Eventos Abril 2026

  • 01º Domingo de Páscoa – Ano A [atualizado]

    01º Domingo de Páscoa – Ano A [atualizado]

    5 de Abril, 2026

    ANO A

    DOMINGO DE PÁSCOA

    Tema do Domingo de Páscoa

    A liturgia deste domingo celebra a ressurreição de Jesus. Proclama a vitória da Vida sobre a morte, do Amor sobre o ódio, do Bem sobre o mal, da Verdade sobre a mentira, da Luz sobre as trevas. Garante-nos que a morte não pode prender quem aceita fazer da própria vida um dom de amor. É do amor que nasce a Vida plena, a Vida em abundância, a Vida verdadeira e eterna.

    Na primeira leitura Pedro, em nome da comunidade, apresenta o exemplo de Cristo que “passou pelo mundo fazendo o bem” e que, por amor, fez da sua vida um dom total a Deus e aos homens. Por isso, Deus ressuscitou-O: o caminho que Jesus percorreu e propôs conduz à Vida. Os discípulos, testemunhas desta dinâmica, devem anunciar este “caminho” a todos os homens.

    O Evangelho convida-nos a olhar para o túmulo vazio de Jesus e a “acreditar”: o verdadeiro discípulo de Jesus, aquele que o conhece bem, que entende a sua proposta e está disposto a segui-l’O sabe que a forma como Ele viveu e amou não podia terminar no túmulo, no fracasso, no nada. Por isso, está sempre preparado para acolher a Boa notícia da ressurreição.

    A segunda leitura ensina que os cristãos, unidos a Cristo ressuscitado pelo batismo, morreram para o pecado e nasceram para a Vida nova. Ao longo da sua caminhada pelo mundo, devem dar testemunho dessa Vida nova nos seus gestos, no seu amor, no seu serviço a Deus e aos homens.

     

    LEITURA I – Atos dos Apóstolos 10,34.37-43

    Naqueles dias,
    Pedro tomou a palavra e disse:
    «Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia,
    a começar pela Galileia,
    depois do batismo que João pregou:
    Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré,
    que passou fazendo o bem
    e curando a todos os que eram oprimidos pelo Demónio,
    porque Deus estava com Ele.
    Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez
    no país dos judeus e em Jerusalém;
    e eles mataram-n’O, suspendendo-O na cruz.
    Deus ressuscitou-O ao terceiro dia
    e permitiu-Lhe manifestar-Se, não a todo o povo,
    mas às testemunhas de antemão designadas por Deus,
    a nós que comemos e bebemos com Ele,
    depois de ter ressuscitado dos mortos.
    Jesus mandou-nos pregar ao povo
    e testemunhar que Ele foi constituído por Deus
    juiz dos vivos e dos mortos.
    É d’Ele que todos os profetas dão o seguinte testemunho:
    quem acredita n’Ele
    recebe pelo seu nome a remissão dos pecados.

     

    CONTEXTO

    Todos os anos a liturgia propõe-nos, ao longo dos domingos do tempo pascal, a leitura dos Atos dos Apóstolos. Obra de Lucas (que também foi o autor do 3.º Evangelho), os Atos é o livro “pascal” por excelência: conta-nos como os discípulos, depois de terem feito a experiência de encontro com o Ressuscitado e animados pelo Espírito que lhes foi enviado, abriram as portas da casa onde se encontravam escondidos e tornaram-se testemunhas de Jesus e do seu projeto. Deram assim cumprimento ao mandato que Jesus lhes tinha deixado quando se despediu deles e partiu ao encontro do Pai (cf. At 1,8).

    O “tempo” dos Atos é o “tempo” da Igreja (a comunidade que nasceu de Jesus e que continua a viver de Jesus) e o “tempo” do Espírito. Nesta nova fase da história da salvação, compete aos discípulos, animados e conduzidos pelo mesmo Espírito que ungiu Jesus e o acompanhava na sua missão, levarem ao mundo a salvação de Deus. Os discípulos são nesta nova fase, como Jesus o tinha sido enquanto andou pelas aldeias e vilas da Galileia, o rosto visível do Deus salvador e libertador. O seu testemunho deve percorrer um “caminho” que vai de Jerusalém – no Antigo Testamento, o lugar onde devia manifestar-se definitivamente a salvação de Deus – até “aos confins da terra”. É esse, precisamente, o “percurso” que o livro dos Atos nos apresenta.

    A execução de Estevão (um dos diáconos da Igreja de Jerusalém) e a perseguição que se abateu, logo depois, sobre os cristãos de Jerusalém fez com que diversos membros da comunidade saíssem da cidade e buscassem refúgio nas regiões vizinhas (cf. At 8,1). Assim, o Evangelho de Jesus chegou à Samaria, a Damasco e a Antioquia da Síria. Mais tarde, sobretudo por ação de Paulo, a Boa Nova de Jesus foi anunciada na Ásia Menor e na Grécia. Os Atos terminam com Paulo a chegar a Roma: o anúncio da salvação de Deus tinha alcançado o coração do mundo gentio; era uma proposta de salvação para todos os homens e mulheres que a quisessem acolher.

     

    Um dos episódios importantes desta saga missionária aconteceu em Cesareia Marítima (cf. At 10,24-48), a cidade da costa mediterrânica que era a sede do poder romano na Palestina. Os protagonistas desse episódio foram o apóstolo Pedro e um centurião romano chamado Cornélio. Pedro, convocado pelo Espírito (cf. At 10,19-20) e respondendo a um pedido de Cornélio (cf. At 10,22), foi a Cesareia, entrou em casa do centurião, expôs-lhe o essencial da fé cristã e batizou-o, bem como a toda a sua família (cf. At 10,23b-48). Cornélio foi o primeiro pagão a ser acolhido na Igreja de Jesus. É a primeira vez que um dos membros proeminentes da comunidade cristã (Pedro) admite que o Evangelho de Jesus é uma Boa Notícia destinada a todos os homens e mulheres, de todas as raças e culturas.

    O texto que, neste dia de Páscoa, nos é proposto como primeira leitura, é parte da “instrução” de Pedro a Cornélio e sua família. Trata-se de uma composição de Lucas onde aparecem os elementos fundamentais do kerigma cristão sobre Jesus.

     

    MENSAGEM

    Num breve resumo, Pedro “apresenta” Jesus a Cornélio e aos seus familiares. É um “primeiro anúncio”, que elenca as coordenadas fundamentais da vida e do caminho de Jesus.

    Pedro começa por testemunhar que Jesus foi “ungido” por Deus e recebeu o Espírito Santo quando foi batizado no rio Jordão (vers. 38a); na sequência dessa unção, Jesus assumiu a missão que Deus lhe confiou e, animado pela força do Espírito, andou de lugar em lugar “fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo Mal, porque Deus estava com Ele” (vers. 38b). As forças do Mal, contudo, sentiram que Jesus as desafiava e decidiram calá-l’O: “mataram-n’O, suspendendo-O de um madeiro” (vers. 39b); mas Deus não aceitou que o seu “ungido” terminasse assim o seu caminho no meio dos homens e “ressuscitou-O ao terceiro dia” (vers. 40). Deus, ao ressuscitar Jesus, deu-Lhe razão e garantiu a veracidade do seu caminho e da sua proposta. Finalmente, Pedro tira as conclusões acerca da dimensão salvífica de tudo isto: a vida de Jesus, as opções de Jesus, as palavras de Jesus, os gestos de Jesus são fonte de Vida para todos aqueles que O conhecem e que decidem caminhar com Ele (vers. 43b: “quem acredita n’Ele, recebe, pelo seu nome, a remissão dos pecados”). Pedro conclui a sua reflexão atestando a veracidade de tudo o que acabou de proclamar sobre Jesus: “nós somos testemunhas de que tudo isto aconteceu”, de que foi assim que Jesus viveu e de que Deus O ressuscitou e O fez vencer todos aqueles que O quiseram calar e encerrar num túmulo (vers. 39a.41.42). Pedro e os outros discípulos garantem ao mundo que a história de Jesus não é uma fábula inventada, mas sim uma história de vida que eles conheceram, acompanharam e comprovaram.

    Estamos em dia de Páscoa, a celebrar a ressurreição de Jesus e a tentar perceber todo o alcance desse acontecimento. Repare-se como a ressurreição de Jesus não é apresentada, neste anúncio de Pedro, como um facto isolado, mas como o culminar de uma vida vivida na obediência ao Pai e na doação aos homens. Depois de Jesus ter passado pelo mundo “fazendo o bem e libertando todos os que eram oprimidos”, depois de Ele ter morrido na cruz como consequência desse “caminho”, Deus ressuscitou-O. A vida nova e plena que a ressurreição significa parece ser o ponto de chegada de uma existência posta ao serviço do projeto salvador e libertador de Deus. Por outro lado, esta vida vivida na entrega e no dom é uma proposta transformadora que, uma vez acolhida, liberta da escravidão do egoísmo e do pecado (vers. 43).

    Qual o papel dos discípulos no meio de tudo isto? Eles aderiram a Jesus e acolheram a sua proposta libertadora. Estão, portanto, a ressuscitar com Jesus. Compete-lhes serem testemunhas, diante dos homens e mulheres da terra inteira, de Jesus e da Vida nova que d’Ele receberam. É precisamente esse testemunho que Pedro dá diante de Cornélio e sua família.

     

    INTERPELAÇÕES

    • A ressurreição de Jesus é a consequência de uma vida gasta a “fazer o bem e a libertar os oprimidos”. Isso significa que, sempre que alguém – na linha de Jesus – se esforça por vencer o egoísmo, a mentira, a injustiça e por fazer triunfar o amor, está a ressuscitar; significa que, sempre que alguém – na linha de Jesus – se dá aos outros e manifesta, em gestos concretos, a sua entrega aos irmãos, está a construir vida nova e plena. Estamos a ressuscitar, porque caminhamos pelo mundo fazendo o bem e libertando os oprimidos, ou a nossa vida é um repisar os velhos esquemas do egoísmo, do orgulho, do comodismo?
    • A ressurreição de Jesus significa também que o medo, a morte, o sofrimento e a injustiça deixam de ter poder sobre a pessoa que ama, que se dá, que partilha a vida. Ela tem assegurada a Vida plena – essa Vida que os poderes do mundo não podem destruir, atingir ou restringir. Ela pode, assim, enfrentar o mundo com a serenidade que lhe vem da fé. Estamos conscientes disto, ou deixamo-nos dominar pelo medo, sempre que temos de agir para combater aquilo que rouba a vida e a dignidade, a nós e a cada um dos nossos irmãos?
    • Aos discípulos pede-se que sejam as testemunhas da ressurreição. Nós não vimos o sepulcro vazio; mas fazemos, todos os dias, a experiência do Senhor ressuscitado, que está vivo e caminha ao nosso lado nos caminhos da história. A nossa missão é testemunhar essa realidade; no entanto, o nosso testemunho será oco e vazio se não for comprovado pelo amor e pela doação, as marcas da vida nova de Jesus. O nosso testemunho da ressurreição é coerente e credível e traduz-se em gestos concretos de amor, de partilha, de serviço?

     

    SALMO RESPONSORIAL – Salmo 117 (118)

    Refrão 1: Este é o dia que o Senhor fez: exultemos e cantemos de alegria.

    Refrão 2: Aleluia.

    Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom,
    porque é eterna a sua misericórdia.
    Diga a casa de Israel:
    é eterna a sua misericórdia.

    A mão do Senhor fez prodígios,
    a mão do Senhor foi magnífica.
    Não morrerei, mas hei de viver
    para anunciar as obras do Senhor.

    A pedra que os construtores rejeitaram
    tornou-se pedra angular.
    Tudo isto veio do Senhor:
    é admirável aos nossos olhos.

     

    LEITURA II – Colossenses 3,1-4

    Irmãos:
    Se ressuscitastes com Cristo,
    aspirai às coisas do alto,
    onde está Cristo, sentado à direita de Deus.
    Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra.
    Porque vós morrestes
    e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.
    Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar,
    também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória.

     

    CONTEXTO

    Colossos era uma cidade da antiga Frígia (Ásia Menor), situada a cerca de cento e oitenta quilómetros de Éfeso, a dezasseis de Laodiceia e a vinte de Hierápolis. Pertencia à Província romana da Ásia. Em tempos recuados tinha sido cidade rica e populosa; mas no tempo de Paulo tinha perdido o seu esplendor e importância.

    Não foi Paulo que evangelizou Colossos. Durante a longa estadia de Paulo em Éfeso, no decurso da sua terceira viagem, Epafras, discípulo de Paulo e colossense de origem (cf. Col 4,12), fundou a comunidade (cf. Col 1,7), ao mesmo tempo que as de Hierápolis e Laodiceia (cf. Col 4,13). A maior parte dos membros da comunidade cristã de Colossos tinham vindo do paganismo; mas havia também um bom grupo de judeo-cristãos.

    Quando escreveu a Carta aos Colossenses, Paulo estava na prisão (em Roma?). Epafras visitou-o e falou-lhe da “crise” por que estava a passar a Igreja de Colossos. Alguns doutores locais ensinavam doutrinas estranhas, que misturavam elementos cristãos, judaicos e pagãos: especulações acerca dos anjos (cf. Col 2,18), práticas ascéticas, rituais legalistas, prescrições sobre os alimentos e a observância de determinadas festas (cf. Col 2,16.21). Tudo isso deveria (na opinião desses “mestres”) completar a fé em Cristo, comunicar aos crentes um conhecimento superior de Deus e dos mistérios cristãos e possibilitar uma vida religiosa mais autêntica. Contra este sincretismo religioso, Paulo afirma a absoluta suficiência de Cristo: Ele é a imagem do Deus invisível, o primogénito de toda a criatura, o mediador da Criação, aquele que Deus enviou para reconciliar todas as coisas, a cabeça do Corpo que é a Igreja, o Senhor de todos os poderes e dominações (cf. Cl 1,15-20).

    O texto que a liturgia deste domingo de Páscoa nos propõe como segunda leitura é a introdução à reflexão moral da carta (cf. Col 3,1-4,6). Depois de apresentar a centralidade de Cristo no projeto salvador de Deus (cf. Col 1,13-2,23), Paulo recorda aos cristãos de Colossos que é preciso viver de forma coerente e verdadeira o compromisso assumido com Cristo.

     

    MENSAGEM

    Para Paulo, o ponto de partida e a base da vida cristã é a união a Cristo Ressuscitado. Essa união concretiza-se através do batismo. Quando somos batizados e nos unimos a Cristo, morremos para o pecado e ressuscitamos com Cristo para uma Vida nova, uma Vida plena e verdadeira. Essa Vida nova terá a sua plena concretização no mundo de Deus, quando ultrapassarmos as fronteiras da vida terrena e entrarmos na glória de Deus.

    Enquanto não acedemos à glória de Deus, continuamos o nosso caminho na terra; e essa Vida nova que recebemos a partir da nossa união com Cristo ressuscitado tem de manifestar-se já, aqui e agora, nos nossos gestos, nas nossas opções, nas nossas aspirações. Através de um processo de conversão que nunca está terminado, temos de nos ir despojando do nosso egoísmo, da nossa autossuficiência, da nossa arrogância, da nossa maldade (Paulo chama a isso “despir-se do homem velho) para passarmos a viver num dinamismo de amor, de serviço simples e humilde, de bondade, de misericórdia de mansidão, de dom da vida (Paulo chama a isso “revestir-se do Homem Novo”). Cristo ressuscitado, que venceu o pecado e a morte, será sempre a nossa referência e o nosso modelo de vida. Caminhamos na terra, mas de olhos postos no céu (“afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra”).

    Desta opção por Cristo e desta união com Cristo ressuscitado resultam exigências práticas que Paulo vai enumerar, de forma bem concreta, nos versículos seguintes (cf. Col 3,5-4,1).

     

    INTERPELAÇÕES

    • O Batismo introduz-nos numa dinâmica de comunhão com Cristo ressuscitado. A partir do Batismo, Cristo passa a ser o centro e a referência fundamental à volta da qual se constrói toda a vida do crente. Qual o lugar que Cristo ocupa na nossa vida? Temos consciência de que o nosso Batismo significou um compromisso com Cristo e uma identificação com Cristo?
    • A identificação com Cristo implica o assumir uma dinâmica de Vida nova, despojada do pecado e feita doação a Deus e aos irmãos. O cristão torna-se então, verdadeiramente, alguém que “aspira às coisas do alto” – quer dizer, alguém que, embora vivendo nesta terra e desfrutando das realidades deste mundo, tem como referência última os valores de Deus. Não se pede ao crente que seja um alienado, alguém que viva a olhar para o céu e que se demita do compromisso com o mundo e com os irmãos; mas pede-se-lhe que não faça dos valores do mundo a sua prioridade, a sua referência última. A nossa vida tem sido uma caminhada coerente com essa dinâmica de Vida nova que começou no dia em que fomos batizados? Esforçamo-nos, realmente, por nos despojarmos do “homem velho” e por nos revestirmos do “Homem Novo”, do homem que se identifica com Cristo e que vive no amor, no serviço, na doação aos irmãos?
    • Paulo, a partir do exemplo de Cristo, garante-nos que esse caminho de despojamento do “homem velho” não é um caminho de derrota e de fracasso; mas é um caminho de glória, no qual se manifesta a realidade da Vida eterna, da Vida verdadeira. Neste dia de Páscoa, diante do túmulo vazio e da certeza de que Jesus triunfou da morte e do pecado, reconhecemos a verdade do testemunho de Paulo?
    • Quando, de alguma forma, estou envolvido na preparação ou na celebração do sacramento do Batismo, tenho consciência – e procuro passar essa mensagem – de que o sacramento não é um ato tradicional ou social (que, por acaso, até proporciona fotografias bonitas), mas um compromisso sério e exigente com Cristo?

     

    SEQUÊNCIA PASCAL

    À Vítima pascal
    ofereçam os cristãos
    sacrifícios de louvor.

    O Cordeiro resgatou as ovelhas:
    Cristo, o Inocente,
    reconciliou com o Pai os pecadores.

    A morte e a vida
    travaram um admirável combate:
    Depois de morto,
    vive e reina o Autor da vida.

    Diz-nos, Maria:
    Que viste no caminho?

    Vi o sepulcro de Cristo vivo
    e a glória do Ressuscitado.
    Vi as testemunhas dos Anjos,
    vi o sudário e a mortalha.

    Ressuscitou Cristo, minha esperança:
    precederá os seus discípulos na Galileia.

    Sabemos e acreditamos:
    Cristo ressuscitou dos mortos:
    Ó Rei vitorioso,
    tende piedade de nós.

     

    ALELUIA – 1 Coríntios 5,7b-8a

    Aleluia. Aleluia.

    Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado:
    celebremos a festa do Senhor.

     

    EVANGELHO – João 20,1-9

    No primeiro dia da semana,
    Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro
    e viu a pedra retirada do sepulcro.
    Correu então e foi ter com Simão Pedro
    e com o discípulo predileto de Jesus
    e disse-lhes:
    «Levaram o Senhor do sepulcro
    e não sabemos onde O puseram».
    Pedro partiu com o outro discípulo
    e foram ambos ao sepulcro.
    Corriam os dois juntos,
    mas o outro discípulo antecipou-se,
    correndo mais depressa do que Pedro,
    e chegou primeiro ao sepulcro.
    Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou.
    Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira.
    Entrou no sepulcro
    e viu as ligaduras no chão
    e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus,
    não com as ligaduras, mas enrolado à parte.
    Entrou também o outro discípulo
    que chegara primeiro ao sepulcro:
    viu e acreditou.
    Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura,
    segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

     

    CONTEXTO

    O Quarto Evangelho (cf. Jo 4,1-19,42) apresenta duas partes. Na primeira, João descreve a atividade criadora e vivificadora do Messias, no sentido de dar vida e de criar um Homem Novo – um homem livre da escravidão do egoísmo, do pecado e da morte (para João, o último passo dessa atividade destinada a fazer surgir o Homem Novo foi, precisamente, a morte na cruz: aí, Jesus apresentou a última e definitiva lição – a lição do amor total, que não guarda nada para si, mas faz da vida um dom radical ao Pai e aos irmãos). Na segunda parte do Evangelho (cf. Jo 20,1-31), João apresenta o resultado da ação de Jesus e mostra essa comunidade de Homens Novos, recriados e vivificados por Jesus, que com Ele aprenderam a amar com radicalidade e a quem Jesus abriu as portas da Vida definitiva. Trata-se dessa comunidade de homens e mulheres que se converteram e aderiram a Jesus e que, em cada dia – mesmo diante do sepulcro vazio – são convidados a manifestar a sua fé no Filho de Deus que “ergueu a sua tenda no meio dos homens” para lhes dar Vida em abundância.

    Jesus tinha sido crucificado na manhã de sexta-feira (por volta das nove horas) e tinha morrido na cruz por volta das três horas da tarde desse mesmo dia. No final da tarde, o seu corpo morto tinha sido descido da cruz e depositado, à pressa, num “túmulo novo”, situado num horto, perto do lugar da crucificação (cf. Jo 19,41). Como era habitual, na tradição judaica, uma pedra redonda tinha sido rolada para tapar a entrada do sepulcro. Os rituais fúnebres não tinham sido observados em pormenor, uma vez que nesse dia, ao pôr do sol, começava o sábado e também a celebração da Páscoa judaica (cf. Jo 19,42). Aqueles que lidaram com o sepultamento de Jesus queriam voltar a casa, rapidamente, porque queriam “comer a Páscoa”, nessa noite, em família. Precisavam de se afastar do corpo morto de Jesus para não ficarem “impuros” e serem ritualmente impedidos de celebrar a Páscoa.

    Passado o dia festivo da Páscoa, no “yom rishon”, o primeiro dia da semana, Maria Madalena – uma das mulheres que tinha seguido Jesus desde a Galileia até Jerusalém e que tinha estado junto da cruz de Jesus até à sua morte – dirigiu-se ao túmulo. Presumivelmente levava perfumes para ungir o corpo morto de Jesus (cf. Mc 16,1). Perguntava-se como iria conseguir afastar a enorme pedra que tinha sido rolada, na sexta-feira, para tapar a entrada do sepulcro de Jesus.

     

    MENSAGEM

    O relato joânico começa com uma indicação aparentemente cronológica, mas que deve ser entendida, sobretudo, em chave teológica: “no primeiro dia da semana”. Significa que aqui começa um novo ciclo – o da nova criação, o da libertação definitiva. Este é o “primeiro dia” de um novo tempo e de uma nova realidade – o tempo do Homem Novo, do Homem que nasceu a partir da ação criadora e vivificadora de Jesus.

     

    Nesse primeiro dia da semana, “de manhã cedo”, Maria Madalena dirige-se ao túmulo de Jesus. Maria Madalena representa, no Quarto Evangelho, a nova comunidade nascida da ação criadora e vivificadora do Messias. No entanto, para Maria Madalena “ainda estava escuro”: a comunidade nascida de Jesus estava convencida, nessa hora, de que a morte tinha triunfado e que Jesus estava prisioneiro do sepulcro. Era, portanto, uma comunidade perdida, desorientada, insegura, com medo, sem esperança.

