Eventos Fevereiro 2026

  • 04º Domingo do Tempo Comum - Ano A [atualizado]

    04º Domingo do Tempo Comum - Ano A [atualizado]

    1 de Fevereiro, 2026

    ANO A

    4.º DOMINGO DO TEMPO COMUM

    Tema do 4.º Domingo do Tempo Comum

    Como podemos construir uma existência que faça sentido e que não corra o risco de fracassar? Sobre que valores devemos assentar a construção do edifício da nossa vida? As leituras que a liturgia nos convida a escutar no quarto domingo comum respondem a estas questões. Convidam-nos a confiar completamente em Deus e a colocar n’Ele – e só n’Ele – a nossa esperança; desafiam-nos a seguir atrás de Jesus e a viver ao seu estilo.

    Na primeira leitura, o profeta Sofonias deixa aos seus contemporâneos um convite a viverem como humildes e pobres. Os “pobres” são aqueles que, não possuindo bens materiais nem seguranças humanas, tendem a depositar toda a sua confiança e esperança em Deus; são aqueles que encontram em Deus refúgio, conforto e felicidade. Eles são os preferidos de Deus. Deus cuidará deles e acompanhá-los-á em cada passo do caminho que percorrem.

    Na segunda leitura, o apóstolo Paulo pede aos cristãos de Corinto que não apostem na sabedoria humana como caminho para construir uma vida com sentido. Paulo propõe-lhes, em contrapartida, que acolham a “loucura da cruz” e que optem por seguir Jesus incondicionalmente, vivendo ao seu estilo, abraçando os valores que Ele abraçou, percorrendo com Ele o caminho do amor e do dom da vida. É aí que está a verdadeira sabedoria, a sabedoria que conduz à salvação e à vida plena.

    No Evangelho Jesus apresenta a magna carta do Reino de Deus. Recuperando uma linguagem frequente na tradição bíblica e judaica, Jesus apresenta oito “bem-aventuranças”, oito portas para entrar na comunidade do Reino de Deus, oito propostas que definem o estilo de vida que os seus seguidores devem adotar, oito “apontadores” que mostram como construir uma vida feliz e com sentido. Nas oito bem-aventuranças, Jesus oferece aos seus discípulos um resumo perfeito do seu Evangelho.

     

    LEITURA I – Sofonias 2,3; 3,12-13

    Procurai o Senhor, vós todos os humildes da terra,
    que obedeceis aos seus mandamentos.
    Procurai a justiça, procurai a humildade;
    talvez encontreis proteção no dia da ira do Senhor.
    Só deixarei ficar no meio de ti um povo pobre e humilde,
    que buscará refúgio no nome do Senhor.
    O resto de Israel não voltará a cometer injustiças,
    não tornará a dizer mentiras,
    nem mais se encontrará na sua boca uma língua enganadora.
    Por isso, terão pastagem e repouso,
    sem ninguém que os perturbe.

     

    CONTEXTO

    Em 734 a.C. Acaz, rei de Judá, confrontado com a ameaça militar de uma coligação formada pelo rei de Damasco e pelo rei de Israel, pediu ajuda a Tiglat-Pileser III, rei da Assíria (cf. 2Rs 16,7). Tiglat Pileser III derrotou os dois aliados, pondo fim à ameaça contra Judá; mas, na sequência, o rei Acaz tornou-se vassalo da Assíria. Judá passou a girar na órbita política da Assíria e teve de abrir as portas às influências culturais e religiosas dos assírios (cf. 2Rs 16,10-18). Diversos costumes estranhos e cultos pagãos irromperam então em Jerusalém, pondo em causa a identidade nacional e minando a fidelidade do Povo a Javé. Essa situação manteve-se durante o longo reinado do ímpio Manassés (698-643 a.C.), altura em que o próprio rei reconstruiu os lugares de culto aos deuses estrangeiros, levantou altares ao deus Baal, ofereceu o seu filho em holocausto, dedicou-se à adivinhação e à magia, colocou no Templo de Jerusalém a imagem da deusa Astarte (cf. 2Rs 21,3-9). Paralelamente, continuavam a multiplicar-se as injustiças sociais, as arbitrariedades, as violências que danificavam o tecido social e que faziam sofrer os mais pobres. Tudo isto configurava uma grave violação da Aliança e colocava Judá fora da órbita de Deus: o povo vangloriava-se da relação especial que tinha com Javé, mas vivia completamente à margem dos mandamentos de Deus. Quando em 639 a.C. o rei Josias (639-609 a.C.) subiu ao trono, Judá estava a precisar urgentemente de uma profunda reforma política, social e religiosa. Josias, o novo rei, lançou-se a essa tarefa.

    Sofonias começou o seu ministério profético por essa altura. É provável que, numa primeira fase da reforma religiosa empreendida por Josias, Sofonias tivesse sido o verdadeiro motor das mudanças que o rei pretendeu introduzir na vida da nação. Não sabemos quanto tempo durou o ministério de Sofonias. A maior parte dos biblistas prolongam-no até 625 a.C., aproximadamente.

    A mensagem de Sofonias deve situar-se neste ambiente histórico. O profeta denuncia a idolatria cultual, as injustiças cometidas contra os mais pobres, o materialismo, a despreocupação religiosa, os abusos da autoridade… Consciente de que Javé não pode continuar a pactuar com o pecado de Judá, Sofonias deixa um aviso: se nada mudar, vai chegar o dia do Senhor, isto é, o dia da intervenção de Deus em que os maus serão castigados e a injustiça será banida da terra (cf. Sf 1,2-2,3). Da ira do Senhor escaparão, contudo, os humildes e os pobres, os que se mantiverem fiéis à Aliança.

    O fim da pregação de Sofonias não é, contudo, anunciar um castigo irrevogável, fruto da ira de Deus contra o seu povo; mas é provocar a conversão, passo fundamental para chegar à salvação.

     

    MENSAGEM

    O texto que a liturgia do quarto domingo comum nos propõe como primeira leitura começa com uma exortação aos “humildes”. Convida-os a procurar o Senhor (cf. Sf 2,3).

    Quem são esses humildes a quem Sofonias se dirige? São aqueles confiam em Deus e se entregam nas suas mãos, que se dispõem a seguir os caminhos de Deus, que aceitam as propostas de Deus e que não se colocam contra Ele. São, além disso, aqueles que praticam a justiça, que respeitam os direitos dos mais débeis, que não cometem arbitrariedades, que não assumem uma atitude de superioridade para com os seus irmãos, que não tratam os outros com prepotência… Equivalem aos “pobres” das bem-aventuranças. Os que vivem nessa atitude não estão perdidos: encontrarão “proteção no dia da ira do Senhor”.

    No lado oposto estão os orgulhosos e autossuficientes. São os que não querem saber de Deus, que ignoram os mandamentos de Deus, que escolhem caminhos onde Deus não está. São, além disso, aqueles que praticam a injustiça, que vivem na mentira, que tratam os outros com arrogância, que não respeitam a dignidade dos seus irmãos. Esses, no “grande Dia do Senhor” – dia de ira, de angústia, de destruição e devastação, de trevas e escuridão, de nuvens e de névoas espessas, de trombetas e de alarme (Sf 1,14-16), sofrerão as consequências da indignação de Deus.

    Depois, o nosso texto salta para o capítulo 3 para nos propor o quadro “pós-intervenção de Deus”. Exterminados os orgulhosos, os arrogantes e os prepotentes (cf. Sf 3,11), ficarão os pobres e os humildes: um “resto de Israel” que se entregará nas mãos do Senhor e Lhe obedecerá em tudo, que “não mais cometerá injustiças nem dirá mentiras” (cf. Sf 3,12-13). Esse “resto” será uma espécie de viveiro para o reflorescimento da nação. Daqui nascerá um povo novo, de coração transformado, capaz de viver na fidelidade a Deus e à Aliança.

    Na sequência, a catequese de Israel falará sempre dos “pobres” como os preferidos de Deus. A designação “pobres” já não indica apenas um grupo economicamente débil, mas refere-se sobretudo a uma categoria de pessoas que assumem uma atitude espiritual de abertura a Deus e aos irmãos. O verdadeiro crente – o “pobre” – é aquele que é humilde, simples, pacífico, piedoso, que confia em Deus e se entrega nas suas mãos, que obedece às propostas de Deus e que é justo e solidário com os irmãos.

     

    INTERPELAÇÕES

    • Os profetas são a voz de Deus que ecoa no mundo. Eles trazem-nos o sonho de Deus para o mundo e para os homens. Escutá-los é, frequentemente, questionarmo-nos sobre a forma como temos distorcido o projeto de Deus. Andamos há muitos séculos a construir um mundo e uma história onde os que “contam”, os que têm visibilidade, os que toda a gente inveja e aplaude, os que conduzem os destinos dos povos são os “fortes”, os ricos, os poderosos, os que se impõem aos outros, os que têm sede de poder e de protagonismo… Contudo, o profeta Sofonias diz-nos hoje que Deus não se revê nas lógicas, nas atitudes e nos valores dos ricos, dos orgulhosos, dos prepotentes, dos que dominam o mundo e pretendem construir a história dos homens sobre a injustiça, a mentira, a violência, a corrupção, a ganância. Sofonias, com a linguagem típica dos pregadores da sua época, garante: chegará o dia em que os orgulhosos e os prepotentes perceberão a estupidez das suas escolhas e se arrependerão pela forma como construíram as suas vidas. Nesse dia, Deus ficará do lado dos humildes e dos pobres e sentar-se-á com eles à mesa da vida eterna. O que achamos disto? O que nos sugere a preferência de Deus pelos humildes e pobres? A que tipo de gente queremos confiar a condução dos destinos dos homens e do mundo?
    • Sofonias, traduzindo em linguagem humana as indicações de Deus, deixa aos seus contemporâneos um convite a viverem como “pobres”. Os “pobres” são aqueles que, não possuindo bens materiais nem seguranças humanas, tendem a depositar toda a sua confiança e esperança em Deus. A catequese de Israel, talvez com alguma ingenuidade, apresenta-os como pessoas humildes, simples, pacíficas, bondosas, piedosas, generosas, justas, tementes a Deus, que vivem na escuta de Deus, que confiam incondicionalmente em Deus, que caminham na obediência às indicações de Deus. Deus ama-os como filhos muito queridos. O “pobre” é, no universo bíblico, o crente verdadeiro, o crente perfeito, o crente “modelo”. Identificamo-nos com este “modelo”?
    • O profeta Sofonias deixa aos seus contemporâneos um forte apelo à conversão. Diz mesmo que não há outra saída – para quem quer viver uma vida com sentido – senão optar por uma mudança efetiva, uma mudança radical na maneira de pensar e de agir. A “conversão”, na teologia profética, significa abandonar os caminhos do egoísmo, da autossuficiência, do orgulho, da mentira, da injustiça e “voltar para trás”, ao encontro de Deus; significa reencontrar-se com Deus, escutar e acolher novamente as indicações de Deus, passar a trilhar outra vez os caminhos de Deus, deixar-se guiar por Deus e pelos seus mandamentos. Pessoalmente, estamos dispostos a renunciar, na construção da nossa vida, a uma lógica de prepotência, de orgulho, de ambição, de autoritarismo, de autossuficiência? Estamos dispostos a voltar para Deus e a viver “segundo Deus”?

     

    SALMO RESPONSORIAL – Salmo 145 (146), 7.8-9a.9bc-10

    Refrão 1: Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus.

    Refrão 2: Aleluia.

    O Senhor faz justiça aos oprimidos,
    dá pão aos que têm fome
    e a liberdade aos cativos.

    O Senhor ilumina os olhos dos cegos,
    o Senhor levanta os abatidos,
    o Senhor ama os justos.

    O Senhor protege os peregrinos,
    ampara o órfão e a viúva
    e entrava o caminho aos pecadores.

    O Senhor reina eternamente.
    O teu Deus, ó Sião,
    é Rei por todas as gerações.

     

    LEITURA II – 1 Coríntios 1, 26-31

    Irmãos:
    Vede quem sois vós, os que Deus chamou:
    não há muitos sábios, naturalmente falando,
    nem muitos influentes, nem muitos bem-nascidos.
    Mas Deus escolheu o que é louco aos olhos do mundo
    para confundir os sábios;
    escolheu o que é vil e desprezível,
    o que nada vale aos olhos do mundo,
    para reduzir a nada aquilo que vale,
    a fim de que nenhuma criatura se possa gloriar diante de Deus.
    É por Ele que vós estais em Cristo Jesus,
    o qual Se tornou para nós sabedoria de Deus,
    justiça, santidade e redenção.
    Deste modo, conforme está escrito,
    «quem se gloria deve gloriar-se no Senhor».

     

    CONTEXTO

    Corinto, capital da Província romana da Acaia, era, no séc. I, uma cidade nova e próspera. Servida por dois portos de mar, possuía as características típicas das cidades marítimas: era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após semanas de navegação. Na cidade pontificava Afrodite, deusa do amor, em cujo tempo se praticava a prostituição sagrada. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.

    Do esforço evangelizador de Paulo, entre os anos 50 e 52, nasceu a comunidade cristã de Corinto. De uma forma geral, era uma comunidade viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta (cf. 1 Cor 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1 Cor 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1 Cor 1,19-2,10). Afinal, a comunidade mergulhava as suas raízes em terreno adverso, onde os valores cristãos corriam o risco de ser sufocados pelos valores da brilhante cultura grega.

    Pelas informações que constam da primeira Carta de Paulo aos Coríntios (escrita em Éfeso, durante a terceira viagem missionária de Paulo), percebemos que um dos problemas que perturbavam a comunidade cristã de Corinto era a identificação da experiência cristã com o mundo das escolas filosóficas gregas. As diversas figuras de referência da comunidade cristã eram vistas, pelos cristãos de Corinto, como mestres que propunham caminhos diversos para se chegar à plenitude da sabedoria e da realização humana. Portanto, cada crente escolhia o seu “mestre” e aderia ao “caminho” por ele proposto. Os discípulos desses vários mestres empenhavam-se em demonstrar a excelência e a superior sabedoria do mestre escolhido. Ora, isto era fonte de discussões intermináveis e de divisões que afetavam a unidade e a comunhão.

    Ao saber isto, Paulo ficou muito alarmado: as divisões e os partidos punham em causa o essencial da fé. Paulo procura, então, demonstrar aos coríntios que entre os cristãos não há senão um mestre, que é Jesus Cristo; e a experiência cristã não é a busca de uma filosofia que abra ao discípulo as portas da sabedoria, pelo menos dessa sabedoria humana que os gregos buscavam. Aliás, Cristo não foi um mestre que se distinguiu pela elegância das suas palavras, pela sua arte oratória ou pela lógica do seu discurso filosófico; Ele foi o Deus que, por amor, veio ao encontro dos homens e lhes ofereceu a salvação através do dom da vida.

    Os coríntios devem estar bem conscientes disto: o caminho cristão não é uma busca de sabedoria humana, mas uma adesão a Cristo crucificado – o Cristo do amor e do dom da vida. N’Ele manifesta-se, de forma humanamente desconcertante, mas plena e definitiva, a força salvadora de Deus. É em Cristo e na sua cruz que os coríntios devem procurar a verdadeira sabedoria que conduz à vida eterna.

     

    MENSAGEM

    A sabedoria humana (a filosofia, os raciocínios lógicos, os discursos construídos com belas palavras) que os coríntios procuram com tanta ansiedade talvez ofereça alguma satisfação intelectual; mas situa a vida do homem num horizonte limitado, terreno, ilusório, passageiro. Não proporciona vida eterna, não dá sentido pleno à vida do homem, não é fonte de salvação. Quem estiver interessado em dar sentido pleno à sua vida, tem de descobrir e de acolher a lógica de Deus.

    Ora, a lógica de Deus é bem estranha, humanamente falando. Em lugar de apresentar aos homens um sistema filosófico sólido, fundado em raciocínios inatacáveis e convincentes, Deus propõe-lhes a linguagem da cruz. No centro da proposta de Deus está um galileu pobre, condenado a uma morte infame (“escândalo para os judeus e loucura para os gentios” – 1Cor 1,23), que ofereceu a sua vida para trazer aos homens a salvação. Dando a vida até à última gota de sangue, amando até ao extremo, Ele venceu a injustiça, a violência, a mentira, o ódio, a morte; e ofereceu a todos os que aderem à sua proposta aquilo que nenhuma filosofia é capaz de assegurar: a salvação, a vida verdadeira e eterna. É “a loucura da cruz”; mas “o que é loucura de Deus é mais sábio que os homens; e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor 1,25).

    Sim, a lógica de Deus confunde os homens; mas a verdade é que ela funciona perfeitamente. Como exemplo, Paulo apresenta o caso da própria comunidade cristã de Corinto: entre os coríntios não abundam os ricos, os poderosos, os de boas famílias, os intelectuais, os aristocratas; pelo contrário, a maior parte dos membros da comunidade são escravos, trabalhadores, gente simples e pobre. Apesar disso, Deus escolheu-os e chamou-os à fé; e a força de Deus vai-se manifestando a cada passo nessa comunidade de gente frágil, em situação de debilidade, desprezada aos olhos do mundo. Enquanto os homens apostam nos mais ricos, nos mais fortes, nos mais bem preparados intelectualmente, nos que asseguram maiores hipóteses de êxito do ponto de vista humano para a concretização dos seus projetos, Deus chama os pobres, os débeis, aqueles que o mundo ignora ou despreza: enriquece-os com os seus dons, manifesta através deles o seu poder, faz deles suas testemunhas. Como os coríntios constatam todos os dias, a força de Deus manifesta-se na fraqueza. Por isso, para a concretização do projeto de Deus não contam para nada os títulos, as qualidades, os méritos pessoais ou de classe, as capacidades intelectuais, a elegância da linguagem.

    Conscientes disso, os cristãos de Corinto devem abster-se de colocar a sua esperança e a sua segurança em pessoas, por muito brilhantes e cheias de qualidades humanas que elas possam ser. Também devem abster-se de correr atrás de esquemas humanos de sabedoria, por muito sedutores e fascinantes que eles possam parecer. A sabedoria humana é incapaz, por si só, de salvar; e, ao produzir orgulho e autossuficiência, até pode afastar o homem de Deus e da salvação.

    Em contrapartida, Paulo pede aos cristãos de Corinto que coloquem a sua esperança e segurança em Jesus Cristo, que na cruz deu a vida por amor. Para Paulo, a cruz manifesta a “sabedoria de Deus”; e é essa sabedoria que deve atrair o olhar e apaixonar o coração dos coríntios.

     

    INTERPELAÇÕES

    • O que é que dá sentido à nossa vida? O que é que determina o nosso êxito ou o nosso fracasso? O que é que faz que a nossa vida valha a pena? Muitos acreditam que o segredo da realização plena do homem está em fatores humanos: a família em que se nasceu, a escola que se frequentou, os títulos que se obtiveram, o poder que se conquistou, a capacidade intelectual, a competência profissional, o reconhecimento social, o bem-estar económico… O apóstolo Paulo avisa que colocar a própria esperança e a própria segurança em fatores de âmbito puramente humano é apostar no “cavalo errado”. Os fatores humanos falham, são contingentes, têm validade limitada, são incapazes de saciar a nossa sede de vida eterna. Paulo propõe, em contrapartida, que nos dispúnhamos a acolher a “loucura da cruz” e que optemos por seguir Jesus incondicionalmente, vivendo ao seu estilo, abraçando os valores que Ele abraçou, percorrendo com Ele o caminho do amor e do dom da vida. O que pensamos disto? A indicação de Paulo fará sentido? Dispomo-nos a abraçar a lógica de Deus e a buscar a nossa plena realização nos valores de Jesus e do Evangelho?
    • Paulo afirma que Deus escolhe os pequenos, os pobres, os humildes, os mais frágeis, aqueles que tantas vezes a sociedade não valoriza, aqueles que não são mencionados nos livros de história, aqueles que nunca são convidados para os eventos sociais, aqueles que são invisíveis aos olhos dos homens para, através deles, concretizar a sua obra de salvação. É precisamente nessa fragilidade que se revela a força de Deus. Somos capazes de reconhecer a presença de Deus nos nossos irmãos mais humildes, mais esquecidos, naqueles que na sua humildade passam despercebidos, naqueles que não têm voz nem vez? Que valor lhes damos?
    • Paulo convida os cristãos de Corinto a não perderem de vista Cristo Jesus, “o qual Se tornou para nós sabedoria de Deus, justiça, santidade e redenção”. Com a sua vida, com as suas palavras, com os seus gestos, com o seu amor até ao extremo, com a sua obediência ao Pai, com o seu anúncio do Reino de Deus, Cristo apontou-nos o caminho que conduz à vida verdadeira. Cristo é, para nós, o mestre da verdadeira sabedoria? Caminhamos atrás d’Ele sem o perder de vista? Abraçamos sem hesitar a sabedoria que Ele nos propõe, mesmo quando ela está em contradição com a sabedoria do mundo?

     

    ALELUIA – Mateus 5, 12a

    Aleluia. Aleluia.

    Alegrai-vos e exultai,
    porque é grande nos Céus a vossa recompensa.

     

    EVANGELHO – Mateus 5,1-12

    Naquele tempo,
    ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se.
    Rodearam-n’O os discípulos
    e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
    «Bem-aventurados os pobres em espírito,
    porque deles é o reino dos Céus.
    Bem-aventurados os que choram,
    porque serão consolados.
    Bem-aventurados os humildes,
    porque possuirão a terra.
    Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
    porque serão saciados.
    Bem-aventurados os misericordiosos,
    porque alcançarão misericórdia.
    Bem-aventurados os puros de coração,
    porque verão a Deus.
    Bem-aventurados os que promovem a paz,
    porque serão chamados filhos de Deus.
    Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça,
    porque deles é o reino dos Céus.
    Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa,
    vos insultarem, vos perseguirem
    e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
    Alegrai-vos e exultai,
    porque é grande nos Céus a vossa recompensa».

     

    CONTEXTO

    Depois de nos apresentar Jesus (Mt 1,1-2,23) e de definir a sua missão (cf. Mt 3,1-4,11), Mateus vai mostrar-nos como Jesus concretiza a missão que o Pai Lhe confiou (cf. Mt 4,12-18,35). No centro dessa missão está o anúncio do Reino de Deus. As “bem-aventuranças” ocupam um lugar central nesse anúncio.

    Mateus, na construção do seu Evangelho, concedeu uma importância significativa aos “ditos” de Jesus. O evangelista agrupou a maior parte desses “ditos” em cinco discursos atribuídos a Jesus (cf. Mt 5-7; 10; 13; 18; 24-25). É provável que o autor do primeiro Evangelho visse nesses cinco discursos uma nova Lei, destinada a substituir a antiga Lei dada por Deus ao seu povo, o “ensinamento” que Israel guardou nos cinco livros da Tora (Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio).

    O primeiro desses discursos de Jesus é conhecido como o “sermão da montanha” (cf. Mt 5-7). Reúne um importante conjunto de palavras de Jesus que Mateus ordenou e apresentou com a intenção de oferecer à sua comunidade as coordenadas fundamentais da proposta cristã. O evangelista vê, no “Sermão da montanha”, um novo código ético, uma nova Lei, que supera e substitui a antiga Lei dada por Deus ao seu Povo.

    Mateus situa esta intervenção de Jesus no cimo de um monte. A indicação geográfica não é inocente: transporta-nos à montanha da Lei (o Sinai), o cenário em que Deus deu a antiga Lei a Israel. Agora é Jesus que, também numa montanha, oferece ao novo Povo de Deus a nova Lei que deve guiar todos os que estão interessados em aderir ao Reino de Deus. Mateus, no entanto, sugere algumas diferenças entre aquilo que aconteceu no monte Sinai e aquilo que vai acontecer no monte das Bem-aventuranças. Antes de mais, no grupo que recebeu a Lei dada no Sinai, só havia israelitas; no grupo que sobe ao monte com Jesus parece haver uma “multidão” de gente de diversas origens e etnias (cf. Mt 4,25), conferindo à proposta que Jesus vai apresentar uma inquestionável sugestão de universalidade: a nova Lei, trazida por Jesus, destina-se a todos os povos. Por outro lado, Mateus desenha o quadro do “sermão da montanha” de Jesus com traços bem diferentes do cenário do Sinai… Não há, como no relato da teofania do Sinai, qualquer referência ao fogo, ao fumo, aos trovões e relâmpagos que geravam medo entre o povo (cf. Ex 19,16.18), nem uma delimitação do terreno que impeça o povo de se aproximar do monte da revelação (cf. Ex 19,12.21): na montanha onde Jesus fala, os discípulos estão próximos de Jesus e escutam-no com tranquilidade e sem medo (cf. Mt 5,1). Jesus, o novo Moisés que traz a nova Lei, abre as portas a uma nova realidade, a uma nova forma de comunhão e de relação entre Deus e o seu povo.

    As “bem-aventuranças” que Mateus coloca na boca de Jesus, são consideravelmente diferentes das bem-aventuranças que aparecem no Evangelho segundo Lucas (cf. Lc 6,20-26). Mateus tem oito “bem-aventuranças” (e uma exortação final), enquanto Lucas só apresenta quatro; além disso, Lucas prossegue com quatro “maldições”, que estão ausentes do texto mateano. Outras notas características da versão de Mateus são a espiritualização (os “pobres” de Lucas são, para Mateus, os “pobres em espírito”) e a aplicação dos “ditos” originais de Jesus à vida da comunidade e ao comportamento dos cristãos. É provável que o texto de Lucas seja mais fiel à tradição original e que o texto de Mateus tenha sido trabalhado e retocado pela catequese cristã.

     

    MENSAGEM

    As “bem-aventuranças” são fórmulas relativamente frequentes na tradição bíblica e judaica. Aparecem, quer nos anúncios proféticos de alegria futura (cf. Is 30,18; 32,20; Dn 12,12), quer nas ações de graças pela alegria presente (cf. Sl 32,1-2; 33,12; 84,5.6.13), quer nas exortações a uma vida sábia, refletida e prudente (cf. Pr 3,13; 8,32.34; Sir 14,1-2.20; 25,8-9; Sl 1,1; 2,12; 34,9). Contudo, elas referem-se sempre uma felicidade que é dom de Deus.

    As “bem-aventuranças” evangélicas devem ser entendidas no contexto da pregação sobre o Reino de Deus. Jesus proclama “bem-aventurados” os que estão numa situação de debilidade, de pobreza, de aflição (os pobres, os que choram, os que têm fome e sede de justiça, os que sofrem perseguição por causa da justiça), porque Deus está a ponto de instaurar o Reino de Deus e a situação deles vai mudar radicalmente; Jesus proclama “bem-aventurados” aqueles que dão testemunho dos valores de Deus (os mansos, os misericordiosos, os puros de coração, os construtores da paz), porque podem fazer parte da comunidade do Reino de Deus e serão chamados filhos de Deus.

    As quatro primeiras “bem-aventuranças” referidas por Mateus (vers. 3-6) estão relacionadas entre si. Dirigem-se aos “pobres” (as segunda, terceira e quarta “bem-aventuranças” são apenas desenvolvimentos da primeira, que proclama: “bem-aventurados os pobres em espírito”). Saúdam a felicidade daqueles que se entregam confiadamente nas mãos de Deus e procuram sempre fazer a vontade de Deus; daqueles que, de forma consciente, deixam de colocar a sua confiança e a sua esperança nos bens, no poder, no êxito, nos homens, para esperar e confiar em Deus; daqueles que aceitam renunciar ao egoísmo e manterem-se disponíveis para Deus e para os outros.

    Os “pobres em espírito” são os pequenos, os humildes, aqueles que não possuem nada a não ser Deus; são aqueles que se entregam nas mãos de Deus e que confiam totalmente n’Ele; são aqueles que abraçam o projeto de Deus sem reticências nem condições e estão sempre disponíveis para servir os seus irmãos.

    Os “que choram” são aqueles que, pelas mais diversas razões, vivem mergulhados na aflição e no sofrimento; são os que não conseguem ver uma luz ao fundo do túnel e derramam o seu desespero em lágrimas amargas. A chegada iminente do Reino de Deus vai mudar a sua história, vai fazer com que a sua triste situação seja mudada em consolação, alegria e esperança.

    Os mansos (os “humildes”) são aqueles que recusam a violência como forma de resolver as diferenças e os conflitos; são os pacíficos, os que têm paciência com os que erram, os que não respondem na mesma moeda quando são agredidos ou quando são vítimas dos abusos e da prepotência dos injustos; são aqueles que têm a coragem de quebrar a espiral de violência que continuamente suja de sangue a história do mundo e dos homens. A sua atitude pacífica e bondosa evoca a misericórdia e a bondade de Deus. A sua mansidão anuncia um mundo construído em moldes novos e fará deles membros de pleno direito do Reino de Deus.

    Os “os que têm fome e sede de justiça” são aqueles que se mantêm fiéis a Deus, os que desejam cumprir a vontade de Deus, os que só desejam fazer aquilo que Deus considera justo e bom. É a “justiça” no sentido bíblico, como fidelidade aos compromissos assumidos para com Deus e para com os outros homens. Essa “fome” e essa “sede” – essa preocupação nunca descurada em cumprir a vontade de Deus – será plenamente saciada para todos aqueles que aderirem à comunidade do Reino de Deus e passarem a viver do dinamismo de vida nova que Jesus lhes traz.

    Um segundo grupo de “bem-aventuranças” (vers. 7-11) está orientado para definir o comportamento cristão. Enquanto no primeiro grupo se constatam situações, neste segundo grupo propõem-se atitudes que os discípulos de Jesus devem assumir.

    Os “misericordiosos” são aqueles que têm um coração capaz de se compadecer dos seus irmãos. É o sentimento de Jesus quando encara o sofrimento dos doentes (cf. Mt 9,27-28; 15,20-21; 17,15; 20,30-31); é o sentimento que leva Jesus a acolher, a perdoar, a abraçar os pecadores e os marginais. Os misericordiosos serão felizes porque experimentarão, também eles, a misericórdia de Deus.

    Os “puros de coração” são, provavelmente, os que se apresentam diante do Senhor com “as mãos inocentes e o coração limpo”, os “que não erguem o espírito para as coisas vãs, nem juram pelo que é falso” (Sl 24,4); são aqueles que não pactuam com qualquer forma de idolatria, não defraudam os seus semelhantes, não cultivam a mentira, a duplicidade e o engano. Esses “verão a Deus”, quer dizer, terão sempre Deus a seu lado, acompanhando-os e ajudando-os no caminho.

    Os “que promovem a paz” são aqueles que lutam ativamente pela paz, pelo bem-estar de todos, pela harmonia a todos os níveis; são os que se recusam a aceitar que a violência e a lei do mais forte governem as relações humanas; são aqueles que procuram ser – às vezes com o risco da própria vida – instrumentos de reconciliação entre os homens. Esses serão felizes porque o Deus do amor e da paz chamá-los-á seus filhos.

    Os “que sofrem perseguição por amor da justiça” são aqueles que, por causa da sua fidelidade a Deus, são perseguidos, maltratados e condenados; são os que lutam pela instauração do Reino de Deus e que, por essa razão, são desautorizados, humilhados, agredidos, marginalizados. O próprio Jesus foi perseguido, condenado à morte e executado na cruz por causa da sua fidelidade ao projeto do Pai. Esses poderão experimentar a tentação de suavizar o seu testemunho, de moderar a sua radicalidade, de abandonar a luta para não ter problemas; mas Jesus, a partir da sua própria experiência, garante-lhes: o mal nunca vos vencerá; e, no final do caminho, espera-vos o triunfo, a vida plena.

