24º Domingo do Tempo Comum - Ano C [atualizado]
14 de Setembro, 2025
ANO C
24.º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Tema do 24.º Domingo do Tempo Comum
As leituras que a liturgia do décimo quarto domingo comum nos propõe falam-nos do amor de Deus. Garantem-nos que nada nos afastará desse amor, nem sequer a nossa infidelidade, a nossa autossuficiência, as nossas opções erradas. O amor de Deus é a mais bela das nossas certezas.
A primeira leitura traz-nos um episódio da caminhada dos israelitas pelo deserto. Quando eles, traindo os compromissos que tinham assumido no Sinai, constroem e adoram um bezerro de ouro, Deus fica indignado e propõe-se punir o Seu povo; mas, depois de Moisés Lhe ter lembrado as suas promessas, Deus desiste do castigo que tinha pensado infligir a Israel. Neste episódio há um padrão que se repete ao longo de toda a história da salvação: a misericórdia de Deus acaba sempre por triunfar sobre a sua ira.
No Evangelho Jesus, dirigindo-se àqueles que O criticavam por se sentar à mesa com gente de moral duvidosa, conta três parábolas sobre a bondade de Deus para com os “perdidos”, os excluídos, os “malditos”. Deus não deixa para trás nenhum dos seus queridos filhos; e sente uma enorme alegria sempre que volta a abraçar aquele que “estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado”. As parábolas do pastor bondoso, da mulher que procura a dracma perdida e do pai misericordioso, são três magníficos hinos ao amor de Deus.
Na segunda leitura, Paulo recorda algo que nunca deixou de lhe causar espanto: o amor de Deus manifestado em Jesus Cristo. Esse amor, derramado incondicionalmente sobre os pecadores, transforma-os e torna-os pessoas novas. Paulo, o perseguidor de cristãos convertido a Cristo, é um exemplo concreto dessa ação salvadora de Deus. Por isso, nunca deixará de testemunhar e de agradecer tudo o que Deus fez por ele.
LEITURA I – Êxodo 32,7-11.13-14
Naqueles dias,
O Senhor falou a Moisés, dizendo:
«Desce depressa,
porque o teu povo, que tiraste da terra do Egipto, corrompeu-se.
Não tardaram em desviar-se do caminho que lhes tracei.
Fizeram um bezerro de metal fundido,
prostraram-se diante dele,
ofereceram-lhe sacrifícios e disseram:
‘Este é o teu Deus, Israel,
que te fez sair da terra do Egipto’».
O Senhor disse ainda a Moisés:
«Tenho observado este povo:
é um povo de dura cerviz.
Agora deixa que a minha indignação se inflame contra eles
e os destrua.
De ti farei uma grande nação».
Então Moisés procurou aplacar o Senhor seu Deus, dizendo:
«Por que razão, Senhor,
se há de inflamar a vossa indignação contra o vosso povo,
que libertastes da terra do Egipto
com tão grande força e mão tão poderosa?
Lembrai-Vos dos vossos servos Abraão, Isaac e Israel,
a quem jurastes pelo vosso nome, dizendo:
‘Farei a vossa descendência tão numerosa
como as estrelas do céu
e dar-lhe-ei para sempre em herança
toda a terra que vos prometi’».
Então o Senhor desistiu do mal
com que tinha ameaçado o seu povo.
CONTEXTO
O texto que hoje nos é proposto como primeira leitura faz parte de um conjunto de tradições sobre uma Aliança entre Deus e os hebreus libertados da escravidão do Egito (cf. Ex 19-40). De acordo com o livro do Êxodo, essa Aliança teria sido celebrada num monte, algures no deserto do Sinai, o mesmo monte onde Javé se tinha revelado a Moisés.
No texto bíblico não há indicações geográficas suficientes para conseguirmos identificar o “monte da Aliança”. Em si, o nome “Sinai” designa uma enorme península de forma triangular, com mais ou menos 420 quilómetros de extensão norte/sul, estendendo-se entre o Mediterrâneo e o Mar Vermelho. A norte, junto do Mediterrâneo, o Sinai apresenta uma faixa arenosa de cerca de 25 quilómetros de largura; mas à medida que se desce para sul, o território torna-se mais acidentado, com montanhas que chegam a atingir os 2600 metros de altura. A península inteira é um deserto árido; não há, praticamente, vegetação (exceto em alguns pequenos oásis) e as comunicações são difíceis. Nesta enorme extensão de areia e rochas, é difícil situar o “monte da Aliança”. Contudo, uma tradição cristã tardia (séc. IV) identifica o “monte” com o Jebel Musa (o “monte de Moisés”), um monte com 2244 metros de altitude, situado a sul da península sinaítica. Embora a identificação do “monte da Aliança” com este lugar levante problemas, o Jebel Musa é, ainda hoje, um lugar de peregrinação para judeus e cristãos.
