Eventos Março 2026

  • 02º Domingo da Quaresma - Ano A [atualizado]

    02º Domingo da Quaresma - Ano A [atualizado]

    1 de Março, 2026

    ANO A

    2.º DOMINGO DA QUARESMA

    Tema do 2.º Domingo da Quaresma

    Na segunda etapa do caminho quaresmal, a Palavra de Deus convida-nos a revitalizar a nossa fé, a escutar a voz de Deus, a pormo-nos a caminho, sem reticências nem prevenções, na direção que Ele nos indicar. Pode ser que, à luz da lógica humana, os caminhos que Deus nos aponta pareçam estranhos e ilógicos; mas eles conduzem, indubitavelmente, à vida verdadeira e eterna.

    A primeira leitura coloca diante dos nossos olhos aquele que a catequese de Israel considera o “modelo” do crente: Abraão. Depois de ouvir Deus dizer-lhe “põe-te a caminho”, Abraão deixa tudo, corta todas as amarras e avança rumo ao desconhecido, disposto a abraçar todos os desafios que Deus entender apresentar-lhe. A sua obediência é total, a sua confiança é inabalável. A forma como Abraão se entrega nas mãos de Deus interpela e desafia os crentes de todas as épocas.

    No Evangelho Jesus pede aos discípulos que confiem n’Ele e que ousem segui-l’O no caminho de Jerusalém. Esse caminho, embora passe pela cruz, conduz à ressurreição, à vida nova e eterna. Aos discípulos, relutantes e assustados, Deus confirma a verdade da proposta de Jesus: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O”. Ousaremos também nós seguir Jesus no caminho de Jerusalém?

    Na segunda leitura, o autor da Carta a Timóteo recorda-nos que Deus conta connosco para sermos, no mundo, arautos da Boa Notícia da sua salvação. Talvez isso signifique correr riscos, enfrentar medos, suscitar oposições, viver em sobressalto; mas a proposta de Deus não pode ser riscada dos caminhos que a humanidade percorre: tem de ser proclamada de cima dos telhados e chegar ao coração de todos os homens.

     

    LEITURA I – Génesis 12,1-4

    Naqueles dias,
    o Senhor disse a Abrão:
    «Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai
    e vai para a terra que Eu te indicar.
    Farei de ti uma grande nação e te abençoarei;
    engrandecerei o teu nome e serás uma bênção.
    Abençoarei a quem te abençoar,
    amaldiçoarei a quem te amaldiçoar;
    por ti serão abençoadas todas as nações da terra».
    Abrão partiu, como o Senhor lhe tinha ordenado.

     

    CONTEXTO

    A primeira leitura de hoje faz parte de um bloco de textos a que se costuma dar o nome genérico de “tradições patriarcais” (cf. Gn 12-36). Trata-se de um conjunto de relatos singulares, originalmente independentes uns dos outros, sem grande unidade e sem carácter de documento histórico. Esses capítulos reúnem materiais bastante diversos: “mitos de origem” (relatos que descreviam a “tomada de posse” de um lugar pelo patriarca de um determinado clã), “lendas cultuais” (narrativas populares cheias de elementos fantásticos, que descreviam como uma figura divina tinha aparecido num determinado lugar ao patriarca de um clã e lhe tinha deixado uma mensagem, dando origem a um culto), indicações mais ou menos concretas sobre o dia a dia dos clãs nómadas que circularam pela Palestina durante o segundo milénio (nascimentos e mortes, casamentos, conflitos familiares, lutas pela água ou pelas pastagens contra os pastores de outros clãs ou contra os povos sedentários das regiões que atravessavam) e reflexões teológicas posteriores destinadas a apresentar aos crentes israelitas modelos de vida e de fé.

    Por detrás do quadro teológico e catequético que nos é proposto nesses capítulos estão as migrações históricas de diversos povos nómadas, antepassados do povo bíblico, nos inícios do segundo milénio a.C. Por essa época, a história regista um forte movimento migratório de povos amorreus entre a Mesopotâmia e o Egipto, passando pela terra de Canaan. São povos que não conseguiram fixar-se na Mesopotâmia – ou que tiveram de a abandonar por causa de convulsões políticas registadas nessa zona no início do segundo milénio – e que continuaram o seu caminho migratório ao longo do Crescente Fértil, à procura de uma terra onde “plantar” definitivamente a sua tenda, de forma a escapar aos perigos e incomodidades da vida nómada. Os nossos patriarcas bíblicos fazem parte dessa onda migratória.

    Os clãs referenciados nas “tradições patriarcais” – nomeadamente os de Abraão, Isaac, Jacob e Lot – transportavam consigo os seus sonhos e esperanças. O denominador comum desses sonhos era a esperança de encontrar uma terra fértil e bem irrigada, bem como possuir uma família forte e numerosa que perpetuasse a “memória” da tribo e se impusesse aos inimigos. “Uma terra e uma descendência numerosa”: tal era o sonho que cada uma destas tribos longamente contemplava enquanto deambulava de terra em terra, ao sabor das vicissitudes do dia a dia, da abundância ou da carência de pastos e de fontes de água. O deus aceite pelo clã seria, para cada um destes grupos, o garante da concretização desses sonhos.

    Abraão, o protagonista da nossa primeira leitura deste domingo, viveu por volta de 1850 a.C.

     

    MENSAGEM

    Nos primeiros capítulos do livro do Génesis (cf. Gn 3-11), a catequese de Israel apresentou o quadro de uma humanidade que, optando por caminhos de egoísmo e de autossuficiência, pretendeu viver de costas voltadas para Deus. Como consequência das suas opções erradas, essa humanidade conheceu o pecado, o sofrimento e a morte.

    A opção errada do homem significará que o projeto de Deus falhou? Deus, dececionado com a ingratidão do homem terá desistido de o salvar? Deus irá renunciar ao seu projeto de construir uma história de relação e de comunhão com o homem?

    Não. Deus não desiste porque ama a humanidade que criou. O amor, quando é verdadeiro, nunca desiste. O que Javé vai fazer é tentar de novo, talvez de uma forma diferente. Desta vez, Javé lança o seu olhar sobre o mundo, escolhe um homem, interpela-o diretamente, começa com ele uma relação, elege-o para ser, no meio das nações, um “sinal” de Deus. Esse homem – esse escolhido de Deus – chama-se Abraão.

    O nome ”Abraão” é amorreu (significa “o pai é exaltado”). O clã de Abraão poderá ser originário de Ur, na baixa Mesopotâmia (cf. Gn 11,28). Os textos indicam que Abraão e a sua família terão emigrado para ocidente, para Haran (cf. Gn 11,31), talvez para fugir às convulsões políticas que, no início do segundo milénio a.C. agitavam a baixa Mesopotâmia. Foi de Haran que Abraão, após a morte de seu pai, desceu para a terra de Canaan.

    A catequese de Israel, no entanto, não verá na migração de Abraão para a terra de Canaan um acontecimento banal, fruto das circunstâncias da vida ou das vicissitudes da história. Segundo o teólogo javista, Abraão procedeu assim por indicação de Deus. Foi Deus que o convidou a deixar a sua terra e a sua família e a partir ao encontro de uma outra terra (cf. Gn 12,1). O convite de Deus está ligado, segundo o relato javista, a uma bênção e também à promessa de uma descendência numerosa. Porquê esta iniciativa de Deus? Porquê o chamamento a este homem, em particular? O catequista javista não dá qualquer tipo de explicação. Temos aqui um exemplo típico desse mistério, sempre novo e sempre sem explicação, chamado “vocação”.

    Como é que Abraão reage ao chamamento de Deus? É preciso ter em conta que, para os antigos, abandonar a terra (o horizonte natural onde o clã vive e onde tem as suas referências – inclusive em termos de paisagem física), a pátria (isto é, o espaço onde o clã encontra o afeto e a solidariedade e, além disso, o seu espaço protegido por usos, leis e costumes) e a família (o círculo familiar íntimo, onde o homem encontra o apoio e o seu complemento), era pouco menos do que irrealizável. Abraão será capaz de arriscar tudo, deixando o seguro para apostar num projeto nebuloso e incerto?

    Com consumada mestria, o autor javista descreve, de uma forma muito bela, a “resposta” de Abraão ao chamamento de Deus. Curiosamente, Abraão mantém-se completamente mudo, sem discutir, sem objetar, sem pedir qualquer explicação, sem impor nenhuma condição; contudo, os seus gestos valem por mil palavras: depois de escutar o desafio de Deus, o patriarca, simplesmente, pôs-se a caminho. O verbo “yalak” utilizado no vers. 4 (“ir”, “partir”, “pôr-se a caminho”) tem uma força extraordinária e expressa a audácia do crente que é capaz de arriscar tudo, de “cortar amarras”, de deixar o seguro para apostar em algo que não é certo, confiando apenas em Deus e na sua Palavra. Trata-se de um rasgo maravilhoso, que define uma atitude de fé radical, de confiança total, de obediência incondicional aos desígnios de Deus. Esta é uma das passagens onde o que se conta de Abraão tem um valor de modelo: o autor javista pretende ensinar aos seus concidadãos a obediência radical às propostas de Deus.

    Deus, por sua vez, compromete-se com Abraão e acena-lhe com uma promessa. A promessa expressa-se, neste contexto, através da bênção (a raiz “abençoar” é repetida cinco vezes, nestes poucos versículos). A bênção é uma comunicação de vida, através da qual Deus realiza a sua promessa de salvação. Na promessa aqui formulada, a bênção concretiza-se como descendência numerosa (noutros textos das “tradições patriarcais”, a bênção de Deus, além da descendência numerosa, completa-se com a promessa de uma terra).

    Particularmente importante, neste contexto da promessa é a ideia de que o Povo nascido de Abraão será uma fonte de bênção para todas as nações (vers. 3c): inaugura-se, aqui, a ideia de que Israel é o centro do mundo e de que a sua “vocação” é ser testemunha da salvação de Deus diante de todos os povos da terra. A eleição de Israel é um privilégio que Deus, de forma inexplicável e parcial concede a um povo? Mais do que um privilégio, trata-se de uma responsabilidade: Israel terá a responsabilidade de ser um “sinal” de Deus na história e na vida do mundo.

     

    INTERPELAÇÕES

    • A figura de Abraão que nos é apresentada pela catequese de Israel tem sido, ao longo dos tempos, uma figura inspiradora para todos os crentes. Abraão é o homem que encontra Deus, que está atento aos seus sinais e sabe interpretá-los, que responde aos desafios de Deus com uma obediência plena e com uma entrega total… Abraão, o homem que vive de Deus e para Deus, continua hoje a questionar o homem moderno, esse homem atarefado e autossuficiente que não tem tempo para “perder” com Deus pois está demasiado ocupado a conquistar o mundo, a ganhar dinheiro, a construir uma carreira recheada de êxitos, ou a aproveitar todos os “gozos” que a vida lhe pode proporcionar. Há lugar para Deus no nosso projeto de vida? No meio do ruído ensurdecedor que preenche as nossas idas e vindas, conseguimos escutar a voz de Deus? Como respondemos aos desafios que Deus a cada passo nos coloca?
    • Abraão escuta a voz de Deus. Deus manda-o partir e Abraão simplesmente põe-se a caminho. Não discute, não argumenta, não pede garantias, não põe condições. Não pede nenhum “sistema de posicionamento global” (GPS) para se orientar, nem solicita mapas atualizados dos caminhos que terá de percorrer. Não pergunta qual é o seu destino final, não exige saber se vai ao encontro de uma vida mais fácil. Simplesmente entrega-se nas mãos de Deus e vai. Com confiança absoluta, com total disponibilidade. A atitude de Abraão questiona o homem instalado e comodista, que prefere apostar na segurança do que já tem, em vez de arriscar na novidade de Deus, ou deixar que a Palavra de Deus ponha em causa os seus velhos hábitos, a sua forma de vida e a sua instalação. Estamos dispostos a mudar os nossos horizontes, a “pormo-nos a caminho” em direção a essa terra nova da vida plena e autêntica que Deus nos aponta, ou preferimos continuar prisioneiros dos nossos esquemas pré-concebidos, dos nossos medos, dos nossos velhos hábitos, das nossas velhas formas de pensar, de agir e de julgar os outros?
    • O “encontro” de Deus com Abraão não foi obra do acaso, mas sim fruto de uma clara decisão de Deus. A iniciativa de Deus mostra o seu interesse em relacionar-se com a humanidade, em estabelecer com os homens laços de comunhão e de familiaridade. Por detrás desse “interesse” de Deus está o seu projeto de salvação: Deus quer – quer muito – oferecer aos homens e mulheres que criou a possibilidade de se realizarem, de terem acesso à vida eterna. Talvez nós, seres humanos, encerrados em horizontes limitados e ocupados a viver “a prazo” nem sempre consigamos vislumbrar o alcance do projeto de salvação que Deus tem em marcha; talvez nós, seres humanos, seduzidos pela ambição, pelo comodismo e pela autossuficiência, prefiramos apostar no imediato, no facilitismo, no brilho ilusório das coisas efémeras… Os homens e mulheres do nosso tempo – do séc. XXI – têm consciência de que Deus tem um plano de salvação – de vida eterna, de realização plena – para lhes propor? Sentimo-nos testemunhas e arautos desse projeto no meio dos homens e mulheres que percorrem connosco o caminho da vida?

     

    SALMO RESPONSORIAL – SALMO 32 (33)

    Refrão 1: Esperamos, Senhor, na vossa misericórdia.

    Refrão 2: Desça sobre nós a vossa misericórdia,

    porque em Vós esperamos, Senhor.

     

    A palavra do Senhor é reta,
    na fidelidade nascem as suas obras.
    Ele ama a justiça e a retidão:
    a terra está cheia da bondade do Senhor.

    Os olhos do Senhor estão voltados para os que O temem,
    para os que esperam na sua bondade,
    para libertar da morte as suas almas
    e os alimentar no tempo da fome.

    A nossa alma espera o Senhor:
    Ele é o nosso amparo e protetor.
    Venha sobre nós a vossa bondade,
    porque em Vós esperamos, Senhor.

     

    LEITURA II – 2 Timóteo 1,8b-10

    Caríssimo:
    Sofre comigo pelo Evangelho, apoiado na força de Deus.
    Ele salvou-nos e chamou-nos à santidade,
    não em virtude das nossas obras,
    mas do seu próprio desígnio e da sua graça.
    Esta graça, que nos foi dada em Cristo Jesus,
    desde toda a eternidade
    manifestou-se agora pelo aparecimento
    de Cristo Jesus, nosso Salvador,
    que destruiu a morte
    e fez brilhar a vida e a imortalidade,
    por meio do Evangelho.

     

    CONTEXTO

    De acordo com a narrativa dos Atos dos Apóstolos, Paulo encontrou Timóteo em Listra, cidade da Licaónia (região histórica no interior da antiga Ásia Menor, na atual Turquia), no decurso da sua segunda viagem missionária. Filho de pai grego e de mãe judeo-cristã, Timóteo devia ser ainda bastante jovem, nessa altura (cf. At 16,1). No entanto, Paulo não hesitou em levá-lo consigo através da Ásia Menor, da Macedónia e da Grécia. Tímido e reservado, de saúde delicada (em 1Tm 5,23 Paulo aconselha: “não continues a beber só água, mas mistura-a com um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes indisposições”), Timóteo tornou-se um companheiro fiel e discreto do apóstolo no trabalho missionário. Para não ter problemas com os judeus, Paulo fê-lo circuncidar (cf. At 16,3); e, numa data desconhecida para nós, Timóteo recebeu dos anciãos a “imposição das mãos” (cf. 1Tm 4,14) que o designava como enviado da comunidade para anunciar o Evangelho de Jesus.

    A atividade de Timóteo está bastante ligada a Paulo, como o demonstram as contínuas referências que Paulo lhe faz nos seus escritos. Com ternura, Paulo refere-se a Timóteo como o “nosso irmão, colaborador de Deus na pregação do Evangelho de Cristo” (1Ts 3,2); e faz referências a Timóteo nas Cartas aos Tessalonicenses (cf. 1Ts 11,1; 2Ts 1,1), na 2 Coríntios (cf. 2Cor 1,1), na Carta aos Romanos (cf. Rm 16,21), na Carta aos Filipenses (cf. Flp 1,1), na Carta aos Colossenses (cf. Cl 1,1) e na Carta a Filémon (cf. Flm 1). Encarregou-o, também, de missões particulares entre os Tessalonicenses (cf. 1Ts 3,2.6) e entre os Coríntios (cf. 1 Cor 4,17).

    Em relação à segunda Carta a Timóteo há, no entanto, uma questão em aberto: a maioria dos comentadores considera esta carta posterior a Paulo (o mesmo acontece com a 1 Timóteo e com a Carta a Tito), sobretudo por aí aparecer um modelo de organização da Igreja que parece ser de uma época tardia, isto é, de finais do séc. I ou princípios do séc. II). Talvez alguns dados da carta – de natureza bastante pessoal – venham de Paulo; mas dificilmente este escrito pode ser atribuído a Paulo na sua totalidade.

    Timóteo é, por esta altura, bispo de Éfeso, na costa ocidental da Ásia Menor. Estão a começar as grandes perseguições; muitos cristãos estão desanimados e vacilam na fé. É preciso que os líderes das comunidades – entre os quais está Timóteo – mantenham o ânimo e ajudem as comunidades a enfrentar, com fortaleza, as dificuldades que se avizinham.

     

    MENSAGEM

    O autor do escrito – que refere, de passagem, a sua situação de “prisioneiro” por causa do Evangelho (vers. 8a) – exorta Timóteo a ser, para a comunidade cristã cuja responsabilidade lhe foi confiada, um modelo de fidelidade, de amor, de bom senso e de fortaleza no testemunho da fé. Foi para isso que ele recebeu a “imposição das mãos”, gesto que o capacitou para o cumprimento da sua missão apostólica (cf. 2Tm 1,6-7). O dom de Deus, continuamente reavivado, fará com que Timóteo supere a sua juventude e timidez e dê testemunho de Cristo e do seu Evangelho.

    De resto, Timóteo deverá ter sempre presente que foi escolhido e chamado para colaborar no projeto salvador de Deus em favor dos homens. Recorrendo, provavelmente, a um fragmento de um velho hino litúrgico cantado nas primeiras comunidades cristãs, o autor da Carta lembra a Timóteo a grandeza e a beleza desse projeto: Deus, no seu amor infinito, quer que todos os homens se salvem e encontrem vida em abundância; sem ter em conta as faltas e as indignidades dos homens, Deus quis oferecer-lhes gratuitamente a sua salvação; ora, essa salvação “apresentou-se“ na história humana na pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus que “desceu” ao encontro dos homens, que caminhou com eles, que lhes ofereceu a salvação de Deus, que lutou contra a injustiça, a violência e o pecado, que derrotou a morte, que irradiou a vida e a imortalidade por meio do Evangelho que propôs (vers. 9-10). Esta maravilhosa iniciativa de Deus é o acontecimento decisivo da história dos homens. Nesse longo caminho que a humanidade vem percorrendo pela história, nada há de mais grandioso e de mais decisivo do que este projeto de Deus.

    Ora, tanto Paulo como Timóteo foram escolhidos por Deus para “ministros” deste projeto. É uma vocação sublime! Apesar dos seus limites e fragilidades, Deus quis contar com eles para darem testemunho no meio dos homens da sua salvação. Paulo e Timóteo – e tantos outros que Deus escolheu e enviou – são arautos da salvação de Deus. Não podem, de forma nenhuma, “esconder-se”, demitir-se da responsabilidade que lhes foi confiada, deixar-se abater pelo medo, calar essa “Boa Notícia” que Jesus lhes confiou e os convidou a testemunhar em toda a terra.

    Sim, aproximam-se tempos de dificuldade e de perseguição para todos aqueles que aderiram à proposta de salvação que Jesus veio trazer. O império declarou guerra ao Evangelho de Jesus. Por todo o lado, as comunidades cristãs sentem enfraquecer a sua coragem e diminuir o seu compromisso. Muitos instalam-se na mediocridade, deixam-se arrastar pela corrente, escolhem viver sem problemas, optam pela facilidade. Nestes tempos difíceis, contudo, aqueles que, como Paulo ou como Timóteo, têm a responsabilidade de presidir às comunidades e animar os seus irmãos na fé, devem levar muito a sério a missão que lhes foi confiada. Têm de manter-se fortes; têm de ser, no meio dos seus irmãos mais frágeis, testemunhas vivas, entusiastas e corajosas do projeto salvífico e amoroso de Deus.

     

    INTERPELAÇÕES

    • Quando olhamos para a história da humanidade com olhos de “crentes”, conseguimos com alguma facilidade detetar a presença e a ação salvadora de Deus em cada passo do caminho que os homens vão percorrendo. Formados na escola da fé, talvez isso nos pareça bem “normal”: o Deus no qual acreditamos é um Deus que ama incondicionalmente os seus queridos filhos e que, por isso, está sempre disposto a oferecer-lhes a possibilidade de chegarem à vida verdadeira. O que talvez nos pareça mais estranho é o facto de Deus nos chamar a colaborar com Ele nesse projeto: apesar da nossa pequenez e dos nossos limites, da nossa debilidade e da nossa tibieza, da nossa inclinação para a preguiça e da nossa apetência pelo comodismo, apesar de não sermos “de fiar”, Deus oferece-nos um papel na concretização do seu projeto de salvação. É através de nós que Deus vem ao encontro dos homens e lhes oferece a sua salvação. Paulo e Timóteo fizeram essa experiência. Talvez se tenham sentido indignos e talvez tenham desconfiado das suas frágeis forças; mas sentiram que não podiam defraudar as expetativas de Deus e levaram a sério o papel que Deus entendeu confiar-lhes enquanto arautos da Boa Nova da salvação. E nós, sentimos que isto também nos diz respeito? Sentimos que Deus nos chama a ser arautos da sua salvação no meio dos nossos irmãos?
    • Ser colaborador de Deus na obra da salvação, dar testemunho corajoso das propostas de Deus, ser “sinal” de Deus no mundo será uma vocação sublime; mas, em geral, não é uma vocação demasiado apreciada nos tempos que correm. O homem do séc. XXI tem dificuldade em “correr atrás da eternidade”, em sacrificar-se para colher os valores eternos, em caminhar sob o olhar de Deus; prefere “agarrar o instante”, apostar no efémero, dar primazia à banalidade, viver para as coisas materiais, instalar-se na mediocridade, estabelecer-se naquilo que assegura comodismo e bem-estar imediato… A “salvação” em que o homem do séc. XXI aposta é uma “salvação” que não sacia a sede de vida e de felicidade que todo o homem sente. Como resultado dessa falta de horizontes, vivemos mergulhados na frustração, na depressão, na ansiedade, na tristeza, no desespero; caminhamos de mãos vazias, sentindo-nos desorientados e à deriva; temos medo que a nossa vida termine de repente num beco sem saída. Como poderemos nós, os que nos dispomos a colaborar com Deus no projeto de salvação que Ele tem para o mundo, colocar a transcendência e a vida eterna no horizonte dos homens? O que podemos fazer para que os nossos contemporâneos redescubram e abracem a salvação que Deus quer oferecer a todos os seus filhos? O que podemos fazer para que esta pobre humanidade que trilha os caminhos do mundo encontre a água viva que dá vida eterna?

     

    ACLAMAÇÃO ANTES DO EVANGELHO

    Escolher um dos refrães:

    Refrão 1: Louvor e glória a Vós, Jesus Cristo, Senhor.

    Refrão 2: Glória a Vós, Jesus Cristo, Sabedoria do Pai.

    Refrão 3: Glória a Vós, Jesus Cristo, Palavra do Pai.

    Refrão 4: Glória a Vós, Senhor, Filho do Deus vivo.

    Refrão 5: Louvor a Vós, Jesus Cristo, Rei da eterna glória.

    Refrão 6: Grandes e admiráveis são as vossas obras, Senhor.

    Refrão 7: A salvação, a glória e o poder a Jesus Cristo, Nosso Senhor.

     

    No meio da nuvem luminosa, ouviu-se a voz do Pai:

    «Este é o meu Filho muito amado: escutai-O».

     

    EVANGELHO – Mateus 17,1-9

    Naquele tempo,
    Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João seu irmão
    e levou os, em particular, a um alto monte
    e transfigurou Se diante deles:
    o seu rosto ficou resplandecente como o sol
    e as suas vestes tornaram se brancas como a luz.
    E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele.
    Pedro disse a Jesus:
    «Senhor, como é bom estarmos aqui!
    Se quiseres, farei aqui três tendas:
    uma para Ti, outra para Moisés a outra para Elias».
    Ainda ele falava,
    quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra
    e da nuvem uma voz dizia:
    «Este é o meu Filho muito amado,
    no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O».
    Ao ouvirem estas palavras,
    os discípulos caíram de rosto por terra a assustaram se muito.
    Então Jesus aproximou se e, tocando os, disse:
    «Levantai vos e não temais».
    Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus.
    Ao descerem do monte, Jesus deu lhes esta ordem:
    «Não conteis a ninguém esta visão,
    até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».

     

    CONTEXTO

    O episódio da transfiguração de Jesus situa-se praticamente no final da “etapa da Galileia”. Durante um tempo relativamente longo (talvez perto de três anos), Jesus tinha andado pela Galileia, anunciando – com palavras (cf. Mt 5-7; 13) e com gestos poderosos (cf. 8,1-9,34) – a chegada do Reino de Deus. Ao longo dessa “etapa” Jesus esteve sempre acompanhado por um grupo de discípulos: gente que tinha escutado o chamamento de Jesus (cf. Mt 4,18-22; 10,1-10,42) e que tinha decidido segui-l’O. Esses discípulos, depois de tudo o que tinham visto e escutado enquanto acompanhavam Jesus pelas vilas e aldeias da Galileia, estavam convencidos que Ele era realmente o Messias que Israel esperava (cf. Mt 16,13-20).

    No entanto, alguns dias antes da cena da transfiguração, os discípulos tinham ficado perplexos pela maneira como Jesus lhes descreveu o futuro próximo, a nova “etapa” que os esperava. O Mestre disse-lhes que “tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito, da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos doutores da Lei, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar” (Mt 16,21-22). Os discípulos ficaram estupefactos: o caminho que Jesus se propunha seguir passava pelo sofrimento e pela morte (Ele tinha também falado em ressurreição; mas, por essa altura, eles não sabiam bem o que isso queria dizer)? Era esse o horizonte de Jesus? Não era com isso que contavam quando se dispuseram a andar com Ele. Pedro expressou a sua oposição a tudo isso num gesto radical: tomando Jesus de parte, “começou a repreendê-l’O, dizendo: ‘Deus te livre, Senhor! Isso nunca te há de acontecer!’” (Mt 16,22). Para piorar as coisas, Jesus pediu-lhes, logo a seguir, que renunciassem a si mesmos, tomassem a cruz e o seguissem no caminho do dom da vida até à morte (cf. Mt 16,24-26).

    É natural que tudo isto afetasse os discípulos. Poderemos mesmo falar de uma “crise” que deixou o grupo num estado de absoluto desânimo. Jesus achou, face a este estado de coisas, que tinha chegado a hora de lhes desvelar o sentido do caminho que se propunha seguir. Chamou, então, Pedro, Tiago e João – o “núcleo duro” daquele grupo – e convidou-os a subir com Ele a um monte. Nesse dia e nesse monte eles iriam achar algumas respostas para as perguntas que os inquietavam.

    O texto não identifica o “monte” para onde Jesus, Pedro, Tiago e João se dirigiram. Contudo, a tradição fala do Monte Tabor, uma montanha com 588 metros de altura, situada no meio da planície de Jezreel, coberta de carvalhos, pinheiros, ciprestes, aroeiras e plantas silvestres. O Tabor tinha sido, nos tempos antigos, um lugar sagrado para os povos cananeus. Nesse monte aqueles três discípulos vão entrever, ainda que por breves instantes, o projeto de Deus.

    Literariamente, a narração da transfiguração é uma teofania – quer dizer, uma manifestação de Deus. Portanto, o autor do relato vai elaborar um quadro onde coloca todos os ingredientes que, no imaginário judaico, acompanham as manifestações de Deus (e que encontramos quase sempre presentes nos relatos teofânicos do Antigo Testamento): o monte, a voz do céu, as aparições, as vestes brilhantes, a nuvem e mesmo o medo e a perturbação daqueles que presenciam o encontro com o divino. Isto quer dizer o seguinte: não estamos diante de um relato exato de acontecimentos, mas de uma catequese (construída de acordo com o imaginário judaico) destinada a confirmar que Jesus é o Filho amado de Deus, que traz aos homens um projeto que vem de Deus.

     

    MENSAGEM

    Jesus, acompanhado por Pedro, Tiago e João, subiu ao “monte”. A narração do que aconteceu nesse dia naquele monte vai ser construída a partir de elementos simbólicos tirados do Antigo Testamento. Que elementos são esses?

    O monte situa-nos num contexto de revelação: é sempre num monte que Deus Se revela; e, em especial, é num monte (o Sinai) que Ele faz uma aliança com o seu Povo e dá a Moisés as tábuas da Lei.

    A mudança do rosto e as vestes de brancura resplandecente recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Sinai (cf. Ex 34,29), depois de se encontrar com Deus e de ter recebido as tábuas da Lei. Além disso, o branco é a cor de Deus: indica que estamos no âmbito do divino.

    A nuvem, por sua vez, indica a presença de Deus: era na nuvem que Deus manifestava a sua presença, quando conduzia o seu Povo através do deserto (cf. Ex 40,35; Nm 9,18.22; 10,34).

    Moisés e Elias, as duas figuras do Antigo Testamento que também aparecem no cenário da transfiguração de Jesus, representam a Lei e os Profetas (que anunciam Jesus e que permitem entender Jesus); além disso, são personagens que, de acordo com a catequese judaica, deviam aparecer no “dia do Senhor”, quando se manifestasse a salvação definitiva (cf. Dt 18,15-18; Mal 3,22-23).

    As tendas que Pedro pretende montar no cimo daquele monte (serão uma alusão à “festa das tendas”, em que se celebrava o tempo do êxodo, quando o Povo de Deus habitou em “tendas”, no deserto?) serão talvez uma forma de referir a “esperança” dos discípulos, assustados com as implicações do seguimento de Jesus: deterem-se ali, naquele momento de revelação gloriosa, evitando “descer” à planície para enfrentar um destino de sofrimento, de cruz e de morte.

    O “medo” que toma conta dos discípulos é a reação habitual do homem diante da manifestação da grandeza, da omnipotência e da majestade de Deus (cf. Ex 19,16; 20,18-21).

    Mas o elemento mais significativo é, sem dúvida, “a voz” que vem da “nuvem” (o espaço onde Deus se oculta). Essa “voz” dirige-se aos discípulos e declara solenemente: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O”. O próprio Deus “apresenta” Jesus e garante que Ele é “o Filho” que veio ao encontro dos homens com um mandato do Pai. E o testemunho de Deus sobre Jesus completa-se com um imperativo: “escutai-o”. Os discípulos ficam assim prevenidos de que devem escutar e acolher as indicações de Jesus, segui-l’O sem hesitações e sem medos pois o caminho que Ele propõe está de acordo com o projeto de Deus.

    Por cima de todo o cenário, iluminando-o, paira a luz gloriosa da ressurreição. A glória de Deus que se manifesta em Jesus, as “vestes de uma brancura refulgente” (lembram as “túnicas brancas como a neve” do “anjo do Senhor que, na manhã de Páscoa, apareceu às mulheres que tinham ido procurar Jesus ao túmulo – cf. Mt 28,2-3) apontam nesse sentido. Os discípulos são, assim, convidados a olhar para lá da cruz e a descobrir que, no final do caminho de Jesus, não está o fracasso, mas está a ressurreição, a vida plena, a vitória sobre a morte.

    Mateus, na linha do que Marcos já tinha feito (cf. Mc 9,2-10), pegou em todos estes elementos e com eles construiu a sua catequese. Nela, Jesus é apresentado, antes de mais, como o Filho, o Eleito, em quem se manifesta a glória do Pai. Ele não é um visionário que vive iludido e que não tem os pés assentes na terra; nem é um revolucionário com sede de protagonismo que se aproveita, em benefício do seu projeto político, de um grupo de discípulos ingénuos… Jesus é o Filho de Deus, enviado aos homens para lhes propor a salvação e a Vida verdadeira. Tudo o que Ele diz e propõe está de acordo com o projeto salvador de Deus. Os discípulos devem escutá-lo, levar a sério as suas indicações, mesmo quando Ele propõe um caminho de morte, de dom da vida até às últimas consequências (cf. Mt 16,24-28).

    Jesus é, também, de acordo com esta catequese, o Messias libertador e salvador esperado por Israel, anunciado pela Lei (Moisés) e pelos Profetas (Elias). Ele veio concretizar as promessas que, ao longo da história da salvação, Deus fez ao seu Povo.

    Finalmente, Jesus é o novo Moisés, Aquele através de quem Deus dá ao seu Povo a nova Lei e através de quem propõe aos homens uma nova Aliança. Da ação libertadora de Jesus, o novo Moisés, irá nascer um novo Povo de Deus. Guiado por Jesus, esse Povo caminhará pelo deserto da cruz e da morte até chegar à Terra Prometida, onde encontrará Vida em abundância.

    Mateus termina o seu relato referindo a “ordem” de Jesus, quando desciam do monte: “Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do Homem ressuscitar dos mortos” (vers. 9). É provável que só mais tarde, após a ressurreição de Jesus, tenha resultado claro para os discípulos o que tinham experimentado no monte da transfiguração. Mas, desde logo, aquele “momento” com Jesus constituiu para os discípulos uma injeção de esperança: deu-lhes o ânimo de que necessitavam para seguirem atrás de Jesus no caminho para Jerusalém.