    No final das “bem-aventuranças” (vers. 11), o evangelista Mateus põe na boca de Jesus uma exortação dirigida a todos aqueles que são perseguidos por causa de Jesus e do Evangelho. Esta exortação – que é, na prática, uma aplicação concreta da oitava bem-aventurança – convida todos os que fazem parte da comunidade do Reino de Deus a manterem-se fiéis, a resistirem ao sofrimento e à adversidade. Indubitavelmente, receberão de Deus a recompensa que a sua fidelidade merece.

    As “bem-aventuranças” definem o modelo de vida que os seguidores de Jesus devem adotar. São “oito portas” para entrar na comunidade do Reino de Deus. Elencam os valores fundamentais do projeto de Jesus.

    As “bem-aventuranças” também são uma mensagem de esperança e de alento para os pobres, os humildes, os sofredores. Anunciam que Deus os ama e que está do lado deles; confirmam que a libertação está a chegar e que a sua situação vai mudar; asseguram que eles vivem já na dinâmica do mundo novo que Jesus veio propor e que, nesse “lugar”, vão encontrar a felicidade e a vida plena que ansiosamente esperam.

     

    INTERPELAÇÕES

    • Dois mil anos depois de Jesus ter feito o “sermão da montanha”, as “bem-aventuranças” continuam a soar aos nossos ouvidos de uma forma estranha e paradoxal. Deixam-nos perplexos e algo desconcertados, pois apontam num sentido que parece ir contra o senso comum. Parecem subverter todas as nossas lógicas e contradizer tudo aquilo que sabemos sobre êxito e fracasso. São um desafio que ameaça todas as nossas certezas e seguranças, a nossa sabedoria convencional e a nossa organização social. Poderão realmente ser um caminho para a felicidade e para a plena realização do ser humano? Jesus tem razão quando garante que a verdadeira felicidade se alcança por caminhos completamente diferentes dos que a sociedade atual propõe? As “bem-aventuranças” serão uma desculpa de fracassados, conversa de gente que não tem coragem para competir, para se impor, para triunfar, ou serão uma forma de construir um mundo diferente, mais justo, mais humano e mais fraterno? O nosso mundo ganharia alguma coisa se abandonássemos a competitividade e a luta feroz pelo êxito humano e optássemos por viver na lógica das “bem-aventuranças”? Seríamos mais livres e mais felizes se renunciássemos a certos valores que a sociedade impõe e passássemos a viver de acordo com os valores propostos por Jesus?
    • “Felizes os pobres em espírito”. Os “pobres em espírito” são aqueles que, sem bens materiais, sem a proteção dos poderosos, sem seguranças humanas, se entregam confiadamente nas mãos de Deus, colocam toda a sua esperança em Deus, acolhem de braços abertos as indicações de Deus. Apresentam-se com humildade, desconhecem a arrogância e a autossuficiência, estão sempre disponíveis para servir os seus irmãos, são uma luz que brilha na noite do mundo. É assim que vivemos?
    • “Felizes os que choram”. Na verdade, Deus não gosta de nos ver sofrer e chorar. O choro que resulta da doença sem remédio, das ofensas contra a nossa dignidade, das feridas que as injustiças deixam, não é uma coisa boa. Mas Jesus diz que Deus irá consolar os que choram, dar-lhes força para vencer as dificuldades, ficar do lado deles, eliminar as causas do seu sofrimento. Então, vencidos os motivos das lágrimas, os que choram voltarão a rir. Confiamos em Deus, no seu cuidado, no seu amor, mesmo quando as lágrimas não nos deixam ver as estrelas?
    • “Felizes os mansos” (os “humildes”). Vivemos num mundo competitivo e agressivo, onde a violência explode pelas razões mais fúteis. O não responder à violência com uma violência igual ou maior será uma estupidez, ou será sinal de que somos filhos de um Deus misericordioso e compassivo? Se não desarmarmos a espiral de violência e de ódio que envolve tantos problemas e povos, qual o futuro da humanidade? Como é que nós, pessoalmente, reagimos quando somos atropelados pela violência e pela injustiça?
    • “Felizes os que têm fome e sede de justiça”. Os “que têm fome e sede de justiça” são aqueles que se preocupam genuinamente em acertar, em serem fiéis aos compromissos que têm com Deus, em fazerem aquilo que é “de justiça”. Passamos ao lado da vida se vivemos de forma ligeira, distraída, perdendo oportunidades, sem cumprir a missão que nos foi confiada. Somos gente que leva a sério os compromissos que tem com Deus e com os irmãos, que procura estar sempre atento para fazer o que deve fazer?
    • “Felizes os misericordiosos”. Nunca, em nenhuma outra época da história, estivemos tão conectados uns com os outros; nunca, em nenhuma outra época da história, pudemos acompanhar tão de perto, em tempo real, os dramas e as angústias dos nossos irmãos; e nunca, em qualquer outra época da história, nos fechamos tanto aos sofrimentos dos outros. Globalizou-se a indiferença; fechamo-nos no nosso egoísmo e passamos ao lado de quem sofre sem nos determos. Sentimo-nos responsáveis pelos nossos irmãos? Somos testemunhas, junto deles, do Deus misericordioso e compassivo?
    • “Felizes os puros de coração”. Os “puros de coração” são aqueles que não vivem escravizados a deuses efémeros, não pactuam com coisas duvidosas, não constroem as suas vidas sobre mentiras e enganos. Num mundo de onde o que é verdade de manhã é mentira à tarde e o “chico-espertismo” é um modo de vida, os “puros de coração” representam a honestidade, a verticalidade, a fidelidade aos valores e aos compromissos. Somos fiáveis, “de confiança”, na nossa relação com Deus e com os irmãos? Somos testemunhas do Deus sempre fiel, que nunca nos trai nem engana?
    • “Felizes os que promovem a paz”. Os conflitos, as guerras, as violências eclodem por todo o lado, causam um sofrimento indizível e erguem barreiras de ódio que separam os homens. Alguns, no entanto, os que “são chamados filhos de Deus”, procuram derrubar esses muros, construir pontes de entendimento e de diálogo, fomentar a fraternidade, a solidariedade, o encontro, a comunhão. Somos construtores de muros que separam, ou de pontes que aproximam? Aceitamos ser, no meio dos nossos irmãos, arautos da reconciliação e promotores da paz?
    • “Felizes os que sofrem perseguição por amor da justiça”. Hoje como ontem, aqueles que se mantêm fiéis a Deus e lutam para que o plano de Deus se concretize no mundo e na história desagradam aos donos do mundo; por isso são perseguidos, desautorizados, ridicularizados condenados, silenciados… Alguns desistem e preferem não correr riscos, não andar contra a corrente, não incomodar os fazedores de opinião que ditam o certo e o errado; outros insistem a tempo e fora de tempo, em serem sinais e testemunhas da vida de Deus. E nós, de que lado ficamos?
    • As “bem-aventuranças” dão-nos um retrato bem bonito do coração paternal e maternal de Deus. Garantem-nos que Deus é sensível ao sofrimento dos seus filhos e que sente um carinho especial pelos que sofrem mais. Ele está sempre disponível para confortar os que estão feridos e magoados e para os ajudar a sair da sua triste situação. Como é que vemos e sentimos esta “sensibilidade” de Deus pelos mais frágeis e pequenos? Agrada-nos? É para nós fonte de esperança? O carinho de Deus pelos que precisam mais de amor inspira-nos e leva-nos a cuidar especialmente dos nossos irmãos que a vida maltrata?

     

    ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 4.º DOMINGO DO TEMPO COMUM
    (adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)

     

    1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.

    Ao longo dos dias da semana anterior ao 4.º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

     

    1. PARA A PROCLAMAÇÃO DAS BEM-AVENTURANÇAS.

    Como criar, ao longo da liturgia da Palavra, uma progressão cujo ponto culminante seria a Boa Nova? Uma proposta muito simples: o leitor da primeira leitura avança acompanhado por alguém que leva uma luz (vela) e os dois, depois da leitura terminada, ficam junto do ambão; os mesmos gestos para o leitor (cantor) do salmo e para o leitor da segunda leitura; finalmente, o Livro dos Evangelhos é levado em procissão, também acompanhado por alguém com uma vela acesa, até ao ambão. Todos ficam à volta do ambão, formando um “povo de luz” e dando uma solenidade particular à proclamação das Bem-aventuranças de Mateus.

     

    1. BILHETE DE EVANGELHO.

    O “ofertório”, um ato litúrgico… Quando vimos à missa, os nossos corações estão cheios da nossa vida e da vida dos nossos irmãos, com as alegrias, os sofrimentos, os projetos, as questões, as inquietudes, a esperança. Com o pão e o vinho, no momento do ofertório, é um pouco desta vida que oferecemos concretamente. O dinheiro é o que nós ganhamos; ele é feito para ser partilhado. O “ofertório” é, pois, um ato litúrgico. Querer que a comunidade cristã à qual pertencemos possa viver é uma obra de justiça. Quando beneficiamos dos serviços de uma associação, a ela aderimos financeiramente. Temos muitas ocasiões para aderir financeiramente à comunidade cristã – e os cristãos são generosos. Procuremos valorizar ou revalorizar o nosso “ofertório”…

     

    1. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.

    Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

     

    No final da primeira leitura:

    Deus, Pai e pastor do teu povo, nós Te bendizemos pela tua paciência e pela tua bondade. Quando Israel se afastava do caminho da justiça, Tu recordava-lo pelos teus profetas, para o converter e o conduzir para Ti.

    Nós procuramos o teu rosto e Te pedimos: purifica-nos da mentira e do engano, faz-nos procurar a justiça e a humildade.

     

    No final da segunda leitura:

    Deus de infinita sabedoria, nós Te damos graças, porque nos chamaste; escolhes aqueles que são fracos e desprezados, para lhes fazer descobrir a tua sabedoria, no teu Filho, desprezado no calvário, mas vitorioso na Páscoa.

    Pomos em Ti a nossa confiança e estendemos as mãos para o teu Filho: Ele é a nossa justiça, a nossa santificação e a nossa redenção.

     

    No final do Evangelho:

    Nosso Pai dos céus, bendito sejas, Tu que abres ao teu povo a terra prometida e o Reino dos céus, Tu que o sacias com a tua justiça, Tu que nos chamas teus filhos e descobres-nos o teu rosto.

    Faz-nos estar entre os pobres, os mansos, os aflitos, os misericordiosos, os famintos da tua justiça, os corações puros e as testemunhas do teu Reino.

     

    1. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.

    Pode-se escolher a Oração Eucarística II para as Missas com Crianças.

     

    1. PALAVRA PARA O CAMINHO.

    Um pequeno resto… “Só deixarei ficar no meio de ti um povo pobre e humilde, que buscará refúgio no nome do Senhor…” Um pequeno “resto” de gente que procura Deus na verdade, numa Igreja minoritária no seio de uma sociedade que só crê na riqueza, no poder, nas performances. Gente que procura a justiça, a humildade, a doçura, a paz, o perdão… Este programa entra na minha vida?

     

    UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
    PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA

    Grupo Dinamizador:
    José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
    Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
    Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
    www.dehonianos.org

     

  • Apresentação do Senhor

    Apresentação do Senhor


    2 de Fevereiro, 2026

    Esta festa já era celebrada em Jerusalém, no século IV. Chamava-se festa do encontro,hypapántè , em grego. Em 534, a festa estendeu-se a Constantinopla e, no tempo do Papa Sérgio, chegou a Roma e ao Ocidente. Em Roma, a festa incluía uma procissão até à Basílica de S. Maria Maior. No século X, começaram a benzer-se as velas.

    José e Maria levam o Menino Jesus ao templo, oferecendo-o ao Pai. Como toda a oferta implica renúncia, a Apresentação do Senhor é já o começo do mistério do sofrimento redentor de Jesus, que atingirá o seu ponto culminante no Calvário. Maria e José unem-se à oferta do seu divino Filho estando a seu lado e colaborando, cada um a seu modo, na obra da Redenção.

    Lectio

    Primeira Leitura: Malaquias 3, 1-4

    Assim fala o Senhor: "Eis que Eu vou enviar o meu mensageiro, a fim de que ele prepare o caminho à minha frente. E imediatamente entrará no seu santuário o Senhor, que vós procurais, e o mensageiro da aliança, que vós desejais. Ei-lo que chega! - diz o Senhor do universo. 2Quem suportará o dia da sua chegada? Quem poderá resistir, quando ele aparecer?Porque ele é como o fogo do fundidor e como a barrela das lavadeiras.  3Ele sentar-se-á como fundidor e purificador. Purificará os filhos de Levi e os refinará, como se refinam o ouro e a prata. E assim eles serão para o Senhor os que apresentam a oferta legítima. 4Então, a oferta de Judá e de Jerusalém será agradável ao Senhor como nos dias antigos, como nos anos de outrora".

    Os dois mensageiros anunciados pelo profeta introduzem-se mutuamente: um prepara a vinda do Senhor e outro realiza a Aliança, é o Esperado. Estas duas figuras perspetivam João Baptista e Cristo. Um é apenas precursor; o outro é o Messias esperado, de origem divina, o Redentor. O primeiro prepara o caminho; o segundo entra efetivamente no templo, santificando, pela oferta de si mesmo, o sacrifício da nova Aliança, os ministros e o culto.

    Segunda leitura: Hebreus 2, 14-18

    Uma vez que os filhos dos homens têm em comum a carne e o sangue, também Ele partilhou a condição deles, a fim de destruir, pela sua morte, aquele que tinha o poder da morte, isto é, o diabo, 15e libertar aqueles que, por medo da morte, passavam toda a vida dominados pela escravidão. 16Ele, de facto, não veio em auxílio dos anjos, mas veio em auxílio da descendência de Abraão. 17Por isso, Ele teve de assemelhar-se em tudo aos seus irmãos, para se tornar um Sumo Sacerdote misericordioso e fiel em relação a Deus, a fim de expiar os pecados do povo. 18É precisamente porque Ele mesmo sofreu e foi posto à prova, que pode socorrer os que são postos à prova.

    A carne e o sangue, submetidos ao poder da morte pelo inimigo, são divinizados e libertados por Cristo, Deus feito homem. A descendência de Abraão é restituída à vida. O Filho de Deus apresenta-se como primeiro entre muitos irmãos e como sacerdote, mediador na sua divindade e humanidade, da fidelidade de Deus, Pai da vida.

    Evangelho: Lucas 2, 22-40

    Ao chegarem os dias da purificação, segundo a Lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para o apresentarem ao Senhor, 23conforme está escrito na Lei do Senhor: «Todo o primogénito varão será consagrado ao Senhor» 24e para oferecerem em sacrifício, como se diz na Lei do Senhor, duas rolas ou duas pombas. 25Ora, vivia em Jerusalém um homem chamado Simeão; era justo e piedoso e esperava a consolação de Israel. O Espírito Santo estava nele. 26Tinha-lhe sido revelado pelo Espírito Santo que não morreria antes de ter visto o Messias do Senhor.27Impelido pelo Espírito, veio ao templo, quando os pais trouxeram o menino Jesus, a fim de cumprirem o que ordenava a Lei a seu respeito. 28Simeão tomou-o nos braços e bendisse a Deus, dizendo:  29«Agora, Senhor, segundo a tua palavra, deixarás ir em paz o teu servo, 30porque meus olhos viram a Salvação  31que ofereceste a todos os povos,  32Luz para se revelar às nações e glória de Israel, teu povo.» 33Seu pai e sua mãe estavam admirados com o que se dizia dele.  34Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua mãe: «Este menino está aqui para queda e ressurgimento de muitos em Israel e para ser sinal de contradição; 35uma espada trespassará a tua alma. Assim hão-de revelar-se os pensamentos de muitos corações.»36Havia também uma profetisa, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser, a qual era de idade muito avançada. Depois de ter vivido casada sete anos, após o seu tempo de donzela, 37ficou viúva até aos oitenta e quatro anos. Não se afastava do templo, participando no culto noite e dia, com jejuns e orações. 38Aparecendo nessa mesma ocasião, pôs-se a louvar a Deus e a falar do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém. 39Depois de terem cumprido tudo o que a Lei do Senhor determinava, regressaram à Galileia, à sua cidade de Nazaré. 40Entretanto, o menino crescia e robustecia-se, enchendo-se de sabedoria, e a graça de Deus estava com Ele.

    O Evangelho da Infância de Jesus tem o seu ponto alto no templo, lugar da plenitude do povo de Israel. É aí que Zacarias ouve a palavra que dirige a história para a sua meta (anúncio de João); é aí que o Menino é apresentado a Deus, revelado a Simeão e a Ana. É daí que regressa a Nazaré. Pano de fundo da cena da apresentação é lei judaica segundo a qual os primogénitos são sagrados e, por isso, devem ser apresentados a Deus. O Pai responde à apresentação e oferta de Jesus com o dom do Espírito ao velho Simeão, que profetiza. Israel pode estar descansado: a sua história não acaba em vão. Simeão viu o Salvador e sabe que a meta é agora o triunfo da vida.

    Meditatio

    Os pais de Jesus, de acordo com a lei mosaica, 40 dias depois do nascimento do primeiro filho, foram ao Templo de Jerusalém para oferecer o primogénito ao Senhor e para a mãe ser purificada. Mas este rito não foi exatamente igual aos outros. Nos ritos comuns, eram os pais que apresentavam os filhos a Deus em sinal de oferta e de pertença; neste rito é Deus que apresenta o seu Filho aos homens. Fá-lo pela boca do velho Simeão e da profetisa Ana. Simeão apresenta-O ao mundo como salvação para todos os povos, como luz que iluminará as gentes, mas também como sinal de contradição; como Aquele que revelará os pensamentos dos corações.
    O encontro de Jesus com Simeão e Ana no Templo de Jerusalém é símbolo de uma realidade maior e universal: a Humanidade encontra o seu Senhor na Igreja. Malaquias preanunciava este encontro: «Eis que Eu vou enviar o meu mensageiro, a fim de que ele prepare o caminho à minha frente. E imediatamente entrará no seu santuário o Senhor, que vós procurais». No Templo, Simeão reconheceu Jesus como o Messias esperado e proclamou-o salvador e luz do mundo. Compreendeu que, doravante, o destino de cada homem se decidia pela atitude assumida perante Ele; Jesus será ruína ou salvação. Como dirá João Baptista: Ele tem na mão a joeira para separar o trigo bom da palha (cf. Mt 3, 12).
    É o que acontece, a outra escala, também hoje: no novo templo de Deus que é a Igreja, os homens «encontram» Cristo, aprendem a conhecê-lo, recebem-no na Eucaristia, como Simeão o recebeu nos braços; a sua palavra torna-se, aí, para eles, luz e o seu corpo força e alimento. É a experiência que fazemos, sempre que vamos à missa. A comunhão é um verdadeiro encontro entre Deus e nós. Hoje, essa experiência é acentuada pelo simbolismo da festa: a procissão com que entramos na igreja com o sacerdote, levando a vela acesa e cantando, era, sinal deste ir ao encontro de Jesus que nos chama no interior da sua igreja, na esperança de irmos ao seu encontro um dia no Hypapante eterno, quando formos nós a ser apresentados por Ele ao Pai.
    A Candelária é festa de luz. A luz da fé não nos foi dada apenas para iluminar o nosso caminho, desinteressando-nos dos outros... A luz da fé também não é para ter acesa apenas na igreja, ou em certos momentos, mas em todos os momentos e situações da nossa vida... A nossa fé há de ser luz que ilumina, fogo que aquece... É luz e fogo quem é compreensivo e bom com todos... quem sabe apoiar os pequenos esforços... os pequenos progressos... quem tem palavras de amizade, de estímulo, de apoio... quem sabe dizer uma boa palavra, dar uma ajuda... O amor cristão tem a sua origem em Deus que nos amou e nos enviou o seu Filho com quem nos encontramos em vários momentos da nossa vida, particularmente quando celebramos a Eucaristia. Esse é o nosso encontro, enquanto esperamos o encontro definitivo no Céu.

    Oratio

    Ó Jesus, eis-me aqui para fazer a vossa vontade. Quero estar atento e ouvir as vossas ordens, os vossos desejos, que me chegam através da vossa Palavra, das orientações dos vossos representantes na terra, dos acontecimentos da minha vida e da vida dos meus irmãos. Uno-me à oblação generosa do vosso divino Coração. Que quereis que vos faça? Dizei-mo, pelos meus pastores, pelas vossas inspirações, pela vossa providência. Falai, Senhor, que o vosso servo escuta. Iluminai-me com a vossa luz divina e refleti-la-ei nos meus irmãos. Ámen.

    Contemplatio

    «Eis-me aqui, meu Deus, para vos servir e para fazer a vossa vontade: Eis a serva do Senhor: faça-se em mim segundo a tua palavra». Esta é a regra, Maria obedece. Está escrito na lei, no Levítico e no Êxodo. A jovem mãe apresentar-se-á no templo para ser purificada, quarenta dias depois do nascimento de um filho e oitenta dias depois do nascimento de uma filha. Maria não costuma hesitar quando se trata da lei. Cumpre tudo à letra, segundo a Lei de Moisés. No quadragésimo dia, está em Jerusalém. Não examina se está dispensada pelo carácter sobrenatural da sua maternidade. A hesitação não lhe vem, é a lei. Como o seu divino Filho, renuncia a todo o privilégio e, contente com a sorte comum, obedece à lei. Jesus obedece e deixa-se levar, apresentar, resgatar, Maria obedece também e deixa-se purificar. Como Jesus, Maria leva no meio do seu Coração a lei de Deus, como sua regra de vida. Oh! Como esta obediência pontual, humilde, heroica, condena todas as nossas hesitações, toda a nossa procura de exceções e de dispensas! Maria podia dizer: Eis a serva do Senhor. E eu posso dizer: Ecce venio: eis que venho, Senhor, para obedecer, para fazer a vossa vontade. Eis o teu servo. (Leão Dehon, OSP 3, p. 120).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a Palavra do Senhor:
    "Eu sou a luz do mundo" (Jo 8, 12).

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    Apresentação do Senhor (02 Fevereiro)

  • S. João de Brito, Presbítero e Mártir

    S. João de Brito, Presbítero e Mártir


    4 de Fevereiro, 2026

    João de Brito nasceu em Lisboa, a 1 de Março de 1647. Ainda criança, perdeu o pai, que fora mandado governar o Brasil por D. João IV, e lá faleceu. Aos 16 anos, João entrou no Noviciado da Companhia de Jesus em Lisboa. Foi ordenado sacerdote em 1673. Anelando conquistar almas para Jesus Cristo e sacrificar-se a exemplo de S. Francisco Xavier, partiu, pouco depois, para a Índias, onde trabalhou com ardor na missão do Maduré. A 4 de Fevereiro de 1693, sofreu o martírio, por decapitação, em Urgur. Foi canonizado em 1947.

    Lectio

    Primeira leitura: da féria (ou tempo Comum)

    Evangelho: Marcos 6, 7-17

    Naquele tempo, Jesus percorria as aldeias vizinhas a ensinar. 7Chamou os Doze, começou a enviá-los dois a dois e deu-lhes poder sobre os espíritos malignos. 8Ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser um cajado: nem pão, nem alforge, nem dinheiro no cinto;9que fossem calçados com sandálias e não levassem duas túnicas. 10E disse-lhes também: «Em qualquer casa em que entrardes, ficai nela até partirdes dali. 11E se não fordes recebidos numa localidade, se os seus habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra eles.» 12Eles partiram e pregavam o arrependimento, 13expulsavam numerosos demónios, ungiam com óleo muitos doentes e curavam-nos. 4O rei Herodes ouviu falar de Jesus, pois o seu nome se tornara célebre; e dizia-se: «Este é João Baptista, que ressuscitou de entre os mortos e, por isso, manifesta-se nele o poder de fazer milagres»;15outros diziam: «É Elias»; outros afirmavam: «É um profeta como um dos outros profetas.»16Mas Herodes, ouvindo isto, dizia: «É João, a quem eu degolei, que ressuscitou.» 17Na verdade, tinha sido Herodes quem mandara prender João e pô-lo a ferros na prisão, por causa de Herodíade, mulher de Filipe, seu irmão, que ele desposara.

    Marcos apresenta-nos uma das facetas essenciais da eclesiologia do Novo Testamento: a proclamação do Reino não é feita ao acaso; há uma "instituição" que põe em movimento e planifica o anúncio da Boa Nova.
    Pregar o Reino implica ser enviado por Jesus. Da pregação faz parte um conteúdo intelectual, mas também uma dimensão prática. Por isso, Jesus deu aos Doze "poder sobre os espíritos impuros" (v. 7). Estes "espíritos impuros" ou "alienações" são tudo o que ameaça exteriormente o homem, não o deixando realizar-se como ser humano. A Boa Nova não é apenas uma determinada interpretação do mundo e da história, mas uma indicação de transformação desse mundo e dessa história, uma dinâmica desalienante.
    Os discípulos são enviados "dois a dois": o anúncio faz-se sempre de forma comunitária. Os discípulos não podem levar consigo senão o estritamente necessário: nada de exageros, nem de triunfalismos. Mas, mais que a pobreza dos missionários, o nosso texto acentua a pobreza da missão: o missionário é enviado por Aquele que é o único responsável pelo êxito da missão. No cumprimento da missão, o apóstolo há-de estar pronto a dar própria vida. João de Brito deu-a como supremo testemunho da Verdade que anunciava.

    Meditatio

    Marcos, ao falar da escolha dos Doze, diz que Jesus os chamou "para estarem com ele" e para "os enviar". Não se trata de contradição, mas de complementaridade: chamou-os para estarem em intimidade com Ele e serem enviados a propagar a sua mensagem.
    S. João de Brito viveu este mistério. Educado piedosamente pela sua mãe, desde muito novo sonhou com o sacrifício e a imolação de si mesmo a Deus, por amor. A coerência e o fervor com que vivia a sua fé provocavam a mofa de alguns dos seus colegas pajens da corte. Por isso, bem cedo, começou a ser apelidado de mártir. Tendo entrado na Companhia de Jesus, em breve se distinguiu pela sua piedade e observância religiosa. A sua vida eucarística, a sua devoção a Nossa Senhora eram notáveis. Nesta vida de intimidade com Deus, sonhou partir para a Índia, e imitar o zelo de S. Francisco Xavier no anúncio da Boa Nova. E foi enviado pelos seus superiores com mais 17 missionários, em Março de 1673. Foi destinado à missão do Maduré, uma das mais difíceis por causa do clima ardente, das viagens longas pelas areias, pelos pântanos, pelas florestas. Mas havia dificuldades ainda maiores por causa da condição dos hindus e pelas suas ideias a respeito dos europeus. Tinham-nos como párias por verem que tratavam com estes "fora de castas". Por isso, não lhes consentiam que morassem nas suas aldeias. Mas a caridade inspirou aos missionários o modo de vencer tais dificuldades: adotaram os trajes, os costumes e o modo de viver dos brâmanes saniássis, espécie de religiosos letrados. Assim puderam prosseguir o seu apostolado. Em 1686, João de Brito esteve a ponto de perder a vida para socorrer os cristãos do Maravá sobre os quais se desencadeara tremenda tempestade. Saiu-lhe ao encontro o comandante das tropas do maravá que o prendeu com um grupo de catequistas e os mandou açoitar a todos, pretendendo que invocassem o deus Xivá. Resistiram, passando por muitos tormentos físicos e psicológicos. Dezoito dias depois, o rei condenava o padre à morte: seria espetado, depois de lhe cortarem os pés e as mãos. Seguiram-se novas tribulações, até que o rei, ouvindo João de Brito expor-lhe a doutrina cristã, ficou tão admirado com ela que acabou por declarar que os cristãos são justos e santos. Pouco depois, o P. João de Brito foi chamado à Europa pelo Provincial. Assim, a 8 de Setembro de 1688, chegou a Lisboa, sendo recebido por todos com grande admiração e com a benevolência do rei D. Pedro II, a quem expôs os seus trabalhos. Depois de percorrer os colégios da Companhia, João de Brito regressou à Índia, apesar das súplicas que muitos lhe fizeram para que não voltasse. O seu trabalho missionário produziu tais frutos, que se levantou contra ele nova perseguição, que acabou por levá-lo ao martírio, a 4 de Fevereiro de 1693. Na véspera da sua morte, o santo escrevia do cárcere: "Agora espero padecer a morte por meu Deus e meu Senhor... A culpa de que me acusam vem a ser que ensino a Lei de Deus Nosso Senhor... Quando a culpa é virtude, o padecer é glória". João de Brito continuava, na missão, a vida de intimidade com Deus, iniciada na sua infância e juventude. Se queremos relacionar-nos positivamente com os outros, se queremos ser missionários, precisamos de uma relação íntima, profunda e amorosa com Deus. Sem ela, a nossa vida não é verdadeira, a nossa entrega é vazia. Mas também não podemos viver a intimidade com Ele, fechando-nos aos outros. O egoísmo não conduz à adesão ao Senhor, à comunhão com Ele. Para ser vida de amor, a vida do cristão, particularmente a vida do dehoniano, deve ter o mesmo dinamismo que a de Cristo: ser um movimento de amor para Deus e para os irmãos.

    Oratio

    Senhor, que fortalecestes com invencível constância o mártir São João de Brito para pregar a fé entre os povos da Índia, concedei-nos, por seus méritos e intercessão, que, celebrando a memória do seu triunfo, imitemos os exemplos da sua fé. Por Cristo, nosso Senhor. Ámen. (Coleta da missa).

    Contemplatio

    Nosso Senhor não responde (a Herodes). O momento é grave. Cumpre o seu sacrifício para a redenção do mundo. Não tem tempo para dar às questões frívolas e curiosas de Herodes. Aqui está para nós uma grande lição de vida interior, de gravidade, de dignidade. Nosso Senhor vive unido ao seu Pai, e não condescende em conversar com os homens a não ser que algum motivo de caridade ou de justiça o exija. O silêncio tem as suas preferências. Assim devia ser também para nós. É o que diz S. Paulo aos Filipenses: «Que a vossa modéstia seja manifesta a todos os homens!». A modéstia é aqui a moderação nas palavras e nas ações. "Guardai a calma, acrescenta S. Paulo, ocupai o vosso coração a louvar a Deus, a dar-lhe graças, a rezar. Se for preciso conversar com os homens, que seja sobre temas de edificação, de piedade ou de necessidade" (Fil 4,5)... Paulo recomendava a todos os seus discípulos esta modéstia de Cristo: «Revesti-vos, diz aos Colossenses, da doçura, da modéstia, da paciência de Jesus Cristo» (Col 3,12). A paciência infinita do bom Mestre manifesta-se também com brilho em casa de Herodes. O príncipe e a sua corte tratam Jesus como um louco. Zombam dele, insultam-no. Não lhe batem como os criados do Templo, mas gozam dele. É uma outra prova, não menos cruel para o Filho de Deus. (L. Dehon, OSP 3, p. 325s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "Quando a culpa é virtude, o padecer é glória." (S. João de Brito)

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    S. João de Brito, Presbítero e Mártir (04 Fevereiro)

  • S. Paulo Miki e Companheiros

    S. Paulo Miki e Companheiros


    6 de Fevereiro, 2026

    Paulo Miki, jesuíta japonês, é um dos 26 mártires que, a 5 de Fevereiro de 1597, morreram crucificados na colina de Tateyama - depois chamada «colina santa» - junto de Nagasaki. A evangelização do Japão, iniciada por S. Francisco Xavier (1549-1551), tinha dado os seus grupos e a comunidade cristã atingia, em 1587, os 250.000 membros. O imperador, que inicialmente tinha favorecido os missionários, decretou a expulsão dos jesuítas e mandou prender 6 franciscanos espanhóis e três jesuítas japoneses. Foi um tempo de dura repressão.