Seja qual for o lugar da aliança, o facto é que o texto nos situa em frente de um “monte” não identificado da península sinaítica, onde Israel se comprometeu com Deus e celebrou com Ele uma Aliança (cf. Ex 19,1-24,18). Israel comprometeu-se, nessa circunstância, a cumprir os termos da Aliança e a viver como povo de Deus. Concluído o rito da Aliança, Moisés subiu à montanha e permaneceu lá por quarenta dias e quarenta noites na presença de Deus (cf. Ex 24,15-18).
Enquanto isso, o povo permaneceu à espera no sopé da montanha. A ausência prolongada de Moisés e o silêncio de Deus provocaram no povo o medo e a desconfiança. Os israelitas pediram então ao sacerdote Aarão que lhes desse um Deus visível, um Deus que caminhasse diante deles e lhes indicasse o caminho. Aarão fez que fosse construído um bezerro em ouro e apresentou-o ao povo: “Israel, aqui tens o teu deus, aquele que te fez sair do Egito” (Ex 32,5).
MENSAGEM
Deus viu o que estava a acontecer no sopé da montanha, e ficou profundamente indignado. Apressou-se a discutir a situação com o seu servo Moisés (vers. 7-10).
Em que consistiu o pecado de Israel? Os mandamentos da Aliança proibiam formalmente qualquer representação de Deus feita pela mão do homem (“não farás para ti imagem esculpida nem representação alguma do que está em cima, nos céus, do que está em baixo, na terra, e do que está debaixo da terra, nas águas. Não te prostrarás diante dessas coisas e não as servirás” – Ex 20,4-5). Porquê? Porque uma imagem saída das mãos do homem seria sempre algo imperfeito, que nunca conseguiria representar a transcendência e a omnipotência de Deus. “Fazer” uma imagem de Deus, seria diminuir Deus, reduzi-lo a dimensões que o homem controla e dirige. Além disso, dado que os cultos pagãos utilizavam imagens para representar os seus deuses, entendia-se que as imagens potenciavam a idolatria e que, portanto, deviam ser evitadas. Mas a questão central, a mais importante, é esta: ao construir o bezerro de ouro, contra as indicações de Deus, Israel está a demonstrar ser um povo de coração duro, incapaz de viver de acordo com as indicações de Deus. Israel quer um deus às suas ordens, previsível e manipulável, que caminhe ou descanse quando o povo quiser; e o Deus que libertou Israel da escravidão do Egito não está às ordens do homem, escapa ao controle do homem, é infinitamente maior do que o homem é capaz de entender.
Deus não está disposto a aceitar o comportamento de Israel. Propõe-se, inclusive, destruir esse povo rebelde e construir, com Moisés e a sua família, uma nova história de salvação (“tenho observado este povo: é um povo de dura cerviz. Agora deixa que a minha indignação se inflame contra eles e os destrua. De ti farei uma grande nação” – vers. 9-10). Moisés será um novo Abraão, do qual nascerá o novo povo de Deus.
Moisés compreende a indignação de Deus; mas não pode concordar com a solução que Ele propõe. Moisés procura, nesta “crise”, desempenhar o papel de intercessor junto de Deus, a fim de que esta história de comunhão e Aliança não termine num fracasso (vers. 11-14).
O que faz Moisés? Antes de mais, tenta “aplacar” a cólera de Deus contra o povo. O texto original usa, nesse sentido, uma imagem muito bela: Moisés “acalmou a face do Senhor” (vers. 11a). Moisés assume o papel de uma criança que vê o pai zangado e que o acaricia até que ele sorri novamente. Depois, Moisés faz mais: procura oferecer a Deus argumentos para perdoar. Lembra que aquele Povo é, afinal, o mesmo povo que Deus libertou do Egito “com tão grande força e mão tão poderosa” (vers. 11); fará sentido tanto esforço para agora o destruir? Lembra também a Deus a promessa feita a Abraão, Isaac e Jacob, de lhes dar uma descendência “numerosa como as estrelas do céu”, que receberia em herança, “para todo o sempre”, a Terra Prometida (vers. 13); irá Deus agora desmentir a promessa feita? O último argumento é de ordem apologética (vers. 12): se agora Israel for exterminado, os egípcios poderão dizer que, afinal, Javé tinha más intenções quando tirou o seu povo do Egito; isso não constituiria uma mancha na “honra” de Deus?
Moisés tem a ousadia de pedir a Deus que deixe de lado a sua justa indignação, que se mantenha leal aos seus compromissos e à sua justiça; e Deus, acolhendo os conselhos de Moisés, desiste “do mal com que tinha ameaçado o seu povo (vers. 14). A misericórdia de Deus sobrepõe-se sempre à sua vontade de condenar. Israel volta a ser o “povo de Deus”.