    A primeira coisa que Maria Madalena vê, quando se aproxima, é que a pedra que fechava o sepulcro havia sido retirada. Essa pedra, colocada depois de o corpo morto de Jesus ter sido depositado no túmulo, assinalava a morte definitiva de Jesus. Estabelecia a separação entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Porque é que essa pedra foi retirada? Além disso, o túmulo está vazio. O que é que isso significa? Maria constata estes dados; mas não consegue perceber onde é que eles conduzem. Está desorientada e perplexa. Ainda está na escuridão. Não põe, nesse primeiro momento, a hipótese de a morte de Jesus não ser definitiva. Conclui apenas que alguém tinha retirado daquele túmulo o corpo morto de Jesus. A conclusão de Maria, a sua dificuldade em interpretar os sinais revela, provavelmente, a perplexidade e a confusão dos discípulos, nas primeiras horas da manhã de Páscoa, diante do túmulo vazio de Jesus. Só mais tarde, num desenvolvimento que a liturgia deste dia não conservou, Maria Madalena fará a experiência do encontro com Jesus ressuscitado e tornar-se-á testemunha da ressurreição (cf. Jo 20,11-18).

    Na sequência, João entende apresentar uma catequese sobre a dupla atitude dos discípulos diante do mistério da morte e da ressurreição de Jesus. Essa dupla atitude é expressa no comportamento dos dois discípulos que, na manhã da Páscoa, alertados por Maria Madalena para o facto de o corpo de Jesus ter desaparecido, correram ao túmulo: Simão Pedro e um “outro discípulo” não identificado (mas que parece ser esse “discípulo amado”, apresentado no Quarto Evangelho como o modelo ideal do discípulo).

     

    O “discípulo amado” é uma figura de proa no Evangelho segundo João. Na última ceia, foi ele que recebeu a confidência de Jesus sobre a traição de Judas (cf. Jo 13,23-26); na paixão, foi ele que conseguiu estar perto de Jesus no átrio do sumo sacerdote, enquanto Pedro O trai (cf. Jo 18,15-18.25-27); foi ele que esteve junto de Jesus, numa altura em que os outros discípulos estavam escondidos, cheios de medo (cf. Jo 19,25-27); foi ele que reconheceu Jesus ressuscitado naquele vulto que apareceu junto da praia no lago de Tiberíades, após uma noite inglória de pesca (cf. Jo 21,7). É um discípulo muito próximo de Jesus, com uma ligação e uma empatia especiais com Jesus. Nas cenas em que apareceu lado a lado com Pedro, o “discípulo amado” levou vantagem. Aqui, isso irá acontecer outra vez: ele correu mais e chegou ao túmulo primeiro que Pedro. Correu mais, porque amava mais; chegou primeiro, porque sempre esteve mais próximo de Jesus. No entanto, diz o texto, “não entrou”. Só avançou depois de Pedro ter entrada no sepulcro: ao ceder o passo a Pedro, mostra deferência e amor, que é o que se esperaria de alguém que tem uma forte ligação a Jesus. Este discípulo “viu e acreditou” (vers. 8). Viu os sinais, soube interpretá-los e o seu amor a Jesus levou-o a perceber que o Mestre tinha vencido a morte. Em contrapartida, não se diz o mesmo sobre Pedro.

    O que é que estas duas figuras de discípulo representam?

    Em geral, Pedro representa, nos Evangelhos, o discípulo obstinado, para quem a morte significa fracasso e que se recusa a aceitar que a Vida nova passe pela humilhação da cruz (Jo 13,6-8.36-38; 18,16.17.18.25-27; cf. Mc 8,32-33; Mt 16,22-23). Ele é, em várias situações, o discípulo que tem dificuldade em entender os valores que Jesus propõe, que raciocina de acordo com a lógica do mundo e que não entende que a Vida eterna e verdadeira possa brotar da cruz. Na sua perspetiva, Jesus fracassou, pois insistiu – contra toda a lógica – em servir e em dar a vida. Para ele, a doação e a entrega não podem conduzir à vitória, mas sim à derrota; portanto, Jesus morreu e o caso está encerrado. A eventual ressurreição de Jesus é, para alguém que vê as coisas dessa forma, uma hipótese absurda e sem sentido.

    Ao contrário, o “outro discípulo” – o “discípulo amado” – é aquele que está sempre próximo de Jesus, que se identifica com Jesus, que adere incondicionalmente aos valores de Jesus, que ama Jesus. Nessa comunhão e intimidade com Jesus, ele aprendeu e interiorizou a lógica de Jesus e percebeu que a doação e a entrega são um caminho de Vida. Para ele, faz todo o sentido que Jesus tenha ressuscitado, pois a vitória sobre a morte é o resultado lógico do dom da vida, do amor até ao extremo.

    Esse “outro discípulo” é, portanto, a imagem do discípulo ideal, que está em sintonia total com Jesus, que percebe e aceita os valores de Jesus, que está disposto a embarcar com Jesus na lógica do amor e do dom da vida, que corre ao encontro de Jesus com um total empenho, que compreende os sinais da ressurreição e que descobre – porque o amor leva à descoberta – que Jesus está vivo. Ele é o paradigma do Homem Novo, do homem recriado por Jesus.

     

    INTERPELAÇÕES

    • A ressurreição de Jesus é a resposta de Deus aos que pretenderam, de forma injusta e criminosa, calar Jesus e banir da história o seu projeto do Reino de Deus. Deus não permitiu que o mal vencesse; Deus não permitiu que a violência, a injustiça, a maldade e a morte tivessem a última palavra; Deus não aceitou que o mundo ficasse refém daqueles que queriam continuar a viver na escuridão. Ao ressuscitar Jesus, Deus deu-Lhe razão; afirmou, alto e bom som, que o caminho proposto por Jesus – o do amor que se dá até às últimas consequências, o do serviço simples e humilde aos irmãos, o do perdão sem limites – é o caminho que leva à Vida. Neste dia de Páscoa, diante do túmulo de Jesus vazio, tenho alguma dúvida em abraçar tudo aquilo que Jesus me disse, com as suas palavras e com os seus gestos, sobre a forma de chegar à Vida definitiva, à Vida eterna?
    • A vitória de Jesus sobre o egoísmo, a violência, a maldade e a morte muda a nossa perspetiva sobre a forma de encarar tudo aquilo que, de forma objetiva, faz sofrer os homens e mulheres que caminham ao nosso lado. Ficar do lado dos que são magoados e crucificados, combater a injustiça e a opressão nas suas mil e uma formas, gastar a vida a servir os mais frágeis e abandonados, recusar um mundo que se constrói sobre violência e prepotência, lutar até ao dom da própria vida para vencer tudo o que gera morte não é algo absurdo. É, segundo Deus, o caminho que fará com que a nossa vida valha a pena e tenha pleno sentido. Talvez essa opção nos deixe cheios de feridas e cicatrizes; mas serão feridas e cicatrizes que Deus curará. Estamos dispostos a dar a vida para que outros tenham Vida? Estamos dispostos a correr riscos para levar a libertação ao mundo e aos nossos irmãos? Cremos firmemente, com toda a nossa alma e com todas as nossas forças, que uma vida gasta a servir não é uma vida fracassada, mas é uma vida que termina em ressurreição?
    • Pedro parece ter sentido dificuldade, diante do túmulo vazio, em “acreditar” que Jesus estivesse vivo e que aquele caminho de cruz tivesse conduzido à Vida. Na verdade, em muitos passos do caminho que percorreu com Jesus, Pedro manifestou dificuldade em sintonizar com Jesus e com a sua lógica. Ele estava habituado a funcionar de acordo com outros valores e padrões, numa lógica muito “do mundo”. Os interesses de Pedro nem sempre coincidiam com a visão de Jesus. Parece estranho, para alguém que andava com Jesus? Teoricamente, sim. Na prática, talvez reconheçamos, nas hesitações e recusas de Pedro, as nossas indecisões, a nossa dificuldade em arriscar, a nossa dificuldade em abandonarmos os critérios “do mundo” para abraçarmos a lógica de Deus. Será assim? O que podemos fazer para sermos menos “Pedro” e mais discípulos que vão, sem hesitar, atrás de Jesus?
    • A fotografia que o evangelista João nos apresenta do “discípulo predileto” é a fotografia de um discípulo que vive em comunhão com Jesus, que se identifica com Jesus e com os seus valores, que interiorizou e absorveu a lógica da entrega incondicional, do dom da vida, do amor total. Por isso, não tem qualquer problema em aceitar que o caminho seguido por Jesus conduz à ressurreição, à Vida nova. Ele “acredita” em Jesus. Revemo-nos nesta figura? Vemo-la como uma proposta com a qual gostaríamos de nos identificar? O que podemos fazer para sermos verdadeiramente “discípulo predileto”?
    • A ressurreição de Jesus é a vitória da Vida sobre a morte, da verdade sobre a mentira, da esperança sobre o desespero, da justiça sobre a injustiça, da alegria sobre a tristeza, da luz sobre as trevas. Abre-nos perspetivas completamente novas e garante-nos o triunfo de Deus sobre as forças que querem destruir o mundo e os homens. Nós, que acreditamos e celebramos a ressurreição de Jesus, somos testemunhas da vitória da Vida junto dos nossos irmãos paralisados pelo medo e pelo pessimismo? A mensagem que levamos ao mundo é uma mensagem de alegria e de esperança que tem as cores da manhã de Páscoa?

     

    ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O DOMINGO DE PÁSCOA
    (adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)

    1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.

    Ao longo dos dias da semana anterior ao Domingo de Páscoa, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus… Aproveitar, sobretudo, a Semana Santa para viver em pleno a Palavra de Deus.

    1. BILHETE DE EVANGELHO.

    Demos a morte àquele que, com um olhar, dava dignidade aos feridos da vida, então Maria Madalena reconhece-O quando Ele a chama pelo seu nome. Demos a morte àquele que tinha falado do amor como de um dom, então Tomé reconhece-O nas suas feridas, provas do dom da sua vida. Demos a morte àquele que tinha declarado “felizes os construtores de paz”, então os discípulos reconhecem-n’O na sua saudação: “A paz esteja convosco!” Demos a morte àquele que tinha partilhado o pão, então dois dos seus discípulos reconhecem-n’O no gesto da fração do pão a caminho de Emaús. A morte não teve a última palavra. Doravante, quem terá a última palavra é a Vida, o Amor, a Paz, a Fé. Tal é na nossa esperança.

    1. À ECUTA DA PALAVRA.

    “Ele viu e acreditou”. O discípulo que Jesus amava viu aquilo que Simão Pedro via: um túmulo vazio, com as ligaduras e o sudário… Mas João crê. Porquê esta diferença na atitude dos dois discípulos? O amor de Pedro por Jesus era grande. Mas com a tríplice negação, o seu amor tinha necessidade de ser confirmado, purificado, perdoado. João, ele, o único entre os apóstolos, ficou até ao fim. Deixou-se invadir por um amor sem falhas. Na última Ceia, tinha sentido bater mais perto o coração do Senhor. Diante do túmulo vazio, ele sabe que se trata de algo de infinitamente mais misterioso, mais decisivo. Muitos homens não tiveram fé no testemunho dos apóstolos. É este amor que nos faz ver para lá das aparências e que queimava o coração de João. “Para vós, pergunta-nos sempre Jesus, quem sou Eu?”

    1. PARA A SEMANA QUE SE SEGUE…

    Falar verdade… Uma maneira simples de testemunhar a nossa fé na ressurreição de Cristo no “primeiro dia da semana” seria, para nós cristãos, não falar mais de fim da semana! Porque, evidentemente, o domingo não é o fim da semana, mas o seu começo. O domingo é o primeiro dia, o dia do Senhor. Então, podemos habituar-nos a falar em “início de semana” em vez de “fim de semana”.

     

    UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
    PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA

    Grupo Dinamizador:
    José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
    Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
    Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
    www.dehonianos.org

     

  • 02º Domingo da Páscoa - Ano A [atualizado]

    02º Domingo da Páscoa - Ano A [atualizado]

    12 de Abril, 2026

    ANO A
    2.º Domingo da Páscoa
    Domingo da Divina Misericórdia

    Tema do 2.º Domingo da Páscoa

    Foi o Papa João Paulo II que, no ano 2000, consagrou o segundo domingo do tempo pascal como o domingo da Divina Misericórdia. A liturgia deste domingo convida-nos a contemplar a comunidade de homens novos que nasce da cruz e da ressurreição de Jesus – a Igreja. Jesus ressuscitado, no próprio dia da ressurreição, confia à sua comunidade a missão de dar testemunho no mundo do amor e da misericórdia de Deus.

    O Evangelho apresenta a comunidade da Nova Aliança, nascida da atividade criadora e vivificadora de Jesus. É uma comunidade que se reúne à volta de Jesus ressuscitado, que recebe d’Ele Vida, que é animada pelo Seu Espírito e que dá testemunho no mundo da Vida nova de Deus. Quem quiser “ver” e “tocar” Jesus ressuscitado, deve procurá-l’O no meio dessa comunidade que d’Ele nasceu e que d’Ele vive.

    A primeira leitura é uma “fotografia retocada” da primitiva comunidade cristã de Jerusalém. Lucas, o autor dos Atos dos Apóstolos, imprime nela os traços da comunidade ideal: é uma comunidade unida e fraterna, onde os bens são partilhados e onde cada um está atento às necessidades dos outros irmãos; é, também, uma comunidade empenhada em escutar a Boa Notícia de Jesus, em reunir-se para a “fração do pão” e para a oração comunitária. O estilo de vida desta “família” é contagiante e faz com que muitos outros homens e mulheres sintam vontade de integrar a Igreja de Jesus.

    Na segunda leitura um “catequista” dos finais do séc. I lembra a todos os batizados em Cristo a sua condição de homens novos, felizes beneficiários da misericórdia de Deus. Cristo, o vencedor da morte, salvou-os e abriu-lhes as portas da vida definitiva. Certos da vida nova que os espera, os cristãos devem encarar a sua caminhada pela terra com uma “esperança viva”, com uma “alegria inefável e gloriosa”, com um otimismo contagiante.

    LEITURA I – Atos dos Apóstolos 2,42-47

    Os irmãos eram assíduos ao ensino dos Apóstolos,
    à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações.
    Perante os inumeráveis prodígios e milagres
    realizados pelos Apóstolos,
    toda a gente se enchia de terror.
    Todos os que haviam abraçado a fé
    viviam unidos e tinham tudo em comum.
    Vendiam propriedades e bens
    e distribuíam o dinheiro por todos,
    conforme as necessidades de cada um.
    Todos os dias frequentavam o templo,
    como se tivessem uma só alma,
    e partiam o pão em suas casas;
    tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração,
    louvando a Deus e gozando da simpatia de todo o povo.
    E o Senhor aumentava todos os dias
    o número dos que deviam salvar se.

    CONTEXTO

    O livro dos “Atos dos Apóstolos” constitui a segunda parte da obra de Lucas. Depois de ter apresentado, na primeira parte (o “Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas”), “o tempo de Jesus”, Lucas completa a sua obra apresentando “o tempo da Igreja”: é o “tempo” em que a proposta de salvação de Deus é levada ao encontro do mundo pela comunidade de Jesus (a “Igreja”), animada e conduzida pelo Espírito Santo.

    Podemos dividir o livro dos Atos dos Apóstolos em três partes. Na primeira (cf. At 1,12-6,7), Lucas apresenta-nos a Igreja de Jerusalém, nascida de Jesus e do testemunho que os seus discípulos deram sobre Ele logo após a sua morte e ressurreição. Na segunda (cf. At 6,8-12,25), Lucas descreve a expansão da Igreja de Jesus fora de Jerusalém, nomeadamente na Samaria, em Damasco, na faixa costeira palestina e em Antioquia. Na terceira (cf. At 13,1-28,31), Lucas conta-nos as viagens missionárias de Paulo, o seu esforço em levar a Boa Nova de Jesus ao mundo greco-romano, e a chegada de Paulo a Roma, o coração do Império. No entanto, a preocupação de Lucas, ao escrever-nos estas páginas, não é fazer-nos conhecer a “história” da Igreja dos primeiros anos, mas sim apresentar-nos as grandes coordenadas teológicas da missão dos discípulos de Jesus. Essas coordenadas devem ser assumidas e concretizadas pelos discípulos de todos os tempos e lugares.

    O texto que a liturgia deste segundo domingo do tempo pascal nos propõe como primeira leitura, pertence à primeira parte do livro dos Atos. Nela Lucas expõe materiais dispersos (histórias, discursos, reflexões, gestos interpelantes, ações de Deus, orações) que dão conta de momentos significativos da Igreja de Jerusalém… Mas, a certa altura intercala na narrativa três “sumários” (cf. At 2,42-47; 4,32-25; 5,12-16) com informações gerais sobre a comunidade e a forma como ela vive o seu compromisso cristão. Esses “sumários” são uma espécie de “fotos” que nos permitem, com um simples olhar, “contemplar” a “comunidade ideal”, a comunidade que os crentes de todas as épocas devem ter como referência. O primeiro desses sumário – o que nos é exposto pela primeira leitura deste domingo – é dedicado ao tema da unidade e ao impacto que o estilo cristão de vida provocou no povo da cidade.

    Naturalmente, este sumário não será um retrato histórico rigoroso da comunidade cristã de Jerusalém, no início da década de 30 (embora possa ter algumas bases históricas). Quando Lucas escreve este relato (no final da década de 80 do primeiro século), arrefeceu já o entusiasmo inicial dos cristãos: Jesus nunca mais veio para instaurar definitivamente o “Reino de Deus” e posicionam-se no horizonte próximo as primeiras grandes perseguições… Há algum desleixo, falta de entusiasmo, monotonia, divisão e confusão (até porque começam a aparecer falsos mestres, com doutrinas estranhas e pouco cristãs). Neste contexto, Lucas recorda o essencial da experiência cristã e traça o quadro daquilo que a comunidade deve ser.

    MENSAGEM

    Como será, então, essa comunidade ideal, que nasce do Espírito e do testemunho dos apóstolos?
    É uma comunidade que consolida a sua experiência de vida à volta de quatro pilares fundamentais: 1) o ensino dos apóstolos, 2) a comunhão fraterna, 3) a fração do pão, 4) a oração.

    Os apóstolos tinham sido testemunhas oculares da proposta de salvação que Jesus apresentou enquanto andava pelos caminhos da Galileia e da Judeia. Na pregação dessas testemunhas privilegiadas das palavras e dos gestos de Jesus ecoa agora a verdade sobre o Reino de Deus. A comunidade reúne-se à volta dos apóstolos porque quer chegar a Jesus e à Boa Notícia que Ele veio propor. Através do testemunho dos apóstolos quer conhecer a pessoa de Jesus, o seu projeto, os seus valores, o seu estilo de vida, o seu amor até ao extremo, a sua entrega ao Pai e aos homens. A catequese recebida dos apóstolos aproxima de Jesus os membros da comunidade e mostra-lhes como devem viver para se identificarem com Jesus. Construindo a sua fé sobre o testemunho verídico dos apóstolos, os cristãos de Jerusalém estão livres da mentira, das doutrinas falsas, dos falsos profetas que querem afastá-los da verdade do Evangelho.

    A comunidade de Jerusalém é também uma comunidade que vive em comunhão fraterna. Os membros da comunidade veem-se como irmãos e irmãs; consideram-se família em Cristo. Todos eles se identificam com Cristo e são membros do mesmo Corpo de Cristo. Essa fraternidade não é algo abstrato, que se fica pelo discurso teórico e doutrinal; mas é uma fraternidade que se sente, se vê e se expressa na realidade da vida, nos gestos concretos de todos os dias. Significava a renúncia a uma vida vivida em registo de egoísmo, de autossuficiência e de fechamento em si próprio. Implicava terem tudo em comum, partilharem os próprios bens com os irmãos, cuidarem dos mais pobres e frágeis (cf. At 2,44-45). É uma comunidade que assume um compromisso verdadeiro com o amor, com a partilha, com o dom da vida. A caridade é a sua marca distintiva.

    A comunidade cristã de Jerusalém também era assídua à “fração do pão”. Inicialmente a expressão designava o gesto do chefe de família que, no início da refeição, partia o pão e o distribuía aos convivas. Contudo, na linguagem cristã, a “fração do pão” torna-se uma expressão técnica para designar o memorial da “ceia do Senhor”, a “eucaristia”. Era a celebração que resumia toda a vida do Senhor Jesus, feita doação da vida e entrega até à morte. Acompanhada, em geral, de uma refeição fraterna, ela comportava ainda orações, uma pregação e, talvez, gestos de comunhão e de partilha entre os cristãos. Era um momento de alegria, em que a comunidade celebrava a sua união a Jesus e a comunhão fraterna que daí resultava. Os crentes saíam da “fração do pão” mais identificados a Jesus e sentindo mais fortemente os laços que os uniam aos irmãos com quem tinham partilhado o mesmo pão, o pão dado por Jesus aos seus.

    Temos, ainda, as “orações”. Os primeiros cristãos continuaram a frequentar o Templo (“todos os dias frequentavam o Templo” – At 2,46) e a participar da oração da comunidade judaica; no entanto, é bastante provável que, bastante cedo, a comunidade cristã tenha começado a sentir a necessidade de se encontrar para a oração tipicamente cristã, centrada na pessoa de Jesus; e é, talvez, a esta oração comunitária cristã que Lucas se refere. A comunidade de Jesus é, portanto, uma comunidade que se junta para rezar, para louvar o seu Senhor; e a oração comum constituía um momento de comunhão, de aprofundamento dos laços que uniam os membros da comunidade.

    Lucas acena, finalmente, ao testemunho que a comunidade cristã dava aos outros habitantes de Jerusalém. Os gestos realizados pelos apóstolos enchiam toda a gente de temor (cf. At 2,43) – quer dizer, infundiam em todos aqueles que os testemunhavam a inegável certeza da presença de Deus e dos seus dinamismos de salvação. Além disso, a piedade, o amor fraterno, a alegria e a simplicidade dos crentes provocavam a admiração e a simpatia de todo o povo. O estilo de vida dos seguidores de Jesus desafiava os habitantes de Jerusalém e fazia com que aumentasse todos os dias o número dos que aderiam à proposta de Jesus e à comunidade da salvação (cf. At 2,47).

    A comunidade cristã de Jerusalém era, de facto, esta comunidade ideal? Possivelmente, não (outros textos dos Atos falam-nos de tensões e problemas – como acontece com qualquer comunidade humana); mas a descrição, que Lucas aqui faz, aponta para a meta a que toda a comunidade cristã deve aspirar, confiada na força do Espírito. Trata-se, portanto, de uma descrição da comunidade ideal, que pretende servir de modelo à Igreja e às igrejas de todas as épocas.

    INTERPELAÇÕES

    • O autor dos Atos dos Apóstolos refere-se à comunidade cristã de Jerusalém como uma comunidade unida e fraterna, uma família de irmãos e de irmãs “tocada” por Jesus, onde há lugar para todos, onde se cuida dos mais frágeis e necessitados, onde se partilham os bens, onde todos vivem “como se tivessem uma só alma”. Parece demasiado belo para ser verdade, não é? Talvez achemos que Lucas, o autor dos Atos dos Apóstolos, está a exagerar um pouco ao propor-nos um ideal tão elevado… Mas uma comunidade nascida de Jesus, que se reúne à volta de Jesus, que escuta Jesus, que segue Jesus, que conhece o estilo de Jesus, não deveria viver assim? Ora, isto representa um desafio para as nossas comunidades cristãs… Como são e como vivem as comunidades onde a que pertencemos e onde fazemos a nossa experiência de fé? São comunidades onde se sente e respira o amor que Jesus ensinou? São comunidades onde se cuidam das necessidades dos mais pobres e dos mais frágeis? São comunidades onde todos – mesmo aqueles que falharam ou que passaram por experiências traumatizantes – podem fazer uma experiência de misericórdia, de perdão e de acolhimento?