    Paulo Miki era filho de um oficial. Foi educado num colégio jesuíta e, em 1580, entrou na Companhia de Jesus. Tornou-se muito conhecido pela qualidade da sua vida e pela sua capacidade de evangelizar. Ainda não era sacerdote quando foi martirizado com outros 25 cristãos: 6 missionários franciscanos espanhóis, um escolástico e um irmão, jesuítas japoneses, e 17 leigos também japoneses. Foram canonizados por Pio IX, em 1862.

    Lectio

    Primeira leitura: Gálatas, 2, 19s.

    Irmãos, eu pela Lei morri para a Lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo.20Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. E a vida que agora tenho na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim.

    A forte experiência a que Paulo faz alusão neste texto, está inserida na vida da comunidade da Galácia, que, se por um lado vive em grande fervor, por outro é provada pelos irmãos que julgam necessário continuar a observar a lei de Moisés, com tudo o que ela implica, também a circuncisão (cf. Gal 1, 2 e Act 15, 1).
    É na provação que os discípulos descobrem a verdadeira origem da salvação. Em consequência, chegam a uma relação viva com o Senhor Jesus, a uma maior consciência da sua identidade, aprendem a reconhecer a acção do Espírito no desenvolvimento da Igreja e descobrem o seu lugar na sociedade. Trata-se de fazer, mais uma vez, uma opção por Cristo e pelo único evangelho, fundamentando a própria vida, não em normas e rituais, como acontecia entre os judeus, mas em Cristo e em Cristo Crucificado. Paulo não quer propor aos Gálatas uma doutrina a discutir, mas levá-los a reflectir, narrando a sua experiência (1, 10-2,21), na «verdade do evangelho» (2, 14), a reconhecer que a justificação vem da fé e não das obras da lei, a encontrar-se com Cristo crucificado, a viver a vida em liberdade, guiados pelo Espírito.
    Paulo «sabe» quem é o seu Senhor! «Estou crucificado com Cristo» (2, 20): é o nascimento da vida nova e é a plena identificação com Jesus. A vida desenrola-se na comunhão profunda, única e misteriosa, com Cristo, que o amou e deu a vida por ele.

    Evangelho: Mateus, 28, 16-20

    Naquele tempo, os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes tinha indicado. 17Quando o viram, adoraram-no; alguns, no entanto, ainda duvidavam.18Aproximando-se deles, Jesus disse-lhes:«Foi-me dado todo o poder no Céu e na Terra. 19Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, 20ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos.»

    Jesus convoca a comunidade dos discípulos para a revelação definitiva. O lugar é significativo: a Galileia, um Monte. Foi na Galileia que Jesus anunciou, pela primeira vez, a vinda do Reino (4, 17); foi sobre um monte que Jesus foi tentado pelo Demónio que Lhe oferecia o domínio sobre os reinos do mundo (4, 8-10); foi sobre um monte que Jesus proclamou as Bem-aventuranças (5, 1ss.); foi sobre um monte que aconteceu a Transfiguração (7, 1). Agora, sobre um monte, o Ressuscitado manifesta-se aos seus e revela-lhes que o Pai Lhe deu todo o poder «no Céu e na Terra» (v. 17).
    Jesus confia aos Apóstolos a missão, que é a missão universal da Igreja. Promete-lhes a sua presença perene: «Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos» (v. 20). A senhoria universal do Ressuscitado é a fonte donde brota a missão universal da Igreja: «ir e ensinar todos os povos», «fazer discípulos todos os povos». Mas o Senhor não deixa a Igreja só nesta missão longa e difícil. Ele está com eles como guia, apoio, purificação, luz. Está com eles para apoiar a sua obediência ao Pai e o seu amor activo para com todos.

    Meditatio

    A leitura da Carta aos Gálatas, na memória dos Mártires do Japão, leva-nos a confrontar-nos, mais uma vez, com o «evangelho de Deus» (Rm 1, 1), convidando-nos a renovar a nossa opção por Cristo em todas as situações da nossa vida: na alegria, no sofrimento, no êxito, no fracasso... «a vida que agora tenho na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim» (Gal 2, 20). O testemunho dos Mártires Japoneses e das suas comunidades cristãs é Palavra e conforto para nós, os crentes, e é anúncio e luz transformadora para a humanidade. A vida nasce da vida que se gasta, que se faz dom. Nos fundamentos da Igreja está o sangue e a fidelidade, isto é, o amor. A Igreja nasce do ágapedivino e vive dele. O ágape é o princípio vital da sua existência e da sua acção, que o irradia e comunica.
    O evangelho faz brotar a gratidão e o louvor, porque leva a tocar com mão a realização do mandato confiado a por Cristo ressuscitado aos seus. A Igreja contempla-O nas terras do Japão, onde o Espírito abriu corações e mentes e agregou novos membros ao novo povo. Todos, com efeito, «são admitidos à mesma herança, membros do mesmo Corpo e participantes da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho». É com este coração apaixonado que também nós queremos ver o homem e a sociedade de hoje. Abertos a todos, dados a todos.
    As comunidades cristãs envolvem o mundo no amor de Cristo crucificado, atestam o senhorio de Cristo, a universalidade do mandato e do amor do Pai, e são, por sua vez, seu ícone entre os homens porque são membros do seu corpo, animados pelo mesmo Espírito.

    Oratio

    Pai santo, nós Te bendizemos e damos graças porque és o autor e dador de todos os bens. Hoje, queremos particularmente agradecer-Te pelo testemunho dos nossos irmãos mártires. À imitação de Cristo, teu Filho, derramaram o seu sangue pela confissão do teu nome. A sua vida é conforto, apoio e luz para nós. Neles manifestas as maravilhas do teu poder. Neles tiras força da fraqueza humana e fazes da fragilidade testemunho da tua grandeza.
    O nosso espírito emudece de espanto na contemplação destes mártires crucificados como o teu Filho e por causa d´Ele. Por sua intercessão, queremos pedir-Te força e coragem para prosseguirmos a nossa peregrinação terrena na fidelidade ao teu amor, mesmo quando tivermos de participar na paixão do teu Filho Jesus. Infunde em nós a sabedoria da cruz e ajuda-nos para aderirmos totalmente a Cristo e com Ele cooperarmos na redenção do mundo. Amen.

    Contemplatio

    Esperando a glória dos céus, os perseguidos experimentam já uma alegria íntima sobre a terra. É uma recompensa da graça divina. «Vêem o fruto do que as suas almas sofreram, diz-nos o profeta, e são assim saciados» (Is 53, 2). É a alegria íntima do apostolado e o triunfo do sofrimento e do sacrifício: «O meu servo é justo e pelo ensino da sua doutrina tornará justo um grande número de homens...Dar-lhe-ei em partilha uma multidão de discípulos; vencerá os seus inimigos e partilhará os seus despojos» (Is 53, 11-12). Isto aplica-se ao Salvador e àqueles que propagam o seu reino. A salvação das almas! Que recompensa consoladora pelas lágrimas derramadas, pelas fadigas suportadas, pelas perseguições sofridas e pelo ódio do mundo!... Seguindo a Jesus, que levou a cruz com alegria, com os apóstolos e os mártires, que louvam a Deus nas perseguições, levemos generosamente a nossa cruz quotidiana. - O Coração de Jesus ama a cruz redentora: o meu coração esperou o opróbrio e a vergonha (Sl 68). Amemos a nossa cruz de cada dia, o trabalho, a fadiga, a humildade, a obscuridade. Suportemos com uma doce paciência as incomodidades da vida comum e as provações que a Providência nos envia. (Leão Dehon, OSP 4, p. 61s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a Palavra do Senhor:
    «Já não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim» (Gal 2, 20).

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    S. Paulo Miki e Companheiros (6 Fevereiro)

  • As cinco Chagas do Senhor

    As cinco Chagas do Senhor


    7 de Fevereiro, 2026

    O culto das Cinco Chagas do Senhor, isto é, das feridas que recebeu na cruz e manifestou aos Apóstolos depois da Ressurreição, foi impulsionado por S. Bernardo, e encontrou sentida e profunda adesão no povo português, desde os começos da nacionalidade. Luís de Camões, nos Lusíadas, faz eco dessa devoção (I, 7). Prestando culto às Chagas do Redentor, é para Jesus Cristo que se dirige a nossa adoração, para quem nos amou até à morte e morte de cruz (cf. Fl 2, 8). A contemplação das Chagas do Senhor deu particular atenção ao Lado aberto, conduzindo os místicos medievais e posteriores à contemplação do Coração trespassado, a mais viva expressão do seu amor. Essa contemplação move-nos espontaneamente à correspondência, "amor com amor se paga".

    Lectio

    Primeira leitura: Isaías 53, 1-10

    Quem acreditou no nosso anúncio?A quem foi revelado o braço do Senhor? 2O servo cresceu diante do Senhor como um rebento, como raiz em terra árida, sem figura nem beleza. Vimo-lo sem aspecto atraente,  3desprezado e abandonado pelos homens, como alguém cheio de dores, habituado ao sofrimento, diante do qual se tapa o rosto, menosprezado e desconsiderado.  4Na verdade, ele tomou sobre si as nossas doenças, carregou as nossas dores. Nós o reputávamos como um leproso, ferido por Deus e humilhado. 5Mas foi ferido por causa dos nossos crimes, esmagado por causa das nossas iniquidades. O castigo que nos salva caiu sobre ele, fomos curados pelas suas chagas.  6Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas perdidas, cada um seguindo o seu caminho. Mas o Senhor carregou sobre ele todos os nossos crimes.7Foi maltratado, mas humilhou-se e não abriu a boca, como um cordeiro que é levado ao matadouro, ou como uma ovelha emudecida nas mãos do tosquiador. 8Sem defesa, nem justiça, levaram-no à força. Quem é que se preocupou com o seu destino? Foi suprimido da terra dos vivos, mas por causa dos pecados do meu povo é que foi ferido.  9Foi-lhe dada sepultura entre os ímpios, e uma tumba entre os malfeitores, embora não tenha cometido crime algum, nem praticado qualquer fraude. 10Mas aprouve ao Senhor esmagá-lo com sofrimento, para que a sua vida fosse um sacrifício de reparação. Terá uma posteridade duradoura e viverá longos dias, e o desígnio do Senhor realizar-se-á por meio dele.

    O quarto cântico do Servo de Javé é um dos momentos mais altos da revelação do Antigo Testamento. Nele encontramos uma interpretação da história de Israel como expiação vicária e redentora do resto em favor de toda a comunidade judaica e de todos os povos da terra. Tudo isto se realiza plenamente em Cristo, membro eminente da comunidade dos que foram salvos, dos Pobres de Israel, do Resto, dos Fiéis. Os evangelistas, inspirados por Deus, leram os acontecimentos da vida de Jesus de Nazaré à luz deste misterioso Servo de que fala o profeta. Jesus é o Servo fiel e sofredor, o "homem das dores" que nos salvou. As suas Chagas são o testemunho mais eloquente do amor, com que realizou a sua intervenção em favor do povo de Deus.

    Segunda leitura: João 19, 28-37

    Naquele tempo, sabendo Jesus que tudo se consumara, para se cumprir totalmente a Escritura, disse: «Tenho sede!» 29Havia ali uma vasilha cheia de vinagre. Então, ensopando no vinagre uma esponja fixada num ramo de hissopo, chegaram-lha à boca. 30Quando tomou o vinagre, Jesus disse: «Tudo está consumado.» E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.31Como era o dia da Preparação da Páscoa, para evitar que no sábado ficassem os corpos na cruz, porque aquele sábado era um dia muito solene, os judeus pediram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados. 32Os soldados foram e quebraram as pernas ao primeiro e também ao outro que tinha sido crucificado juntamente. 33Mas, ao chegarem a Jesus, vendo que já estava morto, não lhe quebraram as pernas. 34Porém, um dos soldados traspassou-lhe o peito com uma lança e logo brotou sangue e água. 35Aquele que viu estas coisas é que dá testemunho delas e o seu testemunho é verdadeiro. E ele bem sabe que diz a verdade, para vós crerdes também. 36É que isto aconteceu para se cumprir a Escritura, que diz: Não se lhe quebrará nenhum osso. 37E também outro passo da Escritura diz: Hão-de olhar para aquele que trespassaram.

    Depois de tudo o que aconteceu na paixão, a sede de Jesus é completamente natural. Mas João na se limita a esse fato. Para ele, a sede de Jesus significa a sua intensa tendência para Deus. O Sl 63, 1 ajuda-nos a compreender a sede de Jesus crucificado: "Ó Deus! Tu és o meu Deus! Anseio por ti! A minha alma tem sede de ti!". O clamor de Jesus era uma oração. Para João, Jesus recitava o salmo 63.
    Jesus morre como verdadeiro cordeiro pascal. É por isso que o evangelista fixa a sua morte no dia e na hora em que, no templo, eram sacrificados os cordeiros que, no dia seguinte, eram comidos na ceia pascal.
    Do seu Lado aberto "saiu sangue e água". Isto é possível fisiologicamente. Mas, para João, mais uma vez, o que interessa é o símbolo do acontecimento: do Lado de Cristo, morto na cruz, brotam os sacramentos da Igreja: a Eucaristia e o Batismo.
    Os homens "hão-de olhar para Aquele que trespassaram", e aqueles que neste olhar de fé, se converterem receberão a água misteriosa do Espírito de Deus. Com o seu sacrifício, o Cordeiro Pascal libertou o seu Povo do pecado. As suas Chagas não são sinais de derrota, mas de triunfo.

    Meditatio

    Nas Chagas do Senhor, particularmente na do seu Lado aberto, contemplamos o caminho do amor de Deus até nós e o nosso caminho de amor até Ele. S. Agostinho realça bem este caminho nos seus discursos: "Cristo é a porta. Esta porta foi aberta para ti quando o Seu Lado foi aberto pela lança. Recorda-te do que saiu e escolhe por onde entrar". Percorrendo este caminho de amor, chegamos à devoção ao Coração de Jesus. Foi este o caminho de Santa Margarida Maria. Desde pequena, teve uma afetuosa devoção à Paixão de Cristo e às cinco Chagas, atraindo particularmente a sua atenção a chaga do Lado. Finalmente, a convite de Jesus, fez a descoberta do Coração, reconhecido como símbolo da Pessoa amante do Redentor. Foi este, também, o caminho "místico" do Pe. Dehon. No "Ano com o Coração de Jesus", escreve: "O profeta não disse: "Verão Aquele que trespassaram", mas "Voltarão o olhar para dentro d'Aquele que trespassaram" ("Videbunt in quem transfixerunt") (Jo 19, 37 - Vulgata). S. João aplica estas palavras à abertura do Lado de Jesus, ao próprio Coração de Jesus que pôde entrever através da chaga do lado aberto...". Para além de todas as questões críticas de tal leitura e interpretação bíblica, a verdade é que "ver em alguém" e muito mais do que "ver alguém". Uma coisa é conhecer uma pessoa só externamente, outra é conhecê-la na sua interioridade e intimidade. O Pe. Dehon fala deste olhar íntimo também na Vida de amor... E põe na boca de Jesus as seguintes palavras: "Eu sou, de verdade, nos mistérios da Minha Paixão, um livro escrito por dentro e por fora (cf. Ap 5, 1) e o que aí está escrito é o Meu amor... Não vos contenteis em ler e admirar esta divina escritura somente do lado de fora, mas penetrai até ao Meu Coração e vereis". E, nas "Coroas de amor"... "Leiamos e voltemos a ler este livro de amor do Coração de Jesus, devoremos este livro de amor que é o próprio amor e, quando ardermos de amor, a nossa oblação será facilmente generosa, pronta, sem cedências". Deste modo, o Pe. Dehon faz eco a S. João: "Hão-de olhar para Aquele que trespassaram" (19, 37); isto não é só uma profecia, é uma exortação, um convite, porque do mistério do Lado aberto (e do Coração Trespassado do Salvador), "nasce o homem de coração novo" (Cst 2-3). "Com S. João, vemos no Lado aberto do Crucificado o sinal do amor que, na doação total de Si mesmo, recria o homem segundo Deus" (Cst 21). Assim contemplamos o Trespassado, no ato supremo da Redenção, não como os israelitas contemplavam a serpente de bronze, elevada no deserto, para curar as mordeduras das serpentes, mas penetramos na realidade suprema do Seu amor, no Seu Coração trespassado, e acolhemos o seu apelo à oblação, à reparação, à imolação, à consolação, àquele "culto de amor e de reparação que o Seu Coração deseja", que nos torna criaturas de coração novo.

    Oratio

    Rezemos com o P. Dehon: "Meu Senhor e meu Deus! Quero tirar nas vossas chagas a bebida da salvação. Sede condescendente comigo como foste com S. Tomé. Emprestai-me as vossas mãos e os vossos pés para que aí cole os meus lábios. Tenho tanta necessidade de forças. Ousarei mesmo aproximar-me do vosso Coração para daí tirar o arrependimento e o fervor. Perdoai-me!" (OSP 2, p. 296).

    Contemplatio
    Jesus aparece no meio dos apóstolos, na sua majestade e na sua bondade. Intervém para curar Tomé das suas dúvidas. Pax vobis! A paz esteja convosco, diz. É a saudação habitual de Jesus aos seus amigos, saudação afetuosa e verdadeiramente eficaz. Tomé com dificuldade ousa acreditar nos seus olhos. Está perturbado. É sobretudo para ele que Jesus aparece hoje. Vem cumprir um milagre moral, a mudança das disposições de Tomé, e é pelas suas cinco chagas que Jesus quer fazer este milagre. Dirige-se, de seguida, a Tomé: «Vem, diz-lhe, coloca o teu dedo aqui, vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado», neste lado aberto pela lança e onde se sente bater o mais amável dos corações, - «e não sejas incrédulo, mas fiel». Os apóstolos observam e aguardam. Tomé vai levar mais longe a incredulidade e tocar as chagas do Salvador? Não, coloca-se de joelhos, e exclama: «Meu Senhor e meu Deus!». Nosso Senhor tinha respondido diretamente às palavras de dúvida que tinha formulado. Nada o podia impressionar mais. Aqui está o começo da devoção às cinco chagas, que preludia à do Sagrado Coração. Nosso Senhor tinha querido mostrar-nos a eficácia das suas chagas. Têm um enorme papel na mística cristã. São as fontes misteriosas pelas quais correu o sangue redentor. Estavam figuradas nas fontes do paraíso terrestre, que levavam a toda a parte a fecundidade e a alegria. Foram profetizadas por Isaías: «Bebereis nas fontes do Salvador». Aparecem no Apocalipse sob a forma das fontes que correm sob os pés do Cordeiro divino. Foram reproduzidas nos membros benditos de alguns santos, como S. Francisco de Assis e santa Catarina de Sena. São o objeto de uma das devoções tradicionais da Igreja. (L. Dehon, OSP 3, p. 295s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "Meu Senhor e meu Deus!" (Jo 20, 28).

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    As cinco Chagas do Senhor (07 Fevereiro)

  • 05º Domingo do Tempo Comum - Ano A [atualizado]

    05º Domingo do Tempo Comum - Ano A [atualizado]

    8 de Fevereiro, 2026

    ANO A

    5.º Domingo do Tempo Comum

    Tema do 5.º Domingo do Tempo Comum

    Para que vivemos? Qual o sentido da nossa vida? Como devemos marcar a nossa passagem pela terra? Que “obras” devemos fazer? A Palavra de Deus do 5.º Domingo do Tempo Comum propõe-nos respostas para estas questões. Desafia-nos a ser “luz” que brilha e que ilumina o mundo com as cores de Deus.

    Na primeira leitura um profeta anónimo do séc. VI a.C. convida os habitantes de Jerusalém a serem uma luz de Deus que ilumina a noite do mundo. Como? Oferecendo a Deus o espetáculo de uma religião feita de rituais vazios e desligados da vida? Não. Ser “luz de Deus” passa por partilhar o pão com os famintos, ficar do lado dos injustiçados, cuidar daqueles que ninguém cuida, ser testemunha da misericórdia e da bondade de Deus junto daqueles que sofrem.

    No Evangelho, Jesus recorre a duas metáforas para definir os contornos da missão que vai confiar aos seus discípulos. Os que integram a comunidade do Reino de Deus devem ser “sal da terra” e “luz do mundo”. Com as suas “boas obras”, os discípulos de Jesus devem “dar sabor” à vida e fazer desaparecer as sombras que trazem sofrimento à vida dos seus irmãos.

    Na segunda leitura o apóstolo Paulo convida os cristãos de Corinto a agarrarem-se à “sabedoria de Deus” e a prescindirem da “sabedoria do mundo”. A salvação do homem não vem das palavras bonitas, dos sistemas filosóficos bem elaborados ou das qualidades humanas dos arautos da mensagem salvífica; mas vem do amor de Deus, expresso naquela cruz onde o Filho de
    Deus ofereceu a vida e nos deixou a lição do amor até ao extremo. Paulo é testemunha privilegiada dessa mensagem: viver a partir da “loucura da cruz” é que dá sentido pleno à vida do homem.

     

    LEITURA I – Isaías 58, 7-10

    Eis o que diz o Senhor:
    «Reparte o teu pão com o faminto,
    dá pousada aos pobres sem abrigo,
    leva roupa ao que não tem que vestir
    e não voltes as costas ao teu semelhante.
    Então a tua luz despontará como a aurora
    e as tuas feridas não tardarão a sarar.
    Preceder-te-á a tua justiça
    e seguir-te-á a glória do Senhor.
    Então, se chamares, o Senhor responderá,
    se O invocares, dir-te-á: “Aqui estou”.
    Se tirares do meio de ti a opressão,
    os gestos de ameaça e as palavras ofensivas,
    se deres do teu pão ao faminto
    e matares a fome ao indigente,
    a tua luz brilhará na escuridão
    e a tua noite será como o meio-dia».

     

    CONTEXTO

    Nos capítulos 56 a 66 do livro de Isaías (o “Trito-Isaías”) temos uma coleção de textos, provavelmente de autores diversos, redigidos em Jerusalém na época pós-exílica. Os biblistas designam esta coleção com o nome geral de “Trito-Isaías”. O poema que a liturgia deste quinto domingo comum nos apresenta como primeira leitura pertence a essa coleção.

    Em 538 a.C. o rei persa Ciro, depois de conquistar a Babilónia, autorizou os exilados judeus a regressar a Jerusalém. Alguns puseram-se imediatamente a caminho. Chegaram a Jerusalém cheios de entusiasmo; mas rapidamente ficaram desiludidos… A cidade estava destruída; o domínio persa recordava aos retornados que não eram livres. As profecias sobre a reconstrução de Jerusalém – que o Deutero-Isaías (cf. Is 40-55) tinha oferecido aos exilados quando ainda estavam na Babilónia – não se tinham concretizado. A intervenção definitiva de Deus para restabelecer as glórias passadas e para oferecer ao seu povo um futuro de vida abundante tardava em chegar.

    No universo religioso de Jerusalém parece haver, por esta altura, uma forte tensão entre dois “partidos” ligados à vida cultual. De um lado, está o sacerdócio sadoquita (da linha de Sadoc, sacerdote do tempo de Salomão), que incluía sacerdotes recém-retornados do exílio na Babilónia, convencidos de que tinham sido provados e perdoados pelas suas faltas. Mantinham boas relações com o poder persa, estavam decididos a fazer valer os seus direitos e privilégios e pretendiam ser eles a definir as coordenadas do culto oficial. Do outro lado está o sacerdócio levítico, que incluía sacerdotes que se tinham mantido sempre em Jerusalém, presidindo à vida cultual da cidade durante os anos que tinha durado o Exílio. Tinham uma visão mais “democrática”, mais pragmática, menos “oficial” e legalista da fé. Os autores do texto que, neste domingo, nos é proposto como primeira leitura pertencem, provavelmente, a este último grupo.

    O capítulo 58 – de onde é tirado o nosso texto – apresenta-se como uma reclamação de Deus contra o Povo. Nessa reclamação, há dois temas: a denúncia de um culto vazio e estéril, que cumpre as leis externas, mas que não sai do coração nem tem a necessária correspondência na vida (cf. Is 58,1-12); e o respeito pela santidade do sábado (cf. Is 58,13-14).

    A propósito do culto vazio e sem correspondência na vida aborda-se a questão do jejum (a raiz “jejuar” aparece sete vezes ao longo do capítulo). Como é que Deus vê a questão do jejum, uma das traves-mestras da vivência judaica da fé (cf. Ex 34,28; Lv 16,29.31; Jz 20,26; 2Sm 12,16-17; 1Rs 21,27; Esd 8,21; Est 4,16; Dn 9,3)? Qual é como é o jejum que agrada a Deus?

     

    MENSAGEM

    O “jejum” é, no universo religioso vétero-testamentário, um ato religioso. Pela prática do jejum o crente expressa, diante de Deus, a humildade, a entrega, o amor. Privar-se de alimentos significa, neste contexto, que o fiel está disposto a renunciar ao próprio egoísmo, a humilhar-se, a purificar-se, a converter-se a Deus, a obedecer a Deus, a entregar-se nas mãos de Deus, a acolher a ação e os dons de Deus.

    Os habitantes de Jerusalém também utilizavam este recurso da piedade tradicional. Esperavam, com os seus repetidos jejuns, agradar a Deus e obter a intervenção de Deus para que tudo lhes corresse bem (cf. Is 58,2). Contudo, perante a falta de resposta de Deus, insurgem-se e dizem: “para quê jejuar, se Deus não faz caso? Para quê humilhar-nos, se Deus não nos presta atenção?” (Is 58,3).

    Deus, através do profeta, responde-lhes: “no dia do vosso jejum só cuidais dos vossos negócios e oprimis todos os vossos empregados. Jejuais entre rixas e disputas, dando bofetadas sem dó nem piedade. Não jejueis como tendes feito até hoje, se quereis que a vossa voz seja ouvida no alto” (Is 58,3b-4). Isto significa que o jejum misturado com a exploração dos pobres e com violências de toda a ordem torna-se um simples ato externo sem significado, uma farsa piedosa que proclama coisas que não se sentem e não se vivem. Naturalmente, estes jejuns não podem agradar a Deus. São uma mentira. Não chegam ao céu, ao coração de Deus (cf. Is 58,5).

    Qual seria o “jejum” que Deus aceitaria e que Lhe agradaria (vers. 6)? A resposta de Deus aponta para o cumprimento dos deveres morais e humanos, para a libertação dos oprimidos, para a eliminação da injustiça, da violência e dos gestos de ameaça (cf. Is 58,6).

    O texto que a liturgia deste domingo nos oferece como primeira leitura começa precisamente aqui. Deus, definindo o “jejum” autêntico, o jejum que Lhe agrada, pede que se reparta o pão com os pobres (cf. Is 58,7.10) e que se cancelem definitivamente a opressão, a injustiça, a violência, os gestos de ameaça (cf. Is 58,9b). Trata-se de viver segundo os compromissos assumidos no âmbito da Aliança, obedecendo aos mandamentos e às indicações de Deus. Só então o culto fará sentido e será expressão de amor a Deus; só então Deus voltará o seu coração e o seu rosto para o povo, virá ao encontro de Judá e caminhará com o seu povo (“então, se chamares, o Senhor responderá, se o invocares, dir-te-á: ‘aqui estou’” – Is 58,9a). Vivendo de acordo com as indicações de Deus, Judá será uma luz que brilha no meio do mundo; e as feridas que o Exílio e o pecado deixaram na alma do povo ficarão definitivamente curadas (cf. Is 58,8).

    Deus não está interessado numa religião feita de liturgias solenes, de gestos teatrais vazios de significado. Javé chamou Israel, libertou-o da escravidão, fez com ele uma Aliança, enviou-lhe os profetas para que ele fosse uma luz de Deus a brilhar entre as nações. Ora, é através de gestos concretos, sinceros, justos, compassivos, saídos de corações que amam Deus e obedecem aos seus mandamentos, que o povo de Deus testemunhará no mundo a bondade, a misericórdia e o amor de Deus.

     

    INTERPELAÇÕES

    • O que é que Deus pretende de nós? Qual o papel que Ele nos destina no seu plano salvador? A estas perguntas poderão ser dadas múltiplas respostas. Uma das mais belas e mais desafiantes aparece nas palavras do Trito-Isaías que escutamos hoje: Deus pretende que sejamos uma luz que brilha na noite do mundo e que aponta aos homens o caminho que leva à vida verdadeira. Sim, é uma boa resposta. Mas, como poderemos ser essa luz? Oferecendo a Deus rituais litúrgicos majestosos, que sejam expressão (mesmo que deslavada) da grandeza e da omnipotência de Deus? É oferecendo ao mundo o espetáculo de uma religião que se exprime em gestos e palavras carregados de história e de tradição, mas herméticos e incompreensíveis para os homens e mulheres que se movem à margem dos caminhos da fé? Ouçamos, outra vez, o Trito-Isaías: seremos luz de Deus no mundo se partilharmos o nosso pão com os famintos, se ficarmos do lado dos injustiçados, se cuidarmos daqueles que ninguém cuida, se formos testemunhas da misericórdia e da bondade de Deus junto daqueles que sofrem. Dessa forma, todos nos verão e todos entenderão o nosso testemunho. Como é que vemos tudo isto? Como vivemos e expressamos a fé que nos anima?
    • A história atual do nosso mundo está a ser escrita no meio de infinitas sombras… A cada instante, a guerra e a violência semeiam a morte e desumanizam agressores e agredidos; a cada momento há homens e mulheres humildes e bons, que não fazem mal a ninguém, mas que veem as suas vidas destruídas pela prepotência, pela injustiça e pela arrogância dos poderosos; a cada passo multiplicam-se os sinais de indiferença para com os sofredores, os frágeis, os que não têm pão, os que não têm casa, os que são obrigados a procurar num país estranho um futuro viável; a cada hora são maiores as feridas que deixamos na natureza, explorada e saqueada pelo nosso egoísmo e pela nossa ganância; a cada instante há mais homens e mulheres que não encontram lugar à mesa onde a humanidade come e que são abandonados nas bermas dos caminhos… Talvez estas “sombras” existam porque nós nos entrincheiramos atrás das portas do nosso egoísmo e não cuidamos de ser luz que brilha no mundo. Em concreto, o que podemos fazer para que o nosso mundo se torne menos sombrio? O que é que Deus nos estará a pedir para fazer neste momento da história do mundo?

     

    SALMO RESPONSORIAL – Salmo 111 (112)

    Refrão 1: Para o homem reto nascerá uma luz no meio das trevas.