INTERPELAÇÕES
- Como é que Deus lida com as nossas falhas, as nossas opções estúpidas, as nossas recusas em acolher as suas indicações e propostas? Ele “queima pontes” e afasta-se irremediavelmente de nós? Ele diz-nos, em algum momento, que está farto das nossas traições e que não conta mais connosco? O episódio da construção, pelos israelitas, de um “bezerro de ouro” e a decisão final que Deus toma em relação à rebeldia do seu povo deixa-nos uma resposta clara para estas questões: a misericórdia de Deus sobrepõe-se sempre à sua indignação. É bom acreditarmos num Deus que nunca nos fecha a porta. Se não pudéssemos contar com a misericórdia de Deus, a nossa fragilidade conduzir-nos-ia a um beco sem saída e experimentaríamos um desespero sem esperança. O amor inquebrantável de Deus pelos seus filhos pecadores tem de ser o grande dogma sobre o qual construímos a nossa vida de todos os dias. Caminhamos pela vida alimentados e fortalecidos pela certeza do amor de Deus? Damos testemunho desse amor junto dos nossos irmãos acabrunhados pela consciência da sua fragilidade?
- O grande “pecado” dos israelitas ao construírem um bezerro de ouro foi apresentarem uma imagem deturpada de Deus, uma imagem que reduzia Deus às pobres dimensões de uma obra saída das mãos e das mentes imperfeitas do homem. Isso pode fazer-nos pensar nas imagens que construímos de Deus e que apresentamos aos homens e mulheres com quem nos cruzamos no caminho da nossa vida… O Deus que apresentamos é o Deus da bondade, da misericórdia, da compaixão (que é o Deus que se tem revelado ao longo da história da salvação), ou é o deus impositivo e vingativo, sem coração, que anda sempre à cata de qualquer comportamento faltoso para deixar cair sobre o infrator a sua cólera e o seu castigo? O Deus que testemunhamos é um Pai que nos ama com um amor sem igual e que só quer ver-nos felizes, ou é um deus sombrio e distante, construído à imagem dos nossos medos, das nossas frustrações, dos nossos desencantos? O Deus em que acreditamos é um mistério de amor que nos encanta e nos abraça, ou é um deus que reproduz as nossas mentes distorcidas, os nossos preconceitos e incompreensões, a nossa forma incompleta e limitada de ver a vida e os homens?
- Moisés tem, em toda esta história, um papel que importa sublinhar. Deus, desiludido com o seu povo, acena a Moisés com um projeto aliciante: deixar cair Israel e fazer nascer de Moisés um novo povo de Deus. Mas Moisés não está interessado em ter, ele próprio, uma história de sucesso pessoal; o seu interesse é a salvação daqueles homens e mulheres que sonham com a liberdade, apesar dos equívocos em que não cessam de se atolar enquanto caminham. Correndo até o risco de se indispor com Deus, Moisés, no papel de mediador e intercessor, coloca-se ao lado do povo pecador, empenhado em salvá-lo. Nesse sentido, pede, argumenta, lembra, insiste e, finalmente, convence Deus a exercer a misericórdia. O bem daquele povo frágil e pecador é mais importante, para Moisés, do que o triunfo e o engrandecimento da sua família. A nós, que nos movemos num mundo onde campeiam a ambição, a vaidade, a procura do êxito a qualquer custo, o que é que sugere esta atitude de Moisés? Compreendemos a sua renúncia ao engrandecimento pessoal em vista do bem e da salvação daquele grupo de escravos? Seríamos capazes de proceder como Moisés?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 50 (51)
Refrão:
Vou partir e vou ter com meu pai.
Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,
pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.
Lavai-me de toda a iniquidade
e purificai-me de todas as faltas.
Criai em mim, ó Deus, um coração puro
e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.
Não queirais repelir-me da vossa presença
e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.
Abri, Senhor, os meus lábios
e a minha boca anunciará o vosso louvor.
Sacrifício agradável a Deus é um espírito arrependido:
não desprezeis, Senhor, um espírito humilhado e contrito.
LEITURA II – 1 Timóteo 1,12-17
Caríssimo:
Dou graças Àquele que me deu força,
Jesus Cristo, Nosso Senhor,
que me julgou digno de confiança
e me chamou ao seu serviço,
a mim que tinha sido blasfemo, perseguidor e violento.
Mas alcancei misericórdia,
porque agi por ignorância, quando ainda era descrente.
A graça de Nosso Senhor superabundou em mim,
com a fé e a caridade que temos em Cristo Jesus.
É digna de fé esta palavra
e merecedora de toda a aceitação:
Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores
e eu sou o primeiro deles.
Mas alcancei misericórdia,
para que, em mim primeiramente,
Jesus Cristo manifestasse toda a sua magnanimidade,
como exemplo para os que hão de acreditar n’Ele,
para a vida eterna.
Ao Rei dos séculos, Deus imortal, invisível e único,
honra e glória pelos séculos dos séculos. Amen.
