do tabernáculo que David construíra para ela; e David ofereceu holocaustos e sacrifícios de comunhão diante do Senhor. 18Quando David acabou de oferecer holocaustos e sacrifícios de comunhão, abençoou o povo em nome do Senhor do universo 19e distribuiu alimentos a toda a multidão dos israelitas, homens e mulheres, dando a cada pessoa, um bolo, um pedaço de carne assada e uma filhó. Depois, toda a multidão se retirou, indo cada um para a sua casa.

    Os centros de culto tradicionais eram Siquém, Betel, Guilgal, Mambré, Bersabé, entre outros. Jerusalém fora pagã até ontem. Daí o interesse de David em rodeá-la com uma aura religiosa. Nada melhor que torná-la sede da Arca da Aliança. A Arca da Aliança continha as tábuas da Lei dadas por Deus a Moisés, no Sinai. Era símbolo da presença de Javé no meio do seu povo. Por isso, o tinha acompanhado nas peregrinações pelo deserto, até à conquista da Terra, e durante a guerra com os filisteus. O transporte da Arca para Jerusalém é ocasião de festa para o povo e para o rei: David manifesta abertamente a sua alegria dançando, cingido com o efod, a veste sagrada dos sacerdotes. Como ainda não há o templo, a Arca é colocada numa tenda, sinal da mobilidade do povo e do próprio Deus, que recorda aos Israelitas que não podem apoderar-se da presença de Deus, fazendo-o como que prisioneiro. Os holocaustos, os sacrifícios de comunhão e a refeição sagrada - o pão, a carne, as uvas - distribuídos por David a todos selam a cerimónia. A Arca instrumento de batalha durante a guerra contra os filisteus, torna-se sinal de paz e de prosperidade. A partir de David, Jerusalém torna-se uma referência fundamental para o judaísmo e, mais tarde também para o cristianismo e para o islamismo.

    Evangelho: Mc 3, 31-35

    31Nisto chegam sua mãe e seus irmãos que, ficando do lado de fora, o mandam chamar. 32A multidão estava sentada em volta dele, quando lhe disseram: «Estão lá fora a tua mãe e os teus irmãos que te procuram.» 33Ele respondeu: «Quem são minha mãe e meus irmãos?» 34E, percorrendo com o olhar os que estavam sentados à volta dele, disse: «Aí estão minha mãe e meus irmãos. 35Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe.»

    Depois do julgamento do «tribunal» de Jerusalém, vem o julgamento dos «seus», conterrâneos e parentes, que dizem que Ele está louco. Alguns autores vêem neste texto ecos de uma desconfiança que existia em relação à comunidade judeo-cristã de Jerusalém, cujo bispo era Tiago, «irmão» do Senhor, pertencente ao grupo de Nazaré, cuja hostilidade para com o Senhor é sublinhada por Marcos (cf. 6, 3). Os parentes do Senhor lideravam a igreja de Jerusalém e também há quem veja no texto de Marcos resíduos de uma polémica contra o perigo do nepotismo na Igreja. Como quer que seja, não podemos ver neste texto qualquer atitude de menosprezo pela Mãe, nem pelos afectos humanos. Marcos não trata desses temas, mas aproveita o ensejo para criar uma situação paradoxal que dá maior realce aos vv. 34s., que são o cume do episódio. Todos quantos rodeiam Jesus, ainda que simples curiosos, discípulos hesitantes ou apóstolos tardos em compreender, ou mesmo traidores, são mãe e irmãos. Ser irmão de Jesus, não é questão de sangue, de mérito, mas de graça: «Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe», por que se torna «filho de Deus».

    Meditatio

    A Arca da Aliança, recebida em casa de Obedon, um estrangeiro, torna-se fonte de bênçãos para ele. Por isso, David decide levá-la para Jerusalém, recentemente conquistada aos jebuseus. Transporta-a com manifestações de grande alegria e oferecendo vários sacrifícios a Deus. Colocada na tenda, oferece holocaustos e sacrifícios de comunhão. E todo o povo participa na festa, comendo bolos, carne e filhós. Somos inclinados a ver o sacrifício como privação, como algo que nos faz sofrer. Na primeira leitura, o sacrifício aparece-nos como alegria, festa, exultação. David, enquanto transporta a Arca, e já em Jerusalém, oferece sacrifícios com grande alegria para ele e para todo o povo. O verdadeiro sacrifício não é privação, mas um acto positivo, uma oferta a Deus. E quando oferecemos algo a uma pessoa a quem queremos bem, a eventual privação é secundária para nós. O mais importante é a satisfação de oferecer. O sacrifício é uma oferta a Deus. Como pode ser algo de triste? Se pensarmos melhor, todo o sacrifício oferecido a Deus, é um dom do próprio Deus para nós. Ao fim e ao cabo, é Ele que nos torna capazes de oferecer sacrifícios. O autor da Carta aos Hebreus diz-nos que Jesus «por um Espírito eterno ofereceu a Si mesmo sem mancha, a Deus" (Heb 9, 14). Só o Espírito Santo é capaz de nos animar para o sacrifício e de tornar sagradas (sacrum facere) as nossas oferendas. Os sofrimentos são realidades negativas. Só quando Deus as transforma pela sua graça é que se tornam gestos de generosidade e de amor. Além disso, o sacrifício, oferta a Deus, não inclui necessariamente o sofrimento. Todas as nossas alegrias podem e devem tornar-se ofertas a Deus para serem alegrias santas e não apenas humanas. As nossas alegrias, as nossas satisfações, as coisas boas da vida, o bem que recebemos, podem e devem tornar-se oblação santa e agradável a Deus. O acolhimento da Arca em casa de Obedon, um estrangeiro, trouxe-lhe as bênçãos de Deus. O acolhimento do Evangelho cria uma familiaridade com Jesus superior à dos simples laços de sangue. A simplicidade com que David sabe reconhecer sem ciúmes os sinais da graça do Senhor na casa de Obedon, e a clareza com que Jesus define quem são os seus familiares, devem tornar-nos atentos ao essencial, e disponíveis a entregar-nos sem preconceitos ao louvor de Deus e ao acolhimento e cumprimento da sua vontade. David dança pelo caminho como um homem qualquer; quem quer que escute a Palavra de Jesus e a ponha em prática, torna-se «irmã, ir mão e mãe» d´Ele. As nossas Constituições indicam-nos "como o único necessário, uma vida de união à oblação de Cristo" (n. 26). A matéria desta oblação somos nós mesmos. Por carisma, dom do Espírito Santo, oferecemo-nos a Deus em castidade, pobreza e obediência, vivendo em comunidade, ao serviço da missão da Igreja, solidários com os pequenos e pobres. A Eucaristia é modelo e forma da nossa oblação: "neste sacrifício da Nova Aliança, unimo-nos à oblação perfeita que Cristo oferece ao Pai, para fazê-la nossa, pelo sacrifício espiritual das nossas vidas» (Cst 81). Um sacrifício espiritual, isto é, animado pelo Espírito, só pode ser feito na alegria.