    Refrão 2: Aleluia.

    Brilha aos homens retos, como luz nas trevas,
    o homem misericordioso, compassivo e justo.
    Ditoso o homem que se compadece e empresta
    e dispõe das suas coisas com justiça.

    Este jamais será abalado;
    o justo deixará memória eterna.
    Ele não receia más notícias:
    seu coração está firme, confiado no Senhor.

    O seu coração é inabalável, nada teme;
    reparte com largueza pelos pobres,
    a sua generosidade permanece para sempre
    e pode levantar a cabeça com altivez.

     

    LEITURA II – 1 Coríntios 2, 1-5

    Quando fui ter convosco, irmãos,
    não me apresentei com sublimidade de linguagem ou de sabedoria
    a anunciar-vos o mistério de Deus.
    Pensei que, entre vós, não devia saber nada
    senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado.
    Apresentei-me diante de vós cheio de fraqueza e de temor
    e a tremer deveras.
    A minha palavra e a minha pregação
    não se basearam na linguagem convincente da sabedoria humana,
    mas na poderosa manifestação do Espírito Santo,
    para que a vossa fé não se fundasse na sabedoria humana,
    mas no poder de Deus.

     

    CONTEXTO

    Corinto, a capital da província romana da Acaia, era uma cidade cosmopolita e próspera, de população heterogénea. Na época neotestamentária, devia ter à volta de meio milhão de habitantes, dos quais dois terços eram escravos. Servida por dois portos de mar – um virado para ocidente, outro para oriente – era a cidade onde a cada momento desembarcavam marinheiros chegados de todos os portos do Mediterrâneo, ávidos de prazeres depois de semanas passadas no mar. Os mais diversos cultos religiosos estavam ali representados. Mas a grande referência religiosa de Corinto era Afrodite, a deusa do amor, da beleza, da sexualidade e da fertilidade, em cujo templo se praticava a prostituição sagrada.

    Paulo chegou a Corinto por volta do ano 50, no decurso da sua segunda viagem missionária, depois de ter passado por Tessalónica, Bereia e Atenas. Instalou-se na cidade e começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de judeo-cristãos há pouco chegado de Roma. Ao sábado Paulo frequentava a sinagoga e aí falava aos judeus sobre Jesus. No entanto, o apóstolo não tardou a entrar em choque com os líderes da comunidade judaica da cidade. Expulso da sinagoga (cf. At 18,6), Paulo decidiu dedicar-se à evangelização dos pagãos. O apóstolo permaneceu em Corinto cerca de dezoito meses (entre os anos 50 e 52). Quando deixou a cidade, já havia em Corinto uma comunidade cristã numerosa e entusiasta.

    Mesmo fisicamente afastado da comunidade, Paulo não perdeu o contacto com os seus queridos filhos de Corinto. Mais tarde, durante a sua terceira viagem missionária (anos 53-58), possivelmente quando estava em Éfeso, Paulo recebeu notícias alarmantes sobre a comunidade. Após a sua partida de Corinto, tinha aparecido na cidade um pregador cristão – um tal Apolo, judeu de Alexandria, convertido ao cristianismo. Era eloquente, versado nas Escrituras e foi de grande utilidade para a comunidade na polémica com os judeus. Formaram-se partidos na comunidade (embora, segundo parece, Apolo não favorecesse essa divisão): uns admiravam Paulo, outros Cefas (Pedro), outros Apolo (cf. 1 Co 1,12). Os cristãos de Corinto, ainda imbuídos de uma mentalidade pagã, transplantaram para a comunidade o esquema das escolas filosóficas gregas, cada uma com os seus mestres e os seus adeptos. Neste quadro, multiplicavam-se as divisões, os conflitos, as discussões que deixavam feridas abertas na comunidade. Mais grave ainda: o cristianismo corria o risco de deixar de ser o seguimento de Jesus Cristo, para se tornar uma proposta de “saber” cuja validade dependia do poder de sedução dos mestres que “vendiam” aos próprios adeptos as suas ideias.

    Neste contexto, Paulo recorda aos coríntios que a “sabedoria humana” não salva nem realiza plenamente o homem. A realização plena do homem está em Jesus Cristo e na “loucura da cruz”. No entanto, como é que a salvação e a realização plena do homem podem manifestar-se nessa estranha história de um Deus condenado à fragilidade, que morre na cruz como um maldito? Para demonstrar que os caminhos de Deus são diferentes dos caminhos dos homens e que Deus pode agir através da fraqueza humana, Paulo apresenta dois exemplos. No primeiro Paulo refere o caso da própria comunidade de Corinto: os cristãos que compõem a comunidade são gente pobre e débil, muitos deles na situação de escravos; mas, apesar disso, Deus chamou-os a serem testemunhas da sua salvação no mundo (cf. 1Co 1,26-31). No segundo (é precisamente esse exemplo que a segunda leitura deste domingo nos apresenta), Paulo refere o seu próprio caso.

     

    MENSAGEM

    Paulo foi enviado por Deus a anunciar o Evangelho de Jesus na cidade de Corinto. Quer enquanto evangelizador, quer enquanto ser humano, Paulo desenvolveu a missão que lhe foi confiada apoiando-se apenas em Deus, sabendo que não podia contar muito com as suas próprias forças e com as suas poucas qualidades.

    Como evangelizador (vers. 1-2), Paulo não se apresentou com palavras grandiosas, com discursos sublimes, com filosofias elaboradas e coerentes; mas apresentou-se com toda a simplicidade para anunciar o paradoxo de um Deus frágil, que morreu numa cruz rejeitado por todos. Ora, apesar das poucas qualidades humanas do evangelizador, em Corinto nasceu uma comunidade cristã motivada e comprometida, cheia de força e de fé.

    Como homem (vers. 3-5), Paulo apresentou-se em Corinto consciente da sua fraqueza, assustado e cheio de temor. Não foi, portanto, pela sedução da sua personalidade arrebatadora, pelas suas “brilhantes” qualidades de pregador, nem pelo brilho e coerência da sua exposição ou do seu pensamento que os coríntios se sentiram atraídos por Jesus e pelo Evangelho.

    Qual foi, então, a razão pela qual os coríntios aderiram à proposta de Jesus, humildemente apresentada por Paulo?

    Os coríntios abraçaram a fé – uma fé “difícil” de “engolir”, porque se baseia no estranho caso de um Deus que morre na cruz para dar vida aos homens – porque a força de Deus se impõe, muito para além dos limites do homem que apresenta a proposta ou do ouvinte que a escuta. O Espírito de Deus está sempre presente e age no coração dos crentes, de forma que eles não se fiquem pelos esquemas da sabedoria humana, mas se deixem tocar pela sabedoria de Deus.

    Os coríntios devem ter claro que a salvação não vem da sabedoria do homem, das palavras bonitas do homem, ou das qualidades do homem; a salvação vem de Deus, vem desse amor de Deus mostrado aos homens naquela cruz onde Jesus ofereceu a vida. A “loucura da cruz” manifesta a “sabedoria de Deus”. É nessa loucura e nessa sabedoria que os coríntios devem apostar, pois é aí que está a chave da salvação e da plena realização do ser humano.

     

    INTERPELAÇÕES

    • Em meados do séc. I, os cristãos de Corinto procuravam encher de sentido as suas vidas correndo atrás daquilo a que o apóstolo Paulo chamava a “sabedoria do mundo”. Os belos discursos, os argumentos construídos com lógica inatacável, a fascínio dos sistemas filosóficos bem construídos seduziam-nos e mantinham-nos agarrados a valores perecíveis. Dois mil anos depois, ainda continuamos a funcionar numa lógica semelhante: colocamos a nossa esperança e a nossa segurança no progresso científico, nas conquistas da medicina, nos sistemas económicos, nas promessas dos políticos, nas ideologias, nos discursos sedutores dos manipuladores da opinião pública, até mesmo na publicidade que nos promete por preços módicos a realização de todos os nossos sonhos… Nada disso seria especialmente grave se não nos fechasse num mundo de autossuficiência que nos afasta de Deus e da salvação que Ele nos oferece. Onde é que a “sabedoria do mundo” nos leva? A prescindir de Deus e dos seus dons? A uma vida virada apenas para os valores efémeros? Conseguiremos dar pleno sentido à nossa vida e saciar a nossa sede de eternidade simplesmente correndo atrás da “sabedoria do mundo”?
    • À “sabedoria do mundo” Paulo contrapõe a “sabedoria de Deus”. A “sabedoria de Deus pode parecer algo de estranho e de incongruente à luz da nossa lógica humana; mas ela é, segundo o apóstolo Paulo, fonte de vida verdadeira e eterna. O que aconteceu com Jesus aponta exatamente nesse sentido: Ele aceitou prescindir das suas prerrogativas divinas, desceu até nós, assumiu a nossa humanidade, experimentou a nossa fragilidade, solidarizou-se connosco e partilhou as nossas dores, enfrentou corajosamente a injustiça e a maldade, foi condenado e sofreu uma morte maldita; mas, da Sua entrega brotou vida nova que inundou o mundo e transformou a história dos homens. Jesus mostrou-nos uma coisa que, mesmo depois de dois mil anos, ainda temos dificuldade em entender: o amor até às últimas consequências, o serviço aos outros, a vida “dada” até ao extremo, a renúncia a si próprio, são fonte de vida. Quem vive dessa forma não fracassa, não passa ao lado da vida, não é um vencido; quem vive dessa forma dá sentido pleno à sua existência. O que vale para nós a “sabedoria de Deus”? É a partir dela que construímos o nosso projeto de vida?
    • O apóstolo Paulo – um homem limitado, que não possuía as qualidades humanas que os coríntios apreciavam nem o brilho arrebatador dos grandes “sedutores” de massas – é a prova provada de uma realidade mil vezes repetida na história da salvação: a força de Deus revela-se na fraqueza, na fragilidade, na pequenez. Deus escolhe o que é fraco para confundir os fortes. Ele aproxima-se de nós em “pezinhos de lã”, sem nos assustar com a exibição da sua grandeza, e transforma o mundo e a história através de gente “improvável”, de gente que não figura entre os grandes do mundo. Estamos conscientes disto? Somos capazes de reconhecer a presença e a ação de Deus em tantas pessoas simples e bondosas que, sem darem nas vistas, iluminam o mundo e acrescentam humanidade à história dos homens? Uma vez conscientes do método de Deus para intervir na história dos homens, não percebemos como são ridículas e descabidas as nossas poses de importância, de autoridade, de protagonismo, de exibicionismo?
    • Aqueles que têm responsabilidade no anúncio do Evangelho devem sempre ter presente que a eficácia da Palavra que anunciam não depende deles e que o êxito da missão não resulta das suas qualidades pessoais ou das técnicas sofisticadas postas ao serviço da evangelização: somos todos instrumentos humildes, através dos quais Deus concretiza o seu projeto de salvação para o mundo… Temos consciência de que, para além do nosso esforço, da nossa entrega, da nossa doação, das nossas técnicas, está o Espírito de Deus que potencia e torna eficaz a Palavra que anunciamos?

     

    ALELUIA – João 8, 12

    Aleluia. Aleluia.

    Eu sou a luz do mundo, diz o Senhor:
    quem Me segue terá a luz da vida.

     

    EVANGELHO – Mateus 5, 13-16

    Naquele tempo,
    disse Jesus aos seus discípulos:
    «Vós sois o sal da terra.
    Mas se ele perder a força, com que há de salgar-se?
    Não serve para nada,
    senão para ser lançado fora e pisado pelos homens.
    Vós sois a luz do mundo.
    Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte;
    nem se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire,
    mas sobre o candelabro,
    onde brilha para todos os que estão em casa.
    Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens,
    para que, vendo as vossas boas obras,
    glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus».

     

    CONTEXTO

    Depois de nos dizer quem é Jesus (Mt 1,1-2,23) e de definir a sua missão (cf. Mt 3,1-4,11), Mateus vai mostrar-nos como Jesus concretiza a missão que o Pai Lhe confia (cf. Mt 4,12-18,35). No centro de tal missão está o anúncio de uma realidade a que Jesus chama o “Reino de Deus”. Esse anúncio é feito com palavras e com gestos.

    As palavras de Jesus sobre o Reino de Deus ocupam um espaço bem significativo no Evangelho de Mateus. O evangelista agrupou a maior parte das palavras – ou “ditos” – de Jesus em cinco discursos (cf. Mt 5-7; 10; 13; 18; 24-25). É provável que o autor do primeiro Evangelho visse nesses cinco discursos uma nova Lei, destinada a substituir a antiga Lei dada por Deus ao seu povo, o “ensinamento” que Israel recebeu na montanha do Sinai e guardou nos cinco livros da Tora (Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio).

    O primeiro desses discursos de Jesus é conhecido como o “sermão da montanha” (cf. Mt 5-7). Reúne um importante conjunto de palavras de Jesus que Mateus ordenou e apresentou com a intenção de oferecer à sua comunidade as coordenadas fundamentais da proposta cristã. O evangelista vê, no “sermão da montanha”, um novo código ético, uma nova Lei, que supera e substitui a antiga Lei dada por Deus ao seu Povo.

    Mateus situa este discurso de Jesus no cimo de um monte não identificado. Em qualquer caso, a indicação geográfica não é inocente: lembra-nos a montanha da Lei (o Sinai), o cenário em que Deus deu a antiga Lei a Israel. Agora é Jesus que, também numa montanha, oferece ao novo Povo de Deus uma nova Lei; e essa Lei irá orientar a vida de todos os que se propõem fazer parte da comunidade do Reino de Deus.

    O “sermão da montanha” começa com as “bem-aventuranças” – um elenco dos valores fundamentais que devem ser assumidos para todos os interessados em seguir Jesus e em integrar a comunidade do Reino de Deus (cf. Mt 5,1-12). Mas Jesus não se fica por aí: completa o exórdio do “sermão da montanha” com duas parábolas (ou “ditos”) que indicam a missão daqueles que estão dispostos a viver segundo o espírito das “bem-aventuranças”.

     

    MENSAGEM

    O que é que Jesus espera dos seus discípulos? Esse grupo de gente pobre e pouco influente que aceita viver segundo o espírito das “bem-aventuranças” não se irá diluindo irremediavelmente no meio do vasto império romano, sem conseguir contagiar o mundo com a proposta que recebeu de Jesus? Jesus acredita que, apesar da grandeza da tarefa e da hostilidade do mundo, os membros da comunidade do Reino poderão “fazer a diferença”. Di-lo através de duas imagens simples, audazes e surpreendentes: “vós sois o sal da terra”, “vós sois a luz do mundo”.

    A metáfora do sal é muito expressiva (vers. 13). O sal tornou-se, para nós, um elemento tão normal e barato que não o valorizamos convenientemente. Mas, na antiguidade, era algo bem precioso, de tal forma que os soldados romanos chegavam a receber o seu soldo pago em sal (o “salário”). Servia, antes de mais, para “dar sabor” aos alimentos: transformava alimentos insípidos em alimentos saborosos (cf. Jb 6,6). O sal também era usado para a conservação dos alimentos, para assegurar a sua incorruptibilidade. Nesse sentido, usava-se a imagem do sal para significar o valor durável de um contrato: uma “aliança de sal” (Nm 18,19) queria dizer “um contrato duradouro”, imperecível, não afetado pela corrupção dos elementos (cf. 2Cr 13,5). Também era habitual colocar-se uma placa de sal nos fornos de terra como substância capaz de catalisar o calor. Com o tempo, essa placa ia perdendo a sua capacidade catalisadora, ficando esse sal inutilizado. Jesus poderia estar a referir-se a isto quando falou do sal que se desvirtua e deixa de poder ser utilizado para o fim que se pretendia.

    É bem provável que, com a imagem do “sal”, Jesus tivesse em vista todos estes significados. Ele queria dizer que os seus discípulos são chamados a trazer ao mundo essa “qualquer coisa mais” que o mundo não tem e que dá sabor à vida dos homens; pretendia dizer também que, da fidelidade dos discípulos ao programa enunciado por Jesus (as “bem-aventuranças”), depende a perenidade da Aliança entre Deus e os homens e a permanência do projeto salvador e libertador de Deus no mundo; pretendia ainda dizer que os seus discípulos têm como missão aquecer o mundo com a verdade do Evangelho.

    Se, no entanto, os discípulos se recusarem a ser “sal” e se demitirem das suas responsabilidades, o mundo ficará privado dos dons de Deus; continuará a conduzir-se por critérios de egoísmo, de injustiça, de violência, de perversidade, e estará cada vez mais distante da realidade do Reino que Jesus veio propor. Nesse caso, com o seu desleixo, com a sua preguiça, com a sua recusa em cumprir a missão que lhes foi confiada, os discípulos terão defraudado gravemente o projeto de Deus e as esperanças dos homens.

    A metáfora da luz (vers. 14-16), por sua vez, era bem conhecida no judaísmo. Jesus explicita-a através de duas imagens.

    A primeira (a da cidade situada sobre um monte, que não pode se ocultada) leva-nos a Is 60,1-3, onde se fala da “luz” de Deus que devia brilhar sobre Jerusalém e, a partir de lá, alumiar todos os povos. A interpretação judaica de Is 60,3 (“as nações caminharão à tua luz, e os reis ao esplendor da tua aurora”) aplicava a frase a Israel: o Povo de Deus devia ser o reflexo da luz libertadora e salvadora de Javé diante de todos os povos da terra (cf. Is 58,7-10). A segunda imagem (a da lâmpada colocada sobre o candelabro, a fim de alumiar todos os que estão em casa) repete e explicita a mensagem da primeira; mas sublinha especialmente uma coisa: esconder a luz de Deus priva o mundo de uma referência de que os homens precisam. É possível que haja ainda nestas duas imagens, uma referência ao “Servo de Javé” de Is 42,6 e 49,6, o profeta cuja missão consiste em ser, com a sua entrega e o seu testemunho, a “luz das nações”.

    No Evangelho de João, quem é apresentado como “a luz” é Jesus (“Eu sou a luz do mundo. Quem Me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” – Jo 8,12; cf. Jo 9,1-41). Ora, os discípulos – os que aderem a Jesus e são iluminados pela luz de Jesus – participam da mesma missão que Jesus tinha. Os que vivem segundo o espírito das “bem-aventuranças” e aderem ao Reino de Deus são, como Jesus, uma luz que ilumina o mundo e aponta caminhos aos homens. De acordo com Mateus, a luz que eles recebem de Jesus deve manifestar-se, não apenas em belas palavras, mas também nas “boas obras” que praticam e que testemunham o amor, a bondade, a ternura, a misericórdia de Deus. Essas “boas obras” são, provavelmente, aquelas que Mateus apresenta na segunda parte das “bem-aventuranças” (cf. Mt 5,7-11): a “misericórdia, a “pureza de coração”, a construção da paz, a luta pela justiça.

    Dessa forma, a comunidade do Reino, o novo povo de Deus, será a “nova Jerusalém”, a “cidade santa”, a partir da qual a luz de Deus brilha sobre as nações. Essa luz elimina as sombras do mundo e faz irradiar sobre todos os povos a proposta salvadora de Deus.

    A “visibilidade” que Jesus pede aos discípulos não significa, contudo, que eles devam procurar lugares privilegiados, onde podem exibir-se diante do mundo e conquistar aplausos, benefícios e recompensas; significa, simplesmente, que eles devem desempenhar a sua missão profética sem interrupção, deixando a cada momento ao mundo e aos homens as interpelações e os desafios de Deus. De resto, a vida de Deus manifesta-se na fraqueza, na humildade, na simplicidade, na pequenez.

     

    Vivendo como “sal da terra” e “luz do mundo”, os discípulos de Jesus serão fermento de uma nova humanidade. Com as suas “boas obras”, anunciarão o mundo que há de vir, o mundo de Deus, esse mundo novo de vida e de felicidade sem fim que espera todos aqueles que acolhem a salvação que Deus oferece.

     

    INTERPELAÇÕES

    • Para que vivemos, cinquenta, setenta, noventa, cem anos? Que marca deixamos no mundo e na memória daqueles que se cruzam connosco no caminho da vida? A nossa ação e intervenção tem vindo a acrescentar alguma coisa à história dos homens? O que é que determina o êxito ou o fracasso da nossa existência? A nossa realização passará apenas por viver o mais comodamente possível, com um mínimo de complicações, de aborrecimentos e de contrariedades? As coisas corriqueiras e fúteis, a mediocridade e a banalidade, as diversões e os bens materiais, os prazeres e as satisfações efémeras, os triunfos e os aplausos, bastarão para dar sentido à nossa vida e para saciar a nossa sede de felicidade? Nós que encontramos Jesus, que acolhemos o seu chamamento e que nos apaixonamos pelo seu projeto, em que moldes construímos a nossa existência de forma que ela faça pleno sentido?
    • Jesus convida os seus discípulos a serem “sal da terra”. É uma imagem expressiva e desafiante. O sal serve, sobretudo, para dar sabor aos alimentos. Vivemos num mundo cada vez mais insípido, onde tudo é feito à medida da nossa pressa (até mesmo a “comida de plástico”), do nosso comodismo, do nosso egoísmo, da nossa instalação, da nossa alienação, da nossa dificuldade em assumir compromissos exigentes. Buscamos uma existência indolor e evitamos tudo aquilo que exige sacrifício, renúncia, esforço, entrega, verdadeira dedicação. “Sermos sal” seria, neste contexto, não termos medo do que é difícil, estarmos disponíveis para servir e para “curar” as feridas dos irmãos magoados pelas vicissitudes da vida, envolvermo-nos sem medo na luta contra as injustiças, gastarmos tempo a cuidar daqueles que ninguém quer e que ninguém ama, semearmos bondade e compaixão na vida daqueles que são marginalizados e condenados pelas sociedades ou pelas igrejas, darmos testemunho da bondade e do amor de Deus em todos os lados onde a vida nos levar. Estamos disponíveis para “fazer a diferença”, como o sal faz quando se mistura com os alimentos e faz sobressair o seu sabor?
    • Jesus também pediu aos seus discípulos que fossem “luz do mundo” e que brilhassem diante dos homens. Mais de dois mil anos depois, o pedido de Jesus continua a fazer sentido. Apesar de todas as nossas conquistas e de todos os nossos êxitos, são muitas as sombras que escurecem o mundo e que obrigam os homens a perderem-se em caminhos sem saída, a tropeçarem no medo e no desespero, a ficarem prisioneiros de frivolidades e bagatelas, a não acertarem com o sentido da existência, a permanecerem parados no erro, a caminharem às apalpadelas sem vislumbrar uma luz no fundo do túnel. Os seguidores de Jesus, iluminados pela luz que d’Ele brota e pela verdade do Evangelho, são chamados a dissipar, com as suas “boas obras”, as sombras que cobrem o mundo; são enviados por Jesus a apontar aos homens os caminhos luminosos que conduzem à vida verdadeira. Aceitamos o convite de Jesus para sermos testemunhas da luz? A luz de Deus brilha no mundo através das nossas boas obras?
    • Durante muitos séculos vigorou um modelo de organização social e política conhecido como “regime de cristandade”: a filosofia e os valores do cristianismo permeavam e governavam todas as esferas da sociedade, incluindo as leis, as instituições, os costumes e as relações entre a Igreja e o Estado. A Igreja exercia uma influência dominante, que ia além do domínio espiritual, moldando a totalidade da vida social e cultural. Entretanto, os tempos mudaram. Atualmente já não existe esse modelo. Os seguidores de Jesus estão mais diluídos na massa e têm menos visibilidade. Por outro lado, uma boa parte da sociedade parece menos interessada nos valores propostos por Jesus. Poderão ainda os discípulos de Jesus, neste novo cenário, serem “sal da terra” e “luz do mundo”? Jesus não hesitou em pedir isso ao seu pequeno grupo de discípulos quando eles eram um grupo ridiculamente insignificante no vasto e hostil império romano. Ele sabia que a força de Deus é capaz de se manifestar na fraqueza e na pequenez. Como nos sentimos quando somos chamados a dar testemunho de Jesus no meio dos nossos irmãos que seguem modelos diferentes dos nossos? Deixamo-nos dominar pelo desânimo, ou contagiamos os que nos rodeiam com a nossa paixão por Jesus?
    • Para que o sal possa cumprir o seu papel, tem de ser misturado com os alimentos; para que uma luz possa iluminar “todos os que estão em casa”, não pode estar escondida debaixo do alqueire. Tudo isto parece-nos demasiado evidente. Mas temos sempre tirado daí as consequências que se impõem? Há entre nós quem, desagradado com a indiferença ou até mesmo a hostilidade do mundo, ache que a comunidade de Jesus deve fechar-se ao mundo, condenar o mundo e “cortar relações” com uma sociedade que não entende a proposta cristã. Poderemos ser “sal da terra” e “luz do mundo” fechados dentro das nossas igrejas ou dos espessos muros dos nossos conventos, limitados a atirar condenações lá para fora? Poderemos alhear-nos dos problemas e angústias, alegrias e esperanças dos homens, renunciando a contagiar o mundo com a proposta de Jesus? Uma Igreja que gasta todas as energias com os seus solenes rituais litúrgicos ou com a arrumação harmoniosa do calendário paroquial poderá dar sabor à vida moderna e oferecer aos homens a luz genuína do Evangelho?

     

    ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 5.º DOMINGO DO TEMPO COMUM

     

    1. A liturgia meditada ao longo da semana.

    Ao longo dos dias da semana anterior ao 5.º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo…

    Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa…

     

    1. Vós sois a luz do mundo.

    Há quinze dias as leituras apontavam para Deus como Luz das nações. Neste domingo, apontam para nós mesmos, que devemos viver como filhos da luz, isto é, portadores da claridade de Deus. Eis uma proposta (a adaptar pelos que preparam a liturgia): no momento da abertura da liturgia da Palavra, acendem-se algumas lamparinas, em silêncio, perto do lugar da Palavra; antes da profissão de fé, o sacerdote – ou outra pessoa – entrega-as a alguns membros da assembleia que avançam para o lugar da Palavra e mantêm as lamparinas na mão até ao momento da preparação do Pão e do Vinho, em que vão colocar as lamparinas sobre o altar.

     

    1. Oração na lectio divina.

    Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

     

    No final da primeira leitura:

    Deus de luz, nós Te bendizemos: Quando te chamamos, Tu responde “Eis-me aqui”, nos encontros e na presença dos nossos irmãos e irmãs.

    Nós Te pedimos pelos famintos e pelos infelizes sem abrigo, mas sobretudo pelas missões que nos confias. Enche-nos do teu Espírito de generosidade. Que Ele nos abra as mãos para a partilha e nos inspire palavras de esperança e de coragem.

     

    No final da segunda leitura:

    Nós Te damos graças, Pai todo-poderoso, pelo teu Filho Jesus Cristo, o Messias crucificado, que transformou a cruz em passagem para a vida.

    Nós Te pedimos: purifica-nos das sabedorias ilusórias e das doutrinas contrárias ao Evangelho; pelo teu Espírito, fortifica a nossa fé, faz-nos aderir ao teu Filho, porque só a Ele queremos conhecer.

     

    No final do Evangelho:

    Pai Nosso que estais nos céus, nós Te damos glória pela luz que entrou no nosso mundo, manifestada no teu Filho Jesus, e pela multidão dos fiéis que caminharam no seguimento da luz, fazendo o bem.

    Nós Te pedimos por todas as nossas assembleias cristãs: que elas deem sabor à nossa humanidade e sejam a luz que brilha para o nosso mundo.

     

    1. Oração Eucarística.

    Pode-se escolher a Oração Eucarística II para as Missas da Reconciliação.

     

    1. Palavra para o caminho.

    “Sal da terra”. As nossas vidas têm gosto? E que gosto? O gosto da partilha, do acolhimento, da misericórdia, da caridade, como nos convida Isaías? Têm o sabor de Cristo ressuscitado? Se sim, as nossas vidas terão gosto para nós mesmos e para os outros… tornar-se-ão “Luz diante dos homens”. Que assim seja em mais uma semana!

     

    1. Semana do Consagrado.

    Termina neste domingo a celebração da Semana do Consagrado, tempo para rezar, refletir e deixar-se interpelar por esta vocação a que muitos são chamados. A Semana incluiu a Festa do Apresentação do Senhor, a 2 de fevereiro, dia em que, por decisão de João Paulo II desde 1997, se celebra o Dia do Consagrado. Quem quiser continuar a viver os dinamismos desta Semana, que são de sempre e para sempre, pode utilizar os subsídios para oração e reflexão que se encontram na net (www.cirp.pt).

     

    UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
    PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA

    Grupo Dinamizador:
    José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
    Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
    Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
    www.dehonianos.org

     

  • S. Cirilo, Monge e S. Metódio, Bispo, Padroeiros da Europa

    S. Cirilo, Monge e S. Metódio, Bispo, Padroeiros da Europa


    14 de Fevereiro, 2026

    Os Santos Cirilo e Metódio nasceram em Salónica, na primeira metade do século IX. Bizantinos de formação, tornaram-se apóstolos dos povos eslavos, na Morávia, atuais repúblicas Checa e Eslovaca, e na Panónia, atual Croácia. Para eles, traduziram A Bíblia e os livros litúrgicos para a língua paleoeslava, e reuniram discípulos. As suas iniciativas missionárias foram aprovadas pelo Papa Adriano II. Entretanto, Cirilo adoeceu, acabando por morrer na cidade, e sendo sepultado na igreja de S. Clemente. Metódio, ordenado bispo, regressou à Morávia, falecendo aí no ano de 885. Os seus discípulos, expulsos do país, refugiaram-se na Bulgária. Daí a liturgia e a literatura eslava passaram para o reino de Kiev, na Rússia e para todos os países eslavos de rito bizantino.

    Lectio

    Primeira leitura: Atos 13, 46-49

    Naqueles dias, Paulo e Barnabé disseram aos judeus: «Era primeiramente a vós que a palavra de Deus devia ser anunciada. Visto que a repelis e vós próprios vos julgais indignos da vida eterna, voltamo-nos para os pagãos,47pois assim nos ordenou o Senhor: Estabeleci-te como luz dos povos, para levares a salvação até aos confins da Terra.»48Ao ouvirem isto, os pagãos encheram-se de alegria e glorificavam a palavra do Senhor; e todos os que estavam destinados à vida eterna abraçaram a fé.49Assim, a palavra do Senhor divulgava-se por toda aquela região.

    Os pagãos escutaram com interesse e entusiasmo Paulo e Barnabé, o que suscitou a inveja e os ciúmes dos Judeus contra os missionários, que são insultados e rejeitados. E dá-se a separação entre o Evangelho e o Judaismo. Os Judeus eram os primeiros destinatários da Boa Nova. Uma vez que a rejeitaram, ela é oferecida aos pagãos, que a aceitam. Nesse contexto, Barnabé e Paulo declaram que vão passar a dirigir-se aos pagãos, baseando a sua dercisão, não só na rejeição dos Judeus, mas também nas palavras da Escritura que falam da luz das nações (Is 49, 6). Quem acolher o Evangelho e abraçar a fé torna-se herdeiro das promessas, seja judeu ou pagão. Fica destinado à "vida eterna" (v. 48).