CONTEXTO
Timóteo, o destinatário desta carta, era natural de Listra, uma cidade situada na região da Licaónia, a cerca de trinta quilómetros a sul de Icónio. O seu pai era grego; a sua mãe, chamada Eunice, era uma cristã de origem judaica. Paulo encontrou Timóteo quando passou por Listra, na sua segunda viagem missionária; fez com que ele fosse circuncidado, “por causa dos judeus existentes naquela região” e tomou-o como companheiro de missão (cf. At 16,1-3). Nessa mesma viagem Timóteo aparece ao lado de Paulo na Bereia, em Atenas (cf. At 17,14-15), em Corinto (cf. At 18,5) e em Éfeso (cf. At 19,22). Paulo chegou até a confiar a Timóteo, importantes missões entre os tessalonicenses (cf. 1 Ts 3,2.6) e entre os coríntios (cf. 1 Cor 4,17;16,10-11). Ainda muito jovem Timóteo recebeu de Paulo a responsabilidade pastoral das Igrejas da província da Ásia (cf. 1 Tim 4,12). A tradição considera-o como o primeiro bispo de Éfeso.
A primeira Carta a Timóteo apresenta-se como escrita por Paulo, quando Timóteo estava encarregado da animação da Igreja de Éfeso. Contém uma série de instruções que versam, fundamentalmente, sobre três temas: a organização da comunidade, a forma de combater os hereges e a vida cristã dos fiéis. Convém, no entanto, acrescentar que a maior parte dos comentadores não considera esta carta de autoria paulina: a linguagem e a teologia não parecem ser paulinas; e, sobretudo, a carta supõe um modelo de organização eclesial que é dos finais do séc. I (Paulo tinha sido martirizado por volta do ano 66/67, durante a perseguição aos cristãos ordenada pelo imperador Nero).
O texto que nos é proposto como segunda leitura pela liturgia deste dia é uma ação de graças na qual Paulo agradece a Deus o chamamento que lhe foi feito para o serviço do Evangelho (cf. 1Tm 1,12-17).
MENSAGEM
Em contexto de ação de graças, Paulo lembra a sua história de vocação. Antes de se encontrar com Cristo na estrada de Damasco, ele “tinha sido blasfemo, perseguidor e violento”. É verdade que agiu “por ignorância, quando ainda era descrente”; mas as suas opções tinham-no colocado à margem da comunidade da salvação.
Apesar de tudo isso, Cristo considerou-o digno de confiança e chamou-o ao seu serviço. Paulo aceitou o chamamento que lhe foi feito e apostou a sua vida em dar testemunho de Cristo. Na ação de Paulo manifestou-se a graça superabundante recebida de Cristo. Ora, Paulo vê tudo isso como puro dom: não se deveu aos méritos de Paulo, mas sim à misericórdia de Deus (vers. 12-14).
Paulo coloca tudo isto no contexto do projeto salvador que Deus tem para o mundo e para os homens. Ele sabe que Cristo “veio ao mundo para salvar os pecadores”, entre os quais se inclui. O caso particular de Paulo mostra a misericórdia e a magnanimidade de Deus, que se derramam sobre todos os homens, sejam quais forem as faltas cometidas.
Paulo confia que, a partir deste exemplo, todos os homens e mulheres tomem consciência da bondade de Deus. Espera, por outro lado, que todos respondam ao amor e à misericórdia de Deus da mesma forma que Paulo: com o dom da vida e com o empenho sério no testemunho desse projeto de amor que Deus quer oferecer a todos os seus filhos.
Finalmente, o profundo reconhecimento que Paulo sente diante da misericórdia com que Deus o distinguiu leva-o a um canto de louvor que, neste texto, apresenta contornos litúrgicos (“ao rei dos séculos, Deus imortal, invisível e único, honra e glória pelos séculos dos séculos, amén” – vers. 17). É a resposta infinitamente agradecida do crente que se sente salvo pelo amor de Deus.
INTERPELAÇÕES
- Paulo não duvida, nem por um instante, da misericórdia de Deus. Porquê? Porque a experimentou na sua própria vida. Paulo tinha sido cúmplice dos assassinos de Estevão, o primeiro mártir da Igreja de Jerusalém (cf. At 7,58) e tinha participado ativamente na perseguição dos primeiros cristãos (cf. At 8,3; 9,1-2). Apesar disso, Deus não o rejeitou; e, no tempo oportuno, chamou-o e envolveu-o no seu projeto de salvação. Deus não nos exclui porque em dado momento fizemos uma opção errada; Deus não nos bloqueia na sua lista de amigos porque um dia dissemos ou fizemos algo que Lhe “caiu mal”. Deus tem e terá sempre por nós um apreço que só o amor pode explicar. Ele conta sempre connosco. Aconteça o que acontecer na nossa vida, Ele quer incluir-nos na sua história de salvação. Talvez nos sintamos indignos e desprezíveis por opções e gestos da nossa vida passada; talvez carreguemos o peso de culpas que não conseguimos esquecer… Mas o amor inquebrantável de Deus estará sempre à nossa espera para curar as nossas feridas e para nos oferecer a oportunidade de caminharmos em direção a Ele. Estamos conscientes disso? Acreditamos que a misericórdia de Deus é infinitamente maior do que a nossa culpa?