    • A comunidade cristã de Jerusalém era também, de acordo com Lucas, uma comunidade assídua “ao ensino dos Apóstolos”. A “fonte” onde a comunidade alimentava a sua fé era a sã doutrina recebida daqueles que acompanharam Jesus desde a Galileia a Jerusalém, que ouviram as suas palavras e que viram os seus gestos. Não era uma comunidade onde cada um acreditava naquilo que lhe apetecia ou vogava ao sabor dos palpites de qualquer “mestre” interessado em impor aos outros as suas teses ou a sua particular visão da fé. Era uma comunidade interessada em procurar a verdade de Deus. As nossas comunidades cristãs são comunidades que se constroem à volta da Palavra de Deus, que escutam, que partilham e que se guiam pela Palavra de Deus? O nosso caminho de fé assenta na fé da Igreja, ou constrói-se à volta das nossas teorias mais ou menos rebuscadas, das nossas convicções pessoais, das nossas “visões” particulares, das nossas manias e preconceitos? Procuramos descobrir as propostas de Deus num diálogo comunitário e numa partilha sincera com os irmãos, ou achamos que sabemos tudo, que somos os únicos depositários da verdade e que os outros não têm nada a propor-nos?

    • A comunidade cristã de Jerusalém era, ainda, uma comunidade que celebrava liturgicamente a sua fé e que, correspondendo ao convite que Jesus tinha deixado aos discípulos na ”última ceia”, se reunia à volta da mesa eucarística para a “fração do pão”. Era uma comunidade que fazia questão de celebrar o memorial da vida, da morte e da ressurreição do Senhor. Era uma comunidade peregrina, que ao longo do caminho encontrava momentos para parar, para se juntar à volta de Jesus, para escutar a Palavra de Jesus e para se alimentar com o Pão de Jesus. Era uma comunidade que, na fração do pão, aprofundava os laços que a uniam a Jesus e fortalecia a comunhão comunitária. Era uma comunidade que saía da celebração comunitária da fé mais fortalecida, mais consciente da vida que unia todos os seus membros, mais adulta e com mais força para ser testemunha da salvação. Era uma comunidade que vivia da eucaristia. O que é que significa, para nós, a celebração comunitária da fé? A celebração eucarística é um rito aborrecido, a que “assistimos” por obrigação ou por tradição, ou é uma verdadeira experiência de encontro com Jesus e de comunhão com os irmãos que se sentam connosco àquela mesa onde Jesus nos serve a sua Palavra e o seu Pão?

    • O autor dos Atos dos Apóstolos insiste numa realidade que o impressiona sobremaneira: os outros habitantes de Jerusalém sentiam-se “tocados” por aquilo que viam acontecer naquela jovem comunidade nascida de Jesus: os gestos extraordinários que testemunhavam essa vida que Jesus lhes tinha deixado; o amor que os unia e a maneira como todos os membros da comunidade se davam uns com os outros; a alegria, a simplicidade, a bondade que marcavam a vida daqueles seguidores de Jesus… A forma como aquele grupo vivia era tão fascinante e interpelante que, a cada dia, mais e mais gente queria viver daquela forma e se juntava à comunidade. Agora, olhemos para as nossas comunidades cristãs: que testemunho é que nós damos aos nossos contemporâneos que, de fora, olham para nós? Também os “tocamos” com o nosso estilo de vida? A nossa forma de viver a fé diz aos outros homens e mulheres que caminham ao nosso lado que Jesus está vivo e que continua a dar vida ao mundo? A nossa maneira de viver suscita nos nossos irmãos não crentes a vontade de aderir a Jesus e de fazer parte da comunidade de Jesus?

    SALMO RESPONSORIAL – Salmo 117 (118)

    Refrão: Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom,
    porque é eterna a sua misericórdia.

    Diga a casa de Israel:
    é eterna a sua misericórdia.
    Diga a casa de Aarão:
    é eterna a sua misericórdia.
    Digam os que temem o Senhor:
    é eterna a sua misericórdia.

    Empurraram me para cair,
    mas o Senhor me amparou.
    O Senhor é a minha fortaleza e a minha glória,
    foi Ele o meu Salvador.
    Gritos de júbilo e de vitória nas tendas dos justos:
    a mão do Senhor fez prodígios.

    A pedra que os construtores rejeitaram
    tornou se pedra angular.
    Tudo isto veio do Senhor:
    é admirável aos nossos olhos.
    Este é o dia que o Senhor fez:
    exultemos e cantemos de alegria.

    LEITURA II – 1 Pedro 1,3-9

    Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo,
    que, na sua grande misericórdia, nos fez renascer,
    pela ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos,
    para uma esperança viva,
    para uma herança que não se corrompe,
    nem se mancha, nem desaparece,
    reservada nos Céus para vós
    que pelo poder de Deus sois guardados, mediante a fé,
    para a salvação que se vai revelar nos últimos tempos.
    Isto vos enche de alegria,
    embora vos seja preciso ainda, por pouco tempo,
    passar por diversas provações,
    para que a prova a que é submetida a vossa fé
    – muito mais preciosa que o ouro perecível,
    que se prova pelo fogo –
    seja digna de louvor, glória e honra,
    quando Jesus Cristo Se manifestar.
    Sem O terdes visto, vós O amais;
    sem O ver ainda, acreditais n’Ele.
    E isto é para vós fonte de uma alegria inefável e gloriosa,
    porque conseguis o fim da vossa fé,
    a salvação das vossas almas.

    CONTEXTO

    A primeira Carta de Pedro é uma carta dirigida aos cristãos de cinco províncias romanas da Ásia Menor (a carta cita explicitamente a Bitínia, o Ponto, a Galácia, a Ásia e a Capadócia – cf. 1 Pe 1,1). O seu autor apresenta-se com o nome do apóstolo Pedro; no entanto, a análise literária e teológica não confirma que o apóstolo Pedro seja o autor deste texto… Em termos literários, a qualidade literária da carta parece estar bem acima daquilo que seria a maneira de escrever de um pescador pouco instruído, como era o caso de Pedro; em termos teológicos, a “catequese” apresentada parece situar-nos numa época bem posterior à de Pedro, quando a reflexão cristã já tinha conhecido uma significativa evolução. A tudo isto devemos acrescentar um outro dado significativo: o “ambiente” descrito na carta corresponde, claramente, à situação das comunidades cristãs na fase final do séc. I. Ora, se Pedro morreu em Roma durante a perseguição de Nero (por volta do ano 67), não pode ser o autor deste escrito. O autor da carta será, portanto, um cristão anónimo culto – provavelmente um responsável de alguma comunidade – e que conhece profundamente a situação das comunidades cristãs da Ásia Menor. Ele escreve em finais do séc. I (nunca antes dos anos 80), provavelmente a partir de uma comunidade cristã não identificada da Ásia Menor.
    Os destinatários desta carta são as comunidades cristãs que vivem em zonas rurais da Ásia Menor. A maioria dos membros dessas comunidades são camponeses pobres, que cultivam as propriedades da gente rica. Também há, nestas comunidades, pequenos proprietários que vivem em aldeias, à margem das grandes cidades. Trata-se, em qualquer caso, de gente que vive no meio rural, economicamente débil, vulnerável à hostilidade que o Império começa a manifestar para com o cristianismo.
    O autor da carta conhece as provações que estes cristãos sofrem todos os dias. Exorta-os, no entanto, a manterem-se fiéis à sua fé, apesar das dificuldades. Convida-os a olharem para Cristo, que passou pela experiência da paixão e da cruz, antes de chegar à ressurreição; e exorta-os a manterem a esperança, o amor, a solidariedade, vivendo com alegria, coerência e fidelidade a sua opção cristã.
    A segunda leitura que a liturgia deste domingo nos propõe apresenta-nos os primeiros versículos da carta. Trata-se de uma espécie de prólogo teológico-cristocêntrico onde se formulam os temas principais que irão ser desenvolvidos ao longo da carta.

    MENSAGEM

    O texto apresenta-se na forma de um hino de ação de graças, ao estilo das bênçãos judaicas. Nele, o autor louva a Deus pela sua obra salvadora em favor dos homens. Há quem veja neste hino uma espécie de “credo abreviado” do povo de Deus.
    Foi Deus que tomou a iniciativa de oferecer ao homem a salvação. Fê-lo por meio de Jesus Cristo, o Filho que entendeu enviar ao encontro dos homens (cf. 1Pe 1,2). A vitória de Jesus sobre a morte ocupa um lugar central nessa história de salvação que Deus quis escrever para nós (cf. 1Pe 1,3). Os que aderem a Cristo e se identificam com Ele – isto é, os que são batizados – participam da sua ressurreição e renascem para uma vida nova. A vida que os anima é a vida do Ressuscitado. Abre-se para eles um novo horizonte, um horizonte que a fragilidade e a morte não conseguirão manchar. A vida dos batizados em Cristo é marcada “por uma esperança viva, por uma herança que não se corrompe, nem se mancha, nem desaparece” (1Pe 1,3-4). Os que se identificam com Cristo e participam da sua ressurreição estão destinados à vida eterna, à “salvação que se vai revelar nos últimos tempos” (1Pe 1,5). Conscientes de que estão destinados à salvação, os crentes caminham na alegria e na esperança: eles sabem que, aconteça o que acontecer, lhes está reservado o encontro com a vida plena e definitiva. No seu horizonte de vida não há lugar, portanto, para o pessimismo e para o desânimo.
    A vida dos batizados é então uma vida sem obstáculos nem crises, uma caminhada triunfal e indolor ao encontro dessa vida definitiva que os espera? Não. O caminho que os homens percorrem na terra será sempre um caminho marcado por numerosas aflições e provações (cf. 1Pe 1,6); e os que optaram por Jesus não estão isentos dessa experiência. Os sofrimentos e as perseguições, no entanto, são uma espécie de “prova”, durante a qual a fé dos crentes é purificada, decantada de interesses mesquinhos, fortalecida; e, nesse processo, o crente vai sendo transformado pela ação do Espírito, até se identificar com Cristo e chegar à vida nova. A título de exemplo, o autor da carta lembra-nos que o próprio ouro tem de ser purificado pelo fogo, antes de aparecer em todo o seu esplendor (cf. 1Pe 1,7).
    De qualquer forma, o percurso existencial dos crentes – cumprido simultaneamente na alegria e na dor – é sempre uma caminhada animada pela esperança da salvação definitiva.
    O grande apelo que o autor da primeira carta de Pedro nos deixa é este: identifiquemo-nos com Cristo, aquele a quem amamos mesmo sem o termos visto; acreditemos n’Ele e sigamo-l’O incondicionalmente, mesmo que as suas indicações nos levem em direção à cruz. Do lado de lá da cruz está a vida nova à nossa espera. Assim chegaremos à salvação (cf. 1Pe 1,9) e daremos sentido pleno às nossas vidas.

    INTERPELAÇÕES

    • O autor da primeira Carta de Pedro coloca a ressurreição de Cristo no centro do projeto salvador de Deus e no centro do nosso caminho de fé. Lembra-nos, a nós que fomos batizados em Cristo, que com Ele renascemos para uma vida nova e eterna. O egoísmo, a maldade, a violência, a injustiça, a morte, já não determinam o sentido último da nossa vida. Cristo, pela sua ressurreição, derrotou tudo isso. Identificados com Cristo, caminhamos na esperança, ao encontro de Deus. A nossa fragilidade, as nossas limitações, as nossas opções duvidosas não põem um ponto final no caminho da nossa plena realização. Deus espera-nos de braços abertos para nos oferecer a vida plena e eterna. É uma mensagem sublime, que encaixa perfeitamente neste longo “dia de Páscoa” que continuamos a celebrar. Estamos conscientes das implicações e do alcance de tudo isto? A certeza da vida gloriosa que nos espera alimenta a nossa caminhada pela terra com uma “esperança viva”, com uma “alegria inefável e gloriosa”, com um otimismo contagiante? Procuramos viver de forma coerente com os compromissos que assumimos no dia do nosso batismo, o dia em que morremos para o pecado e nascemos para a vida nova?

    • Os destinatários da primeira Carta de Pedro faziam o seu caminho de fé em condições difíceis. A hostilidade do Império em relação aos seguidores de Cristo fazia prever, a breve prazo, um ambiente de perseguição e de martírio. Sim, a nossa peregrinação pela terra está marcada por infinitas provações. Porque é que, de uma forma ou de outra, o sofrimento aparece sempre na nossa vida? Porque é que temos de enfrentar tantas crises e dificuldades? Qualquer resposta que possamos dar a estas questões será sempre parcial e insatisfatória. O sofrimento – sobretudo o sofrimento dos justos – continua a ser, para nós, um mistério insondável. No entanto, o autor da Carta propõe-nos um raciocínio que não é destituído de sentido: o sofrimento pode ser uma forma de purificação; ajuda-nos, muitas vezes, a crescer, a amadurecer, a despirmo-nos de orgulhos e autossuficiências, a confiar mais em Deus… Qual é a nossa experiência em relação a isto? Acreditamos que o sofrimento pode ser um caminho purificador? Acreditamos que o sofrimento nos transforma e nos pode ajudar a ressuscitar para uma vida nova?

    ALELUIA – João 20,29

    Aleluia. Aleluia.

    Disse o Senhor a Tomé:
    «Porque Me viste, acreditaste;
    felizes os que acreditam sem terem visto».

    EVANGELHO – João 20,19-31

    Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
    estando fechadas as portas da casa
    onde os discípulos se encontravam,
    com medo dos judeus,
    veio Jesus, colocou Se no meio deles e disse lhes:
    «A paz esteja convosco».
    Dito isto, mostrou lhes as mãos e o lado.
    Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
    Jesus disse lhes de novo:
    «A paz esteja convosco.
    Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós».
    Dito isto, soprou sobre eles e disse lhes:
    «Recebei o Espírito Santo:
    àqueles a quem perdoardes os pecados ser lhes ão perdoados;
    e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».
    Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo,
    não estava com eles quando veio Jesus.
    Disseram lhe os outros discípulos:
    «Vimos o Senhor».
    Mas ele respondeu lhes:
    «Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos,
    se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado,
    não acreditarei».
    Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa
    e Tomé com eles.
    Veio Jesus, estando as portas fechadas,
    apresentou Se no meio deles e disse:
    «A paz esteja convosco».
    Depois disse a Tomé:
    «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos;
    aproxima a tua mão e mete a no meu lado;
    e não sejas incrédulo, mas crente».
    Tomé respondeu Lhe:
    «Meu Senhor e meu Deus!»
    Disse lhe Jesus:
    «Porque Me viste acreditaste:
    felizes os que acreditam sem terem visto».
    Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos,
    que não estão escritos neste livro.
    Estes, porém, foram escritos
    para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus,
    e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.

    CONTEXTO

    Jesus foi crucificado na manhã de uma sexta-feira – dia da “preparação” da Páscoa – e morreu pelas três horas da tarde desse dia. Já depois de morto, um soldado trespassou-lhe o coração com uma lança; e do coração aberto de Jesus saiu sangue e água (cf. Jo 19,31-37). O evangelista João vê no sangue que sai do lado aberto de Jesus o sinal do seu amor dado até ao extremo (cf. Jo 13,1): do amor do pastor que dá a vida pelas suas ovelhas (cf. Jo 10,11), do amor do amigo que dá a vida pelos seus amigos (cf. Jo 15,13); e vê na água que sai do coração trespassado de Jesus o sinal do Espírito (cf. Jo 3,5), desse Espírito que Jesus “entregou” aos seus e que é fonte de Vida nova. Da água e do sangue, do batismo e da eucaristia, nascerá a nova comunidade, a comunidade da Nova Aliança. Contudo, os discípulos que tinham subido com Jesus a Jerusalém e que seriam o embrião dessa comunidade da Nova Aliança, desapareceram sem deixar rasto. Estão escondidos, algures na cidade de Jerusalém, paralisados pelo medo. O projeto de Jesus falhou?
    No final da tarde dessa sexta-feira, o corpo morto de Jesus foi sepultado à pressa num túmulo novo, situado num horto ao lado do lugar onde se tinha dado a crucificação (cf. Jo 19,38-42). Depois veio o sábado, o último dia da semana, o dia da celebração da Páscoa judaica. Durante todo aquele sábado o túmulo de Jesus continuou cerrado.
    A partir daqui a narração de João muda de tempo e de registo. Chegamos ao “primeiro dia da semana”. É o primeiro dia de um tempo novo, o tempo da humanidade nova, nascida da ação criadora e vivificadora de Jesus. “No primeiro dia da semana”, Maria Madalena, a mulher que representa a nova comunidade, vai ao túmulo e vem de lá confusa e desorientada porque o túmulo está vazio (cf. Jo 20,1-2). Logo depois, ainda “no primeiro dia da semana”, Pedro e outro discípulo correm ao túmulo e constatam aquilo que Maria Madalena tinha afirmado: Jesus já não está encerrado no domínio da morte (cf. Jo 20,3-10). A comunidade de Jesus começa a despertar do seu letargo; começa a viver um tempo novo. “Ao entardecer do primeiro dia da semana” (“ou seja, ao concluir-se este primeiro dia da nova criação) a comunidade dos discípulos faz a experiência do encontro com Jesus, vivo e ressuscitado (cf. Jo 20,19-29).

    MENSAGEM

    O texto do Evangelho que a liturgia deste segundo domingo do tempo pascal nos propõe divide-se em duas partes.

    Na primeira (vers. 19-23), narra-se um encontro de Jesus ressuscitado com os discípulos. João começa por descrever a situação em que estavam os discípulos antes de Jesus lhes aparecer: o “anoitecer”, as “portas fechadas”, o “medo”, traduzem a insegurança e o desamparo que eles sentem diante desse mundo hostil que condenou Jesus à morte.
    Mas de repente o próprio Jesus apresenta-se “no meio deles” (vers. 19b). O crucificado está vivo; a morte não o derrotou. Os discípulos já não estão órfãos, abandonados à hostilidade do mundo. Ao colocar-se “no meio deles”, Jesus ressuscitado assume-Se como ponto de referência, fator de unidade, fonte de Vida, videira à volta da qual se enxertam os ramos (cf. Jo 15,5). A comunidade está centrada em Jesus, apenas em Jesus. Ele é o centro onde todos vão beber a água que dá a Vida eterna.
    A esta comunidade que se reúne à sua volta, Jesus transmite duplamente a paz (vers. 19 e 21). Não é apenas o tradicional cumprimento hebraico (“shalom”); significa, para além disso, que Jesus venceu tudo aquilo que assustava os discípulos: a morte, a opressão, a mentira, a violência, a hostilidade do mundo. Doravante os discípulos de Jesus não têm qualquer razão para viverem paralisados pelo medo.
    Depois (vers. 20a), Jesus mostra aos discípulos as mãos com a marca dos pregos e o lado que foi trespassado pela lança do soldado. Nesses “sinais” está, antes de mais, a prova da sua vitória sobre a morte e a maldade dos homens; mas também está a marca da sua entrega até à morte por obediência ao Pai e por amor aos homens. Neles está impressa, por assim dizer, a “identidade” de Jesus: é nesses sinais de amor e de doação que a comunidade reconhece Jesus vivo e presente no seu meio. A permanência desses “sinais” indica a permanência do amor de Jesus: Ele será sempre o Messias que ama e do qual brotarão a água e o sangue que constituem e alimentam a comunidade.
    A esta “apresentação” de Jesus, os discípulos respondem com a alegria (vers. 20b): eles estão alegres porque Jesus está vivo; mas também estão alegres porque sabem que começou um tempo novo, o tempo em que a morte já não assusta, o tempo do Homem Novo, do Homem livre, do Homem que se encontrou com a Vida definitiva.
    Em seguida, Jesus convoca os discípulos para a missão (vers. 21). Que missão? Precisamente a mesma que o Pai Lhe confiou a Ele: realizar no mundo a obra de Deus. Os discípulos concretizarão esta missão sempre em ligação com Jesus (eles são ramos ligados à videira/Jesus, pois só assim darão fruto – cf. Jo 15,1-8).
    Para que os discípulos possam concretizar a missão, Jesus realiza um gesto inesperado, mas bem significativo: “soprou” sobre eles (vers. 22). O verbo aqui utilizado é o mesmo do texto grego de Gn 2,7 (quando se diz que Deus soprou sobre o homem de argila, infundindo-lhe a vida de Deus). Com o “sopro” de Gn 2,7, o homem tornou-se um ser vivente; com este “sopro”, Jesus transmite aos discípulos a Vida nova, o Espírito Santo, que fará deles Homens Novos e que os capacitará para viverem como testemunhas de Jesus ressuscitado. Trata-se, em boa verdade, de uma nova Criação. Da atividade de Jesus, do seu testemunho, do seu amor, do seu dom nasceu uma nova humanidade, capaz de amar até ao extremo, de dar a vida, de realizar a obra de Deus. É este Espírito que, pelo tempo fora, constitui e anima a cada instante a comunidade de Jesus.
    Eis a comunidade da Nova Aliança, nascida da ação e do amor de Jesus!

    Na segunda parte (vers. 24-29), o evangelista João apresenta uma catequese sobre a maneira de os discípulos de Jesus de qualquer época chegarem à fé em Cristo ressuscitado. A história de Tomé, chamado Dídimo (“gémeo”), poderia ser a nossa história. Tomé é o nosso “gémeo”: também nós nem sempre nos contentamos com o testemunho que nos chegou dos primeiros discípulos; também nós gostaríamos de “ver”, de “tocar”, de ter provas palpáveis… Como podemos fazer a experiência de encontro com Jesus ressuscitado?
    Jesus ressuscitado apresenta-se aos discípulos “no primeiro dia da semana”, quando a comunidade está reunida. A comunidade dos discípulos é o lugar natural onde se manifesta e irradia o amor de Jesus; é o lugar onde desponta a Vida nova de Jesus. Por isso, é lá que se faz a experiência da presença de Jesus vivo. Mas Tomé “não estava com eles” (vers. 24). Estava fora da comunidade. “Se eu não vir o sinal dos pregos nas suas mãos e não meter o meu dedo nesse sinal dos pregos e a minha mão no seu lado, não acredito” – diz Tomé quando lhe falam do Ressuscitado (vers. 25). Em lugar de integrar-se e participar da mesma experiência que os outros discípulos fizeram em comunidade, pretende obter para si próprio uma demonstração particular de Deus. Tomé representa aqueles que vivem fechados em si próprios (está fora), que não fazem caso do testemunho da comunidade e que, por isso, nem percebem os sinais de Vida nova que nela se manifestam.
    Mas, “oito dias depois” (portanto, outra vez no primeiro dia da semana), Tomé já está novamente integrado na comunidade; e é aí que ele se encontra com Jesus ressuscitado, pois é aí que se manifestam os sinais de Vida nova que alimentam a fé no Ressuscitado (vers. 26-27). Esta experiência é tão impactante que, do coração rendido de Tomé, brota uma extraordinária declaração de fé, uma das mais belas de toda a Bíblia: “Meu Senhor e meu Deus!” (vers. 28). Também nós, os “gémeos” de Tomé, os que somos chamados a acreditar sem termos visto nem tocado, poderemos fazer a mesma experiência que Tomé fez: é no encontro com o amor fraterno, com o perdão dos irmãos, com a Palavra proclamada em comunidade, com o pão de Jesus partilhado, que se descobre e se experimenta Jesus ressuscitado. É por isso que a comunidade de Jesus continua a reunir-se “no primeiro dia da semana”, no “dia do Senhor” (o domingo).