    Evangelho: Lucas 10, 1-9

    Naquele tempo, o Senhor designou outros setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois, à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. 2Disse-lhes:«A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe.3Ide! Envio-vos como cordeiros para o meio de lobos. 4Não leveis bolsa, nem alforge, nem sandálias; e não vos detenhais a saudar ninguém pelo caminho.5Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: 'A paz esteja nesta casa!' 6E, se lá houver um homem de paz, sobre ele repousará a vossa paz; se não, voltará para vós. 7Ficai nessa casa, comendo e bebendo do que lá houver, pois o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa.8Em qualquer cidade em que entrardes e vos receberem, comei do que vos for servido, 9curai os doentes que nela houver e dizei-lhes: 'O Reino de Deus já está próximo de vós.'

    Além dos Apóstolos, fundamento da missão da Igreja, Jesus escolheu outros setenta e dois discípulos e enviou-os a pregar a Boa Nova. Ao longo dos séculos escolheu muitos outros. Foi o caso de Cirilo e Metódio, enviados a missionar os povos eslavos. Quem acolhe o Reino, sente a necessidade de o anunciar. Por isso, a missão é tarefa de todos os batizados. Isso, todavia, não impede que alguns sejam particularmente destinados a pregar que Deus salva, isto é, que o seu "Reino está no meio de nós". O reino vem como "paz". Por isso, é dever dos missionários invocar a paz de Deus sobre as casas e cidades onde vão. A palavra de Jesus assegura ao missionário a possibilidade da sua mensagem ser ouvida. Mas, quando surgem perseguições, os missionários não têm outro caminho senão o de Jesus, isto é, o que leva à morte, como supremo testemunho do Evangelho.

    Meditatio

    S. Cirilo e S. Metódio sentiram a urgência de levar a salvação para fora das fronteiras do mundo helénico, tal como Paulo e Barnabé tinham sentido a necessidade de levar a Boa Nova para fora das fronteiras do mundo judaico. Isaías falava de Boa Nova e de um movimento centrípto de todos os povos em direção a Jerusalém. No evangelho o movimento é inverso. Jesus envia os discípulos para todo o mundo: "Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura... Eles, partindo, foram pregar por toda a parte." (Mc 16, 15.20). São duas dinâmicas diferentes: Isaías pensa em Jerusalém como centro do mundo, para onde devem acorrer todos os povos, e subir ao monte do Senhor, que a todos atrai. No Novo Testamento, o centro do mundo já não é Jerusalém, mas o corpo de Cristo ressuscitado, misteriosamente presente onde estão os seus discípulos. É aí que encontram a unidade todos os que acreditam em Jesus.
    S. Cirilo e S. Metódio partiram para meio dos eslavos, apesar das dificuldades das viagens e, sobretudo, do problema que era evangelizar povos que não pertenciam à cultura grega e latina. Estes santos foram verdadeiramente pioneiros naquilo que hoje se chama a "inculturação", isto é, em traduzir a fé para a cultura dos povos a evangelizar, sem querer impôr a própria cultura. Traduziram a Bíblia e os textos litúrgicos para eslavo. Esse atrevimento valeu-lhes ser denunciados em Roma pelos missionários latinos. Tiveram que rumar à cidade eterna, e explicar-se às autoridades. Felizmente foram compreendidos pelo Papa Adriano II, que aprovou o seu método missionário.
    Hoje, é questão pacífica que, uma coisa é a fé e outra a cultura, que são realidades separáveis, que a fé deve radicar nas diversas culturas como fermento que as impregna de Evangelho. Mas o mesmo se deve pensar em relação à diferentes gerações: em cada geração a fé deve ser expressa de modo novo. A fé, com efeito, é um fermento de vida que tem de crescer e encontrar novas formas de progresso. Temos de aprender a ir ao encontro dos outros, e não obrigá-los a uniformizar-se com os nosso costumes, ou àquilo que pensamos ser melhor. Há que ir aos outros como Jesus veio até nós, isto é, fazendo-se homem e aceitando tudo o que é humano para se fazer entender por nós, e poder introduzir-nos na sua intimidade.
    O P. Dehon recebeu "a graça e a missão de enriquecer a Igreja com um Instituto religioso apostólico que vivesse da sua inspiração evangélica" (Cst 1). A mística oblativa-reparadora, inspirada pela contemplação do Coração trespassado de Cristo, levou-o a viver uma espiritualidade profundamente sacerdotal e eucarística, e a empenhar-se num apostolado característico onde a atividade missionária tem um lugar importante. Essa atividade tem de ser devidamente insculturada entre os povos, "para que a comunidade humana, santificada pelo Espírito, se torne uma oblação agradável a Deus" (Cst 30. 31).

    Oratio

    Resplandeça sobre nós, Senhor, a luz incorrutível da tua sabedoria. Abre-nos os olhos da mente, para podermos entender os teus preceitos evangélicos. Que, desprezados os desejos carnais, possamos levar uma vida verdadeiramente espiritual, pensando e fazendo o que é do teu agrado. Nós to pedimos por intercessão dos Santos Cirilo e Metódio. Ámen.

    Contemplatio

    Jesus percorria as cidades e as vilas da Galileia, anunciando a boa nova e curando os doentes; mas não podia acorrer tudo sozinho e ao ver todo este povo sofrendo e abatido, foi tomado de compaixão, e disse aos discípulos: «A messe é grande, peçamos ao divino Mestre para lhe enviar operários», depois chamou os seus doze apóstolos e enviou-os dois a dois para pregarem com o poder de expulsarem os demónios e de curarem os doentes... Nosso Senhor indica aos apóstolos três condições requeridas para o sucesso da sua missão. A primeira é o espírito de desinteresse. «Recebestes gratuitamente, dai gratuitamente». Que os vossos ouvintes vejam que não é por ganho, mas pela salvação das almas e pela felicidade dos homens que trabalhais. A segunda é o desapego das coisas da terra e o amor da santa pobreza: «Não leveis convosco nem ouro nem provisões». A terceira é a mais inteira confiança nos cuidados e na proteção da divina Providência: «O trabalhador tem direito ao seu alimento». Estas condições são ainda hoje as do sucesso. (L. Dehon, OSP 4, p. 267s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "Rogai ao dono da messe
    que mande trabalhadores para a sua messe" (Lc 10, 2).

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    S. Cirilo, Monge e S. Metódio, Bispo, Padroeiros da Europa (14 Fevereiro)

  • 06º Domingo do Tempo Comum - Ano A [atualizado]

    06º Domingo do Tempo Comum - Ano A [atualizado]

    15 de Fevereiro, 2026

    ANO A

    6.º Domingo do Tempo Comum

    Tema do 6.º Domingo do Tempo Comum

    Como devemos responder à oferta de salvação que Deus nos faz? A liturgia do sexto domingo comum propõe-nos algumas respostas. Entre as diversas considerações que as leituras nos trazem, sobressai esta: somos chamados por Deus a um destino transcendente, a uma vocação sublime, a uma felicidade completa e eterna; não podemos, por desleixo, por comodismo, por falta de compromisso, ignorar uma proposta que nos garante a vida em plenitude.

    Na segunda leitura, o apóstolo Paulo apresenta o plano salvador de Deus (aquilo a que ele chama a “sabedoria de Deus” ou o “mistério”). É um projeto que Deus preparou desde sempre “para aqueles que o amam”, que esteve oculto aos olhos dos homens, mas que Jesus Cristo revelou com a sua pessoa, com as suas palavras, com os seus gestos e, sobretudo, com o dom da sua vida até ao extremo. Na cruz onde Jesus entregou a vida vemos – ao vivo e a cores – o amor que Deus tem por nós; nesse amor descobrimos o caminho que leva à salvação, à nossa plena realização.

    A primeira leitura diz-nos, no entanto, que somos livres de escolher entre as propostas de Deus (que conduzem à vida e à felicidade) e a nossa autossuficiência (que conduz, quase sempre, à morte e à desgraça). Para aqueles que escolhem a vida, Deus oferece-lhes os seus “mandamentos”: são os “sinais” que mostram o caminho da salvação.

    No Evangelho, Jesus pede aos seus discípulos – àqueles que aceitam a oferta da salvação que Ele traz e se dispõem a caminhar com Ele – que não se limitem a “serviços mínimos”, isto é, ao cumprimento da letra da “Lei”, mas adiram a Deus de todo o coração e busquem a vontade do Pai com paixão, com entusiasmo, com total compromisso.

     

    LEITURA I – Ben Sirá 15, 16-21 (15-20)

    Se quiseres, guardarás os mandamentos:
    ser-lhe fiel depende da tua vontade.
    Deus pôs diante de ti o fogo e a água:
    estenderás a mão para o que desejares.
    Diante do homem estão a vida e a morte:
    o que ele escolher, isso lhe será dado.
    Porque é grande a sabedoria do Senhor,
    Ele é forte e poderoso e vê todas as coisas.
    Seus olhos estão sobre aqueles que O temem,
    Ele conhece todas as coisas do homem.
    Não mandou a ninguém fazer o mal,
    nem deu licença a ninguém de cometer o pecado.

     

    CONTEXTO

    O Livro de Ben Sirá (chamado, na sua versão grega, “Eclesiástico”) é um livro de carácter sapiencial que, como todos os livros sapienciais, tem por objetivo deixar aos aspirantes a “sábios” indicações práticas sobre a arte de bem viver e de ser feliz. O seu autor terá sido um tal Jesus Ben Sirá, um “sábio” israelita que viveu na primeira metade do séc. II a.C. (cf. Sir 51,30).

    A época de Jesus Ben Sirá é uma época conturbada para o Povo de Deus. Quando Alexandre da Macedónia morreu, em 323 a.C., o seu império foi dividido por duas famílias: os Ptolomeus e os Selêucidas. Inicialmente, a Palestina ficou nas mãos dos Ptolomeus; e, nos anos de domínio Ptolomeu, o Povo de Deus pôde, em geral, viver na fidelidade à sua fé e aos seus valores ancestrais. Em 198 a.C., contudo, depois da batalha de Pânias, a Palestina passou para o domínio dos Selêucidas (uma família descendente de Seleuco Nicanor, general de Alexandre). Os Selêucidas, sobretudo com Antíoco IV Epífanes, procuraram impor, por vezes pela força, a cultura helénica. Nesse contexto muitos judeus, seduzidos pelo brilho da cultura grega, abandonavam os valores tradicionais e a fé dos pais e assumiam comportamentos mais consentâneos com a “modernidade” e com a pressão exercida pelas autoridades selêucidas. A identidade cultural e religiosa do Povo de Deus corria, assim, sérios riscos… Jesus Ben Sirá, um “sábio” judeu apegado às tradições dos seus antepassados, entendeu desenvolver uma reflexão que ajudasse os seus concidadãos a manterem-se fiéis aos valores tradicionais. No livro que escreveu para esse efeito, Jesus Ben Sira apresenta uma síntese da religião tradicional e da “sabedoria” de Israel e procura demonstrar que é no respeito pela sua fé, pelos seus valores, pela sua identidade que os judeus podem descobrir o caminho seguro para serem um povo livre e feliz.

    Nos capítulos 14 e 15 do seu livro, Jesus Ben Sira reflete sobre a forma de encontrar a verdadeira felicidade. É nesse enquadramento que a primeira leitura deste domingo nos propõe: dirigindo-se aos seus concidadãos, seduzidos pela cultura grega, Ben Sira sugere-lhes o caminho da verdadeira sabedoria e convida-os a percorrê-lo.

     

    MENSAGEM

    De quem é a responsabilidade pelas más ações do homem? Qual a origem do pecado que desfeia o mundo e traz sofrimento e morte à vida do homem? E como é que Deus – o todo-poderoso, Aquele que é fonte de tudo e que tudo controla – se encaixa em tudo isto? Foi Deus que corrompeu o homem e o extraviou para que ele fizesse ações erradas? É sobre estas questões que a reflexão de Jesus Ben Sirá se debruça (cf. Sir 15,11-12).

    Ben Sirá conhece bem aquele belo poema sobre as origens que aparece em Gn 1. Ele sabe que Deus criou um “mundo bom” e o confiou ao cuidado do homem. Também sabe que, depois de mostrar ao homem os caminhos que devia percorrer para ter vida, Deus o deixou tomar as suas decisões. Deus criou o homem livre (cf. Sir 15,14-15).

    É aqui, precisamente, que encaixa o texto de Ben Sira que hoje nos é dado por primeira leitura. Para descrever a definição por Deus da liberdade do homem, Ben Sirá recorre à linguagem e aos conteúdos que a catequese de Israel popularizou.

    Há muito que os teólogos deuteronomistas falavam da opção que o homem tem de fazer entre “dois caminhos”. De um lado está o caminho da vida e da felicidade e do outro o caminho da morte e da desgraça. Essa é, para os catequistas de Israel, a grande questão que condiciona o sentido da vida do homem e o sentido da história: se o homem escolhe caminhos de orgulho e de autossuficiência, à margem de Deus e dos mandamentos, prepara para si e para a comunidade em que está inserido um futuro de morte e de desgraça; mas se o homem escolhe viver no “temor” de Deus e no respeito pelas propostas de Javé, então constrói para si e para o seu Povo um futuro de felicidade, de bem estar, de abundância, de paz. Esta doutrina é muito bem desenvolvida em Dt 30,15-20.

    Ben Sirá mantém a sua reflexão dentro dos mesmos parâmetros. Dirigindo-se aos israelitas tentados pelas propostas da cultura helénica, coloca-os diante das grandes lições da história: sempre que o povo respeita as indicações de Deus e vive de acordo com elas, constrói uma sociedade fraterna, livre, solidária, onde todos têm o que é necessário para viver de forma equilibrada e feliz; mas quando o Povo escolhe caminhos à margem de Javé e faz “orelhas moucas” às propostas de Deus, acaba por resvalar por caminhos de egoísmo, de injustiça, de exploração, de divisão, de ambição e, portanto, de sofrimento e de morte. Aliás, as grandes catástrofes que marcaram a história do povo, nomeadamente o exílio na Babilónia, resultaram de opções por caminhos à margem de Deus e dos seus mandamentos.

    Um pormenor particularmente relevante reside na convicção (aqui muito bem expressa) de que Deus respeita absolutamente a liberdade do homem. O homem não é, segundo Ben Sira, um títere nas mãos de Deus, ou um robot que Deus liga e desliga com um comando; mas é um ser livre, que faz as suas escolhas – escolhas que condicionam, necessariamente, o seu futuro – e que tem nas suas mãos o próprio destino. Deus indica ao homem os caminhos para chegar à vida e à felicidade; mas, depois, respeita absolutamente as opções que o homem faz. A opção pela vida e felicidade ou pela morte e desgraça é uma opção que resulta do livre-arbítrio do homem.

     

    INTERPELAÇÕES

    • É verdade que não nascemos todos iguais. Desde o primeiro instante da nossa existência o nosso caminho está marcado por fatores hereditários, pelo contexto familiar e social, pela condição económica e por outras variantes que irão ter influência no nosso desenvolvimento e no nosso enquadramento no mundo. Mas, apesar dessa “bagagem” que transportamos desde a nossa entrada no mundo, há uma realidade incontornável: nascemos livres e somos responsáveis pelo nosso destino. Jean Paul Sartre falava de sermos seres "condenados" à liberdade pois, embora não tenhamos escolhido nascer, a partir do momento em que somos lançados no mundo, tornamo-nos inteiramente responsáveis por todas as nossas escolhas e ações. A reflexão do sábio Ben Sirá que a primeira leitura deste domingo nos apresenta lembra-nos isso. “Condenados” à liberdade, assumimos o supremo desafio de escolher o nosso destino. Sentimos essa responsabilidade e procuramos responder ao desafio, ou passamos a vida a encolher os ombros e a deixar-nos ir na corrente, ao sabor das modas, das “ordens” dos influenciadores, dos interesses que nos governam? Demitimo-nos da nossa responsabilidade na definição do caminho que percorremos e aceitamos que sejam os outros a impor-nos os seus esquemas, os seus valores, a sua visão das coisas?
    • Entre as escolhas possíveis está, segundo Jesus Ben Sirá, um caminho que conduz à vida. De acordo com a catequese de Israel, encontra-se “vida” cumprindo a Lei dada por Deus. O caminho que conduz à vida e à felicidade é, portanto, o caminho que está balizado pelos mandamentos de Deus. Percorrer esse caminho implica confiar em Deus, acreditar que o seu interesse supremo é o bem dos seus queridos filhos. Quando um crente está certo da bondade e do amor de Deus, então não hesita em viver numa escuta permanente de Deus, num diálogo nunca acabado com Deus, numa descoberta contínua das propostas de Deus, numa obediência radical a Deus. As indicações de Deus não lhe soam como uma imposição de um Deus exigente, mas sim como os conselhos amorosos de um Pai que só quer o bem dos seus filhos. Estamos interessados em escolher o caminho que conduz à vida? Que importância damos, na definição das nossas prioridades e dos nossos valores fundamentais, aos mandamentos e às propostas de Deus?
    • De acordo com Ben Sirá, há uma outra escolha possível: o caminho que conduz à morte. É o caminho perigoso seguido por aqueles que escolhem o egoísmo, a autossuficiência, o orgulho, o isolamento em relação a Deus e às suas sugestões. Fechando-se em si próprio e ignorando deliberadamente as propostas de Deus, o homem acaba por privilegiar os seus interesses egoístas e por introduzir no mundo desequilíbrios que geram injustiça, miséria, exploração, sofrimento, violência e morte. Vemos isso acontecer todos os dias à nossa volta. De onde vêm as guerras, as divisões, os conflitos que todos os dias ameaçam a vida de tantos homens e mulheres inocentes? De onde vêm a ganância, a corrupção, a exploração dos mais fracos, os mecanismos de injustiça que roubam a vida e a dignidade a tantas pessoas? De onde vem a ganância que leva os poderosos a pilharem a natureza e a guardarem, para benefício próprio os recursos que pertencem a todos? O que será ainda necessário acontecer para percebermos que ignorar as indicações de Deus é um caminho que nos arrasta, inevitavelmente, em direção a um beco sem saída?
    • De onde vêm os males que sombreiam o caminho e a história dos homens? Resultarão da negligência de um Deus que “não quer saber” dos seus filhos? Serão castigos de Deus por nos termos portado mal e por termos escolhido caminhos inadequados? O problema do mal é complexo e não tem respostas simples. No entanto, a reflexão de Ben Sirá deixa-nos, desde logo, uma certeza: muitos dos males que desfeiam o mundo e que causam sofrimento aos homens provêm das escolhas erradas que fazemos. Deus não castiga, nem “inventa” males para nos travar; mas as nossas opções sem sentido podem resultar em dor e infelicidade para nós e para todos aqueles que caminham ao nosso lado. Se, no exercício da nossa liberdade, escolhermos ignorar as indicações de Deus e avançar por caminhos sem sentido, poderemos atribuir a Deus as culpas pelo dano que isso nos traz?

     

    SALMO RESPONSORIAL – Salmo 118 (119)

    Refrão: Ditoso o que anda na lei do Senhor.

    Felizes os que seguem o caminho perfeito
    e andam na lei do Senhor.
    Felizes os que observam as suas ordens
    e O procuram de todo o coração.

    Promulgastes os vossos preceitos
    para se cumprirem fielmente.
    Oxalá meus caminhos sejam firmes
    na observância dos vossos decretos.

    Fazei bem ao vosso servo:
    viverei e cumprirei a vossa palavra.
    Abri, Senhor, os meus olhos
    para ver as maravilhas da vossa Lei.

    Ensinai-me, Senhor, o caminho dos vossos decretos
    para ser fiel até ao fim.
    Dai-me entendimento para guardar a vossa lei
    e para a cumprir de todo o coração.

     

    LEITURA II – 1 Coríntios 2, 6-10

    Irmãos:
    Nós falamos de sabedoria entre os perfeitos,
    mas de uma sabedoria que não é deste mundo,
    nem dos príncipes deste mundo,
    que vão ser destruídos.
    Falamos da sabedoria de Deus, misteriosa e oculta,
    que já antes dos séculos
    Deus tinha destinado para a nossa glória.
    Nenhum dos príncipes deste mundo a conheceu;
    porque se a tivessem conhecido,
    não teriam crucificado o Senhor da glória.
    Mas, como está escrito,
    «nem os olhos viram, nem os ouvidos escutaram,
    nem jamais passou pelo pensamento do homem
    o que Deus preparou para aqueles que O amam».
    Mas a nós Deus o revelou por meio do Espírito Santo,
    porque o Espírito Santo penetra todas as coisas,
    até o que há de mais profundo em Deus.

     

    CONTEXTO

    Corinto, capital da Província romana da Acaia, era uma cidade nova e muito próspera. Abrigava vários templos importantes, como o famoso templo de Apolo e o templo de Afrodite no topo da Acrópole, onde se praticava a prostituição sagrada. Disfrutando de uma localização geográfica vantajosa, entre o Mar Egeu e o Mar Jónico, tornou-se um centro comercial crucial para o transporte de mercadorias no Mediterrâneo. Servida por dois portos de mar (um que acolhia pessoas e mercadorias do ocidente e outro que recebia pessoas e mercadorias do oriente), possuía as características típicas das cidades marítimas: uma população de todas as raças e local onde estavam sediados todos os cultos e religiões. Além disso, Corinto era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após meses de navegação. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.

    Paulo passou pela primeira vez em Corinto durante a sua segunda viagem missionária (anos 50-52). Como resultado da pregação de Paulo, nasceu a comunidade cristã de Corinto. A maior parte dos membros da comunidade eram de origem grega, embora em geral, de condição humilde (cf. 1Co 11,26-29; 8,7; 10,14.20; 12,2); mas também havia elementos de origem hebraica (cf. At 18,8; 1Co 1,22-24; 10,32; 12,13). De uma forma geral, a comunidade era viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta (cf. 1Co 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1Co 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1Co 1,19-2,10).

    Paulo escreveu a sua primeira Carta aos Coríntios durante a sua terceira viagem missionária (anos 53-58), provavelmente quando estava em Éfeso. O apóstolo teve conhecimento de notícias que davam conta de problemas graves na comunidade de Corinto: divisões, conflitos e escândalos de vária índole. As divisões resultavam, em boa parte, do facto de os coríntios identificarem a experiência cristã com o mundo das escolas filosóficas gregas. As diversas figuras de referência da comunidade cristã eram vistas, pelos cristãos de Corinto, como mestres que propunham caminhos diversos para se chegar à plenitude da sabedoria e da realização humana. Sendo assim, cada crente escolhia o seu “mestre” e aderia ao “caminho” por ele proposto. Os discípulos desses vários mestres empenhavam-se em demonstrar a excelência e a superior sabedoria do mestre escolhido.

    Paulo procura, então, demonstrar aos coríntios que entre os cristãos não há senão um mestre, que é Jesus Cristo; e a experiência cristã não é a busca de uma filosofia que abra ao discípulo as portas da sabedoria, pelo menos dessa sabedoria humana que os gregos buscavam. O caminho cristão é a adesão a Cristo crucificado, o Cristo do amor e do dom da vida. N’Ele manifesta-se, de forma humanamente desconcertante, mas plena e definitiva, a força salvadora de Deus. É em Cristo e na sua cruz que os coríntios devem procurar a verdadeira sabedoria que conduz à vida eterna.

    Depois de denunciar a pretensão dos coríntios em encontrar nos homens a verdadeira proposta de sabedoria para chegar a uma vida plena, Paulo vai apresentar-lhes, de uma forma bem assertiva, a “sabedoria de Deus”.

     

    MENSAGEM

    Paulo não se apresentou aos coríntios na pele de um filósofo, capaz de lhes ensinar uma “sabedoria humana”, um sistema filosófico coerente. Ele veio ter com os coríntios por mandato de Deus e apresentou-lhes apenas a Boa Notícia de Jesus (“julguei não dever saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado” – 1Co 2,2). Não o fez com a linguagem dos sábios, dos filósofos, dos grandes oradores, mas com a convicção de quem se encontrou com Jesus, se apaixonou pela proposta de Jesus e decidiu colocar toda a sua vida ao serviço do Evangelho de Jesus. De resto, foi o Espírito Santo que fez o resto e que tornou possível que, a partir do testemunho de Paulo, a adesão dos coríntios ao Evangelho e o nascimento da Igreja de Corinto (cf. 1Co 2,4-5).

    Em qualquer caso, é verdade que Paulo ensinou aos cristãos de Corinto (os “perfeitos”) uma sabedoria; no entanto, trata-se de uma sabedoria que “não é deste mundo, nem dos príncipes deste mundo” (1Co 2,6). A sabedoria que Paulo propões aos coríntios é a “sabedoria de Deus”, da qual a cruz onde Jesus entregou a vida por amar é a expressão mais completa.

    Para Paulo, falar da “sabedoria de Deus” é falar do projeto de salvação que Deus preparou para a humanidade. Paulo refere-se a esse projeto recorrendo à palavra grega “mystêrion” (1Co 2,7; cf. Rm 16,25; Ef 1,9-10; 3,3.4.9; Col 1,26; 2,2; 4,3). Trata-se de um plano “que Deus preparou para aqueles que o amam” (1Co 2,9), no sentido de os levar à salvação, à vida plena. Esse plano resulta do amor e da solicitude de Deus pelos seus filhos, os homens. É um plano que o próprio Deus manteve oculto durante muitos séculos e só revelou através do seu Filho, Jesus Cristo. Aliás, antes de revelação feita através das palavras, dos gestos, da pessoa de Cristo, dificilmente os homens estariam preparados para compreender o alcance e a profundidade do plano divino, da “sabedoria de Deus”.

    Como podemos descrever o “mystêrion”? Deus escolheu-nos desde sempre e quis que nos tornássemos santos e irrepreensíveis, a fim de chegarmos à vida eterna, à felicidade total, à realização plena. Por isso, veio ao encontro dos homens, fez com eles uma Aliança, apontou-lhes, de mil formas, os caminhos que levam à vida. A certa altura, na plenitude dos tempos, Deus enviou ao mundo o seu próprio Filho, Jesus. Ele lutou contra o pecado e a maldade, venceu-os, inseriu os homens numa dinâmica de amor e de doação da vida. Na cruz de Jesus, está bem expressa esta história de amor que vai até ao ponto de o próprio Filho dar a vida por nós… Esse plano de salvação continua, agora, a acontecer na vida dos crentes pela ação do Espírito: é o Espírito que nos anima no sentido de nascermos, dia a dia, como homens novos, até nos identificarmos totalmente com Cristo.

    É desta forma que Paulo apresenta e define a “sabedoria de Deus”.

     

    INTERPELAÇÕES

    • Assim, “à vista desarmada”, não parece incrível que Deus se tenha dado a tanto trabalho e a um planeamento tão bem arquitetado para nos oferecer – a nós, pequenos grãos de pó perdidos num universo infinito – a possibilidade de chegarmos à vida eterna? Pensando bem, só o amor explica esta “aposta” de Deus. Para Deus, talvez não sejamos apenas pequenos grãos de pó sem significado, mas filhos muito queridos que Ele criou com amor e que Ele continua a amar profundamente, apesar da nossa fragilidade. Por isso, Deus não desiste de “salvar-nos”, de cuidar de nós, de nos mostrar os caminhos que conduzem à vida, de nos inserir na sua família. Ele tem passado toda a história a fazer isso: a oferecer-nos a possibilidade de caminharmos ao encontro de uma vida plena. Até mesmo quando Lhe viramos as costas, O ignoramos, escolhemos caminhos de orgulho e de autossuficiência, Ele continua a amar-nos a mostrar-nos como podemos chegar à felicidade verdadeira. O que é que isso nos sugere? Como sentimos este grande amor, esse infinito amor que Deus nos dedica? Como é que respondemos ao amor de Deus?
    • A “sabedoria humana” – que Paulo denuncia – não é necessariamente, à priori, algo mau. Só será algo mau se nos atirar para caminhos de orgulho, de vaidade, de autossuficiência. Ora, muitas vezes é precisamente isso que acontece. Convencidos da nossa importância e da excelência das nossas “qualidades”, julgamos que podemos bastar-nos a nós próprios. Afastamo-nos de Deus, ignoramos as suas propostas, construímos a nossa história de vida à volta dos nossos interesses, dos nossos motivos, das nossas convicções pessoais. Os “mandamentos” de Deus tornam-se, para nós, um empecilho que fazemos questão de ignorar. Achamos também que não precisamos dos outros. Tornamo-nos arrogantes com os nossos irmãos, desprezamo-los e fazemos com que o mundo gire apenas à nossa volta. Acabamos por nos encontrar em caminhos fechados, que não levam a lado nenhum. Não é aí que está a nossa salvação, não é dessa forma que chegaremos à realização plena, não é assim que daremos sentido à nossa vida. Como é que queremos viver?

     

    ALELUIA – cf. Mateus 11, 25

    Bendito sejais, ó Pai, Senhor do céu e da terra,
    porque revelastes aos pequeninos os mistérios do reino.

     

    EVANGELHO – Mateus 5,17-37

    Naquele tempo,
    disse Jesus aos seus discípulos:
    «Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas;
    não vim revogar, mas completar.
    Em verdade vos digo:
    Antes que passem o céu e a terra,
    não passará da Lei a mais pequena letra
    ou o mais pequeno sinal,
    sem que tudo se cumpra.
    Portanto, se alguém transgredir um só destes mandamentos,
    por mais pequenos que sejam,
    e ensinar assim aos homens,
    será o menor no reino dos Céus.
    Mas aquele que os praticar e ensinar
    será grande no reino dos Céus.
    Porque Eu vos digo:
    Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus,
    não entrareis no reino dos Céus.
    Ouvistes que foi dito aos antigos:
    ‘Não matarás; quem matar será submetido a julgamento’.
    Eu, porém, digo-vos:
    Todo aquele que se irar contra o seu irmão
    será submetido a julgamento.
    Quem chamar imbecil a seu irmão
    será submetido ao Sinédrio,
    e quem lhe chamar louco
    será submetido à geena de fogo.
    Portanto, se fores apresentar a tua oferta sobre o altar
    e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti,
    deixa lá a tua oferta diante do altar,
    vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão
    e vem depois apresentar a tua oferta.
    Reconcilia-te com o teu adversário,
    enquanto vais com ele a caminho,
    não seja caso que te entregue ao juiz,
    o juiz ao guarda, e sejas metido na prisão.
    Em verdade te digo:
    Não sairás de lá, enquanto não pagares o último centavo.
    Ouvistes que foi dito:
    ‘Não cometerás adultério’.
    Eu, porém, digo-vos:
    Todo aquele que olhar para uma mulher desejando-a,
    já cometeu adultério com ela no seu coração.
    Se o teu olho é para ti ocasião de pecado,
    arranca-o e lança-o para longe de ti,
    pois é melhor perder-se um dos teus membros
    do que todo o corpo ser lançado na geena.
    E se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado,
    corta-a e lança-a para longe de ti,
    porque é melhor que se perca um dos teus membros,
    do que todo o corpo ser lançado na geena.
    Também foi dito:
    ‘Quem repudiar sua mulher dê-lhe certidão de repúdio’.
    Eu, porém, digo-vos:
    Todo aquele que repudiar sua mulher,
    salvo em caso de união ilegal,
    fá-la cometer adultério.
    Ouvistes que foi dito aos antigos:
    ‘Não faltarás ao que tiveres jurado,
    mas cumprirás os teus juramentos para com o Senhor’.
    Eu, porém, digo-vos que não jureis em caso algum:
    nem pelo Céu, que é o trono de Deus;
    nem pela terra, que é o escabelo dos seus pés;
    nem por Jerusalém, que é a cidade do grande Rei.
    Também não jures pela tua cabeça,
    porque não podes fazer branco ou preto um só cabelo.
    A vossa linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’.
    O que passa disto vem do Maligno».