- Paulo descobriu que Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores; e tem consciência de que está entre esses que foram salvos pela ação de Jesus. Jamais poderá esquecer essa descoberta, que lhe mudou a vida e a compreensão das coisas. Mais: Paulo sente que o seu caso particular pode servir de exemplo para todos aqueles se sentem indignos e necessitados de salvação; por isso, quis ser arauto da misericórdia de Deus entre os seus irmãos. Com o seu testemunho, Paulo quer que outros homens e mulheres possam fazer a mesma descoberta que ele fez sobre a bondade e a magnanimidade de Deus. Nós, os que nos sentimos tocados pela misericórdia de Deus, damos testemunho dessa experiência junto dos nossos irmãos? As nossas palavras e os nossos gestos “contam” por todo o lado essa incrível história de um Deus que ama incondicionalmente os seus filhos?
- Paulo termina a sua reflexão sobre a magnanimidade de Deus com um cântico de louvor e de ação de graças. É a resposta natural daquele que faz a experiência de ser intensamente amado por Deus. Sentimo-nos agradecidos a Deus pelo seu amor, pela sua bondade, pela sua misericórdia? Lembramo-nos de lhe expressar o nosso agradecimento?
ALELUIA – 2 Coríntios 5,19
Aleluia. Aleluia.
Em Cristo, Deus reconcilia o mundo consigo
e confiou-nos a palavra da reconciliação.
EVANGELHO – Lucas 15,1-32
Naquele tempo,
os publicanos e os pecadores
aproximaram-se todos de Jesus, para O ouvirem.
Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo:
«Este homem acolhe os pecadores e come com eles».
Jesus disse-lhes então a seguinte parábola:
«Quem de vós, que possua cem ovelhas
e tenha perdido uma delas,
não deixa as outras noventa e nove no deserto,
para ir à procura da que anda perdida, até a encontrar?
Quando a encontra, põe-na alegremente aos ombros
e, ao chegar a casa,
chama os amigos e vizinhos e diz-lhes:
‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’.
Eu vos digo:
Assim haverá mais alegria no Céu
por um só pecador que se arrependa,
do que por noventa e nove justos,
que não precisam de arrependimento.
Ou então, qual é a mulher
que, possuindo dez dracmas e tendo perdido uma,
não acende uma lâmpada, varre a casa
e procura cuidadosamente a moeda até a encontrar?
Quando a encontra, chama as amigas e vizinhas e diz-lhes:
‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida’.
Eu vos digo:
Assim haverá alegria entre os Anjos de Deus
por um pecador que se arrependa».
Jesus disse-lhes ainda:
«Um homem tinha dois filhos.
O mais novo disse ao pai:
‘Pai, dá-me parte da herança que me toca’.
O pai repartiu os bens pelos filhos.
Alguns dias depois, o filho mais novo,
juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante
e por lá esbanjou quanto possuía,
numa vida dissoluta.
Tendo gasto tudo,
houve uma grande fome naquela região
e ele começou a passar privações.
Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra
que o mandou para os seus campos guardar porcos.
Bem desejava ele matar a fome
com as alfarrobas que os porcos comiam,
mas ninguém lhas dava.
Então, caindo em si, disse:
‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância,
e eu aqui a morrer de fome!
Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe:
Pai, pequei contra o Céu e contra ti.
Já não mereço ser chamado teu filho,
mas trata-me como um dos teus trabalhadores’.
Pôs-se a caminho e foi ter com o pai.
Ainda ele estava longe, quando o pai o viu:
Enchendo-se de compaixão,
correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos.
Disse-lhe o filho:
‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti.
Já não mereço ser chamado teu filho’.
Mas o pai disse aos servos:
‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha.
Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés.
Trazei o vitelo gordo e matai-o.
Comamos e festejemos,
porque este meu filho estava morto e voltou à vida,
estava perdido e foi reencontrado’.
E começou a festa.
Ora o filho mais velho estava no campo.
Quando regressou,
ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças.
Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo.
O servo respondeu-lhe:
‘O teu irmão voltou
e teu pai mandou matar o vitelo gordo,
porque ele chegou são e salvo’.
Ele ficou ressentido e não queria entrar.
Então o pai veio cá fora instar com ele.
Mas ele respondeu ao pai:
‘Há tantos anos que eu te sirvo,
sem nunca transgredir uma ordem tua,
e nunca me deste um cabrito
para fazer uma festa com os meus amigos.
E agora, quando chegou esse teu filho,
que consumiu os teus bens com mulheres de má vida,
mataste-lhe o vitelo gordo’.
Disse-lhe o pai:
‘Filho, tu estás sempre comigo
e tudo o que é meu é teu.
Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos,
porque este teu irmão estava morto e voltou à vida,
estava perdido e foi reencontrado’».
CONTEXTO
Dentro da grande secção em que Lucas descreve a viagem de Jesus com os discípulos da Galileia para Jerusalém (cf. Lc 9,51-19,28), o cap. 15 ocupa um lugar especial. Alguns consideram este capítulo o centro do Evangelho de Lucas. As três parábolas que o integram (a “parábola do pastor que procura a ovelha tresmalhada” – Lc 15,3-7; a “parábola da mulher que procura a moeda perdida” – cf. Lc 15,8-10; e a “parábola do pai misericordioso” – cf. Lc 15,11-32) são conhecidas como “as parábolas sobre a misericórdia de Deus”. O tema da bondade de Deus para com todos os seus filhos, nomeadamente para com os pecadores e os marginais, é um tema muito caro ao evangelista Lucas.