    Oratio

    Senhor, dá-me um coração capaz de acolher os sinais da tua presença, capaz de acolher e cumprir a tua vontade. Que a tua Palavra, acolhida na alegria, ocupe sempre um lugar de honra no meu coração. Então serei capaz de reconhecer como irmãs e irmãos todos quantos cumprem a vontade do Pai, sem me abandonar a preconceitos de qualquer espécie. Então serei capaz de me oferecer e oferecer com alegria tudo quanto vivo, realizo e sofro, fazendo da minha vida e da minha morte uma oblação santa e agradável a Deus. Amen.

    Contemplatio

    Deus enviou o seu filho à terra, para que seja o seu sacerdote, para que o glorifique no seu coração sacerdotal. Nosso Senhor foi sacerdote desde a sua incarnação. Recebeu com a união hipostática a unção sacerdotal. O seu coração foi desde então um coração de sacerdote. Ofereceu-se imediatamente em holocausto e pronunciou o seu Ecce venio. Mas foi no Templo que teve lugar o primeiro acto exterior da sua oblação. É feita pelos seus pais e pelo sacerdote, mas o seu Coração sacerdotal ratifica-a. Oferece-se ao seu Pai, dá-se. Aniquilou-se pela incarnação, humilhar-se-á por uma vida toda de obediência, de trabalho e de pobreza; consumará o seu sacrifício pela sua paixão e pela sua morte. O sacerdote apresenta-o a Deus e coloca-o sobre o altar. Jesus repete no seu coração o Ecce venio da sua incarnação: Eis-me aqui, diz de novo ao seu Pai, eis-me aqui para fazer a vossa vontade, eis-me aqui para suprir às hóstias e aos holocaustos que já não quereis. - Tem em vista todos os fins do sacrifício. A oblação do seu coração é um acto de religião infinito. É simultaneamente um acto de adoração, de acção de graças, de reparação e de oração. Mas a nossa fraca inteligência não se dá conta da perfeição desta oblação senão supondo actos distintos e sucessivos. Nós vemos primeiro no Coração sacerdotal de Jesus um acto de adoração e para exprimir esta adoração aniquilamentos infinitos. Nosso Senhor confessa a absoluta dependência na qual se encontra diante da infinita Majestade do seu Pai. Proclama que lhe deve tudo e, /124 para lhe fazer um sacrifício de tudo o que é, abaixa-se até ao nada, como diz S. Paulo, porque é exactamente nada esta natureza humana tomada na sua pobreza, na sua infinita pequenez, com a carga de todos os pecados dos homens e a espera da morte. Mas mais o Verbo de Deus se abaixa, mais nós devemos exaltá-lo com os nossos louvores (Leão Dehon, OSP 3, p. 123s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra: «Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe» (Mc 3, 35).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • III Semana – Quarta-feira – Tempo Comum – Anos Pares

    III Semana – Quarta-feira – Tempo Comum – Anos Pares

    28 de Janeiro, 2026

    III Semana – Quarta-feira – Tempo Comum – Anos Pares

    Lectio

    Primeira leitura: 2 Samuel 7, 4-17

    4Mas, naquela mesma noite, o Senhor falou a Natan, dizendo-lhe: 5«Vai dizer ao meu servo David: Diz o Senhor: "És tu que me vais construir uma casa para Eu habitar? 6Desde que tirei da terra do Egipto os filhos de Israel até ao dia de hoje, não habitei em casa alguma; mas peregrinava alojado numa tenda que me servia de morada. 7E, durante todo o tempo em que andei no meio dos israelitas, disse, porventura, a algum dos chefes de Israel que encarreguei de apascentar o meu povo: ‘Porque não me edificais uma casa de cedro?’ 8Dirás, pois, agora, ao meu servo David: Diz o Senhor do universo: Eu tirei-te das pastagens onde apascentavas as tuas ovelhas, para fazer de ti o chefe de Israel, meu povo. 9Estive contigo em toda a parte por onde andaste; exterminei diante de ti todos os teus inimigos e fiz o teu nome tão célebre como o nome dos grandes da terra. 10Fixarei um lugar para Israel, meu povo; nele o instalarei, e ali habitará, sem jamais ser inquietado; e os filhos da iniquidade não mais o oprimirão, como outrora, 11no tempo em que Eu estabelecia juízes sobre o meu povo, Israel. A ti concedo uma vida tranquila, livrando-te de todos os teus inimigos. Além disso, o Senhor faz hoje saber que será Ele próprio quem edificará uma casa para ti. 12Quando chegar o fim dos teus dias e repousares com teus pais, manterei depois de ti a descendência que nascerá de ti e consolidarei o seu reino. 13Ele construirá um templo ao meu nome, e Eu firmarei para sempre o seu trono régio. 14Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho. Se ele cometer alguma falta, hei-de corrigi-lo com varas e com açoites, como fazem os homens, 15mas não lhe tirarei a minha graça, como fiz a Saul, a quem afastei diante de ti. 16A tua casa e o teu reino permanecerão para sempre diante de mim, e o teu trono estará firme para sempre".» 17Foi segundo estas palavras e esta visão que Natan falou a David.

    A profecia de Natan vem desfazer as desconfianças e as reticências perante a monarquia. Até aí o povo de Israel estava organizado em tribos, que gozavam de certa autonomia. Com monarquia, o poder foi concentrado nas mãos do rei e em Jerusalém, capital do reino e cidade santa. Era uma inovação que nem todos aceitavam pacificamente. A profecia de Natan funciona como um referendo divino à instituição monárquica e, de modo muito especial, à dinastia de David: «A tua casa e o teu reino permanecerão para sempre diante de mim, e o teu trono estará firme para sempre» (v. 16). David está consciente da solidez eterna da sua casa e do seu trono pois, ao morrer, pronuncia as seguintes palavras: «A minha casa está firme diante de Deus, porque Ele fez comigo uma aliança eterna» (2 Sam 23, 5). Este pacto de Deus com David manterá elevada a moral e a esperança do povo nos momentos difíceis.
    O oráculo de Natan começa com uma pergunta retórica: «És tu que me vais construir uma casa para Eu habitar?» (v. 5). Esta pergunta faz um todo com a afirmação antitética do v. 11: «será Ele próprio (o Senhor), quem edificará uma casa para ti». Só depois da morte de David o Senhor suscitará o seu descendente (cf. v. 12). Como frequentemente acontece nos oráculos proféticos, são possíveis dois níveis de leitura: a referência imediata a Salomão que construirá o Templo em Jerusalém e a vinda do futuro Messias. O Messias construirá uma casa ao Nome de Deus, o seu reino será eterno, e aplica-se a ele a fórmula de adopção: «Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho» (v. 14).