     

    CONTEXTO

    O evangelista Mateus leva-nos hoje, outra vez, até ao cimo de uma montanha da Galileia, onde Jesus pronuncia, diante dos seus discípulos, o famoso “sermão da montanha” (a tradição cristã identifica essa montanha com um pequeno monte com 150 metros de altura, situado a noroeste de Cafarnaum, junto do Mar da Galileia, designado em hebraico como Har HaOsher). É o primeiro de cinco discursos de Jesus que Mateus nos oferece (cf. Mt 5-7; 10; 13; 18; 24-25) e que, na perspetiva do evangelista, correspondem aos cinco livros da antiga Lei (Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio), dada por Deus ao seu povo no Monte Sinai.

    O “sermão da montanha (cf. Mt 5-7) reúne um importante conjunto de palavras (“ditos”) de Jesus onde Mateus vê as coordenadas fundamentais da proposta cristã. O evangelista considera que as palavras de Jesus no “sermão da montanha” propõem um novo código ético, uma Lei nova que supera e substitui a velha Lei do Sinai.

    Depois de, no preâmbulo do “sermão da montanha”, nos ter apresentado as “bem aventuranças” (cf. Mt 5,1-12) e a definição da missão dos discípulos (cf. Mt 5,13-15), Mateus entra no corpo central do discurso.

    Se Jesus vem propor uma “nova Lei”, que será da Lei antiga, a Lei outrora dada por Deus ao seu povo no Sinai? Tratava-se, evidentemente, de uma questão que preocupava bastante a comunidade cristã de Mateus, oriunda maioritariamente do mundo judaico e que continuava apegada à Lei de Moisés. Como é que Jesus se situa face à antiga Lei? Veio aboli-la? Qual é a novidade que Ele traz? A antiga Lei poderá coexistir com a proposta de Jesus?

     

    MENSAGEM

    Os líderes religiosos judaicos acusavam frequentemente Jesus de oferecer uma doutrina revolucionária, herética, contrária à tradição de Israel. A soberana liberdade de Jesus frente ao sábado (cf. Mc 1,21-28; 2,23-28; 3,1-6), a sua pouca consideração pelas tradições religiosas judaicas (cf. Mc 7,1-23), a novidade das suas palavras e dos seus gestos, a forma como Ele acolhia os “últimos”, os mais desprezados, pareciam apontar nesse sentido. Com Jesus, a Lei antiga deixou de estar vigente?

    Jesus começa, no discurso que Mateus Lhe atribui, por expor a sua posição face à Lei tradicional, a Torá: “não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar” (Mt 5,17). Não, Jesus não veio abolir essa Lei que Deus ofereceu ao seu povo no Sinai. A Lei de Deus conserva toda a sua validade, é eterna. No entanto, Jesus acrescenta que veio “completar” a Lei. O verbo usado no texto (“plêrosai”) pode traduzir-se como “levar à perfeição”. Jesus quer “levar à perfeição” a Lei dada por Deus no Sinai, restituindo-a à sua simplicidade e sentido original.

    Na verdade, os escribas e os fariseus tinham-se apossado da Lei e tinham-na usado para criar a armadilha do “legalismo”. Para eles, a Lei comportava um conjunto de indicações fechadas que era preciso seguir à letra e que regulavam todos os passos da vida do crente. Se as leis não fossem totalmente explícitas e não abarcassem todas as situações da vida, deviam ser explicitadas por novas e sucessivas leis. Surgia, assim, um emaranhado legal que acabava por complicar enormemente a vida do crente. O crente tornava-se escravo da Lei. Quem, por causa das duras condições de vida, não conseguia cumprir todas as regras da Lei, era visto como um pecador, alguém que estava longe de Deus e da salvação.

    Com a vida totalmente encerrada dentro dos limites da Lei, o crente sentia-se seguro: a Lei indicava-lhe exatamente como devia viver para agradar a Deus e ter acesso à salvação. No entanto, isto ajudava frequentemente a desenvolver uma mentalidade errada: a salvação aparecia, ao crente que vivia agarrado ao cumprimento da Lei, como uma conquista do homem e não como um dom do amor de Deus. Daí resultava o orgulho e a autossuficiência.

    Este “legalismo” continha um outro perigo grave: convictos de que o cumprimento estrito da Lei assegurava a salvação, os crentes cumpriam as regras sem se envolverem ao nível do coração, da adesão plena a Deus e às suas propostas. Cumpriam a letra da Lei sem aprofundar o seu espírito. Nesse cenário, já não interessava o que se sentia em relação a Deus ou aos irmãos, desde que se cumprisse a letra da Lei. A religião tornava-se uma experiência puramente externa. Havia quem cumpria estritamente a letra da Lei, mas não tinha um pingo de amor a Deus e aos irmãos.

    Tudo somado, esta não é a experiência religiosa que Jesus quer propor aos seus discípulos, àqueles a quem chama para integrar a comunidade do Reino de Deus. Por isso, avisa-os: “se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos Céus” (Mt 5,20).

    O que é que significa, na perspetiva de Jesus, “levar à perfeição” a Lei? Jesus propõe uma vivência da Lei em plenitude, sem barreiras, indo ao fundo das coisas. Trata-se de não ficar na “epiderme” da Lei, mas de cumprir a vontade de Deus na sua totalidade, mesmo para além da estrita observância da letra da Lei. Trata-se de aderir completamente a Deus, assumindo uma atitude interior de total compromisso com Deus, com as indicações de Deus, com os valores de Deus.

    Enquanto os fariseus e os doutores da Lei colocavam a Lei num lugar absolutamente central, Jesus coloca no centro de tudo o Reino de Deus. O que Ele pretende é fazer nascer uma comunidade de homens e mulheres que abram o coração a Deus e façam tudo – mesmo para além da letra da Lei – para que nasça um mundo mais justo e mais fraterno.

    Para que tudo isto fique mais claro, Jesus vai apresentar seis exemplos concretos da atitude que Ele preconiza face à Lei. O evangelho deste domingo traz-nos apenas os quatro primeiros desses exemplos. Os outros dois serão apresentados noutra oportunidade.

    O primeiro (vers. 21-26) refere-se às relações fraternas. A Lei de Moisés exige, simplesmente, o não matar (cf. Ex 20,13; Dt 5,17); mas, na perspetiva de Jesus, o não matar implica o evitar causar qualquer tipo de dano ao irmão… Há muitas formas de destruir o irmão, de o eliminar, de lhe roubar a vida: as palavras que ofendem, as calúnias que destroem, os gestos de desprezo que excluem, os confrontos que põem fim à relação. Os que aceitam o convite para integrar a comunidade do Reino de Deus não podem limitar-se a cumprir a letra da Lei; têm que assumir uma nova atitude, mais abrangente, que os leve a um respeito absoluto pela vida e pela dignidade do irmão. A propósito, Mateus aproveita para apresentar à sua comunidade uma catequese sobre a urgência da reconciliação (o cortar relações com o irmão, afastá-lo da relação, marginalizá-lo, não é uma forma de matar?). Na perspetiva de Mateus, a reconciliação com o irmão deve sobrepor-se ao próprio culto, pois a relação com Deus de alguém que não ama os irmãos é uma mentira que Deus não pode aceitar.

    O segundo (vers. 27-30) refere-se ao adultério. A Lei de Moisés exige o não cometer adultério (cf. Ex 20,14; Dt 5,18); mas, na perspetiva de Jesus, é preciso ir mais além do que a letra da Lei e atacar a raiz do problema: o próprio coração do homem. No coração nascem os desejos que depois se traduzem em gestos concretos. Jesus propõe atuar na raiz: uma “conversão” do coração que previna qualquer desejo egoísta que possa evoluir para atitudes que danifiquem a dignidade dos indivíduos e das relações familiares. A referência a arrancar o olho que é ocasião de pecado (o olho é considerado o órgão que dá entrada aos desejos) ou a cortar a mão que é ocasião de pecado (a mão é o órgão da ação, através do qual se concretizam os desejos que nascem no coração) são expressões fortes – bem ao gosto da cultura semita mas que, no entanto, não temos de considerar à letra – para dizer que é preciso atuar lá onde as ações más do homem têm origem e eliminar, na fonte, as raízes do mal.

    O terceiro (vers. 31-32) refere-se ao divórcio. A Lei de Moisés permitia ao homem repudiar a sua esposa (cf. Dt 24,1); mas praticamente vedava às mulheres a possibilidade de porem fim ao casamento. Na perspetiva de Jesus, é uma lei machista, que Moisés teve de aceitar por causa da dureza do coração do homem. Jesus considera que essa lei machista não estava nos planos de Deus quando criou o homem e a mulher para se amarem e para se completarem um ao outro (cf. Mt 19,1-9). Aqui Jesus não se limita a “completar” a Lei: propõe uma mudança da Lei no sentido do plano original de Deus para o homem e para a mulher.

    Apesar desta regra geral, o texto faz referência a uma exceção: no caso de uma “união ilegal” (literalmente, “porneia”). Discute-se o que esta exceção – provavelmente praticada na comunidade de Mateus – significa. Poderia referir-se a uma concessão feita aos cristãos de origem judaica para que o marido de uma mulher infiel pudesse casar-se outra vez, pois a infidelidade da primeira esposa tornaria a união ilegal.

    O quarto (vers. 33-37) refere-se à questão do julgamento. A Lei de Moisés pede, apenas, a fidelidade aos compromissos selados com um juramento (cf. Lv 19,12; Nm 20,3; Dt 23,22-24); mas, na perspetiva de Jesus, a necessidade de jurar implica a existência de um clima de desconfiança que é incompatível com a limpidez da verdade. Para os que estão inseridos na dinâmica do Reino, deve haver um tal clima de sinceridade e confiança que os simples “sim” e “não” bastam. Qualquer fórmula de juramento é supérflua e sinal de corrupção da dinâmica do Reino.

    Não há dúvida: a proposta de Jesus está muito para além de um cumprimento casuístico de uma Lei externa. Implica uma atitude interior completamente nova, uma mudança do coração que leve o homem a acolher e a viver “a fundo” as indicações de Deus, um dinamismo novo que transforme os discípulos de Jesus em arautos e testemunhas fiáveis de um mundo mais justo , mais humano e mais fraterno.

     

    INTERPELAÇÕES

    • O “sermão da montanha” que Jesus um dia dirige aos discípulos no alto de um monte da Galileia tem por objetivo desafiá-los, fazê-los “ganhar altura”, evitar que eles fiquem atascados numa existência fútil e rasteira, levá-los a caminhar de rosto levantado e de olhos postos nas realidades eternas. Não se trata de evitar que eles sujem os pés e as mãos no pó dos caminhos, ou que reneguem essa fragilidade que é inerente à condição humana; trata-se de oferecer-lhes uma perspetiva elevada do sentido da existência, de forma que eles não se conformem com a mediocridade, as meias tintas, as convicções mornas, as coisas efémeras. Talvez devêssemos ler de vez em quando o “sermão da montanha” para não nos resignarmos à mediania e à banalidade, para não nos instalarmos numa existência cómoda mas sem saída. Somos chamados por Deus à santidade, a um destino transcendente, a uma vocação sublime, a uma felicidade completa e eterna. Não podemos aceitar menos do que isso. Estamos disponíveis para aceitar o desafio de Jesus e para abraçar o dinamismo do Reino de Deus e da sua justiça? Estamos dispostos a “voar alto” e a encontrar um sentido pleno para a nossa existência?
    • Quando Jesus sugere aos discípulos que não se deixem apanhar pela armadilha do legalismo, está precisamente a mostrar-lhes como podem libertar-se de uma existência rasteira para “voarem mais alto”. Podemos simplesmente cumprir leis – e assim sentirmo-nos em paz com a nossa consciência – mas sem que isso envolva o nosso coração e nos leve a uma existência comprometida com as exigências de Deus; podemos limitar-nos a executar a letra da Lei, mas a passar ao lado daquilo que é realmente decisivo na construção de um mundo segundo Deus. “Cumprir as leis” é cómodo e relativamente fácil; o que é difícil é assumir plenamente as indicações de Deus e fazer com que essas indicações definam o sentido da nossa existência em todas as suas vertentes. O verdadeiro crente é aquele que, não apenas cumpre uma determinada Lei escrita factual, mas procura escutar Deus a cada passo e deixar-se conduzir em tudo pela vontade de Deus. É isso que se passa na nossa vida? Os “mandamentos” de Deus são, para nós, simples leis que olhamos de esguelha e que nos sentimos obrigados a cumprir, sob pena de receber castigos (o maior dos quais será o “inferno”), ou são indicações que nos ajudam a “voar mais alto”, a potenciar a nossa relação com Deus, a avançar no caminho que conduz à vida? O cumprimento das leis (de Deus ou da Igreja) é, para nós, uma obrigação que resulta do medo, ou o resultado lógico da opção que fizemos por Deus?
    • Vale a pena determo-nos no primeiro exemplo que Jesus dá: “não matar”. Jesus entende-o não apenas no sentido estrito da palavra “matar”, mas no sentido amplo de “privar alguém de vida”. No entendimento de Jesus, “não matar” equivale a evitar tudo aquilo que cause dano aos irmãos que caminham ao nosso lado. Estamos conscientes de que podemos “matar” com certas atitudes de egoísmo, de agressividade, de prepotência, de autoritarismo, de injustiça, de indiferença, de intolerância, de calúnia, de má língua, de palavras e gestos que magoam o outro, que destroem a sua dignidade, o seu bem estar, as suas relações, a sua paz? Estamos conscientes de que brincar com a dignidade dos nossos irmãos, ofendê-los, envergonhá-los, humilhá-los, inventar caminhos tortuosos para os desacreditar ou desmoralizar, julgá-los e condená-los na praça pública, é subverter gravemente a harmonia que Deus quer que reine entre os seus filhos? Estamos conscientes de que ignorar o sofrimento de alguém, ficar indiferente a quem está caído e abandonado na berma da estrada da vida, recusar um gesto de bondade, de misericórdia, de reconciliação, de compreensão, é destruir a vida que Deus quer para todos os seus filhos?
    • Jesus diz aos discípulos, no “Sermão da montanha”: “Não jureis em caso algum… A vossa linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’”. Também aqui há uma indicação que aponta a “levantar a vida”, a subir a um patamar mais elevado. É um convite a viver na verdade, na sinceridade, na total claridade; é um convite a recusar a mentira, os enganos, as meias verdades, as “chico-espertices” de quem apenas pensa em triunfar a qualquer custo. Sentimos que temos um compromisso inquebrantável com a verdade, com a limpidez, com a honestidade? O nosso modo de estar na vida reflete a verdade, a lealdade e a fidelidade de Deus?
    • Jesus pede aos seus discípulos que, se estiverem diante do altar para prestar culto a Deus, mas se recordarem que estão em conflito com algum irmão, procurem primeiro reconciliar-se com o irmão com quem estão desavindos; só depois fará sentido apresentarem-se diante de Deus. Tiramos disto as devidas consequências? O culto celebrado em estado “de guerra”, com o coração desassossegado, não agrada a Deus; a comunhão com Deus é incompatível com a ira, o conflito, a divisão, a recusa em abrir os braços para abraçar o irmão. Deus não consegue entender que nos apresentemos diante d’Ele para lhe manifestarmos o nosso amor e, simultaneamente, vivamos em conflito com os outros seus filhos. Na nossa vida de fé, que lugar ocupa o amor aos irmãos?

     

    A LITURGIA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.

    Ao longo dos dias da semana anterior ao 6.º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo…

    Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa…

     

    UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
    PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA

    Grupo Dinamizador:
    José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
    Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
    Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
    www.dehonianos.org

     

    S. Cláudio de La Colombière

    S. Cláudio de La Colombière


    15 de Fevereiro, 2026

    S. Cláudio de La Colombière nasceu em Saint-Symphorien d´Ozon, França, no ano de 1641. Em 1659 ingressou na Companhia de Jesus. Ordenado sacerdote em 1669, ensinou retórica e dedicou-se ao ministério da pregação. Prestou auxílio eficaz a S. Margarida Maria Alacoque na difusão do culto ao Sagrado Coração de Jesus. Enviado para Londres, como pregador da Condessa de York, sofreu calúnias, o cárcere e o exílio. Morreu em 1682, na cidade de Paray, em França, onde se pode venerar o seu túmulo. Foi canonizado por João Paulo II, em 1992.

    Lectio

    Primeira leitura: Efésios 3, 8-9.14-19.

    A mim, o menor de todos os santos, foi dada a graça de anunciar aos gentios a insondável riqueza de Cristo 9e a todos iluminar sobre a realização do mistério escondido desde séculos em Deus, o criador de todas as coisas. 14É por isso que eu dobro os joelhos diante do Pai,15do qual recebe o nome toda a família, nos céus e na terra: 16que Ele vos conceda, de acordo com a riqueza da sua glória, que sejais cheios de força, pelo seu Espírito, para que se robusteça em vós o homem interior; 17que Cristo, pela fé, habite nos vossos corações; que estejais enraizados e alicerçados no amor, 18para terdes a capacidade de apreender, com todos os santos, qual a largura, o comprimento, a altura e a profundidade... 19a capacidade de conhecer o amor de Cristo, que ultrapassa todo o conhecimento, para que sejais repletos, até receberdes toda a plenitude de Deus.

    Paulo, o antigo fariseu, "hebreu descendente de hebreus, circuncidado ao oitavo dia, da raça de Israel" (Fl 3, 5) reconhece que a graça que lhe foi concedida foi precisamente a de fazer tábua rasa do nacionalismo judaico e dirigir-se abertamente aos gentios. Este anúncio, segundo o próprio Paulo, é um mistério, algo que estava escondido nos recônditos da transcendência e que unicamente se descobre por meio de uma gratuita revelação de Deus. Nas gerações passadas não foi dado a conhecer aos filhos dos homens, como agora foi revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas. Paulo considera-se o último desses santos, porque a sua integração no grupo dos responsáveis foi tardia. Mas foi-lhe "concedida a graça de anunciar aos gentios a insondável riqueza de Cristo".
    A Igreja utiliza este testo na memória de S. Cláudio de La Colombière, que recebeu a graça de conhecer e divulgar as revelações do Coração de Jesus feitas a S. Margarida Maria.

    Evangelho: Mateus, 11, 25-30

    Naquele tempo, Jesus tomou a palavra e disse: «Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelaste aos pequeninos.26Sim, ó Pai, porque isso foi do teu agrado. 27Tudo me foi entregue por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai, como ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.» 28«Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos. 29Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. 30Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.»

    Nesta perícopa encontramos descrito o mistério da filiação de Jesus, Filho de Deus, da sua relação com o Pai, com a terminologia e profundidade peculiares do Quarto Evangelho. Até se diz que esta perícopa teria pertencido inicialmente ao evangelho segundo S. João. Ela consta de três pares: a) a ação de graças ao Pai pela revelação recebida; b) o conteúdo dessa revelação; o convite e chamamento. Os escribas e fariseus recusaram a revelação. O mistério do Reino não é acessível a toda a espécie de sabedoria humana. Só aqueles que se apresentam diante de Deus conscientes da sua pequenez, a podem receber. Jesus é o único revelador do Pai, a plenitude da revelação. Os que acolhem a revelação são chamados a tornar-se discípulos submissos e obedientes, tomando sobre si o "jugo" do Senhor, um jugo suave porque motivado e carregado por amor.

    Meditatio

    Cláudio de la Colombière, nascido em 1641 em S. Sinfrónio, perto de Lião, foi enviado pelo seu provincial a Paray em 1675 para ser superior da casa que os Jesuítas tinham nessa cidade. Aí conheceu a S. Margarida Maria, tornando-se seu confessor. Era precisamente o momento da grande revelação do Sagrado Coração, que data de 16 de Junho de 1675. Depois de um exame atento e prudente, o P. Cláudio de la Colombière julgou esta revelação autêntica. Adotou a devoção ao Sagrado Coração e tornou-se o seu propagador mais zeloso, depois de ter confirmado Margarida Maria e a sua superiora a Madre de Saumaise. No ano seguinte, teve de partir para Inglaterra, onde inspirou esta bela devoção em muitas almas. Banido da Inglaterra e já doente, passou por Paray, indo para Lião; aí reviu Margarida Maria, confirmou-a, fortaleceu-a; confirmou igualmente a Madre Greyfié, que tinha sucedido a Madre de Saumaise. Deus quis que viesse morrer a Paray, e que pudesse ver ainda e encorajar Margarida Maria. A sua morte aconteceu no dia 15 de Fevereiro de 1682. O próprio Nosso Senhor fez saber a Margarida Maria que tinha escolhido o P. de la Colombière para a secundar na sua missão.
    Oh! Como importa ter um bom diretor! E preciso pedi-lo a Deus e escolhê-lo com cuidado. A nossa santificação e a nossa salvação estão fortemente interessadas nisso.
    O Padre de la Colombière consagrou-se, ele mesmo, ao Sagrado Coração na sexta-feira 21 de Junho de 1675; era o dia seguinte à oitava do Corpo de Deus, o dia designado por Nosso Senhor para a futura festa. Começou desde então a inspirar esta devoção em todas as suas filhas espirituais em Paray. Chamado a Londres no ano seguinte, como pregador da duquesa de York, deu a conhecer e a amar o Sagrado Coração, a começar pela própria duquesa, que interveio mais tarde com outros príncipes e princesas junto do Papa Inocêncio XII, para o estabelecimento da nova devoção. Ele mesmo fala disso em alguns dos seus sermões da Quaresma. Regressado a França, continuou o seu apostolado, de uma maneira muito persuasiva, nas suas cartas de direção. Pedia aos superiores para a estabelecerem nas suas comunidades. Exercia o mesmo apostolado junto dos jovens religiosos de quem tinha, em Lião, a direção espiritual. É a ele que o Padre de Gallifet faz remontar a sua própria devoção ao Sagrado Coração. Mas seria sobretudo depois da sua morte que o Padre iria cumprir a sua missão. Partiu para o céu no dia 15 de Fevereiro de 1682. Dois anos depois, eram publicados os seus sermões em quatro volumes, e, num volume à parte, o diário dos seus retiros espirituais. Aí lia-se isto: "Reconheci que Deus queria que eu o servisse procurando o cumprimento dos seus desígnios no tocante à devoção que sugeriu a uma pessoa à qual se comunica de modo muito confidencial, e para a qual quis servir-se da minha fraqueza. Depois fazia o relato da grande aparição de 16 de Junho de 1675. Este escrito foi muito lido, porque o seu autor gozava de grande fama de santidade. Anexado ao diário dos retiros estava um belo ato de oferenda ou de oblação ao Sagrado Coração que também teve a sua parte no desenvolvimento da devoção. E eu, o que é que fiz até ao presente para propagar esta bela devoção segundo o desejo de Nosso Senhor? ". (Leão Dehon, OSP 3, p. 171s.).

    Oratio

    Senhor, que farei, senão unir-me à oblação do Padre de la Colombière e fazê-la também? Sim, Senhor, dou-me e consagro-me ao vosso divino Coração. Ofereço-vos tudo aquilo de que posso dispor, e proponho unir-me a vós frequentemente durante o dia (Leão Dehon, OSP 3, p. 173).

    Contemplatio

    O belo ato do Padre de la Colombière caracteriza admiravelmente a devoção ao Coração de Jesus. Começa por dizer qual o seu fim: «Esta oferenda, diz, faz-se para honrar este divino Coração, a sede de todas as virtudes, a fonte de todas as bênçãos e o retiro de todas as almas santas». «Por todas as suas bondades, diz, este divino Coração não encontra no coração dos homens senão dúvida, esquecimento, desprezo, ingratidão». O santo religioso formula então a sua oferenda: «Para reparação de tantos ultrajes e de tão cruéis ingratidões, ó muito adorável Coração do meu amável Jesus, e para evitar cair numa semelhante infelicidade, ofereço-vos o meu coração com todos os movimentos de que é capaz, e dou-me inteiramente a vós... Ofereço ao vosso divino Coração todo o mérito, toda a satisfação de todas as minhas missas, de todas as orações, de todos os atos de mortificação, de todas as práticas religiosas, de todos os atos de zelo, de humildade, de obediência e de todas as outras virtudes que praticar até ao último momento da minha vida. Não só tudo isto será para honrar o Coração de Jesus, mas ainda lhe peço que aceite a doação inteira que lhe faço, de dela dispor do modo que lhe agradar e em favor de quem lhe agradar». Este belo ato contribuiu muito para determinar e para propagar a verdadeira devoção ao Sagrado Coração. (Leão Dehon, OSP 3, p. 142s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a Palavra do Senhor:
    «Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração» (Mt 25, 30).

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    S. Cláudio de La Colombière (15 Fevereiro)

  • Santos Francisco e Jacinta Marto

    Santos Francisco e Jacinta Marto


    20 de Fevereiro, 2026

    Francisco Marto nasceu em 11 de Junho de 1908, em Aljustrel, Fátima, vindo a falecer também aí, no dia 4 de Abril de 1919. Muito sensível e contemplativo, Francisco orientou toda a sua oração e penitência para "consolar a Nosso Senhor". Jacinta Marto nasceu em Aljustrel, no dia 11 de Março de 1910 e faleceu em 20 de Fevereiro de 1920, no Hospital de Dona Estefânia, em Lisboa, depois de uma longa e dolorosa doença, oferecendo todos os seus sofrimentos pela conversão dos pecadores, pela paz no mundo e pelo Santo Padre. Os seus restos mortais de Francisco e Jacinta repousam atualmente na Basílica da Cova da Iria. O Santo Padre João Paulo II proclamou-os beatos, em Fátima, a 13 de Maio de 2000.

    Lectio

    Primeira Leitura: 1Samuel 3, 1.3-10

    Naqueles dias, o jovem Samuel servia o Senhor sob a direção do sumo sacerdote Heli. Samuel dormia no templo do Senhor, no lugar onde se encontrava a arca de Deus. O Senhor chamou Samuel e ele respondeu: «Aqui estou». E, correndo para junto de Heli, disse: «Aqui estou, porque me chamaste». Mas Heli respondeu: «Eu não te chamei; torna a deitar-te». E ele foi deitar-se. O Senhor voltou a chamar Samuel. Samuel levantou-se, foi ter com Heli e disse: «Aqui estou, porque me chamaste». Heli respondeu: «Não te chamei, meu filho; torna a deitar-te». Samuel ainda não conhecia o Senhor, porque, até então, nunca se lhe tinha manifestado a palavra do Senhor. O Senhor chamou Samuel pela terceira vez. Ele levantou-se, foi ter com Heli e disse: «Aqui estou, porque me chamaste». Então Heli compreendeu que era o Senhor que chamava pelo jovem. Disse Heli a Samuel: «Vai deitar-te; e se te chamarem outra vez, responde: 'Falai, Senhor, que o vosso servo escuta'». Samuel voltou para o seu lugar e deitou-se. O Senhor veio, aproximou-Se e chamou como das outras vezes: «Samuel, Samuel!». E Samuel respondeu: «Falai, Senhor, que o vosso servo escuta».

    Samuel é uma figura singular e polifacetada do Antigo Testamento: sacerdote, profeta e juiz. Vive no momento da transição da federação de tribos ao regime monárquico. A vocação de Samuel está enquadrada num cenário de simplicidade e sublimidade, de serenidade e dramatismo, de silêncio e eloquência, de quietude e dinamismo. Essa vocação acontece de noite, hora propícia à revelação. O jovem é chamado três vezes, e ainda uma quarta. Samuel pensa tratar-se de Heli, o sacerdote. Este, fazendo um discernimento da situação, coloca Samuel na presença do Senhor. O seu chamamento de Samuel, o primeiro dos profetas, tem semelhanças ao de João Baptista, o último dos profetas: ambos têm a missão de anunciar uma nova etapa da História da salvação. Ambos tiveram que sofrer a dilaceração que implica romper com uma época que se ama e que vai desaparecer, mas também a dor que acarreta a aurora de uma nova etapa.

    Evangelho: Mateus 18, 1-5.10

    Naquele tempo, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram-Lhe: «Quem é o maior no reino dos Céus?». Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles e disse-lhes: «Em verdade vos digo: Se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, não entrareis no reino dos Céus. Quem for humilde como esta criança, esse será o maior no reino dos Céus. E quem acolher em meu nome uma criança como esta acolhe-Me a Mim. Vede bem. Não desprezeis um só destes pequeninos. Eu vos digo que os seus Anjos vêem continuamente o rosto de meu Pai que está nos Céus».

    O texto paralelo de Marcos (9, 33-34) faz-nos supor que o contexto imediato destes ensinamentos do Senhor é uma discussão dos discípulos sobre o lugar que cada um deveria ocupar no reino pregado por Jesus. Jesus Manda-lhes que se tornem como crianças, não tanto no que se refere à inocência, mas no que se refere à humildade: a criança não tem pretensões. A humildade cristã é fruto da alegria de ser filhos de Deus. A filiação divina requer conversão. Os discípulos, particularmente os que são chamados a ser dirigentes da comunidade cristã, devem ser humildes e comportar-se como tais. Essa atitude dá-lhes uma dignidade maior que a dos anjos, que estão ao seu serviço

    Meditatio

    "Eu te bendigo, ó Pai, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelastes aos pequeninos". Com estas palavras, Jesus louva os desígnios do Pai celeste: "Sim, Pai, Eu Te bendigo, porque assim foi do Teu agrado". Quiseste abrir o Reino aos pequeninos. Por desígnio divino, veio do céu a esta terra, à procura dos pequeninos privilegiados do Pai, uma mulher revestida com o Sol. Fala-lhes com voz e coração de Mãe: convida-os a oferecerem-se como vítimas de reparação, oferecendo-se ela para os conduzir, seguros, até Deus. Foi então que das suas mãos maternais saiu uma luz que os penetrou intimamente, sentindo-se imersos em Deus como quando uma pessoa - explicam eles - se contempla num espelho. Mais tarde, Francisco, um dos três privilegiados, exclamava: nós estávamos a arder naquela luz que é Deus e não nos queimávamos. Como é Deus? Não se pode dizer. Isto sim que a gente não pode dizer. Deus: uma luz que arde mas não queima. A mesma sensação teve Moisés quando viu Deus na sarça-ardente. Ao beato Francisco, o que mais o impressionava e absorvia era Deus naquela luz imensa que penetrara no íntimo dos três. Na sua vida, dá-se uma transformação que poderíamos chamar radical; uma transformação certamente não comum em crianças da sua idade. Entrega-se a uma vida espiritual intensa que se traduz em oração assídua e fervorosa, chegando a uma verdadeira forma de união mística com o Senhor. Isto mesmo leva-o a uma progressiva purificação do espírito através da renúncia aos seus gostos e até às brincadeiras inocentes de criança. Suportou os grandes sofrimentos da doença que o levou à morte, sem nunca se lamentar. Grande era no pequeno Francisco, o desejo de reparar as ofensas dos pecadores, esforçando-se por ser bom e oferecendo sacrifícios e oração. E Jacinta sua irmã, quase dois anos mais nova que ele, vivia animada pelos mesmos sentimentos. Na sua solicitude materna, a Santíssima Virgem veio a Fátima, pedir aos homens para não ofenderem mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido. Dizia aos pastorinhos: Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o inferno por não haver que se sacrifique e peça por elas. A pequena Jacinta sentiu e viveu como própria esta aflição de Nossa Senhora, oferecendo-se heroicamente como vítima pelos pecadores. Um dia - já ela e Francisco tinham contraído a doença que os obrigava a estarem de cama - a Virgem Maria veio visitá-los a casa, como conta a pequenita: Nossa Senhora veio-nos ver e diz que vem buscar o Francisco muito em breve para o céu. E a mim perguntou-me se queria ainda converter mais pecadores. Disse-lhe que sim. E, ao aproximar-se o momento da partida do Francisco, Jacinta recomenda-lhe: Dá muitas saudades minhas a Nosso Senhor e a Nossa Senhora e diz-lhes que sofro tudo quanto Eles quiserem para converter os pecadores. Jacinta ficara tão impressionada com a visão do inferno, durante a aparição de treze de Julho, que nenhuma mortificação e penitência era demais para salvar os pecadores. (João Paulo II, Homilia da Missa da Beatificação de Francisco e Jacinta Marto no dia 13 de Maio 2000, em Fátima)

    Oratio

    Deus de infinita bondade, que amais a inocência e exaltais os humildes, concedei, pela intercessão da Imaculada Mãe do vosso Filho, que, à imitação dos bem-aventurados Francisco e Jacinta, Vos sirvamos na simplicidade de coração, para podermos entrar no reino dos Céus. Ámen. (Coleta da Missa).