    INTERPELAÇÕES

    • Nos relatos pascais aparece sempre, em pano de fundo, a convicção profunda de que a comunidade dos discípulos nunca estará sozinha, abandonada à sua sorte: Jesus ressuscitado, Aquele que venceu a morte, a injustiça, o egoísmo, o pecado, acompanhá-la-á em cada passo do seu caminho histórico. É verdade que os discípulos de Jesus não vivem num mundo à parte, onde a fragilidade e a debilidade dos humanos não os tocam. Como os outros homens e mulheres, eles experimentam o sofrimento, o desalento, a frustração, o desânimo; têm medo quando o mundo escolhe caminhos de guerra e de violência; sofrem quando são atingidos pela injustiça, pela opressão, pelo ódio do mundo; conhecem a perseguição, a incompreensão e a morte… Mas, apesar de tudo isso, não se deixam vencer pelo pessimismo e pelo desespero pois sabem que Jesus vai “no meio deles”, oferecendo-lhes a sua paz e apontando-lhes o horizonte da Vida definitiva. É com esta certeza que caminhamos e que enfrentamos as tempestades da vida? Os outros homens e mulheres que partilham o caminho connosco descobrem Jesus, vivo e ressuscitado, através do testemunho de esperança que damos?

    • O Espírito Santo é o grande dom que Jesus ressuscitado faz à comunidade dos discípulos. É Ele que nos transforma, que nos anima, que faz de nós pessoas novas, que nos capacita para sermos testemunhas e sinais da Vida de Deus; é Ele que nos dá a coragem e a generosidade para continuarmos no mundo a obra de Jesus. No entanto, o Espírito só atua em nós se estivermos disponíveis para o acolher. Ele não se impõe nem desrespeita a nossa liberdade. Estamos disponíveis para acolher o Espírito? O nosso coração está aberto aos desafios que o Espírito constantemente nos lança?

    • A comunidade cristã gira em torno de Jesus, é construída à volta de Jesus e é de Jesus que recebe Vida, amor e paz. Sem Jesus, seremos um rebanho de gente assustada, incapaz de enfrentar o mundo e de ter uma atitude construtiva e transformadora; sem Jesus, seremos um grupo de gente que se apoia em leis, que vive de ritos, que defende doutrinas e não a comunidade que vive e testemunha o amor de Deus; sem Jesus, estaremos divididos, mergulhados em conflitos estéreis, e não seremos uma comunidade de irmãos e de irmãs; sem Jesus, cairemos facilmente em caminhos errados e iremos beber a fontes que não matam a nossa sede de Vida… Na nossa comunidade, Cristo é verdadeiramente o centro? É para Ele que tudo tende e é d’Ele que tudo parte? Escutamos as suas palavras, alimentamo-nos d’Ele, vivemos d’Ele, estamos ligados a Ele como os ramos estão ligados à videira?

    • Não é em experiências pessoais, íntimas, fechadas, egoístas, que encontramos Jesus ressuscitado; mas encontramo-l’O sempre que nos reunimos em seu nome, em comunidade. É no diálogo comunitário, na Palavra partilhada, no pão repartido, no amor que une os irmãos em comunidade de vida, que fazemos a experiência da presença de Jesus vivo no meio de nós. O que é que a comunidade cristã significa para mim? Sinto-me bem a caminhar em comunidade, ou a minha experiência de fé é uma experiência isolada, à margem da riqueza e dos desafios que a comunidade me oferece? E, neste âmbito, o que é que significa, para mim, a participação na celebração da Eucaristia, no “primeiro dia da semana”, o dia do encontro comunitário à volta da mesa de Jesus?

    • É nos gestos de amor, de partilha, de serviço, de encontro, de fraternidade, que encontramos Jesus vivo, a transformar e a renovar o mundo; é com gestos de bondade, de misericórdia, de compaixão, de perdão que testemunhamos diante do mundo a Vida nova do Ressuscitado. Quem procura Cristo ressuscitado, encontra-O em nós? O amor de Jesus – amor total, universal e sem medida – transparece nos nossos gestos e na nossa vida?

    ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 2.º DOMINGO DE PÁSCOA
    (adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)

    1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
    Ao longo dos dias da semana anterior ao 2.º Domingo de Páscoa, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

    2. EM RECORDAÇÃO DO BAPTISMO.
    Durante o tempo pascal, é recomendado que se faça o rito penitencial sob a forma de aspersão da água benzida, em recordação do batismo. Durante o tempo pascal, pode-se também valorizar o batistério: flores, iluminação, ícone, etc… e convidar os fiéis a irem aí recolher-se em recordação do dia do seu batismo, em que Deus fez aliança com eles.

    3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
    Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

    No final da primeira leitura:
    Deus da Vida, nós Te bendizemos pela ressurreição do teu Filho Jesus, e pela vida nova que comunicaste à comunidade dos Apóstolos, pelo teu Espírito Santo, pela alegria e pela partilha fraterna.
    Nós Te pedimos por todas as comunidades cristãs nas paróquias e nas dioceses, nos hospitais e nas prisões, nos conventos e nos desertos.

    No final da segunda leitura:
    Bendito sejas, Deus e Pai de Jesus Cristo nosso Senhor, a Ti louvor, honra e glória, porque nos fizeste renascer graças à ressurreição de Jesus Cristo e suscitas nos nossos corações uma esperança viva.
    Nós Te pedimos por todos os nossos irmãos e irmãs que passam provações. Inspira-nos as palavras que possam suscitar neles coragem e esperança.

    No final do Evangelho:
    Nós Te damos graças por este primeiro dia da semana, que se renova todos os oito dias depois da Páscoa de Jesus, e pelo Sopro do teu Espírito Santo, que renova as nossas comunidades na Eucaristia.
    Que a tua paz esteja sempre connosco. Sopra o teu Espírito, que Ele guie a nossa fé e que nós possamos confessar-Te: Meu Senhor e meu Deus.

    4. BILHETE DE EVANGELHO.
    Domingo de ternura de Deus que perdoa. Os nossos contemporâneos sofrem ao verem imagens de violência, ao ouvirem palavras de ódio, ao serem testemunhas de ajuste de contas. Têm necessidade que se lhes fale de conciliação e de reconciliação, de ternura e de perdão, de fidelidade e de confiança. Não nos podemos contentar em rezar ao nosso Deus “misericordioso, lento na cólera, cheio de fidelidade e lealdade…” Devemos pedir-lhe para nos tornar parecidos com Ele, porque nos criou à sua imagem e semelhança. É preciso que estejamos também prontos a perdoar, a termos um olhar e uma escuta de bondade sobre os outros, a refrearmos os nossos impulsos de cólera, a sermos fiéis aos nossos compromissos, a sermos leais nas nossas palavras e nos nossos atos.

    5. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
    Pode-se escolher a oração eucarística I.

    6. PALAVRA PARA O CAMINHO.
    Concretamente… O Livro dos Atos apresenta-nos este belo projeto de vida da primeira comunidade cristã: escutar o ensino dos Apóstolos, viver em comunhão fraterna, partir o pão, participar nas orações, partilhar com os irmãos em necessidade. E nós? Em que ficamos concretamente? Este projeto continua pleno de atualidade para nós, crentes, hoje!

     

    UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
    PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA
    Grupo Dinamizador:
    José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
    Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
    Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
    www.dehonianos.org

  • 03º Domingo da Páscoa - Ano A [atualizado]

    03º Domingo da Páscoa - Ano A [atualizado]

    19 de Abril, 2026

    ANO A
    3.º Domingo da Páscoa

    Tema do 3.º Domingo da Páscoa

    A certeza da vitória de Jesus sobre a morte continua a ecoar ao longo de cada hora deste “grande domingo” que é o tempo pascal. Mas hoje a liturgia lembra-nos, especificamente, que também nós podemos experimentar a presença de Jesus, vivo e ressuscitado, nos caminhos que todos os dias percorremos. Essa experiência transforma-nos, renova-nos, santifica-nos e faz de nós testemunhas vivas do Ressuscitado.
    No Evangelho o “catequista” Lucas convida-nos a acompanhar dois discípulos que, abalados pela aparente falência do projeto de Jesus, desistem da comunidade cristã e põem-se a caminho de uma outra vida. No entanto Jesus, sem se identificar, acompanha-os no caminho, ajuda-os a encontrar respostas, devolve-lhes a esperança. Eles só reconhecem Jesus quando, à mesa, Ele parte e reparte o pão. O relato – com um evidente “sabor” eucarístico – é uma maravilhosa parábola sobre os nossos desencontros e encontros com Jesus ressuscitado: Ele nunca deixará de nos acompanhar no caminho, de nos explicar o sentido da vida e de nos alimentar com a sua Palavra e o seu Pão.
    A primeira leitura é um extrato do discurso de Pedro na manhã de Pentecostes. Anuncia aos habitantes de Jerusalém e ao mundo que, aquele Jesus assassinado pelas autoridades judaicas, derrotou a maldade, a injustiça, a violência e a própria morte. Pedro, com ousadia profética, garante: “disso todos nós somos testemunhas”. É esta Boa Notícia que os discípulos de Jesus de todas as épocas continuam a anunciar ao mundo.
    Na segunda leitura, um autor cristão do séc. I lembra aos batizados a vocação fundamental a que são chamados: a santidade. Para dar mais força ao seu apelo a uma vida santa, recorda-lhes que foram resgatados por um preço bem alto: pelo sangue precioso de Cristo. Ao ressuscitar e glorificar o seu Filho Jesus, Deus caucionou a proposta de vida que Ele nos veio oferecer.

    LEITURA I – Atos dos Apóstolos 2,14.22-33

    No dia de Pentecostes,
    Pedro, de pé, com os onze Apóstolos,
    ergueu a voz e falou ao povo:
    «Homens de Israel, ouvi estas palavras:
    Jesus de Nazaré
    foi um homem acreditado por Deus junto de vós
    com milagres, prodígios e sinais,
    que Deus realizou no meio de vós, por seu intermédio,
    como sabeis.
    Depois de entregue,
    segundo o desígnio imutável e a previsão de Deus,
    vós destes-Lhe a morte,
    cravando-O na cruz pela mão de gente perversa.
    Mas Deus ressuscitou O, livrando O dos laços da morte,
    porque não era possível que Ele ficasse sob o seu domínio.
    Diz David a seu respeito:
    ‘O Senhor está sempre na minha presença,
    com Ele a meu lado não vacilarei.
    Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta
    e até o meu corpo descansa tranquilo.
    Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos,
    nem deixareis o vosso Santo sofrer a corrupção.
    Destes me a conhecer os caminhos da vida,
    a alegria plena em vossa presença’.
    Irmãos, seja-me permitido falar vos com toda a liberdade:
    o patriarca David morreu e foi sepultado
    e o seu túmulo encontra se ainda hoje entre nós.
    Mas, como era profeta
    e sabia que Deus lhe prometera sob juramento
    que um descendente do seu sangue
    havia de sentar-se no seu trono,
    viu e proclamou antecipadamente a ressurreição de Cristo,
    dizendo que Ele não O abandonou na mansão dos mortos,
    nem a sua carne conheceu a corrupção.
    Foi este Jesus que Deus ressuscitou
    e disso todos nós somos testemunhas.
    Tendo sido exaltado pelo poder de Deus,
    recebeu do Pai a promessa do Espírito Santo,
    que Ele derramou, como vedes e ouvis».

    CONTEXTO

    O texto que a liturgia deste dia nos propõe como primeira leitura situa-nos em Jerusalém, na manhã do dia do Pentecostes.
    Após a Ascensão os discípulos tinham estado no Cenáculo, à espera que se cumprisse a promessa que Jesus lhes tinha feito: “ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo” (At 1,8). Ora, de acordo com o relato de Lucas, essa promessa cumpriu-se no dia do Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu sobre a comunidade reunida no Cenáculo (cf. At 2,1-12). Nesse dia, transformados e fortalecidos pelo Espírito, os discípulos abandonaram a segurança dos muros do Cenáculo e assumiram, diante dos habitantes de Jerusalém, a missão de serem testemunhas de Jesus. De acordo com o autor do livro dos Atos dos Apóstolos, foi Pedro que, em nome da comunidade dos discípulos, tomou a palavra para “anunciar as maravilhas de Deus” e para oferecer a todos os presentes um primeiro anúncio sobre Jesus.
    A festa judaica do Pentecostes (em hebraico “Shavu’ot”) que os judeus celebravam por esses dias era também designada por “festa das semanas” e “festa das primícias”. Ocorria cinquenta dias após a Páscoa e era, antes de mais, uma festa agrícola: terminada a colheita dos cereais, os agricultores dirigiam-se ao Templo, ao som de música de flautas, para entregar a Deus os primeiros frutos da colheita (“bikurim”). Eram acolhidos com cânticos de boas vindas, entravam no templo e entregavam nas mãos dos sacerdotes os cestos com os frutos que tinham trazido. Mais tarde, contudo, a tradição rabínica ligou esta festa à celebração da “aliança” e ao dom da Lei, por Deus, no Sinai; e, no séc. I, esta dimensão tinha um lugar importante na celebração do Pentecostes.
    As palavras que, segundo Lucas, Pedro naquele dia dirigiu à multidão reunida em Jerusalém para celebrar a festa judaica do Pentecostes serão rigorosamente históricas? Não. Trata-se, certamente, de uma composição do autor dos Atos dos Apóstolos que reproduz, em parte, a pregação que a primitiva comunidade cristã fazia sobre Jesus.
    Este discurso de Pedro é, aliás, muito semelhante a outros discursos que aparecem no livro dos Atos dos Apóstolos (cf. At 3,12-26; 4,8-12; 10,34-43; 13,16-41). Em qualquer um deles, aparece sempre um núcleo central que procede do kerigma primitivo e o resume: apresentação breve da atividade de Jesus, anúncio da sua morte e ressurreição e a salvação que daí resulta em favor dos homens. Mesmo que o texto não reproduza exatamente a pregação de Pedro no dia do Pentecostes, reproduz certamente a fórmula mais ou menos consagrada do kerigma primitivo e a catequese que a comunidade cristã primitiva costumava apresentar sobre Jesus. Há até quem veja neste “anúncio” um texto que era aprendido de cor por todos os catecúmenos durante a sua preparação para o batismo.

    MENSAGEM

    Depois e invocar o testemunho das Escrituras (cf. At 2,16-21), Pedro expõe o “kerigma”, o núcleo fundamental da catequese cristã primitiva: Jesus, creditado por Deus, veio ter com os homens e passou pelo mundo realizando gestos poderosos, gestos que testemunhavam o amor de Deus e anunciavam a sua salvação (cf. At 2,22); no entanto, a proposta apresentada por Jesus chocou com a recusa do mundo e Ele foi morto na cruz “pela mão de gente perversa” (cf. At 2,23); mas Deus ficou do lado d’Ele, ressuscitou-o, fê-lo triunfar sobre a injustiça, a mentira, a violência e a morte. Ao ressuscitar Jesus, Deus deu-lhe razão: disse àqueles que se recusaram a escutar Jesus que Ele estava certo: que uma vida gasta ao serviço do projeto de Deus não pode terminar no fracasso, mas conduz à ressurreição, à vida plena (cf. At 2,24). Pedro é aqui o porta-voz dessa comunidade que testemunhou a oferta de salvação que Jesus veio trazer, que acreditou nela e que recebeu de Jesus a missão de a propor aos homens de toda a terra.
    Este anúncio feito por Pedro é dirigido a judeus que conhecem bem as Escrituras e as promessas de Deus. Por isso, Lucas coloca na boca de Pedro argumentos tirados da própria Escritura para fundamentar aquilo que pretende anunciar-lhes sobre Jesus. Em concreto, Pedro refere-se ao salmo 16,8-11, atribuído aqui a David: “O Senhor está sempre na minha presença, com Ele a meu lado não vacilarei. Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta e até o meu corpo descansa tranquilo. Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos, nem deixareis o vosso Santo sofrer a corrupção. Destes me a conhecer os caminhos da vida, a alegria plena em vossa presença’” (At 2,25-28).
    Trata-se de um dos raros textos do Antigo Testamento onde se vislumbra a vitória da vida sobre a morte. O raciocínio do compositor deste discurso é o seguinte: David refere-se, nesse salmo que a tradição lhe atribui (cf. Sl 16,1), a um “amigo de Deus” que haveria de vencer a morte; não se trata, é claro, do próprio David pois, como todos sabem, ele morreu na primeira metade do séc. X a.C. (“o patriarca David morreu e foi sepultado e o seu túmulo encontra-se ainda hoje entre nós” – At 2,29); sendo assim, esse “amigo de Deus” de que David fala será com certeza aquele descendente de David que, segundo a promessa de Deus, haveria de herdar o trono do seu pai e estabelecer um reino eterno (cf. 2Sm 7,12-16). Era a esse rei, da descendência de David, que os judeus chamavam “Messias” (“ungido”); era esse rei, da descendência de David que alimentava a esperança de Israel e que era aguardado ansiosamente (cf. At 2,30). A conclusão parece óbvia: Jesus é esse “amigo de Deus”, anunciado por David, que Deus não abandonou na habitação dos mortos e cuja carne não conheceu a corrupção do túmulo (cf. At 2,31). Portanto, Jesus está vivo: uma vez ressuscitado dos mortos, foi elevado à glória pelo poder de Deus, recebeu o Espírito Santo e derramou-O sobre os discípulos que deixou na terra para serem testemunhas do Evangelho da salvação (cf. At 2,33). Estarão os habitantes de Jerusalém disponíveis para acolher, finalmente, a proposta de salvação trazida por Jesus?
    Temos aqui, portanto, o testemunho da comunidade cristã sobre Jesus, o Messias, enviado ao mundo para cumprir o plano de Deus – isto é, para libertar os homens e para instaurar um Reino de justiça, de abundância, de paz e de verdade. A vitória de Jesus sobre a morte e a sua exaltação atestam que Ele é esse Messias enviado por Deus com uma proposta de salvação. Os discípulos de Jesus são as testemunhas disto diante de todo o mundo (“disso todos nós somos testemunhas” – At 2,33). Por agora, esse testemunho é dado em Jerusalém; mas Lucas irá descrever, ao longo do livro dos Atos, a forma como o anúncio sobre Jesus irá conquistando o mundo, até atingir o próprio coração do império (Roma).

    INTERPELAÇÕES

    • Desde os alvores da humanidade insistimos em trilhar caminhos de orgulho e de autossuficiência, julgando encontrar aí a nossa plena realização, o sucesso inquestionável da nossa existência; mas só conseguimos, com as nossas opções egoístas, trazer à história humana mentira, violência, infelicidade e morte. Então Deus enviou-nos Jesus. Ele veio dizer-nos cara a cara, na nossa linguagem e em gestos humanos bem claros, que a nossa plena realização passa pelo amor, pela vida dada até às últimas consequências, pela partilha, pelo perdão, pelo serviço simples e humilde a Deus e aos irmãos. No entanto, não acreditamos n’Ele; e convocamos a injustiça, a violência, a mentira, para o calar e para o fechar num túmulo onde Ele não pudesse incomodar-nos com os seus desafios… Caso arrumado? Não. Deus ressuscitou Jesus; e, ao ressuscitá-l’O, deu-lhe razão. Disse-nos que Ele falava verdade quando nos dizia que uma vida gasta ao serviço do plano do Pai, na entrega aos homens, não conduz ao fracasso, mas à ressurreição, à vida nova. Entretanto, passaram-se dois mil anos… Há dois mil anos que sabemos, de fonte segura, que o egoísmo, o orgulho, a maldade, a violência, nos arrastam para caminhos de morte e infelicidade; há dois mil anos que temos diante de nós o exemplo de Jesus e que sabemos que só a proposta que Ele nos apresentou é geradora de vida verdadeira e eterna. Mas ainda não conseguimos “digerir” tudo aquilo que a vida, a morte e a ressurreição de Jesus nos mostrou. O que mais será necessário para levarmos a sério as indicações de Deus? Quando nos disporemos a acolher, sem desculpas nem hesitações, a lição de Jesus?

    • Pedro, dirigindo-se à multidão no dia de Pentecostes, diz: “foi este Jesus que Deus ressuscitou e disso todos nós somos testemunhas”. Esse “todos nós” inclui, naturalmente, todos aqueles que, por aqueles dias, fizeram a experiência de encontrar Jesus vivo e atuante e se sentiram desafiados a continuar a aventura do Reino de Deus; mas também inclui todos os outros que, pelos séculos fora, continuam a encontrar-se com Jesus vivo, a escutar as suas indicações, a viver ao seu estilo, a sentarem-se com Ele à mesa eucarística, a caminhar com Ele pelos caminhos do mundo. A Igreja – a comunidade dos discípulos de Jesus – é hoje, no mundo, a testemunha de Jesus, da sua ressurreição, da verdade da sua proposta, da viabilidade do seu projeto. Sentimo-nos investidos dessa missão? Os homens desiludidos e desorientados que todos os dias se cruzam connosco nos caminhos do mundo encontram em nós – testemunhas de Cristo ressuscitado – uma proposta de vida definitiva e de realização plena? Somos nós que contaminamos o mundo com a Boa Notícia de Jesus e lhe oferecemos uma alternativa à desilusão e ao desespero, ou é o mundo que nos domestica e nos convence a abandonar os valores propostos por Jesus?

    SALMO RESPONSORIAL – Salmo 15 (16)

    Refrão 1: Mostrai me, Senhor, o caminho da vida.

    Refrão 2: Aleluia.

    Defendei me, Senhor; Vós sois o meu refúgio.
    Digo ao Senhor: Vós sois o meu Deus.
    Senhor, porção da minha herança e do meu cálice,
    está nas Vossas mãos o meu destino.

    Bendigo o Senhor por me ter aconselhado,
    até de noite me inspira interiormente.
    O Senhor está sempre na minha presença,
    com Ele a meu lado não vacilarei.

    Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta
    e até o meu corpo descansa tranquilo.
    Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos,
    nem deixareis o vosso fiel conhecer a corrupção.

    Dar-me-eis a conhecer os caminhos da vida,
    alegria plena em Vossa presença,
    delícias eternas à Vossa direita.

    LEITURA II – 1 Pedro 1,17-21

    Caríssimos:
    Se invocais como Pai
    Aquele que, sem aceção de pessoas,
    julga cada um segundo as suas obras,
    vivei com temor, durante o tempo de exílio neste mundo.
    Lembrai vos que não foi por coisas corruptíveis,
    como prata e oiro,
    que fostes resgatados da vã maneira de viver,
    herdada dos vossos pais,
    mas pelo sangue precioso de Cristo,
    Cordeiro sem defeito e sem mancha,
    predestinado antes da criação do mundo
    e manifestado nos últimos tempos por vossa causa.
    Por Ele acreditais em Deus,
    que O ressuscitou dos mortos e Lhe deu a glória,
    para que a vossa fé e a vossa esperança estejam em Deus.