    Evangelho: Mc 4, 1-20

    1De novo começou a ensinar à beira-mar. Uma enorme multidão vem agrupar-se junto dele e, por isso, sobe para um barco e senta-se nele, no mar, ficando a multidão em terra, junto ao mar. 2Ensinava-lhes muitas coisas em parábolas e dizia nos seus ensinamentos: 3«Escutai: o semeador saiu a semear. 4Enquanto semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho e vieram as aves e comeram-na. 5Outra caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra e logo brotou, por não ter profundidade de terra; 6mas, quando o sol se ergueu, foi queimada e, por não ter raiz, secou. 7Outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram, sufocaram-na, e não deu fruto. 8Outra caiu em terra boa e, crescendo e vicejando, deu fruto e produziu a trinta, a sessenta e a cem por um.» 9E dizia: «Quem tem ouvidos para ouvir, oiça.»
    10Ao ficar só, os que o rodeavam, juntamente com os Doze, perguntaram-lhe o sentido da parábola. 11Respondeu: «A vós é dado conhecer o mistério do Reino de Deus; mas, aos que estão de fora, tudo se lhes propõe em parábolas, 12para que ao olhar, olhem e não vejam, ao ouvir, oiçam e não compreendam, não vão eles converter-se e ser perdoados.»
    13E acrescentou: «Não compreendeis esta parábola? Como compreendereis então todas as outras parábolas? 14O semeador semeia a palavra. 15Os que estão ao longo do caminho são aqueles em quem a palavra é semeada; e, mal a ouvem, chega Satanás e tira a palavra semeada neles. 16Do mesmo modo, os que recebem a semente em terreno pedregoso, são aqueles que, ao ouvirem a palavra, logo a recebem com alegria, 17mas não têm raiz em si próprios, são inconstantes e, quando surge a tribulação ou a perseguição por causa da palavra, logo desfalecem. 18Outros há que recebem a semente entre espinhos; esses ouvem a palavra, 19mas os cuidados do mundo, a sedução das riquezas e as restantes ambições entram neles e sufocam a palavra, que fica infrutífera. 20Aqueles que recebem a semente em boa terra são os que ouvem a palavra, a recebem, dão fruto e produzem a trinta, a sessenta e a cem por um.»

    O reino de Deus é proclamado pela palavra. Marcos, na secção que hoje abre, oferece-nos uma teologia da palavra do reino. Jesus começa a falar «em parábolas». Era o método usado pelos rabinos. As parábolas são «histórias» aparentemente simples, mas com um elemento-surpresa e uma conclusão inesperada que convidam a procurar um segundo significado, para além do imediato.
    A parábola começa por estar orientada para o semeador, extremamente generoso na sementeira. Mas logo centra a nossa atenção na semente. Vem, depois, a tipologia dos terrenos que recebem a semente. Há um evidente exagero ao falar da «boa terra». A imagem da colheita sugere o fim dos tempos. A parábola, ao fim e ao cabo, diz-nos que o Messias está próximo e descreve a abundância de graça do Reino messiânico.
    No diálogo com «os que o rodeavam», a semente é claramente identificada com a Palavra, e os terrenos correspondem às diferentes reacções suscitadas pela pregação dos apóstolos.

    Meditatio

    Quantas vezes concebemos, como David, grandes projectos de acção em favor de Deus e do seu Reino. Mas Deus baralha-nos quando nos faz perceber que é Ele que tem grandes projectos em nosso favor, e que, antes de manifestarmos o nosso a
    mor, é Ele que quer manifestar o seu amor por nós: «não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele mesmo que nos amou e enviou o seu Filho» (1 Jo 4, 10). A David, Deus disse pelo profeta: «És tu que me vais construir uma casa para Eu habitar? … Eu próprio edificarei uma casa para ti» (cf 1 Sam 7, 5.11).
    Se pusermos a nossa generosidade à frente da generosidade de Deus, se pusermos o nosso amor antes do amor de Deus, invertemos a ordem das coisas e manifestarmos a pretensão de sermos os primeiros a amar. O primado do amor pertence a Deus, como ficamos a perceber se escutarmos e acolhermos a sua palavra, que, em primeiro lugar, uma promessa. Deus quer cumular-nos de dons. Iniciou uma relação e um diálogo connosco para nos encher de dons.
    A fecundidade da palavra que Deus manda transmitir a David é extraordinária: produz verdadeiramente trinta, sessenta, cem por um. E a palavra que Deus dirige a cada um de nós? Somos terra boa? Que fazemos com a nossa vocação cristã e com a nossa vocação específica? Terra boa foi Maria, foram os apóstolos, foram os mártires e os santos. Terra boa foi o Pe. Dehon. Mas o fruto da palavra não depende apenas com o nosso esforço, das nossas obras, talvez grandiosas aos olhos dos homens. Tudo o que fazemos está nas mãos de Deus. Só Ele pode tornar estável a nossa «casa» e fecundo o nosso «terreno», muito para além dos nossos desejos e projectos. De facto, os projectos de Deus são bem mais maravilhosos, amplos e profundos do que podemos esperar. Basta-nos abrir-lhe o coração.
    A primeira bem-aventurança que ecoa no Evangelho é dirigida a Maria: “Feliz d´Aquela que acreditou no cumprimento das palavras do Senhor…” (Lc 1, 45). É a bem-aventurança da fé, que acolhe a Palavra de Deus e adere a ela com toda a vida. É a bem-aventurança que o próprio Jesus, um dia, proclamará: “Felizes… aqueles que escutam a Palavra de Deus e a põe em prática!” (Lc 11, 28). A Palavra de Deus é, em primeiro lugar, um dom do seu amor ao qual havemos de corresponder com uma vida de amor a Deus: “Sede daqueles que põem em prática a palavra e não apenas ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tg 1, 22

    Oratio

    Senhor, ensina-me a submeter os meus projectos aos teus. Ensina-me a deixar-me amar por Ti, antes de pretender amar-te. Ensina-me a acolher a tua palavra, antes de querer falar-Te. Ela é um dom do teu amor, que deve encher a minha vida. Que, nos momentos difíceis, seja para mim um rochedo de salvação. Ensina-me que ela é sempre eficaz, mas não do modo que eu pretendo.
    Dá-me um coração disponível e acolhedor. Lança generosamente em mim a tua palavra e torna-a fecunda pelo teu Espírito. Amen.