    Contemplatio

    Jesus acolhia as crianças e abençoava-as... Os apóstolos querem afastar as crianças, mas Jesus não deixa. «Deixai-as vir a mim, diz. São semelhantes aos anjos do céu. A criança é dócil, simples, crente, obediente. Em lugar de afastardes as crianças, imitai as suas qualidades». Abraçava-as, impunha-lhes as mãos e abençoava-as. É uma curta lição de educação cristã. É preciso encorajar as crianças à piedade, abençoá-las e ensinar-lhes a rezar. Alguns dias antes, Jesus já tinha apresentado uma criança aos seus apóstolos como um modelo a imitar, porque a criança é simples, humilde, doce. «Se não tiverdes, dizia Jesus, estas disposições da infância espiritual, não entrareis no reino dos céus». E recomendava-lhes as crianças: «Quem as recebe em meu nome, recebe-me a mim, dizia. Tenho como feito a mim mesmo o que fizerem por elas. Ai daqueles que as escandalizam! Melhor seria que não tivessem nascido» (L. Dehon, OSP 4, p. 278s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "O Senhor exaltou os humildes" (Lc 1, 46).

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    Beatos Francisco e Jacinta Marto (20 Fevereiro)

  • 01º Domingo da Quaresma - Ano A [atualizado]

    01º Domingo da Quaresma - Ano A [atualizado]

    22 de Fevereiro, 2026

    ANO A

    1.º DOMINGO DA QUARESMA

    Tema do 1.º Domingo da Quaresma

    No início do caminho quaresmal, a liturgia convida-nos a repensar as nossas certezas, as nossas opções, os nossos valores. Tempo de conversão e de renovação, a Quaresma é o momento favorável para nos reaproximarmos de Deus. É em Deus – e não noutras propostas, por mais encantadoras que sejam – que está a fonte da vida verdadeira.

    Na primeira leitura a catequese de Israel esboça, em grandes linhas, o projeto de Deus para o mundo e para os homens. Deus criou-nos para a felicidade e mostrou-nos como viver para alcançar a vida verdadeira. Contudo, enquanto seres livres, temos de ser nós a fazer a nossa opção fundamental. Se decidirmos abraçar as indicações de Deus, conheceremos uma felicidade sem limites e uma plena realização; mas, se optarmos por dar ouvidos à tentação do egoísmo, da autossuficiência, da prepotência, da ganância, viveremos rodeados de coisas efémeras, vazias, que nunca saciarão plenamente a nossa sede de felicidade.

    Na segunda leitura, o apóstolo Paulo coloca diante de nós dois exemplos, dois modelos de vida, dois homens: Adão e Jesus. Adão representa o homem que optou por ignorar as propostas de Deus e decidir, por ele próprio os caminhos que deveria percorrer para se realizar plenamente; Jesus é o homem que decidiu escutar as indicações de Deus, obedecer aos projetos de Deus, percorrer o caminho que Deus Lhe indicava, mesmo se esse caminho tivesse de passar pela cruz. A desobediência de Adão trouxe ao mundo egoísmo, sofrimento e morte; a obediência de Jesus tornou-se, para o mundo e para todos os homens, uma fonte inesgotável e amor, de graça e de vida.

    No Evangelho, o Evangelista Mateus propõe-nos uma catequese sobre as opções de Jesus. Ele recusou sempre as propostas e os valores que punham em causa o projeto de Deus para o mundo e para os homens. Para Jesus, os valores de Deus tiveram sempre primazia sobre os bens materiais, a embriaguez oferecida pelo êxito fácil, a sede de poder. Aos seus discípulos Jesus pede que sigam um caminho semelhante.

     

    LEITURA I – Génesis 2,7-9;3,1-7

    O Senhor Deus formou o homem do pó da terra,
    insuflou em suas narinas um sopro de vida,
    e o homem tornou-se um ser vivo.
    Depois, o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, a oriente,
    e nele colocou o homem que tinha formado.
    Fez nascer na terra toda a espécie de árvores,
    de frutos agradáveis à vista e bons para comer,
    entre as quais a árvore da vida, no meio do jardim,
    e a árvore da ciência do bem e do mal.
    Ora, a serpente era o mais astucioso
    de todos os animais do campo
    que o Senhor Deus tinha feito.
    Ela disse à mulher:
    «É verdade que Deus vos disse:
    “Não podeis comer o fruto de nenhuma árvore do Jardim”?»
    A mulher respondeu:
    «Podemos comer o fruto das árvores do jardim;
    mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim,
    Deus avisou-nos:
    “Não podeis comer dele nem tocar-lhe, senão morrereis”».
    A serpente replicou à mulher:
    «De maneira nenhuma! Não morrereis.
    Mas Deus sabe que, no dia em que o comerdes,
    abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como deuses,
    ficando a conhecer o bem e o mal».
    A mulher viu então que o fruto da árvore
    era bom para comer e agradável à vista,
    e precioso para esclarecer a inteligência.
    Colheu o fruto e comeu-o;
    depois deu-o ao marido, que estava junto dela,
    e ele também comeu.
    Abriram-se então os seus olhos
    e compreenderam que estavam despidos.
    Por isso, entrelaçaram folhas de figueira
    e cingiram os rins com elas.

     

    CONTEXTO

    O texto de Gn 2,4b-3,24 – conhecido como relato “javista” da criação – é um texto do séc. X a.C., que deve ter aparecido em Judá na época do rei Salomão. É “javista” porque utiliza o nome “Javé” para referir Deus. Apresenta-se num estilo exuberante, pitoresco, cheio de vida e parece ser obra de um catequista popular, que ensina recorrendo a imagens sugestivas, coloridas e fortes. Não podemos, de forma nenhuma, ver neste texto uma reportagem realista e factual de acontecimentos passados na aurora da humanidade. A finalidade do autor não é científica ou histórica, mas teológica: mais do que ensinar como o mundo e o homem apareceram, ele quer dizer-nos que na origem da vida e do homem está Deus. Trata-se, portanto, de uma página de catequese e não de um tratado destinado a explicar cientificamente as origens do mundo e da vida.

    Para apresentar essa catequese aos homens do séc. X a.C., os teólogos javistas utilizaram elementos simbólicos e literários das cosmogonias mesopotâmicas (por exemplo, a formação do homem “do pó da terra” é um elemento que aparece sempre nos mitos de origem mesopotâmicos); no entanto, transformaram e adaptaram os símbolos retirados das narrações lendárias de outros povos, dando-lhes um novo enquadramento, uma nova interpretação e pondo-os ao serviço da catequese e da fé de Israel. Por outras palavras: a linguagem e a apresentação literária das narrações bíblicas da criação apresentam paralelos significativos com os mitos de origem dos povos da zona do Crescente Fértil; mas as conclusões teológicas – sobretudo o ensinamento sobre Deus e sobre o lugar que o homem ocupa no projeto de Deus – são significativamente diferentes: mais maduras, mais ponderadas, mais profundas, mais consistentes.

    A liturgia selecionou dois quadros do relato javista da criação para no-los propor, neste domingo, como primeira leitura. O primeiro quadro oferece-nos uma catequese sobre a origem do homem e o desígnio de Deus para o homem (cf. Gn 2,7-9); no segundo quadro, o autor javista propõe-nos uma reflexão sobre a origem desse mal que desfeia o mundo e traz sofrimento e morte à história dos homens (cf. Gn 3,1-7).

     

    MENSAGEM

    O teólogo javista começa por desenhar – com cores bem sugestivas – a criação do homem (cf. Gn 2,7): “O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, insuflou-lhe nas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivo”.

    O verbo utilizado para descrever a ação de Deus (o verbo “yasar”, que pode traduzir-se como “formar”, “modelar”) é um verbo técnico ligado ao trabalho do oleiro. Deus aparece, assim, como um oleiro, que modela a argila; e o resultado da ação do oleiro divino é o ser humano. Estamos muito próximos das conceções mesopotâmicas, onde o homem é criado pelos deuses a partir do barro da terra (o jogo de palavras “’adam” – “homem” – e “’adamah” – “terra”, sugere que o homem vem da “terra” e, uma vez concluído o seu caminho, voltará à terra de onde foi tirado).

    No entanto, o homem não é apenas terra, pois ele recebe também o “neshamá” de Deus. A palavra utilizada pelo teólogo javista pode traduzir-se como “sopro”, “hálito”, “respiração”. É o “sopro” (a vida) de Deus que dá vida ao barro inerte, que torna o homem um ser vivo. O homem tem qualquer coisa de divino; a vida do homem procede, diretamente, de Deus.

    Modelado por Deus com amor, animado pelo sopro de vida do próprio Deus, o homem está no centro do projeto criador de Deus. Ele ocupa um lugar absolutamente especial na criação; e é para ele que tudo vai ser criado.

    Para que é que Deus criou o homem? Para ser escravo dos deuses e prover ao sustento das divindades, como nos mitos mesopotâmicos? Não. Na perspetiva do nosso catequista, o homem foi criado para ser feliz, em comunhão com Deus. Para descrever a situação ideal do homem, criado para a felicidade e a realização plena, o javista coloca-o num “jardim” cheio de árvores de fruta (cf. Gn 2,8-9). Para um povo que sentia pesar constantemente sobre si a ameaça do deserto árido, o ideal de felicidade seria um lugar com muitas árvores e muita água. Os mitos mesopotâmicos apresentam, aliás, as mesmas imagens.

    Entre a vegetação desse jardim onde o homem habita, o teólogo javista destaca duas árvores especiais: a “árvore da vida” e a “árvore do conhecimento do bem e do mal”. A “árvore da vida” – que está em destaque, no meio do jardim – é o símbolo da imortalidade concedida ao homem. Ao falar da “árvore da vida”, o autor está, muito provavelmente, a pensar na “Lei”: desde o início, Deus ofereceu ao homem a possibilidade da vida plena e imortal, que passa pela obediência à Lei e aos mandamentos de Deus. Cumprir a Lei é ter acesso à vida plena.

    Ao lado da “árvore da vida” e em contraposição a ela (pois traz a morte), está a “árvore do conhecimento do bem e do mal”. Deus pede ao homem que se abstenha de comer da “árvore do conhecimento do bem e do mal”. Essa árvore representa, provavelmente, o orgulho e a autossuficiência de quem acha que pode conquistar a sua própria felicidade, prescindindo de Deus. “Comer da árvore do conhecimento do bem e do mal” significa fechar-se em si próprio, querer decidir por si só o que é bem e o que é mal, pôr-se a si próprio em lugar de Deus, reivindicar autonomia total em relação ao criador. Sim, Deus criou o homem para ser feliz e deu-lhe a possibilidade de vida imortal; mas o homem pode escolher prescindir de Deus e percorrer caminhos onde Deus não está. De acordo com a catequese tradicional de Israel, o homem que renuncia à comunhão com Deus está a seguir o caminho da morte.

    Na segunda parte do nosso texto (cf. Gn 3,1-7), o teólogo javista reflete sobre a questão do mal. De onde vem o mal que desfeia o mundo e que impede o homem de ter vida em plenitude? Para os catequistas de Israel, a resposta parece evidente: o mal vem das opções erradas que, desde o início da história, o homem tem feito.

    Para corporizar a “tentação” do homem de escolher caminhos de egoísmo e de autossuficiência, à margem de Deus, o autor javista recorre à figura da serpente. Entre os povos antigos, a serpente aparece como um símbolo por excelência da vida e da fecundidade (provavelmente por causa da sua configuração fálica). Entre os cananeus, estava também bastante difundido o culto da serpente. Nos santuários cananeus invocavam-se os deuses da fertilidade (representados muitas vezes pela serpente) e realizavam-se rituais mágicos destinados a assegurar a fecundidade dos campos… Ora, os israelitas, instalados na Terra, depressa se deixaram fascinar por esses cultos e praticavam os rituais dos cananeus destinados a assegurar a vida e a fecundidade dos campos e dos rebanhos. No entanto, isso significava prescindir de Javé e abandonar o caminho da Lei e dos mandamentos. A “serpente” surge aqui, portanto, como símbolo de tudo o que afasta os homens de Deus e das suas propostas, sugerindo-lhes caminhos de orgulho, de egoísmo e de autossuficiência.

    Os homens e as mulheres que Deus criou para serem felizes e terem um destino de vida plena cederam à tentação e usaram mal a liberdade que lhes foi dada. Deslumbrados pela sua própria importância, cegos pelo orgulho e pela vaidade, julgaram que podiam prescindir de Deus e das indicações de Deus. Viram em Deus um concorrente, um obstáculo à liberdade que pretendiam. Decidiram ignorar Deus e apostar na sua própria autossuficiência. Enveredaram por escolhas egoístas e encheram o mundo de ambição, de injustiça, de prepotência, de violência, de morte. Na opinião do teólogo javista, é essa a origem do mal que destrói a harmonia do mundo.

    O nosso texto termina com uma alusão à “vergonha” que o homem e a mulher sentiram quando perceberam que estavam nus (cf. Gn 3,7): é a expressão da quebra da harmonia, da destruição da inocência, da perda da dignidade, da desordem que o pecado introduz na vida do homem e do mundo.

     

    INTERPELAÇÕES

    • De onde vimos? Para onde vamos? Porque é que estamos aqui? Qual o sentido da nossa vida? São perguntas eternas, que os homens e mulheres de todos os tempos constantemente colocam. A Palavra de Deus que hoje nos é oferecida responde: é Deus a nossa origem e o nosso destino último. Não somos um minúsculo e insignificante grão de areia à deriva numa galáxia qualquer; mas somos seres cuja existência Deus planeou, que Ele modelou com amor, a quem Ele animou com o seu próprio “sopro” de vida, a quem Ele ofereceu um destino de eternidade. O fim último da nossa existência não é o fracasso, o mergulho na absoluta escuridão, a dissolução no nada; mas é a vida definitiva, a felicidade sem fim, o encontro com Deus. É esse horizonte de vida eterna e de comunhão plena com Deus que temos diante dos olhos enquanto peregrinamos na terra? Que marca é que isso deixa na forma como vivemos o nosso dia a dia?
    • Como é que concretizamos essa vocação à felicidade que está inscrita no projeto que Deus tem para nós? De acordo com a mais genuína catequese de Israel, é obedecendo às indicações de Deus e vivendo de acordo com as suas propostas. Deus é um Pai bom, que nada nos impõe e que respeita sempre a nossa liberdade; mas insiste em mostrar-nos, a cada passo, o caminho para essa plenitude de vida que Ele sonhou para todos os seus queridos filhos. Quando aceitamos a nossa condição de criaturas, reconhecemos o amor de Deus e nos dispomos a acolher humildemente as indicações que Ele nos dá, construímos uma existência harmoniosa, um “paraíso” onde encontramos vida, harmonia, felicidade e plena realização. Como é que nos situamos diante de Deus? Na construção da nossa história de vida, a “voz” de Deus tem primazia sobre todas as outras vozes que ecoam à nossa volta? Vivemos atentos ao que Deus nos diz e caminhamos na direção que Ele nos indica?
    • Ao longo do caminho que estamos a percorrer, tropeçamos a cada instante com o “mal”, nas suas mil e uma formas. É uma experiência que sempre nos desconcerta e que muitas vezes nos deixa revoltados. O mal será uma inevitabilidade? Esse mal que desfeia o mundo e que deixa feridas profundas na vida de tantas pessoas, vem de Deus ou vem do homem? A Palavra de Deus que escutamos neste domingo responde sem hesitações: o mal nunca vem de Deus; o mal resulta das nossas escolhas erradas, do nosso orgulho, do nosso egoísmo, da nossa autossuficiência. Quando o homem escolhe viver orgulhosamente só, ignorando as propostas de Deus e prescindindo do amor, constrói cidades de egoísmo, de injustiça, de prepotência, de ambição, de violência, de sofrimento, de pecado… Olhemos para o nosso mundo e para a história dos homens: a realidade que vemos não confirma tudo isso? Olhemos também para nós e para a nossa história pessoal: quais são os caminhos que escolhemos? As propostas de Deus fazem sentido e são, para nós, indicações seguras para a felicidade, ou preferimos ser nós próprios a fazer as escolhas que nos interessam, prescindindo das indicações de Deus?

     

    SALMO RESPONSORIAL – SALMO 50 (51)

    Refrão 1: Pecámos, Senhor: tende compaixão de nós.

    Refrão 2: Tende compaixão de nós, Senhor,
    porque somos pecadores.

     

    Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,
    pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.
    Lavai-me de toda a iniquidade
    e purificai-me de todas as faltas.

    Porque eu reconheço os meus pecados
    e tenho sempre diante de mim as minhas culpas.
    Pequei contra Vós, só contra Vós,
    e fiz o mal diante dos vossos olhos.

    Criai em mim, ó Deus, um coração puro
    e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.
    Não queirais repelir-me da vossa presença
    e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.

    Dai-me de novo a alegria da vossa salvação
    e sustentai-me com espírito generoso.
    Abri, Senhor, os meus lábios
    e a minha boca cantará o vosso louvor.

     

    LEITURA II – Romanos 5,12-19

    Irmãos:

    Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo
    e pelo pecado a morte,
    assim também a morte atingiu todos os homens,
    porque todos pecaram.
    De facto, até à Lei, existia o pecado no mundo.
    Mas o pecado não é levado em conta, se não houver lei.
    Entretanto, a morte reinou desde Adão até Moisés,
    mesmo para aqueles que não tinham pecado
    por uma transgressão à semelhança de Adão,
    que é figura d’Aquele que havia de vir.
    Mas o dom gratuito não é como a falta.
    Se pelo pecado de um só pereceram muitos,
    com muito mais razão a graça de Deus,
    dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo,
    se concedeu com abundância a muitos homens.
    E esse dom não é como o pecado de um só:
    o julgamento que resultou desse único pecado
    levou à condenação,
    ao passo que o dom gratuito, que veio depois de muitas faltas,
    leva à justificação.
    Se a morte reinou pelo pecado de um só homem,
    com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância
    a graça e o dom da justiça,
    reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo.
    Porque, assim como pelo pecado de um só,
    veio para todos os homens a condenação,
    assim também, pela obra de justiça de um só,
    virá para todos a justificação que dá a vida.
    De facto, como pela desobediência de um só homem,
    muitos se tornaram pecadores,
    assim também, pela obediência de um só,
    muitos se tornarão justos.

     

    CONTEXTO

    O apóstolo Paulo não está ligado ao nascimento da comunidade cristã de Roma. Provavelmente, o cristianismo chegou a Roma levado por judeus palestinos convertidos ao Evangelho de Jesus. Uma antiga tradição diz que foi Pedro quem anunciou o Evangelho em Roma, por volta do ano 42, e que da sua pregação resultou uma florescente comunidade cristã. No entanto, não temos evidências que comprovem esta tradição.

    Paulo escreveu a sua Carta aos Romanos por volta do ano 57 ou 58. Estava, por essa altura, prestes a terminar a sua terceira viagem missionária. Sentia que tinha concluído a sua missão no Mediterrâneo oriental, pois as igrejas que fundara e acompanhara nessas paragens estavam organizadas e já podiam caminhar por si próprias. O olhar de Paulo dirigia-se agora para ocidente. O apóstolo pensava passar por Roma, deter-se algum tempo nessa cidade e viajar depois para a Espanha para aí anunciar o Evangelho (cf. Rm 15,24-28).

    Ao dirigir-se por carta aos cristãos de Roma, Paulo pretendia estabelecer laços com eles; mas também aproveitou a oportunidade para lhes apresentar os principais problemas que então o preocupavam, entre os quais sobressaía a questão da unidade. Tratava-se de um problema que se sentia um pouco por todo o lado e que também inquietava a jovem comunidade cristã de Roma, afetada por dificuldades de relacionamento entre cristãos de origem judaica e cristãos vindos do mundo greco-romano. Com serenidade e lucidez, evitando qualquer polémica, Paulo expôs aos cristãos de Roma as linhas mestras do Evangelho que anunciava. A Carta aos Romanos é uma espécie de resumo da teologia paulina e, do ponto de vista teológico, o escrito mais completo de Paulo.

    Na primeira parte da Carta (cf. Rm 1,18-11,36), Paulo vai fazer notar aos cristãos divididos que o Evangelho é a força que congrega e que salva todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Embora o pecado seja uma realidade universal, que afeta todos os homens (cf. Rm 1,18-3,20), a “justiça de Deus” dá vida a todos, sem distinção (cf. Rm 3,1-5,11); e é em Jesus Cristo que essa vida se comunica e que transforma o homem (cf. Rm 5,12-8,39). Batizado em Cristo, o cristão morre para o pecado e nasce para uma vida nova. Passa a ser conduzido pelo Espírito e torna-se filho de Deus; libertado do pecado e da morte, produz frutos de santificação e caminha para a Vida eterna. Na segunda parte da carta (cf. Rm 12,1-15,13) Paulo, de uma forma bastante prática, exorta os cristãos a viverem de acordo com o Evangelho de Jesus.

    O texto que nos é proposto faz parte da primeira parte da Carta aos Romanos (cf. Rm 1,18-11,36). Depois de demonstrar que todos – judeus e não judeus – vivem imersos numa realidade que é a realidade do pecado (cf. Rm 1,18-3,20) e que é a justiça de Deus que a todos salva, sem distinção (cf. Rm 3,21-5,11), Paulo ensina que é através de Jesus Cristo que a vida de Deus chega aos homens e que se faz oferta de salvação para todos (cf. Rm 5,12-8,39).

     

    MENSAGEM

    A esperança cristã num destino de vida e de salvação não é uma elaboração que resulta de uma reflexão teórica de um qualquer teólogo; mas é uma construção feita a partir de um acontecimento concreto, identificado e incontornável: a intervenção salvadora de Jesus Cristo, o Filho de Deus, na história humana.

    Para definir claramente o alcance dessa intervenção, o apóstolo Paulo vai colocar frente a frente duas figuras antitéticas, duas “economias opostas”: a de Adão e a de Jesus. Adão é aquele por quem o pecado e a morte entraram no mundo; Jesus é aquele através de quem a graça e a vida alcançaram a história dos homens.

    Adão é a figura de uma humanidade que prescinde de Deus e das suas propostas e que escolhe caminhos de egoísmo, de orgulho e de autossuficiência. Ora, essa escolha produz injustiça, alienação, sofrimento, desarmonia. Porque a humanidade preferiu, tantas vezes, esse caminho, o mundo entrou numa economia de pecado; e o pecado gera morte. Esta “morte” não deve ser entendida em sentido físico-biológico, mas, sobretudo, no sentido espiritual e escatológica: é o afastamento temporário ou definitivo de Deus, a fonte da vida autêntica.

    Cristo propôs e viabilizou um outro caminho. Ele viveu numa permanente escuta de Deus e das suas propostas, na obediência total aos projetos do Pai. Esse caminho leva à superação do egoísmo, do orgulho, da autossuficiência e faz nascer um Homem Novo, plenamente livre, que vive em comunhão com o Deus que é fonte de vida autêntica. A vitória de Cristo sobre a morte é a prova provada de que só a comunhão com Deus produz vida definitiva. Com a proposta que lhes apresentou, Cristo libertou os homens da economia de pecado e introduziu no mundo uma dinâmica nova, uma economia de graça que gera vida plena (salvação).

    Não é claro que Paulo se esteja a referir, aqui, àquilo a que a teologia posterior designou como “pecado original” (ou seja, um pecado histórico cometido pelo primeiro homem, que atinge e marca todos os homens que nascerem em qualquer tempo e lugar). O que é claro é que, para Paulo, a intervenção de Cristo na história humana se traduziu num dinamismo de esperança, de graça, de vida nova. Coloquemos as coisas desta forma: todos os homens e mulheres nascem no mundo onde o pecado está presente e respiram, de alguma forma, uma atmosfera “poluída”; mas Cristo, pela sua obediência, veio dissipar a “poluição atmosférica” que afetava a humanidade. Agora já é possível ao homem respirar o “ar puro” da vida eterna.

     

    INTERPELAÇÕES

    • A modernidade ensinou-nos que a fonte da salvação não é Deus, mas o homem e as suas conquistas. Disse-nos que aquilo que os crentes veem como “propostas de Deus” são apenas resquícios de uma época pré-científica, obscurantista, ultrapassada, e que a plenitude da vida está no corte radical com qualquer autoridade exterior à nossa Razão – inclusive com Deus. Exaltou o individualismo, o antropocentrismo, e ensinou-nos que só nos realizaremos totalmente se formos nós – orgulhosamente sós – a definir o nosso caminho, o nosso destino, o sentido da nossa vida. Contudo, o apóstolo Paulo diz-nos o que pode acontecer quando nos instalamos na autossuficiência e deixamos Deus à margem do nosso projeto de vida. Poderemos, como Adão, prescindir de Deus e construir a nossa vida sem Ele ou contra Ele? Onde nos tem conduzido esta cultura que insiste em ignorar Deus e as suas sugestões? A cultura moderna tem feito surgir um homem mais feliz e mais realizado, ou tem potenciado o aparecimento de homens desorientados e sem referências, que muitas vezes apostam tudo em propostas falsas de salvação e que saem dessa experiência de busca mais fragilizados, mais dependentes, mais alienados, mais frustrados, mais vazios, mais desencantados?
    • Alguns acontecimentos que têm marcado o nosso tempo confirmam que uma história construída à margem das propostas de Deus é uma história que caminha em direção a um desastre anunciado. Se escutássemos Deus, o nosso tempo conheceria as guerras que tingem de sangue os caminhos que percorremos? Se escutássemos Deus, teríamos tantos homens e mulheres sem voz e sem vez abandonados nas bermas dos caminhos que a humanidade percorre? Se escutássemos Deus estaríamos hoje a construir narrativas onde entram palavras como “genocídio”, “massacre”, “chacina”, “extermínio”, “horror”? Se escutássemos Deus, viveríamos num precário equilíbrio de terror e embarcaríamos numa estúpida corrida aos armamentos que ninguém sabe como vai terminar? Se escutássemos Deus, continuaríamos a destruir irresponsavelmente os recursos do planeta, pondo em causa a sobrevivência da humanidade? Qual é o nosso papel de crentes, em toda esta história? O que podemos fazer para que Deus volte a estar no centro da vida dos homens, as suas propostas sejam acolhidas e a história humana entre nos carris?
    • Deus respeita a nossa liberdade. Aceita que construamos as nossas vidas sem atendermos às suas indicações, suporta até as nossas escolhas erradas. No entanto, nunca desiste de nós. Decidido a dar-nos todas as oportunidades, insiste uma e outra e outra vez… na esperança de que reconsideremos as nossas opções e escolhamos caminhos que conduzem à vida verdadeira. Numa decisão que mostra bem a profundidade do amor que nos tem, enviou-nos o seu Filho, Jesus. Jesus obedeceu ao Pai e veio ao nosso encontro, fez-se um de nós, partilhou a estrada em que andamos, lutou contra tudo o que nos faz mal, aceitou morrer para nos mostrar o caminho que conduz à vida. Considerando tudo isto, seremos capazes de continuar a preferir caminhos de orgulho e de autossuficiência, à margem de Deus? Que valor assumem, na construção da nossa vida, as propostas que Jesus nos veio trazer?

     

    ACLAMAÇÃO ANTES DO EVANGELHO – Mateus 4,4b

    Escolher um dos refrães:

    Refrão 1: Louvor e glória a Vós, Jesus Cristo, Senhor.

    Refrão 2: Glória a Vós, Jesus Cristo, Sabedoria do

    Pai.

    Refrão 3: Glória a Vós, Jesus Cristo, Palavra do Pai.

    Refrão 4: Glória a Vós, Senhor, Filho do Deus vivo.

    Refrão 5: Louvor a Vós, Jesus Cristo, Rei da eterna glória.

    Refrão 6: Grandes e admiráveis são as vossas obras, Senhor.

    Refrão 7: A salvação, a glória e o poder a Jesus Cristo, Nosso Senhor.

    Nem só de pão vive o homem,
    mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.

     

    EVANGELHO – Mateus 4,1-11

    Naquele tempo,
    Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto,
    a fim de ser tentado pelo Demónio.
    Jejuou quarenta dias e quarenta noites
    e, por fim, teve fome.
    O tentador aproximou se e disse lhe:
    «Se és Filho de Deus,
    diz a estas pedras que se transformem em pães».
    Jesus respondeu lhe:
    «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem,
    mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’».
    Então o Demónio conduziu O à cidade santa,
    levou O ao pináculo do templo e disse Lhe:
    «Se és Filho de Deus, lança Te daqui abaixo, pois está escrito:
    ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos,
    para que não tropeces em alguma pedra’».
    Respondeu lhe Jesus:
    «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».
    De novo o Demónio O levou consigo a um monte muito alto,
    mostrou Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória,
    e disse Lhe:
    «Tudo isto Te darei,
    se, prostrado, me adorares».
    Respondeu lhe Jesus:
    «Vai te, Satanás, porque esta escrito:
    ‘Adoraras o Senhor teu Deus e só a Ele prestaras culto’».
    Então o Demónio deixou O
    e logo os Anjos se aproximaram e serviram Jesus.

     

    CONTEXTO

    Nos Evangelhos Sinópticos, a cena das “tentações de Jesus” está encaixada entre o episódio do batismo e o início da pregação do Reino de Deus (cf. Mc 1,12-13; Mt 4,1-11; Lc 4,1-13).

    No batismo Jesus, o “Filho muito amado” de Deus”, é ungido pelo Espírito, como os profetas (cf. Mt 3,16). No mundo bíblico, a unção anda sempre associada a uma missão. Jesus tem consciência disso: quando o ungiu com o Espírito, o Pai estava a dizer-Lhe que contava com Ele para concretizar um projeto de salvação em favor dos homens.