     

    INTERPELAÇÕES

    • Neste segundo domingo da Quaresma façamos, também nós, a experiência de subir com Jesus ao monte… Enquanto subimos, podemos conversar com Ele e, com toda a sinceridade, dizer-Lhe as nossas dúvidas e inquietações. Podemos dizer-Lhe que, por vezes, nos sentimos perdidos e desanimados diante da forma como o nosso mundo se constrói; podemos dizer-lhe que o caminho que Ele aponta é duro e exigente e que não sabemos se teremos a coragem de o percorrer até ao fim; podemos até dizer-lhe, talvez com alguma vergonha, que às vezes duvidamos dele e corremos atrás de outras apostas, mais cómodas, mais atraentes e menos arriscadas… E, depois de lhe dizermos isso tudo, deixemos que Jesus nos fale, nos explique o seu projeto, nos renove o seu desafio… E vamos, também, prestar atenção à voz de Deus que nos garante: “olhem que esse Jesus que Eu enviei ao vosso encontro é o meu Filho, o meu eleito, aquele a quem Eu entreguei o projeto de um mundo mais humano e mais fraterno… Confirmo a verdade do caminho que Ele vos propõe. Escutai-O, ide com Ele, acolhei as suas propostas e indicações, mesmo que tenhais de remar contra a maré. O caminho que Ele vos aponta pode passar pela cruz, mas conduz à Vida verdadeira, à ressurreição”. Há espaço na nossa vida para ouvir essa “voz de Deus” e para caminharmos na direção que ela aponta?
    • “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O”. É verdade: precisamos de escutar Jesus mais e melhor. Quando o “escutamos” – quer dizer, quando ouvimos o que Ele nos diz, quando acolhemos no coração as suas indicações e quando procuramos concretizá-las na vida – começamos a ver tudo com uma luz mais clara. Começamos a perceber qual é a maneira mais humana de enfrentar os problemas da vida e os males do nosso mundo; damos conta dos grandes erros que os seres humanos podem cometer e descobrimos as soluções que Deus nos aponta… Escutar Jesus pode curar-nos das nossas cegueiras seculares, dos preconceitos que nos impedem de acolher a novidade de Deus, dos medos que nos paralisam; escutar Jesus pode libertar-nos de desalentos e cobardias, e abrir o nosso coração à esperança. A escuta de Jesus está no centro da nossa experiência de fé? Nas nossas comunidades cristãs damos espaço suficiente à escuta de Jesus?
    • O tempo de Quaresma é um tempo favorável de conversão, de transformação, de renovação. Traz-nos um convite a questionarmos a nossa forma de encarar a vida, os valores que priorizamos, as opções que vamos fazendo, as nossas certezas e apostas, os nossos interesses e projetos… O que é que precisamos de mudar, na nossa forma de pensar e de agir, a fim de nos tornarmos discípulos coerentes e comprometidos, que seguem Jesus no caminho do amor levado até às últimas consequências, até ao dom total de nós próprio?

     

    • É verdade que, para muitos dos nossos contemporâneos, o caminho proposto por Jesus não parece muito entusiasmante… Não assegura bem-estar, nem bens materiais, nem triunfos, nem reconhecimento, nem fama, nem poder, nem tranquilidade, nem qualquer outro valor que muitos dos homens e mulheres do nosso tempo consideram fundamentais para que as suas vidas tenham algum sentido. Contudo, nós, discípulos de Jesus, acreditamos que só o amor – o amor vivido como serviço, como dom de si próprio, ao estilo de Jesus – dá sentido à vida; acreditamos que a construção de um mundo novo – mais humano, mais são, mais verdadeiro – depende de acolhermos e vivermos as propostas de Jesus. O que poderemos fazer para contagiar os nossos irmãos e irmãs com o nosso entusiasmo por Jesus e pelo seu projeto de um mundo novo?
    • Pedro, Tiago e João, testemunhas da transfiguração de Jesus, parecem não ter muita vontade de “descer à terra” e de enfrentar o mundo e os problemas dos homens. Propõem fazer três tendas e ficar no cimo daquele monte, onde tudo parece tão fácil e tão indolor. Representam aqueles que vivem de olhos postos no céu, alheados da realidade concreta do mundo, sem vontade de intervir para o renovar e transformar. No entanto, ser seguidor de Jesus obriga-nos a “regressar ao mundo” para testemunhar aos homens, mesmo contra a corrente, que a realização autêntica está no dom da vida; obriga a atolarmo-nos no mundo, nos seus problemas e dramas, a fim de dar o nosso contributo para o aparecimento de um mundo mais justo e mais feliz. O nosso compromisso com Jesus e com a construção do Reino de Deus concretiza-se na luta diária pela construção de um mundo mais justo, mais humano, mais cheio de amor?

     

    ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 2.º DOMINGO DA QUARESMA
    (adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)

     

    1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.

    Ao longo dos dias da semana anterior ao 2.º Domingo da Quaresma, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

     

    1. “SENHOR, DESÇA SOBRE NÓS A VOSSA MISERICÓRDIA!”

    Mesmo durante a Quaresma, o rito penitencial não deve cair na introspeção culpabilizante. Na celebração, este rito é um convite à assembleia para aderir à misericórdia de Deus na confiança. O Salmo de hoje convida-nos particularmente a esta atitude. Em vez do “Senhor, tende piedade…”, poder-se-ia utilizar o refrão do Salmo responsorial: “Desça sobre nós a vossa misericórdia, porque em Vós esperamos, Senhor”. A equipa litúrgica poderia preparar algumas intenções neste sentido de esperança e confiança no amor de Deus… A proclamação do Salmo responsorial, no momento próprio, teria outra ressonância a partir desta utilização no momento penitencial.

     

    1. PREVER UM TEMPO DE CONTEMPLAÇÃO.

    Pode-se prever, à imagem dos discípulos na montanha, um tempo de contemplação alimentado por um texto, um cântico, um trecho musical ou, muito simplesmente, um longo silêncio quer depois da homilia quer depois da comunhão.

     

    1. BILHETE DE EVANGELHO.

    A vida é combate. O primeiro ato do ser humano no seu nascimento é um grito. Ele deverá lutar para viver. Muitos doentes sabem que devem lutar contra o mal, o sofrimento, o desencorajamento, a lassidão. Desistir de lutar é sintoma de uma doença que se chama depressão. Podemos lutar para nos curarmos fisicamente. Podemos lutar para nos mantermos de pé na provação. A vida espiritual também é um combate. O Senhor é Alguém que se deixa procurar. Segui-l’O supõe, por vezes, escolhas radicais. Nesta semana, aceitemos conduzir um combate. Não para ser os melhores, nem para esmagar os outros, mas para viver e fazer viver. A vitória neste combate é-nos anunciada neste domingo, em que nos juntamos ao Senhor transfigurado. Mas Ele diz-nos que, antes de ressuscitar, deve passar pelo combate da Paixão. A ressurreição é a vitória do combate pela vida.

     

    1. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.

    Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

     

    No final da primeira leitura:

    Pai de todos os homens, nós Te damos graças por Abraão, que escolheste e chamaste para constituir um povo de amigos.

    Nós Te suplicamos por todas as famílias da terra: envia-lhes os teus mensageiros, para que sejam um dia abençoadas no teu Filho.

     

    No final da segunda leitura:

    Deus de vida, nós Te bendizemos pelo teu projeto e pela tua graça, porque fizeste resplandecer a vida e a imortalidade pelo anúncio do Evangelho. Tu nos salvaste e nos deste uma vocação santa, apesar da nossa indignidade.

    Nós Te pedimos pelos teus servidores que sofrem no anúncio e no testemunho do Evangelho. Sustenta-os com a força do teu Espírito.

     

    No final do Evangelho:

    Deus de luz, nós Te damos graças pela transfiguração do teu Filho, pela alegria e pela felicidade que nos dá a sua presença radiosa.

    Nós Te pedimos pelo teu povo e pelos teus fiéis: levanta-nos quando estamos paralisados pelo medo; cura os nossos corações e os nossos espíritos, para os tornar atentos a escutar o teu Filho. Estabelece a tua tenda nas nossas casas e nas nossas comunidades, não te afastes de nós.

     

    1. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.

    Pode-se escolher a Oração Eucarística III.

     

    1. PALAVRA PARA O CAMINHO.

    A aventura da fé… “deixa a tua terra…”; “sofre comigo pelo Evangelho…”; “levou-os, em particular, a um alto monte…” A aventura da fé não nos deixa qualquer repouso até ao dia em que toda a Criação se prostrará diante do Filho Bem-Amado. Cremos verdadeiramente que a nossa pequena parte é indispensável? E fazemos por isso?

     

    UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
    PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA

    Grupo Dinamizador:
    José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
    Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
    Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
    www.dehonianos.org

     

  • 03º Domingo da Quaresma - Ano A [atualizado]

    03º Domingo da Quaresma - Ano A [atualizado]

    8 de Março, 2026

    ANO A

    3.º DOMINGO DA QUARESMA

    Tema do 3.º Domingo da Quaresma

    Estamos no terceiro domingo da Quaresma. Não é fácil nem isento de obstáculos o caminho que, através do deserto quaresmal, nos leva em direção à vida nova. Conseguiremos superar os obstáculos deste caminho de conversão e de renovação? A Palavra de Deus que escutamos no terceiro domingo da Quaresma deixa-nos uma indicação verdadeiramente reconfortante: Deus acompanhar-nos-á em cada passo e nunca deixará de saciar a nossa sede de vida.

    A primeira leitura relembra-nos um dos momentos determinantes da caminhada dos hebreus pelo deserto, após a libertação do Egito: o povo, apoquentado pela sede e afundado em dúvidas, questiona o desígnio de Deus e pergunta-se se Deus pretende salvá-lo ou perdê-lo. A esta bizarra dúvida Deus responde com um gesto extraordinário: faz brotar água de um rochedo e sacia a sede do seu povo. Não se trata de um caso isolado: o Deus salvador e libertador esteve, está e estará sempre empenhado em saciar a sede de vida do seu povo enquanto este atravessa o deserto da história.

    No Evangelho Jesus, em diálogo com uma mulher da Samaria, junto do poço de Jacob, propõe-se oferecer-lhe uma “água viva” que matará todas as sedes e que se tornará “uma nascente que jorra para a vida eterna”. A samaritana mostra-se disponível para acolher e beber a água que Jesus tem para lhe oferecer. Estaremos, também nós, dispostos a saciar a nossa sede com a água que Jesus nos quer oferecer?

    A segunda leitura não evoca o tema da água, como a primeira leitura e o Evangelho; mas reafirma o empenho de Deus em oferecer vida e salvação ao seu povo. Garante-nos que, sejam quais forem as nossas falhas e infidelidades, Deus “justifica-nos”. A sua misericórdia falará sempre mais alto do que o nosso pecado. Deus oferecer-nos-á sempre, de forma gratuita e incondicional, a sua salvação.

     

    LEITURA I – Êxodo 17,3-7

    Naqueles dias,
    o povo israelita, atormentado pela sede,
    começou a altercar com Moisés, dizendo:
    «Porque nos tiraste do Egipto?
    Para nos deixares morrer à sede,
    a nós, aos nossos filhos e aos nossos rebanhos?»
    Então Moisés clamou ao Senhor, dizendo:
    «Que hei de fazer a este povo?
    Pouco falta para me apedrejarem».
    O Senhor respondeu a Moisés:
    «Passa para a frente do povo
    e leva contigo alguns anciãos de Israel.
    Toma na mão a vara com que fustigaste o rio
    e põe te a caminho.
    Eu estarei diante de ti, sobre o rochedo, no monte Horeb.
    Baterás no rochedo e dele sairá água;
    então o povo poderá beber».
    Moisés assim fez à vista dos anciãos de Israel.
    E chamou àquele lugar Massa e Meriba,
    por causa da altercação dos filhos de Israel
    e por terem tentado o Senhor, ao dizerem:
    «O Senhor está ou não no meio de nós?»

     

    CONTEXTO

    Um dos grandes temas do livro do Êxodo é a marcha pelo deserto dos hebreus libertados por Javé da escravidão do Egito. A secção de Ex 15,22-18,27 refere as vicissitudes da primeira etapa dessa marcha: a que vai desde a passagem do mar até à chegada do povo diante da montanha do Sinai.

    Nesta primeira fase do caminho do deserto, está bem presente a imaturidade daquele grupo de homens e mulheres que ainda funcionam com mentalidade de escravos e ainda não assumiram o risco da liberdade. As dificuldades do caminho desorganizam-nos e incomodam-nos; e eles, perante as contrariedades, não se coíbem de criticar Moisés e de murmurar contra Deus (cf. Ex 15,22-27; 16,1-21; 17,1-7). O esquema é sempre o mesmo: diante das dificuldades que encontra no caminho, o Povo murmura, revolta-se contra Moisés e acusa Deus pelos desconfortos da caminhada; Moisés intervém e intercede junto de Deus; finalmente, Deus acaba por conceder ao Povo os bens de que este sente necessidade. Os relatos apresentam-se sempre de uma forma dramática, num crescendo de intensidade até ao desfecho final.

    Provavelmente, estes relatos têm por base dificuldades concretas sentidas pelos hebreus no seu caminho pelo deserto em direção à Terra Prometida. Não é fácil sobreviver nas condições hostis do deserto. No entanto, os beduínos conheciam diversos “truques” que lhes permitiam enfrentar com êxito a sua luta diária pela existência. Um desses “truques” consistia em procurar água em rochas porosas que, quando quebradas em certo lugar, proporcionavam o acesso à água que armazenavam no seu interior. É possível que o episódio narrado no texto que a liturgia hoje nos propõe como primeira leitura nos situe neste cenário.

    Seja como for, a verdade é que os teólogos de Israel recolheram essas tradições e utilizaram-nas com um objetivo catequético. Os catequistas que nos legaram estes relatos não se propuseram fazer uma reportagem factual dos acontecimentos históricos vividos ao longo do caminho percorrido pelos hebreus, mas sim fazer catequese. Percebe-se nas entrelinhas que a grande preocupação de quem compôs estes relatos é pôr o Povo de sobreaviso contra a tentação de procurar refúgio e segurança longe de Javé.

    Portanto, a dado passo da sua caminhada pelo deserto, os hebreus deparam-se com a falta de água e queixam-se a Moisés. O episódio é situado em Refidim (cf. Ex 17,1), no sul da península do Sinai (cf. Nm 33,14-15). Curiosamente uma outra tradição refere um episódio muito semelhante e coloca-o a norte, nos arredores de Kadesh (cf. Nm 20,7-11). Serão dois episódios semelhantes, ligados a grupos distintos de nómadas que, em épocas diferentes, fugiram do Egito, ou tratar-se-á do mesmo episódio narrado por duas tradições diferentes? Não o sabemos. O que é evidente é que os teólogos de Israel utilizaram esta história para reafirmar o empenho de Deus em “salvar” o seu povo e em conduzi-lo em segurança da escravidão para a liberdade.

     

    MENSAGEM

    Há já algum tempo que Israel, liberto da “noite” do Egito, deixou a escravidão para trás e caminha em direção ao “dia novo” da liberdade. Ao longo do difícil caminho que o povo tem vindo a percorrer, Deus tem-no acompanhado a par e passo e tem-lhe manifestado, de mil e uma formas, o seu cuidado, a sua bondade, o seu amor… No episódio da passagem do mar (cf. Ex 14,15-31), no episódio da água amarga transformada em água doce (cf. Ex 15,22-27), no episódio do maná e das codornizes (cf. Ex 16,1-20), Deus mostrou, sem margem para dúvidas, estar empenhado na salvação do seu Povo. Depois dessas experiências, Israel devia estar absolutamente seguro da bondade e da fidelidade de Deus. O povo, depois dessas provas, devia confiar totalmente em Deus e no projeto de vida que Ele estava a concretizar em favor do seu povo.

    No entanto, não é isso que acontece. Apesar de todas as provas que Deus deu, os hebreus continuam desconfiados, de pé atrás em relação a Deus, duvidando da fidelidade de Deus. Na verdade, Israel não confia em Javé. Qualquer obstáculo que lhes apareça no caminho é visto como uma traição de Deus. Será possível continuar a avançar tendo como base este horizonte?

    O episódio de Refidim é mais um momento nesta lamentável história de desconfiança e de ingratidão por parte dos hebreus. O povo instala o acampamento, mas constata que não tem água para saciar a sua sede. Depois de discutirem com Moisés, os hebreus chegam ao cúmulo de sugerir que foram enganados por Deus e que Javé os libertou do Egito para matá-los de sede no meio do deserto (cf. Ex 17,3). Cego pela ingratidão, aquele povo de vistas curtas e mentalidade de escravo vê no projeto de vida que Deus iniciou em favor deles um projeto destinado a arrastá-los para a morte. Acusam Deus de os enganar, de os arrastar para um beco sem saída.

    Naquele lugar Israel entrou em conflito com Deus e acusou-o de conduzir o seu povo em direção à morte (o nome “meribá” vem da raíz “rib” – “entrar em contencioso”); naquele lugar Israel “provocou” Deus e desafiou-O (o nome “massa” vem da raiz “nsh” – “tentar”, no sentido de “provocar”). O catequista bíblico informa-nos que aquele lugar ficou a chamar-se “Meribá” e “Massá” por causa da altercação dos filhos de Israel e por terem tentado o Senhor, ao dizerem: ‘O Senhor está ou não no meio de nós?’” (Ex 17,7). Afinal, depois de tantas provas, de tanta bondade, de tantos cuidados, de tantos gestos de amor por parte de Deus, Israel ainda não fez uma verdadeira experiência de fé: não aprendeu a confiar em Deus e a entregar-se nas suas mãos.

    Como é que Deus reage à ingratidão e à falta de confiança do seu Povo? Desistindo de se relacionar com esse povo ingrato e abandonando-o à sua sorte? Não. Com “paciência divina”, Deus responde com gestos concretos e oferece ao seu povo a água que dá vida. Deus prova uma vez mais que está com o seu povo e faz brotar de um rochedo a água de que o povo necessita para saciar a sua sede. Uma lenda rabínica posterior assegurará que, a partir daqui, a “rocha” que proporciona a água que dá vida nunca mais cessou de acompanhar o povo de Deus ao longo da sua marcha pela história. O apóstolo Paulo irá mesmo sugerir, muitos séculos mais tarde, que Cristo – o Filho de Deus que veio ao encontro dos homens para lhes dar vida – é a verdadeira rocha de onde brota a água que mata a nossa sede de vida (cf. 1Co 10,4).

    A catequese de Israel deixa-nos uma garantia que vale para os crentes de todas as épocas e lugares: o Senhor Deus saciará sempre a nossa sede de vida e assistirá o seu povo em cada passo do seu caminho pela história.

     

    INTERPELAÇÕES

    • Talvez a nota mais decisiva e interpelante, neste episódio de Massá e Meribá, seja a confirmação da fidelidade de Deus aos seus desígnios de amor e de vida, ao seu projeto de salvação. O comportamento imaturo daquele grupo de hebreus que ainda não se libertaram de uma mentalidade de escravos não fazem Deus desistir do seu projeto de salvação; as contínuas desconfianças daqueles caminhantes que parecem não saber o que querem, não desarmam a bondade, a misericórdia, o amor de Deus. É uma perspetiva reconfortante, que talvez nos ajude a olhar com mais esperança para as nossas pobres vidas, para as nossas hesitações, dúvidas e incongruências, para as nossas contradições e para os nossos passos mal dados… Se Deus não nos condena definitivamente, se Ele se conserva ao nosso lado apesar das nossas decisões estúpidas, se Ele continua a olhar para nós com amor apesar das nossas desconfianças e cobardias, se a nossa futilidade e as nossas aspirações rasteiras O não dececionam definitivamente, então não caminhamos em direção a um desastre anunciado. Deus vai connosco, assiste-nos e ampara-nos em cada passo do caminho, dá-nos uma e outra vez a oportunidade de recomeçar… Como é que isso nos faz sentir? Que implicações tem isso na nossa vida?
    • Quando saíram do Egito e deixaram para trás a escravidão, os hebreus sentiram-se profundamente reconhecidos ao Deus que os salvou. Mas a gratidão que sentiam evaporou-se quando tiveram de enfrentar as dificuldades do caminho: a fome, a sede, o calor, o cansaço, as ciladas dos inimigos, as decisões difíceis, os riscos da liberdade… Então, murmuraram contra Deus, duvidaram da sua bondade e do seu amor, acusaram-n’O até de ter posto em marcha um projeto de morte destinado a fazê-los perecer no deserto. Isto não nos soa familiar? Quando o caminho nos parece demasiado longo e solitário, quando tropeçamos nos obstáculos inevitáveis que a vida nos traz, quando experimentamos os nossos limites e fragilidades, quando nos sentimos cansados, desiludidos e perdidos, quando nos enganamos e optamos por valores errados, quando nos entrincheiramos atrás da nossa autossuficiência e nos damos mal, criticamos Deus, acusamo-l’O de nos abandonar, duvidamos do seu amor… Parecemos crianças mimadas que passam a vida a lamentar-se e a acusar Deus pelos “dói-dóis” que a vida nos faz. Já pensamos que muitas das coisas que nos fazem sofrer resultam das nossas escolhas erradas e não da ação de Deus? Já pensamos que muitas das dificuldades que temos de enfrentar talvez façam parte da pedagogia de Deus para nos fazer crescer, para nos ajudar a descobrir o sentido da vida, para nos renovar e transformar?

     

    SALMO RESPONSORIAL – SALMO 94 (95)

    Refrão: Se hoje ouvirdes a voz do Senhor,
    não fecheis os vossos corações.

    Vinde, exultemos de alegria no Senhor,
    aclamemos a Deus nosso salvador.
    Vamos à sua presença e dêmos graças,
    ao som de cânticos aclamemos o Senhor.

    Vinde, prostremo-nos em terra,
    adoremos o Senhor que nos criou.
    Pois Ele é o nosso Deus
    e nós o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.

    Quem dera ouvísseis hoje a sua voz:
    «Não endureçais os vossos corações,
    como em Meriba, como no dia de Massa no deserto,
    onde vossos pais Me tentaram e provocaram,
    apesar de terem visto as minhas obras.

     

    LEITURA II – Romanos 5,1-2.5-8

    Irmãos:
    Tendo sido justificados pela fé,
    estamos em paz com Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo,
    pelo qual temos acesso, na fé,
    a esta graça em que permanecemos e nos gloriamos,
    apoiados na esperança da glória de Deus.
    Ora, a esperança não engana,
    porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações
    pelo Espírito Santo que nos foi dado.
    Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.
    Dificilmente alguém morre por um justo;
    por um homem bom,
    talvez alguém tivesse a coragem de morrer.
    Deus prova assim o seu amor para connosco:
    Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.

     

    CONTEXTO

    Roma era, na altura em que o apóstolo Paulo escreve a sua carta à comunidade cristã da cidade, o centro do mundo antigo. Roma tinha, por essa altura, cerca de um milhão de habitantes, dos quais 50.000 eram judeus.

    Não sabemos como foi fundada a Igreja de Roma. A tradição diz que foi o apóstolo Pedro que, de passagem pela cidade, aí teria anunciado o Evangelho de Jesus. O mais provável, contudo, é que a comunidade tenha nascido a partir do testemunho de judeo-cristãos que deixaram Jerusalém e se estabeleceram em Roma poucos anos após a morte de Jesus.

    Quando escreve aos Romanos, por volta do ano 57 ou 58, Paulo está prestes a deixar Corinto, a caminho de Jerusalém, no final da sua terceira viagem missionária. O apóstolo sente que terminou a sua missão no oriente (cf. Rm 15,19-20) e quer agora levar o Evangelho a outros cantos do mundo, nomeadamente ao ocidente. Sobretudo, Paulo aproveita a ocasião para contactar a comunidade de Roma e para apresentar aos Romanos os principais problemas que o ocupavam (entre os quais avultava o problema da unidade – um problema bem atual na comunidade cristã de Roma, então afetada por alguma dificuldade de relacionamento entre judeo-cristãos e pagano-cristãos).

    Paulo aproveita para dizer aos Romanos e a todos os cristãos que o Evangelho deve unir e congregar todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Para desfazer algumas ideias de superioridade (e, sobretudo, a pretensão judaica de que a salvação se conquista pela observância da Lei de Moisés), Paulo nota que o pecado é uma realidade que atinge todos os homens, sem exceção, e que ninguém está de fora desse cenário (cf. Rm 1,18-3,20). É Deus que, na sua imensa misericórdia, “justifica” o homem pecador e lhe oferece um perdão não merecido. A salvação não vem do mérito do homem, mas sim da “justiça de Deus” que a todos dá a vida (cf. Rm 3,1-5,11).

    No texto que a segunda leitura do terceiro domingo da quaresma nos propõe, Paulo refere-se à ação de Deus, por Jesus Cristo e pelo Espírito, no sentido de “justificar” todo o homem.

     

    MENSAGEM

    Paulo está absolutamente seguro de uma realidade que o enche de alegria: todos aqueles – judeus, gregos ou romanos – que se encontraram com Jesus e acolheram a sua proposta, estão destinados à salvação. Independentemente das suas origens ou das suas histórias de vida, dos seus pecados ou das suas virtudes, foram “justificados” pela fé. A “justificação pela fé” é um conceito-chave na visão teológica de São Paulo.

    No mundo bíblico a “justiça”, mais do que um conceito jurídico reservado ao tribunal, é um conceito relacional. Define a fidelidade de alguém a si próprio, à sua essência, sua maneira de ser, aos compromissos assumidos no âmbito de uma relação. Ora, sempre que se relacionou com os homens, Deus mostrou que a sua essência é amor, é clemência, é compaixão, é bondade, é misericórdia. A ira de Deus dura apenas um instante, enquanto a sua benevolência se mantém para sempre. Sendo assim, dizer que Deus é “justo” não é dizer que Ele responde na mesma moeda ao homem pecador, ou que castiga as faltas do homem quando este infringe determinadas regras; mas é dizer que a bondade e o amor de Deus falam sempre mais alto, mesmo quando o homem não foi correto no seu proceder. A bondade de Deus vem sempre ao de cima; e Deus, mesmo que o homem o não mereça, acaba por emitir um veredicto de graça. Dessa forma, o homem pecador alcança a salvação.

    Ora, o amor de Deus e o seu veredicto de graça em favor do homem concretizaram-se em Jesus e através de Jesus. Nós, seres humanos limitados e pecadores descobrimos e contemplamos o amor de Deus quando olhamos para Jesus, para os seus gestos de partilha e de entrega, para a sua morte na cruz. Deus enviou-no-lo para nos mostrar o seu amor e para conhecermos o seu dom. Jesus mostrou-nos o caminho que conduz à vida e deixou-se matar para concretizar o projeto salvador de Deus. Na verdade, nós não merecíamos tanto amor; mas, apesar do nosso pecado, Jesus deixou-se matar para nos apontar o caminho que leva à vida: “Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores” (Rm 5,8).

    Esse homem pecador – “justificado” pelo amor de Deus manifestado na cruz de Jesus – é agora uma nova criatura (cf. Gl 6,15): é o homem ressuscitado para a vida nova (cf. Rm 6,3-11), que vive do Espírito (cf. Rm 8,9.14), que é filho de Deus e co-herdeiro com Cristo (cf. Rm 8,17; Gl 4,6-7).

    Segundo Paulo, o que é que resulta de tudo isto? O que é que “ganham” os cristãos que se encontram com Cristo, são “justificados” e obtêm o acesso à salvação?

    Em primeiro lugar, a paz (cf. Rm 5,1). Esta “paz” não é a simples ausência de guerra ou mesmo a serenidade tranquila de quem se sente bem consigo mesmo; mas é a situação de quem “embarca” numa relação positiva com Deus tendo, através d’Ele, acesso à vida verdadeira e definitiva.

    Em segundo lugar, a esperança (cf. Rm 5,2-4 – embora os versículos 3 e 4 não apareçam no texto que a segunda leitura deste domingo nos traz). Trata-se desse dom que nos permite superar as dificuldades e a dureza da caminhada, apontando a um futuro glorioso de vida em plenitude. Tal “esperança” não é uma maneira de alimentar um otimismo irresponsável, que nos permita evadirmo-nos do presente ou iludirmos a adversidade; mas é aquilo que nos permite enfrentar confiadamente as vicissitudes da caminhada, conscientes de que as forças da morte não terão a última palavra e que as forças da vida triunfarão.

    Em terceiro lugar, o amor de Deus ao homem (cf. Rm 5,5-8). O cristão não é um “pobre diabo” que se arrasta à toa pela lama do mundo alimentando sonhos irrealizáveis; mas é, fundamentalmente, alguém a quem Deus ama com um amor verdadeiro e eterno. A prova desse amor está em Jesus de Nazaré, o Filho amado que Deus enviou ao mundo e “entregou à morte por nós quando ainda éramos pecadores” (Rm 5,8).

    Uma vez mais estamos no âmago da teologia paulina. Na compreensão que Paulo tem da vida e da história dos homens há uma realidade absolutamente central, que ele testemunha com um entusiasmo contagiante: Deus ama-nos com um amor sem limites e faz tudo para se encontrar connosco e para saciar a nossa sede de vida. Paulo, enquanto viver, não conseguirá calar esta “Boa Notícia”.

     

    INTERPELAÇÕES

    • Quando Deus fizer a contabilidade final dos nossos dias o que encontrará? As nossas boas obras serão em número suficiente para nos garantir a salvação? No “livro de contas” de Deus a nossa coluna dos débitos será mais extensa do que a coluna dos créditos? Deus atuará como um contabilista rigoroso que, depois de tudo somado, nos apontará, sem contemplações, aquilo que temos em falta? O apóstolo Paulo deixa-nos, na leitura de hoje, uma notícia tranquilizadora: na contabilidade final da nossa vida, a única coisa que contará será o amor de Deus. O nosso Deus é um Deus clemente e compassivo, lento para a ira e rico em misericórdia. Ele “justificar-nos-á” e emitirá sobre nós um veredicto de graça e de misericórdia, mesmo que nós não o mereçamos. A única coisa que Ele exigirá de nós é que acolhamos a sua oferta de salvação. Deus não nos condena; Deus salva-nos sempre. Basta que acolhamos o seu amor e que aceitemos o convite que Ele nos faz para integrar a sua família. Como vemos e sentimos esta “Boa Notícia”?
    • Então podemos viver como nos apetecer, sem medo de sermos penalizados pela “justiça” de Deus? Na realidade, aquilo que muitas vezes consideramos “castigos” pelos nossos pecados não são punições que Deus inventa para nos fazer pagar pelo mal que praticamos; são, simplesmente, as consequências naturais das nossas decisões erradas, das nossas atitudes egoístas, da má semente que semeamos, da nossa irresponsabilidade, da nossa futilidade, da nossa aposta no que é efémero e sem sentido. Quando escolhemos caminhos sem saída, somos nós que perdemos e que nos auto-castigamos: a nossa autossuficiência isola-nos, priva-nos de estar em paz com Deus e de usufruir dos seus dons; a nossa falta de fé afunda-nos no desespero e torna-nos prisioneiros do medo e da morte; a falta de confiança no amor de Deus faz com que nos arrastemos sem rumo, perdidos e órfãos, sentindo-nos lixo abandonado na berma dos caminhos… É dessa forma que queremos viver e dar sentido à nossa vida?
    • O apóstolo Paulo garante-nos que o amor de Deus não é inconstante, não varia conforme os “estados de espírito” de Deus, não depende dos comportamentos inconstantes do homem. É um amor inquestionável, infalível, absolutamente inabalável. Segundo Paulo, “Deus provou assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores”. Deus não ama apenas os bons, os que se portam bem; ama todos os seus filhos, sem exceção. Nem a nossa insistência no pecado nos afasta do amor de Deus. É difícil entender e aceitar isto? Talvez o seja para alguns, incapazes de entender a lógica de Deus, o alcance do verdadeiro amor. Que Deus anunciamos e testemunhamos? Um deus castigador e vingativo, sempre pronto a fazer cair sobre o homem pecador as suas punições, ou um Deus terno e compassivo, misericordioso e bom, que olha para os seus queridos filhos com a compreensão e o amor de um pai ou de uma mãe?

     

    ACLAMAÇÃO ANTES DO EVANGELHO – cf. João 4,42.15

    Escolher um dos refrães:

    Refrão 1: Louvor e glória a Vós, Jesus Cristo, Senhor.

    Refrão 2: Glória a Vós, Jesus Cristo, Sabedoria do Pai.

    Refrão 3: Glória a Vós, Jesus Cristo, Palavra do Pai.

    Refrão 4: Glória a Vós, Senhor, Filho do Deus vivo.

    Refrão 5: Louvor a Vós, Jesus Cristo, Rei da eterna glória.

    Refrão 6: Grandes e admiráveis são as vossas obras, Senhor.

    Refrão 7: A salvação, a glória e o poder a Jesus Cristo, Nosso Senhor.

     

    Senhor, Vós sois o Salvador do mundo:
    dai-nos a água viva, para não termos sede.