    Contemplatio

    O grande semeador é Deus, é Jesus. Deus semeou os seus benefícios desde a criação. Cristo semeia as suas graças e semeia-as quotidianamente desde a sua incarnação. E muitas destas graças e destes benefícios não encontraram nem gratidão nem fidelidade.
    Mas reflectirei sobretudo nas graças que recebi pessoalmente: o baptismo, a primeira comunhão, a vocação, os retiros, as confissões, as comunhões, as leituras espirituais, os acontecimentos providenciais, a minha vocação especial de amigo do Sagrado Coração.
    O divino semeador semeou sem descanso o bom grão no campo da minha alma, mas que é que daí resultou? – Há grãos que caem sobre os caminhos e as aves apoderam-se deles. É demasiadas vezes o que me acontece. A minha alma é um grande caminho pela dissipação, pela a curiosidade, pela ligeireza. O bom grão não consegue ter aí raiz. – Outros grãos caem sobre uma terra pedregosa ou cheia de espinhos. É ainda a minha alma, endurecida pela tibiez e ocupada pelos espinhos dos cuidados materiais e terrestres, estranhos à minha vocação. Estes grãos não produzirão nada de durável. – Há, finalmente, boas terras que produzem o cêntuplo. A minha alma deveria ser destas. Como hei-de fazer para a dispor? É-lhe necessário o labor profundo da penitência e do retiro, a guarda da modéstia e do recolhimento, a emenda da reparação e do sacrifício. Que farei?… Ó minha alma, dispõe-te a receber as sementeiras do bom grão, as sementeiras da graça fecunda do Sagrado Coração (Leão Dehon, OSP 3, p. 57s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Não fomos nós que amámos a Deus; foi Ele que nos amou e enviou o seu Filho» (cf. 1 Jo 4, 10)».

    | Fernando Fonseca, scj |

  • III Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    III Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    29 de Janeiro, 2026

    Tempo Comum - Anos Pares III Semana - Quinta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 2 Samuel 7, 18-19.24-29

    18Então, David foi apresentar-se diante do Senhor e disse-lhe: «Quem sou eu, Senhor Deus, e quem é a minha família, para que me tenhas conduzido até aqui? 19E, como se isto fosse pouco para ti, Senhor Deus, Senhor Deus, fizeste também promessas à família do teu servo para os tempos futuros! Porque esta é a lei do homem, ó Senhor Deus! 24Estabeleceste solidamente o teu povo, Israel, para ser eternamente o teu povo, e Tu, Senhor, seres o seu Deus. 25Agora, pois, Senhor Deus, cumpre para sempre a promessa que fizeste ao teu servo e à sua casa e faz como disseste. 26O teu nome será exaltado para sempre e dir-se-á: 'O Senhor do universo é o Deus de Israel. E permanecerá estável diante de ti a casa do teu servo David. 27Porque Tu próprio, ó Senhor do universo, Deus de Israel, fizeste ao teu servo esta revelação: 'Eu te construirei uma casa.' Por isso, o teu servo se animou a dirigir-te esta prece. 28Agora, ó Senhor Deus, só Tu és Deus, e as tuas palavras são a própria verdade. Já que prometeste ao teu servo estes bens, 29abençoa, desde agora, a sua casa, para que ela subsista para sempre diante de ti: porque Tu, Senhor Deus, falaste e, graças à tua bênção, a casa do teu servo será abençoada eternamente.»

    Depois das promessas de Deus em relação a David, à sua descendência e a todo o povo (na primeira parte de 2Sam 7), o rei toma a palavra e pronuncia uma oração de louvor e de acção de graças. A oração é repetitiva e redundante: os conceitos «casa», «Senhor Deus» (Adonai Yahveh), «servo», «falar», «palavra» «eternamente», repetem-se várias vezes. Mas essa repetição acentua claramente as ideias principais nela expressas. Entre elas sobressai o conceito de «palavra»: promessa feita a David por meio de Natan; palavra eficaz e fonte de esperança nos momentos difíceis da história. As razões pelas quais Deus recusa a construção do templo por David não estão muito claras. Mas o rei aceita a anulação dos seus projectos para que se realizem os de Deus: «Quem sou eu, Senhor Deus, e quem é a minha família, para que me tenhas conduzido até aqui?». Esta submissão e esta humildade aparecem nos relatos bíblicos de vocação (cf. Ex 3, 11; Jz 6, 15; Jer 1, 6). A confiança de David apoia-se na memória das obras de Deus em favor do seu povo. David põe-se em sintonia com a palavra do Senhor, pedindo que ela se realize. Deus é fiel. É na fidelidade que se revela a sua grandeza. Uma vez que o Senhor «falou», não há que hesitar: «a casa do teu servo será abençoada eternamente», conclui David.

    Evangelho: Mc 4, 21-25

    21Disse-lhes ainda: «Põe-se, porventura, a candeia debaixo do alqueire ou debaixo da cama? Não é para ser colocada no candelabro? 22Porque não há nada escondido que não venha a descobrir-se, nem há nada oculto que não venha à luz. 23Se alguém tem ouvidos para ouvir, oiça.» 24E prosseguiu: «Tomai sentido no que ouvis. Com a medida que empregardes para medir é que sereis medidos, e ainda vos será acrescentado. 25Pois àquele que tem, será dado; e ao que não tem, mesmo aquilo que tem lhe será tirado.»

    Depois da parábola do semeador, Marcos apresenta-nos dois pares de breves sentenças. O Evangelho é para todos na comunidade. Por isso, deve ser colocado «no candelabro». Se alguém cair na tentação de o guardar ciosamente para si, então ser-lhe-á tirado. A Sagrada Escritura não é privilégio só para alguns, mas é para todos. Por isso, deve ser posta ao alcance de todos. A fé recebida por mim deve ser posta ao serviço da minha comunidade e de todos os homens. No primeiro par de sentenças, a imagem da lâmpada que deve ser exposta sobre o candelabro é desenvolvida por duas antíteses paralelas: o que está escondido há-de ser descoberto, o que está oculto há-de vir à luz. O Reino, ainda que, por enquanto, seja anunciado em parábolas, depressa virá à luz na sua glória, e o Evangelho será anunciado a todos os povos. No segundo par de sentenças, a antítese volta-se para a condição interna da comunidade: a imagem da medida insinua a proibição de julgar os outros; a segunda sentença está mais ligada à parábola do semeador: «aquele que tem» corresponde à «boa terra», que acolhe a palavra e lhe permite produzir fruto.