    CONTEXTO

    A primeira Carta de Pedro oferece-nos um conjunto de indicações que, à partida, poderiam deixar perfeitamente definida a questão do seu autor e dos seus destinatários. O autor apresenta-se como “Pedro, Apóstolo de Jesus Cristo” (1Pe 1,1a), “presbítero”, “testemunha dos padecimentos de Cristo e também participante da glória que se há de manifestar” (1Pe 5,1). Os destinatários seriam os “eleitos” de Deus que peregrinam na diáspora do Ponto, da Galácia, da Capadócia, da Ásia e da Bitínia” (1Pe 1,1b). A Carta seria escrita “desde Babilónia” (designativo frequentemente usado pelos primeiros cristãos para falar de Roma), onde o autor está acompanhado por Marcos (1Pe 5,13).
    No entanto, parece bastante improvável que Pedro, o pescador do Mar da Galileia que Jesus chamou para ser “pescador” de homens (cf. Mc 1,16-18), tenha sido o autor desta carta. Antes de mais, por questões de ordem literária: a qualidade literária da carta parece estar bem acima daquilo que seria o estilo de um pescador galileu pouco instruído, como era o caso de Pedro. Depois, porque a situação das comunidades cristãs referidas na carta parece situar-nos dentro dos anos oitenta, numa época em que se sentia claramente a hostilidade do Império contra os cristãos e começavam a perspetivar-se no horizonte as grandes perseguições do final do séc. I. Por essa altura, Pedro há muito teria morrido (o Apóstolo foi martirizado em Roma, durante a perseguição de Nero, por volta do ano 66-67).
    Sendo assim, o mais natural é que o autor da primeira Carta dita “de Pedro” seja um cristão culto cujo nome ignoramos – provavelmente um responsável de uma comunidade cristã –, empenhado em fortalecer o compromisso cristão de algumas comunidades instaladas nas zonas rurais da Ásia Menor. Ele escreve em finais do séc. I (nunca antes dos anos 80).
    Os destinatários desta carta são, maioritariamente, camponeses pobres, que cultivam as propriedades da gente rica. Também há, entre eles, pequenos proprietários que vivem em aldeias, à margem das grandes cidades. Trata-se, em qualquer caso, de gente do meio rural, economicamente débil, vulnerável à hostilidade que o Império começa a manifestar para com o cristianismo.
    Conhecendo bem as provações que estes cristãos sofrem, o autor da Carta exorta-os a manterem-se fiéis à sua fé, apesar das dificuldades. Convida-os a olharem para Cristo, que passou pela experiência da paixão e da cruz, antes de chegar à ressurreição; e exorta-os a manterem a esperança, o amor, a solidariedade, vivendo com alegria, coerência e fidelidade a sua opção cristã.

    MENSAGEM

    Dirigindo-se aos batizados, o autor da carta exorta-os a viverem como filhos de Deus. Isso significa abandonar completamente os “desejos antigos” e optar pela santidade (cf. 1Pe 1,14-15). Citando a Escritura, lembra-lhes o pedido de Deus: “sede santos, porque Eu sou santo” (1Pe 1,16).
    Como devem viver aqueles que são chamados à santidade e que invocam a Deus como Pai? De acordo com o autor da Carta, devem viver “com temor, durante o tempo de exílio neste mundo” (1Pe 1,17). O “temor” traduz, na linguagem vétero-testamentária, a atitude de obediência, de confiança, de entrega a Deus, de total conformação com a vontade de Deus.
    Para dar mais força à sua exortação, o autor da carta lembra aos batizados que não têm o direito de voltar atrás, pois Deus pagou um alto preço para os resgatar da antiga maneira de viver; e esse preço não foi pago com bens corruptíveis, como o ouro ou a prata, mas sim com algo infinitamente precioso: o sangue de Cristo, derramado na cruz. Foi um preço bem alto que, no entanto, Deus não hesitou em pagar… Poderá esse enorme “investimento” de Deus ser malbaratado e desprezado pela ingratidão dos batizados?
    O verbo “resgatar” (“lytróô”), aqui utilizado pelo autor da carta para falar da ação salvífica de Deus em favor do homem, é um verbo usado no grego profano para designar a libertação de uma pessoa (nomeadamente de um escravo), mediante o pagamento de uma determinada quantia. No Antigo Testamento, contudo, o verbo tem um alcance eminentemente teológico e refere-se à atuação salvífica de Deus, que intervém para salvar o seu povo do cativeiro egípcio (cf. Dt 7,8; 15,15), do exílio babilónico (cf. Es 41,14; 43,1) ou do pecado (cf. Sl 130,8). Em algumas passagens, o mesmo verbo inclui o sentido de “adquirir”: Javé resgata Israel para que ele passe a ser o povo de Deus (cf. 2Sm 7,23; 1Cr 17,21), a tribo da sua herança (cf. Sl 74,2), a comunidade que pertence a Deus e que está ao serviço de Deus. Dizer que Deus “resgata” quer então dizer que Deus, no seu amor, liberta Israel da escravidão e do pecado, a fim de fazer dele um Povo consagrado ao seu serviço.
    É provavelmente neste contexto que devemos entender a afirmação do autor da Primeira Carta de Pedro. A referência a Cristo como “cordeiro sem defeito e sem mancha” (1 Pe 1,19) leva-nos ao cordeiro pascal (é nesses termos que se fala do “cordeiro pascal” em Ex 12,5, o cordeiro que os escravos hebreus sacrificaram e comeram na noite em que fugiram da escravidão para a liberdade) e, portanto, à tipologia do Êxodo. Assim como o “cordeiro pascal” marcou a libertação dos hebreus da escravidão do Egito e assinalou o nascimento de um povo dedicado ao serviço de Deus, assim também a morte de Cristo “resgatou” o homem da escravidão do pecado e fez nascer um povo novo e santo, cuja vocação é servir a Deus e colocar a sua fé e a sua esperança em Deus (cf. 1Pe 1,21).
    Os que foram batizados são convidados a contemplar o plano de salvação que Deus quer concretizar em favor do homem, um plano que passa pela entrega de Jesus (o “Cordeiro sem mancha nem defeito” na cruz. Constatando a grandeza do amor de Deus e a sua vontade salvífica, os batizados – apesar das dificuldades e perseguições que enfrentam – aceitam comprometer-se com Deus e renascer para uma vida nova e santa. Dessa forma, nascerá um Povo novo, consagrado ao serviço de Deus.

    INTERPELAÇÕES

    • Deus dispôs-se a “pagar” um alto preço para nos libertar da nossa vã maneira de viver: enviou-nos o seu Filho Jesus, apesar de saber que nós não somos “de confiança” e que, na nossa insensatez, O condenaríamos a uma morte infame. Jesus cumpriu o projeto do Pai: fez-se um de nós, caminhou connosco, falou-nos do amor do Pai, curou as nossas feridas, lutou contra a mentira e a injustiça, mostrou-nos como viver, deixou-se matar para nos libertar do pecado e da morte. Isto dá-nos bem a medida do imenso amor que Deus nos tem. Esta história de amor deixa o autor da primeira Carta de Pedro maravilhado. E a nós? Conseguimos medir, a partir desta realidade, a importância que temos para Deus? Deixamo-nos “tocar” e maravilhar por este “amor maior”?

    • Não podemos ficar indiferentes diante da ação de Deus em nosso favor. Um amor tão grande como aquele que Deus nos mostrou ao entregar-nos a vida do seu Filho Jesus, exige uma resposta clara e inequívoca da nossa parte. Qual? De acordo com o autor da Primeira Carta de Pedro, a nossa resposta deve traduzir-se numa conduta nova, numa atitude de acolhimento de Deus, de obediência total a Deus, de entrega incondicional nas mãos de Deus, de adesão completa aos planos, valores e projetos de Deus. O amor de Deus inspira-nos e motiva-nos para vivermos uma vida santa, uma vida “segundo Deus”?

    • Jesus não anda hoje, em pessoa, pelas ruas das nossas aldeias, vilas e cidades, a propor-nos o Reino de Deus e a dizer-nos, com palavras e com gestos concretos, como devemos viver para que a nossa vida faça sentido. No entanto, antes de voltar para o Pai, Ele encarregou os seus discípulos de serem suas testemunhas no mundo. A sua proposta tem de continuar hoje a chegar aos homens. Sentimos que isso nos diz respeito? Nós que encontramos Jesus, que acolhemos a sua mensagem, que decidimos segui-l’O, que aceitamos viver ao seu estilo, damos testemunho dessa Boa Notícia que Ele nos deixou? A nossa vida é um anúncio, ao vivo e a cores, dessa vida nova que Deus quer oferecer a todos os seus filhos e filhas?

    ALELUIA – cf. Lc 24,32

    Aleluia. Aleluia.

    Senhor Jesus, abri-nos as Escrituras,
    falai-nos e inflamai o nosso coração.

    EVANGELHO – Lucas 24,13-35

    Dois dos discípulos de Emaús
    iam a caminho duma povoação chamada Emaús,
    que ficava a sessenta estádios de Jerusalém.
    Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido.
    Enquanto falavam e discutiam,
    Jesus aproximou Se deles e pôs Se com eles a caminho.
    Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem.
    Ele perguntou lhes.
    «Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?»
    Pararam entristecidos.
    E um deles, chamado Cléofas, respondeu:
    «Tu és o único habitante de Jerusalém
    a ignorar o que lá se passou estes dias».
    E Ele perguntou: «Que foi?»
    Responderam Lhe:
    «O que se refere a Jesus de Nazaré,
    profeta poderoso em obras e palavras
    diante de Deus e de todo o povo;
    e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes
    O entregaram para ser condenado à morte e crucificado.
    Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel.
    Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu.
    É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram:
    foram de madrugada ao sepulcro,
    não encontraram o corpo de Jesus
    e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos
    a anunciar que Ele estava vivo.
    Mas a Ele não O viram».
    Então Jesus disse lhes:
    «Homens sem inteligência e lentos de espírito
    para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram!
    Não tinha o Messias de sofrer tudo isso
    para entrar na Sua glória?»
    Depois, começando por Moisés
    e passando por todos os Profetas,
    explicou lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito.
    Ao chegarem perto da povoação para onde iam,
    Jesus fez menção de ir para diante.
    Mas eles convenceram n’O a ficar, dizendo:
    «Ficai connosco, Senhor, porque o dia está a terminar
    e vem caindo a noite».
    Jesus entrou e ficou com eles.
    E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção,
    partiu-o e entregou-lho.
    Nesse momento abriram se lhes os olhos e reconheceram n’O.
    Mas Ele desapareceu da sua presença.
    Disseram então um para o outro:
    «Não ardia cá dentro o nosso coração,
    quando Ele nos falava pelo caminho
    e nos explicava as Escrituras?»
    Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém
    e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com ele,
    que diziam:
    «Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão».
    E eles contaram o que tinha acontecido no caminho
    e como O tinham reconhecido ao partir o pão.

    CONTEXTO

    A narração de uma aparição de Jesus ressuscitado a dois discípulos que iam a caminho de uma povoação chamada Emaús, no próprio dia de Páscoa, é exclusiva de Lucas: nenhum outro evangelista a refere. Discute-se, no entanto, se se trata de uma criação de Lucas, ou de um relato que Lucas recebeu da tradição e que o evangelista terá trabalhado e adaptado. O mais provável é que Lucas utilize uma tradição prévia, que ele retoca e completa.
    A menção de um lugar chamado Emaús (lugar de destino dos dois discípulos) levanta diversas interrogações… Que lugar é esse? O nome não identifica um lugar conhecido na geografia do mundo palestino. A indicação da distância de Jerusalém a Emaús poderia constituir um fator adicional para ajudar na identificação da referida localidade; contudo, esse dado também não é conclusivo, uma vez que os mais importantes códices antigos situam a povoação a “sessenta estádios” de Jerusalém (o equivalente a cerca de onze quilómetros), mas outros falam de “cento e sessenta estádios” (o que equivaleria a cerca de trinta quilómetros). Os partidários da “maior distância” (cento e sessenta estádios) falam de Amwas-Nicópolis (uma localidade situada a cerca de trinta quilómetros de Jerusalém) como o local da Emaús evangélica; mas os partidários da “menor distância” preferem falar da atual El-Qubeibeh (uma localidade palestina que conserva a memória do acontecimento), ou então de Abu Gosh, uma localidade situada a cerca de dez quilómetros de Jerusalém.
    Os comentadores destacam frequentemente a intenção teológica de Lucas ao dar-nos este relato. Que é que isto significa? Significa que a narrativa lucana não é uma reportagem factual de uma viagem geográfica, mas é uma catequese sobre Jesus. O que interessa a Lucas não é escrever um relato lógico e coerente (se o evangelista estivesse preocupado com a lógica e com a coerência, teria mais cuidado com a situação geográfica de Emaús; e explicaria melhor algumas incongruências do texto, nomeadamente porque é que aqueles dois discípulos discípulos partiram para Emaús na manhã de Páscoa sem investigar os rumores de que o túmulo estava vazio e Jesus tinha ressuscitado). O que interessa ao autor é explicar aos cristãos para quem escreve – em meados da década de oitenta do primeiro século – como é que podem descobrir que Jesus está vivo e fazer uma verdadeira experiência de encontro com Jesus ressuscitado. Trata-se, portanto, de uma página de catequese, mais do que a descrição fiel de acontecimentos concretos.

    MENSAGEM

    No primeiro dia da semana (Lucas começa o seu relato utilizando a expressão “naquele mesmo dia”, o que nos remete para o relato anterior – o relato que descreve como, na manhã de Páscoa, algumas mulheres vão ao túmulo levando os perfumes que haviam preparado para “tratar” o corpo de Jesus e se deparam com “dois homens com vestes refulgentes” que lhes anunciaram a ressurreição – cf. Lc 24,1-12), dois discípulos de Jesus saem de Jerusalém e põem-se a caminho de um lugar chamado Emaús. Um deles chama-se Cléofas; o outro não é identificado. Muito se tem dito sobre esse discípulo anónimo, que alguns identificam com Pedro, outros com Natanael, com Simão e até mesmo com a mulher de Cléofas. Talvez Lucas, ao não identificar o referido discípulo, esteja simplesmente a sugerir que ele podia ser “qualquer um” dos crentes que tomam conhecimento da história.
    Percebemos, pelas palavras que os dois viajantes trocam enquanto caminham, porque é que se afastam de Jerusalém: estão desiludidos, pois os seus sonhos de triunfo e de glória ao lado de Jesus ruíram pela base, aos pés de uma cruz. Esse Messias poderoso, capaz de derrotar os opressores, de restaurar o reino grandioso de David (“nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel” – Lc 24,21) e de distribuir benesses aos seus colaboradores diretos revelou-se, afinal, um rotundo fracasso. Em lugar de triunfar, deixou-Se matar numa cruz; e a sua morte é um facto consumado pois “é já o terceiro dia depois que isto aconteceu” (o “terceiro dia” após a morte é o dia da morte definitiva, do não regresso do túmulo). Portanto, os dois abandonam a comunidade dos discípulos – que, doravante, não parece fazer qualquer sentido – e afastam-se de Jerusalém, dispostos a esquecer o sonho, a pôr os pés na terra e a enfrentar, de novo, uma vida dura e sem esperança. A discussão entre eles a propósito de “tudo o que tinha acontecido” (Lc 24,14) deve entender-se neste enquadramento: é essa partilha solidária dos sonhos desfeitos que torna menos doloroso o desencanto.
    Chegados aqui, o autor do relato introduz no quadro um novo personagem: o próprio Jesus. Ele alcança Cléofas e o companheiro e põe-se a caminhar ao lado deles; mas os dois discípulos, ocupados a “lamber as feridas” da desilusão, não O reconhecem: acontece-lhes a mesma coisa que a Maria Madalena quando, na manhã de Páscoa, confundiu Jesus ressuscitado com o jardineiro (cf. Jo 20,15). Jesus, com solicitude, questiona-os sobre o assunto que os inquieta tanto (cf. Lc 24,17); e eles, estranhando que o viajante não conheça “o que se passou nestes dias” em Jerusalém, contam-lhe a história do “profeta poderoso em obras e palavras” que os príncipes dos sacerdotes e os chefes entregaram para ser condenado à morte e crucificaram” (Lc 24,19-20). Para eles, infelizmente, a história de Jesus terminou aí e ficou sepultada num túmulo, em Jerusalém, onde colocaram o Seu corpo morto. Falta, na leitura que fazem dos acontecimentos, a fé no Senhor ressuscitado – ainda que conheçam a tradição do túmulo vazio e o testemunho das mulheres que foram ao túmulo na manhã de Páscoa (cf. Lc 24,22-24).
    Para sossegar os dois discípulos e para lhes demonstrar que tudo se encaixava perfeitamente na lógica do plano de Deus, Jesus, “começando por Moisés e passando pelos profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que lhe dizia respeito” (Lc 24,27). Lucas não refere em pormenor os textos vétero-testamentários que Jesus teria citado; mas talvez esteja a pensar, concretamente, em Dt 18,18 (“suscitar-lhes-ei um profeta como tu, de entre os seus irmãos; porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes dirá tudo o que Eu ordenar”), nos cânticos do “Servo de Javé” (cf. Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-11; 52,13-53,12) e em alguns salmos que enquadram o sofrimento e a glorificação do justo no contexto do projeto salvador de Deus (cf. Sl 22; 35,6; 110,1; 118,22).
    Aqueles dois discípulos percebem, então, que “o messias tinha de sofrer tudo isso para entrar na glória” (Lc 24,26). Lucas, por sua vez, parece interessado em sugerir aos discípulos de todas as épocas e lugares que é na escuta e na partilha da Palavra que o plano salvador de Deus ganha sentido; e que só através da Palavra de Deus – explicada, meditada e acolhida – o crente pode perceber que o amor até às últimas consequências e o dom de si próprio não levam ao fracasso, mas geram vida nova e definitiva.
    Os três (Jesus, Cléofas e o discípulo não identificado) chegam, finalmente, a Emaús. Os discípulos continuam a não reconhecer Jesus, mas oferecem-lhe hospitalidade (cf. Lc 24,28-29): é de noite e não é seguro continuar a viagem. Aquele desconhecido encanta-os e eles não querem vê-lo partir. Jesus aceita o convite, entra com eles em casa e senta-se com eles à mesa. Enquanto comem, Jesus, assumindo o papel do dono da casa, “tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho” (Lc 24,30). As palavras usadas por Lucas referem os mesmos gestos que Jesus tinha feito na multiplicação dos pães e dos peixes (cf. Lc 9,16) e naquela inolvidável ceia de despedida que Ele celebrou com os discípulos na véspera da Sua morte (cf. Lc 22,19). São também as palavras que a Igreja primitiva repetia sempre que se encontrava reunida à volta da mesa eucarística. É então que os olhos dos dois discípulos se “abrem” e eles reconhecem, no companheiro de viagem, o próprio Jesus (cf. Lc 24,31).
    A última cena da nossa história põe os discípulos a retomar o caminho, a regressar a Jerusalém e a apresentar-se novamente à comunidade que tinham abandonado horas antes (cf. Lc 24,33-35). Não os inquieta a noite, os quilómetros a percorrer, nem a comida que ficou na mesa; a única coisa que lhes interessa é dar testemunho de que Jesus venceu a morte, está vivo e caminha novamente com os seus discípulos.

    Não será difícil vermos, por detrás da construção lucana, uma evidente intenção catequética. Quando Lucas escreve o seu Evangelho (década de 80 do primeiro século), a comunidade cristã defrontava-se com algumas dificuldades. Tinham decorrido cerca de cinquenta anos depois da morte de Jesus, em Jerusalém. A catequese dizia que Ele estava vivo; mas no dia a dia de uma vida monótona, cansativa e cheia de dificuldades, era difícil fazer essa experiência. As testemunhas oculares de Jesus tinham já desaparecido e os acontecimentos da paixão, morte e ressurreição pareciam demasiado distantes, ilógicos e irreais. “Se Jesus ressuscitou e está vivo, como posso encontrá-l’O? Onde e como posso fazer uma verdadeira experiência de encontro real com esse Jesus que a morte não conseguiu vencer? Porque é que Ele não aparece de forma gloriosa e não instaura um reino de glória e de poder, que nos faça triunfar definitivamente sobre os nossos adversários e detratores?” – perguntavam os crentes das comunidades lucanas.
    É a isto que o catequista Lucas vai procurar responder. A sua mensagem dirige-se a esses crentes que caminham pela vida desanimados e sem rumo, cujos sonhos parecem desfazer-se ao encontro da realidade monótona e difícil do dia a dia… Lucas diz-lhes: “Sim, Jesus está vivo e caminha ao nosso lado nos caminhos do mundo. Às vezes, não conseguimos reconhecê-l’O, pois os nossos corações estão ocupados com as nossas preocupações pessoais, com os nossos interesses egoístas, com os nossos preconceitos enraizados, com as nossas visões estreitas… Ficamos amarrados aos nossos limites, incapazes de olhar mais longe e de compreender o projeto de Deus. Apesar de tudo isso, Jesus faz-Se nosso companheiro de viagem, caminha connosco passo a passo, alimenta a nossa caminhada com a esperança que brota da sua Palavra, faz-Se encontrar sempre que nos sentamos à mesa da comunidade para partilhar o pão eucarístico.
    Na catequese lucana aparece, sobretudo, a ideia de que é na celebração comunitária da Eucaristia que os crentes fazem a experiência do encontro com Jesus vivo e ressuscitado. A narração sugere claramente o esquema litúrgico da celebração eucarística: a liturgia da Palavra (a “explicação das Escrituras”, que permite aos discípulos entenderem a lógica do plano de Deus em relação a Jesus) e o “partir do pão” (que faz com que os discípulos entrem em comunhão com Jesus, recebam d’Ele vida, O reconheçam nesses gestos que são o “memorial” da sua entrega até ao extremo por amor).
    Anotemos ainda uma última sugestão que o “catequista” Lucas nos deixa: depois de fazer a experiência do encontro com Cristo vivo e ressuscitado na celebração eucarística, cada crente é, implicitamente, convidado a voltar à estrada, a dirigir-se ao encontro dos irmãos e a testemunhar que Jesus está vivo e presente na história e na caminhada dos homens.

    INTERPELAÇÕES

    • Aquele quadro de desencanto e de desânimo em que se movem os dois discípulos que caminham de Jerusalém para Emaús não nos é completamente estranho. Experimentamo-lo também nós, mais vírgula menos vírgula, diante das crises que a vida traz, do carácter transitório das nossas conquistas, da debilidade que nos habita, da falência dos nossos projetos mais queridos, dos sonhos que se evaporam e nos deixam de mãos vazias, das nossas certezas derrubadas, das nossas seguranças com pés de barro… Abalados e magoados sentimos a tentação de baixar os braços, de abandonar a luta, de nos demitirmos das nossas responsabilidades, de nos fecharmos em nós próprios, de “aguentarmos” a vida sem arriscar, de vivermos para o trivial que não encanta mas também não fere excessivamente. Talvez pensemos até, muitas vezes, que Deus nos virou as costas e nos deixou “sem rede”, abandonados à nossa sorte; e damos por nós a arrastar-nos pela vida sem rumo nem horizontes. Ora, hoje um catequista chamado Lucas vem dizer-nos: “Garanto-vos que não estais sozinhos; Jesus, vivo e ressuscitado, está e estará sempre convosco. Talvez nem sempre reconheçais a sua presença; mas Ele apanha-vos no caminho, conversa convosco, esclarece as vossas dúvidas, pacifica o vosso coração, dirige os vossos passos em direção a um horizonte de esperança. Já fizemos esta experiência? Dispomo-nos, em cada passo do nosso caminho, a detetar a presença consoladora e vivificante de Jesus ao nosso lado?