     

    EVANGELHO – João 4,5-42

    Naquele tempo,
    chegou Jesus a uma cidade da Samaria, chamada Sicar,
    junto da propriedade que Jacob tinha dado a seu filho José,
    onde estava a fonte de Jacob.
    Jesus, cansado da caminhada, sentou Se à beira do poço.
    Era por volta do meio dia.
    Veio uma mulher da Samaria para tirar água.
    Disse lhe Jesus: «Dá Me de beber».
    Os discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos.
    Respondeu Lhe a samaritana:
    «Como é que Tu, sendo judeu,
    me pedes de beber, sendo eu samaritana?»
    De facto, os judeus não se dão com os samaritanos.
    Disse lhe Jesus:
    «Se conhecesses o dom de Deus
    e quem é Aquele que te diz: ‘Dá Me de beber’,
    tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva».
    Respondeu Lhe a mulher:
    «Senhor, Tu nem sequer tens um balde, e o poço é fundo:
    donde Te vem a água viva?
    Serás Tu maior do que o nosso pai Jacob,
    que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu,
    com os seus filhos a os seus rebanhos?»
    Disse Lhe Jesus:
    «Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede.
    Mas aquele que beber da água que Eu lhe der
    nunca mais terá sede:
    a água que Eu lhe der tornar se á nele uma nascente
    que jorra para a vida eterna».
    «Senhor, suplicou a mulher dá me dessa água,
    para que eu não sinta mais sede
    e não tenha de vir aqui buscá-la».
    Disse-lhe Jesus:
    «Vai chamar o teu marido e volta aqui».
    Respondeu-lhe a mulher: «Não tenho marido».
    Jesus replicou:
    «Disseste bem que não tens marido,
    pois tiveste cinco
    e aquele que tens agora não é teu marido.
    Neste ponto falaste verdade».
    Disse-lhe a mulher:
    Senhor, vejo que és profeta.
    Os nossos antepassados adoraram neste monte
    e vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar».
    Disse lhe Jesus:
    «Mulher, podes acreditar em Mim:
    Vai chegar a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai.
    Vós adorais o que não conheceis;
    nós adoramos o que conhecemos,
    porque a salvação vem dos judeus.
    Mas vai chegar a hora – e já chegou –
    em que os verdadeiros adoradores
    hão de adorar o Pai em espírito a verdade,
    pois são esses os adoradores que o Pai deseja.
    Deus é espírito
    e os seus adoradores devem adorá-l’O em espírito e verdade».
    Disse Lhe a mulher:
    «Eu sei que há de vir o Messias,
    isto é, Aquele que chamam Cristo.
    Quando vier há de anunciar nos todas as coisas».
    Respondeu lhe Jesus:
    «Sou Eu, que estou a falar contigo».
    Nisto, chegaram os discípulos
    e ficaram admirados por Ele estar a falar com aquela mulher,
    mas nenhum deles Lhe perguntou:
    «Que pretendes?», ou então: «Porque falas com ela?»
    A mulher deixou a bilha, correu à cidade e falou a todos:
    «Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz.
    Não será Ele o Messias?»
    Eles saíram da cidade e vieram ter com Jesus.
    Entretanto, os discípulos insistiam com Ele, dizendo:
    «Mestre, come».
    Mas Ele respondeu-lhes:
    «Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis».
    Os discípulos perguntavam uns aos outros:
    «Porventura alguém Lhe trouxe de comer?»
    Disse-lhes Jesus:
    «O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que me enviou
    e realizar a sua obra.
    Não dizeis vós que dentro de quatro meses
    chegará o tempo da colheita?
    Pois bem, Eu digo-vos:
    Erguei os olhos e vede os campos,
    que já estão loiros para a ceifa.
    Já o ceifeira recebe o salário
    e recolhe o fruto para a vida eterna
    e, deste modo, se alegra o semeador juntamente com o ceifeiro.
    Nisto se verifica o ditado:
    ‘um é o que semeia e outro o que ceifa’.
    Eu «mandei-vos ceifar o que não trabalhastes.
    Outros trabalharam e vós aproveitais-vos do seu trabalho».
    Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus,
    por causa da palavra da mulher, que testemunhava:
    «Ele disse-me tudo o que eu fiz».
    Por isso os samaritanos, quando vieram ao encontro de Jesus,
    pediram Lhe que ficasse com eles.
    E ficou lá dois dias.
    Ao ouvi l’O, muitos acreditaram e diziam à mulher:
    «Já não é por causa das tuas palavras que acreditamos.
    Nós próprios ouvimos
    e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo».

     

    CONTEXTO

    A narração do evangelista João leva-nos até junto de um poço, na cidade samaritana de Sicar. A Samaria era a região central da Palestina – uma região heterodoxa, habitada por uma raça de sangue misturado (de judeus e pagãos) e de religião sincretista.

    Na época do Novo Testamento, existia uma animosidade com raízes bem antigas entre samaritanos e judeus. A divisão entre as duas comunidades começou logo após a morte de Salomão (932 a.C), quando as tribos do norte e do centro se recusaram a aceitar Roboão, filho de Salomão, como seu rei. O país dividiu-se: as tribos do norte e do centro escolheram para rei um tal Jeroboão e constituíram o reino de Israel, com capital em Siquém (cf. 1Rs 12); as tribos do sul permaneceram sob a autoridade de Roboão, filho de Salomão, constituindo o reino de Judá, com capital em Jerusalém. A partir daqui, os dois grupos seguiram caminhos separados.

    A situação piorou quando, em 721 a.C., o reino de Israel foi tomado pelos assírios e uma parte da população da Samaria (cerca de quatro por cento) foi deportada para a Assíria. Foi o fim do reino de Israel. Na Samaria instalaram-se, por essa altura, colonos assírios que se misturaram com a população local. Para os judeus, os habitantes da Samaria começaram, então, a paganizar-se (cf. 2Rs 17,29). Em 586 a.C. foi a vez de Judá sofrer uma derrota às mãos dos babilónios e de a maior parte da população de Jerusalém ter sido levada para o cativeiro, para a Babilónia.

    A relação entre as duas comunidades deteriorou-se ainda mais quando, após o regresso dos judeus do Exílio na Babilónia (538 a.C.), estes recusaram a ajuda dos samaritanos (cf. Esd 4,1-5) para reconstruir o Templo de Jerusalém (ano 437 a.C.) e denunciaram os casamentos mistos. Tiveram, então, de enfrentar a oposição dos samaritanos na reconstrução da cidade (cf. Ne 3,33-4,17). No ano 333 a.C., um novo fator veio agravar o conflito: os samaritanos construíram um Templo no monte Garizim, um templo que pretendia fazer concorrência ao templo de Jerusalém. O Templo samaritano do monte Garizim viria a ser destruído em 128 a.C., por João Hircano.

    As picardias continuaram entre os dois grupos. A mais famosa aconteceu por volta do ano 6 d.C., quando os samaritanos profanaram o Templo de Jerusalém durante a festa da Páscoa, espalhando ossos humanos nos átrios.

    Na época neotestamentária era ponto assente, para os judeus, que os samaritanos eram hereges, pois tinham sangue de povos estrangeiros e praticavam uma religião sincretista, que misturava elementos da fé javista com elementos religiosos herdados de outros povos. Os samaritanos, por sua vez, desprezavam profundamente os judeus.

    O poço referido na narrativa joânica era conhecido como o “poço de Jacob”. Estava situado no rico vale entre os montes Ebal e Garizim, não longe da cidade samaritana de Siquém (em aramaico, Sicara – a atual Askar). Trata-se de um poço estreito, aberto na rocha calcária, e cuja profundidade ultrapassa os 30 metros. Segundo a tradição, teria sido aberto pelo patriarca Jacob. Os dados arqueológicos revelam que o “poço de Jacob” serviu os samaritanos entre o ano 1000 a.C. e o ano 500 d.C. (embora ainda hoje se possa extrair dele água).

    Na tradição religiosa de Israel, o “poço” é um elemento mítico, que parece referido em numerosos textos e evoca a presença de Deus que acompanha o seu povo ao longo da sua peregrinação pela história. Sintetiza os poços abertos pelos patriarcas e a água que Moisés fez brotar do rochedo no deserto (primeira leitura de hoje); mas, sobretudo, torna-se figura da Lei (do poço da Lei brota a água viva que mata a sede de vida do Povo de Deus), que a tradição judaica considerava observada já pelos patriarcas, antes de ser dada ao Povo por Moisés.

    O Evangelho segundo São João apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus, enviado pelo Pai para criar um Homem Novo. No chamado “Livro dos Sinais” (cf. Jo 4,1-11,56), o autor apresenta – recorrendo aos “sinais” da água (cf. Jo 4,1-5,47), do pão (cf. Jo 6,1-7,53), da luz (cf. Jo 8,12-9,41), do pastor (cf. Jo 10,1-42) e da vida (cf. Jo 11,1-56) – um conjunto de catequeses sobre a ação criadora do Messias.

    O nosso texto é, exatamente, a primeira catequese do “Livro dos Sinais”: através do “sinal” da água, o autor vai descrever a ação criadora e vivificadora de Jesus.

     

    MENSAGEM

    O “poço de Jacob” ocupa o centro da cena. À volta do “poço” movimentam-se as personagens principais: Jesus e uma mulher samaritana. A temática que vai ser abordada relaciona-se, portanto, com um poço de água e com gente que procura água para matar a sede.

    Olhemos, antes de mais, para a mulher que se encontra junto do poço. Não se diz o seu nome. É apenas “uma mulher” samaritana. O que é que ela faz ali, junto do poço de Jacob? Vai à procura de água para matar a sua sede e para a sede da sua família. Aquela mulher, sem nome próprio, representa provavelmente a Samaria, aquele povo de religião heterodoxa, desprezado pelos judeus, que busca desesperadamente a água capaz de matar a sua sede de vida plena. Sim, também os samaritanos – esse povo herético e desprezado pelos judeus – sentem sede. A “água” que Deus quer oferecer a todos os seus filhos também é para os samaritanos.

    Aquele poço que está ali no centro da cena à disposição das gentes da Samaria é um poço histórico bem conhecido – o poço de Jacob. Mas, na narrativa joânica, aquele “poço” representa a Lei, o sistema religioso à volta do qual se consubstanciava a experiência religiosa dos samaritanos. Era nesse “poço” (a Lei) que os samaritanos procuravam a “água” de que necessitavam para saciar a sua sede de vida.

    No entanto, a água daquele “poço” já não respondia às necessidades (à sede) da gente da Samaria. Os samaritanos tinham há muito reconhecido a insuficiência do “poço” da Lei e até tinham arriscado procurar a vida plena noutras propostas religiosas, noutros caminhos, noutros deuses. Jesus referir-se-á mesmo, no seu diálogo com a samaritana, aos “cinco maridos” que ela já tinha tido, o que poderá ser uma alusão aos cinco deuses que os samaritanos chegaram a adorar, conforme dizia a tradição judaica (cf. 2Rs 17,29-41).

    Está assim lançado o tema desta narrativa. Na Samaria havia um povo, desprezado pelos judeus por causa do seu sincretismo religioso, que sentia sede de vida verdadeira e buscava em caminhos errados a água para saciar essa sede. Procurou-a no poço de Jacob, símbolo da Lei; mas aí só encontrou uma água que não saciava: quem bebia dessa água, rapidamente voltava a sentir sede. Os samaritanos também procuraram essa água noutras “fontes”, noutros deuses, noutras propostas; mas também aí encontraram desilusão e desencanto: já tinham conhecido diversas “soluções” (cinco maridos”) e continuavam a sentir uma sede inapagável de vida verdadeira e eterna.

    Os samaritanos estarão condenados a errar eternamente à sede, à procura de uma água que sempre lhes escapa? Deus ter-se-á afastado deles e não quererá oferecer-lhes a água de que eles necessitam para ter vida verdadeira?

    É precisamente aqui que Jesus entra na história. O evangelista João diz-nos que Jesus, vindo da Judeia para a Galileia, “tinha de atravessar a Samaria” (Jo 4,4). Na verdade, não tinha. Quem, no tempo de Jesus, viajava entre a Galileia e a Judeia fazia todos os possíveis por não atravessar a Samaria, a fim de evitar as montanhas daquela região e, sobretudo, para não ser confrontado com a hostilidade dos samaritanos. Esta necessidade que Jesus tem de passar pela Samaria não é de ordem geográfica, mas sim teológica: para cumprir plenamente a missão que o Pai Lhe tinha confiado, Jesus “tinha” de passar na Samaria e oferecer aos samaritanos a água de que eles necessitavam para saciar a sua sede de vida.

    Portanto, “por volta do meio dia”, Jesus chega junto do poço de Jacob e senta-se. Ao sentar-se ali, propõe-se Ele próprio tomar o lugar daquele poço: agora é Jesus o novo poço que oferece a água aos samaritanos sedentos de vida. Entretanto, aproximou-se do poço uma mulher samaritana. Vem buscar água.

    O poço era visto, na cultura popular palestina, como um cenário de noivado. É junto de um poço que se decide o noivado de Isaac com Rebeca (cf. Gn 24,15-31); é junto de um poço que se decide o noivado de Jacob com Raquel (cf. Gn 29,1-14); é junto de um poço que Moisés descobre Séfora e se apaixona por ela (cf. Ex 2,16-22). É bastante provável que o evangelista João evoque aqui o velho tema profético do “noivado” de Deus com o seu povo: Jesus é o “noivo” que vem ao encontro do seu povo para o desposar e fazer com ele uma nova Aliança. Aqui, junto daquele poço, Jesus é o noiva que vai desposar a sua noiva, a Samaria. Doravante a Samaria já não necessitará de procurar outro “marido”, pois encontrou em Jesus aquele que é capaz de saciar a sua sede de felicidade.

    Entre Jesus e a mulher samaritana estabelece-se um diálogo, um dos mais belos do Novo Testamento. Jesus pede à mulher: “dá-me de beber”. Jesus precisa, Ele próprio da água daquele poço? É claro que não. Então, porque se rebaixa Ele – contra todas as convenções sociais e religiosas – a dirigir-se àquela mulher pertencente a um povo impuro e desprezado? O pedido de Jesus é, evidentemente, para introduzir na equação o tema da água. Jesus, desde que se apresentou aos homens no presépio de Belém, nunca teve problema de se rebaixar para descer ao nível dos homens e para sentir as suas necessidades. A água é um bom tema de conversa: todos precisamos de água para viver.

    Na continuação da conversa, a mulher (Samaria) descobre que Jesus lhe vem propor uma água que matará definitivamente a sede que ela sente de vida eterna (cf. Jo 4,13-14). Depois de descobrir isso, ela rende-se completamente a Jesus e pede: “Senhor, dá me dessa água!” (Jo 4,15).

    Que água é essa? Para o evangelista João, a “água de Jesus” – o seu grande dom – é o Espírito. Na conversa com Nicodemos, Jesus já havia avisado que “quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus” – Jo 3,5; e quando Jesus se apresenta como a “água viva” que matará a sede do homem, João tem o cuidado de explicar que Ele se referia ao Espírito, que iam receber aqueles que acreditassem n’Ele (cf. Jo 7,37-39). O Espírito, uma vez acolhido no coração do homem, transforma-o, renova-o e torna-o capaz de amar Deus e os irmãos. Sacia a sede de vida do homem e dá-lhe a possibilidade de viver uma vida totalmente nova.

    Como é que aquela mulher responde à proposta de Jesus? Inicialmente, ela fica confusa. Quer, evidentemente, saciar a sua sede de vida; mas, o que deverá fazer para ter acesso à água do Espírito, à água de Jesus? A Samaria terá de renunciar à sua especificidade religiosa e de ceder às pretensões religiosas dos judeus, para os quais o verdadeiro encontro com Deus só pode acontecer no Templo de Jerusalém e na instituição religiosa judaica (“nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar” – Jo 4,20)?

    Jesus responde-lhe, no entanto, que não se trata de escolher entre o caminho dos judeus e o caminho dos samaritanos. Não é no Templo de pedra de Jerusalém ou no Templo de pedra do monte Garizim que Deus está… Quem quiser encontrar Deus e acolher o Espírito que sacia a sede de vida, deve aderir a Jesus, escutar as suas indicações, seguir os seus passos, ir atrás d’Ele no caminho do amor e da entrega. Da adesão a Jesus nascerá um povo novo, a comunidade que vive do Espírito (cf. Jo 4,21-24).

    Então – e só então – desaparecerão as barreiras de inimizade que separavam aqueles dois povos: os judeus e os samaritanos. A única coisa que passa a contar é a vida do Espírito que renovará e transformará o coração de todos, que a todos ensinará o amor a Deus e que fará de todos – sem distinção de raças ou de perspetivas religiosas – uma família de irmãos.

    A mulher responde à proposta de Jesus abandonando o cântaro (agora inútil), e correndo a anunciar aos habitantes da cidade aquela fantástica proposta que Jesus, em nome de Deus, oferece à Samaria. A narrativa joânica refere, ainda, a adesão entusiástica de todos os samaritanos à proposta de Jesus e a “confissão da fé” proclamada por toda a comunidade. Jesus é reconhecido como “o salvador do mundo” – isto é, como Aquele que dá ao homem a vida plena e definitiva (cf. Jo 4,28-41). Os samaritanos descobriram um novo poço onde poderão saciar a sua sede de felicidade e de vida eterna: Jesus.

     

    INTERPELAÇÕES

    • A modernidade criou-nos grandes expectativas de progresso, de emancipação individual, de realização pessoal, e prometeu-nos um futuro de liberdade e felicidade através da razão, da ciência e da tecnologia. Disse-nos que tinha na manga a resposta para todas as nossas procuras e que podia responder a todas as nossas necessidades. Garantiu-nos que a vida verdadeira estava na liberdade absoluta, numa vida vivida sem o controle de Deus; disse-nos que os avanços científicos e tecnológicos iriam tornar a nossa existência cómoda, eliminar a doença e protelar a morte; afirmou que a nossa segurança estava numa conta bancária recheada, no reconhecimento social, no êxito profissional, na adesão às indicações dos líderes de opinião, na conformação com o movimento geral das massas… No entanto, todas as nossas vitórias e conquistas não conseguem calar a nossa sede de eternidade, de plenitude, dessa “mais qualquer coisa” que nos falta para sermos, realmente, felizes e para nos sentirmos plenamente realizados. A afirmação essencial que o Evangelho de hoje faz é: só Jesus Cristo oferece a água que mata definitivamente a sede de vida e de felicidade do homem. Precisamos de escutar Jesus e de abraçar o seu projeto. O que pensamos disso? O que é que Jesus significa para nós? Ele é “a água” sem a qual não conseguimos viver? A sua proposta sacia a nossa sede de vida? O que é preciso para conseguirmos que os homens do nosso tempo aprendam a olhar para Jesus e a tomar consciência da proposta de vida plena que Ele oferece a todos?
    • “Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: ‘Dá Me de beber’, tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva” – diz Jesus à mulher samaritana. A “água viva” de que Jesus fala evoca imediatamente em nós a fonte batismal. Para cada um de nós, o dia do nosso batismo foi o começo de uma caminhada com Jesus… Nesse momento aderimos a Jesus e à vida que Ele oferece, acolhemos em nós o Espírito que transforma, que renova, que nos capacita para vivermos como “filhos de Deus” e que nos leva ao encontro da vida plena e definitiva. Depois disso, percorremos um caminho, fizemos opções, elegemos valores sobre os quais fundamentamos a nossa vida. A nossa vida tem sido verdadeiramente coerente com as opções que fizemos no dia em que recebemos o batismo? Temos procurado deixar-nos conduzir pelo Espírito? O compromisso que assumimos no dia em que fomos batizados é uma realidade que continua a marcar a nossa vida, os nossos gestos, os nossos valores, as nossas opções?
    • Atentemos no pormenor do “cântaro” abandonado pela samaritana, depois de se encontrar com Jesus… O “cântaro” significa e representa tudo aquilo que nos dá acesso a essas propostas limitadas, falíveis, incompletas de felicidade. O abandono do “cântaro” significa o romper com todos os esquemas de busca de felicidade egoísta, para abraçar a verdadeira e única proposta de vida plena, a proposta que nos vem de Jesus. Neste tempo de quaresma – tempo de “conversão”, de mudança, de refazer a nossa vida, de reequacionar as nossas opções, de “voltar ao encontro de Deus” – estamos dispostos a abandonar o caminho da felicidade egoísta, parcial, incompleta, e a abrir o nosso coração ao Espírito que Jesus nos oferece e que exige de nós uma vida nova?
    • Aquela mulher anónima da Samaria, depois de encontrar o “salvador do mundo” que veio trazer aos homens a água que mata a sede de vida eterna, não guardou para si própria essa experiência inolvidável e não se fechou em casa a gozar a sua descoberta… Correu para a cidade e partilhou com os seus concidadãos a verdade que tinha encontrado e que tinha alterado a sua visão da vida: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será Ele o Messias?”. As experiências que mudam a nossa existência e que nos abrem horizontes novos, não são para ficar confinadas nos nossos mundos pessoais. Quando nos encontramos com Jesus e descobrimos, com Ele, novos horizontes e novas possibilidades, partilhamos essa descobertas com aqueles que caminham ao nosso lado pelas estradas da vida?

     

    ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 3.º DOMINGO DA QUARESMA
    (adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)

     

    1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.

    Ao longo dos dias da semana anterior ao 3.º Domingo da Quaresma, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo…

    Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

     

    1. DESENVOLVER O RITO PENITENCIAL.

    A antífona de abertura, a primeira leitura e o Evangelho sublinham o tema da água: água do Batismo, água da graça… O rito penitencial pode valorizar a importância da água na história da salvação e na nossa vida cristã: bênção da água, aspersão da assembleia, acompanhada de um cântico de carácter batismal, convidando todos os fiéis a ir à fonte batismal tocar na água e fazendo o sinal da cruz… São algumas ideias… A equipa litúrgica procure preparar bem um gesto, para que signifique o acolhimento da palavra de Deus, através do símbolo da água.

     

    1. LER O EVANGELHO A DIVERSAS VOZES.

    O Evangelho do encontro de Jesus com a samaritana, um pouco longo, pode ser lido a diversas vozes: narrador, Jesus, samaritana, discípulos. De qualquer modo, a leitura deve ser bem preparada e proclamada, para que seja escutada como Palavra de Deus e não como uma mera encenação…

     

    1. BILHETE DE EVANGELHO.

    A vida é dom. “Se conhecêsseis o dom de Deus!”, diz Jesus à mulher de Samaria. Deus é alguém que oferece um presente, é o seu modo de fazer aliança connosco. Ele faz-nos viver porque é nosso Criador. Ele faz-nos reviver porque é nosso Salvador. Ele faz-nos viver com Ele e com os nossos irmãos porque é o Espírito que faz a nossa comunhão. Saibamos apreciar estes presentes, saibamos provar o seu sabor. A vida, recebemo-la… que presente! É preciso que a demos… em troca! Nesta semana, procuremos aprofundar esta relação que somos convidados a viver com Deus e com os nossos irmãos. Não sejamos daqueles “mimados” que já não sabem apreciar o que se lhes dá! Não sejamos daqueles “avarentos” que já não sabem o que é oferecer!

     

    1. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.

    Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

     

    No final da primeira leitura:

    Nós Te bendizemos, Deus nosso Pai, porque habitas verdadeiramente no meio de nós. Tinhas tirado o povo de Israel da sua infelicidade, fizeste-o sair do Egipto, pelo teu servo Moisés fizeste jorrar a água do rochedo.

    Nós Te pedimos: guarda-nos de toda a impaciência, confirma a nossa confiança na tua presença em nós.

     

    No final da segunda leitura:

    Nós Te damos graças porque nos justificas quando temos fé em Ti. Nós Te bendizemos por Jesus, teu Filho, que aceitou morrer por nós, pecadores, e pelo Espírito Santo que foi derramado nos nossos corações.

    Nós Te pedimos por todos os nossos irmãos e irmãs cuja esperança está ferida e que atravessam períodos de dúvida, por causa das provações que os atingem.

     

    No final do Evangelho:

    Bendito sejas, Senhor Jesus, Tu o Messias, o Salvador do mundo, porque nos revelas a água viva da tua presença e nos levas a adorar o Pai no Espírito e em verdade. Bendito sejas pela água do Batismo.

    Nós Te pedimos pelas crianças e pelos jovens que conduzimos para Ti e por todos os futuros batizados: faz com que tenham sede de Te conhecer!

     

    1. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.

    Pode-se escolher a Oração Eucarística III.

     

    1. PALAVRA PARA O CAMINHO.

    Que fonte? Sede do Povo de Israel no deserto! Sede da samaritana! E nós? Temos sede? De quem? De quê? A que poço vamos nós beber para matar todas as sedes que nos habitam? E se nos enganamos na fonte? “Senhor, dá me dessa água, para que eu não sinta mais sede”!

     

    UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
    PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA

    Grupo Dinamizador:
    José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
    Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
    Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
    www.dehonianos.org

    S. João de Deus, Religioso

    S. João de Deus, Religioso


    8 de Março, 2026

    S. João de Deus nasceu a 8 de Março de 1495, em Montemor-o-Novo. Aos 8 anos saiu de casa, dirigindo-se para Oropesa, Espanha, onde foi pastor e, mais tarde, soldado de Carlos V. Exerceu outras atividades até descobrir a vocação a que Deus o chamava. Em 1539, assistiu às exéquias da Imperatriz Isabel, mulher de Carlos V, e, à semelhança do Duque de Gandia, futuro S. Francisco de Borja, ficou profundamente impressionado. A pregação e a orientação de S. João de Ávila ajudaram João de Deus a encontrar o caminho a que Deus o chamava. Instalou, em Granada, um hospital para os pobres, aos quais se entregou generosamente, tornando-se para eles, e para todos, um sinal vivo da misericórdia de Deus. Começaram a juntar-lhe colaboradores que, mais tarde, se constituíram em instituto religioso, a "Ordem Hospitaleira dos Irmãos de S. João de Deus", aprovada por Sixto V, em 1583. S. João de Deus faleceu em Granada, a 8 de Março de 1550. É padroeiro dos hospitais católicos, bem como dos enfermeiros católicos e suas associações.
    Lectio
    Primeira leitura: Da féria (ou do Comum)
    Segunda leitura: Mateus 25, 31-40

    Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado por todos os seus anjos, há-de sentar-se no seu trono de glória. 32Perante Ele, vão reunir-se todos os povos e Ele separará as pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. 33À sua direita porá as ovelhas e à sua esquerda, os cabritos. 34O Rei dirá, então, aos da sua direita: 'Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo. 35Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, 36estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo.' 37Então, os justos vão responder-lhe: 'Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? 38Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? 39E quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te?' 40E o Rei vai dizer-lhes, em resposta: 'Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes.'

    Jesus, como filho do seu tempo e participante da mentalidade da sua época, tem presente as ideias comuns sobre os acontecimentos extraordinários do fim dos tempos e parte delas para inculcar nos homens a necessária preparação para superarem, com êxito, a provação final. Além disso, pretende afirmar que os homens serão julgados pela atitude que tiverem em relação a Ele.
    A reunião universal dos povos pressupõe a ressurreição dos mortos. Os bons serão colocados à direita, lugar de sorte, e os maus à esquerda, lugar de desgraça. Esta colocação pressupõe que o juízo já foi efetuado. Daí que, logo de seguida, seja proferida a sentença. O Filho do homem revela-se como rei, e convida os da sua direita a receberem o prémio, justificando essa decisão com as obras de caridade feitas por eles aos "irmãos pequeninos" de Jesus (v. 40). O serviço caritativo prestado ao próximo necessitado justifica o prémio, tal como a ausência desse serviço justifica o castigo. Além do mais, o que se faz de bem ao próximo, é a Jesus que se faz, tal como o que não se faz de bem ao próximo é a Jesus que não se faz. Não se fazem distinções sobre a identidade ou a condição de quem faz o bem ou dos necessitados a quem é feito. As obras feitas por amor, praticadas por quem quer que seja, ao próximo necessitado, seja ele quem for, honram a Jesus e são premiadas.
    Meditatio

    "O que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes" (v. 40). Jesus dirige-se a todos, sem qualquer distinção. Isto significa que, também fora do âmbito visível dos seus discípulos, da sua Igreja, pode haver autêntico reino e verdadeiro "cristianismo". Esta universalidade estende-se também àqueles a quem fazemos os bem: a única condição é que sejam necessitados. Quando fazemos o bem a um necessitado, é a Cristo que o fazemos. Quem faz o bem, por amor, é sempre um sinal, consciente ou inconsciente, e mais ou menos claro, da misericórdia de Deus.
    S. João de Deus foi para os seus contemporâneos, especialmente para os doentes, um rosto da misericórdia de Deus. Ardendo na caridade divina, só podia manifestá-la aos outros. Para salvar os doentes do seu hospital em chamas, não exitou em correr para o meio do fogo: "Ensinando a caridade, demonstrou que o fogo exterior tinha menor força do fogo que o queimava interiormente", - comentava outrora a liturgia da sua festa. Numa das suas cartas, o santo escreve: "Vêm aqui tantos pobres, que até eu me espanto como é possível sustentar a todos; mas Jesus Cristo a tudo provê e a todos alimenta. Vêm muitos pobres à casa de Deus, porque a cidade de Granada é muito fria, e mais agora que estamos no Inverno. Entre todos - doentes e sãos, gente de serviço e peregrinos - há aqui mais de cento e dez pessoas. Como esta casa é geral, recebe gente de todos os géneros e condições: tolhidos, mancos, leprosos, mudos, dementes, paralíticos, tinhosos, alguns já muito velhos e outros muito crianças ainda, e por cima disto muitos peregrinos e viajantes, que cá chegam e aqui encontram lume, água, sal e vasilhas para cozinhar os alimentos. E para tudo isto não se recebe renda especial, mas Cristo a tudo provê". Noutra carta dizia: "Não tenho sequer o espaço de um "creio em Deus Pai" para poder respirar." O seu amor, a sua dedicação e generosidade para com os pobres granjearam-lhe a admiração de Granada inteira. Quando faleceu, a cidade desfilou diante daquele homem-prodígio de humildade e de caridade. Como dizia João Paulo II de S. Camilo de Lellis, também o testemunho de S. João de Deus "constitui, ainda hoje, um forte apelo a amar a Cristo, presente nos irmãos que carregam sobre si mesmos o fardo da doença".
    A nossa união com Cristo, no seu amor pelo Pai e pelos homens manifesta-se também na disponibilidade e no amor para com todos. A escuta da Palavra, e sobretudo a eucaristia que celebramos são um convite diário para nós, dehonianos, a que sejamos pão bom, partido pelos irmãos, de modo especial para os mais fracos e carenciados: "os pequenos e os que sofrem" (cf. Cst 18). As palavras de Cristo, na instituição da eucaristia, "Fazei isto em memória de Mim" (Lc 22, 19; 1 Cor 11, 24-25), não se referem apenas à Eucaristia como memorial, mas são um convite a todo o discípulo de Jesus para que seja "pão partido" e "sangue derramado" por todos. Tal como Cristo, também nós...
    Oratio

    Senhor, entre os caminhos que me apontas para me encontrar contigo e unir-me a ti, há o do amor aos irmãos que passam pela difícil fase do sofrimento. Foi esse o caminho percorrido por Jesus, teu Filho divino, o verdadeiro bom samaritano da humanidade. Torna-me cada vez mais consciente de que o serviço aos pequenos e aos que sofrem podem conduzir-me à contemplação do teu rosto, e libertar o amor que derramaste no meu coração para me tornar sinal da tua misericórdia para com todos os homens, particularmente os mais necessitados. Ámen.
    Contemplatio

    (A caridade para com o próximo) é o segundo mandamento e é semelhante ao primeiro. Mas Nosso Senhor fez dele o seu mandamento preferido, porque o outro era evidente. «Este é o meu mandamento, diz, que vos ameis como eu vos amei» (Jo 15, 12). Fez deste mandamento a característica da lei nova e o traço principal dos seus verdadeiros discípulos. «É assim, diz, que reconhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 35)... Que Deus vos faça a graça, dizia S. Paulo, de estardes sempre unidos pelos sentimentos e pelo afeto uns para com os outros, segundo o espírito de Jesus Cristo, e conforme ao seu exemplo. Estai unidos no culto e no amor de Deus, e para permanecerdes unidos suportai-vos uns aos outros: o forte ajudará o fraco, o sábio ajudará o ignorante, o judeu e o gentio serão caridosos entre si. Nosso Senhor não nos suportou? Não nos tomou ele consigo e não nos uniu ao seu corpo místico para nos apresentar ao seu Pai? A caridade para com o próximo é necessária a quem quer amar a Deus. - O amor de Deus e o amor do próximo fazem um só. Pode amar-se a Deus e não amar os homens seus filhos? Estes dois amores não faziam senão um só no coração de Nosso Senhor. Quando pronuncia o Ecce venio ao entrar na sua vida mortal, vinha ao mesmo tempo por amor de seu Pai e por amor dos seus irmãos... O amor do próximo está inscrito em cada página do Evangelho. Nosso Senhor podia fazer mais para o recomendar do que nos dizer que teria como feito a si mesmo o que fizéssemos pelo mais pequeno de entre os seus? Não é sobre esta caridade que consistirá sobretudo o juízo? «Tive fome e destes-me de comer; tive sede e destes-me de beber...». (Pe. Dehon, OSP 3, p. 201s.).
    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "O que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos,
    a mim mesmo o fizestes" (Mt 25, 40).

     

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    S. João de Deus, Religioso (08 Março)

  • 04º Domingo da Quaresma - Ano A [atualizado]

    04º Domingo da Quaresma - Ano A [atualizado]

    15 de Março, 2026

    ANO A

    4º DOMINGO DA QUARESMA

    Tema do 4º Domingo da Quaresma

    Não fomos feitos para a escuridão; as trevas assustam-nos e não nos deixam caminhar em direção à vida plena. Só concretizamos a nossa vocação quando nos deixamos conduzir e iluminar pela luz de Deus. “Ama a luz, escolhe a luz, busca a luz, vive na luz” – pede-nos a Palavra de Deus que nos é dirigida nesta quarta etapa do caminho quaresmal.

    No Evangelho Jesus apresenta-se como “a luz” que vem iluminar o mundo e libertar os homens das “trevas”. É essa a “obra” que o Pai Lhe confiou e na qual Ele irá trabalhar. Quem adere a Jesus, recebe o seu batismo e acolhe as suas indicações, envereda por um caminho novo, belo, desafiante, luminoso, onde progressivamente encontra a liberdade, a realização, a vida em plenitude. O homem que aceita viver na luz torna-se um Homem Novo, um homem que concretiza o projeto original que Deus tinha quando criou os seres humanos.