    Meditatio

    As sentenças de Jesus que Marcos nos apresenta hoje vêm logo depois da parábola do semeador, e ajudam-nos a compreendê-la. A semente é, sem dúvida, a Palavra de Deus. Daí a insistência de Jesus: «Se alguém tem ouvidos para ouvir, oiça»... «Tomai sentido no que ouvis. » (cf. Mc 4, 23-24). Um bom acolhimento da Palavra, alcança graças mais abundantes. David, ao acolher a Palavra do Senhor, alcança a bênção e a promessa da estabilidade da sua casa: «Tu, Senhor Deus, falaste e, graças à tua bênção, a casa do teu servo será abençoada eternamente» (2 Sam 7, 29). Esta estabilidade não consiste tanto na glória ou no sucesso político da dinastia davídica, mas mais na solidez na fé e na correspondência ao desígnio de Deus sobre o seu povo. E isto é fruto de graça. David tinha um bom projecto, o melhor que um homem pode conceber: construir um templo para Deus, isto é, ocupar-se com a sua glória, esquecendo a si mesmo. A recusa de Deus poderia causar-lhe desilusão. Mas, em vez disso, o jovem rei põe de parte o seu projecto e acolhe a Palavra de Deus. Um belo exemplo para nós, mas difícil de seguir! Quantas vezes nos agarramos a projectos que julgamos bons e até inspirados por Deus. E que dramas, quando a vontade do Senhor se mostra diferente! David, não se deixa cair na desilusão, no desânimo. Pelo contrário, pede a Deus que cumpra a sua promessa: «Só Tu és Deus, e as tuas palavras são a própria verdade... Tu, Senhor Deus, falaste e, graças à tua bênção, a casa do teu servo será abençoada eternamente» (cf. 2 Sam 7, 28-29). Desde muito jovem, e ainda antes de entrar no seminário, o Pe. Dehon dava grande importância à "escuta da Palavra", como testemunham os dois primeiros cadernos do seu "Diário". Quase todos os conteúdos das suas notas têm a sua raiz na Escritura. As citações são tomadas sem qualquer diferença tanto do Antigo como do Novo Testamento. Em 138 páginas manuscritas contamos 210 citações da Sagrada Escritura. A sua preferência vai para S. João (57 vezes) e para S. Paulo (38 vezes). Preparado pela "escuta da Palavra&rdquo ;, meditada e assimilada, Leão Dehon está preparado para viver o espírito de abandono e de imolação que o caracteriza. Não hesita em pôr de parte projectos e interesses pessoais, para fazer o que se lhe apresenta como vontade de Deus. «Ecce venio», «Fiat» são seus motes preferidos. Como Cristo, Leão Dehon não hesita em oferecer-se, em imolar-se por amor, chegando a emitir o voto de vítima, para reviver o sacerdócio e o sacrifício de Cristo, Vítima divina, e alargar o seu "Reino nas almas e na sociedade" (Cst 4).

    Oratio

    Senhor, dá-me a graça de saber sempre renunciar corajosamente aos meus projectos, ainda que os julgue bons, para acolher a tua vontade onde, como e quando se revelar. Só o teu projecto é força de vida, é semente capaz de originar uma grande árvore, enquanto os projectos humanos são efémeros. Enche-me de confiança em Ti para realizar o que me pedires, sem me deixar tomar pela ansiedade e pela angústia de não me sentir à altura dos projectos em que me queres envolver. Que eu reconheça sempre a grandeza do teu Nome, e não me orgulhe pelas bênçãos com que vais cumulando ao longo da vida. Amen.

    Contemplatio

    Jesus quis ser o nosso modelo até nas tentações. Quis passar pelas diversas tentações que podem assaltar a nossa alma. Satanás começa por lhe propor mudar pedras em pão, para satisfazer o seu apetite... Jesus responde a esta tentação e às outras com frases da Sagrada escritura. Indica-nos assim qual é o objecto das suas meditações na solidão e como devemos procurar a nossa força na palavra de Deus. Está escrito, responde, que o homem não vive só de pão, mas também da palavra divina» (Dt 7, 3). Em toda a sua vida, Jesus abandonar-se-á à divina Providência para tudo o que lhe concerne e não fará nenhuma concessão à sensualidade. Oh! Quanto tenho a fazer a este respeito! Como sou fraco e inclinado a procurar mil satisfações! O remédio está na união com Nosso Senhor, na meditação assídua da sua palavra e dos seus mistérios. Enquanto o nosso coração não estiver fortemente agarrado ao Coração de Jesus e bem apaixonado pelo seu amor, deixar-se-á seduzir pelas satisfações sensuais (Leão Dehon, OSP 3, p. 225).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra: «Só Tu és Deus, e as tuas palavras são a própria verdade» (cf. 2 Sam 7, 28).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • III Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    III Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    30 de Janeiro, 2026

    Tempo Comum - Anos Pares
    III Semana - Sexta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 1 Samuel 11, 1-4a.5-10a.13-17

    1No ano seguinte, na época em que os reis saem para a guerra, David enviou Joab com os seus oficiais e todo o Israel; eles devastaram a terra dos amonitas e sitiaram Rabá. David ficou em Jerusalém. 2E aconteceu que uma tarde David levantou-se da cama, pôs-se a passear no terraço do seu palácio e avistou dali uma mulher que tomava banho e que era muito formosa. 3David procurou saber quem era aquela mulher e disseram-lhe que era Betsabé, filha de Eliam, mulher de Urias, o hitita. 4Então, David enviou emissários para que lha trouxessem. Ela veio e David dormiu com ela, depois de purificar-se do seu período menstrual. Depois, voltou para sua casa. 5E, vendo que concebera, mandou dizer a David: «Estou grávida.» 6Então, David mandou esta mensagem a Joab: «Manda-me Urias, o hitita.» E Joab enviou Urias, o hitita, a David. 7Quando Urias chegou, David pediu-lhe notícias de Joab, do exército e da guerra. 8E depois disse-lhe: «Desce à tua casa e lava os teus pés.» Urias saiu do palácio do rei, e este, em seguida, enviou-lhe comida da sua mesa real. 9Mas Urias não foi a sua casa e dormiu à porta do palácio com os outros servos do seu senhor. 10E contaram-no a David, dizendo-lhe: «Urias não foi a sua casa.» David perguntou a Urias: «Não voltaste, porventura, de uma viagem? Porque não foste a tua casa?» 13David convidou-o a comer e beber com ele, e embriagou-o. Mas à noite, Urias não foi a sua casa; saiu e deitou-se com os outros servos do seu senhor. 14No dia seguinte de manhã, David escreveu uma carta a Joab e enviou-lha por Urias. 15Dizia nela: «Coloca Urias na frente, onde o combate for mais aceso, e não o socorras, para que ele seja ferido e morra.» 16Joab, que sitiava a cidade, pôs Urias no lugar onde sabia que estavam os mais valentes guerreiros do inimigo. 17Os assediados fizeram uma surtida contra Joab, e morreram alguns homens de David, entre os quais Urias, o hitita.