    • Como é que Cléofas e o outro discípulo conseguem encontrar sentido no sem sentido da cruz e da morte? Como é que os homens e as mulheres que caminham afogados em angústias e desencantos podem perceber o projeto salvador que Deus tem para lhes propor? Como é que podemos escutar Jesus e receber d’Ele esse suplemento de esperança que nos permite continuar? Lucas responde: é através da Palavra de Deus, escutada, meditada, partilhada, acolhida. A Palavra de Deus ajuda-nos a colocar a vida em perspetiva e a definir o sentido correto da nossa existência; a Palavra de Deus incendeia-nos o coração (“não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?”), faz-nos vencer o desânimo e o pessimismo, leva-nos ao compromisso com a transformação do mundo e da história; a Palavra de Deus mostra-nos perspetivas novas e renova a nossa esperança; a Palavra de Deus diz-nos como chegar à vida verdadeira e eterna… Que lugar e que papel desempenha a Palavra de Deus nas nossas vidas? No nosso caminho de fé encontramos espaço para escutar a Palavra de Deus, para partilhá-la, para orar a partir dela, para contemplá-la?

    • Para os dois discípulos que vão em direção a Emaús, o viajante que se lhes junta no caminho é um perfeito desconhecido. No entanto, quando se sentam à mesa com ele e o veem tomar o pão, recitar a bênção, parti-lo e partilhá-lo, percebem imediatamente que esse viajante desconhecido é Jesus. Como podemos nós, homens e mulheres do séc. XXI, fazer uma experiência de encontro com Jesus vivo? O evangelista Lucas não tem dúvidas: é quando nos sentamos com Ele à mesa da eucaristia. Todos os domingos, reunidos em comunidade à volta da mesa eucarística, damo-nos conta que o Ressuscitado continua vivo, a caminhar ao nosso lado, a alimentar-nos com a sua Palavra e o seu Pão; sempre que nos juntamos com os irmãos à volta da mesa de Deus, celebrando na alegria e na festa o amor, a partilha e o serviço, encontramos o Ressuscitado a encher a nossa vida de sentido, de plenitude, de vida autêntica. Que lugar e que papel tem, na nossa experiência de fé, a participação na eucaristia?

    • Depois de se encontrarem com Jesus, vivo e ressuscitado, à mesa eucarística, os dois discípulos deixaram a comida na mesa, esqueceram o cansaço, enfrentaram os perigos da noite e regressaram imediatamente a Jerusalém, decididos a partilhar a sua descoberta com os outros discípulos. Não ficaram em casa, felizes e repousados, a gozar beatificamente uma experiência inolvidável; mas sentiram que aquilo que tinham experimentado devia ser partilhado com urgência. Os discípulos de Emaús perceberam que quando alguém encontra Jesus tem de tornar-se sua testemunha. Nós, que todos os domingos nos sentamos à mesa eucarística, que descobrimos a presença de Jesus vivo no meio da comunidade reunida, que nos alimentamos da sua Palavra e do seu Pão, damos testemunho d’Ele? Sentimos a urgência de o levar ao encontro do mundo? Os nossos gestos são um anúncio vivo desse Jesus que, ainda hoje, quer oferecer a todos os homens e mulheres a vida nova e definitiva?

    • Os relatos pascais referem amiudamente a alegria irreprimível que enche o coração dos discípulos que se encontram com Jesus ressuscitado. A narração da aparição de Jesus aos discípulos de Emaús, sem falar concretamente de alegria, alude ao entusiasmo que aqueles dois discípulos sentiram pela presença e pela companhia de Jesus ressuscitado. É o entusiasmo que resulta de uma Presença que enche de paz, que dissipa o temor, que multiplica a coragem, que oferece esperança, que aumenta o amor, que dá sentido ao caminho… Conseguimos ver, hoje, essa alegria e esse entusiasmo no rosto dos discípulos de Jesus? Conseguimos perceber essa alegria na vida, na partilha, no testemunho, na celebração da fé nas nossas comunidades cristãs?

    • Os dois discípulos de Emaús, dececionados com um projeto que parecia ter falido, abandonaram a comunidade e fugiram para Emaús. Aquela comunidade triste e amedrontada, fechada dentro de uma casa de Jerusalém, afundada na inércia e no pessimismo, já não lhes dizia nada. Hoje há, também, muitos irmãos e irmãs que fazem uma experiência semelhante. Veem a Igreja nascida de Jesus como uma comunidade imóvel e estacionada no passado, com um discurso pomposo mas pouco atraente, mais preocupada com a liturgia do que com o cuidado dos pobres, mais interessada nas leis e nas normas do que no Evangelho da misericórdia; e, sentindo-se dececionados, rompem com a comunidade. Afastar-se da comunidade, viver à margem, desistir do projeto cristão, será a solução? A “lição de Emaús” diz-nos que, apesar de tudo, é na comunidade cristã que reside e se revela Jesus ressuscitado. Por isso, os dois discípulos transviados voltaram a toda a pressa ao encontro da comunidade que tinham abandonado. A solução para o nosso desencanto passará por cortar os laços com a comunidade, ou por revitalizar a vinculação comunitária com Jesus e com o Evangelho? Se Jesus ainda nos apaixona, poderemos abandonar a comunidade e perder-nos em caminhos que não levam a nenhum lado?

    ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 3.º DOMINGO DA PÁSCOA
    (adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)

    1. A LITURGIA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
    Ao longo dos dias da semana anterior ao 3.º Domingo da Páscoa, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa…

    2. AS DUAS MESAS DA MISSA.
    A missa está estruturada sobre o mesmo plano que o Evangelho dos discípulos de Emaús. Tem duas partes, que constituem as duas mesas: a liturgia da Palavra e a liturgia eucarística. Neste domingo, para significar a unidade entre a mesa da Palavra e a mesa da Eucaristia, o ambão da Palavra e o altar do pão e do vinho poderiam ter uma decoração floral de igual importância.

    3. UM VERDADEIRO ALELUIA PASCAL.
    Neste tempo de Páscoa, procure-se que o Aleluia seja um verdadeiro Aleluia de Páscoa, com carácter festivo e de aclamação. Às vezes, por demasiado repetida, a melodia utilizada não tem o impacto festivo que deveria ter…

    4. BILHETE DE EVANGELHO.
    Denunciamos a violência, mas será que lhe renunciamos? Sofremos quando vemos na televisão ou na Internet imagens de situações violentas de várias partes do mundo. Esperamos acordos que façam cessar os atentados, as exclusões, a morte das vítimas inocentes, os conflitos de qualquer espécie. Mas a violência está primeiro no coração do ser humano antes de se manifestar nas suas palavras e nos seus atos. Somos violentos, quando recusamos o outro diferente, quando não lhe permitimos que se exprima, quando procuramos fazê-lo calar ou ridicularizar. Somos violentos quando recusamos dar o passo para uma reconciliação, quando recusamos perdoar. Os violentos não são apenas que trazem armas, mas também aqueles que endurecem o seu coração.

    5. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
    Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

    No final da primeira leitura:
    Nosso Pai, Nós Te damos graças pelo teu Filho Jesus. N’Ele realizaste os anúncios dos profetas, Tu O ressuscitaste de entre os mortos e O elevaste na tua glória. Bendito sejas!
    Pai, como o teu Filho Jesus, olhamos para Ti sem cessar e Te pedimos: mostra-nos o caminho da vida, derrama sobre nós o teu Espírito.

    No final da segunda leitura:
    Nós Te bendizemos por Jesus Cristo, o Cordeiro sem pecado e sem mancha, cujo precioso sangue nos libertou. Por Cristo ressuscitado, acreditamos e colocamos em Ti a nossa fé e a nossa esperança.
    Nós Te invocamos como nosso Pai, Tu que não fazes distinção entre os homens e que dás sentido às nossas existências: liberta-nos do erro.

    No final do Evangelho:
    Bendito sejas, Senhor Jesus, Tu que caminhas nos nossos caminhos, ao nosso lado, para nos fazer compreender as Escrituras. Nós Te damos graças pelo Pão partido e pela revelação da tua ressurreição.
    Nós Te pedimos: torna-nos atentos à tua presença, cura os nossos corações, tão lentos a crer; fica connosco, quando se aproxima a noite, e ilumina o nosso caminho.

    6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
    Pode-se escolher uma das quatro fórmulas para a Oração Eucarística V para as Circunstâncias Especiais, também pela sua referência explícita aos discípulos de Emaús.

    7. PALAVRA PARA O CAMINHO.
    Emaús… é a nossa história de cada dia: os nossos olhos fechados que não reconhecem o Ressuscitado… os nossos corações que duvidam, fechados na tristeza… os nossos velhos sonhos vividos com deceção… o nosso caminho, talvez, afastando-se do Ressuscitado… N’Ele, durante este tempo, ajustemos o seu passo ao nosso para caminhar junto de nós no caminho da vida. Há urgência em abrir os nossos olhos para reconhecer a sua Presença e a sua ação no coração do mundo e para levar a Boa Notícia: Deus ressuscitou Jesus! Eis a nossa fé!

     

    UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
    PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA
    Grupo Dinamizador:
    José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
    Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
    Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
    www.dehonianos.org

  • S. Marcos, Evangelista

    S. Marcos, Evangelista


    25 de Abril, 2026

    Marcos era filho de Maria de Jerusalém, em cuja casa Pedro se refugiou depois de ser libertado do cárcere (cf. At 12, 12). Era primo de Barnabé. Acompanhou o apóstolo Paulo na sua primeira viagem a Roma (cf. Col 4, 10) e esteve próximo dele durante a sua prisão em Roma (Fm 24). Depois, tornou-se discípulo de Pedro, de cuja pregação se fez intérprete no Evangelho que escreveu (cf. 1 Pe 5, 13). O seu evangelho é comumente reconhecido como o mais antigo, utilizado e completado por Mateus e por Lucas. Parece que também os grandes discursos da primeira parte do Atos dos Apóstolos são uma retomada e desenvolvimento do evangelho de Marcos, a partir de Mc 1, 15. É-lhe atribuída a fundação da Igreja de Alexandria.
    Lectio
    Primeira Leitura: 1 Pedro 5, 5b-14

    Irmãos: revesti-vos todos de humildade no trato uns com os outros, porque Deus opõe-se aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes. 6Humilhai-vos, pois, debaixo da poderosa mão de Deus, para que Ele vos exalte no devido tempo. 7Confiai-lhe todas as vossas preocupações, porque Ele tem cuidado de vós. 8Sede sóbrios e vigiai, pois o vosso adversário, o diabo, como um leão a rugir, anda a rondar-vos, procurando a quem devorar. 9Resisti-lhe, firmes na fé, sabendo que a vossa comunidade de irmãos, espalhada pelo mundo, suporta os mesmos padecimentos. 10Depois de terdes padecido por um pouco de tempo, o Deus que é todo graça e vos chamou em Jesus Cristo à sua eterna glória, há-de restabelecer-vos e consolidar-vos, tornar-vos firmes e fortes. 11Para Ele o poder pelos séculos dos séculos. Ámen. 12Por Silvano, a quem considero um irmão fiel, escrevo-vos estas breves palavras, para vos exortar e para vos assegurar que esta é a verdadeira graça de Deus; perseverai nela! 13Manda-vos saudações a comunidade dos eleitos que está em Babilónia e, em particular, Marcos, meu filho. 14Saudai-vos uns aos outros com um ósculo de irmãos que se amam. Paz a todos vós, que estais em Cristo.

    A tradição, segundo a qual Marcos recolheu, no seu evangelho, a pregação de Pedro, apoia-se nesta página, onde Pedro lhe chama "meu filho" (v. 13). Mas as exortações do primeiro dos apóstolos dirigem-se a todos quantos na Igreja têm responsabilidades de guias e mestres.
    O verdadeiro pastor deve, antes de mais, ser humilde e consciente de não ser dono de nada, mas ter recebido tudo de Deus. E a humildade é verdade!
    Os pastores devem também ser sóbrios e vigilantes. Nestas palavras ecoa o discurso escatológico de Jesus (cf. Mc 13, 1ss.). Pedro dirige aos pastores humildes e fiéis, sóbrios e vigilantes, a promessa de que Aquele Deus que os chamou à vida nova em Cristo os confirmará na graça e os coroará de glória (v. 10).
    Evangelho: Marcos 16, 15-20

    Naquele tempo, Jesus apareceu ao Onze Apóstolos e disse-lhes: 15«Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura. 16Quem acreditar e for batizado será salvo; mas, quem não acreditar será condenado. 17Estes sinais acompanharão aqueles que acreditarem: em meu nome expulsarão demónios, falarão línguas novas, 18apanharão serpentes com as mãos e, se beberem algum veneno mortal, não sofrerão nenhum mal; hão de impor as mãos aos doentes e eles ficarão curados.» 19Então, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi arrebatado ao Céu e sentou-se à direita de Deus. 20Eles, partindo, foram pregar por toda a parte; o Senhor cooperava com eles, confirmando a Palavra com os sinais que a acompanhavam.

    Nesta conclusão do evangelho original de Marcos, encontramos o chamado discurso missionário: Jesus envia os seus discípulos a levar o evangelho a todas as criaturas (vv. 15ss.). O missionário do Pai, Jesus, precisa de outros missionários. Aquele que é a Boa Nova confia a Boa Nova aos seus apóstolos: "Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura." (v. 15).
    Depois do mandato missionário, Marcos alude, de modo muito breve, e discreto à ascensão de Jesus ao céu: "O Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi arrebatado ao Céu e sentou-se à direita de Deus." (v. 19). E conclui afirmando: "Eles, partindo, foram pregar por toda a parte" (v. 20). E assim mudou radicalmente a vida dos apóstolos e de muitas outras pessoas ao longo dos séculos.
    Meditatio

    A primeira leitura da festa de S. Marcos foi escolhida por causa da expressão "meu filho" usada por S. Pedro para se referir ao segundo evangelista, mas também pelas palavras: "Resisti-lhe, firmes na fé, sabendo que a vossa comunidade de irmãos, espalhada pelo mundo, suporta os mesmos padecimentos." (v. 9). Marcos é, de modo especial, o evangelista da fé. Insiste em que deve ser vivida mesmo no meio da obscuridade. O evangelista tem um sentido muito vivo dessa experiência. Mais do que desenvolver os ensinamentos do Mestre, preocupa-se em acentuar a manifestação do Messias crucificado. Apresenta-nos Jesus rodeado de pessoas que, depois de um primeiro entusiasmo, O recusam. Os próprios Doze, escolhidos por Ele, não O compreendem: têm o coração endurecido, fechado à Sua mensagem, à Sua Pessoa. Mesmo Pedro, que reconhece Jesus como Messias, não quer aceitar o caminho que Ele escolheu percorrer, o caminho da cruz. O centro do evangelho de Marcos é o paradoxal testemunho de fé do centurião, que reconhece em Jesus, que morre na cruz, o Filho de Deus. Marcos compreende a realidade profunda do itinerário doloroso de Jesus e apresenta-o à luz da fé, definitivamente consolidada na ressurreição. O segundo evangelho ajuda-nos a viver na fé e a alimentá-la no sofrimento e a apoiá-la unicamente em Cristo, sem procurar provas humanas.
    A reflexão de Marcos não é académica, mas existencial e vital. O Evangelho é Deus (cf. Mc 1, 14); contém e manifesta o projeto salvífico que o Pai quer realizar por meio do Filho em favor de toda a humanidade. É do coração de Deus que brota a "Boa Nova" capaz de encher de alegria todos os corações humanos que estejam disponíveis a acolher o dom da salvação. O "Evangelho é de Jesus Cristo" (cf. Mc 1, 1), quer dizer, é Jesus o Cristo, o Filho de Deus. Mas é também memorial de tudo quanto Jesus fez e disse. Numa palavra: para Marcos, o Evangelho é tudo, e tudo é Evangelho.
    Lembremos as nossas Constituições: "A missão em sentido estrito sempre esteve presente entre nós e continua a conservar para nós uma importância particular" (Cst 33). A nossa admiração e atenção por aqueles que hoje são "missionários" continuam bem vivas. Esses confrades deixaram a sua terra, a sua gente, para adotar uma outra, em favor da qual desenvolvem todas as atividades de apostolado (cf. Cst 15). "Reconhecemos como parte importante da nossa missão reparadora todo o trabalho que desde os princípios da Congregação muitos de nós desenvolvem na atividade missionária, em vista do anúncio do Evangelho e em solidariedade com os povos, cuja situação é particularmente difícil" (Documenta XIV).
    Oratio

    Abre, Senhor, os meus ouvidos para que se encham do tesouro do teu Evangelho, porque a minha vida, iluminada e confortada pela tua Palavra, terá sentido pleno e duradoiro. Faz-me acolher o Verbo da verdade presente no teu Evangelho. Abre, Senhor, a minha boca para que a Boa Nova acolhida, se torne proclamação da tua glória e mensagem de sentido e esperança para os irmãos. Que a minha vida se abra a Ti, se encontre contigo, que vens ao meu encontro todos os dias na Palavra que o teu Evangelho encerra e me dá. Ámen.
    Contemplatio

    S. Marcos amava Nosso Senhor sem qualquer reserva; estava maduro para o martírio. Os seus sucessos e os progressos da fé exasperavam os pagãos e em particular os sacerdotes de Serapis. Apoderaram-se de S. Marcos durante a solenidade da Páscoa do ano 68. Fizeram-lhe sofrer durante dois dias um horrível suplício, fazendo-o arrastar com cordas por terrenos pedregosos dos subúrbios de Buroles; mas o amor é mais forte do que a morte, e o santo bendizia a Nosso Senhor e dava-lhe graças por ter sido julgado digno de sofrer por seu amor. Durante a noite que separou os dois dias de torturas, o santo foi reconfortado por visitas celestes. Foi primeiro um anjo que lhe disse: «Marcos, servo de Deus e chefe dos ministros de Cristo, no Egipto, o vosso nome está escrito no livro da vida e as potências celestes virão em breve procurar-vos para vos conduzirem ao céu». Depois apareceu-lhe o próprio Nosso Senhor, como o tinha conhecido na Galileia: «A paz esteja convosco, Marcos nosso evangelista», diz-lhe; depois desapareceu. Esta palavra de encorajamento bastava. S. Marcos foi de novo arrastado e dilacerado pelas pedras, enquanto bendizia a Deus: «Meu Deus, nas vossas mãos entrego a minha alma». (L. Dehon, OSP 3, p. 479).
    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "Convertei-vos e acreditai no Evangelho" (Mc 1, 15).

    S. Marcos, Evangelista (25 Abril)

  • 04º Domingo da Páscoa - Ano A [atualizado]

    04º Domingo da Páscoa - Ano A [atualizado]

    26 de Abril, 2026

    ANO A
    4.º Domingo da Páscoa

    Tema do 4.º Domingo da Páscoa

    O 4º Domingo da Páscoa é considerado o “Domingo do Bom Pastor”, pois todos os anos a liturgia propõe, neste domingo, um trecho do capítulo 10 do Evangelho segundo João, no qual Jesus é apresentado como “Bom Pastor”. A imagem evoca proximidade, cuidado, ternura, confiança, segurança, paz, vida em abundância… É bom podermos entregar a nossa vida nas mãos de um tal “Pastor”.
    No Evangelho Jesus recorre a duas imagens para descrever a missão que o Pai lhe confiou: Ele é o “Pastor Bom” e “a porta” que dá acesso às ovelhas. Como “Pastor Bom”, Ele cuida das ovelhas de Deus com dedicação e amor, liberta-as do domínio da escravidão e leva-as ao encontro das pastagens verdejantes onde há vida em plenitude. Como “porta”, Ele tem uma dupla função: impede que os “ladrões e salteadores” tenham acesso às “ovelhas” e torna-se a referência para as “ovelhas” que entram e que saem. A vida daqueles que fazem parte do “rebanho” de Deus constrói-se e entende-se a partir de Jesus.
    A primeira leitura define o percurso que Jesus, “o Bom Pastor”, desafia as suas “ovelhas” a fazer: é preciso abandonar o egoísmo e a escravidão (converter-se), aderir a Jesus e segui-l’O (ser batizado), acolher a vida nova de Deus e deixar-se recriar, vivificar e transformar por ela (receber o Espírito Santo).
    Na segunda leitura um “mestre” cristão do final do séc. I convida os batizados a olharem para o exemplo de Cristo: “insultado, não pagava com injúrias; maltratado, não respondia com ameaças; mas entregava-se àquele que julga com justiça”. Jesus, o “Pastor Bom”, aponta-nos o caminho que leva à vida. Se seguirmos as suas orientações, não seremos “ovelhas desgarradas”.

    LEITURA I – Atos dos Apóstolos 2,14a.36-41

    No dia de Pentecostes,
    Pedro, de pé, com os onze Apóstolos,
    ergueu a voz e falou ao povo:
    «Saiba com absoluta certeza toda a casa de Israel
    que Deus fez Senhor e Messias
    esse Jesus que vós crucificastes».
    Ouvindo isto, sentiram todos o coração trespassado
    e perguntaram a Pedro e aos outros Apóstolos:
    «Que havemos de fazer, irmãos?»
    Pedro respondeu lhes:
    «Convertei vos e peça cada um de vós o Batismo
    em nome de Jesus Cristo,
    para vos serem perdoados os pecados.
    Recebereis então o dom do Espírito Santo,
    porque a promessa desse dom é para vós,
    para os vossos filhos e para quantos, de longe,
    ouvirem o apelo do Senhor nosso Deus».
    E com muitas outras palavras os persuadia e exortava,
    dizendo: «Salvai-vos desta geração perversa».
    Os que aceitaram as palavras de Pedro
    receberam o Batismo,
    e naquele dia juntaram se aos discípulos
    cerca de três mil pessoas.

    CONTEXTO

    De acordo com o autor do Quarto Evangelho, Jesus teria prometido repetidamente aos discípulos, naquela inolvidável ceia de despedida que antecedeu a sua prisão, condenação à morte e execução, que ia enviar-lhes o Espírito Santo (cf. Jo 14,15,17; 14,25-26; 15,26-27; 16,5-11; 16,12-15). E Lucas põe Jesus ressuscitado, no momento em que se despede dos discípulos, antes de ir ao encontro do Pai, a dizer-lhes: “ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo”. Para o autor doa Atos dos Apóstolos, essa promessa de Jesus cumpre-se precisamente na manhã do dia de Pentecostes.
    A festa judaica do Pentecostes (em hebraico “Shavu’ot”) era também designada por “festa das semanas” e “festa das primícias”. Ocorria cinquenta dias após a Páscoa e era, antes de mais, uma festa agrícola: terminada a colheita dos cereais, os agricultores dirigiam-se ao Templo, ao som de música de flautas, para entregar a Deus os primeiros frutos da colheita (“bikurim”). Eram acolhidos com cânticos de boas vindas, entravam no templo e entregavam nas mãos dos sacerdotes os cestos com os frutos que tinham trazido. Mais tarde, contudo, a tradição rabínica ligou esta festa à celebração da “aliança” e ao dom da Lei, por Deus, no Sinai; e, no séc. I, esta dimensão tinha um lugar importante na celebração do Pentecostes.
    Ora, no dia em que os judeus celebravam a festa judaica do Pentecostes, os discípulos de Jesus “encontravam-se todos reunidos no mesmo lugar” quando, “viram aparecer umas línguas, à maneira de fogo, que se iam dividindo e pousou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo” (At 2,1.3-4). Depois, transformados e fortalecidos pelo Espírito, os discípulos abandonaram a segurança dos muros do Cenáculo e assumiram, diante dos habitantes de Jerusalém, a missão de serem testemunhas de Jesus. De acordo com o autor do livro dos Atos dos Apóstolos, foi Pedro que, em nome da comunidade dos discípulos, tomou a palavra para “anunciar as maravilhas de Deus” e para oferecer a todos os presentes um primeiro anúncio sobre Jesus.
    O texto que a liturgia do quarto domingo pascal nos propõe como primeira leitura apresenta-nos a última frase do discurso de Pedro e, logo de seguida, a reação da multidão a esse discurso.