    Na segunda leitura, o apóstolo Paulo lembra aos cristãos de Éfeso que, depois de terem aderido a Cristo, cortaram definitivamente com as trevas e abraçaram uma nova realidade. Agora são “filhos da luz” e devem produzir obras de bondade, de justiça, de verdade, de reconciliação, de misericórdia e de paz. Através deles e da luz que projetam, Jesus continua a iluminar o mundo e a história dos homens.

    A primeira leitura conta a escolha de David, o filho mais novo de Jessé de Belém, para rei de Israel. À luz da lógica dos homens, parece, em todos os sentidos, uma escolha estranha; mas Deus parece não ter qualquer pejo em subverter as nossas lógicas e em escolher pessoas “improváveis” para serem uma luz que brilha na noite do mundo.

     

    LEITURA I – 1 Samuel 16,1b.6-7.10-13a

    Naqueles dias,
    o Senhor disse a Samuel:
    «Enche o corno de óleo e parte.
    Vou enviar-te a Jessé de Belém,
    pois escolhi um rei entre os seus filhos».
    Quando chegou, Samuel viu Eliab e pensou consigo:
    «Certamente é este o ungido do Senhor».
    Mas o Senhor disse a Samuel:
    «Não te impressiones com o seu belo aspeto,
    nem com a sua elevada estatura,
    pois não foi esse que Eu escolhi.
    Deus não vê como o homem;
    o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração».
    Jessé fez passar os sete filhos diante de Samuel,
    mas Samuel declarou-lhe:
    «O senhor não escolheu nenhum destes».
    E perguntou a Jessé:
    «Estão aqui todos os teus filhos?»
    Jessé respondeu-lhe:
    «Falta ainda o mais novo, que anda a guardar o rebanho».
    Samuel ordenou: «Manda-o chamar,
    porque não nos sentaremos à mesa, enquanto ele não chegar».
    Então Jessé mandou-o chamar:
    era loiro, de belos olhos e agradável presença.
    O Senhor disse a Samuel:
    «Levanta-te e unge-o, porque é este mesmo».
    Samuel pegou no corno do óleo e ungiu-o no meio dos irmãos.
    Daquele dia em diante,
    o Espírito do Senhor apoderou-Se de David.

     

    CONTEXTO

    Foi no séc. XII a.C. que os filisteus – “povos do mar” oriundos, provavelmente, da zona do Mar Egeu – se estabeleceram na orla costeira sudoeste da terra de Canaan. Possuindo armas de ferro, tinham vantagem militar sobre os povos que habitavam a região, que ainda não conheciam o ferro e combatiam com armas de bronze.

    As tribos do povo de Deus que tinham vindo do Egito com Moisés entraram na terra de Canaan por volta de 1200 a.C., conduzidas por Josué. De acordo com o livro dos Juízes, não constituíam uma unidade política: só em determinadas circunstâncias as tribos de determinada região se uniam em coligações defensivas, a fim de resistir aos ataques dos inimigos. Faltava-lhes, contudo, uma liderança militar e política capaz de organizar uma resistência eficaz contra os grupos que as ameaçavam.

    Em meados do séc. XI a.C., a pressão militar dos filisteus constituía uma ameaça para as tribos do povo de Deus. Os anciãos das tribos, conscientes da necessidade de uma liderança forte, instaram um juiz chamado Samuel (pertencente à tribo de Efraim, uma tribo instalada no centro da terra de Canaan), a procurar um “rei” capaz de potenciar a unidade política das tribos e conduzi-las na luta contra os filisteus.

    A primeira experiência monárquica aconteceu com Saúl e agrupava as tribos do centro e algumas do norte do país. Essa experiência terminou, no entanto, de forma dramática: Saúl e seu filho Jónatas morreram na batalha de Gelboé, em luta contra os filisteus, por volta do ano 1010 a.C.

    Era preciso encontrar um outro “herói”, capaz de gerar consensos entre tribos muito diferentes, juntá-las e conduzi-las vitoriosamente ao combate contra os inimigos filisteus. A escolha dos anciãos – tanto das tribos do norte, como das tribos do sul – recaiu, então, num jovem chamado David.

    David nasceu por volta de 1040 a.C., em Belém de Judá, no sul do país. Como é que David se tornou notado e se impôs, de forma a ser considerado uma solução para o problema da realeza?

    O Livro de Samuel apresenta três tradições sobre a entrada de David em cena. A primeira apresenta David como um admirável guerreiro, cuja valentia chamou a atenção de Saúl, sobretudo após a sua vitória sobre um gigante filisteu chamado Golias (cf. 1Sm 17). A segunda tradição apresenta David como um poeta, que vai para a corte de Saúl para cantar e tocar harpa: segundo esta tradição – bastante hostil a Saúl – o rei só conseguia reencontrar a calma e o bem estar quando David o acalmava com a sua música (cf. 1Sm 16,14-23); e o poeta/cantor David foi conquistando simpatias na corte, tornou-se amigo de Jónatas, o filho de Saúl, e casou mesmo com Mical, a filha do rei. Finalmente, a terceira tradição – a menos verificável historicamente, mas a de maior importância teológica – apresenta a realeza de David como uma escolha de Javé. É a esta terceira tradição que a primeira leitura do quarto domingo da Quaresma se refere.

     

    MENSAGEM

    Independentemente das circunstâncias históricas que trouxeram o jovem David (pertencente a uma tribo do sul do país, a tribo de Judá) para a corte do rei Saul, o autor deuteronomista, responsável por este relato, está a propor-nos uma leitura da história da ascensão de David ao trono com os olhos da fé: Deus, por razões que só Ele conhece e que o homem não consegue entrever, elegeu David e confiou-lhe a missão de conduzir o Seu povo.

    Após o falhanço de Saul como rei de Israel (cf. 1Sm 15,10-35), o profeta Samuel é enviado por Deus a Belém, a casa de um tal Jessé, para ungir como rei um dos seus filhos. Samuel não se sente muito à vontade nessa missão, pois receia que o rei Saul se venha a inteirar desse facto (cf. 1Sm 16,1b) e lhe “tire a vida”. No entanto, Samuel não ignora a ordem de Deus: dirige-se a Belém para cumprir a missão de que Deus o encarregou (cf. 1Sm 16,4). O profeta não sabe, à partida, qual é, entre os numerosos filhos de Jessé de Belém, o escolhido de Deus. Deus não lhe dá qualquer explicação: Ele é soberano e não tem de explicar ao homem as decisões que toma. A eleição de alguém para uma missão é sempre uma decisão que só a Deus pertence.

    Chegado a Belém, Samuel vê desfilar diante de si os diversos filhos de Jessé. Apesar das qualidades que se lhes notam (belo aspeto, alta estatura, força, inteligência), Samuel percebe que nenhum deles é o eleito de Deus (cf. 1Sm 16,6-10). Samuel começa a perceber que a lógica de Deus é diferente da lógica dos homens. Os critérios que Deus usa escolher os seus eleitos nem sempre coincidem com os critérios dos homens.

    Terminado o desfile dos jovens, Jessé lembra-se que ainda falta um dos seus filhos: David, o mais jovem, que estava fora a cuidar dos rebanhos da família. David parecia – quer pela sua juventude, quer pelo lugar subalterno que ocupava na hierarquia familiar – o candidato mais “improvável” para assumir a missão de conduzir os destinos do povo de Deus. Mas, quando David chegou a casa e se apresentou diante de Samuel, o profeta percebeu que era ele o escolhido de Deus. Trata-se de uma realidade que se repete muitas vezes na história da salvação: Deus escolhe e chama com frequência os mais pequenos, os mais frágeis, aqueles que o mundo ignora e considera insignificantes para, através deles, concretizar o Seu projeto de salvação.

    Samuel, por mandato de Deus, “ungiu” David “na presença dos seus irmãos” (cf. 1Sm 17,12). A partir daquele dia David passou a ser conduzido pelo Espírito de Deus: é o Espírito de Deus que toma conta daqueles que Deus elege e que os torna capazes de levar para a frente a missão que lhes é confiada.

    Porque é que Deus elege este e não aquele? Quais são as qualidades que tornam alguém mais apto, aos olhos de Deus, para concretizar uma determinada missão no mundo? O nosso “catequista” não conhece as respostas para estas questões. Tem apenas uma certeza fundamental, que partilha connosco: quem leva para a frente a obra da salvação é Deus e não o homem; os homens não são mais do que instrumentos de Deus; quanto mais débeis são esses “instrumentos”, mais se vê que a obra é de Deus e que é Deus que opera no mundo para oferecer aos seus filhos a salvação e a vida.

    David, o jovem de Belém que Deus escolheu para ser rei de Israel, assumiu o seu lugar no projeto de Deus. Cumpriu bem o seu papel. Da sua família nasceria, alguns séculos mais tarde, um tal José, esposo de Maria, a mãe de Jesus.

     

    INTERPELAÇÕES

    • Que ideia fazemos do mundo e do que nele acontece? Agrada-nos o que vemos, ou sentimo-nos profundamente perturbados pelos atos de pura maldade que alguns praticam, aparentemente sem que Deus faça seja o que for para os travar? Que dizemos de Deus quando parece que a injustiça e a mentira se multiplicam e gritam mais alto do que a justiça e a verdade? Acusamos Deus de se afastar de nós e de não querer saber do mundo? Criticamos a indiferença de Deus e o facto de ele não fazer nada? No entanto, Deus está atento e nunca desiste de atuar, de intervir, de nos ajudar a construir um mundo mais belo, mais justo e mais humano… A catequese de Israel já ensinava, no séc. VII/VI a.C., que Deus está sempre a escolher e a chamar homens e mulheres que atuem no mundo no sentido de o transformar e de o humanizar. É Deus que está por detrás de tantos e tantos gestos de amor, de bondade, de coragem, de perdão, de partilha, de serviço, de solidariedade, de compromisso que vemos a cada instante acontecer à nossa volta. Todos os gestos que trazem alegria, esperança, paz, harmonia, verdade, justiça, são gestos de Deus. Talvez sejam feitos por homens, mas por homens que aceitam ser instrumentos de Deus. São, portanto, gestos que provêm de Deus. Temos consciência disso?
    • Quem são esses que Deus escolhe para, através deles, intervir no mundo e transformar a história dos homens? São anjos? São seres especiais, perfeitos, feitos de um material diferente do “barro” dos outros homens e mulheres? Não. São pessoas normais, mas que, apesar da sua fragilidade e limitações estão, simplesmente, disponíveis para colaborar no projeto que Deus tem para o mundo; são todos aqueles que aceitam ser instrumentos de Deus e que aceitam sonhar o sonho de Deus para o mundo; são todos aqueles que, como dizia Jesus, aceitam ser “sal da terra” e “luz do mundo”; são todos aqueles que caminham pela vida semeando à sua volta sementes de esperança. Estamos conscientes de que isto nos diz respeito? No dia em que escolhemos Deus e aceitamos integrar a família de Deus, recebemos a missão de colaborar com Deus na construção desse mundo mais justo e mais fraterno que queremos ver nascer. Temos cumprido o nosso papel? Temos sido sinais vivos de Deus no mundo e na vida dos irmãos que caminham ao nosso lado?
    • O autor deuteronomista (responsável pela redação dos livros de Samuel) partilha connosco uma evidência que nunca deixa de lhe causar um profundo espanto: quando se trata de escolher alguém para cumprir uma missão importante, Deus age sempre num sentido diferente do homem e prefere chamar os mais “improváveis” – os mais pequenos, os mais frágeis, os menos capacitados. “Deus não vê como o homem; o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração” – diz, em jeito de justificação, o autor deuteronomista. Talvez o “ver com o coração” nos mostre a verdadeira essência daquele irmão ou daquela irmã que se cruza connosco; talvez o “ver com o coração” nos ofereça uma fotografia mais nítida daquela pessoa que Deus colocou no nosso caminho; talvez “ver com o coração” nos ajude a descobrir a riqueza que se esconde por detrás daqueles que parecem insignificantes, sem qualificações e sem pretensões… Talvez “ver com o coração” nos ensine a respeitar a dignidade de cada homem e de cada mulher, mesmo quando não parecem pessoas importantes ou influentes. É isso que acontece nos “guichets” dos nossos serviços públicos? É isso que acontece nas receções das nossas igrejas? É isso que acontece nas portarias das nossas casas religiosas?

     

    SALMO RESPONSORIAL – Salmo 22 (23)

    Refrão 1: O Senhor é meu pastor: nada me faltará.

    Refrão 2: O Senhor me conduz: nada me faltará.

    O Senhor é meu pastor: nada me falta.
    Leva-me a descansar em verdes prados,
    conduz-me às águas refrescantes
    e reconforta a minha alma.

    Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome.
    Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
    não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo:
    o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.

    Para mim preparais a mesa
    à vista dos meus adversários;
    com óleo me perfumais a cabeça
    e meu cálice transborda.

    A bondade e a graça hão de acompanhar-me
    todos os dias da minha vida,
    e habitarei na casa do Senhor
    para todo o sempre.

     

    LEITURA II – Efésios 5,8-14

    Irmãos:
    Outrora vós éreis trevas,
    mas agora sois luz no Senhor.
    Vivei como filhos da luz,
    porque o fruto da luz é a bondade, a justiça e a verdade.
    Procurai sempre o que mais agrada ao Senhor.
    Não tomeis parte nas obras das trevas, que são inúteis;
    tratai antes de condená-las abertamente,
    porque o que eles fazem em segredo
    até é vergonhoso dizê-lo.
    Mas, todas as coisas que são condenadas
    são postas a descoberto pela luz,
    e tudo que assim se manifesta torna-se luz.
    É por isso que se diz:
    «Desperta, tu que dormes; levanta-te do meio dos mortos
    e Cristo brilhará sobre ti».

     

    CONTEXTO

    A cidade de Éfeso, capital da Província romana da Ásia, estava situada na costa ocidental da Ásia Menor, a cerca de três quilómetros a sudoeste da moderna Selçuk, na província de Esmirna (Turquia). Era um dos principais centros comerciais e religiosos do mundo antigo. O seu importante porto e a sua numerosa população faziam de Éfeso uma cidade florescente. Era famosa pelo templo de Artémis, considerado uma das sete maravilhas do mundo antigo, e pelo imponente teatro, que comportava cerca de 25.000 pessoas.

    Paulo passou em Éfeso no final da sua segunda viagem missionária (cf. At 18,19-21). Mas foi mais tarde, durante a sua terceira viagem missionária, que ele se deteve na cidade (cf. At 19,1). Encontrou lá alguns cristãos escassamente preparados. Paulo procurou instruí-los e dar-lhes uma adequada formação cristã. De acordo com o Livro dos Atos dos Apóstolos, Paulo permaneceu na cidade durante um longo período (mais de dois anos, segundo At 19,10), ensinando na sinagoga e, depois, na “escola de Tirano” (At 19,9). Assim, reuniu à sua volta um número considerável de pessoas convertidas ao “Caminho” (At 19,9.23). Paulo viveu em Éfeso alguns momentos delicados, como o tumulto que se levantou contra ele quando foi acusado pelos comerciantes efésios de estar a destruir a fé em Artémis, pondo em causa o negócio de imagens da deusa (cf. Ef 19,23-40). Ainda de acordo com o autor dos Atos, foi aos anciãos da Igreja de Éfeso que Paulo confiou, em Mileto (cf. At 20,17-38), o seu testamento espiritual, apostólico e pastoral, antes de ir a Jerusalém, onde acabaria por ser preso. Tudo isto faz supor uma relação muito estreita entre Paulo e a comunidade cristã de Éfeso.

    Curiosamente, a carta aos Efésios é bastante impessoal e não reflete essa relação. Alguns dos comentadores dos textos paulinos duvidam, por isso, que esta carta venha de Paulo. Outros, porém, acreditam que o texto que chegou até nós com o nome de “Carta aos Efésios” é um dos exemplares de uma “carta circular” enviada a várias igrejas da Ásia Menor, inclusive à comunidade cristã de Éfeso.

    Em qualquer caso, a Carta aos Efésios apresenta-se como uma carta escrita por Paulo, numa altura em que o apóstolo está na prisão (em Roma?). O seu portador teria sido um tal Tíquico. Estamos por volta dos anos 58/60.

    Alguns veem nesta carta uma espécie de síntese da teologia paulina, numa altura em que Paulo considerava ter terminado a sua missão no oriente. O tema mais importante da carta aos Efésios é aquilo que o autor chama “o mistério”: trata-se do projeto salvador de Deus, definido e elaborado desde sempre, escondido durante séculos, revelado e concretizado plenamente em Jesus, comunicado aos apóstolos e, nos “últimos tempos”, tornado presente no mundo pela Igreja.

    O texto que nos é aqui proposto faz parte da “exortação aos batizados” que aparece na segunda parte da carta (cf. Ef 4,1-6,20). Nessa exortação, Paulo retoma os temas tradicionais da catequese primitiva e convida os crentes a deixarem a antiga forma de viver para assumirem a nova, revestindo-se de Cristo (cf. Ef 4,17-31), imitando Deus (cf. Ef 4,32-5,2) e passando das trevas à luz (cf. Ef 5,3-20).

     

    MENSAGEM

    A metáfora da “luz” e das “trevas”, aqui utilizada pelo autor da Carta aos Efésios, é frequente no Antigo Testamento para evocar a proximidade e o afastamento de Deus, a santidade e o pecado. A catequese primitiva recupera-a, como sugere o seu uso nos textos neotestamentários, sobretudo em João e Paulo (cf. Jo 1,4-5; 3,19.21; 8,12; 1Jo 1,5-7; 2,9-11; Rm 2,19; 2Cor 4,6; 1Ts 5,4-7). O símbolo “luz/trevas” aparece, também, nos escritos de Qûmran para definir o mundo de Deus (luz) e o mundo que se opõe a Deus (trevas).

    Para o apóstolo Paulo, viver nas “trevas” é viver à margem de Deus, recusar as Suas propostas, viver prisioneiro das paixões e dos vícios; é viver no egoísmo, no orgulho, na ganância, na autossuficiência, agarrado a valores rasteiros e efémeros (cf. Ef 5,3-7). É o estilo de vida dos “pagãos”, daqueles que ainda não abraçaram o Evangelho de Jesus. O homem que vive “nas trevas” é, para Paulo, “o homem velho”, o homem amarrado às forças do pecado e da morte.

    Em contrapartida, viver “na luz” é escolher Deus, acolher as indicações de Deus, viver segundo Deus; é escolher o amor, a bondade, o perdão, o serviço, a partilha, a solidariedade, os valores eternos (cf. Ef 5,8-10). É o estilo de vida daqueles que se encontraram com Jesus, abraçaram as Suas propostas, receberam o batismo e aceitaram o convite para integrar a família de Deus. O homem que vive “na luz” é, para Paulo, o “Homem Novo”, o homem que Cristo libertou da escravidão do pecado e que caminha de cabeça levantada em direção à vida verdadeira e eterna.

    Paulo acha ainda que “viver na luz” é pôr a descoberto as trevas, a mentira, a escravidão, o egoísmo, o pecado (cf. Ef 5,11-13). Mais: os “de Deus” devem combater objetivamente tudo aquilo que deturpa o projeto de Deus para o homem e para o mundo; os “de Deus” têm a obrigação de desmascarar toda essa realidade sombria e injusta que por vezes desfeia o mundo e destrói a vida dos homens; os “de Deus” devem brilhar no mundo como Cristo brilhou e iluminar os caminhos que os homens percorrem. A propósito, Paulo cita um velho hino cristão batismal: “desperta, tu que dormes; levanta-te do meio dos mortos e Cristo brilhará sobre ti” (vers. 14).

     

    INTERPELAÇÕES

    • “Luz” e “trevas” são, neste texto da Carta aos Efésios, duas esferas de poder capazes de tomar conta do homem e de condicionar a sua vida, as suas opções, os seus valores, os seus comportamentos. Não somos obrigados por ninguém – nem sequer por Deus – a escolher uma destas duas “ordens” em detrimento da outra: a nossa vida não é dirigida por um cego determinismo que se nos impõe, quer queiramos, quer não. Somos livres de fazer as nossas escolhas. Não somos obrigados a escolher Deus e os caminhos que Ele nos aponta; no entanto, devemos ter consciência de que escolher Deus implica renunciar a tudo aquilo que está em absoluta contradição com o mundo de Deus: o egoísmo, a mentira, a violência, o orgulho, a ambição, a vaidade, a autossuficiência. Nós, os que um dia escolhemos Deus e recebemos o batismo, optamos pela luz. Temos de viver de forma coerente com essa opção. Jesus, o Filho de Deus que veio ao encontro dos homens para lhes mostrar a realidade de Deus, indica-nos o caminho que devemos percorrer, enquanto “filhos da luz”. Nós, os que optamos por Deus e que nos comprometemos a seguir Jesus, vivemos de forma coerente com essa opção? Quais são os esquemas, comportamentos e valores que devem ser definitivamente saneados da nossa vida, a fim de que sejamos verdadeiras testemunhas da “luz”?
    • Para o apóstolo Paulo, não chega “viver na luz” e dar testemunho da “luz”. ”Os de Deus” também têm como missão denunciar e combater – de forma aberta, decidida, frontal e corajosa – as “trevas” que desfeiam o mundo, que escravizam os homens e que causam tantas feridas no corpo e na alma dos nossos companheiros de caminhada, particularmente nos mais frágeis, nos mais pequenos, nos mais humildes. “Desperta, tu que dormes” – pede-nos o autor da Carta aos Efésios. É um apelo à vigilância, a não adormecermos, a não deixarmos correr as coisas, a não nos conformarmos com as “trevas”. Contemplemos este mundo cheio de contradições, que é a “casa” dos homens: quais são as situações de “trevas” que obscurecem os nossos horizontes e que trazem sofrimento e morte às nossas vidas e às vidas dos nossos irmãos? O que podemos pessoalmente fazer para que as “trevas” sejam vencidas e brilhe, por todo o lado, a “luz” da esperança, a luz libertadora e salvadora de Deus?

     

    ACLAMAÇÃO ANTES DO EVANGELHO – Jo 8,12

    Escolher um dos refrães:

    Refrão 1: Louvor e glória a Vós, Jesus Cristo, Senhor.

    Refrão 2: Glória a Vós, Jesus Cristo, Sabedoria do Pai.

    Refrão 3: Glória a Vós, Jesus Cristo, Palavra do Pai.

    Refrão 4: Glória a Vós, Senhor, Filho do Deus vivo.

    Refrão 5: Louvor a Vós, Jesus Cristo, Rei da eterna glória.

    Refrão 6: Grandes e admiráveis são as vossas obras, Senhor.

    Refrão 7: A salvação, a glória e o poder a Jesus Cristo, Nosso Senhor.

     

    Eu sou a luz do mundo, diz o Senhor:
    quem Me segue terá a luz da vida.

     

    EVANGELHO – João 9,1-41

    Naquele tempo,
    Jesus encontrou no seu caminho um cego de nascença.
    Os discípulos perguntaram-Lhe:
    «Mestre, quem é que pecou para ele nasceu cego?
    Ele ou os seus pais?
    Jesus respondeu-lhes:
    «Isso não tem nada que ver com os pecados dele ou dos pais;
    mas aconteceu assim
    para se manifestarem nele as obras de Deus.
    É preciso trabalhar, enquanto é dia,
    nas obras d’Aquele que Me enviou.
    Vai cegar a noite, em que ninguém pode trabalhar.
    Enquanto Eu estou no mundo, sou a luz do mundo».
    Dito isto, cuspiu em terra,
    fez com a saliva um pouco de lodo e ungiu os olhos do cego.
    Depois disse-lhe:
    «Vai lavar-te à piscina de Siloé»; Siloé quer dizer «Enviado».
    Ele foi, lavou-se e ficou a ver.
    Entretanto, perguntavam os vizinhos
    e os que antes o viam a mendigar:
    «Não é este o que costumava estar sentado a pedir esmola?»
    Uns diziam: «É ele».
    Outros afirmavam: «Não é. É parecido com ele».
    Mas ele próprio dizia: «Sou eu».
    Perguntaram-lhe então:
    «Como foi que se abriram os teus olhos?»
    Ele respondeu:
    «Esse homem, que se chama Jesus, fez um pouco de lodo,
    ungiu-me os olhos e disse-me:
    ‘Vai lavar-te à piscina de Siloé’.
    Eu fui, lavei-me e comecei a ver».
    Perguntaram-lhe ainda: «Onde está Ele?»
    O homem respondeu: «Não sei».
    Levaram aos fariseus o que tinha sido cego.
    Era sábado esse dia em que Jesus fizeram lodo
    e lhe tinha aberto os olhos.
    Por isso, os fariseus perguntaram ao homem
    como tinha recuperado a vista.
    Ele declarou-lhes: «Jesus pôs-me lodo nos olhos;
    depois fui lavar-me e agora vejo».
    Diziam alguns dos fariseus:
    «Esse homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado».
    Outros observavam:
    «Como pode um pecador fazer tais milagres?»
    E havia desacordo entre eles.
    Perguntaram então novamente ao cego:
    «Tu que dizias d’Aquele que te deu a vista?»
    O homem respondeu: «É um profeta».
    Os judeus não quiseram acreditar
    que ele tinha sido cego e começara a ver.
    Chamaram então os pais dele e perguntaram-lhes:
    «É este o vosso filho? É verdade que nasceu cego?
    Como é que agora vê?»
    Os pais responderam:
    «Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego;
    mas não sabemos como é que ele agora vê,
    nem sabemos quem lhe abriu os olhos.
    Ele já tem idade para responder: perguntai-lho vós».
    Foi por medo que eles deram esta resposta,
    porque os judeus tinham decidido expulsar da sinagoga
    quem reconhecesse que Jesus era o Messias.
    Por isso é que disseram:
    «Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós».
    Os judeus chamaram outra vez o que tinha sido curado
    e disseram-lhe: «Dá glória a Deus.
    Nós sabemos que esse homem é pecador».
    Ele respondeu: «Se é pecador, não sei.
    O que sei é que eu era cego e agora vejo».
    Perguntaram-lhe então:
    «Que te fez Ele? Como te abriu os olhos?»
    O homem replicou:
    «Já vos disse e não destes ouvidos.
    Porque desejais ouvi-lo novamente?
    Também quereis fazer-vos seus discípulos?»
    Então insultaram-no e disseram-lhe:
    «Tu é que és seu discípulo; nós somos discípulos de Moisés;
    mas este, nem sabemos de onde é».
    O homem respondeu-lhes:
    «Isto é realmente estranho: não sabeis de onde Ele é,
    mas a verdade é que Ele me deu a vista.
    Ora, nós sabemos que Deus não escuta os pecadores,
    mas escuta aqueles que O adoram e fazem a sua vontade.
    Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos
    a um cego de nascença.
    Se Ele não viesse de Deus, nada podia fazer».
    Replicaram-lhe então eles:
    «Tu nasceste inteiramente em pecado e pretendes ensinar-nos?»
    E expulsaram-no.
    Jesus soube que o tinham expulsado
    e, encontrando-o, disse-lhe:
    «Tu acreditas no Filho do homem?»
    Ele respondeu-Lhe:
    «Senhor, quem é Ele, para que eu acredite?»
    Disse-lhe Jesus;
    «Já O viste: é Quem está a falar contigo».
    O homem prostrou-se diante de Jesus e exclamou:
    «Eu creio, Senhor».
    Então Jesus disse-lhe:
    «Eu vim para exercer um juízo:
    os que não veem ficarão a ver;
    os que veem ficarão cegos».
    Alguns fariseus que estavam com Ele, ouvindo isto,
    perguntaram-Lhe:
    «Nós também somos cegos?»
    Respondeu-lhes Jesus:
    «Se fôsseis cegos, não teríeis pecado.
    Mas como agora dizeis: ‘Não vemos’,
    o vosso pecado permanece».

     

    CONTEXTO

    Alguns estudiosos dividem o Evangelho segundo João em duas partes: o “Livro dos Sinais” (cf. Jo 4,1-11,54) e o “Livro da Hora” (cf. Jo 11,55-19,42). No “Livro dos Sinais” são-nos apresentadas diversas “catequeses” – recorrendo a “sinais” como a água (cf. Jo 4,1-5,47), o pão (cf. Jo 6,1-71), a luz (cf. Jo 7,1-9,41), o pastor (cf. Jo 10,1-42), a vida que vence a morte (cf. Jo 11,1-56) – que mostram como o Messias, agindo de acordo com o projeto de Deus, faz nascer um Homem Novo, um Homem que vive segundo Deus. No “livro da Hora”, o Messias encaminha-se para a cruz e, oferece a própria vida por amor. Com a sua entrega, Ele mostra aos homens como devem viver e como devem amar. Os que aprendem com Jesus a lição do amor e se dispõem a viver como Ele viveu, formarão a nova comunidade, a Igreja de Jesus, vivificada pela água (batismo) e pelo sangue (eucaristia) que brotam do coração de Cristo.

    A narrativa da cura de um cego de nascença integra o “Livro dos Sinais”. É a terceira “catequese” que esse “livro” nos oferece. Mostra como Jesus, “luz” de Deus a brilhar no mundo dos homens, veio libertar-nos da cegueira que nos impede de caminharmos como pessoas livres.

    O autor do Quarto Evangelho coloca essa catequese no contexto da festa judaica de “Sukkot”, a festa das tendas” (cf. Jo 7,2). Celebrada no mês de Tishri (início do outono), durava oito dias. Primitivamente era uma festa agrícola, que marcava o final das colheitas. Durante os oito dias que a festa durava, os judeus viviam em tendas (ou cabanas) feitas de tábuas de madeira, com teto de folhas e ramos. Mais tarde, a festa foi ligada com a caminhada dos hebreus pelo deserto e as cabanas evocavam o tempo em que o povo viveu em tendas, durante a jornada em direção à Terra Prometida. Era uma das festas mais importantes do calendário religioso judaico. Celebrava-se a proteção de Deus durante o Êxodo, agradeciam-se as colheitas e anunciavam-se as bênçãos da era do Messias. Durante os dias da festa, o Templo era um centro privilegiado de encontro dos peregrinos que vinham de todos os cantos do país. Um dos rituais mais populares era o acendimento de quatro grandes candelabros gigantescos no Átrio das Mulheres, no Templo de Jerusalém, junto das caixas das ofertas. As luzes brilhavam por toda a cidade, num espetáculo extraordinário de alegria e de fé. A afirmação de Jesus “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12) encaixa perfeitamente neste cenário.

    As figuras centrais do episódio narrado no Evangelho deste domingo são Jesus e um cego de nascença. Os “cegos” faziam parte do grupo dos excluídos da sociedade palestina de então. As deficiências físicas eram consideradas, pela teologia oficial, como resultado do pecado. Os rabis chegavam a discutir de onde vinha o pecado de alguém que nascia com uma deficiência – se essa deficiência era o resultado de um pecado dos pais, ou se resultava de um pecado cometido pela criança no ventre da mãe.

    Segundo a conceção da época, Deus castigava de acordo com a gravidade da culpa. A cegueira, sendo uma deficiência que impedia o homem de estudar a Lei, era considerada o resultado de um pecado especialmente grave. Pela sua condição de impureza notória, os cegos eram impedidos de servir de testemunhas no tribunal e de participar nas cerimónias religiosas no Templo.

     

    MENSAGEM

    O episódio da cura do cego de nascença é um dos episódios em que melhor se revela o sentido cénico do autor do Quarto Evangelho. Como um encenador que monta uma peça de teatro, ele constrói uma história – poderíamos dizer, uma “catequese” – a partir de diversos quadros ou cenas.

    O quadro inicial (cf. Jo 9,2-5) expõe o tema que vai ser tratado: Jesus é a luz que vem de Deus para eliminar as trevas que cegam os homens. Nesta primeira cena participam, além do próprio Jesus, um homem “cego de nascença” e os discípulos de Jesus. O “cego de nascença” representa todos aqueles que nasceram e sempre viveram num contexto de debilidade e pecado e, portanto, não conhecem outro tipo de vida. É a condição do homem frágil, “de barro”, que desde sempre escolheu caminhos de egoísmo, de orgulho e de autossuficiência. Os discípulos que presenciam a cena também estão “cegos”: conforme a teologia da época, concluíram que a “cegueira” daquele homem é um castigo de Deus, resultante de um pecado concreto cometido pelo homem ou pelos seus pais. Jesus desmonta esta compreensão e deixa entender que a situação daquele homem não é um castigo imposto por Deus, mas é a condição do homem frágil, que se afastou das indicações de Deus e acabou por perder o rumo da sua existência. No entanto, nada está perdido: Jesus recebeu do Pai a missão de tirar o homem das trevas e de lhe oferecer a possibilidade de viver na luz. Jesus, no cumprimento da vontade do Pai, irá concretizar esse projeto.

    No segundo quadro (cf. Jo 9,6-7), Jesus começa a cumprir a missão que recebeu do Pai: trazer a luz ao homem que vive mergulhado nas trevas. Segundo a narrativa, Jesus cospe no chão, faz lodo com a saliva e unge com esse lodo os olhos do cego. O gesto de fazer lodo evoca o gesto criador de Deus de Gn 2,7, quando Deus amassou o barro e modelou o homem. A saliva transmitia, pensava-se, a própria força ou energia vital (equivale ao sopro de Deus, que deu vida a Adão – cf. Gn 2,7). Assim, Jesus juntou ao barro a sua própria energia vital, repetindo o gesto criador de Deus. A missão de Jesus é criar um Homem Novo, animado pelo Espírito de Deus.