    Como é que Jesus se posiciona diante da missão que o Pai pretende confiar-Lhe? Como irá concretizá-la? Privilegiará os seus interesses pessoais, ou o projeto de Deus? O episódio das “tentações de Jesus” propõe-se responder a estas questões.

    Trata-se de um episódio real, descrito de forma estritamente histórica, com um “diabo” a disputar a Jesus o centro do palco? Trata-se, fundamentalmente, de uma página de catequese. É muito provável que Jesus, após o seu batismo no rio Jordão, se tenha internado no deserto de Judá e passado alguns dias a meditar sobre a missão que Deus queria confiar-lhe. Nesse tempo de “retiro”, Jesus confrontou-se com uma luta interior, com opções fundamentais, com a definição do seu projeto de vida. É natural também que, mais tarde, Jesus tenha falado com os seus discípulos sobre o que sentiu quando teve de escolher, a fim de que eles percebessem que, diante da proposta do Reino de Deus, também eles tinham de tomar decisões. Esse diálogo deve ter causado uma profunda impressão nos discípulos. O facto de o relato das “tentações de Jesus” ser conhecido desde o início nas comunidades cristãs primitivas mostra isso mesmo.

    O episódio é situado “no deserto”. O deserto é, no imaginário judaico, o lugar da “prova”, onde os israelitas experimentaram, por diversas vezes, a tentação do abandono de Deus e do seu projeto de libertação (embora seja, também, o lugar do encontro com Deus, o lugar da descoberta do rosto de Deus, o lugar onde o Povo fez a experiência da sua fragilidade e pequenez e aprendeu a confiar na bondade e no amor de Deus). Será que a história se vai repetir, que Jesus vai ceder à tentação e dizer “não” ao projeto de Deus, como aconteceu com os israelitas alguns séculos antes?

    As “tentações de Jesus” não são contadas da mesma forma por todos os Sinópticos. Marcos limita-se a referir que Jesus “foi tentado”, sem entrar em pormenores; as narrativas que Mateus e Lucas fazem das “tentações” de Jesus são muito semelhantes entre si, embora a segunda e a terceira “tentação” apareçam, nos dois Evangelhos, em ordem diferente.

     

    MENSAGEM

    Jesus, depois do seu batismo no rio Jordão, foi conduzido pelo Espírito para o deserto, o lugar da “prova”, a fim de “ser tentado pelo Demónio” (vers. 1). Os “quarenta dias” que Jesus passou nesse lugar (vers. 2), devem ser postos em relação com os “quarenta anos” que os hebreus passaram no deserto, depois de terem sido libertados do Egito, e onde tiveram de fazer opções entre Deus e o mal, entre a liberdade e a escravidão. É importante a indicação de que Jesus é conduzido pelo Espírito de Deus, esse Espírito que desceu sobre Ele no momento em que foi batizado: será o mesmo Espírito que O sustentará ao longo da sua missão e que Lhe dará a força para fazer escolhas acertadas, na linha do projeto de Deus.

    O tempo que passou no deserto, a refletir sobre a missão que o esperava, foi para Jesus um tempo de prova, de decisões, talvez de purificação dos razões que o moviam. A figura do “diabo” corporiza, nesse contexto de escolhas, os caminhos errados que também estão à disposição de Jesus. O cenário é montado à volta de um diálogo em que Jesus e o “diabo” debatem as diversas possibilidades que se apresentam, numa luta dialética feita a partir de citações das escrituras sagradas. A catequese sobre as opções de Jesus aparece em três quadros ou “parábolas”.

    A primeira “parábola” (vers. 3-4) sugere que Jesus poderia ter escolhido um caminho de realização material, de satisfação de necessidades materiais: “se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães” (vers. 3). É a tentação – que todos nós conhecemos muito bem – de fazer dos bens materiais a prioridade fundamental da vida. No entanto, Jesus sabe que “nem só de pão vive o homem” e que a realização do homem não está na acumulação egoísta dos bens. A resposta de Jesus cita Dt 8,3 e sugere que o seu alimento – isto é, a sua prioridade – não é um esquema de enriquecimento rápido, mas é o cumprimento da Palavra (isto é, da vontade) do Pai.

    A segunda “parábola” (vers. 5-7) leva-nos até ao “pináculo do templo” de Jerusalém, situado no canto sudoeste do edifício, onde os frequentadores do santuário podiam desfrutar de uma magnífica vista sobre o vale do Cedron. As palavras do “tentador” (“se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’”) sugerem que Jesus poderia ter escolhido um caminho de êxito fácil, mostrando o seu poder através de gestos espetaculares e sendo admirado e aclamado pelas multidões (sempre dispostas a deixarem-se fascinar pelo espetáculo mediático dos super-heróis). Jesus responde a esta tentação citando Dt 6,16, e sugere que não está interessado em utilizar os dons de Deus para satisfazer projetos pessoais de êxito e de triunfo humano. “Não tentar” o Senhor Deus significa, neste contexto, não exigir de Deus sinais e provas que sirvam para a promoção pessoal do homem e para que ele se imponha aos olhos dos outros homens.

    A terceira “parábola” (vers. 8-10) coloca-nos num “monte muito alto” não identificado, onde se podem ver “todos os reinos do mundo e a sua glória”. Não é necessário dizer que não existe nenhum monte no mundo onde seja possível contemplar tal panorâmica. Estamos, portanto, no domínio da catequese. O quadro sugere que Jesus poderia ter escolhido um caminho de poder, de domínio, de prepotência, ao estilo dos grandes da terra. No entanto, Ele sabe que a tentação de fazer do poder e do domínio a prioridade fundamental da vida é uma tentação diabólica; por isso, citando Dt 6,13, diz que só Deus é absoluto e que só Deus deve ser adorado. O poder que corrompe e escraviza nunca será, para Jesus, uma escolha a ter em conta.

    As três tentações aqui apresentadas não são mais do que três faces de uma única tentação: a tentação de prescindir de Deus, de escolher um caminho de egoísmo, de orgulho e de autossuficiência, à margem das propostas de Deus. Mas, para Jesus, ser “Filho de Deus” significa viver em comunhão com o Pai, escutar a sua voz, realizar os seus projetos, cumprir obedientemente os seus planos.

    As respostas de Jesus ao “tentador” mostram claramente qual é o caminho que Ele, desde o início, se propõe seguir. Jesus venceu o combate contra o mal. Ele não quer viver para acumular bens, para dominar sobre pessoas, para exibir em seu proveito a grandeza de Deus. Jesus propõe-se servir o projeto de Deus, sem se desviar um milímetro da vontade do Pai. Ao longo da sua vida, diante das diversas “provocações” que os adversários Lhe lançam, Jesus vai confirmar esta sua “opção fundamental” e vai procurar concretizar, com total fidelidade, o projeto do Pai.

    Israel, ao longo da sua caminhada pelo deserto, sucumbiu frequentemente à tentação de ignorar os caminhos e as propostas de Deus. Jesus, ao contrário, venceu a tentação de prescindir de Deus e de escolher caminhos à margem dos projetos do Pai. De Jesus vai nascer um novo Povo de Deus, cuja vocação essencial é viver em comunhão com o Pai e concretizar o seu projeto para o mundo e para os homens.

     

    INTERPELAÇÕES

    • Começamos, nestes dias, a percorrer um caminho, o caminho quaresmal. É o caminho que nos conduz à Páscoa, à ressurreição, à vida nova. Ao longo desse caminho seremos convidados a analisar, com lucidez e sentido de responsabilidade, as nossas opções, as nossas prioridades, os nossos valores, o sentido da nossa vida… Este tempo poderá ser um tempo de conversão, de realinhamento, de renovação, de mudança; poderá ser a oportunidade para nos reaproximarmos de Deus e das propostas que Ele nos faz. A Palavra de Deus que escutaremos cada domingo ajudar-nos-á a perceber o sem sentido de algumas das nossas escolhas e a detetar alguns dos equívocos em que navegamos. Aceitamos o desafio de percorrer este caminho? O Evangelho deste domingo refere algumas das “tentações” que Jesus teve de enfrentar e vencer. Estamos dispostos, da nossa parte, a identificar as “tentações” que nos escravizam e nos impedem de viver uma vida mais digna, mais humana, mais repleta de sentido e de esperança? Quais são as “tentações” que, com mais frequência, nos afastam do estilo de vida e do projeto de Jesus?
    • Uma das “tentações” com que Jesus teve de se debater foi a dos bens materiais. É uma “tentação” que conhecemos bem, pois temos de lidar com ela a todos os instantes. Apelando à nossa apetência pelo conforto, pelo bem-estar, pela segurança, ela convida-nos a acumular coisas, a priorizar o dinheiro, a fazer dos bens materiais o grande objetivo da nossa vida. É, no entanto, uma “tentação” que pode desvirtuar completamente o sentido da nossa existência: cria dependência, torna-nos escravos dos bens materiais, faz-nos correr atrás de coisas efémeras; fecha-nos à partilha, à solidariedade, à fraternidade; potencia a indiferença face às necessidades dos nossos irmãos; incita-nos a apostar em mecanismos de exploração e de lucro… Qual o lugar e o papel que os bens materiais assumem na nossa vida? A forma como lidamos com os bens materiais é sadia e equilibrada?
    • Outra das “tentações” que se atravessou no caminho de Jesus foi a de utilizar Deus para obter o reconhecimento, os aplausos, o apreço, a consideração dos homens. Não é uma “tentação” tão incomum como parece à primeira vista. Esta “tentação” pode fazer-nos pensar na utilização da fé para obter benefícios pessoais, para construir uma “carreira” de sucesso, para conquistar reputação, renome ou prestígio; pode fazer-nos pensar na utilização da religião para obter privilégios, títulos ou honrarias; pode fazer-nos pensar nas “exigências” que fazemos a Deus para que Ele nos conceda os favores a que julgamos ter direito… E pode, por outro lado, fazer-nos pensar nas cedências que algumas pessoas estão dispostas a fazer, às vezes à custa da própria dignidade, para obter uns minutos de fama e de notoriedade… O reconhecimento, a fama, os aplausos, os privilégios, serão bens pelos quais vale a pena pagar qualquer preço?
    • A terceira das “tentações” que Jesus teve de enfrentar foi a do poder, da glória, dos triunfos humanos. Jesus considerava que a vontade de subjugar os outros, de deter autoridade ilimitada, de dominar o mundo, é algo de diabólico, que pode fazer o homem perder a sua grande referência – Deus. Está na base do orgulho e da autossuficiência que fecham o homem no seu ghetto pessoal; leva o homem a querer libertar-se do “controle” de Deus e a virar as costas a Deus; desenvolve no homem “tiques” de autoritarismo, de intolerância, de prepotência que causam feridas irreparáveis no mundo; favorece o abuso dos mais fracos, dos mais pequenos; promove mecanismos de escravidão, de exploração, de crispação social; fomenta guerras, violências, imperialismos; constrói muros de inimizade que separam as pessoas e que as impedem de viver em harmonia… Esta “tentação” é problema para nós? Como é que nós tratamos aqueles com quem partilhamos o caminho da vida: com sobranceria e arrogância, ou com humildade, respeito e amor?
    • Nós somos humanos e frágeis. Vivemos mergulhados numa realidade de pecado, que nos condiciona e nos arrasta para opções discutíveis. Será possível vencermos essas “tentações” que continuamente aparecem no caminho da nossa vida? Jesus venceu-as. Ele nunca aceitou que a sua vida fosse conduzida pelo meio de equívocos e de facilitismos. Escolheu, uma e outra e outra vez não se afastar do projeto do Pai. Podemos dizer que não temos a mesma força de Jesus. Pode ser verdade. Mas Ele vai à nossa frente a apontar-nos o caminho e a dizer-nos que é possível dizer “não”, uma e outra e outra vez, às propostas que nos levam por caminhos onde não há vida verdadeira. Estamos dispostos a tentar sem desculpas e sem justificações, seguir o exemplo de Jesus?

     

    ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 1.º DOMINGO DA QUARESMA
    (adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)

     

    1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.

    Ao longo dos dias da semana anterior ao 1.º Domingo da Quaresma, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

     

    1. VALORIZAR A ATITUDE PENITENCIAL.

    Neste início da Quaresma, podemos dar mais importância ao rito penitencial. Depois da introdução, o sacerdote pode colocar-se face à cruz, de pé. Toda a assembleia recita “Confesso a Deus…” lentamente, enquanto o sacerdote se inclina profundamente. Depois, após a oração de perdão, enquanto se canta o Kyrie (ou o Senhor, tende piedade de nós), o sacerdote e a assembleia mantêm as mãos abertas e ligeiramente estendidas. Pode-se valorizar igualmente a oração do Salmo 50, um Salmo para a Quaresma, após a segunda leitura, com alguns tempos intercalares de silêncio, convidando mais intensamente à meditação.

     

    1. BILHETE DE EVANGELHO.

    A vida é decisão. Depois do nascimento, em cada dia decidimos viver. Decidimos comer, trabalhar, repousar, cuidar-se, ter tempo de lazer… Diante de tantas contrariedades que é preciso aceitar, assumir, ultrapassar, também é preciso decidir. Nós não decidimos, a maior parte de nós, ser batizados; outros fizeram-no por nós. Mas depois, decidimos crer, rezar, aprofundar a nossa fé, viver segundo o Evangelho. Muitos outros, na nossa própria família talvez, decidiram de modo diferente. Nesta semana, decidamos dar um passo ao encontro de Deus. Com toda a liberdade. Sim, façamos desta semana a semana da liberdade, a dos filhos de Deus. Deus quer-nos livres. Quer que vamos até Ele, livremente.

     

    1. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.

    Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

     

    No final da primeira leitura:

    Senhor, criador do céu e da terra, bendito sejas, porque nos insuflaste o teu sopro de vida, e por Jesus ressuscitado, no nosso batismo, enches-nos do teu Espírito e nos recrias para nos tornarmos vivos.

    Nós Te pedimos ainda: como os primeiros homens, abandonados a si mesmos, sentimo-nos impotentes diante dos fracassos e das misérias do nosso próximo. Dá-nos o conhecimento do bem.

     

    No final da segunda leitura:

    Nós Te damos graças, porque nos enviaste o teu próprio Filho, como um novo Adão, para que Ele tome a cabeça de uma nova humanidade. Nós Te bendizemos pelo dom gratuito da salvação, que nos ultrapassa infinitamente.

    Nós Te pedimos pela multidão dos homens: pelo teu Filho Jesus, concede-nos em plenitude o dom da tua graça, que justifica e dá vida.

     

    No final do Evangelho:

    Pai, é unicamente diante de Ti que nos prostramos, e Te bendizemos pela Palavra que sai da tua boca: ela é o verdadeiro pão que dá vida, ela é a resposta eficaz nas provações, nós acolhemo-la no teu Filho.

    Nós Te pedimos: que o teu Espírito Santo nos torne fiéis à tua Palavra, a exemplo de Jesus, para que possamos segui-l’O no caminho de vida.

     

    1. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.

    Pode-se escolher a Oração Eucarística II para as Missas da Reconciliação, pois põe em evidência a fidelidade de Deus…

     

    1. PALAVRA PARA O CAMINHO.

    Tu poderias… “Se és Filho de Deus…” Não nos acontece, às vezes, estar também do lado do tentador? “Se és Filho de Deus…” Tu poderias suprimir as fomes, as guerras, a miséria… Tu poderias tornar a tua Igreja próspera e célebre aos olhos das nações… Tu poderias… “Vai-te embora, Satanás!”

     

    UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
    PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA

    Grupo Dinamizador:
    José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
    Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
    Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
    www.dehonianos.org

     

    Cadeira de S. Pedro

    Cadeira de S. Pedro


    22 de Fevereiro, 2026

    A festa da Cadeira de S. Pedro, colocada no dia 22 de Fevereiro por um martiriológio muito antigo, é uma boa oportunidade para fazermos memória viva e atualizante do primeiro dos Apóstolos, Simão Pedro. Nascido em Cafarnaum, exercia a sua profissão de pescador quando se encontrou com Jesus de Nazaré. Deixou o trabalho, a casa e a família para seguir o Senhor. Os evangelhos deixam-nos entrever a sua personalidade simples, espontânea e simpática. Jesus escolheu-o como primeiro no grupo dos Doze. Com a festa que hoje celebramos, apoiando-nos no símbolo da cadeira, realçamos a missão de mestre e de pastor conferida a Pedro por Cristo. O Senhor fez assentar sobre ele, como sobre uma pedra, todo o edifício da Igreja.

    Primeira Leitura: 1 Pedro 5, 1-4

    Aos presbíteros que há entre vós, eu - presbítero como eles e que fui testemunha dos padecimentos de Cristo e também participante da glória que se há-de manifestar - dirijo-vos esta exortação: 2Apascentai o rebanho de Deus que vos foi confiado, governando-o não à força, mas de boa vontade, tal como Deus quer; não por um mesquinho espírito de lucro, mas com zelo; 3não com um poder autoritário sobre a herança do Senhor, mas como modelos do rebanho. 4E, quando o supremo Pastor se manifestar, então recebereis a coroa imperecível da glória.

    O texto começa com uma autoapresentação do Apóstolo Pedro, que nos permite colher a sua identidade. Seguem-se algumas recomedações aos ansiãos que, com Pedro, carregam a honra e o peso das responsabilidades que Jesus lhe pôs sobre as costas (vv. 2s.). O Apóstolo transmite, não algo de seu, mas a missão que lhe foi confiada para ser partilhada e participada. Os que, na Igreja, são chamados a exercer um ministério hão-de deixar mover, não por interesse, mas por amor. A sua espiritualidade tem como caraterísticas o total serviço, a plena dedicação, a incondicionada fidelidade. Os que permanecerem fiéis receberão "a coroa imperecível da glória" das mãos do supremo Pastor (cf. v. 4).

    Evangelho: Mateus 16, 13-19

    Ao chegar à região de Cesareia de Filipe, Jesus fez a seguinte pergunta aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?» 14Eles responderam: «Uns dizem que é João Baptista; outros, que é Elias; e outros, que é Jeremias ou algum dos profetas.»15Perguntou-lhes de novo: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» 16Tomando a palavra, Simão Pedro respondeu: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo.» 17Jesus disse-lhe em resposta: «És feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que to revelou, mas o meu Pai que está no Céu. 18Também Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Abismo nada poderão contra ela. 19Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu.»

    No nosso texto, Jesus começa por interrogar os discípulos sobre o que se diz sobre Ele. As respostas que dão são parcialmente válidas, mas inexatas. É então que Jesus interroga os discípulos sobre o que pensam dele. Responde Pedro, em nome de todos: "Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo." (v. 16). Estas palavras são uma profissão de fé total, completa, que já tem o sabor da fé pascal. Estas palavras revelam também a identidade de Pedro como crente e representante de todos os crentes.
    Na segunda parte do texto, temos temos uma série de palavras com as quais Jesus define a sua relação com Pedro e o ministério do Apóstolo em relação à Igreja (vv. 17-19). Pedro é bem-aventurado porque falou sob inspiração divina. O nome novo que Jesus dá a Pedro indica a sua missão de "pedra" fundamental e sólida do edifício que é a Igreja, a comunidade dos salvos. A entrega das chaves simboliza que é com Pedro e por meio de Pedro que Cristo realiza a salvação de todos.

    Meditatio

    «Quem dizem os homens que é o Filho do homem?»... «E vós, quem dizeis que Eu sou?» Em nome dos Doze, Pedro responde à pergunta de Jesus, não segundo o ponto de vista dos homens, mas segundo o ponto de vista de Deus: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo». Por isso, Jesus replica, proclamando-o bem-aventurado: «És feliz, Simão, filho de Jonas». Mas essa resposta é fruto de uma iluminação especial de Deus: «não foi a carne nem o sangue que to revelou, mas o meu Pai que está no Céu» - diz-lhe Jesus.

    Pedro personifica a Igreja. A sua resposta será a da Igreja iluminada pelo Espírito no Pentecostes. Simão Pedro recebeu essa luz antecipadamente, por causa da missão que Cristo lhe queria confiar: «Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja. Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus, e tudo quanto ligares na terra ficará ligado nos Céus, e tudo quanto desligares na terra será desligado nos Céus" (Mt 16, 18-19).» Bento XVI comenta assim estas palavras do Senhor: «As três metáforas às quais Jesus recorre são muito claras: Pedro será o fundamento, a rocha sobre o qual se apoiará o edifício da Igreja; ele terá as chaves do reino dos céus, para abrir ou fechar a quem melhor julgar; por fim, poderá ligar ou desligar, no sentido em que poderá estabelecer ou proibir o que considerar necessário para a vida da Igreja, que é e permanece a Igreja de Cristo. [...]

    Esta posição de preeminência que Jesus decidiu conferir a Pedro verifica-se também depois da ressurreição (Mc 16, 7; Jo, 20, 2. 4-6). [...] Pedro será, entre os Apóstolos, a primeira testemunha de uma aparição do Ressuscitado (Lc 24, 34; 1 Cor 15, 5). Este seu papel, realçado com decisão (Jo 20, 3-10), marca a continuidade entre a preeminência obtida no grupo apostólico e a preeminência que continuará a ter na comunidade que nasceu depois dos acontecimentos pascais. [...] Vários textos-chave relativos a Pedro podem ser relacionados com o contexto da Última Ceia, no decurso da qual Cristo confere a Pedro o ministério de confirmar os seus irmãos (Lc 22, 31ss.). [...] Esta contextualização do primado de Pedro na Última Ceia, no momento da instituição da Eucaristia, Páscoa do Senhor, indica também o sentido último deste primado: Pedro deve ser, para todos os tempos, o guardião da comunhão com Cristo; deve conduzir à comunhão com Cristo; deve preocupar-se por que a rede não se rompa (Jo 21, 11), para que possa perdurar a comunhão universal. Só juntos, podemos estar com Cristo, que é o Senhor de todos. A responsabilidade de Pedro é, pois, a de garantir a comunhão com Cristo pela caridade de Cristo, conduzindo à realização desta caridade na vida de todos os dias».

    Oratio

    Senhor Jesus, quero hoje dar-te graças porque fundaste a Igreja sobre a pedra que é Pedro, para que seja na terra o sinal vivo da santidade do Pai, e anuncie a todos os povos o Evangelho do reino dos céus. Como Simão Pedro, quero dizer-te: afasta-te de mim que sou pecador, mas à tua palavra lançarei as redes; porque só és o Filho do Deus vivo, só tu tens palavras de vida eterna, só tu és a rocha segura, só tu és o Senhor e o Mestre. Sou fraco, muito fraco, mas com a tua graça darei a minha vida por ti, que sabes tudo, que sabes que te amo. Ámen.

    Contemplatio

    O dedo de Deus está bem marcado no estabelecimento da Religião cristã em Roma e na sua conservação há dezanove séculos. No seu estabelecimento, porque Deus se serviu de um pobre pescador galileu estranho às ciências profanas, sem recursos e sem apoios temporais para impor o jugo do Evangelho aos espíritos mais orgulhosos que jamais existiram, aos patrícios da velha Roma todos cheios de si mesmos, orgulhosos das suas riquezas e dados à sensualidade e ao prazer. Na sua conservação, porque nem as torrentes de sangue que os tiranos fizeram correr no circo e no coliseu, nem os assaltos da heresia tão frequentemente repetidos, nem o furor nem a corrupção dos homens nem as potências dos infernos conseguiram abalar esta pedra, centro e fundamento da Religião católica. Renovemos a nossa devoção e a nossa confiança para com a Igreja romana. Sejamos dóceis a todos os seus ensinamentos, a todas as suas direções. Amemo-la, veneremo-la tanto mais quanto mais ela for atacada e combatida. Rezemos pelo Soberano Pontífice e pela Igreja. (L. Dehon, OSP 3, p. 69s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja" (Mt 16, 18).

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    Cadeira de S. Pedro (22 Fevereiro)

  • S. Policarpo, Bispo e Mártir

    S. Policarpo, Bispo e Mártir


    23 de Fevereiro, 2026

    S. Policarpo foi discípulo de S. João Evangelista e por ele colocado à frente da igreja de Esmirna, como bispo. Foi também amigo de S. Inácio de Antioquia, que hospedou em sua casa, quando ele se dirigia para Roma, onde viria a ser martirizado. E foi Inácio que o definiu como "bom pastor com fé inabalável" e "forte atleta por causa de Cristo". Este juízo foi totalmente confirmado no ano 155, quando o corajoso bispo de Esmirna enfrentou o martírio pelo fogo, no estádio da cidade. A sua morte trouxe para a Igreja, como o seu nome indica "muito fruto".

    Lectio

    Primeira leitura: Apocalipse 2, 8-11

    Ao anjo da igreja de Esmirna escreve: «Isto diz o Primeiro e o Último, aquele que estava morto, mas reviveu: 9'Conheço as tuas tribulações e a tua pobreza; no entanto, és rico. Também conheço as calúnias dos que se dizem judeus, mas que não são mais que uma sinagoga de Satanás. 10Não temas nada do que vais sofrer. Eis que o Diabo vai lançar alguns de vós na prisão para vos provar. Sereis atribulados durante dez dias. Sê fiel até à morte e dar-te-ei a coroa da vida.' 11Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. Aquele que vence não será vítima da segunda morte.

    Cristo ressuscitado dita ao vidente do Apocalipse sete cartas para as sete igrejas da Ásia Menor, dirigindo-as aos seus "anjos", isto é, aos seus bispos. Hoje escutamos a mensagem enviada à igreja de Esmirna, que foi bem aceite por Policarpo, seu bispo na época imediatamente sucessiva à dos apóstolos. O santo bispo enfrentou corajosamente os sofrimentos, superou a provação, foi fiel até à morte. Assim se tornou participante do mistério pascal de Cristo. Depois de o celebrar durante muitos anos no sacrifício eucarístico, tornou-o visível no seu próprio corpo, pelo martírio.

    Evangelho: da féria ou do Comum

    Meditatio

    S. Policarpo teve a felicidade de conhecer e de abraçar a religião cristã desde a juventude. Foi nela instruído pelos próprios apóstolos, e particularmente por S. João evangelista, que o estabeleceu depois bispo de Esmirna. Governou a Igreja de Esmirna durante sessenta e dois anos. O brilho das suas virtudes fazia com que fosse visto como o chefe e o primeiro dos bispos da Ásia. Os fiéis reverenciavam-no, esforçavam-se por lhe tirarem os seus sapatos no regresso das suas viagens apostólicas, considerando uma graça prestarem-lhe um pequeno serviço. Formou vários discípulos, como ele mesmo tinha sido formado pelos apóstolos. Santo Ireneu, bispo de Lião, foi deste número. «Tenho ainda presente no espírito, diz este santo, a gravidade do seu caminhar, a majestade do seu rosto, a pureza da sua vida e as santas exortações com que alimentava o seu povo. Parece-me que ainda o ouço dizer como tinha conversado com S. João, e com vários outros que tinham visto Jesus Cristo, as palavras que tinha escutado das suas bocas e as particularidades que tinha aprendido dos milagres e da doutrina deste divino Salvador. Tudo o que acerca disto dizia era absolutamente conforme às divinas Escrituras, como sendo transmitido por aqueles que tinham sido as testemunhas oculares do Verbo, da palavra de vida» ... A virtude é sempre provada. Nosso Senhor, no Apocalipse, descreve as provações do nosso grande santo: «Conheço a tua tribulação e a tua pobreza - e no entanto és rico - e sei que és difamado pelos que se dizem judeus, mas não são mais do que uma sinagoga de Satanás. Não temas os sofrimentos que te esperam. O diabo vai meter alguns de vós na prisão, para serdes postos à prova; e sereis atribulados durante dez dias. Sê fiel até à morte e dar-te-ei a coroa da vida.» O povo enganado pediu a sua morte, como tinha feito para Cristo. Procuraram o santo no seu modesto quarto. Teria podido salvar-se, mas não quis. «Que se faça a vontade de Deus!», diz. Os guardas queriam persuadi-lo a oferecer incenso aos ídolos e a César para salvar a sua vida. «Não posso», disse-lhes simplesmente. Como Jesus, foi conduzido ao suplício, bruscamente e sem considerações. Caiu e levantou-se pelo caminho. No anfiteatro, ouviram uma voz do céu que dizia: «Coragem, Policarpo, sê firme!» O magistrado pressionou-o em vão para que renunciasse a Jesus Cristo. «Há oitenta e seis anos que o sirvo, diz o santo, e nunca me fez mal». O povo gritava: «É o chefe dos cristãos, o destruidor dos nossos deuses; foi ele que ensinou a muitos a não mais os adorarem". Teriam querido que o entregassem aos leões, mas o espetáculo público tinha terminado. Condenaram-no ao fogo. O povo correu a procurar madeira nas lojas e nos banhos públicos e preparou uma grande fogueira. (Leão Dehon, OSP 3, p. 92s.).
    Policarpo, segundo a palavra de Paulo, "oferecei os vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus" (Rm 12, 1), fez de si mesmo, uma oblação a Deus. A eucaristia que celebrava no altar plasmou totalmente a sua vida e a sua morte. O seu martírio foi uma verdadeira celebração litúrgica.

    Oratio

    Grande santo, ajudai-me. Vós sois uma testemunha do amor do Coração de Jesus, aceso na vossa alma pelo apóstolo S. João. Ajudai-me a amar o Coração de Jesus, a imitar as suas virtudes de humildade, de mansidão, de generosidade, a sofrer com Ele e por Ele, esperando a hora de ir gozar na sua presença. (Leão Dehon, OSP 3, p. 94).

    Contemplatio

    Aconteceu a S. Policarpo o que tinha acontecido ao seu mestre S. João, o fogo do seu coração ultrapassou e extinguiu o fogo material com que o envolviam. Tinha-se entregue ao suplício. Como o quisessem pregar a um poste, disse: «Deixai-me; aquele que me dá a força para sofrer o fogo, dar-me-á a graça de permanecer firme na fogueira, sem o socorro dos vossos pregos». Contentaram-se em ligá-lo com cordas. Assim amarrado, ergueu os seus olhos ao céu e disse: «Senhor, Deus todo poderoso, dou-vos graças pelo que me haveis concedido neste dia, por entrar no número dos vossos mártires e tomar parte no cálice do vosso Cristo, a fim de que eu ressuscite para a vida eterna. Que eu seja admitido hoje com eles na vossa presença, como uma vítima de agradável odor, tal como a haveis preparado, predito e cumprido, vós que sois o verdadeiro Deus; eu vos bendigo, vos glorifico pelo pontífice eterno e celeste, Jesus Cristo vosso filho, ao qual seja dada glória, assim como a vós e ao Espírito Santo, agora e em toda a eternidade. Ámen!» Quanto disse ámen, acenderam o fogo, mas por um milagre surpreendente, a chama, em vez de consumir o santo mártir, estendeu-se à volta dele como a vela de um barco enfunada pelo vento. Os pagãos, vendo que o fogo se recusava a servi-los, mandaram ferir o santo com um golpe de espada e o seu sangue extinguiu a fogueira. (Leão Dehon, OSP 3, p. 93s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "Recebei-me, Senhor, como oblação de suave odor" (S. Policarpo).

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    S. Policarpo, Bispo e Mártir (23 Fevereiro)