A parábola do pastor bondoso – a primeira que o Evangelho de hoje nos propõe – é comum a Lucas e Mateus (cf. Mt 18,12-14): trata-se de material que provém, provavelmente, da “fonte Q” (coleção de “ditos” de Jesus, que Mateus e Lucas utilizaram na composição dos respetivos evangelhos). As parábolas da dracma perdida e do filho pródigo (as outras duas parábolas que completam este capítulo) são exclusivas de Lucas.
No cenário proposto por Lucas, as “parábolas sobre a misericórdia de Deus” são a resposta de Jesus àqueles que O criticavam por acolher os publicanos e os pecadores que vinham escutá-l’O: “Este homem acolhe os pecadores e come com eles” (vers. 2). Os cobradores de impostos (“publicanos”) eram considerados exploradores do povo, ao serviço dos romanos, e tinham fama de explorar os seus concidadãos, exigindo-lhes mais do que o imposto estipulado pelas autoridades. Na época, um cobrador de impostos não podia fazer parte da comunidade farisaica; não podia ser juiz, nem prestar testemunho em tribunal sendo, para efeitos judiciais, equiparado ao escravo; estava também privado de diversos direitos cívicos, políticos e religiosos. Os “pecadores” eram todos aqueles que não cumpriam a Lei, não frequentavam a sinagoga ao sábado, não jejuavam, não rezavam três vezes ao dia, não pagavam o tributo ao templo nem os dízimos, não observavam as leis da pureza.
Ora, Jesus não evitava esta gente. Chegava a sentar-se com eles à mesa, o que significava que os aceitava como amigos e iguais e que tolerava o seu estilo de vida. Isso era absolutamente inaceitável para os fariseus e os doutores da Lei.
MENSAGEM
As três “parábolas da misericórdia” são três hinos ao amor de Deus. É uma das mais belas páginas da história da salvação.
A primeira parábola (vers. 4-7) traz-nos a história de um pastor que perdeu uma das suas ovelhas. Desolado, o pastor “perde a cabeça”: numa decisão que parece totalmente ilógica e irracional, deixa algures no deserto as outras noventa e nove ovelhas do rebanho para ir à procura da sua ovelha perdida. Enfrenta o sol inclemente, a sede, o cansaço do caminho, a ansiedade da procura, até que encontra a sua ovelha. Não a censura, não lhe bate, não a prende com uma corda para que ela não fuja outra vez. Cheio de alegria, põe-na aos ombros e trá-la assim. Pôr a ovelha aos ombros é um gesto de solicitude, de ternura. Aquela pobre ovelha, depois do tempo que passou sozinha, num ambiente hostil, está cansada e assustada; precisa de carinho, precisa de recuperar as forças. O gesto de pô-la aos ombros é, portanto, um gesto de amor. Finalmente, o pastor chega a casa com a sua ovelha aos ombros. Está muitíssimo feliz. “Chama os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’”. Não é excessivo? O facto de perder e de reencontrar uma ovelha é bem banal; merecerá tanto espalhafato? Para o pastor, aquela é “a sua” ovelha. Não a pode perder. Por isso, o reencontro com “a sua” ovelha encheu-o de alegria; e, na perspetiva do pastor, essa alegria tem de ser partilhada.
Ao contar esta parábola, Jesus está, evidentemente, a falar de Deus. “Haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se converta, do que por noventa e nove justos, que não precisam de conversão” – diz Ele. O coração de Deus enche-se de alegria quando reencontra, quando recupera e traz para casa, um dos seus filhos “perdidos”.
A segunda parábola (vers. 8-10) fala de uma mulher pobre que perdeu uma dracma (uma moeda de origem grega, que correspondia ao salário de um dia de trabalho) e a procura sem descanso. Para essa mulher pobre, talvez uma viúva sem qualquer rendimento, aquela moeda era um tesouro que ela não queria nem podia perder. Por isso, a mulher irá acender uma candeia para ter mais luz e varrer cuidadosamente a casa até encontrar a moeda perdida. Quando, finalmente, a encontra, chama as amigas e pede-lhes que participem da alegria que sente por ter encontrado o “tesouro” que tinha perdido. Procurar a moeda perdida, está na lógica das coisas; mas convocar as amigas e as vizinhas para festejar o aparecimento da moeda, já parece um pouco exagerado. No entanto, quando há uma coisa que para nós é muito importante, somos dados a estes exageros. Deus será como esta mulher? Ele também estará obcecada pela “moeda” perdida? Ele também considera esses pecadores e marginais que lhe viraram as costas e que agora estão perdidos na escuridão do seu medo e da sua culpa, um “tesouro” muito importante ao qual não está disposto a renunciar? Deus também exagerará no seu amor? Jesus acha que sim… Na perspetiva de Jesus, Deus não se conforma com a perda de qualquer um dos seus filhos, pois todos eles – mesmo os mais frágeis, mesmo os mais pecadores, mesmo aqueles a quem o mundo não dá valor – são para ele demasiado importantes.