    No entanto, a cura daquele homem não é imediata: ao gesto de Jesus deve juntar-se a cooperação do enfermo. “Vai lavar-te na piscina de Siloé” – pede-lhe Jesus. A disponibilidade do cego em obedecer à indicação de Jesus é um elemento essencial na cura e sublinha a sua adesão à proposta que Jesus lhe faz. A referência ao banho na piscina do “enviado” (o autor deste texto tem o cuidado de explicar que Siloé significa “enviado”) é, evidentemente, uma alusão à água de Jesus (o enviado do Pai); essa água (o Espírito, dado por Jesus a todos aqueles que estão dispostos a viver “na luz”) transforma os homens, cura-os da cegueira, livra-os das trevas e da escravidão. A comunidade joânica que recebe esta catequese perceberá, sem qualquer dúvida, a mensagem implícita: quem quiser sair das trevas para viver na luz, como Homem Novo, tem de aceitar a água do batismo – isto é, tem de optar por Jesus e acolher a proposta de vida que Ele oferece.

    Num terceiro quadro, o autor da “peça” coloca em cena diversos personagens. Eles vão, com as suas reações, comentários, explicações, incompreensões e mal-entendidos, ajudar-nos a esclarecer o alcance daquele “encontro” que mudou a vida do cego de nascença.

    Os primeiros a ocupar a cena são os vizinhos e conhecidos do cego (cf. Jo 9,8-12). A imagem do cego, dependente e inválido, transformado em homem livre e independente, leva os seus concidadãos a interrogar-se… Eles conheciam um homem, cego de nascença, mergulhado nas trevas e incapaz de tomar nas suas mãos a condução da sua vida; mas agora aquele homem está radicalmente transformado. O que lhe terá acontecido? Das explicações do homem que fora cego, eles percebem que foi Jesus o responsável pela mudança; mas não parecem interessados em aprofundar a questão… Talvez sintam curiosidade, ou até anseiem pelo encontro com Jesus; mas não se atrevem a dar o passo definitivo para ter acesso à “luz”. Esses “vizinhos” e conhecidos que rodeiam o homem que fora cego são “figura” de todos aqueles que intuem a novidade da proposta de Jesus, que sabem que essa proposta é libertadora, mas que vivem na inércia, no comodismo, e não estão dispostos a sair do seu mundo limitado para irem ao encontro da “luz”.

    Um outro grupo que aparece em cena é o dos fariseus (cf. Jo 9,13-17). Estes sabem que Jesus oferece algo novo, uma “luz” capaz de tirar o homem das trevas; mas essa “luz” não lhes interessa. Esses “fariseus” representam aqueles que têm conhecimento da novidade de Jesus, mas não estão dispostos a acolhê-la. Sentem-se mais confortáveis agarrados aos seus cómodos esquemas de egoísmo e de autossuficiência. Gostam das “trevas”, sentem-se bem no meio das “trevas”. Mais: irão fazer tudo o que lhes for possível para que a libertação que Jesus traz não se concretize: quando constatam que o homem curado por Jesus não está disposto a voltar atrás e a regressar à escravidão anterior, expulsam-no da sinagoga… Entre as “trevas” (que os dirigentes querem manter) e a “luz” (que Jesus oferece), não pode haver compromisso.

    Também os pais do cego de nascença são convidados a subir ao palco e oferecer a sua leitura dos factos (cf. Jo 9,18-23). Questionados pelas autoridades judaicas, eles limitam-se a constatar a realidade: sim, o filho deles nasceu cego e agora vê… Mas, depois de afirmarem o óbvio, evitam comprometer-se na questão. Na atitude que exibem, transparece o medo de quem é escravo e não tem coragem de passar das “trevas” para a “luz”. O texto explica, inclusive, que eles “tinham medo de ser expulsos da sinagoga”. A “sinagoga” designava o local do encontro da comunidade israelita; mas designava, também, a própria comunidade do Povo de Deus. Ser expulso da sinagoga significava a excomunhão, o risco de ser declarado herege e apóstata, de perder os pontos de referência comunitários; ser expulso da sinagoga significava cair na solidão, no ridículo, no descrédito e na marginalidade. Aqueles “pais” preferem a segurança da ordem estabelecida – embora injusta e opressora – aos riscos da vida livre. Representam todos aqueles que, por medo, preferem continuar na escravidão, não correr riscos, não ir contra a maré… Amarrados pelo medo, deixam que a proposta transformadora de Jesus lhes passe ao lado.

    Concentremos agora a nossa atenção no “caminho” que o cego de nascença percorre desde a cegueira até à luz. Antes de se cruzar com Jesus, é um homem prisioneiro das “trevas”, dependente e limitado. Depois, encontra-se com Jesus e recebe a “luz” (do encontro com Jesus resulta sempre uma proposta de vida nova para o homem). A narrativa descreve – com simplicidade, mas também de uma forma muito bela – a progressiva transformação que o homem vai sofrendo. Nos momentos imediatos à cura, ele não tem ainda grandes certezas (quando lhe perguntam por Jesus, responde: “não sei”; e quando lhe perguntam quem é Jesus, ele limita-se a afirmar de forma imprecisa: “é um profeta”); mas a “luz” que agora brilha na sua vida amadurece-o progressivamente e ajuda-o a ver as coisas cada vez com mais nitidez. Confrontado com os dirigentes e intimado a renegar a “luz” e a liberdade recebidas, ele argumenta com agilidade e inteligência, joga com a ironia, recusa-se a regressar à escravidão: mostra o homem adulto, maduro, livre, sem medo, de convicções firmes… A luz que Jesus oferece ao homem fá-lo crescer, atingir a estatura do Homem Novo.

    Finalmente, a narrativa mostra o estádio final dessa caminhada progressiva: a adesão plena a Jesus (cf. Jo 9,35-38). Encontrando o homem que fora cego e que agora vê, Jesus convida-o a aderir ao “Filho do Homem” (“acreditas no Filho do Homem?” – Jo 9,35); a resposta do ex-cego é a adesão total: “creio, Senhor” (Jo 9,38). O título “Senhor” (“kyrios”) era o título com que a comunidade cristã primitiva designava Jesus, o Senhor glorioso. Depois, o homem curado prostrou-se e adorou Jesus: adorar significa reconhecer Jesus como o projeto de Homem Novo que Deus apresenta aos homens, aderir a Ele e segui-l’O.

    Neste percurso está simbolicamente representado o “caminho” do catecúmeno. O primeiro passo nesse “caminho” é o encontro com Jesus; depois, o catecúmeno manifesta a sua disponibilidade para aderir à “luz” e recebe o batismo. À medida que vai consolidando e amadurecendo a sua descoberta torna-se, progressivamente, um homem livre, sem medo, seguro daquilo que quer para a sua vida; e esse “caminho” desemboca na adesão total a Jesus, no reconhecimento de que Ele é o Senhor que conduz a história e que tem uma proposta de vida nova para o homem… Depois disto, ao cristão nada mais interessa do que seguir Jesus.

    A narrativa do autor do Quarto Evangelho também explicita a missão de Jesus. Deus criou o homem para ser livre e feliz; mas o egoísmo, o orgulho, a autossuficiência, dominaram o coração do homem, cegaram-no e frustraram o projeto de Deus. Então Deus enviou o Seu Filho ao encontro dos homens. A missão de Jesus será libertar o homem das trevas em que ele se encerrou e fazê-lo viver na “luz”. Trata-se de uma nova criação… Da ação de Jesus irá nascer um Homem Novo, liberto do egoísmo e do pecado, vivendo na liberdade, a caminho da vida em plenitude.

     

    INTERPELAÇÕES

    • Se ouvirmos a história da cura de um cego de nascença – narrada pelo autor do Quarto Evangelho – apenas como algo que aconteceu em Jerusalém no longínquo ano 30 do séc. I, talvez ela nos soe como um facto bizarro, singular, mas que não nos diz respeito. No entanto, ao contá-la, o autor do Quarto Evangelho pretendeu envolver-nos e questionar-nos sobre a nossa maneira de viver. Não se trata apenas de uma história sobre um homem desconhecido que viveu há dois mil anos e que há muito desapareceu; é uma história sobre nós, os “cegos” do séc. XXI. Sobre nós? Mas nós estaremos realmente na mesma situação de cegueira daquele homem que se encontrou com Jesus próximo da piscina de Siloé? Talvez… Caminhamos às claras, vendo perfeitamente o caminho que trilhamos, ou arrastamo-nos pela vida sem rumo e sem objetivo? Sabemos para onde vamos e conhecemos o nosso destino final, ou limitamo-nos simplesmente a sobreviver, às escuras, apanhando pequenas migalhas de felicidade efémera? Encaramos a realidade de frente, ou caminhamos de olhos fechados, recusando-nos a enfrentar as coisas que nos incomodam e que afetam o nosso bem-estar? Ousamos acolher os desafios que Deus nos vai apresentando, ou escondemo-nos atrás de um sem número de desculpas para justificar a nossa inércia e o nosso comodismo? Construímos a nossa vida ancorada na verdade e na autenticidade, ou vivemos iludidos, recusando-nos a enfrentar os nossos erros, preconceitos, manias, mentiras? Somos límpidos, sinceros, transparentes, leais, autênticos, ou tratamos de enganar os que nos rodeiam dando uma imagem falsa daquilo que somos? Vivemos na “luz”, ou vivemos nas “trevas”?
    • João, o autor do Quarto Evangelho, garante-nos: apesar das nossas escolhas erradas, apesar das nossas mentiras e hipocrisias, apesar do nosso egoísmo e da nossa autossuficiência, apesar da nossa instalação e do nosso comodismo, a nossa plena realização continua a ser a prioridade de Deus. Deus nunca se conforma quando vê os seus queridos filhos caminharem sem rumo, mergulhados e acomodados numa vida de “trevas”. Foi por isso que Ele enviou ao nosso encontro o Seu Filho Jesus. Jesus veio, segundo a Sua própria expressão, “trabalhar na obra” de Deus; e a “obra de Deus” é oferecer aos homens a possibilidade de abandonarem as trevas para viverem na luz. Jesus lutou objetivamente para derrotar as ideologias, as doutrinas, as instituições, as leis, os valores, os costumes que geram “escuridão”, sofrimento, injustiça, maldade. Jesus disse-nos claramente – com a Sua vida, com as Suas palavras, com os Seus gestos – como deveríamos viver para não ficarmos atolados numa vida sem saída. Deixou-se matar para vencer as “trevas” que dominavam o mundo. Apesar de tudo isso, continuamos – vinte e um séculos depois – a viver num mundo cheio de sombras. Porquê? O que é que está a faltar para que a luz de Deus ilumine plenamente os caminhos e a história dos homens?
    • Na catequese que hoje nos foi oferecida pelo autor joânico, o cego de nascença viu-se livre da cegueira quando se encontrou com Jesus, escutou as Suas orientações e cumpriu aquilo que Jesus lhe recomendou: lavar-se na “piscina de Siloé”, lavar-se na água “do Enviado”. Há, neste processo de “cura” e de transformação, uma intervenção de Jesus e uma ação do homem. A indicação do catequista João não podia ser mais transparente: Jesus mostra o caminho e disponibiliza o Seu Espírito; o homem, por sua vez, acolhe esse dom, compromete-se com Jesus, faz o que Jesus diz e torna-se um Homem Novo. Jesus mostra o caminho; o homem concretiza as indicações de Jesus. Quando somos batizados (quando mergulhamos na “água” que o “Enviado” de Deus nos oferece), aderimos a Jesus, acolhemos o dom do Espírito, escolhemos viver na “luz”. Depois, seguindo as orientações de Jesus, começamos a percorrer um caminho… Como tem sido a nossa caminhada? Temos cumprido a nossa parte? Temos vivido de forma coerente com o compromisso que abraçamos no dia em que nos encontramos com Jesus e recebemos o batismo? Ao longo do caminho mais ou menos longo que temos feito, continuamos a escutar as indicações de Jesus e a ser dirigidos pelo Espírito, ou entretanto mergulhamos noutras vidas, noutros caminhos, em realidades e valores que nos afastaram da luz?
    • No palco do “teatro” onde se representa a “peça” da cura do cego de nascença, o autor do Quarto Evangelho introduz diversos personagens que reagem de forma muito própria à presença no mundo daquela “luz” (Jesus) que liberta os homens das “trevas”. Há aqueles – como os líderes religiosos judaicos – que se opõem decididamente à proposta de Jesus porque estão instalados na mentira, porque cultivam a ambição, porque têm os seus interesses pessoais a defender, porque lhes dá jeito que o povo simples continue a viver nas trevas sem se revoltar. Há também aqueles – como os pais do cego de nascença – que ignoram a “luz” que Jesus traz porque não querem ter problemas: não sabem, ou não querem saber do que se passa à sua volta; entregam nas mãos de outros as decisões, preferem viver mergulhados numa ordem injusta do que correr o risco de serem livres; têm medo de escolher a luz porque não querem comprometer-se. Há ainda aqueles – como os vizinhos e conhecidos do cego de nascença – que, apesar de reconhecerem as vantagens da “luz”, estão comodamente instalados na sua zona de conforto e não mexem um dedo para ir ao encontro de Jesus; preferem permanecer agarrados a realidades corriqueiras e fúteis do que arriscar dar um passo em frente e enfrentar com ousadia a novidade de Jesus. Identificamo-nos com algum destes grupos?
    • Estamos a percorrer o “caminho quaresmal” em direção à Páscoa, à vida nova. É um caminho de transformação, de mudança, de conversão, de renascimento. Ao longo deste caminho somos convidados a deixar para trás aquilo que nos escraviza, que nos aliena, que nos oprime, que nos impede de viver na “luz”. Faz sentido que, neste tempo, procuremos identificar aquilo que nos “cega”, que nos rouba a liberdade, que nos prende a uma vida rasteira e sem horizontes, que nos impede de nos realizarmos plenamente; faz sentido, neste tempo, lançarmos fora os velhos pesos que arrastamos, que não nos deixam respirar livremente, que nos fazem sentir eternamente culpados, que não nos permitem viver em paz connosco próprios ou com aqueles que nos rodeiam. Não seria boa ideia gastarmos algum tempo, nesta Quaresma, a identificar as “sombras” que nos impedem de viver na “luz”? Não seria boa ideia atirarmos fora, para qualquer abismo insondável, todos esses pesos que carregamos e que nos impedem de chegar à “luz”?
    • Aquele cego de nascença, precisamente por causa da sua limitação física, era considerado, pela teologia “oficial” de Israel, um pecador, um maldito, um homem que não podia ter acesso ao mundo de Deus e à misericórdia de Deus. Jesus, no entanto, não se incomoda com isso. Detém-se no caminho, aproxima-se do cego, toca-lhe nos olhos, fala com ele, dá-lhe indicações para que ele possa libertar-se da cegueira e encontrar a luz. Jesus é assim. Para Ele não há excluídos nem malditos, mesmo que se trate de gente que as comunidades e instituições religiosas marcaram, condenaram e puseram à margem. Aqueles que, por decisão dos homens, não têm lugar na comunidade religiosa têm sempre um lugar privilegiado no coração de Jesus. O que é que isto nos sugere? Quem levará hoje esta mensagem libertadora àqueles “cegos”, excluídos por dirigentes religiosos de vistas curtas e de coração endurecido? Quem fará sentir a misericórdia de Jesus àqueles que não são acolhidos nas nossas comunidades cristãs e, tantas vezes, se veem obrigados a viver a sua fé em Jesus quase de maneira secreta e clandestina?

     

    ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 4.º DOMINGO DA QUARESMA
    (adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)

    1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.

    Ao longo dos dias da semana anterior ao 4.º Domingo da Quaresma, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

    2. FAZER UMA PROCISSÃO DA LUZ.

    Para pôr em evidência a passagem das trevas à luz proclamada por todos os textos deste domingo, poder-se-á organizar uma procissão da luz para entrada da celebração e cantar um cântico com referência à Luz. Os portadores das luzes (velas acesas) poderão juntar-se à volta do evangeliário para a leitura do Evangelho: Cristo é a Luz do mundo!

    3. LER O EVANGELHO A DIVERSAS VOZES.

    Como mo domingo passado, o Evangelho (na sua forma longa) pode ser lido a diversas vozes: narrador, Jesus, cego, fariseus. De qualquer modo, é bom recordar que a leitura deve ser bem preparada e proclamada, para que seja escutada como Palavra de Deus e não como uma mera encenação…

    4. BILHETE DE EVANGELHO.

    A vida é conversão! Aquele que está na verdade vem à luz, diz Jesus a Nicodemos quando o vem encontrar de noite. Esta palavra também nos é dirigida. Fazer uma caminhada de reconciliação é fazer sempre a verdade. Receber o perdão é acolher sempre a luz. Mas antes de fazer esta caminhada, é preciso decidir voltar para Deus. Deus nunca se afastou de nós, não esqueçamos isso. Eis porque, antes de nos confessarmos, devemos confessar (= afirmar com outros) que Deus é Amor. Somos nós que nos afastamos de Deus. Tomamos distância em relação a Deus cada vez em que não amamos ou amamos mal. O pecado é tudo o que é contrário ao amor por Deus e pelos irmãos. Deus espera-nos. Demos-lhe a alegria de nos perdoar.

    5. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.

    Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

     

    No final da primeira leitura:

    Nós Te louvamos, ó Pai, porque nos julgas não segundo as aparências, mas olhas o coração do homem. Nós Te bendizemos pelo teu Espírito que nos dás e que faz de nós um povo real e sacerdotal.

    Nós Te pedimos pelos pais e pelos educadores, pelas autoridades nas nossas sociedades, mas também pelos seus eleitores, responsáveis pelas boas escolhas.

     

    No final da segunda leitura:

    Nós Te damos graças, Cristo, Luz do mundo, que Te levantaste de entre os mortos, Tu que nos iluminas desde o nosso batismo.

    Nós Te pedimos: arranca-nos das trevas, que o teu Espírito nos faça viver como filhos e filhas da luz, e que Ele produza em nós frutos de bondade, de justiça e de verdade, que Ele nos torne capazes de agradar a Deus.

     

    No final do Evangelho:

    Nós Te bendizemos pela nova criação realizada pelo teu Filho, que remodelou a nossa humanidade, e pela cura dos nossos olhos, quando estão fechados ao próximo e à luz da tua presença.

    6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.

    Pode-se escolher a Oração Eucarística III da Assembleia com Crianças.

    7. PALAVRA PARA O CAMINHO.

    Um outro olhar… “Deus não vê à maneira dos homens, os homens veem a aparência, mas o Senhor olha o coração”. Uma Palavra para reajustar os nossos critérios de julgamento: Que olhar temos nós sobre as pessoas? Sobre os acontecimentos? Uma Palavra para nos alegrar também com as escolhas do nosso Pai que olha a verdade dos nossos corações!

     

    UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
    PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA
    Grupo Dinamizador:
    José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
    Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
    Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
    www.dehonianos.org

     

  • S. José, Esposo da Virgem S. Maria

    S. José, Esposo da Virgem S. Maria


    19 de Março, 2026

    O culto litúrgico a S. José celebra-se, pelo menos, desde o século IV, quando Santa Helena lhe dedicou uma igreja. No Oriente, celebrava-se, a partir do século IX, uma festa em sua honra. No Ocidente o culto é mais tardio. No século XII, é celebrado entre os Beneditinos. No século XII, é celebrado entre os Carmelitas, que o propagam na Europa. No século XV, João Gerson e S. Bernardino de Sena são os seus fervorosos propagandistas. Santa Teresa de Jesus era uma devota fervorosa de S. José e muito promoveu o seu culto.

    S. José, descendente de David, era provavelmente de Belém. Por motivos familiares ou de trabalho, transferiu-se para Nazaré e tornou-se esposo de Maria. O anjo de Deus comunicou-lhe o mistério da incarnação do Messias no seio de Maria, e José, homem justo, aceitou-o apesar da dura crise por que passou. Indo a Belém para o recenseamento, lá nasceu o Menino Jesus. Pouco depois, teve de fugir com ele para o Egipto, donde regressou a Nazaré. Quando Jesus tinha doze anos, vemos José e Maria em Jerusalém, onde perdem o filho e acabam por o reencontrar entre os doutores do templo. A partir deste episódio, os evangelhos nada mais dizem sobre José. É possível que tenha morrido antes de Jesus iniciar a sua vida pública.

    S. José é padroeiro da Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus, Dehonianos.

    Lectio

    Primeira leitura: 2 Samuel 7, 4-5a.12-14a.16

    Naqueles dias, a palavra do Senhor foi dirigida ao profeta Natã, dizendo-lhe: 5«Vai dizer ao meu servo David: Diz o Senhor: 12Quando chegar o fim dos teus dias e repousares com teus pais, manterei depois de ti a descendência que nascerá de ti e consolidarei o seu reino. 13Ele construirá um templo ao meu nome, e Eu firmarei para sempre o seu trono régio. 14Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho. 16A tua casa e o teu reino permanecerão para sempre diante de mim, e o teu trono estará firme para sempre".»

    A profecia de Natã acena a Salomão, filho de David e construtor do templo. Mas as palavras: "manterei depois de ti a descendência que nascerá de ti e consolidarei o seu reino" (v. 12), indicam uma longa descendência no trono de Judá. Esta descendência teve um fim histórico, recebendo força profética na alusão velada ao Messias, descendente de David. Ele reinará para sempre. Mas o seu reino não será deste mundo. Será um reino espiritual para salvação da humanidade. A tradição cristã sempre aplicou este texto a Jesus, Messias descendente de David, e indiretamente também a José, o último elo da genealogia davídica.
    Segunda leitura: Romanos 4, 13.16-18.22

    Irmãos: Não foi em virtude da Lei, mas da justiça obtida pela fé que a Abraão, ou à sua descendência, foi feita a promessa de que havia de receber o mundo em herança. 16Por isso, é da fé que depende a herança. Só assim é que esta é gratuita, de tal modo que a promessa se mantém válida para todos os descendentes: não apenas para aqueles que o são em virtude da Lei, mas também para os que o são em virtude da fé de Abraão, pai de todos nós, 17conforme o que está escrito: Fiz de ti o pai de muitos povos. Pai diante daquele em quem acreditou, o Deus que dá vida aos mortos e chama à existência o que não existe. 18Foi com uma esperança, para além do que se podia esperar, que ele acreditou e assim se tornou pai de muitos povos, conforme o que tinha sido dito: Assim será a tua descendência. 22Esta foi exactamente a razão pela qual isso lhe foi atribuído à conta de justiça.

    Paulo evoca a figura de Abraão, pai dos crentes, que reconheceu a sua indigência e se apoiou, isto é, "acreditou" em Deus recebendo o "juízo de salvação", a "justificação". A sua indigência foi superada e pôde realizar a sua "tarefa existencial", a sua "obra", que naquelas circunstâncias consistia na sua paternidade para com Isaac. A liturgia aplica a S. José o elogio de Paulo a Abraão. A fé do esposo de Maria, submetida a duras provas, manteve-se firme, fazendo dele "homem justo", e pai adoptivo de Jesus. A sua resposta de fé manteve-se durante toda a sua vida. Por isso, colaborou com disponibilidade e generosidade no projeto de salvação a que Deus o associou. Se Abraão é "tipo" do cristão, José também o é. Abraão sabia-se condenado à morte, pois não teria descendência. Mas acreditou e recebeu uma grande descendência da mão de Deus. José aceitou ser "pai" de Quem não era seu filho, mas Filho de Deus e de Maria, e colaborou na geração da humanidade nova, nascida da morte e da ressurreição de Cristo.
    Evangelho: Lucas 2, 41-51a

    Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa. 42Quando Ele chegou aos doze anos, subiram até lá, segundo o costume da festa. 43Terminados esses dias, regressaram a casa e o menino ficou em Jerusalém, sem que os pais o soubessem. 44Pensando que Ele se encontrava na caravana, fizeram um dia de viagem e começaram a procurá-lo entre os parentes e conhecidos. 45Não o tendo encontrado, voltaram a Jerusalém, à sua procura. 46Três dias depois, encontraram-no no templo, sentado entre os doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. 47Todos quantos o ouviam, estavam estupefactos com a sua inteligência e as suas respostas. 48Ao vê-lo, ficaram assombrados e sua mãe disse-lhe: «Filho, porque nos fizeste isto? Olha que teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura!» 49Ele respondeu-lhes: «Porque me procuráveis? Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai?» 50Mas eles não compreenderam as palavras que lhes disse. 51Depois desceu com eles, voltou para Nazaré.

    A lei judaica mandava que os primogénitos, sendo sagrados, deviam ser entregues a Deus ou sacrificados. Como o sacrifício humano era proibido, a lei obrigava a fazer uma espécie de troca, de maneira que em vez do menino, era oferecido um animal puro (cordeiros, pombas) (cf. Ex 13 e Lv 12). Lucas parece ter presente que Jesus, primogénito de Maria, era primogénito de Deus. Por isso, com a substituição do sacrifício - oferecem-s duas pombas - é evidenciado o fato de Jesus ser "apresentado ao Senhor", isto é, solenemente oferecido ao Pai. O sentido deste oferecimento só se compreende à luz da cena do calvário, onde Jesus já não pode ser substituído e morrerá como autêntico primogénito, que se entrega ao Pai pela salvação dos homens.

    Como pai adoptivo, José preocupa-se por tudo uanto diz respeito a Jesus. Embora não lhe seja dado penetrar completamente no mistério das relações de Jesus com o Pai, e também não compreendendo tudo quanto Jesus faz e diz, deixa-se no entanto, conduzir por Deus, com uma fé dócil e silenciosa. A sua máxima, à semelhança da de Jesus e da de Maria, poderia ser: "Ecce servus tuus", eis o teu servo.

    Meditatio

    A Igreja convida-nos, hoje, a voltar-nos para S. José, a alegrar-nos e a bendizermos a Deus pelas graças com que o cumulou. S. José é o "homem justo" (Mt 1, 19). A sua justiça vem-lhe do acolhimento do dom da fé, da retidão interior e do respeito para com Deus e para com os homens, para com a lei e para com os acontecimentos. É o que nos sugere a segunda leitura. Não foi fácil para José aceitar uma paternidade que não era dele e, depois, a responsabilidade de ser o mestre e guia d´Aquele que, um dia, havia de ser o pastor de Israel. Respeito, obediência e humildade estão na base da "justiça" de José. Foi esta atitude interior, no desempenho da sua missão única, que guindaram José ao cume da santidade cristã, junto de Maria, a sua esposa.

    As atitudes de José são características dos grandes homens, de que nos fala a Bíblia, escolhidos e chamados por Deus para missões importantes. Embora se considerassem pequenos, fracos e indignos, aceitavam e realizavam a missão, confiando n´Aquele que lhes dizia: "Eu estarei contigo".

    José não procurou os seus interesses e satisfações, mas colocou-se inteiramente aos serviços dos que amava. O seu amor pela esposa, Maria, visava unicamente servir a vocação a ela que fora chamada. Deste modo, o casal chegou a uma união espiritual admirável, donde brotava uma enorme e puríssima alegria. Era a perfeição do amor. O amor de José por Jesus apenas visava servir a vocação de Jesus, a missão de Jesus. Para José, o filho não era uma espécie de propriedade a quem impunha uma autoridade e afeto tirânico, como, por vezes, acontece com alguns pais. José sabia que Jesus não era dele, e nada mais desejava do que prepará-lo, conforme as suas capacidades, para a missão de Salvador, como lhe fora dito pelo Anjo.

    Por intercessão do nosso santo, peçamos a Deus a fé, a confiança, a docilidade, a generosidade e a pureza do amor para nós mesmos e para quantos têm responsabilidades na Igreja, para que as maravilhas de Deus se realizem também nos nossos dias.

    Oratio

    Ó S. José, eu admiro e louvo a vossa perfeição e a vossa santidade. Que exemplos e que méritos! A vossa intercessão no céu é sempre escutada. O Coração de Jesus não pode ficar insensível à vossa oração. Pedi hoje a minha conversão, a minha santificação. Pedi o perdão de todas as minhas faltas e a graça de corresponder ao que Nosso Senhor espera de mim. Fiat! Fiat! (Leão Dehon, OSP 3, p. 309).

    Contemplatio

    José, o justo, o santo, entra simplesmente nos desígnios do céu sobre ele e torna-se esposo de Maria por um casamento virginal; esposo de uma Virgem, de uma Rainha, esposo da Mãe de Deus e da Esposa do Espírito Santo! Mas o seu coração é digno dela. Na sua alma reúnem-se a fé viva dos patriarcas, as nobres aspirações dos profetas, as esperanças das gerações passadas. O seu coração é o mais puro, o mais amável, o mais celeste de todos, depois do Coração de Jesus e do Coração imaculado de Maria. José é o esposo da Virgem Maria, com que respeito a envolve! Que delicadeza, que discrição nas suas relações com ela! Aprendeu de cor a sua sublime missão de castidade e de amor. E quando foi advertido pelo anjo a respeito dos grandes desígnios de Deus sobre o filho de Maria, associou-se de coração à missão de vítima do seu filho adotivo e aceitou sem reserva todos os sofrimentos que daí resultariam para ele. Esposo de Maria! Que conjunto de graças este título supõe. José esteve unido mais do que ninguém neste mundo à Mãe de Deus. Tiveram todos as mesmas vistas, todos as mesmas orações e os mesmos sofrimentos. Os méritos de S. José aproximam-se dos de Maria. Que grandeza e que dignidade! José é o pai nutritivo de Jesus, pai legal e pai putativo. Tem tudo o que pode pertencer à paternidade sem ferir a virgindade. Tem todos os direitos e toda a autoridade de um pai. É o chefe da Sagrada Família. (Pe. Dehon, OSP 3, p. 308).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "Ecce servus tuus! Eis o teu servo!"

     

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    S. José, Esposo da Virgem S. Maria (19 Março)

  • 05º Domingo da Quaresma - Ano A [atualizado]

    05º Domingo da Quaresma - Ano A [atualizado]

    22 de Março, 2026

    ANO A

    5º DOMINGO DA QUARESMA

    Tema do 5º Domingo da Quaresma

    Na quinta etapa do nosso caminho quaresmal, a Palavra de Deus continua a desafiar-nos à conversão, ao reencontro com Deus, à vida nova. Este é o tempo de desatar os nós que nos prendem à morte, de sair dos cantos sombrios do nosso comodismo e de abraçar aquela oferta irrecusável de vida que Deus insistentemente nos faz.

    Na primeira leitura, através da voz profética de Ezequiel, Javé promete aos habitantes de Judá exilados numa terra estrangeira, desesperados e sem futuro, uma vida nova. “Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo” – diz-lhes Deus. O desígnio de Deus para os seus queridos filhos é e sempre será um desígnio de vida; por isso, Ele nunca deixará de vir ao encontro do seu povo e de o guiar, pela sua própria mão, até às fontes da vida eterna.

    O Evangelho oferece-nos – a partir da história de um amigo de Jesus chamado Lázaro – uma magnífica catequese sobre o projeto de vida que Deus tem para o homem. Diz-nos que Jesus veio ao nosso encontro, enviado por Deus, para nos oferecer uma vida que a morte nunca poderá vencer. Àqueles que manifestam interesse em acolher essa vida, Jesus garante-lhes: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá”. Chegamos à vida se ousarmos seguir atrás de Jesus, como discípulos.

    Na segunda leitura o apóstolo Paulo convida os cristãos de Roma – e os discípulos de Jesus de todos os tempos e lugares – a relembrarem o compromisso que assumiram no dia do seu batismo e a viverem sob o domínio “do Espírito”. Aqueles que escolheram Cristo e que vivem no Espírito, pertencem a Deus e integram a família de Deus. Estão destinados à vida eterna, à vida plena e verdadeira.

     

    LEITURA I – Ezequiel 37,12-14

    Assim fala o Senhor Deus:
    «Vou abrir os vossos túmulos
    e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo,
    para vos reconduzir à terra de Israel.
    Haveis de reconhecer que Eu sou o Senhor,
    quando abrir os vossos túmulos
    e deles vos fizer ressuscitar, ó meu povo.
    Infundirei em vós o meu espírito e revivereis.
    Hei de fixar-vos na vossa terra
    e reconhecereis que Eu, o Senhor, o disse e o executarei».

     

    CONTEXTO

    Em 598 a.C. Nabucodonosor, rei da Babilónia, irritado pelas tentativas de Joaquim, rei de Judá, para se libertar do domínio babilónico, pôs cerco à cidade de Jerusalém. O rei Joaquim parece ter morrido durante o cerco da cidade (na versão de 2 Cr 36, contudo, Joaquim foi aprisionado e levado prisioneiro para a Babilónia). Sucedeu-lhe, no trono de Judá, o seu filho Joiaquin, que reinou apenas três meses (cf. 2Re 24,8-9), antes de cair nas mãos dos babilónios (cf. 2Re 24,10-16). O rei, a classe dirigente e todos aqueles que tinham alguma influência em Jerusalém foram deportados para a Babilónia (597 a.C.).

    Nabucodonosor instalou, então, no trono de Judá um tal Sedecias. Durante algum tempo, Judá manteve-se tranquilo, pagando pontualmente os tributos devidos aos babilónios; mas, ao fim de algum tempo, aproveitando a conjuntura política favorável, Sedecias aliou-se com os egípcios e deixou de pagar o tributo. Nabucodonosor enviou imediatamente um exército que cercou novamente Jerusalém. Apesar do socorro de um exército egípcio, Jerusalém teve de se render aos babilónios (586 a.C.). Sedecias tentou fugir da cidade; mas foi feito prisioneiro, viu os seus filhos serem assassinados e ele próprio foi levado prisioneiro para a Babilónia, onde acabou os seus dias.

    Ezequiel, chamado “o profeta da esperança”, deve ser colocado neste cenário. Pertencendo a uma família com alguma influência em Jerusalém, fez parte do primeiro grupo de exilados de Judá, levados para a Babilónia em 597 a.C. (no reinado de Joiaquin, quando Nabucodonosor conquista Jerusalém, pela primeira vez). Será na Babilónia que Ezequiel irá exercer a sua missão profética.