    MENSAGEM

    Na conclusão do seu discurso, Pedro dirige-se à “casa de Israel” e confronta-a com a confissão essencial da fé cristã: “Deus fez Senhor e Messias esse Jesus que vós crucificastes” (At 2,36).
    A afirmação de Pedro é ousada. Acusa a “casa de Israel” de ter rejeitado “o Senhor” (o “kyrios” – nome grego que traduz o “Adonai” hebraico – o nome dado pelos judeus a Javé”) e o “Messias” (isto é, o “ungido” de Deus, que veio concretizar as promessas de salvação e de libertação que Javé tinha feito ao seu Povo). Depois de tantos séculos à espera de uma intervenção libertadora de Javé, como pôde a “casa de Israel” rejeitar o Deus que veio ao encontro do seu povo com uma proposta de salvação? Como pôde a “casa e Israel”, atacada de inexplicável cegueira, condenar e crucificar o “ungido” de Deus, o Messias esperado?
    As palavras de Pedro atingiram o alvo (cf. At 2,37a). De acordo com a narração lucana, os ouvintes sentiram o coração “trespassado” (do verbo “katanyssô” – “afligir-se profundamente”). O verbo utilizado traduz o “pesar”, o “sentir pontadas no coração”, como remorso por ter feito algo contrário à justiça. É a atitude que conduz ao arrependimento e o primeiro passo para a mudança de vida, para a “conversão”.
    A resposta dos habitantes de Jerusalém, representantes da “casa de Israel”, à interpelação de Pedro, consubstancia-se numa pergunta: “que havemos de fazer, irmãos?” (At 2,37b). É a resposta humilde e sentida de quem reconhece a verdade das acusações que lhe são imputadas, admite os seus erros e se mostra disposto a reequacionar a vida, a “voltar” para Deus, a escutar Deus outra vez, a voltar a trilhar os caminhos propostos por Deus.
    Reconhecendo a sinceridade e a honestidade daqueles que o interpelam, Pedro aponta-lhes o caminho: é necessário converter-se, ser batizado e receber o Espírito Santo (cf. At 2,38).
    A “conversão” (“metanoia”) implica a mudança radical da mente, dos comportamentos, dos valores, de forma a que o coração do crente se volte de novo para Deus e passe a viver “segundo Deus”. No contexto neotestamentário, mais especificamente, a “conversão” é a renúncia ao egoísmo, ao orgulho e à autossuficiência, e o aceitar a proposta de salvação que Deus faz através de Jesus. Implica o acolher Jesus como o salvador e segui-l’O, no caminho do amor, da entrega, do serviço, do dom da vida.
    “Receber o batismo em nome do Senhor Jesus Cristo” é reconhecer que Jesus tem uma proposta de salvação e de vida nova, mergulhar na água de Jesus, optar por essa vida nova que Jesus propõe e incorporar-se à comunidade da Nova Aliança.
    Quem adere a Jesus e passa a integrar a comunidade do Reino, recebe o Espírito Santo: ao optar por Cristo, o crente acolhe no seu coração a vida de Deus e a sua existência passa a ser animada por um dinamismo divino que, continuamente, o recria, o vivifica, o transforma.
    De acordo com a notícia de Lucas, as palavras de Pedro foram bem acolhidas: “naquele dia juntaram se aos discípulos cerca de três mil pessoas” (At 2,41). A força irresistível do Evangelho e a presença operante do Espírito começam a mudar a face da terra.

    INTERPELAÇÕES

    • As palavras de Pedro no dia de Pentecostes recordam aos habitantes de Jerusalém algo que a catequese de Israel conhecia perfeitamente: a vontade salvífica de Deus, mil vezes manifestada na história. É nesse enquadramento que Pedro lê a própria presença de Jesus no meio dos homens: Deus enviou-O ao mundo como “Senhor e Messias”, para apresentar aos homens, em discurso direto, o plano salvador do Pai. Apesar de tudo nós, seres humanos, nunca facilitamos a ação de Deus: ignorámo-l’O, desafiámo-l’O, enveredámos por caminhos de egoísmo e de autossuficiência, chegámos até a tentar silenciar Jesus dando-lhe uma morte abominável; mas Deus nunca abandonou o seu projeto de salvação e continuou sempre a apontar-nos os caminhos que conduzem à vida verdadeira. Este Deus, maravilhosamente “teimoso”, é verdadeiramente o Pastor bom que cuida de nós e que nos conduz para as nascentes de água viva. Como nos posicionamos diante da iniciativa de Deus? Estamos disponíveis para abraçar a sua oferta de salvação?

    • Perante a interpelação que Deus faz, por intermédio de Pedro e dos outros apóstolos, os habitantes de Jerusalém perguntam: “que havemos de fazer, irmãos?” É a atitude de quem toma, bruscamente, consciência dos caminhos errados que tem trilhado, percebe o sem sentido de certas opções, comportamentos e valores, aceita questionar as certezas e seguranças em que estava instalado, para aceitar os desafios de Deus. Trata-se de uma atitude corajosa: é mais fácil continuar comodamente instalado na sua autossuficiência, do que “dar o braço a torcer” e reconhecer, com humildade, a necessidade de eliminar os preconceitos, de refazer os velhos e anquilosados esquemas mentais, de admitir as falhas, os limites, as incoerências. Aceitamos questionar-nos, estamos dispostos a admitir os nossos limites, procuramos humildemente o caminho certo, ou somos daqueles que nunca nos enganamos e raramente temos dúvidas?

    • Aos interessados em acolher a salvação de Deus, Pedro propõe um caminho de conversão. Converter-se é abandonar os velhos caminhos de egoísmo, de prepotência, de orgulho, de autossuficiência que nos levam para longe de Deus e voltar para trás, para que possamos escutar novamente Deus, aceitar outra vez os seus desafios, viver de acordo com as suas indicações, numa entrega obediente nas mãos de Deus; é abraçar a proposta de vida nova que Jesus nos veio oferecer, seguir atrás de Jesus, viver ao seu estilo, abraçar o seu Evangelho, comprometer-se com o Reino de Deus. Estamos disponíveis para encarar a nossa vida sob o signo da conversão? O que é que, na nossa vida, mais necessita de ser transformado, em termos de ideias, valores, comportamentos? O que temos de corrigir para viver de forma coerente com o nosso batismo e com a nossa opção por Jesus?

    SALMO RESPONSORIAL – Salmo 22 (23)

    Refrão 1: O Senhor é meu pastor: nada me faltará.

    Refrão 2: Aleluia.

    O Senhor é meu pastor: nada me falta.
    Leva me a descansar em verdes prados,
    conduz me às águas refrescantes
    e reconforta a minha alma.

    Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome.
    Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
    não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo:
    o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.

    Para mim preparais a mesa
    à vista dos meus adversários;
    com óleo me perfumais a cabeça
    e o meu cálice transborda.

    A bondade e a graça hão de acompanhar me
    todos os dias da minha vida,
    e habitarei na casa do Senhor
    para todo o sempre.

    LEITURA II – Primeira Carta de Pedro 2,20b-25

    Caríssimos:
    Se vós, fazendo o bem, suportais o sofrimento com paciência,
    isto é uma graça aos olhos de Deus.
    Para isto é que fostes chamados,
    porque Cristo sofreu também por vos,
    deixando vos o exemplo,
    para que sigais os seus passos.
    Ele não cometeu pecado algum
    e na sua boca não se encontrou mentira.
    Insultado, não pagava com injúrias;
    maltratado, não respondia com ameaças;
    mas entregava Se Àquele que julga com justiça.
    Ele suportou os nossos pecados
    no seu Corpo, no madeiro da cruz,
    a fim de que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça:
    pelas suas chagas fomos curados.
    Vós éreis como ovelhas desgarradas,
    mas agora voltastes para o pastor e guarda das vossas almas.

    CONTEXTO

    O autor da designada “Primeira Carta de Pedro” apresenta-se como “Pedro, apóstolo de Jesus Cristo” (1Pe 1,1a), “presbítero”, “testemunha dos padecimentos de Cristo e também participante da glória que se há de manifestar” (1Pe 5,1). O apóstolo Pedro conhecido da tradição cristã é, naturalmente, Simão Pedro, o pescador do Mar da Galileia, irmão de André, que habitava na cidade de Cafarnaum e a quem Jesus certo dia, chamou para ser “pescador de homens” (cf. Mc 1,16-18).
    No entanto, parece bastante improvável que Pedro, o pescador do Mar da Galileia, tenha sido o autor desta carta. Antes de mais, por questões de ordem literária: a qualidade literária da carta parece estar bem acima daquilo que seria o estilo de um pescador galileu pouco instruído, como seria o caso de Pedro. Depois, porque a situação das comunidades cristãs referidas na carta parece situar-nos dentro dos anos oitenta, numa época em que se sentia claramente a hostilidade do Império contra os cristãos e começavam a perspetivar-se no horizonte as grandes perseguições do final do séc. I. Por essa altura, Pedro há muito teria morrido (segundo a tradição cristã, o apóstolo foi martirizado em Roma, durante a perseguição de Nero, por volta do ano 66-67).
    A partir destes dados, o mais provável é que o autor da referida carta seja um cristão cujo nome ignoramos – provavelmente um responsável de uma comunidade cristã – empenhado em fortalecer o compromisso dos cristãos que viviam em algumas zonas rurais da Ásia Menor. Ele escreve em finais do séc. I (nunca antes dos anos 80).
    Os destinatários da missiva seriam ainda, de acordo com o texto, os “eleitos” de Deus que peregrinam na diáspora do Ponto, da Galácia, da Capadócia, da Ásia e da Bitínia” (1Pe 1,1b). Trata-se de comunidades cristãs de âmbito rural, constituídas maioritariamente por camponeses pobres, que cultivam as propriedades de gente rica. Também há, entre eles, pequenos proprietários que vivem em aldeias, fora dos grandes centros urbanos. São pessoas economicamente débeis, vulneráveis à hostilidade que o império romano começa a manifestar em relação ao cristianismo.
    Conhecendo bem as provações que estes cristãos sofrem, o autor da Carta exorta-os a manterem-se fiéis à sua fé, apesar das dificuldades. Convida-os a olharem para Cristo, que passou pela experiência da paixão e da cruz, antes de chegar à ressurreição; e exorta-os a manterem a esperança, o amor, a solidariedade, vivendo com alegria, coerência e fidelidade a sua opção cristã.
    O texto que nos é proposto integra uma perícope em que o autor apresenta aos destinatários da carta um conjunto de conselhos práticos sobre a conduta que os cristãos devem assumir em várias situações da vida (cf. 1 Pe 2,11-5,11). Mais especificamente, o nosso texto reflete sobre os deveres dos servos (cf. 1 Pe 2,18) face aos seus senhores.

    MENSAGEM

    Muitos desses “eleitos” de Deus “que peregrinam na diáspora do Ponto, da Galácia, da Capadócia, da Ásia e da Bitínia” (1Pe 1,1b), são escravos que estão ao serviço de um patrão rico e poderoso. Como devem eles comportar-se em relação aos seus senhores, nomeadamente em relação àqueles que são severos e exigentes? O autor da primeira Carta de Pedro responde: com respeito e obediência (cf. 1Pe 2,18), pois “é meritório suportar contrariedades em, atenção a Deus, sofrendo injustamente” (1Pe 2,19).
    Para ilustrar a sua resposta, o autor da Carta propõe o exemplo de Cristo: Ele sofreu (cf. 1Pe 2,21) sem ter feito mal nenhum (cf. 1Pe 2,22); maltratado pelos inimigos, não respondeu com agressão e vingança (cf. 1Pe 2,23); pelo dom da sua vida, eliminou o pecado que afastava os homens de Deus e curou-nos daquilo que nos fazia mal (cf. 1Pe 2,24); por isso, Ele é como um Pastor que reúne as “ovelhas desgarradas”, as cura, as guarda e as conduz em direção à vida verdadeira (cf. 1Pe 2,25).
    O nosso texto integraria, provavelmente, um antiquíssimo hino cristão utilizado na liturgia primitiva para celebrar Cristo e o valor salvífico da sua morte na cruz, em benefício de todos. Esse hino teria sido composto a partir de diversas referências véterotestamentárias. Um dos textos que inspirou esse hino foi, certamente, o quarto cântico do “servo de Javé” (cf. Is 53,4-9.12), um poema que reflete a experiência de um misterioso “servo sofredor” bom e justo, que “não cometeu pecado algum e em cuja boca não se encontrou mentira” (cf. Is 53,9), que suportou pacientemente as injustiças e de cuja entrega resultou vida para o seu Povo. Outro texto que poderá ter influenciado a composição desse hino cristão primitivo é Ez 34, onde se fala de Deus como “o bom pastor”, que cuida das suas ovelhas fracas, doentes e tresmalhadas. Ao ligar o tema do “pastor” com o tema do sofrimento de Cristo, o autor desta catequese está a sugerir que foi do sofrimento de Cristo que resultou vida e salvação para o rebanho de Deus.
    A reflexão proposta pelo autor da primeira Carta de Pedro é dirigida apenas aos escravos que têm de lidar com a severidade e a desumanidade dos seus senhores? É claro que não. Trata-se de uma proposta para todos os crentes de todas as épocas, de todos os lugares e de todas as condições sociais. O cristão é chamado a “fazer a diferença”, a quebrar a cadeia de violência e de agressividade, a introduzir no mundo uma lógica nova. Mesmo que seja maltratado e injustiçado, o discípulo de Cristo vive e testemunha o amor, a bondade, a misericórdia e a mansidão de Deus. Assumindo uma atitude semelhante à de Cristo, o batizado está a lançar a semente de um mundo novo. É essa a sua vocação.

    INTERPELAÇÕES

    • A injustiça, a prepotência, a arbitrariedade, são realidades que, desde sempre, estiveram presentes na relação entre os humanos. Pensou-se que a consciência progressiva da dignidade e dos direitos de cada pessoa poderia tornar obsoletos todos os comportamentos desrespeitosos e desumanos; mas isso não aconteceu e, provavelmente, nunca acontecerá. Em pleno séc. XXI, a violência, a tirania, o despotismo, o desprezo pelos direitos dos mais frágeis, a imposição de visões e interesses egoístas por parte dos poderosos, continuam a manchar a história dos homens. Como devemos lidar com tudo isso? Faz sentido responder à violência recorrendo à solução da violência? É a este tipo de questões que a nossa leitura responde. O autor não está interessado em grandes argumentações filosóficas, sociológicas ou teológicas: propõe apenas aos “batizados” o exemplo de Cristo, que passou pelo mundo fazendo o bem e foi preso, torturado, assassinado sem resistir, sem se revoltar, sem responder “na mesma moeda” aos seus assassinos. É uma lógica incompreensível, até mesmo incongruente aos olhos do mundo… Mas é a lógica de Deus, desse Deus misericordioso e paciente, que nos propõe transformar o mundo e a história através do amor; e Jesus demonstrou que só este caminho conduz à ressurreição, à vida nova, a um dinamismo gerador de um mundo novo. O cristão é chamado a ser testemunha no meio dos homens desta novidade absoluta: só o amor gera vida nova e transforma o mundo. Seremos suficientemente “fortes” para abraçar o caminho que Jesus veio propor-nos?

    • O autor da primeira Carta de Pedro refere-se a Jesus como “o Pastor” que reúne as suas ovelhas, as guarda e as conduz para as pastagens eternas onde há vida em abundância. Seguir esse “Pastor” é tornar-se seu discípulo e ir atrás d’Ele pelos caminhos que Ele indica, imitar os seus gestos, fazer o bem a todos, perdoar sem condições, testemunhar a todos a misericórdia de Deus, responder à injustiça e à violência com o amor. Cristo é, de facto, o nosso “Pastor”, a nossa referência fundamental, o modelo de vida que temos sempre diante dos olhos, aquele que seguimos sem hesitar? Como Cristo, estamos disponíveis para dar testemunho no mundo – mesmo que “contra a corrente” – da ternura, da misericórdia e da bondade de Deus?

    ALELUIA – João 10,14

    Aleluia. Aleluia.

    Eu sou o bom pastor, diz o Senhor:
    conheço as minhas ovelhas e elas conhecem-Me.

    EVANGELHO – João 10,1-10

    Naquele tempo, disse Jesus:
    «Em verdade, em verdade vos digo:
    Aquele que não entra no aprisco das ovelhas pela porta,
    mas entra por outro lado,
    é ladrão e salteador.
    Mas aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas.
    0 porteiro abre lhe a porta e as ovelhas conhecem a sua voz.
    Ele chama cada uma delas pelo seu nome e leva as para fora.
    Depois de ter feito sair todas as que lhe pertencem,
    caminha à sua frente
    e as ovelhas seguem-no, porque conhecem a sua voz.
    Se for um estranho, não o seguem, mas fogem dele,
    porque não conhecem a voz dos estranhos».
    Jesus apresentou lhes esta comparação,
    mas eles não compreenderam o que queria dizer.
    Jesus continuo: «Em verdade, em verdade vos digo:
    Eu sou a porta das ovelhas.
    Aqueles que vieram antes de Mim são ladrões e salteadores,
    mas as ovelhas não os escutaram.
    Eu sou a porta.
    Quem entrar por Mim será salvo:
    é como a ovelha que entra e sai do aprisco e encontra pastagem.
    O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir.
    Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida
    e a tenham em abundância».

    CONTEXTO

    O capítulo 10 do 4º Evangelho é dedicado à catequese do “Bom Pastor”. O autor utiliza esta imagem para propor uma catequese sobre a missão de Jesus: a obra do “Messias” consiste em conduzir o homem às pastagens verdejantes e às fontes cristalinas de onde brota a Vida em plenitude.
    A imagem do “Bom Pastor” não foi inventada pelo autor do Quarto Evangelho. Literariamente falando, este discurso simbólico está construído com materiais provenientes do Antigo Testamento. Em especial, este discurso tem presente o texto de Ez 34, onde se encontra a chave para compreender a metáfora do “pastor” e do “rebanho”. Falando aos exilados da Babilónia, Ezequiel constata que os líderes de Israel foram, ao longo da história, maus “pastores”, que conduziram o Povo por caminhos de sofrimento, de injustiça e de morte; mas – diz também Ezequiel – o próprio Deus vai agora assumir a condução do seu Povo; Ele irá colocar à frente do seu “rebanho” um “Bom Pastor” (o “Messias”), que o livrará da escravidão e o conduzirá à Vida. A catequese que o 4º Evangelho nos oferece sobre o “Bom Pastor” sugere que a promessa de Deus – veiculada por Ezequiel – se cumpre em Jesus.
    De acordo com o Evangelho de João, Jesus teria pronunciado o “discurso do Bom Pastor” (cf. Jo 10) em Jerusalém, em contexto da “festa da Dedicação do Templo” (cf. Jo 10,22). Esta festa (chamada, em hebraico, “Hanûkkah”) celebra a purificação do Templo de Jerusalém (164 a.C.), por Judas Macabeu, depois de o rei selêucida Antíoco IV Epifânio o ter profanado (167 a.C.), construindo um altar em honra de Zeus dentro do espaço sagrado. É a festa da Luz. O símbolo por excelência dessa festa é um candelabro de oito braços (“hanûkkiyyah”). Os braços desse candelabro vão sendo progressivamente acesos, um a um, ao longo dos oito dias em que se celebra a festa. Jesus tinha, pouco antes, curado um cego de nascença, assumindo-se como “a Luz” que veio para iluminar as trevas do mundo (cf. Jo 8,12; 9,1-41).
    Apesar do ambiente festivo, a relação entre Jesus e os líderes judaicos é de grande tensão (cf. Jo 9,40; 10,19-21.24.31-39). Depois de ver a pressão que esses líderes colocaram sobre um cego de nascença para que ele não abraçasse a luz (cf. Jo 9,1-41), Jesus denuncia a forma como eles tratam a comunidade: estão apenas interessados em proteger os seus interesses pessoais e usam o Povo em benefício próprio; são, pois, “ladrões e salteadores” (Jo 10,1.8.10), que tomaram de assalto o rebanho que lhes foi confiado e roubam ao Povo a oportunidade de encontrar Vida.

    MENSAGEM

    O episódio da cura do cego de nascença (cf. Jo 9), terminara com Jesus a avisar s dirigentes judaicos que iam ser chamados a juízo (“krima”) pela forma displicente como exerciam a missão a que tinham sido chamados (cf. Jo 9,39-41). Enquanto líderes da comunidade, eles deviam conduzir o povo por caminhos direitos; mas, ocupados com os seus interesses pessoais e preocupados em preservar os privilégios de que gozavam, declinaram as suas responsabilidades. Rejeitaram acolher a luz libertadora de Deus e fizeram tudo para que o povo permanecesse nas trevas. O povo de Deus, conduzido por gente indigna e incompetente, era como um rebanho sem pastor.
    O chamado “discurso do Bom Pastor” encaixa aqui. Recorrendo a duas parábolas muito belas e muito expressivas, Jesus anuncia a intenção de Deus de dar ao seu povo um Pastor Bom e Verdadeiro, que se interesse realmente pelas suas ovelhas e as conduza à vida abundante, à vida feliz, à vida plena.

    Na primeira parábola dessas parábolas (cf. Jo 10,1-6), Jesus apresenta-se como o verdadeiro Pastor do rebanho de Deus. Ele tem um mandato do Pai e a sua missão foi-lhe confiada pelo Pai. Em Ezequiel, o papel do “pastor” correspondia, em primeiro lugar, a Deus (cf. Ez 34,11-12.15) e ao futuro enviado de Deus, o “Messias”, descendente de David (cf. Ez 34,23). Ao apresentar-se como Aquele “que entra pela porta” (Jo 10,2), com autoridade legítima, Jesus declara-Se, implicitamente, o “Messias” enviado por Deus para conduzir o seu Povo e para o guiar para as pastagens onde há vida em plenitude.
    A atuação de Jesus em relação ao rebanho de Deus estará em absoluto contraste com a dos dirigentes judaicos. Estes abeiram-se das “ovelhas” como “ladrões e salteadores” (Jo 10,1). Não estão preocupados com o bem das “ovelhas”; apenas pretendem explorá-las, enganá-las, utilizá-las de acordo com os seus interesses pessoais. Mantêm o povo prisioneiro, mergulhado numa escuridão sem saída e sem objetivos. Escravizam o “rebanho” e impedem-no de ter acesso a uma vida livre e digna. Em contrapartida Jesus, o Bom e Verdadeiro Pastor, está interessado no bem das ovelhas. O que o move é o amor. Ele entra no redil das “ovelhas” para cuidar delas, não para as explorar e roubar. A sua missão é libertá-las das trevas em que os dirigentes políticos e religiosos as trazem imersas e conduzi-las ao encontro da luz libertadora (cf. Jo 10,2).
    Como é que Jesus concretizará a sua missão de “pastor”? Em primeiro lugar, irá chamar as “ovelhas”. Chamá-las-á “pelo seu nome”, porque conhece cada uma e com cada uma quer ter uma relação pessoal de amor, de proximidade, de comunhão: para Jesus, não há “massas” anónimas e sem rosto, mas pessoas concretas, com a sua identidade própria, com a sua riqueza, com a sua dignidade.
    O Pastor Bom e Verdadeiro não obrigará ninguém a responder-Lhe; mas os que responderem ao seu chamamento farão parte do seu “rebanho”. A esses, Jesus conduzi-los-á “para fora” (Jo 10,3): Ele não veio instalar-Se na antiga instituição judaica, geradora de opressão e de escravidão; mas veio criar uma comunidade humana nova, a comunidade do novo Povo de Deus.
    Depois, o “pastor” caminhará à frente das ovelhas (Jo 10,4). Será o primeiro a identificar os perigos e a defender as suas ovelhas; depois, mostrará às “ovelhas” o caminho, pois Ele próprio é “o caminho” (cf. Jo 14,6) que leva à vida plena. As “ovelhas” segui-l’O-ão sem hesitações: “seguir” traduz a atitude do discípulo, convidado a ir atrás de Jesus no caminho do amor e do dom da vida, a fazer d’Ele a sua referência fundamental, a aderir a Ele de todo o coração. As “ovelhas” escutarão a voz” de Jesus, porque sabem que só Ele as conduzirá em segurança pelos caminhos e veredas, ao encontro da vida definitiva.