A terceira parábola (vers. 11-32) é sobre um pai que ama profundamente os seus filhos. Quando o filho mais novo lhe pede a parte da herança a que tem direito, o pai entrega-lhe um terço dos bens familiares (a quantidade que ele deveria receber mais tarde, quando o pai morresse); quando esse filho decide ir “para um país distante”, desprezando a família e quebrando a unidade familiar, o pai respeita a vontade do filho e deixa-o partir; quando esse filho, depois de ter esbanjado todo o seu dinheiro numa vida dissoluta, vê o sem sentido da sua opção e resolve regressar a casa, o pai corre ao seu encontro, recebe-o com um abraço bem apertado e “cobre-o de beijos”; quando o filho pródigo vai abrir a boca para admitir a sua culpa, o pai, com o coração inundado pelo amor, não o deixa falar, porque quando se ama como aquele pai amava não são necessárias explicações ou pedidos de desculpa; quando esse filho vai dizer que aceita até ficar na humilde condição de jornaleiro, trabalhando nas terras da família como qualquer outro empregado, o pai leva-o para casa, restaura-o na dignidade de membro da família, organiza uma festa de boas-vindas, porque “tinha de se alegrar” pelo regresso daquele filho que “estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado”.
Mas não é só aquele filho mais novo, o filho rebelde e irresponsável, que o pai ama assim… Também ama o outro, o mais velho, o rapaz “certinho” e atinado que nunca tinha abandonado a casa familiar. E, quando o filho mais velho, amuado e com ciúmes do irmão, se recusa a entrar em casa, o pai vem ter com ele, fala-lhe com amor, digna-se dar-lhe explicações, faz tudo para que o filho mais velho entenda o acolhimento dado ao seu irmão. O que ele mais quer é que os filhos sem sentem com ele à volta da mesa familiar, em total harmonia, em total comunhão.
Jesus estava profundamente convencido da bondade de Deus. Ele falava constantemente de um Deus cheio de amor e de compaixão, que tinha como preocupação fundamental humanizar a vida dos seus filhos e libertar as pessoas de tudo o que as fazia sofrer. Ao contar estas parábolas, Jesus estava a pensar na bondade de Deus. Aliás, antes de Jesus já o profeta Oseias se referira a Deus como um pai cheio de amor pelos seus filhos (cf. Os 11,1-9); e o profeta Ezequiel tinha usado a imagem do pastor para falar da solicitude de Deus pelo seu povo (cf. Ez 34,11-16).
Mas as “parábolas da misericórdia” fazem mais do que lembrar-nos que somos amados por Deus… Dizem-nos também que o amor de Deus é um amor excessivo, exagerado, sem limites nem condições. Deus ama tanto, que deixa de raciocinar de forma lógica quando algum dos seus filhos se perde; Deus ama tanto que não se importa de dar uma imagem de fraqueza quando corre para se lançar ao pescoço do filho que volta para casa; Deus ama tanto que prescinde da sua autoridade e vem “cá fora” dar explicações humildes ao filho intransigente que não entende o seu amor pelos mais frágeis, pelos pecadores; Deus ama tanto que faz festa por qualquer gesto dos filhos (mesmo os mais banais) que os tragam de volta aos braços amorosos do pai. Sim, Deus é um exagerado na forma como ama. E ainda bem que é assim: é tão bom ser amado do jeito que Deus nos ama!
Além disso, o amor de Deus abraça todos os seus filhos. Não é só para alguns, não se destina apenas àqueles que, pelo seu bom comportamento, o merecem. Deus não exclui ninguém, não distingue entre os bons e os pecadores. Ele continua a amar mesmo aqueles que têm comportamentos errados, mesmo aqueles que lhe voltam as costas, mesmo aqueles que não querem nada com ele. Aliás, se ele tem um fraquinho por alguém, talvez seja por aqueles que fizeram escolhas erradas, pois são esses que precisam mais da sua misericórdia para reencontrar o caminho de felicidade.
Compreendemos, depois disto, porque é que Jesus não prescindia do convívio com os desclassificados, com os que a moral vigente condenava, com esses “perdidos” e malditos que a sociedade atirava para as margens. Jesus, o Filho de Deus que veio ao encontro dos homens, quis mostrar-nos claramente, sem equívocos, com palavras humanas e com gestos humanos, o rosto misericordioso do Pai.