    A primeira fase do ministério de Ezequiel decorre entre 593 a.C. (altura em que sentiu o chamamento de Deus) e 586 a.C. (data em que Jerusalém é arrasada pelas tropas de Nabucodonosor e uma nova leva de exilados é encaminhada para a Babilónia). Nesta fase, Ezequiel procura destruir falsas esperanças e anuncia que, ao contrário do que pensam os exilados, o cativeiro está para durar… Eles não só não vão regressar em breve a Jerusalém, mas os que ficaram em Jerusalém (e que continuam a multiplicar os pecados e infidelidades contra Javé) vão fazer companhia aos que já estão desterrados na Babilónia.

    A segunda fase do ministério de Ezequiel desenrola-se a partir de 586 a.C., até cerca de 570 a.C. Instalados numa terra estrangeira, sem Templo, sem sacerdócio e sem culto, os exilados estão desesperados e duvidam da bondade e do amor de Deus. Nessa fase, Ezequiel procura alimentar a esperança dos exilados e transmitir ao Povo a certeza de que o Deus libertador e salvador não os abandonou. As palavras que, nesta fase, Ezequiel dirige aos seus concidadãos são palavras de ânimo e de esperança.

    O texto que nos é proposto como primeira leitura pertence à segunda fase do ministério profético de Ezequiel. Faz parte da famosa de um conjunto de “oráculos de salvação” (cf. Ez 33,1-39,29) que inclui a famosa “visão dos ossos calcinados” (cf. Ez 37). Nessa visão Ezequiel fala de uma planície cheia de ossos calcinados e sem vida; mas, esses ossos, vivificados pelo Espírito do Senhor, são revestidos de pele, de músculos e ganham nova vida. Nesta parábola, esses ossos calcinados representam o Povo de Deus, que jaz abandonado, sem esperança e sem futuro no meio da planície mesopotâmica.

     

    MENSAGEM

    Depois de vários anos exilados no meio da planície mesopotâmica, os habitantes de Judá perderam a esperança. Estão à mercê dos seus inimigos e têm saudades da sua terra. Crêem-se abandonados por Deus e pelos homens. No horizonte não vislumbram nenhuma mudança, nenhum futuro, nenhuma saída. É uma situação “de morte” para a qual não parece não haver remédio. O texto usa uma imagem bem expressiva para definir a triste situação dos exilados: são como “ossos ressequidos” que apodrecem lentamente num túmulo. Para Judá, estará tudo terminado?

    Não. Deus conhece a situação do seu povo e prepara-se para intervir. O profeta Ezequiel, voz de Deus no meio dos exilados, anuncia que Javé vai ressuscitar o seu povo, vai tirá-lo do túmulo, vai libertá-lo, vai devolver-lhe a esperança, vai oferecer-lhe um futuro novo e cheio de vida. O que é que Deus se propõe fazer?

    Deus irá infundir o seu Espírito sobre os exilados. Revitalizados pelo Espírito de Deus, os habitantes de Judá conhecerão uma vida nova. Poderão então pôr-se a caminho de Jerusalém, de regresso à sua terra, aos seus lares, às suas raízes. O projeto de morte será vencido pelo projeto de vida que Deus desenhou para o seu povo.

    A referência à ação do Espírito de Deus na revivificação do homem coloca-nos no mesmo cenário de Gn 2,7: no homem que criou do barro, Deus infundiu o seu “hálito de vida” (“neshamá”) para o tornar um ser vivente; aqui, sobre o Povo que jaz no túmulo, Deus “infunde o seu Espírito” (“ruah” – Ez 37,14). A ação de Deus em favor do seu povo é uma nova criação.

    No “ruah” de Deus que aqui é dado ao Povo que jaz no túmulo, devermos ver bem mais do que uma simples “força vital” que é responsável pela vida física ao homem… O “ruah” de Deus transmite ao homem a vida divina e transforma radicalmente o coração do homem. Ele fará com que os “corações de pedra” – duros, insensíveis, autossuficientes – dos habitantes de Judá se transformem em “corações de carne”, sensíveis e bons, capazes de amar Deus e de viver de acordo com os mandamentos de Deus (“dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um espírito novo: arrancarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Dentro de vós porei o meu espírito, fazendo com que sigais as minhas leis e obedeçais e pratiqueis os meus preceitos” – Ez 36,26-27). Esta nova criação vai bem mais longe do que a antiga criação, reportada na narração do livro do Génesis.

    A promessa do regresso dos exilados a Judá concretizou-se alguns anos mais tarde (538 a.C.) quando o rei persa Ciro os autorizou a deixarem a Babilónia e a retornarem a Jerusalém. No entanto, a tradição rabínica posterior irá reinterpretar esta “promessa” de Deus e pô-la em ligação com a chegada dos tempos messiânicos. Em alguns círculos religiosos judaicos via-se nesta promessa de Deus a afirmação de que, com a chegada do Messias, todos os justos ressuscitariam e participariam na alegria do Reino messiânico.

    Para além disso, este texto ajudou a catequese de Israel a sedimentar uma das suas convicções mais profundas: Javé é o Deus da vida, que nunca abandona o seu povo e que encontra sempre formas de transmitir vida ao seu Povo; em cada instante da história Ele está presente, recriando o seu Povo, transformando-o, renovando-o, encaminhando-o para a vida plena.

     

    INTERPELAÇÕES

    • O desânimo, a frustração, o desalento que, no séc. VI a.C. afetaram os habitantes de Judá exilados na Babilónia não são experiências completamente desconhecidas para nós. São realidades que a cada passo nos esperam ao virar da esquina. Sentimo-las quando somos obrigados a encarar a morte de alguém que nos é querido, quando enfrentamos o desmoronar dos laços familiares, quando somos surpreendidos pela traição de um amigo ou de alguém a quem amamos, quando carregamos o peso da solidão, quando temos de deixar para trás os nossos sonhos, quando nos sentimos afogados pelo medo, quando os nossos melhores esforços resultam em nada… A constatação da nossa fragilidade, das nossas limitações, da nossa impotência paralisa-nos. Olhamos à volta à procura de Deus e Ele parece infinitamente distante; interpelamo-lo e Ele parece não nos responder… Estamos sozinhos, sem apoio e sem defesa? Deus não se interessa minimamente por nós? O profeta Ezequiel garantia aos exilados de Judá que Deus iria ajudá-los a “sair do sepulcro” e trazê-los de volta à terra nova da liberdade e da esperança. Como é que isto nos soa? Acreditamos que Deus é capaz de “escrever direito por linhas tortas” e tirar vida da morte? Apesar dos “acidentes” que a vida insiste em trazer-nos, conseguimos sentir a mão de Deus que nos segura e que nos dá confiança?
    • Pela voz profética de Ezequiel, Deus dizia ao seu povo: “infundirei em vós o meu espírito e revivereis”. Sim, Deus está mesmo disposto a fazer-nos “sair do sepulcro” em que muitas vezes nos deixamos encerrar. Esse espírito que Ele nos promete pode renovar-nos e transformar-nos: é o Espírito de Deus que elimina dos nossos corações o egoísmo, o orgulho, a ambição, a autossuficiência, a maldade, tudo isso que estraga a nossa vida; é o Espírito de Deus que gera nos nossos corações sentimentos de bondade, de generosidade, de misericórdia, de amor… Deus, no entanto, nunca forçará a nossa vontade, nunca nos obrigará a uma transformação que não queremos aceitar. Queremos acolher o Espírito de Deus? Existe em nós uma vontade sincera de nos deixarmos transformar por Ele?
    • É Deus que vem em nosso auxílio para nos tirar dos “túmulos” onde estamos encerrados; é Deus que infunde em nós o seu Espírito, esse Espírito que nos transforma, que nos renova, que nos faz reviver… No entanto Deus, tantas e tantas vezes, vem ao nosso encontro através de pessoas – como Ezequiel – que nos oferecem, em gestos concretos, a bondade, a misericórdia, a vida e o amor de Deus. Deus age no mundo e na vida dos homens através dos seus enviados. Talvez Deus também conte connosco para sermos, junto dos nossos irmãos, testemunhas e sinais da sua bondade e do seu amor. Dispomo-nos a colaborar com Deus e a gastar algum do nosso tempo a “curar” os males que ferem os irmãos que caminham ao nosso lado?

     

    SALMO RESPONSORIAL – SALMO 129 (130)

    Refrão 1: No Senhor está a misericórdia e abundante redenção.

    Refrão 2: No Senhor está a misericórdia, no Senhor está a plenitude da redenção.

     

    Do profundo abismo chamo por Vós, Senhor,
    Senhor, escutai a minha voz.
    Estejam os vossos ouvidos atentos
    à voz da minha súplica.

     

    Se tiverdes em conta as nossas faltas,
    Senhor, quem poderá salvar-se?
    Mas em Vós está o perdão,
    para Vos servirmos com reverência.

    Eu confio no Senhor,
    a minha alma espera na sua palavra.
    A minha alma espera pelo Senhor
    mais do que as sentinelas pela aurora.

    Porque no Senhor está a misericórdia
    e com Ele abundante redenção.
    Ele há de libertar Israel
    de todas as suas faltas.

     

    LEITURA II – Romanos 8,8-11

    Irmãos:
    Os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus.
    Vós não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito,
    se é que o Espírito de Deus habita em vós.
    Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo,
    não Lhe pertence.
    Se Cristo está em vós,
    embora o vosso corpo seja mortal por causa do pecado,
    o espírito permanece vivo por causa da justiça.
    E, se o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos
    habita em vós,
    Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos,
    também dará vida aos vossos corpos mortais,
    pelo seu Espírito que habita em vós.

     

    CONTEXTO

    Em meados do séc. I, Roma era a maior cidade do mundo, com aproximadamente um milhão de habitantes. Neste número estavam incluídos cerca de 50.000 judeus.

    Provavelmente, o cristianismo chegou a Roma levado por judeus palestinos convertidos ao Evangelho de Jesus. Uma antiga tradição diz que foi Pedro quem anunciou o Evangelho em Roma, por volta do ano 42, e que da sua pregação resultou uma florescente comunidade cristã. No entanto, não temos evidências que comprovem esta tradição.

    Paulo escreveu a sua Carta aos Romanos por volta do ano 57 ou 58. Estava, por essa altura, prestes a terminar a sua terceira viagem missionária. Sentia que tinha concluído a sua missão no Mediterrâneo oriental, pois as igrejas que fundara e acompanhara nessas paragens estavam organizadas e já podiam caminhar por si próprias. Depois disso, Paulo tinha a intenção de anunciar o Evangelho no ocidente: queria passar por Roma, deter-se algum tempo nessa cidade e viajar depois para a Espanha para aí dar testemunho de Jesus (cf. Rm 15,24-28).

    Ao dirigir-se por carta aos cristãos de Roma, Paulo pretendia estabelecer laços com eles; mas também aproveitou a oportunidade para lhes apresentar os principais problemas que então o preocupavam, entre os quais sobressaía a questão da unidade. Tratava-se de um problema que se sentia um pouco por todo o lado e que também inquietava a jovem comunidade cristã de Roma, afetada por dificuldades de relacionamento entre cristãos de origem judaica e cristãos vindos do mundo greco-romano. Com serenidade e lucidez, evitando qualquer polémica, Paulo expôs aos cristãos de Roma as linhas mestras do Evangelho que anunciava. A Carta aos Romanos é uma espécie de resumo da teologia paulina e, do ponto de vista teológico, o escrito mais completo de Paulo.

    Na primeira parte da Carta (cf. Rm 1,18-11,36), Paulo vai fazer notar aos cristãos divididos que o Evangelho é a força que congrega e que salva todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Embora o pecado seja uma realidade universal, que afeta todos os homens (cf. Rm 1,18-3,20), a “justiça de Deus” dá vida a todos, sem distinção (cf. Rm 3,1-5,11); e é em Jesus Cristo que essa vida se comunica e que transforma o homem (cf. Rm 5,12-8,39). Batizado em Cristo, o cristão morre para o pecado e nasce para uma vida nova. Passa a ser conduzido pelo Espírito e torna-se filho de Deus; libertado do pecado e da morte, produz frutos de santificação e caminha para a Vida eterna.

    O nosso texto integra a primeira parte da Carta. Refere-se à “vida nova” daqueles que aderiram a Jesus e vivem “no Espírito”. Todo o capítulo oitavo é dedicado à vida no Espírito. É uma das mais ricas e mais belas páginas da catequese paulina.

     

    MENSAGEM

    A reflexão desenvolvida no capítulo oitavo da Carta aos Romanos, sobre a “vida no Espírito”, tem como cenário de fundo uma das mais famosas antíteses paulinas: “carne”/”Espírito”. A que se referem estes dois conceitos, segundo Paulo?

    A “carne” designa a situação do homem frágil e destinado à morte; mas designa especialmente, na teologia paulina, a situação do homem pecador, do homem que se opõe a Deus e que vive à margem de Deus: o “homem carnal” é o homem que vive no egoísmo e na autossuficiência, que cultiva atitudes e apetites desordenados – o ódio, a ambição, a inveja, o ciúme, a fúria, a devassidão, a discórdia, a libertinagem (cf. Gl 5,19-21). O “Espírito” designa tudo aquilo que faz do homem uma realidade transcendente; mas designa especialmente, na linguagem paulina, a realidade do homem que está aberto a Deus: o “homem do Espírito” é o homem que escuta Deus e que obedece a Deus, que pauta a sua vida pelo amor, pela alegria, pela paz, pela paciência, pela benignidade, pela bondade, pela fidelidade, pela mansidão, pelo autodomínio (cf. Gl 5,22-23). Estas duas realidades estão, evidentemente, em profunda contradição.

    Deus, dando cumprimento à sua vontade de salvar o homem, enviou ao mundo o seu Filho Jesus. Jesus apresentou-se numa “carne” semelhante à dos homens; mas Ele não conheceu o pecado e nunca escolheu o pecado. Cristo recusou sempre viver à margem de Deus; escolheu viver segundo o Espírito, numa obediência total ao Pai. Trouxe à nossa “carne” o dinamismo do Espírito.

    Quem adere a Cristo recebe vida d’Ele e passa a ser animado pelo mesmo dinamismo que o animou a Ele. O batizado deixa de estar sob o domínio da carne e, como Cristo, passa a viver sob o dinamismo do Espírito (cf. Rm 8,9). Se alguém ainda vive de acordo com a “carne”, é sinal de que não é cristão, não se identifica com Cristo, não pertence a Cristo (cf. Rm 8,10).

    Esses que se identificam com Cristo e que vivem “no Espírito”, estão destinados à vida. Assim como Cristo – depois de uma vida vivida “no Espírito” – isto é, depois de uma vida de renúncia ao egoísmo e ao pecado e de opção por Deus e pelas suas propostas – ressuscitou e foi elevado definitivamente à glória do Pai, assim o cristão está destinado à vida nova, à vida plena, à vida eterna (cf. Rm 8,11).

    É, pois, o Espírito – presente naqueles que renunciaram à vida da “carne” e aderiram a Jesus – que liberta os crentes do pecado e da morte, que os transforma em homens novos e que os leva em direção à vida plena, à vida definitiva.

     

    INTERPELAÇÕES

    • Jesus, ao despedir-se dos discípulos, enviou-os a “batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (“ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado” – Mt 28,19). O momento do batismo ficou a ser, para os que seguidores a Jesus, o momento da opção pela proposta de Jesus, pela “vida no Espírito”. É possível que tenhamos sido batizados quando ainda não tínhamos consciência das coisas e que, mais tarde, não tenhamos tido vontade ou oportunidade de “validar” essa opção inicial; é possível, também, que as nossas opções de vida nos tenham levado por caminhos diferentes e que hoje, de forma consciente nos sintamos afastados desse “vida no Espírito” de que fala Paulo… Nós, os que fomos batizados e que estamos contentes com essa opção, temos procurado viver de forma coerente a nossa vocação batismal e caminhamos “no Espírito”? Nós os que fomos batizados mas depois nos desleixamos e deixamos de dar importância ao seguimento de Jesus, não gostaríamos de renovar o nosso compromisso batismal, de retomar o nosso contacto com Jesus e de viver de forma coerente com a opção que fizemos quando fomos batizados? Nós os que desistimos de Jesus e optamos conscientemente por outros caminhos, não estaríamos interessados em redescobrir a beleza de “viver no Espírito”, de procurar um sentido e uma realização mais completa da nossa vida?
    • O apóstolo Paulo assegura aos cristãos de Roma que quem escolheu identificar-se com Cristo – isto é, viver na obediência aos planos do Pai e no dom da vida em favor dos irmãos – está destinado a encontrar uma vida nova e plena, uma “vida eterna”. Aquilo que aconteceu com Cristo aponta exatamente nesse sentido. Ele recusou o egoísmo e a autossuficiência e escolheu cumprir o plano do Pai até às últimas consequências; Ele amou os seus irmãos até ao extremo e quis dar a própria vida para derrotar a injustiça, a violência, a maldade, a arrogância, a morte. Apesar de ter sofrido o vexame da cruz, na manhã de Páscoa saiu vitorioso do túmulo, foi glorificado e sentou-se à direita do Pai. Jesus mostrou-nos que uma vida vivida “no Espírito” não termina no fracasso e na morte, mas aponta à vida definitiva, à realização plena, à vida eterna. Evidentemente, a nossa vida nesta terra há de ter um fim; mas o Espírito que ressuscitou Jesus far-nos-á viver eternamente como filhos de Deus. Acreditamos nisto? A certeza dessa vida nova que nos espera dá-nos ânimo para, ao longo do caminho que percorremos na terra, fazermos escolhas segundo o Espírito?

     

    ACLAMAÇÃO ANTES DO EVANGELHO – João 11, 25a.26

    Escolher um dos refrães:

    Refrão 1: Louvor e glória a Vós, Jesus Cristo, Senhor.

    Refrão 2: Glória a Vós, Jesus Cristo, Sabedoria do Pai.

    Refrão 3: Glória a Vós, Jesus Cristo, Palavra do Pai.

    Refrão 4: Glória a Vós, Senhor, Filho do Deus vivo.

    Refrão 5: Louvor a Vós, Jesus Cristo, Rei da eterna glória.

    Refrão 6: Grandes e admiráveis são as vossas obras, Senhor.

    Refrão 7: A salvação, a glória e o poder a Jesus Cristo, Nosso Senhor.

     

    Eu sou a ressurreição e a vida, diz o Senhor.
    Quem acredita em Mim nunca morrerá.

     

    EVANGELHO – João 11,1-45

    Naquele tempo,
    estava doente certo homem, Lázaro de Betânia,
    aldeia de Marta e de Maria, sua irmã.
    Maria era aquela que tinha ungido o Senhor com perfume
    e Lhe tinha enxugado os pés com os cabelos.
    Era seu irmão Lázaro que estava doente.
    As irmãs mandaram então dizer a Jesus:
    «Senhor, o teu amigo está doente».
    Ouvindo isto, Jesus disse:
    «Essa doença não é mortal, mas é para a glória de Deus,
    para que por ela seja glorificado o Filho do homem».
    Jesus era amigo de Marta, de sua irmã e de Lázaro.
    Entretanto, depois de ouvir dizer que ele estava doente,
    ficou ainda dois dias no local onde Se encontrava.
    Depois disse aos discípulos:
    «Vamos de novo para a Judeia».
    Os discípulos disseram-Lhe:
    «Mestre, ainda há pouco os judeus procuravam apedrejar-Te
    e voltas para lá?»
    Jesus respondeu:
    «Não são doze as horas do dia?
    Se alguém andar de dia, não tropeça,
    porque vê a luz deste mundo.
    Mas se andar de noite, tropeça,
    porque não tem luz consigo».
    Dito isto, acrescentou:
    «O nosso amigo Lázaro dorme, mas Eu vou despertá-lo».
    Disseram então os discípulos:
    «Senhor, se dorme, está salvo».
    Jesus referia-se à morte de Lázaro,
    mas eles entenderam que falava do sono natural.
    Disse-lhes então Jesus abertamente:
    «Lázaro morreu;
    por vossa causa, alegro-Me de não ter estado lá,
    para que acrediteis.
    Mas, vamos ter com ele».
    Tomé, chamado Dídimo, disse aos companheiros:
    «Vamos nós também, para morrermos com Ele».
    Ao chegar, Jesus encontrou o amigo sepultado havia quatro dias.
    Betânia distava de Jerusalém cerca de três quilómetros.
    Muitos judeus tinham ido visitar Marta e Maria,
    para lhes apresentar condolências pela morte do irmão.
    Quando ouviu dizer que Jesus estava a chegar,
    Marta saiu ao seu encontro,
    enquanto Maria ficou sentada em casa.
    Marta disse a Jesus:
    «Senhor, se tivesses estado aqui,
    meu irmão não teria morrido.
    Mas sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus,
    Deus To concederá».
    Disse-lhe Jesus: «Teu irmão ressuscitará».
    Marta respondeu:
    «Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição, no último dia».
    Disse-lhe Jesus:
    «Eu sou a ressurreição e a vida.
    Quem acredita em Mim,
    ainda que tenha morrido, viverá;
    E todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá.
    Acreditas nisto?»
    Disse-Lhe Marta:
    «Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus,
    que havia de vir ao mundo».
    Dito isto, retirou-se e foi chamar Maria,
    a quem disse em segredo:
    «O Mestre está ali e manda-te chamar».
    Logo que ouviu isto, Maria levantou-se e foi ter com Jesus.
    Jesus ainda não tinha chegado à aldeia,
    mas estava no lugar em que Marta viera ao seu encontro.
    Então os judeus que estavam com Maria em casa
    para lhe apresentar condolências,
    ao verem-na levantar-se e sair rapidamente,
    seguiram-na, pensando que se dirigia ao túmulo para chorar.
    Quando chegou aonde estava Jesus,
    Maria, logo que O viu, caiu-Lhe aos pés e disse-Lhe:
    «Senhor, se tivesses estado aqui,
    meu irmão não teria morrido».
    Jesus, ao vê-la chorar,
    e vendo chorar também os judeus que vinham com ela,
    comoveu-Se profundamente e perturbou-Se.
    Depois perguntou: «Onde o pusestes?»
    Responderam-Lhe: «Vem ver, Senhor».
    E Jesus chorou.
    Diziam então os judeus:
    «Vede como era seu amigo».
    Mas alguns deles observaram:
    «Então Ele, que abriu os olhos ao cego,
    não podia também ter feito que este homem não morresse?»
    Entretanto, Jesus, intimamente comovido, chegou ao túmulo.
    Era uma gruta, com uma pedra posta à entrada.
    Disse Jesus: «Tirai a pedra».
    Respondeu Marta, irmã do morto:
    «Já cheira mal, Senhor, pois morreu há quatro dias».
    Disse Jesus:
    «Eu não te disse que, se acreditasses,
    verias a glória de Deus?»
    Tiraram então a pedra.
    Jesus, levantando os olhos ao Céu, disse:
    «Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido.
    Eu bem sei que sempre Me ouves,
    mas falei assim por causa da multidão que nos cerca,
    para acreditarem que Tu Me enviaste».
    Dito isto, bradou com voz forte:
    «Lázaro, sai para fora».
    O morto saiu, de mãos e pés enfaixados com ligaduras
    e o rosto envolvido num sudário.
    Disse-lhes Jesus:
    «Desligai-o e deixai-o ir».
    Então muitos judeus, que tinham ido visitar Maria,
    ao verem o que Jesus fizera, acreditaram n’Ele.

     

    CONTEXTO

    O Quarto Evangelho, escrito por volta do ano 100, é um belo ponto de chegada da reflexão cristológica feita ao longo do séc. I. Na sua génese estará, certamente, o testemunho do apóstolo João; mas o livro conserva a reflexão que a comunidade joânica (provavelmente a comunidade cristã de Éfeso) desenvolveu sobre Jesus a partir do testemunho deixado pelo apóstolo.

    O livro é de uma grande riqueza e não é fácil definir a sua estrutura. Mas diversos estudiosos do Quarto Evangelho fazem questão de dividi-lo em duas partes: o “Livro dos Sinais” (cf. Jo 4,1-11,54) e o “Livro da Hora” (cf. Jo 11,55-19,42). No “Livro dos Sinais” são-nos apresentadas diversas “catequeses” – recorrendo a “sinais” como a água (cf. Jo 4,1-5,47), o pão (cf. Jo 6,1-71), a luz (cf. Jo 7,1-9,41), o pastor (cf. Jo 10,1-42), a vida que vence a morte (cf. Jo 11,1-56) – que mostram como o Messias, agindo de acordo com o projeto de Deus, faz nascer um Homem Novo, um Homem que vive segundo Deus. No “livro da Hora”, o Messias encaminha-se para a cruz e, oferece a própria vida por amor. Com a sua entrega, Ele mostra aos homens como devem viver e como devem amar. Os que aprendem com Jesus a lição do amor e se dispõem a viver como Ele viveu, formarão a nova comunidade, a Igreja de Jesus, vivificada pela água (batismo) e pelo sangue (eucaristia) que brotam do coração de Cristo.

    A narrativa da ressurreição de Lázaro integra o “Livro dos Sinais”. É a quinta “catequese” que esse “livro” nos oferece. Trata-se de uma narração única, que não tem paralelo nos outros três Evangelhos. Propõe Jesus como aquele que é capaz de dar aos que a Ele aderem uma vida que supera a morte.

    A cena situa-nos em Betânia, uma aldeia situada no lado oriental do monte das Oliveiras, a cerca de 2.700 metros de Jerusalém. Atualmente a localidade tem o nome de El-Azariyeh, nome derivado de Lázaro. Quem a visita pode descer, ainda hoje, os vinte e quatro degraus que conduzem a um espaço onde a tradição situa o túmulo de Lázaro.

    O autor da catequese coloca-nos diante de um episódio – um triste episódio – familiar: a morte de um homem. A família em questão, constituída por três pessoas (Marta, Maria e Lázaro), parece conhecida de Jesus: em Jo 11,5 diz-se que Jesus “era amigo” de Marta, de sua irmã (Maria) e de Lázaro. A visita de Jesus a casa desta família é, aliás, mencionada em Lc 10,38-42; e João tem o cuidado de observar que a Maria, aqui referenciada, é a mesma que tinha ungido o Senhor com perfume e lhe tinha enxugado os pés com os cabelos (cf. Jo 11,2, cf. Jo 12,1-8).

     

    MENSAGEM

    O “sinal” realizado – a “reanimação” de Lázaro, o amigo de Jesus que a morte tinha levado – é descrito de forma muito breve, em apenas dois versículos (cf. Jo 11,43-44). Mas o relato prolonga-se ao longo de quarenta e cinco versículos. Apresenta numerosos diálogos, achegas, comentários, explicações… O autor do Quarto Evangelho, com a competência que todos lhe reconhecem, propõe à sua comunidade mais uma catequese sobre Jesus. O tema dessa catequese é formulado pelo próprio Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá” (Jo 11,25-26).

    Comecemos por olhar para família que protagoniza esta história. Trata-se de uma família com algumas caraterísticas que importa sublinhar.

    Notemos, antes de mais, que não há referência, por parte do narrador, a outros membros da família, para além de Maria, Marta e Lázaro: não há pai, nem mãe, nem filhos. Além disso, João insiste no grau de parentesco que une os três: são “irmãos” (vers. 1.2b.3.5.19.21.23.28.32.39). A palavra “irmão” (“adelfós”) será a palavra usada por Jesus, após a ressurreição, para definir a comunidade dos discípulos (cf. Jo 20,17); e esta denominação será comum entre os membros da comunidade cristã primitiva para se designarem entre si (Jo 21,23). Reparemos, por outro lado, como é descrita a relação entre Jesus e esta família de irmãos: trata-se de uma família amiga de Jesus, que Jesus conhece e que conhece Jesus, que ama Jesus e que é amada por Jesus, que recebe Jesus em sua casa. A família de Lázaro é uma boa imagem da comunidade cristã.

    Um facto abala a vida desta família: um dos irmãos (Lázaro) está gravemente doente (cf. Jo 11,1). As irmãs de Lázaro mostram o seu interesse, preocupação e solidariedade para com o “irmão” doente e informam Jesus (cf. Jo 11,3). Aquela família acredita que Jesus pode “dar vida” àquele “irmão” fragilizado pela doença.

    No entanto, apesar do afeto e da amizade que sente pelo seu amigo Lázaro, Jesus não vai imediatamente ao seu encontro; mas parece, até, atrasar-se deliberadamente (cf. Jo 11,4-6). Jesus, sem se inquietar, deixa que a doença de Lázaro siga o seu percurso normal e que a morte física do amigo se concretize. Quererá o narrador dizer-nos que Jesus tinha outras preocupações mais importantes do que a vida do seu amigo Lázaro? Não. Provavelmente o autor do Quarto Evangelho está a querer dizer-nos, desta forma, que Jesus não veio para alterar o ciclo normal da vida física do homem, libertando-o da morte biológica; veio, sim, para dar um novo sentido à morte física e para oferecer ao homem a vida eterna.

    Depois de dois dias, Jesus resolve dirigir-se à Judeia ao encontro do amigo Lázaro (cf. Jo 11,7). Os discípulos não estão tranquilos com a decisão e lembram a Jesus que a Judeia é um lugar perigoso, pois é lá que estão aqueles – os líderes religiosos judaicos – que pretendem silenciá-l’O (cf. Jo 11,8). É verdade. Mas Jesus não pretende fugir às suas responsabilidades: o plano do Pai é que Ele dê vida ao homem enfermo, mesmo que para isso corra riscos. A sua preocupação única é realizar o plano do Pai no sentido de dar vida ao homem (cf. Jo 11,9-10). Jesus não pode abandonar o “amigo”: Ele é o pastor que desafia o perigo por amor dos seus.

    Ao chegar a Betânia, Jesus encontra o amigo Lázaro sepultado há já quatro dias (cf. Jo 11,17). De acordo com a mentalidade judaica, a morte era considerada definitiva a partir do terceiro dia. Quando Jesus chega, Lázaro está, pois, verdadeiramente morto. Jesus, em conversa com os discípulos, admite-o; mas fala da morte que atingiu Lázaro como de um “sono”. O autor do Quarto Evangelho está, assim a sugerir que Jesus não elimina a morte física; mas, para aqueles que são amigos de Jesus, a morte física não é mais do que um sono, do qual se acorda para descobrir a vida definitiva (cf. Jo 11,11-15).

    Por esta altura, entram em cena as “irmãs” de Lázaro. Marta é a primeira. Vem ao encontro de Jesus e insinua uma vaga crítica, misturada com um pedido: Jesus podia ter evitado a morte do seu amigo, se tivesse vindo imediatamente, pois onde Ele está reina a vida; no entanto, ela acredita que, mesmo agora, Jesus poderá interceder junto de Deus: de certeza que Deus O ouvirá e devolverá a vida física a Lázaro (cf. Jo 11,20-22). Marta acredita em Deus; acredita que Jesus é um profeta através de quem Deus atua no mundo; mas ainda não tem consciência de que Jesus é a vida e que Ele próprio dá a vida.

    Jesus vai agora expor a Marta (e, através dela, a todos os “irmãos” que a cada momento se encontram com a morte física de alguém a quem amam) a sua catequese sobre a vida que Ele tem para oferecer. Começa por dizer a Marta: “teu irmão ressuscitará” (Jo 11,23). Marta pensa que as palavras de Jesus são uma consolação banal e que Ele se refere simplesmente à crença farisaica, segundo a qual os mortos haveriam de reviver, no final dos tempos, quando se registasse a última intervenção de Deus na história humana. Isso ela já sabe (cf. Jo 11,24); mas isso não lhe basta: esse último dia ainda está tão longe!

    Jesus, no entanto, não está a falar de uma “revivificação”, no final dos tempos, conforme as crenças farisaicas. O que Ele diz é que, para quem é Seu amigo, adere a Ele e caminha com Ele, não há morte, sequer. Jesus é “a ressurreição e a vida” (Jo 11,25-26a). Para os seus amigos, a morte física é apenas “um sono”, a passagem desta vida para a vida plena. Jesus não evita a morte física; mas Ele oferece ao homem essa vida que se prolonga para sempre. Para que essa vida definitiva possa chegar ao homem é necessário, no entanto, que o homem adira a Jesus e O siga, num caminho de amor e de dom da vida (“todo aquele que vive e acredita em mim, nunca morrerá”). A comunidade de Jesus (a comunidade dos que aderiram a Ele e ao seu projeto) é a comunidade daqueles que já possuem a vida definitiva. Eles passarão pela morte física; mas essa morte será apenas uma passagem para a verdadeira vida. E é essa vida verdadeira que Jesus quer oferecer.

    Confrontada com esta garantia de Jesus (“acreditas nisto?” – Jo 11,26b), Marta manifesta a sua adesão plena ao que Ele afirma e professa a sua fé no Senhor que dá a vida (“acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo” – Jo 11,27).

    Maria, a outra irmã, tinha ficado em casa. Está imobilizada, paralisada pela dor sem esperança. Marta – que falara com Jesus e encontrara n’Ele a resposta para a situação que a fazia sofrer – convida a irmã a sair da sua dor e a ir, por sua vez, ao encontro de Jesus (cf. Jo 11,28). Maria vai rapidamente, sem dar explicações a ninguém: ela tem consciência de que só em Jesus encontrará uma solução para o sofrimento que lhe enche o coração (cf. Jo 11,29-31).

    Também nas palavras de Maria há uma reprovação a Jesus pelo facto de Ele não ter estado presente, impedindo a morte física de Lázaro (cf. Jo 11,32). Jesus não pronuncia qualquer palavra de consolo, nem exorta à resignação (como é costume fazer nestes casos): vai fazer melhor do que isso e vai mostrar que Ele é, efetivamente, a ressurreição e a vida (cf. Jo 11,33-34).