    Apesar de grave, o pecado de David com Betsabé, está dentro do que se poderia considerar normal no século X a. C. Se a solução tentada por David tivesse resultado, não haveria consequências de maior. Mas Urias, porque suspeitava de algo, ou por razões de ética militar, como diz a Bíblia, não cedeu às pressões do rei. Então, David recorre ao assassinato de Urias, perpetrado de modo traiçoeiro.
    O pecado foi tomando conta do rei que agiu de modo cada vez mais pérfido. Não nos escandalizemos. O pecado dá-nos a justa medida do homem. É uma realidade constante e universal. A Bíblia verifica-a e atribui-a a uma tendência que nos arrasta para o mal de modo irresistível: «Nasci na culpa, e em pecado minha mãe me concebeu» (Sl 51, 7).
    O episódio de David e Betsabé, narrado com precisão e simplicidade, acusa, sem reticências, o rei; o Primeiro livro das Crónicas, mais obsequioso em relação a David, não o refere. Mas o episódio faz parte da «História da sucessão ao trono» e visa introduzir na cena Salomão que, depois de muitas peripécias, irá sentar-se no trono de David.

    Evangelho: Mc 4, 26-34

    26Dizia ainda: «O Reino de Deus é como um homem que lançou a semente à terra. 27Quer esteja a dormir, quer se levante, de noite e de dia, a semente germina e cresce, sem ele saber como. 28A terra produz por si, primeiro o caule, depois a espiga e, finalmente, o trigo perfeito na espiga. 29E, quando o fruto amadurece, logo ele lhe mete a foice, porque chegou o tempo da ceifa.»
    30Dizia também: «Com que havemos de comparar o Reino de Deus? Ou com qual parábola o representaremos? 31É como um grão de mostarda que, ao ser deitado à terra, é a mais pequena de todas as sementes que existem; 32mas, uma vez semeado, cresce, transforma-se na maior de todas as plantas do horto e estende tanto os ramos, que as aves do céu se podem abrigar à sua sombra.»
    33Com muitas parábolas como estas, pregava-lhes a Palavra, conforme eram capazes de compreender. 34Não lhes falava senão em parábolas; mas explicava tudo aos discípulos, em particular.

    As duas parábolas, que Marcos põe na boca de Jesus, ilustram dois aspectos da inevitável tensão dialéctica do reino de Deus na história.
    A parábola da semente, que cresce sem a intervenção do agricultor, diz-nos que o Reino é uma iniciativa de Deus, que deve permanecer sempre acima de toda a tentativa humana para guiar o curso do seu crescimento e maturação. É claro que Deus conta com a colaboração humana: «O Reino de Deus é como um homem que lançou a semente à terra» (v. 26). Para sublinhar a acção de Deus, a parábola esquece diversos trabalhos necessários, à sementeira, à limpeza, à rega, etc. Mas alude ao acto de semear. É essa a tarefa dos discípulos que, depois, devem aguardar, com paciência, que a Palavra actue pela força que tem em si mesma e dê fruto no tempo e no modo que Deus quiser.
    A segunda parábola apresenta o reino como um grão de mostarda, que dá origem a um grande arbusto. Também aqui encontramos uma importante mensagem de confiança para a comunidade primitiva e para nós. Não havemos de preocupar-nos por sermos poucos e pequenos: a Palavra de Deus dará frutos incomensuráveis, não por nosso mérito, mas pela graça.
    Os vv. 33 e 34 retomam o tema das parábolas para o grande público e das explicações privadas aos discípulos.

    Meditatio

    A primeira leitura mostra-nos que, quando entramos pelo caminho do pecado, não sabemos até que ponto podemos chegar. Ao pecar com Betsabé, David inicia uma série de pecados, que termina em verdadeiras catástrofes. Não conseguindo disfarçar a primeira culpa, David trama a morte de Urias. Mais tarde, um seu filho usa de violência contra uma irmã, provocando a fúria de Absalão, que o mata. Depois, é o próprio Absalão que se revolta contra David, obrigando-o a fugir. Segue a guerra civil. Numa das batalhas, Absalão é morto pelos homens do rei. Sabemos quando começamos a pecar, mas não sabemos até onde poderão ir as consequências do nosso pecado.
    Mas, como diz S. Paulo, «onde aumentou o pecado, superabundou a graça» (Rom 5, 20). A força do pecado é nada diante da força do Reino de Deus. É o que nos diz o evangelho. O Senhor leva por diante o seu projecto de salvação, servindo-se de homens fracos e pecadores, utilizando instrumentos simples e pobres. Não nos compete decidir quando e em que medida a semente dará fruto. O crescimento acontece em segredo, enquanto nos ocupamos de outros afazeres, e é imensamente superior às nossas expectativas.
    As leituras de hoje trazem-nos uma mensagem de esperança. Foi-nos confiada uma tarefa para a qual nos sentimos inadequados. Mas a nossa acção é importante. Compete-nos espalhar a semente, difundir o evangelho, o que não é pouco. Mas não devemos cair na an
    siedade, à espera de ver os resultados. Eles não dependem de nós, e talvez jamais os vejamos neste mundo. Só no fim da nossa vida poderemos dar-nos conta dos frutos do nosso trabalho, e a colheita será uma festa, se tivermos sabido esperar serenos e confiantes a obra do Pai.
    O segredo do êxito está em confiar n´Ele, sem fugirmos às nossas responsabilidades e sem pretendermos disfarçar as nossas culpas. Onde abunda a fraqueza e o pecado, superabundará a graça.
    A missão que nos está confiada há-de ser realizada exige o reconhecimento da nossa pobreza, também moral. Somos pecadores que confiam na misericórdia de Deus. Temos consciência de sermos instrumentos fracos. Mas havemos de ir mais longe, ultrapassando todo o interesse próprio, ainda que seja o de ver os frutos do nosso apostolado. Essa pobreza libertar-nos da anisedade e estimula-nos a viver na confiança e na gratuidade do amor, como recomenda as nossas Constituições (cf. n. 46). Reconhecer a pobreza do nosso ser e do nosso futuro é renunciar à orgulhosa auto-suficiência e à desumana auto-afirmação. A pobreza evangélica, acolhida e amada, na nossa vida e no nosso apostolado, leva à exigência da confiança em Deus nosso Pai (cf. Mt 6, 25-34), Senhor da semente e da messe, nossa origem e fim último da nossa vida, que queremos servir, servindo os irmãos.

    Oratio

    Senhor da semente e da messe, dá-me uma inabalável confiança na tua palavra. Sabes quão difícil é para mim aguardar o tempo da colheita, e como gostaria de ver imediatamente o fruto dos meus trabalhos. Mas só Tu sabes a hora em que a tua palavra irá revelar o seu poder. Só Tu sabes o tempo em que hei-de empunhar a foice. A semente cresce, não pelos meus méritos, mas pela tua graça. Que eu saiba esperar com paciência o tempo do amadurecimento, respeitando os irmãos a quem falo em teu nome, sem confundir a eficácia do testemunho com o êxito das minhas iniciativas.
    Ensina-me a esperar vigilante a tua vinda, ainda que me pareça distante. Mas atrai-me para Ti, porque anseio participar na festa da colheita no teu Reino. Amen.