    Na segunda parábola (cf. Jo 10,7-9), Jesus apresenta-Se como “a porta das ovelhas”. Qual o alcance desta imagem?
    “A porta” dá acesso ao espaço onde estão as ovelhas. Quem quiser ter acesso ao rebanho, tem de passar pela porta. Nessa sentido, a imagem indica que ninguém pode ir ao encontro das ovelhas se não tiver um mandato do próprio Jesus. Indica também que ninguém pode ir ao encontro das “ovelhas” se não tiver os mesmos sentimentos, a mesma atitude, a mesma preocupação de Jesus: cuidar das ovelhas, proporcionar-lhes vida em abundância.
    Mas “a porta” também dá passagem às próprias ovelhas. Permite-lhes sair e entrar. Permite-lhes aceder às pastagens onde há alimentos e água em abundância; mas permite-lhes também regressar ao espaço protegido onde encontram abrigo e segurança contra a noite, contra os animais selvagens e contra os ladrões e salteadores. Toda a vida das “ovelhas” passa por Jesus. Para as suas “ovelhas”, Jesus é a referência fundamental. É de Jesus que as “ovelhas” partem e é para Jesus que as “ovelhas” voltam. É à volta de Jesus e em relação a Jesus que as “ovelhas” constroem o seu horizonte existencial.

    Na última “palavra” do nosso texto, Jesus reafirma a missão que recebeu do Pai: “Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). A afirmação de Jesus desvenda, definitivamente, o desígnio de Deus a nosso respeito.

    INTERPELAÇÕES

    • Todos nós temos os nossos heróis, os nossos mestres, os nossos modelos. São figuras que consideramos como referências, figuras que respeitamos e de quem esperamos orientações, figuras cujas opiniões acolhemos e seguimos. Os povos antigos, ainda muito ligados a contextos agrários e pastoris, facilmente designavam uma figura dessas como “o Pastor” (nós hoje utilizamos outras palavras: “presidente”, “rei”, “diretor”, “superior”, “chefe”, “professor”, “guru”, guia). Será que todas essas figuras que admiramos e cujas opiniões seguimos merecem a nossa confiança? Todas elas estarão realmente interessadas no nosso bem? Todas elas terão como objetivo fundamental conduzir-nos à vida verdadeira?

    • Para o autor do Quarto Evangelho, “o Pastor” por excelência é Jesus: Ele recebeu do Pai a missão de conduzir o “rebanho” de Deus das trevas para a luz, da escravidão para a liberdade, da morte para a vida. “Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância” – diz Jesus. É, portanto, em Jesus que devemos confiar, é à volta d’Ele que nos devemos juntar, são as suas indicações e propostas que devemos seguir… O nosso “Pastor” é, de facto, Cristo, ou temos outros “pastores” que nos arrastam e que são as referências fundamentais à volta das quais construímos a nossa existência? Quem é que define os caminhos em que andamos: Jesus Cristo, ou um qualquer “influencer” que a sociedade do nosso tempo adotou e impôs? Quem é que dita os valores sobre os quais construímos a nossa vida: Jesus Cristo, ou os valores consagrados por uma sociedade materialista, desumana e desumanizadora?

    • Reparemos na forma como Jesus desempenha a sua missão de “Pastor”: Ele ama as ovelhas, interessa-se por elas, conhece-as e chama-as pelo nome, estabelecendo com cada uma delas uma relação única, especial, pessoal; Ele dirige às “ovelhas” um convite a deixarem a escuridão, mas não força ninguém a segui-l’O pois, para Ele, a liberdade de cada pessoa é um valor inalienável… Jesus manifesta de maneira sublime, na forma como se relaciona connosco, o amor, a bondade, a tolerância, a misericórdia que Deus tem por todos os seus queridos filhos. É esse o paradigma para as relações que nos ligam aos irmãos e irmãs que caminham connosco? Aqueles que receberam de Deus a missão de presidir a um grupo, de animar uma comunidade, exercem a sua missão no respeito absoluto pela pessoa, pela sua dignidade, pela sua individualidade?

    • No “rebanho” de Jesus, não se entra por convite especial, nem há um número restrito de vagas. A proposta de salvação que Jesus faz destina-se a todos os homens e mulheres, sem exceção. O que é decisivo para fazer parte do rebanho de Deus é “escutar a voz” de Jesus, aceitar as suas indicações, tornar-se seu discípulo… Isso significa, concretamente, ir atrás de Jesus, aderir ao projeto de salvação que Ele veio propor, viver ao seu estilo, percorrer o mesmo caminho que Ele percorreu, numa entrega total aos projetos de Deus e numa doação total aos irmãos. Atrevemo-nos a seguir o nosso “Pastor” (Jesus) no caminho exigente do dom da vida, ou estamos convencidos que esse caminho é apenas um caminho de derrota e de fracasso, que não leva aonde nós pretendemos ir?

    • Nas nossas comunidades cristãs, temos pessoas que presidem e que animam, pessoas a quem foi confiado o serviço da autoridade. Podemos aceitar, sem problemas, que elas receberam essa missão de Jesus e da Igreja, apesar dos seus limites e imperfeições. Mas convém igualmente ter presente que o único “Pastor verdadeiro”, aquele que nunca falha, aquele que somos convidados a escutar e a seguir sem condições, é Jesus. Procuremos escutar e acolher, com humildade, mas também com consciência crítica, as indicações que nos são dadas pelos líderes das nossas comunidades; mas não nos esqueçamos de as confrontar, para aquilatar da sua validade, com as indicações que nos foram deixadas por Jesus, o Bom Pastor, o nosso único Pastor. Como me posiciono diante daqueles a quem foi confiado, na comunidade cristã, o serviço da autoridade?

    • Para que distingamos a “voz” de Jesus de outros apelos, de propostas enganadoras, de “cantos de sereia” que não conduzem à vida plena, é preciso um permanente diálogo íntimo com “o Pastor” (Jesus), um confronto permanente com a sua Palavra e a participação ativa nos sacramentos onde se nos comunica essa vida que “o Pastor” nos oferece. Procuro manter um diálogo frequente com Jesus, a fim de ter sempre vivas as suas indicações?

    ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 4.º DOMINGO DA PÁSCOA
    (adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)

    1. A LITURGIA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
    Ao longo dos dias da semana anterior ao 4.º Domingo da Páscoa, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa…

    2. DIA DAS VOCAÇÕES.
    Domingo do Bom Pastor, Dia Mundial de Oração pelas Vocações… A introdução à celebração deve ter em conta essa intenção. Para envolver a comunidade neste dinamismo vocacional, é bom recolher algum material preparado pelos animadores de centros vocacionais, que ajudem à oração, à reflexão e ao compromisso. O próprio Salmo 22 deve ser cuidado de modo especial. Ele não somente canta o Bom Pastor, mas é o salmo da iniciação cristã (alusão à água, à unção, à mesa). O cântico de entrada poderia ser um texto relacionado com este salmo.

    3. A PARÁBOLA DAS 4 PORTAS.
    Neste dia em que a porta tem uma função essencial de saída e entrada (a tal porta que é Cristo), a seguinte parábola, adaptada de Henri Denis, pode ajudar-nos a renovar o dinamismo da nossa vocação.
    “A Igreja é um templo com 4 portas.
    Jesus de Nazaré, o Cristo, é a sua pedra angular.
    Sobre esta pedra, colocaram-se os alicerces:
    a fé de Maria, o ensino dos Apóstolos.
    O templo foi-se edificando com pedras vivas.
    A construção é permanente durante séculos e séculos.
    Este templo é a Igreja: somos o templo do Deus vivo.
    A entrada no templo dá-se através de 2 portas.
    Uma chama-se MISTÉRIO, a outra INSTITUIÇÃO.
    Porém, quem entra no templo, é logo convidado a sair.
    As portas de saída também são duas.
    Uma chama-se MISSÃO, a outra REINO.
    No templo, entra-se para sair e sai-se para entrar.
    Não é um cofre, nem uma arca, nem um bunker.
    Nem sequer um paraíso,
    nem uma mera ponte ou um edifício ornamental.
    No templo, nota-se um admirável dinamismo,
    onde se harmoniza o aparentemente contraditório.
    Todos estão a caminho, em permanente movimento.
    No templo, há dois eixos:
    o centrípeto, para o qual conduzem as portas de entrada
    (criam comunhão e identidade)
    e o centrífugo, para o qual conduzem as portas de saída
    (responsável pela dispersão da Igreja e sua missão no mundo).
    Cada um pode escolher, para começar,
    a porta de que mais gostar,
    a que lhe pareça mais fácil e acessível,
    mas com a condição de ir buscar em seguida
    as chaves das outras portas”.

    4. BILHETE DE EVANGELHO.
    Chamados a ser a fazer… Alguns escolheram o seu estado de vida, outros não escolheram, mas procuram assumi-lo: pensemos nas pessoas viúvas, divorciadas, celibatárias. A Igreja enriquece-se com esta variedade de estados de vida: vida consagrada na vida religiosa ou num instituto secular, vida conjugal, celibato. Todos somos chamados a tornarmo-nos em cada dia um pouco mais santos. Tal é a nossa vocação comum a todos. A Igreja cumpre a sua missão graças àqueles que asseguram um serviço. Há o ministério ordenado (padres ou diáconos), o serviço do anúncio da Boa Nova para lá de todas as fronteiras (missionários) e todos os serviços prestados pelos leigos nos domínios da catequese, da liturgia, da ação caritativa, do testemunho. Nem todos somos chamados a ser padres, diáconos ou missionários. Mas somos todos chamados a servir no mundo e na Igreja!

    5. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
    Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

    No final da primeira leitura:
    Bendito sejas, Jesus, manifestado como Cristo e Senhor pela tua ressurreição. Por Ti damos graças a Deus nosso Pai pelo batismo na tua Igreja, pelo perdão dos pecados e pelo dom do Espírito Santo.
    Nós Te pedimos por todos os nossos irmãos e irmãs que procuram conhecer-Te: converte os seus corações à tua Palavra, para que possam aproximar-se do batismo.

    No final da segunda leitura:
    Deus nosso Pai, nós Te damos graças pelo teu Filho Jesus, porque suportou os nossos pecados no madeiro da cruz, a fim de que nós possamos morrer a tudo o que é mal e viver na justiça.
    Nós éramos errantes como ovelhas, mas por Jesus Tu nos procuraste, e nós pudemos regressar para junto do pastor que vela por nós. Cura-nos das feridas do mal.

    No final do Evangelho:
    Nós Te damos graças, Jesus, Pastor do teu povo, que caminhas à frente da tua Igreja. Nós Te bendizemos, Tu que és a Porta das ovelhas, Tu que vieste para que tenhamos a vida em abundância.
    Nós Te pedimos por todos os teus fiéis: Tu que chamas cada um de nós pelo nome, torna-nos atentos à tua voz, que nos fazes ouvir na tua Igreja pela leitura dos Evangelhos.

    6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
    Pode-se escolher a Oração Eucarística III para a Assembleia com Crianças, em harmonia com o Evangelho, que contém duas passagens próprias do tempo pascal.

    7. PALAVRA PARA O CAMINHO.
    Eu sou o bom pastor. Nesta semana, tomemos tempo para caminhar ao ritmo do Pastor que nos conhece e que chama cada um de nós pelo próprio nome. E nós escutaremos a sua voz, saboreando o magnífico Salmo 22: «O Senhor é meu pastor, nada me falta». Durante a semana procuremos também rezar pela fidelidade à vocação a que o Senhor nos chama e por todas as outras vocações…

     

    UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
    PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA
    Grupo Dinamizador:
    José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
    Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
    Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
    www.dehonianos.org

  • S. Catarina de Sena, Virgem e doutora da Igreja, padroeira da Europa

    S. Catarina de Sena, Virgem e doutora da Igreja, padroeira da Europa


    29 de Abril, 2026

    S. Catarina nasceu em Sena, Itália, a 25 de Março de 1347. Dotada por Deus com graças especiais, desde a sua infância, cortou o cabelo e cobriu a cabeça com um véu branco, em sinal de consagração, quando tinha apenas 12 anos e pretendiam casá-la. Sofreu muito com essa decisão, mas manteve-se fiel. Vestiu o hábito das religiosas dominicanas, mantendo-se na família e na cidade, e dedicando-se ao exercício das obras de misericórdia e procurando restabelecer a paz entre as famílias desavindas. Sendo analfabeta, em breve começou a ditar a diversos amanuenses as suas experiências místicas, reflexões e conselhos. Ditou cartas para prelados, pais de família, magistrados, reis e até para o próprio Papa, que, nessa época, se encontrava em Avinhão, incitando-o a regressar a Roma. A 13 de Outubro de 1376 Gregório XI iniciou a viagem de regresso a Roma, acompanhado por Catarina. Depois da morte de Gregório XI, a santa foi conselheira do seu sucessor, Urbano VI. O seu ideal era pacificar a Pátria (a Itália) e purificar a Igreja. Faleceu, em Roma, a 29 de Abril de 1380. Com S. Brígida e S. Teresa Benedita da Cruz, é padroeira da Europa.
    Lectio
    Primeira leitura: Primeira de João 1, 5 - 2, 2

    Caríssimos: esta é a mensagem que ouvimos de Jesus e vos anunciamos: Deus é luz e nele não há nenhuma espécie de trevas. 6Se dizemos que temos comunhão com Ele, mas caminhamos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. 7Pelo contrário, se caminhamos na luz, como Ele, que está na luz, então temos comunhão uns com os outros e o sangue do seu Filho Jesus purifica-nos de todo o pecado. 8Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós. 9Se confessamos os nossos pecados, Deus é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a iniquidade. 10Se dizemos que não somos pecadores, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós. 1Filhinhos meus, escrevo-vos estas coisas para que não pequeis; mas, se alguém pecar, temos junto do Pai um advogado, Jesus Cristo, o Justo, 2pois Ele é a vítima que expia os nossos pecados, e não somente os nossos, mas também os de todo o mundo.

    Jesus disse-nos que Deus é luz. O cristão deve caminhar na luz, que alegra, ilumina e é símbolo de tudo o que há de bom e puro (cf. Jo 3, 19-20). O contrário, o mal, é simbolizado pelas trevas. Mas, mais do que fazer especulações sobre a natureza de Deus, o autor da Carta lança as bases necessárias para extrair as implicações morais, que o fato de ser de Deus impõe ao cristão. Luz/trevas, bem/mal, verdade/mentira, graça/pecado... são incompatíveis, não podem estar juntos no mesmo sujeito. Mas, estar em comunhão com Deus e andar na luz não significa ser impecáveis. Também o cristão peca e tem consciência disso. A Igreja não é uma comunidade de puros e perfeitos, que nunca pecaram, mas uma comunidade que acredita que os seus pecados não são obstáculo permanente para nos aproximarmos de Deus. O pecado é superável pela ação de Deus em Cristo. É a partir dessa ação que surge o imperativo de lutar contra o pecado. Se o cristão se dá conta de que a sua comunhão com Deus foi quebrada pelo pecado, deve recordar que Jesus Cristo é seu intercessor e defensor diante do Pai. Mais ainda, que é o meio de expiação pelos pecados cometidos.
    Evangelho: Mateus 25, 1-13

    Naquele tempo, Jesus disse aos seus discípulos: O Reino do Céu será semelhante a dez virgens que, tomando as suas candeias, saíram ao encontro do noivo. 2Ora, cinco delas eram insensatas e cinco prudentes. 3As insensatas, ao tomarem as suas candeias, não levaram azeite consigo; 4enquanto as prudentes, com as suas candeias, levaram azeite nas almotolias. 5Como o noivo demorava, começaram a dormitar e adormeceram. 6A meio da noite, ouviu-se um brado: 'Aí vem o noivo, ide ao seu encontro!' 7Todas aquelas virgens despertaram, então, e aprontaram as candeias. 8As insensatas disseram às prudentes: 'Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas candeias estão a apagar-se.' 9Mas as prudentes responderam: 'Não, talvez não chegue para nós e para vós. Ide, antes, aos vendedores e comprai-o.' 10Mas, enquanto foram comprá-lo, chegou o noivo; as que estavam prontas entraram com ele para a sala das núpcias, e fechou-se a porta. 11Mais tarde, chegaram as outras virgens e disseram: 'Senhor, senhor, abre-nos a porta!' 12Mas ele respondeu: 'Em verdade vos digo: Não vos conheço.' 13Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora."

    A parábola de Jesus encerra uma dinâmica que leva a um evento culminante: o encontro das virgens com o esposo, decisivo para a sua felicidade ou infelicidade, irrevogável. Não sabemos quando será esse encontro, mas sabemos como prepará-lo. A parábola pretende ajudar-nos na preparação.
    As virgens, prudentes ou imprudentes, adormecem todas. A nossa vida tem momentos de flexão, de abaixamento do fervor, de relaxamento espiritual. Quando o Senhor não está presente é sempre noite, e é fácil que as provações e as preocupações da vida nos distraiam, dificultando-nos estar vigilantes. Mas a vigilância, mais do que um estado físico ou mental, é uma atitude do coração. É o que nos indica o Cântico dos Cânticos: "Durmo, mas o meu coração vigia!" (5, 2). Para estar prontos, de lâmpadas acesas, havemos de frequentar o Evangelho, para com ele alimentarmos os nossos pensamentos, os nossos sentimentos, a nossa ação, para vivermos a Palavra e perseverarmos na fé.
    Meditatio

    O v.1 do segundo capítulo da 1 Jo parece-nos particularmente adequado à memória de Santa Catarina de Sena, que hoje celebramos: "escrevo-vos estas coisas para que não pequeis" (2, 1). Como S. João, Santa Catarina de Sena escreveu para que fosse evitado o pecado. Entre as muitas cartas que escreveu, também se dirigiu aos padres para os incitar a viver em maior fidelidade ao Senhor, evitando as desordens, que ela notava, tais como a procura dos prazeres, o apego ao dinheiro... Ansiava por reconduzir todos à vivência da vida cristã, à fidelidade a Cristo: "escrevo-vos estas coisas para que não pequeis". Mas, sobretudo, estava convencida de que Jesus nos salvou pelo seu sangue, que temos um advogado junto do Pai, Jesus Cristo justo, vítima de expiação pelos nossos pecados: "o sangue do seu Filho Jesus purifica-nos de todo o pecado" (1 Jo 1, 8). Catarina tinha uma grande devoção ao sangue de Cristo, e falava dele muito frequentemente: fogo e sangue, fogo e sangue... Fogo do amor, alusão ao sangue de Cristo que nos cobre para nos lavar dos nossos pecados e nos unir na caridade divina.
    "Se caminhamos na luz, como Ele, que está na luz, então temos comunhão uns com os outros" (1 Jo 1, 7). Santa Catarina caminhava na luz. Mas a sua vida impecável não a separou dos pecadores, mas uniu-a profundamente a eles. Como aconteceu com tantas Santas, Catarina de Sena soube unir em si mesma a vocação de Marta e de Maria. Ao mesmo tempo, estava aos pés de Jesus, e mergulhada nas necessidades e lutas dos homens do seu tempo. Rezava, mas também se ocupava na reconciliação das fações em luta no seu país, de lançar a paz na igreja italiana, de fazer regressar o Papa de Avinhão a Roma, de que era bispo. Cuidou pessoalmente dos encarcerados, dos condenados, e andou por todo o lado. Vivia na paz do Senhor e na agitação do mundo.
    Hoje apetece-nos deixar-nos iluminar pela sua luz e permanecer aos pés de Santa Catarina, reconhecer nela a "filha da luz" de que nos fala a Escritura, para que "vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu" (Mt 5, 16). Gostamos de contemplá-la na sua incansável caminha ao encontro da Igreja e de Cristo, para nos deixarmos envolver nesse mesmo movimento. Olhando-a, parece-nos repetir, ela mesma, como que um convite ou mandato: "Ide ao seu encontro!" (v. 6).
    A exemplo de Santa Catarina de Sena, e conforme o desejo do P. Dehon, "sejam profetas do amor e servidores da reconciliação dos homens e do mundo em Cristo" (Cst 7).
    Oratio

    Oh abismo, oh Trindade eterna, oh Divindade, oh mar profundo! Que mais podíeis dar do que dar-Vos a Vós mesmo? Sois um fogo que arde sempre e não se consome. Sois Vós que consumis com o vosso calor todo o amor profundo da alma. Sois um fogo que dissipa toda frialdade e iluminais as mentes com a vossa luz, aquela luz com que me fizestes conhecer a vossa verdade... Sois a veste que cobre toda minha nudez; e alimentais a nossa fome com a vossa doçura, porque sois doce sem qualquer amargor. Oh Trindade eterna. (S. Catarina de Sena).
    Contemplatio

    O coração da virgem de Sena partia-se diante dos crimes do mundo e das paixões humanas, que se agitavam como ondas tumultuosas, nos tempos difíceis em que vivia... Ela teria querido dar até à última gota do seu sangue pelos interesses de Nosso Senhor. Consumia a sua vida nas austeridades e na oração, oferecendo-se como que vítima das iniquidades da terra. Suportou longos sofrimentos, que somente a comunhão acalmava um pouco. Da quarta-feira de cinzas ao dia da Ascensão, não tomava nenhum alimento exceto a adorável Eucaristia. Nosso Senhor deu-lhe os seus estigmas sem os deixar aparecer. Exercia a caridade com heroísmo para com os pobres e os doentes. Um dia em que a sua natureza estava revoltada à vista de uma úlcera repugnante, levou até lá os lábios para vencer a sua sensibilidade. Nosso Senhor apareceu-lhe na noite seguinte, e para a recompensar descobriu-lhe a chaga do seu lado e permitiu-lhe que lhe aplicasse a sua boca. Nosso Senhor apresentou à sua escolha uma coroa de ouro enriquecida de pedrarias e uma coroa de espinhos. Ela escolheu a coroa de espinhos, a coroa da reparação. A humilde religiosa consumiu-se em caminhadas penosas para fazer cessar o cisma do Ocidente. Convenceu o Papa Gregório XI a deixar Avinhão para voltar a Roma. Ofereceu a sua vida pelo bem da Igreja e morreu santamente no dia 29 de Abril de 1382. (Leão Dehon, OSP 2, p. 494s.).
    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "Escrevo-vos estas coisas para que não pequeis" (1 Jo 2, 1).
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    S. Catarina de Sena, virgem e doutora da igreja, padroeira da Europa (29 de Abril)