    A cena da ressurreição de Lázaro começa com Jesus a chorar (cf. Jo 11,35). Não é pranto ruidoso, mas sereno… Jesus mostra, dessa forma, o seu afeto por Lázaro, a sua saudade do amigo ausente. Ele – como nós – sente a dor, diante da morte física de uma pessoa amada; mas a sua dor não é desespero.

    Depois, Jesus chega junto do sepulcro de Lázaro (cf. Jo 11,38). A entrada da gruta onde Lázaro está sepultado está fechada com uma pedra, como era costume, entre os judeus. A pedra é, aqui, símbolo da definitividade da morte. Separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos, cortando qualquer relação entre um e outro.

    Jesus, no entanto, manda tirar essa “pedra”: para os crentes, não se trata de duas realidades sem qualquer relação. Jesus, ao oferecer a vida plena, abate as barreiras criadas pela morte física. A morte física não afasta definitivamente o homem da vida.

    A ação de dar vida a Lázaro representa, para Jesus, a concretização da missão que o Pai Lhe confiou: dar vida plena e definitiva ao homem. É por isso que Jesus, antes de mandar Lázaro sair do sepulcro, ergue os olhos ao céu e dá graças ao Pai (cf. Jo 11,41b-42): a sua oração demonstra a sua comunhão com o Pai e a sua obediência na concretização do plano do Pai. Depois, Jesus mostra Lázaro vivo na morte, provando à comunidade dos crentes que a morte física não interrompe a vida plena do discípulo que ama Jesus e O segue.

    Aquela família de Betânia que a catequese joânica nos traz nesta narração representa a comunidade cristã, formada por irmãos e irmãs. Todos eles conhecem Jesus, são amigos de Jesus, acolhem Jesus na sua casa e na sua vida, têm-n’O como a sua grande referência. Essa família também faz a experiência da morte física. Como é que deve lidar com ela? Com o desespero de quem está convencido de que tudo acabou? Com a tristeza de quem acha que a morte venceu, por algum tempo, até que Deus “revivifique” o “irmão” morto, no final dos tempos (como acreditavam os fariseus da época de Jesus)?

    Não. Ser “amigo” de Jesus é saber que Ele é a ressurreição e a vida e que dá aos seus a vida plena, em todos os momentos. Ele não evita a morte física; mas a morte física é, para os que aderiram a Jesus, apenas a passagem (imediata) para a vida verdadeira e definitiva. Para os “amigos” de Jesus – para aqueles que acolhem a sua proposta e fazem da sua vida uma entrega a Deus e um dom aos irmãos – não há morte… Podemos chorar a saudade pela partida de um irmão, mas temos de saber que, ao deixar este mundo, esse irmão encontrou a vida plena, na glória de Deus.

     

    INTERPELAÇÕES

    • Há em cada um de nós um desejo insaciável de vida e, por isso, passamos cada instante a lutar por mais e mais vida. Agarramo-nos à ciência e, sobretudo, à medicina para prolongarmos a nossa vida biológica tanto quanto possível. Contudo, apesar de todas as possibilidades que a ciência nos oferece para vencer as dores e enfermidades, deparamo-nos a cada instante com a nossa finitude, os nossos limites, o “tempo curto” da nossa caminhada aqui na terra. Sentimo-nos impotentes diante de uma realidade – a morte – que não podemos controlar e que parece pôr um ponto final nos nossos melhores sonhos, anseios, desejos, projetos e realizações. Porque é que não podemos prolongar para sempre a nossa vida? Porque é que temos de, a certa altura, deixar aqueles que mais amamos? Que vai ser de nós quando se esgotar o nosso tempo aqui na terra? O que podemos fazer diante da realidade da morte? Muitos recusam-se a pensar nestas questões e limitam-se a aproveitar cada instante da existência o melhor possível, sem terem em conta qualquer horizonte futuro. Mas podemos, simplesmente, viver cada dia sem assumirmos uma atitude consciente e responsável sobre o nosso fim último, a realidade que nos espera depois da nossa peregrinação pela terra? Como equacionamos estas questões? Como nos situamos face a elas?
    • O autor do Quarto Evangelho oferece-nos hoje uma catequese sobre a temática da morte e da vida. A partir dos acontecimentos que enlutaram uma família amiga de Jesus (a morte de um homem chamado Lázaro, um dos membros dessa família), o nosso catequista diz-nos que a nossa vida nesta terra terá um fim e que isso é inevitável. Trata-se de algo que resulta da nossa finitude, dos nossos limites, da nossa debilidade, da nossa condição de criaturas. Mas a incontornável morte biológica não será o nosso fim, a última palavra de Deus sobre nós. Aquilo a que chamamos “morte” será uma espécie de “sono” do qual acordaremos nos braços amorosos do nosso Pai do céu. O crente não sabe mais do que os outros homens, nem tem uns óculos especiais para ver aquilo que os outros homens não conseguem ver; mas o crente aproxima-se da morte física com uma confiança radical na bondade, na misericórdia e no amor de Deus… Portanto, o crente acredita que a morte física não é destruição e aniquilação, mas sim a passagem para Deus, para a vida definitiva. Jesus, depois de dialogar com Marta, irmã de Lázaro, sobre esse horizonte de eternidade, perguntava-lhe: “acreditas nisto?” E nós, acreditamos nisto?
    • O “catequista” que nos conta a história de Lázaro, está convicto do poder salvador de Jesus. A sua certeza de que Jesus é fonte de vida é tão grande que, a certa altura, põe na boca de Jesus as seguintes palavras: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá”. O que é “acreditar” em Jesus? É aderir a Ele, escutar e acolher as suas palavras, viver ao seu estilo, assumir os seus valores, segui-l’O no caminho do amor, do serviço, do dom da própria vida. Ora, foi precisamente essa a opção que fizemos no dia do nosso batismo: “acreditar” em Jesus; e, ao fazê-lo, escolhemos essa vida plena e definitiva que Jesus oferece aos seus e que lhes garante a vida eterna. Já agora: temos vivido de forma coerente com essa opção? Vivemos conscientes de que a fidelidade a Jesus é fonte de vida eterna?
    • O adeus definitivo a uma pessoa que nos é querida e que a morte nos arrebata mergulha-nos sempre numa dor sem remédio. Porque temos de perder aqueles que amamos e que enchem as nossas vidas de luz? A ausência, a saudade, deixam-nos um enorme vazio, um vazio que não conseguimos preencher senão com lágrimas. É mesmo assim: essas lágrimas são o preço do amor. O próprio Jesus, diante da “partida” do seu amigo Lázaro, chorou. A nossa relação com aquela pessoa que amávamos estará definitivamente terminada? O adeus que lhe dissemos será um adeus até nunca mais? Jesus, depois de chorar pelo seu amigo Lázaro, chegou ao sepulcro onde Lázaro estava e mandou tirar aquela pedra que separava o mundo dos mortos do mundo dos vivos. Queria, talvez, dizer que essa separação não tinha sentido. Avisaram-no de que Lázaro estava morto há quatro dias e que “já cheirava mal”. Jesus limita-se a gritar: “Lázaro, sai para fora”. E, à voz de Jesus, Lázaro sai para fora para mostrar a todos que está vivo. Tem os pés e as mãos “enfaixados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário”. Traz consigo os sinais e as ligaduras da morte. No entanto, sai do sepulcro pelo seu próprio pé. Lázaro, sepultado há quatro dias, está vivo. O que é que o nosso “catequista” quer dizer com isto? Simplesmente que os nossos queridos mortos, aqueles de quem nos despedimos e abandonamos num sepulcro, estão vivos! Deus não os abandonou. Conscientes disso, retiremos a “pedra” que nos afasta dos que já partiram. Não os perdemos. Eles estão vivos. De junto de Deus, eles continuam a acompanhar-nos e a amar-nos. Isso não será, para nós, motivo de consolação e de esperança?
    • Estamos a percorrer o “caminho quaresmal”, o caminho que nos leva em direção à Páscoa, à vida nova, à Ressurreição. É uma boa oportunidade para redescobrirmos o compromisso que assumimos no dia do nosso batismo e para redirecionarmos o sentido da nossa existência. Talvez as nossas mãos, os nossos pés, o nosso coração, estejam enfaixados por ligaduras que nos prendem na morte e que nos impedem de sair dos túmulos sujos em que nos deixamos encerrar pelo nosso egoísmo, pelo nosso comodismo, pelo nosso orgulho, pela nossa ambição, pela nossa autossuficiência… Talvez necessitemos de prestar atenção à voz de Jesus que nos chama (“Lázaro, sai para fora”) e que nos convida a começar uma vida nova, uma vida gloriosa e cheia de sentido. Quais são as “ataduras” que nos mantêm agarrados a uma vida de sombras e de escravidões? Nesta Páscoa, estamos dispostos a ressuscitar com Jesus e a passar com Ele da morte para a vida?

     

    ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 5.º DOMINGO DA QUARESMA

    (adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)

    1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.

    Ao longo dos dias da semana anterior ao 5.º Domingo da Quaresma, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

    2. INCLINAÇÃO NO MOMENTO PENITENCIAL.

    Neste domingo sob o signo da Ressurreição e da Vida, eis uma sugestão para renovar o rito penitencial. Depois de uma breve introdução, o presidente da assembleia, virado para a cruz, inclina-se profundamente, assim como toda a assembleia. Permanecer assim durante algum tempo, em profundo silêncio… Seguem-se algumas invocações penitenciais que podem ter como resposta: “Senhor, dai-nos a Vida!”

    3. RENOVAR A PROFISSÃO DE FÉ.

    Habitualmente, dizemos o Credo com um ar demasiado rotineiro e repetitivo… Como transmitir-lhe mais alegria e entusiasmo interior? Uma brevíssima introdução pode motivar a uma maior atenção à recitação do Credo. Pode-se ainda proclamar o Símbolo dos Apóstolos (dando o texto antecipadamente, pois não é sabido de cor). Pode-se também proclamar a fórmula do credo batismal (dialogada)…

    4. BILHETE DE EVANGELHO.

    A vida é esperança. Estão vivos aqueles que esperam. Depois do momento do nosso nascimento, em que fomos criados, somos habitados pela esperança. Não cessamos de procurar, esperar, desejar. Procuramos os sinais de Deus? Esperamos a sua vinda? Desejamos a sua presença? Neste tempo da Quaresma, somos convidados à conversão. A esperança opera uma mudança nos nossos comportamentos. Não nos contentemos com esperanças que nos podem dececionar. Nós vivemos de esperança, porque Deus não pode dececionar-nos. Porque o nosso Deus é um Deus que fala, somos chamados por Ele. A esperança faz-nos escutar os seus apelos e responder-lhes. Sejamos vivos. Sê-lo-emos se nós esperamos.

    5. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.

    Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

    No final da primeira leitura:
    Deus, nosso Pai, nós Te bendizemos, porque és o Deus da Vida. Tu o mostraste, libertando o teu povo, desde o tempo de Isaac, de Moisés e do exílio.

    Nós Te pedimos pelo teu novo Povo: levanta as comunidades cristãs de todas as formas de morte, divisões, indiferenças, tédio, isolamento do mundo. Venha sobre nós o teu Espírito de Vida.

     

    No final da segunda leitura:
    Pai de Jesus Cristo, nós Te damos graças porque o teu Espírito habita em nós e pelo teu Batismo nos incorporaste ao teu Filho.

    Nós Te pedimos: vê as nossas fraquezas. Abrimos as nossas mãos para Ti, para Te pedir o teu Espírito: que Ele dê vida aos nossos corpos mortais, que Ele nos justifique com a justiça que está em Ti.

     

    No final do Evangelho:
    Senhor Jesus, proclamamos a tua glória, porque em Ti irradia a luz da vida e da ressurreição: associaste-te aos nossos lutos, chamas os teus amigos a sair dos seus túmulos, Tu arranca-los ao sono da morte.

    Nós Te pedimos: desperta em nós a fé. Tu que libertaste Lázaro das ligaduras, liberta-nos dos laços que nos paralisam diante do próximo.

    6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.

    Pode-se escolher a Oração Eucarística IV.

    7. PALAVRA PARA O CAMINHO.

    O passo da confiança… A que “empresa” estamos nós sujeitos? À do Espírito de Cristo ressuscitado? Ou à da carne, isto é, aquela de todas as contingências humanas que esgotam o nosso tempo e a nossa energia? Ousaremos dar o passo da confiança? Ousaremos entregar-nos a este Espírito que habita em nós para nos comprometermos na sua plenitude de Vida? A quem pertencemos nós?

     

    UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
    PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA
    Grupo Dinamizador:
    José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
    Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
    Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
    www.dehonianos.org

     

  • Anunciação do Senhor

    Anunciação do Senhor


    25 de Março, 2026

    A solenidade da Anunciação do Senhor é a celebração do grande mistério cristão da Encarnação do Verbo de Deus. A data de 25 de Março está em função do Nascimento de Jesus, que é celebração exatamente nove meses depois. A catequese sempre fez coincidir a Anunciação e a Encarnação. Estes mistérios começaram a ser celebrados liturgicamente provavelmente depois da edificação da basílica constantiniana sobre a casa de Maria, em Nazaré, no século IV. A celebração no Oriente e no Ocidente data do século VII. Durante séculos, esta solenidade teve sobretudo carácter mariano. Mas Paulo VI devolveu-lhe o título de "Anunciação do Senhor", repondo o seu carácter predominantemente cristológico. Em síntese, trata-se de uma "celebração (que) era e é festa de Cristo e da Virgem: do Verbo que se torna filho de Maria e da Virgem que se torna Mãe de Deus" (Marialis cultus 6).

    Lectio

    Primeira leitura: Isaías 7, 10-14; 8, 10

    Naqueles dias, o Senhor mandou dizer de novo a Acaz: 11«Pede ao Senhor teu Deus um sinal, quer no fundo dos abismos, quer lá no alto dos céus.» 12Acaz respondeu: «Não pedirei tal coisa, não tentarei o Senhor.» 13Isaías respondeu: «Escuta, pois, casa de David: Não vos basta já ser molestos para os homens, senão que também ousais sê-lo para o meu Deus? 14Por isso, o Senhor, por sua conta e risco, vos dará um sinal. Olhai: a jovem está grávida e vai dar à luz um filho, e há-de pôr-lhe o nome de Emanuel. 10Traçai planos, que serão frustrados; ordenai ameaças, que não serão executadas, pois temos o Emanuel: «Deus-connosco.»

    Acaz, rei de Jerusalém, vê vacilar o seu trono devido à aproximação de exércitos inimigos. A sua primeira reação é entrar numa política de alianças humanas. Isaías, pelo contrário, propõe a resolução do problema pela confiança em Deus. Convida o rei a pedir um «sinal» (v. 11) que seja confirmação da assistência divina. Acaz recusa a proposta: «não tentarei o Senhor» (v. 12). Fá-lo por hipocrisia, e não por verdadeiro sentido religioso. Isaías insiste que, apesar da recusa do rei, Deus lhe dará um sinal: «a jovem está grávida e vai dar à luz um filho, e há-de pôr-lhe o nome de Emanuel: «Deus-connosco». O sentido imediato destas palavras refere-se a Ezequias, filho de Acaz, que a rainha está para dar à luz. O seu nascimento, nesse momento histórico, é interpretado como sinal da presença salvadora de Deus em favor do seu povo aflito. Mais profundamente, as palavras de Isaías são profecia de um futuro rei Salvador. A tradição cristã sempre viu neste oráculo o anúncio profético do nascimento de Jesus, filho de Maria Virgem.

    Segunda leitura: Hebreus 10, 4-10

    Irmãos, é impossível que o sangue dos touros e dos bodes apague os pecados. 5Por isso, ao entrar no mundo, Cristo diz: «Tu não quiseste sacrifício nem oferenda, mas reparaste-me um corpo. 6Não te agradaram holocaustos nem sacrifícios pelos pecados. 7Então, Eu disse: Eis que venho - como está escrito no livro a meu respeito -para fazer, ó Deus, a tua vontade. 8Disse primeiro: Não quiseste nem te agradaram sacrifícios, oferendas e holocaustos pelos pecados - e, no entanto, eram oferecidos segundo a Lei. 9Disse em seguida: Eis que venho para fazer a tua vontade. Suprime, assim, o primeiro culto, para instaurar o segundo. 10E foi por essa vontade que nós fomos santificados, pela oferta do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez para sempre.

    Este texto, retirado do seu contexto, procura demonstrar que o sacrifício de Cristo é superior aos sacrifícios do Antigo Testamento. O autor da Carta aos Hebreus relê o Salmo 39 - utilizado pela liturgia desta solenidade como Salmo Responsorial - como se fosse uma declaração de intenções do próprio Cristo ao entrar no mundo, no momento da Incarnação. Esta é também a atitude obediencial do povo da antiga aliança e de todo o piedoso cantor do salmo: «: Eis que venho, ó Deus, para fazer a tua vontade.». A Incarnação como atitude obediencial acontece no dia da Anunciação do Senhor a Maria. Esse dia inaugura a peregrinação messiânica que conduzirá à doação do corpo de Cristo no sacrifício salvífico, novo e inovador, único e indispensável, que se completa no sacrifício da cruz.

    Evangelho: Lucas 1, 26-38

    Naquele tempo, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, 27a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria. 28Ao entrar em casa dela, o anjo disse-lhe: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo.» 29Ao ouvir estas palavras, ela perturbou-se e inquiria de si própria o que significava tal saudação. 30Disse-lhe o anjo: «Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus. 31Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. 32Será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo. O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de seu pai David, 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim.» 34Maria disse ao anjo: «Como será isso, se eu não conheço homem?» 35O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus. 36Também a tua parente Isabel concebeu um filho na sua velhice e já está no sexto mês, ela, a quem chamavam estéril, 37porque nada é impossível a Deus.» 38Maria disse, então: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.» E o anjo retirou-se de junto dela.

    Uma possível chave de leitura deste texto é ver nele um relato biográfico feito por Lucas que terá ouvido atentamente as confidências de Maria. No diálogo entre Deus e a menina de Nazaré - pela mediação do anjo Gabriel - revela-nos uma relação viva entre o divino e o humano, em que a proposta do alto vai sendo progressivamente esclarecida. O mensageiro respeita a condição humana de uma rapariga virgem que recebe uma proposta inesperada: ser mãe do Messias. Maria, a virgem prometida como esposa a José, aproxima-se progressivamente do mistério, deixando-se conscientemente envolver por ele, disponibilizando-se e adequando à proposta de Deus o seu próprio projeto. E termina pronunciando o seu «Eis-me aqui!» (cf. v. 38).

    Meditatio

    O mistério celebrado hoje é a conceição do Filho de Deus no seio da Virgem Maria. Na basílica nazaretana da Anunciação, diante do altar, há uma placa de mármore que os peregrinos beijam com emoção e onde está escrito: "Aqui de Maria Virgem fez-se carne o Verbo".
    No texto da Carta aos Hebreus, o hagiógrafo refere ou interpreta a anunciação de Cristo; no texto de Lucas, o evangelista narra a anunciação a Maria. Cristo toma a iniciativa de declarar aquilo que Ele mesmo compreende; Maria recebe uma palavra que vem de fora de si mesma, uma palavra cheia de propostas de um Outro. O paralelismo transforma-se em coincidência na explicitação da disponibilidade de ambos para fazerem a vontade divina; é uma disponibilidade separada por qualidade e quantidade de consciência, mas que converge na finalidade de obediência total ao projeto de Deus: Ecce venio, ecce ancilla, eis-me aqui! Eis a serva!
    A atitude de obediência irá aproximar a mãe e o filho, Maria "anunciada" e Jesus Cristo "anunciado". Ambos pronunciam o seu «Eis-me aqui!». Ambos se exprimem com voz quase idêntica: «faça-se em mim segundo a tua palavra», «Eis que venho para fazer, ó Deus, a tua vontade». Ambos entram na fisionomia de «serva» e de «servo» do Senhor. Esta sintonia encoraja os discípulos à disponibilidade para servir a palavra de Deus, porque o próprio Filho de Deus é servo e porque a Mãe de Deus é serva; ambos são servos de uma palavra que salva quem a serve e que traz salvação.
    Os Sacerdotes do Coração de Jesus são chamados a viver a espiritualidade oblativa, a fazerem da sua vida e obras uma oferta de amor que se concretiza, em primeiro lugar, na disponibilidade para cumprir a vontade de Deus, mesmo quando ela exige renúncia, sacrifício. Unem-se à oblação perfeita de Cristo ao Pai com o sacrifício das suas vidas, "como oblação viva, santa e agradável a Deus" (cf. Rom 12, 1), a realizar-se na contemplação e no apostolado (cf. Cst nn. 24 e 58).
    Esta espiritualidade oblativa é bem expressa, segundo o P. Dehon, pelo "Ecce venio" (Eis-me aqui!) (Heb 10, 7): "Nestas palavras: Ecce venio,.. Ecce ancilla..., encerram-se toda a nossa vocação, a nossa finalidade, o nosso dever, as nossas promessas" (Dir. Esp. I. 3)." (Cst. n. 6; cf. Cst nn. 53.58.85).

    Oratio

    Salve Santa Maria, serva humilde do Senhor, mãe gloriosa de Cristo! Salve, Virgem fiel! Ensina-nos a ser dóceis ao Espírito. Ensina-nos a viver em atitude de escuta da Palavra, atentos às suas inspirações e às suas manifestações na vida dos irmãos, nos acontecimentos da história, no gemido e no júbilo da criação. Virgem da escuta, virgem orante, acolhe as súplicas dos teus servos. Ajuda-nos a abandonar-nos ao Senhor, a unir-nos ao Ecce venio de Jesus e ao teu Ecce ancilla. Ajuda-nos a compreender que já não podemos ter outra vontade que não a do Pai, outra regra que o seu beneplácito. Que, em cada instante, procuremos a vontade de Deus e nos conformemos a ela (cf. Leão Dehon, OSP 3, p. 329).

    Contemplatio

    Ecce venio, regra de vida de Jesus. - Foi neste dia que Nosso Senhor disse o seu Ece venio e que Maria disse o seu Ecce ancilla. O apóstolo S. Paulo regista-o, foi ao entrar neste mundo pela Incarnação que Nosso Senhor formulou o seu abandono ao beneplácito do Pai e a regra de toda a sua vida: Eis que venho, meu Pai, para fazer a vossa vontade (Heb 10,5). Tinha dito por David que tal seria a lei do seu Coração (Sl 39). Colocou esta lei do abandono, da obediência, da conformidade à vontade do seu Pai, no fundo do seu Coração para a consultar sem cessar, para a seguir sempre, para dela fazer a rega de toda a sua vida. E do seu Coração ela subia sem cessar aos seus lábios, como o Evangelho mesmo o indica: «Meu Pai, que a vossa vontade seja feita. - Meu Pai, que assim seja, pois que vós o quereis. - Meu Pai, não a minha vontade, mas a vossa». Estas indicações do Evangelho bastam para mostrar que aí estava para Nosso Senhor uma regra de vida e um pensamento habitual do seu Coração. O que Ele procura sempre, não é nem o interesse nem o prazer, mas a vontade do seu Pai. A única questão que se coloca antes de agir é sempre esta: «Meu Pai, que quereis que Eu faça?» (Leão Dehon, OSP 3, p. 328).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 2, 38).

     

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    Anunciação do Senhor (25 Março)

     

  • Domingo de Ramos - Ano A

    Domingo de Ramos - Ano A

    29 de Março, 2026

    ANO A
    DOMINGO DE RAMOS

    Tema do Domingo de Ramos

    A liturgia deste último domingo da Quaresma convida-nos a contemplar esse Deus que, por amor, desceu ao nosso encontro, partilhou a nossa humanidade, fez-Se servo dos homens, deixou-Se matar para que o egoísmo e o pecado fossem vencidos. A cruz (que a liturgia deste domingo coloca no horizonte próximo de Jesus) apresenta-nos a lição suprema, o último passo desse caminho de vida nova que, em Jesus, Deus nos propõe: a doação da vida por amor.
    A primeira leitura apresenta-nos um profeta anónimo, chamado por Deus a testemunhar no meio das nações a Palavra da salvação. Apesar do sofrimento e da perseguição, o profeta confiou em Deus e concretizou, com teimosa fidelidade, os projectos de Deus. Os primeiros cristãos viram neste "servo" a figura de Jesus.
    A segunda leitura apresenta-nos o exemplo de Cristo. Ele prescindiu do orgulho e da arrogância, para escolher a obediência ao Pai e o serviço aos homens, até ao dom da vida. É esse mesmo caminho de vida que a Palavra de Deus nos propõe.
    O Evangelho convida-nos a contemplar a paixão e morte de Jesus: é o momento supremo de uma vida feita dom e serviço, a fim de libertar os homens de tudo aquilo que gera egoísmo e escravidão. Na cruz, revela-se o amor de Deus - esse amor que não guarda nada para si, mas que se faz dom total.

    LEITURA I - Is 50,4-7

    Leitura do Livro de Isaías

    O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo,
    para que eu saiba dizer uma palavra de alento
    aos que andam abatidos.
    Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos,
    para eu escutar, como escutam os discípulos.
    O Senhor Deus abriu-me os ouvidos
    e eu não resisti nem recuei um passo.
    Apresentei as costas àqueles que me batiam,
    e a face aos que me arrancavam a barba;
    não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam.
    Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio,
    e, por isso, não fiquei envergonhado;
    tornei o meu rosto duro como pedra,
    e sei que não ficarei desiludido.

    AMBIENTE

    No livro do Deutero-Isaías (Is 40-55), encontramos quatro poemas que se destacam do resto do texto (cf. Is 42,1-9; 49,1-13; 50,4-11; 52,13-53,12). Apresentam-nos uma figura enigmática de um "servo de Jahwéh", que recebeu de Deus uma missão. Essa missão tem a ver com a Palavra de Deus e tem carácter universal; concretiza-se no sofrimento, na dor e no abandono incondicional à Palavra e aos projectos de Deus. Apesar de a missão terminar num aparente insucesso, a dor do profeta não foi em vão: ela tem um valor expiatório e redentor; do seu sofrimento resulta o perdão para o pecado do Povo. Deus aprecia o sacrifício do profeta e recompensá-lo-á, elevando-o à vista de todos, fazendo-o triunfar dos seus detractores e adversários.
    Quem é este profeta? É Jeremias, o paradigma do profeta que sofre por causa da Palavra? É o próprio Deutero-Isaías, chamado a dar testemunho da Palavra no ambiente hostil do Exílio? É um profeta desconhecido? É uma figura colectiva, que representa o Povo exilado, humilhado, esmagado, mas que continua a dar testemunho de Deus, no meio das outras nações? É uma figura representativa, que une a recordação de personagens históricas (patriarcas, Moisés, David, profetas) com figuras míticas, de forma a representar o Povo de Deus na sua totalidade? Não sabemos; no entanto, a figura apresentada nesses poemas vai receber uma outra iluminação à luz de Jesus Cristo, da sua vida, do seu destino.
    O texto que nos é proposto é parte do terceiro cântico do "servo de Jahwéh".

    MENSAGEM

    O texto dá a palavra a um personagem anónimo, que fala do seu chamamento por Deus para a missão. Ele não se intitula "profeta"; porém, narra a sua vocação com os elementos típicos dos relatos proféticos de vocação.
    Em primeiro lugar, a missão que este "profeta" recebe de Deus tem claramente a ver com o anúncio da Palavra. O profeta é o homem da Palavra, através de quem Deus fala; a proposta de redenção que Deus faz a todos aqueles que necessitam de salvação/libertação ecoa na palavra profética. O profeta é inteiramente modelado por Deus e não opõe resistência nem ao chamamento, nem à Palavra que Deus lhe confia; mas tem de estar, continuamente, numa atitude de escuta de Deus, para que possa depois apresentar - com fidelidade - essa Palavra de Deus para os homens.
    Em segundo lugar, a missão profética concretiza-se no sofrimento e na dor. É um tema sobejamente conhecido da literatura profética: o anúncio das propostas de Deus provoca resistências que, para o profeta, se consubstanciam, quase sempre, em dor e perseguição. No entanto, o profeta não se demite: a paixão pela Palavra sobrepõe-se ao sofrimento.
    Em terceiro lugar, vem a expressão de confiança no Senhor, que não abandona aqueles a quem chama. A certeza de que não está só, mas de que tem a força de Deus, torna o profeta mais forte do que a dor, o sofrimento, a perseguição. Por isso, o profeta "não será confundido".

    ACTUALIZAÇÃO

    A reflexão pode tocar os seguintes aspectos:

    • Não sabemos, efectivamente, quem é este "servo de Jahwéh"; no entanto, os primeiros cristãos vão utilizar este texto como grelha para interpretar o mistério de Jesus: Ele é a Palavra de Deus feita carne, que oferece a sua vida para trazer a salvação/libertação aos homens... A vida de Jesus realiza plenamente esse destino de dom e de entrega da vida em favor de todos; e a sua glorificação mostra que uma vida vivida deste jeito não termina no fracasso, mas na ressurreição que gera vida nova.

    • Jesus, o "servo" sofredor, que faz da sua vida um dom por amor, mostra aos seus seguidores o caminho: a vida, quando é posta ao serviço da libertação dos pobres e dos oprimidos, não é perdida mesmo que pareça, em termos humanos, fracassada e sem sentido. Temos a coragem de fazer da nossa vida uma entrega radical ao projecto de Deus e à libertação dos nossos irmãos? O que é que ainda entrava a nossa aceitação de uma opção deste tipo? Temos consciência de que, ao escolher este caminho, estamos a gerar vida nova, para nós e para os nossos irmãos?

    • Temos consciência de que a nossa missão profética passa por sermos Palavra viva de Deus? Nas nossas palavras, nos nossos gestos, no nosso testemunho, a proposta libertadora de Deus alcança o mundo e o coração dos homens?

    SALMO RESPONSORIAL - Salmo 21 (22)

    Refrão: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?

    Todos os que me vêem escarnecem de mim,
    estendem os lábios e meneiam a cabeça:
    «Confiou no Senhor, Ele que o livre,
    Ele que o salve, se é seu amigo».

    Matilhas de cães me rodearam,
    cercou-me um bando de malfeitores.
    Trespassaram as minhas mãos e os meus pés,
    posso contar todos os meus ossos.

    Repartiram entre si as minhas vestes
    e deitaram sortes sobre a minha túnica.
    Mas Vós, Senhor, não Vos afasteis de mim,
    sois a minha força, apressai-Vos a socorrer-me.

    Hei-de falar do vosso nome aos meus irmãos,
    hei-de louvar-Vos no meio da assembleia.
    Vós, que temeis o Senhor, louvai-O,
    glorificai-O, vós todos os filhos de Jacob,
    reverenciai-O, vós todos os filhos de Israel.

    LEITURA II - Fil 2,6-11

    Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses

    Cristo Jesus, que era de condição divina,
    não Se valeu da sua igualdade com Deus,
    mas aniquilou-Se a Si próprio.
    Assumindo a condição de servo,
    tornou-Se semelhante aos homens.
    Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais,
    obedecendo até à morte e morte de cruz.
    Por isso Deus O exaltou
    e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes,
    para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem
    no céu, na terra e nos abismos,
    e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor,
    para glória de Deus Pai.

    AMBIENTE

    A cidade de Filipos era uma cidade próspera, com uma população constituída maioritariamente por veteranos romanos do exército. Organizada à maneira de Roma, estava fora da jurisdição dos governantes das províncias locais e dependia directamente do imperador; gozava, por isso, dos mesmos privilégios das cidades de Itália. A comunidade cristã, fundada por Paulo, era uma comunidade entusiasta, generosa, comprometida, sempre atenta às necessidades de Paulo e do resto da Igreja (como no caso da colecta em favor da Igreja de Jerusalém - cf. 2 Cor 8,1-5), por quem Paulo nutria um afecto especial. Apesar destes sinais positivos, não era, no entanto, uma comunidade perfeita... O desprendimento, a humildade e a simplicidade não eram valores demasiado apreciados entre os altivos patrícios que compunham a comunidade.
    É neste enquadramento que podemos situar o texto que esta leitura nos apresenta. Paulo convida os Filipenses a encarnar os valores que marcaram a trajectória existencial de Cristo; para isso, utiliza um hino pré-paulino, recitado nas celebrações litúrgicas cristãs: nesse hino, ele expõe aos cristãos de Filipos o exemplo de Cristo.

    MENSAGEM

    Cristo Jesus - nomeado no princípio, no meio e no fim - constitui o motivo do hino. Dado que os Filipenses são cristãos - quer dizer, dado que Cristo é o protótipo a cuja imagem estão configurados - têm a iniludível obrigação de comportar-se como Cristo. Como é o exemplo de Cristo?
    O hino começa por aludir subtilmente ao contraste entre Adão (o homem que reivindicou ser como Deus e Lhe desobedeceu - cf. Gn 3,5.22) e Cristo (o Homem Novo que, ao orgulho e revolta de Adão responde com a humildade e a obediência ao Pai). A atitude de Adão trouxe fracasso e morte; a atitude de Jesus trouxe exaltação e vida.
    Em traços precisos, o hino define o "despojamento" ("kenosis") de Cristo: Ele não afirmou com arrogância e orgulho a sua condição divina, mas aceitou fazer-Se homem, assumindo com humildade a condição humana, para servir, para dar a vida, para revelar totalmente aos homens o ser e o amor do Pai. Não deixou de ser Deus; mas aceitou descer até aos homens, fazer-Se servidor dos homens, para garantir vida nova para os homens. Esse "abaixamento" assumiu mesmo foros de escândalo: Jesus aceitou uma morte infamante - a morte de cruz - para nos ensinar a suprema lição do serviço, do amor radical, da entrega total da vida.
    No entanto, essa entrega completa ao plano do Pai não foi uma perda nem um fracasso: a obediência e entrega de Cristo aos projectos do Pai resultaram em ressurreição e glória. Em consequência da sua obediência, do seu amor, da sua entrega, Deus fez d'Ele o "Kyrios" ("Senhor" - nome que, no Antigo Testamento, substituía o nome impronunciável de Deus); e a humanidade inteira ("os céus, a terra e os infernos") reconhece Jesus como "o Senhor" que reina sobre toda a terra e que preside à história.
    É óbvio o apelo à humildade, ao desprendimento, ao dom da vida, que Paulo aqui faz aos Filipenses e a todos os crentes: o cristão deve ter como exemplo esse Cristo, servo sofredor e humilde, que fez da sua vida um dom a todos. Esse caminho não levará ao aniquilamento, mas à glória, à vida plena.