    Contemplatio

    Todas as belas parábolas de Nosso Senhor relativas ao reino de Deus aplicam-se também evidentemente ao reino do Sagrado Coração, que é o novo desenvolvimento do reino de Deus e da sua perfeição.
    O reino de Deus é o reino da fé e da graça; é a igreja de Cristo estendendo-se a toda a terra. Nosso Senhor descreveu os seus progressos. Será primeiro um grão de mostarda, que morrerá para dar o seu germe. Jesus, o verdadeiro grão, maravilhosamente fecundo, morreu no Calvário para dar nascimento à igreja. O seu Coração, como um grão misterioso, abriu-se, e a igreja saiu dele, simbolizada pela água e pelo sangue.
    Os apóstolos e os mártires morreram também de uma morte fecunda, para fazer nascer por toda a parte filhos da Igreja.
    É preciso que os apóstolos do Sagrado Coração sejam mártires pelo coração para estenderem pelo fruto das suas imolações o reino do Sagrado Coração. É preciso que sejam mártires pelo fogo do amor e pela espada da imolação e do sacrifício (Leão Dehon, OSP 3, p. 179).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Nem o que planta nem o que rega é alguma coisa, mas só Deus, que faz crescer» (1 Cor 3, 7).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • III Semana - Sábado - Tempo Comum - Anos Pares

    III Semana - Sábado - Tempo Comum - Anos Pares

    31 de Janeiro, 2026

    Tempo Comum - Anos Pares
    III Semana - Sábado
    Lectio

    Primeira leitura: 2 Samuel 12, 1-7a.10-17

    1O Senhor enviou então Natan a David. Logo que entrou no palácio, Natan disse-lhe: «Dois homens viviam na mesma cidade, um rico e outro pobre. 2O rico tinha ovelhas e bois em grande quantidade; 3o pobre, porém, tinha apenas uma ovelha pequenina, que comprara. Criara-a, e ela crescera junto dele e dos seus filhos, comendo do seu pão, bebendo do seu copo e dormindo no seu seio; era para ele como uma filha. 4Certo dia, chegou um hóspede a casa do homem rico, o qual não quis tocar nas suas ovelhas nem nos seus bois para preparar o banquete e dar de comer ao hóspede que chegara; mas foi apoderar-se da ovelhinha do pobre e preparou-a para o seu hóspede.» 5David, indignado contra tal homem, disse a Natan: «Pelo Deus vivo! O homem que fez isso merece a morte. 6Pagará quatro vezes o valor da ovelha, por ter feito essa maldade e não ter tido compaixão.» 7Natan disse a David: «Esse homem és tu! Isto diz o Senhor, Deus de Israel: 'Ungi-te rei de Israel, salvei-te das mãos de Saul, 10Por isso, jamais se afastará a espada da tua casa, porque me desprezaste e tomaste a mulher de Urias, o hitita, para fazer dela tua esposa'. 11Eis, pois, o que diz o Senhor: 'Vou fazer sair da tua própria casa males contra ti. Tomarei as tuas mulheres diante dos teus olhos e hei-de dá-las a outro, que dormirá com elas à luz do Sol! 12Pois tu pecaste ocultamente; mas Eu farei o que digo diante de todo o Israel e à luz do dia!'» 13David disse a Natan: «Pequei contra o Senhor.» Natan respondeu-lhe: «O Senhor perdoou o teu pecado. Não morrerás. 14Todavia, como ofendeste gravemente o Senhor com a acção que fizeste, morrerá certamente o filho que te nasceu.» 15E Natan voltou para sua casa. O Senhor feriu o menino que a mulher de Urias havia dado a David com uma doença grave. 16David orou a Deus pelo menino; jejuou e passou a noite prostrado por terra. 17Os anciãos da sua casa, de pé junto dele, pediam-lhe que se levantasse do chão, mas ele não o quis fazer nem tomar com eles alimento algum.

    Morto Urias, David tomou para si Betsabé. Tudo parecia correr bem a David. Mas Deus está atento e vê tudo, não só os planos mais secretos do homem, mas também o que se passa no seu coração. Natan, enviado por Deus ao rei, denuncia-lhe os crimes, recorrendo à célebre parábola do homem rico, que toma para si a única ovelha do seu vizinho pobre. David, rei justo, não hesita em pronunciar, indignado, a sentença condenatória. Só que o profeta remata, dizendo: «Esse homem és tu!». David reconhece o seu pecado e a súplica de arrependimento, que brota do seu coração, encontra expressão no Salmo 50, certamente posterior, mas acertadamente posto na boca do rei pecador.
    Mas o drama continua. Deus perdoa a David. Não o rejeita como fez com Saul. Mas não faltará o castigo: a criança, filha do adultério, adoece e morre, tal como hão-de morrer de forma violenta outros filhos de David (Amnon, Absalão, Adonias...). Todavia a oração, que brota dos lábios de David, revela, não só o seu amor pelo filho, e por Betsabé, mas também a confiança do rei na oração: clama, geme, jejua, prostra-se por terra e tenta forçar, qual novo Abraão, a misericórdia de Deus.

    Evangelho: Mc 4, 35-41

    35Naquele dia, ao entardecer, disse: «Passemos para a outra margem.» 36Afastando-se da multidão, levaram-no consigo, no barco onde estava; e havia outras embarcações com Ele. 37Desencadeou-se, então, um grande turbilhão de vento, e as ondas arrojavam-se contra o barco, de forma que este já estava quase cheio de água. 38Jesus, à popa, dormia sobre uma almofada. 39Acordaram-no e disseram-lhe: «Mestre, não te importas que pereçamos?» Ele, despertando, falou imperiosamente ao vento e disse ao mar: «Cala-te, acalma-te!» O vento serenou e fez-se grande calma. 40Depois disse-lhes: «Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» 41E sentiram um grande temor e diziam uns aos outros: «Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?»

    À proclamação do Reino de Deus, em parábolas, segue a apresentação dos benefícios dessa proclamação. É o que faz Marcos na nova secção do seu evangelho, onde apresenta quatro milagres, a começar pela tempestade acalmada (vv. 37ss.). A Boa Nova da Salvação atinge o homem todo, toda a sua existência: Jesus salva e cura os homens das mais diversas ameaças que estão a ponto de «alienar» a sua vida. É interessante notar o contraste entre a serenidade de Jesus, que dorme, e a ansiedade dos discípulos, que lutam bravamente contra as ondas e o vento. Parecem inverter-se os papéis: Jesus confia nos marinheiros e estes, angustiados, não revelam confiança em Jesus: «não te importas que pereçamos?» (v. 38). Quando Jesus finalmente intervém, calam-se o vento e o mar, e calam-se os aterrorizados marinheiros. Nem respondem às perguntas de Jesus: «Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?». O medo dos discípulos indica falta de fé. A intervenção de Jesus transforma-lhes o medo em temor de Deus. O poder manifestado por Jesus fê-los intuir a presença de Deus junto deles. E começam a dar-se conta da verdadeira identidade do seu Mestre.

    Meditatio

    Se o pecado ou, melhor, os vários pecados de David nos deixaram horrorizados, o seu arrependimento sincero causa-nos admiração.
    Deus serviu-se de Natan, e da sua sábia pedagogia, para levar o rei a reconhecer o seu pecado. David escuta a história do homem rico, abençoado por Deus com muitos rebanhos, e que, para oferecer uma refeição a um amigo que o visita, rouba a única ovelha de um homem pobre. Como rei justo, não hesita em pronunciar a sentença: «Pelo Deus vivo! O homem que fez isso merece a morte. 6Pagará quatro vezes o valor da ovelha, por ter feito essa maldade e não ter tido compaixão» (2 Sam 12, 5-6). É nesse momento que o profeta pronuncia a sua acusação: «Esse homem és tu!» (2 Sam 12, 7). Ele, David, era o criminoso que acabava de condenar. Ele, que Deus cumulara de bens, tinha roubado o único tesouro de Urias, a sua mulher. Natan, enviado de Deus, levou o rei a tomar consciência do seu crime, e anunciou-lhe o castigo. David não tentou desculpar-se ou fugir à condenação mas confessou: «Pequei contra o Senhor» (2 Sam 12, 13). Assim alcançou o perdão dos seus pecados e uma nova relação com o Senhor, bem expressa o Salmo 50.
    A nossa familiaridade com Deus, não nos põe ao abrigo de momentos de hesitação e de dúvida, como nos mostra o evangelho. Podemos até cair na ilusão de que, tendo-O por companheiro, Ele nos livra de situações difíceis. Os discípulos talvez tivessem caído nessa ilusão. Uma tempestade forte fê-los acordar, pondo em crise a sua confiança no Mestre: «não te importas
    que pereçamos?»
    Quantas vezes, no aconchego da comunidade bem organizada, protegidos pela assiduidade aos ritos, nos sentimos tranquilos e ao abrigo de situações difíceis. «O Senhor está connosco; que nos pode acontecer?» - pensamos. E julgamos ter muita fé e muita confiança em Deus. Mas, à primeira dificuldade, ao primeiro fracasso, repreendemo-lo, como se nos tivesse abandonado.

    As fragilidades, as incertezas, as dúvidas, o pecado, não são coisas só dos «outros». São também nossas. Também nós somos discípulos assustados e medrosos! Também nós somos pecadores como David.
    Um monge do deserto disse que o primeiro degrau para ascender à santidade é reconhecer-se pecador. Esse reconhecimento é já resposta a uma graça, pois não seria possível sem a ajuda de Deus. É um modo de agir da sua misericórdia, que, para isso, às vezes se serve de um acontecimento ou da intervenção de alguém com quem nos encontramos e que, com uma palavra, nos leva a abrir os olhos para a nossa realidade. Se acolhermos essa graça, podemos iniciar uma nova fase de crescimento espiritual.
    Deus é Pai. Deus é amor... e nunca é tão Pai e tão amor como quando perdoa. Pensemos, comovidos, na parábola do filho pródigo ou, melhor, do Pai pródigo na bondade, na misericórdia, no perdão, no amor.
    Um escritor moderno disse muito bem: "Se não fôssemos pecadores, carecidos de perdão mais que de pão, não conheceríamos a profundidade do coração de Deus". E é famosa a asserção de Bossuet: "O dar ou aumentar a graça numa alma é uma maravilha maior do que criar o mundo". Tudo isto acontece, para nós, hoje, no sacramento da reconciliação.

    Oratio

    Abre, Senhor, os meus olhos, para que veja a minha fragilidade, o meu orgulho, o meu pecado. Quantas vezes, me sinto justo como David prepotente e pecador. Quantas vezes, me sinto vaidoso porque navego numa barca onde Tu estás presente, a Igreja, contra a qual não hão-de prevalecer as portas do inferno, como se isso fosse uma garantia e uma graça que eu mereço. Ensina-me que o Evangelho é uma graça a partilhar, e não um tesouro a guardar só para mim. Ampara-me nas tentações e dificuldades, para que não me julgue abandonado pelo teu poder e esquecido do teu amor. Amen.

    Contemplatio

    Margarida Maria, muito assídua à permanência no Coração de Jesus, tomava lá funções muito variadas, considerando-se aí ora como discípula na escola do divino Coração, ora como uma doente no hospício, ou uma cativa na prisão do amor, ou uma mendiga no palácio do rei. Mas o mais das vezes vê no Coração de Jesus um lugar de refúgio, um porto de segurança, uma cidadela de protecção contra os inimigos da salvação, um asilo para os pecadores.
    «É preciso retirar-nos, diz, para a chaga do Sagrado Coração como um pobre viajante que procura um porto seguro para se colocar ao abrigo dos escolhos e das tempestades do mar tempestuoso do mundo, onde estamos expostos a um contínuo naufrágio. - O Coração adorável é um delicioso retiro onde vivemos ao abrigo de todas as tempestades. - Este divino Coração é como um forte inexpugnável contra os assaltos do inimigo».
    O Sagrado Coração é o asilo da misericórdia e do perdão: «Os pecadores, diz Nosso Senhor, encontrarão no meu coração o oceano infinito da misericórdia». - «Que podeis temer em irdes lá, diz Margarida Maria, uma vez que ele vos convida a lá irdes? Não é ele o trono da misericórdia onde os miseráveis são os mais bem recebidos, desde que o amor os apresente no abismo da sua miséria?». - «O Pai eterno, por um excesso de misericórdia, fez deste ouro precioso uma moeda inapreciável, marcado no cunho da sua divindade, para que os homens com ela possam pagar as suas dívidas e negociar o grande assunto da sua salvação eterna». - «Permanecereis no Sagrado Coração de Jesus como um criminoso que, pelos desgostos e pela dor das suas faltas, deseja apaziguar o seu juiz fechando-se nesta prisão de amor». - «Deu-me a conhecer que o seu Sagrado Coração é o Santo dos Santos, que queria que fosse conhecido agora para ser o mediador entre Deus e os homens, porque é todo-poderoso para fazer a sua paz e para obter misericórdia» (Leão Dehon, OSP 3, 676s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Pequei contra o Senhor» (2 Sam 12, 13).

    | Fernando Fonseca, scj |