    ACTUALIZAÇÃO

    A reflexão pode partir dos seguintes desenvolvimentos:

    • Os valores que marcaram a existência de Cristo continuam a não ser demasiado apreciados no séc. XXI. De acordo com os critérios que presidem à construção do nosso mundo, os grandes "ganhadores" não são os que põem a sua vida ao serviço dos outros, com humildade e simplicidade, mas são os que enfrentam o mundo com agressividade, com auto-suficiência e fazem por ser os melhores, mesmo que isso signifique não olhar a meios para passar à frente dos outros. Como pode um cristão (obrigado a viver inserido neste mundo e a ser competitivo) conviver com estes valores?

    • Paulo tem consciência de que está a pedir aos seus cristãos algo realmente difícil; mas é algo que é fundamental, à luz do exemplo de Cristo. Também a nós é pedido, nestes últimos dias antes da Páscoa, um passo em frente neste difícil caminho da humildade, do serviço, do amor: será possível que, também aqui, sejamos as testemunhas da lógica de Deus?

    • Os acontecimentos que, nesta semana, vamos celebrar, garantem-nos que o caminho do dom da vida não é um caminho de "perdedores" e fracassados: o caminho do dom da vida conduz ao sepulcro vazio da manhã de Páscoa, à ressurreição. É um caminho que garante a vitória e a vida plena.

    ACLAMAÇÃO ANTES DO EVANGELHO - Filip 2,8-9

    Escolher um dos refrães:

    Refrão 1: Louvor e glória a Vós, Jesus Cristo, Senhor.
    Refrão 2: Glória a Vós, Jesus Cristo, Sabedoria do Pai.
    Refrão 3: Glória a Vós, Jesus Cristo, Palavra do Pai.
    Refrão 4: Glória a Vós, Senhor, Filho do Deus vivo.
    Refrão 5: Louvor a Vós, Jesus Cristo, Rei da eterna glória.
    Refrão 6: Grandes e admiráveis são as vossas obras, Senhor.
    Refrão 7: A salvação, a glória e o poder a Jesus Cristo, Nosso Senhor.

    Cristo obedeceu até à morte e morte de cruz.
    Por isso Deus O exaltou
    e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes.

    EVANGELHO - Mt 26,14 - 27,66

    N Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

    N Naquele tempo,
    um dos doze, chamado Judas Iscariotes,
    foi ter com os príncipes dos sacerdotes e disse-lhes:
    R «Que estais dispostos a dar-me para vos entregar Jesus?»
    N Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata.
    E a partir de então,
    Judas procurava uma oportunidade para O entregar.
    No primeiro dia dos Ázimos,
    os discípulos foram ter com Jesus e perguntaram-Lhe:
    R «Onde queres que façamos os preparativos
    para comer a Páscoa?»
    N Ele respondeu:
    J «Ide à cidade, a casa de tal pessoa, e dizei-lhe:
    'O Mestre manda dizer:
    O meu tempo está próximo.
    É em tua casa que eu quero celebrar a Páscoa
    com os meus discípulos'».
    N Os discípulos fizeram como Jesus lhes tinha mandado,
    e prepararam a Páscoa.

    N Ao cair da noite, sentou-Se à mesa com os Doze.
    Enquanto comiam, declarou:
    J «Em verdade vos digo:
    Um de vós há-de entregar-Me».
    N Profundamente entristecidos,
    começou cada um a perguntar-Lhe:
    R «Serei eu, Senhor?»
    N Jesus respondeu:
    J «Aquele que meteu comigo a mão no prato
    é que há-de entregar-Me.
    O Filho do homem vai partir,
    como está escrito acerca d'Ele.
    Mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser entregue!
    Melhor seria para esse homem não ter nascido».
    N Judas, que O ia entregar, tomou a palavra e perguntou:
    R «Serei eu, Mestre?»
    N Respondeu Jesus:
    J «Tu o disseste».

    N Enquanto comiam,
    Jesus tomou o pão, recitou a bênção,
    partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo:
    J «Tomai e comei: Isto é o meu Corpo».
    N Tomou em seguida um cálice,
    deu graças e entregou-lho, dizendo:
    J «Bebei dele todos,
    porque este é o meu Sangue, o Sangue da aliança,
    derramado pela multidão,
    para remissão dos pecados.
    Eu vos digo que não beberei mais deste fruto da videira,
    até ao dia em que beberei convosco
    o vinho novo no reino de meu Pai».

    N Cantaram os salmos
    e seguiram para o Monte das Oliveiras.

    N Então, Jesus disse-lhes:
    J «Todos vós, esta noite, vos escandalizareis por minha causa,
    como está escrito:
    'Ferirei o pastor e dispersar-se-ão as ovelhas do rebanho'.
    Mas, depois de ressuscitar,
    preceder-vos-ei a caminho da Galileia».
    N Pedro interveio, dizendo:
    R «Ainda que todos se escandalizem por tua causa,
    eu não me escandalizarei».
    N Jesus respondeu-lhe:
    J «Em verdade te digo:
    Esta mesma noite, antes do galo cantar,
    Me negarás três vezes».
    N Pedro disse-lhe:
    R «Ainda que tenha de morrer contigo, não Te negarei».
    N E o mesmo disseram todos os discípulos.

    N Então, Jesus chegou com eles a uma propriedade,
    chamada Getsémani
    e disse aos discípulos:
    J «Ficai aqui, enquanto Eu vou além orar».
    N E, tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu,
    começou a entristecer-Se e a angustiar-Se.
    Disse-lhes então:
    J «A minha alma está numa tristeza de morte.
    Ficai aqui e vigiai comigo».
    N E adiantando-Se um pouco mais, caiu com o rosto por terra,
    enquanto orava e dizia:
    J «Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice.
    Todavia, não se faça como Eu quero,
    mas como Tu queres».
    N Depois, foi ter com os discípulos,
    encontrou-os a dormir e disse a Pedro:
    J «Nem sequer pudestes vigiar uma hora comigo!
    Vigiai e orai, para não cairdes em tentação.
    O espírito está pronto, mas a carne é fraca».

    N De novo Se afastou, pela Segunda vez, e orou, dizendo:
    J «Meu Pai,
    se este cálice não pode passar sem que Eu o beba,
    faça-se a tua vontade».
    N Voltou novamente e encontrou-os a dormir,
    pois os seus olhos estavam pesados de sono.
    Deixou-os e foi de novo orar, pela terceira vez,
    repetindo as mesmas palavras.
    Veio então ao encontro dos discípulos e disse-lhes:
    J «Dormi agora e descansai.
    Chegou a hora em que o Filho do homem
    vai ser entregue às mãos dos pecadores.
    Levantai-vos, vamos.
    Aproxima-se aquele que Me vai entregar».
    N Ainda Jesus estava a falar,
    quando chegou Judas, um dos Doze,
    e com ele uma grande multidão, com espadas e varapaus,
    enviada pelos príncipes dos sacerdotes
    e pelos anciãos do povo.
    O traidor tinha-lhes dado este sinal:
    R «Aquele que eu beijar, é esse mesmo. Prendei-O».
    N Aproximou-se imediatamente de Jesus e disse-Lhe:
    R «Salve, Mestre!».
    N E beijou-O.
    Jesus respondeu-lhe:
    J «Amigo, a que vieste?».
    N Então avançaram, deitaram as mãos a Jesus
    e prenderam-n'O.
    Um dos que estavam com Jesus levou a mão à espada,
    desembainhou-a e feriu um servo do sumo sacerdote,
    cortando-lhe uma orelha.
    Jesus disse-lhe:
    J «Mete a tua espada na bainha,
    pois todos os que puxarem da espada morrerão à espada.
    Pensas que não posso rogar a meu Pai
    que ponha já ao meu dispor mais de doze legiões de Anjos?
    Mas como se cumpririam as Escrituras,
    segundo as quais assim tem de acontecer?».
    N Voltando-Se depois para a multidão, Jesus disse:
    J «Viestes com espadas e varapaus para Me prender
    como se fosse um salteador!
    Eu estava todos os dias sentado no templo a ensinar
    e não Me prendestes...
    Mas, tudo isto aconteceu
    para se cumprirem as Escrituras das profetas».
    N Então todos os discípulos O abandonaram e fugiram.

    N Os que tinham prendido Jesus
    levaram-n'O à presença do sumo sacerdote Caifás,
    onde os escribas e os anciãos se tinham reunido.
    Pedro foi-O seguindo de longe,
    até ao palácio do sumo sacerdote.
    Aproximando-se, entrou e sentou-se com os guardas,
    para ver como acabaria tudo aquilo.
    Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e todo o Sinédrio
    procuravam um testemunho falso contra Jesus
    para O condenarem à morte,
    mas não o encontravam,
    embora se tivessem apresentado muitas testemunhas falsas.
    Por fim, apresentaram-se duas que disseram:
    R «Este homem afirmou:
    'Posso destruir o templo de Deus
    e reconstruí-lo em três dias'».
    N Então, o sumo sacerdote levantou-se e disse a Jesus:
    R «Não respondes nada?
    Que dizes ao que depõem contra Ti?»
    N Mas Jesus continuava calado.
    Disse-Lhe o sumo sacerdote:
    «Eu Te conjuro pelo Deus vivo,
    que nos declares se és Tu o Messias, o Filho de Deus».
    N Jesus respondeu-lhe:
    J «Tu o disseste.
    E Eu digo-vos:
    vereis o Filho do homem
    sentado à direita do Todo-poderoso,
    vindo sobre as nuvens do céu».
    N Então, o sumo sacerdote rasgou as vestes, dizendo:
    R «Blasfemou.
    Que necessidade temos de mais testemunhas?
    Acabais de ouvir a blasfémia. Que vos parece?»
    N Eles responderam:
    R «É réu de morte».
    N Cuspiram-Lhe então no rosto e deram-Lhe punhadas.
    Outros esbofeteavam-n'O, dizendo:
    R «Adivinha, Messias: quem foi que Te bateu?»

    N Entretanto, Pedro estava sentado no pátio.
    Uma criada aproximou-se dele e disse-lhe:
    R «Tu também estavas com Jesus, o galileu».
    N Mas ele negou diante de todos, dizendo:
    R «Não sei o que dizes».
    N Dirigindo-se para a porta,
    foi visto por outra criada que disse aos circunstantes:
    R «Este homem estava com Jesus de Nazaré».
    N E, de novo, ele negou com juramento:
    R «Não conheço tal homem».
    N Pouco depois, aproximaram-se os que ali estavam
    e disseram a Pedro:
    R «Com certeza tu és deles, pois até a fala te denuncia».
    N Começou então a dizer imprecações e a jurar:
    R «Não conheço tal homem».
    N E, imediatamente, um galo cantou.
    Então, Pedro lembrou-se das palavras que Jesus dissera:
    «Antes do galo cantar, tu Me negarás três vezes».
    E, saindo, chorou amargamente.

    Ao romper da manhã,
    todos os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo
    se reuniram em conselho contra Jesus,
    para Lhe darem a morte.
    Depois de Lhe atarem as mãos,
    levaram-n'O e entregaram-n'O ao governador Pilatos.

    Então Judas, que entregara Jesus,
    vendo que Ele tinha sido condenado,
    tocado pelo remorso, devolveu as trinta moedas de prata
    aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos, dizendo:
    R «Pequei, entregando sangue inocente».
    N Mas eles replicaram:
    R «Que nos importa? É lá contigo».
    N Então, arremessou as moedas para o santuário,
    saiu dali e foi-se enforcar.
    Mas os príncipes dos sacerdotes
    apanharam as moedas e disseram:
    R «Não se podem lançar no tesouro,
    porque são preço de sangue».
    N E, depois de terem deliberado,
    compraram com elas o Campo do Oleiro.
    Por este motivo se tem chamado àquele campo,
    até ao dia de hoje, «Campo de Sangue».
    Cumpriu-se então o que fora dito pelo profeta:
    «Tomaram trinta moedas de prata,
    preço em que foi avaliado
    Aquele que os filhos de Israel avaliaram
    e deram-nas pelo Campo do Oleiro,
    como o Senhor me tinha ordenado».

    N Entretanto, Jesus foi levado à presença do governador,
    que lhe perguntou:
    R «Tu és o Rei dos judeus?»
    N Jesus respondeu:
    J «É como dizes».
    N Mas, ao ser acusado pelos príncipes dos sacerdotes
    e pelos anciãos, nada respondeu.
    Disse-Lhe então Pilatos:
    R «Não ouves quantas acusações levantam contra Ti?»
    N Mas Jesus não respondeu coisa alguma,
    a ponto de o governador ficar muito admirado.

    Ora, pela festa da Páscoa,
    o governador costumava soltar um preso,
    à escolha do povo.
    Nessa altura, havia um preso famoso, chamado Barrabás.
    E, quando eles se reuniram, disse-lhes:
    R «Qual quereis que vos solte?»
    Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo?»
    N Ele bem sabia que O tinham entregado por inveja.
    Enquanto estava sentado no tribunal,
    a mulher mandou-lhe dizer:
    R «Não te prendas com a causa desse justo,
    pois hoje sofri muito em sonhos por causa d'Ele».

    N Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos
    persuadiram a multidão a que pedisse Barrabás
    e fizesse morrer Jesus.
    O governador tomou a palavra e perguntou-lhes:
    R «Qual dos dois quereis que vos solte?»
    N Eles responderam:
    R «Barrabás».
    N Disse-lhes Pilatos:
    R «E que hei-de fazer de Jesus, chamado Cristo?»
    N Responderam todos:
    R «Seja crucificado».
    N Pilatos insistiu:
    R «Que mal fez Ele?»
    N Mas eles gritavam cada vez mais:
    R «Seja crucificado».
    N Pilatos insistiu:
    R «Que mal fez Ele?»
    N Mas eles gritavam cada vez mais:
    R «Seja crucificado».
    N Pilatos, vendo que não conseguia nada
    e aumentava o tumulto,
    mandou vir água
    e lavou as mãos na presença da multidão, dizendo:
    R «Estou inocente do sangue deste homem.
    Isso é lá convosco».
    N E todo o povo respondeu:
    R «O seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos».
    N Soltou-lhes então Barrabás.
    E, depois de ter mandado açoitar Jesus,
    entregou-lh'O para ser crucificado.
    Então os soldados do governador
    levaram Jesus para o pretório
    e reuniram à volta d'Ele toda a coorte.
    Tiraram-Lhe a roupa e envolveram-n'O num manto vermelho.
    Teceram uma coroa de espinhos e puseram-Lha na cabeça
    e colocaram uma cana na sua mão direita.
    Ajoelhando diante d'Ele, escarneciam-n'O, dizendo:
    R «Salve, rei dos judeus!»
    N Depois, cuspiam-Lhe no rosto
    e, pegando na cana, batiam-Lhe com ela na cabeça.
    Depois de O terem escarnecido,
    tiraram-Lhe o manto, vestiram-Lhe as suas roupas
    e levaram-n'O para ser crucificado.

    N Ao saírem,
    encontraram um homem de Cirene, chamado Simão,
    e requisitaram-no para levar a cruz de Jesus.
    Chegados a um lugar chamado Gólgota,
    que quer dizer lugar do Calvário,
    deram-Lhe a beber vinho misturado com fel.
    Mas Jesus, depois de o provar, não quis beber.
    Depois de O terem crucificado,
    repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte,
    e ficaram ali sentados a guardá-l'O.
    Por cima da sua cabeça puseram um letreiro,
    indicando a causa da sua condenação:
    «Este é Jesus, o rei dos judeus».

    Foram crucificados com Ele dois salteadores,
    um à direita e outro à esquerda.
    Os que passavam insultavam-n'O
    e abanavam a cabeça, dizendo:
    R «Tu, que destruías o templo e o reedificavas em três dias,
    salva-Te a Ti mesmo;
    Se és Filho de Deus, desce da cruz».
    N Os príncipes dos sacerdotes,
    juntamente com os escribas e os anciãos,
    também troçavam d'Ele, dizendo:
    R «Salvou os outros e não pode salvar-Se a Si mesmo!
    Se é o Rei de Israel,
    desça agora da cruz e acreditaremos n'Ele.
    Confiou em Deus:
    Ele que O livre agora, se O ama,
    porque disse: 'Eu sou Filho de Deus'».
    N Até os salteadores crucificados com Ele o insultavam.

    Desde o meio-dia até às três horas da tarde,
    as trevas envolveram toda a terra.
    E, pelas três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte:
    J «Eli, Eli, lema sabachtani!»,
    N que quer dizer:
    «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?»
    Alguns dos presentes, ouvindo isto, disseram:
    R «Está a chamar por Elias».
    N Um deles correu a tomar uma esponja,
    embebeu-a em vinagre,
    pô-la na ponta duma cana e deu-Lhe a beber.
    Mas os outros disseram:
    R «Deixa lá. Vejamos se Elias vem salvá-l'O».
    N E Jesus, clamando outra vez com voz forte, expirou.

    N Então, o véu do templo rasgou-se em duas partes,
    de alto a baixo;
    a terra tremeu e as rochas fenderam-se.
    Abriram-se os túmulos
    e muitos dos corpos de santos que tinham morrido
    ressuscitaram;
    e, saindo do sepulcro, depois da ressurreição de Jesus,
    entraram na cidade santa e apareceram a muitos.
    Entretanto, o centurião e os que com ele guardavam Jesus,
    ao verem o tremor de terra e o que estava a acontecer,
    ficaram aterrados e disseram:
    R «Este era verdadeiramente Filho de Deus».

    N Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres
    que tinham seguido Jesus desde a Galileia, para O servirem.
    Entre elas encontrava-se Maria Madalena,
    Maria, mãe de Tiago e de José,
    e a mãe dos filhos de Zebedeu.
    Ao cair da tarde,
    veio um homem rico de Arimateia, chamado José,
    que também se tinha tornado discípulo de Jesus.
    Foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus.
    E Pilatos ordenou que lho entregassem.
    José tomou o corpo, envolveu-o num lençol limpo
    e depositou-o no seu sepulcro novo
    que tinha mandado escavar na rocha.
    Depois rolou uma grande pedra para a entrada do sepulcro,
    e retirou-se.
    Entretanto, estavam ali Maria Madalena e a outra Maria,
    sentadas em frente do sepulcro.

    No dia seguinte, isto é, depois da Preparação,
    os príncipes dos sacerdotes e os fariseus
    foram ter com Pilatos e disseram-lhe:
    R «Senhor, lembrámo-nos do que aquele impostor disse
    quando ainda era vivo:
    'Depois de três dias ressuscitarei'.
    Por isso, manda que o sepulcro seja mantido em segurança
    até ao terceiro dia,
    para que não venham os discípulos roubá-lo
    e dizer ao povo: 'Ressuscitou dos mortos'.
    E a última impostura seria pior do que a primeira».
    N Pilatos respondeu:
    R «Tendes à vossa disposição a guarda:
    ide e guardai-o como entenderdes».
    N Eles foram e guardaram o sepulcro,
    selando a pedra e pondo a guarda.

    AMBIENTE

    O Evangelho segundo Mateus começa por apresentar Jesus (cf. Mt 1,1-4,22). Descreve, depois, o anúncio central de Jesus: nas suas palavras e nos seus gestos, Jesus anuncia esse mundo novo a que Ele chama "o Reino dos céus" (cf. Mt 4,23-9,35). Do anúncio do "Reino" nasce a comunidade dos discípulos - isto é, nasce um grupo que assimila as propostas de Jesus (cf. Mt 9,36-12,50). Os discípulos são a "comunidade do Reino": instruídos por Jesus, formados na mentalidade do "Reino", os discípulos recebem a missão de testemunhar o "Reino", após a partida de Jesus (cf. Mt 13,1-17,27). Na parte final do seu Evangelho, Mateus descreve a ruptura final de Jesus com o judaísmo (cf. Mt 18,1-25,46) e o final do caminho de Jesus: a paixão, morte e ressurreição (cf. Mt 26,1-28,15).
    A leitura que hoje nos é proposta é o relato da paixão de Jesus. Descreve como o anúncio do Reino choca com a mentalidade da opressão e, portanto, conduz à cruz e à morte; no entanto, não podemos dissociar os acontecimentos da paixão daqueles que celebraremos no próximo domingo: a ressurreição é a prova de que Jesus veio de Deus e tinha um mandato do Pai para tornar realidade no mundo o "Reino dos céus".

    MENSAGEM

    A morte de Jesus tem de ser entendida no contexto daquilo que foi a sua vida. Desde cedo, Jesus apercebeu-Se de que o Pai O chamava a uma missão: anunciar esse mundo novo, de justiça, de paz e de amor para todos os homens. Para concretizar este projecto, Jesus passou pelos caminhos da Palestina "fazendo o bem" e anunciando a proximidade de um mundo novo, de vida, de liberdade, de paz e de amor para todos. Ensinou que Deus era amor e que não excluía ninguém, nem mesmo os pecadores; ensinou que os leprosos, os paralíticos, os cegos, não deviam ser marginalizados, pois não eram amaldiçoados por Deus; ensinou que eram os pobres e os excluídos os preferidos de Deus e aqueles que tinham um coração mais disponível para acolher o "Reino"; e avisou os "ricos" (os poderosos, os instalados), de que o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência, o fechamento só podiam conduzir à morte.
    O projecto libertador de Jesus entrou em choque - como era inevitável - com a atmosfera de egoísmo, de má vontade, de opressão que dominava o mundo. As autoridades políticas e religiosas sentiram-se incomodadas com a denúncia de Jesus: não estavam dispostas a renunciar a esses mecanismos que lhes asseguravam poder, influência, domínio, privilégios; não estavam dispostas a arriscar, a desinstalar-se e a aceitar a conversão proposta por Jesus. Por isso, prenderam Jesus, julgaram-n'O, condenaram-n'O e pregaram-n'O numa cruz.
    A morte de Jesus é a consequência lógica do anúncio do "Reino": resultou das tensões e resistências que a proposta do "Reino" provocou entre os que dominavam o mundo.
    Podemos, também, dizer que a morte de Jesus é o culminar da sua vida; é a afirmação última, porém, mais radical e mais verdadeira (porque marcada com sangue), daquilo que Jesus pregou com palavras e com gestos: o amor, o dom total, o serviço.
    Na cruz, vemos aparecer o Homem Novo, o protótipo do homem que ama radicalmente e que faz da sua vida um dom para todos. Porque ama, este Homem Novo vai assumir como missão a luta contra o pecado - isto é, contra todas as causas objectivas que geram medo, injustiça, sofrimento, exploração e morte. Assim, a cruz mantém o dinamismo de um mundo novo - o dinamismo do "Reino".
    Para além da reflexão geral sobre o sentido da paixão e morte de Jesus, convém ainda notar alguns dados que são exclusivos da versão mateana da paixão.

    • Ao longo do relato da paixão, Mateus insiste no facto de os acontecimentos estarem relacionados com o cumprimento das Escrituras (cf. Mt 26,24.30.54.56;27,9). Mesmo quando não refere explicitamente o cumprimento das Escrituras, Mateus liga os acontecimentos da paixão de Jesus com figuras e factos do Antigo Testamento, a fim de demonstrar que a paixão e morte de Jesus faz parte do projecto de Deus, previsto desde sempre. A explicação para esta insistência no cumprimento das Escrituras deve ser buscada no seguinte facto: Mateus escreve para cristãos que vêm do judaísmo; Ele vai, portanto, fazer referência a citações e promessas do Antigo Testamento - conhecidas de cor por todos os judeus - a fim de demonstrar que Jesus era esse Messias anunciado pelos profetas e cujo destino passava pelo dom da vida.

    • Também Marcos (cf. Mc 14,47) e Lucas (cf. Lc 22,50-51) contam como, no Getsemani, na altura em que Jesus foi preso, um dos elementos do grupo de Jesus agrediu com uma espada um servo do sumo-sacerdote. No entanto, só Mateus apresenta Jesus a condenar explicitamente o gesto, explicando que o projecto do Pai não passa pela violência, mesmo contra os agressores (cf. Mt 26,51-54). O caminho do Pai passa pelo amor e pelo dom da vida; por isso, os discípulos de Jesus não podem recorrer à violência, mesmo que se trate de defender uma causa justa. Este ensinamento tem, neste contexto, uma força especial: é quando Jesus é vítima inocente da violência que Ele afirma de forma clara a recusa absoluta da violência: o "Reino" de Deus nunca passará por esquemas de violência, de imposição, de poder e de prepotência. Na lógica do "Reino", os fins nunca justificarão os meios.

    • Só no Evangelho segundo Mateus aparece o relato da morte de Judas (cf. Mt 27,3-10. Temos uma outra versão do acontecimento em Act 1,18-19). O episódio deixa clara a iniquidade do processo e a inocência de Jesus. A forma como Mateus sublinha o desespero e o arrependimento de Judas deixa clara a inocência de Jesus, por um lado e, por outro, o desnorte dos responsáveis pelo processo, empenhados em "sacudir a água do capote" e em declinar responsabilidades.

    • São exclusivos de Mateus o sonho da mulher de Pilatos (cf. Mt 27,19) e a lavagem das mãos por parte do procurador romano (cf. Mt 27,24). Estes pormenores aparecem aqui com uma dupla finalidade: por um lado, Mateus quer deixar claro que Jesus é inocente e que os próprios romanos reconhecem o facto; por outro, Mateus sugere que não foi o império romano, mas sim o próprio judaísmo que rejeitou Jesus e a sua proposta de "Reino". Os pagãos reconhecem a inocência de Jesus; mas o seu próprio Povo rejeita-O. A frase que, no contexto do julgamento de Jesus, Mateus atribui ao Povo ("o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos" - Mt 27,25) deve também ser entendida neste enquadramento. Mateus explica dessa forma - aos cristãos que vêm do judaísmo - porque é que o judaísmo como conjunto está fora do "Reino": o judaísmo rejeitou Jesus e quis eliminar a sua proposta.

    • Também é exclusiva de Mateus a descrição dos factos que acompanharam a morte de Jesus: "o véu do Templo rasgou-se em duas partes, de alto a baixo; a terra tremeu e as rochas fenderam-se. Abriram-se os túmulos e muitos dos corpos de santos que tinham morrido ressuscitaram; e, saindo do sepulcro, depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade e apareceram a muitos" (Mt 27,51-53). Através destes elementos, Mateus quer sublinhar a importância do momento. É o tipo de sinais que, segundo a tradição apocalíptica, precederiam a manifestação de Deus, no final dos tempos. Estes sinais mostram que, apesar do aparente fracasso de Jesus, Deus está ali, a manifestar-Se como o salvador e libertador do seu Povo.

    • Finalmente, só Mateus narra o episódio da "guarda" do sepulcro (cf. Mt 27,62-66). Provavelmente, o relato de Mateus tem uma finalidade apologética... Para os cristãos, o sepulcro vazio era a evidência de que Jesus tinha ressuscitado; mas alguns grupos judeus puseram a circular o rumor de que o corpo de Jesus tinha sido roubado pelos discípulos. Mateus trata de explicar a origem do rumor e de negá-lo veementemente.

    ACTUALIZAÇÃO

    A reflexão pode partir dos seguintes dados:

    • Celebrar a paixão e a morte de Jesus é abismar-se na contemplação de um Deus a quem o amor tornou frágil... Por amor, Ele veio ao nosso encontro, assumiu os nossos limites e fragilidades, experimentou a fome, o sono, o cansaço, conheceu a mordedura das tentações, tremeu perante a morte, suou sangue antes de aceitar a vontade do Pai; e, estendido no chão, esmagado contra a terra, atraiçoado, abandonado, incompreendido, continuou a amar. Desse amor resultou vida plena, que Ele quis repartir connosco "até ao fim dos tempos": esta é a mais espantosa história de amor que é possível contar; ela é a boa notícia que enche de alegria o coração dos crentes.

    • Contemplar a cruz, onde se manifesta o amor e a entrega de Jesus, significa assumir a mesma atitude e solidarizar-se com aqueles que são crucificados neste mundo: os que sofrem violência, os que são explorados, os que são excluídos, os que são privados de direitos e de dignidade... Olhar a cruz de Jesus significa denunciar tudo o que gera ódio, divisão, medo, em termos de estruturas, valores, práticas, ideologias; significa evitar que os homens continuem a crucificar outros homens; significa aprender com Jesus a entregar a vida por amor... Viver deste jeito pode conduzir à morte; mas o cristão sabe que amar como Jesus é viver a partir de uma dinâmica que a morte não pode vencer: o amor gera vida nova e introduz na nossa carne os dinamismos da ressurreição.

    UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
    Proposta para
    ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
    Grupo Dinamizador:
    P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
    Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
    Rua Cidade de Tete, 10 - 1800-129 LISBOA - Portugal
    Tel. 218540900 - Fax: 218540909
    scj.lu@netcabo.pt - www.ecclesia.pt/dehonianos

    ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O DOMINGO DE RAMOS
    (adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")

    1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
    Ao longo dos dias da semana anterior ao Domingo de Ramos, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo... Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa... Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

    2. FAZER UMA VERDADEIRA PROCISSÃO.
    Preparar com cuidado a aclamação com os ramos (durante a liturgia dos ramos e, depois, cantando "Hossana" após o prefácio). Se possível, fazer uma verdadeira procissão de entrada, pois a procissão dos Ramos celebra Jesus que, pela primeira vez, se apresenta à multidão como Rei-Messias! Ao entrar na igreja atrás da cruz e do presidente da assembleia, esta caminha com Cristo e deixa-se introduzir na celebração do mistério da sua Paixão, da sua morte e da sua Ressurreição. No final da celebração, recordemos aos fiéis que os ramos benzidos são um símbolo de vitória e de vida, e permanecerão, ao longo do ano, como um sinal de esperança.

    3. A PAIXÃO POR EPISÓDIOS.
    Para a leitura da Paixão, pode-se escolher vários leitores para as várias personagens, que devem preparar muito bem a leitura. Ou pode-se mudar de leitor ao longo da paixão.

    4. BILHETE DE EVANGELHO.
    A vida é paixão. Nunca ficamos insensíveis diante de um apaixonado. Ou irrita ou seduz... De qualquer modo, ele provoca. Jesus foi apaixonado de Deus seu Pai. Uma só coisa contava para Ele: fazer a sua vontade. Ora, a vontade de Deus não era que seu Filho morresse, mas que fosse até ao fim do amor. Com o risco de dar a sua vida... e foi o que Ele fez. Jesus foi um apaixonado dos homens seus irmãos. Uma só coisa contava para Ele: salvar a humanidade, arrancando-a do egoísmo, da violência, do orgulho, da riqueza, da idolatria, de tudo o que leva à morte e à infelicidade... para lhe propor o serviço, o acolhimento, o perdão, a pobreza, tudo o que leva à vida e à felicidade, e que tem um nome: o Amor. Durante toda esta Semana Santa, ergamos os olhos para Cristo na sua Paixão por Deus seu Pai, na paixão pelos homens seus irmãos. Para que nós também sejamos apaixonados!

    5. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
    Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

    No final da primeira leitura:
    Nós Te damos graças pelo testemunho de não-violência dado e ensinado pelos Profetas e, sobretudo, pelo teu Filho Jesus.
    Nós Te pedimos. Vem em nosso auxílio, revela-nos cada manhã a escuta da tua Palavra, instrui-nos pelo teu Espírito de paciência. Que nós saibamos, da nossa parte, reconfortar aqueles que não podem mais.

    No final da segunda leitura:
    Cristo Jesus, nós Te adoramos e bendizemos: Tu que és de condição divina, Tu que Te tornaste servo. Pai, nós Te glorificamos, porque o teu Filho humilhado até ao extremo pelos homens, Tu O revelaste acima de todos.
    Nós Te pedimos pela nossa humanidade que continua a sofrer e a fazer sofrer: que se deixe transformar e curar pelo teu Espírito de ressurreição.

    No final do Evangelho:
    Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Nós Te bendizemos, Senhor Jesus, e confessamo-lo: verdadeiramente, Tu és o Filho de Deus.
    Perdão pelas nossas negações, as nossas traições, as nossas faltas de fé, que semeiam a morte nas nossas existências e no nosso mundo. Nós sabemo-lo: Tu nunca nos abandonas. Pela tua cruz, livra-nos do mal.

    6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
    Pode-se escolher a Oração Eucarística II da Assembleia com Crianças.

    7. PALAVRA PARA O CAMINHO.
    Um Rei-Servidor... Mudança radical de valores! Numa sociedade que só acredita no seu poder, no seu dinheiro, nas suas conquistas, eis o nosso Rei que vem até nós na humildade, no serviço, no sofrimento, vulnerável até morrer. Discípulos deste Messias-Servidor, onde se situam os nossos valores de referência: do lado do Evangelho? Do lado do mundo? Não há meio termo...

     

     

    UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
    Proposta para
    ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
    Grupo Dinamizador:
    P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
    Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
    Rua Cidade de Tete, 10 - 1800-129 LISBOA - Portugal
    Tel. 218540900 - Fax: 218540909
    portugal@dehonianos.org - www.dehonianos.org