INTERPELAÇÕES
- Há muitos séculos que os teólogos se esforçam por elaborar sapientes discursos para explicar o mistério de Deus; há muitos séculos que os teólogos escrevem livros cheios de erudição para definir a essência de Deus… Contudo, talvez a mais bela e profunda definição de Deus e do seu mistério foi dada por Jesus quando, no caminho para Jerusalém, contou as três “parábolas da misericórdia”. Segundo Jesus, Deus é sobretudo um mistério de amor: Ele é como um “pastor” que não deixa para trás nenhuma das suas ovelhas e que, quando encontra a que se perdeu, a trata com toda a solicitude; Ele é como uma mulher eufórica que envolve na sua alegria amigas e vizinhas quando encontra a moeda que perdeu; Ele é como um pai que não está obcecado pela moralidade dos seus filhos e que, quando vê o filho rebelde voltar para casa, o acolhe de braços abertos, sem reticências nem recriminações. Esse Deus – o Deus que ama com exagero e de forma incondicional os seus queridos filhos – é a grande “Boa Notícia” que Jesus veio dizer-nos. Porque fugimos do Seu amor? Porque insistimos em ficar longe d’Ele, em perdê-lo de vista e em procurar a nossa felicidade em caminhos que não levam a lado nenhum? Porque continuamos a ter medo d’Ele?
- Jesus era frequentemente criticado por acolher com simpatia os pecadores, os “perdidos”, os malditos, os condenados pela religião do Templo, os excluídos pela sua conduta à margem da Lei e dos bons costumes. Mais: a “mania” de Jesus em se sentar à mesa com gente desqualificada e pecadora constituía um escândalo intolerável. Porque é que Ele insistia em comportamentos que lhe granjeavam antipatias nos setores de maior prestígio moral e religioso da sociedade judaica? Porque a sua missão era dizer aos homens que Deus não discrimina nem exclui nenhum dos seus filhos, sejam eles o que forem, façam eles o que fizerem. Vivemos hoje numa sociedade que se presume de muito tolerante e respeitadora das diferenças. Na realidade, isso nem sempre é assim. Enquanto discípulos de Jesus somos chamados, no tempo que nos tocou viver, a dar testemunho de um Deus que ama sem medida, sem fronteiras, sem exclusivismos. Como é que cumprimos esta missão? Como é que tratamos os que a sociedade condena e rejeita? Como é que consideramos e acolhemos os “diferentes”, os que são discriminados pelos seus comportamentos social ou religiosamente incorretos?
- Numa das parábolas que Jesus contou, a do “pai misericordioso”, há um “filho mais velho” que parece, desde o princípio, um rapaz responsável e cumpridor, que não dá preocupações ao pai nem envergonha a família. Trabalhou sempre nos campos que pertencem à família e nunca pôs em causa a autoridade do pai. No entanto, quando soube que o irmão mais novo tinha regressado a casa e o pai o tinha recebido com todo o afeto, amuou e recusou-se a entrar em casa. Talvez seja um rapaz “certinho” e bem comportado; mas tem um sentido de justiça rígido e inflexível. Considera o amor do pai pelo filho mais novo uma fraqueza indesculpável. Acha que quem é cumpridor deve ser recompensado e quem não cumpre as suas obrigações deve ser castigado e deixado para trás. Não conhece a misericórdia, a bondade, o amor, o perdão. Por isso, não compreende a “fraqueza” do pai em relação ao irmão que falhou; e nunca aceitará ou perdoará as escolhas erradas que o irmão fez. Alguma vez agimos como esse filho intransigente, que não compreende a misericórdia de Deus para com aqueles que se portam mal? Como é que olhamos para aqueles que abandonaram a comunidade cristã? Como é que falamos daqueles que se consideram ateus ou daqueles que buscam Deus em caminhos diferentes dos nossos? Como é que vemos e tratamos aqueles que as leis canónicas consideram em situação irregular?
- Por razões diversas, a nossa sociedade enfrenta periodicamente fases em que a curva da criminalidade, da violência, da insegurança, da crispação, do conflito, tem um crescimento exponencial. Alguns decidem, então, que a culpa reside na permissividade das leis e exigem castigos mais severos, capazes de restaurar, pela força, a tranquilidade social. Quer-se uma resposta musculada, dura, dissuasora, àqueles que infringem as regras socialmente aceites. Algumas ideologias extremistas chegam a insistir em soluções definitivas, propondo inclusive a pena de morte para os delitos considerados mais graves. Naturalmente, não podemos pactuar com aqueles que, por razões puramente egoístas, usam a violência e não respeitam as leis legítimas. Mas como é que tudo isto encaixa na “lógica” daquele “pai misericordioso” da parábola, que está sempre à espera do filho culpado para o abraçar e acolher? Até que ponto devem ir os “castigos” que utilizamos para assegurar a ordem e o equilíbrio social?
- As “parábolas da misericórdia” deixam no ar algumas questões: se Deus é assim, se Deus está sempre de braços abertos para acolher os filhos que fizeram escolhas erradas, vale a pena ser bom? Não será mais lógico “gozar a vida” o mais possível, sem problemas de consciência, uma vez que Deus tudo perdoa? Há uma coisa que devemos ter absolutamente clara: escolher caminhos de autossuficiência, à margem de Deus, nunca é uma opção que nos traga felicidade e realização pessoal; optar pela futilidade e pelos valores efémeros leva-nos, mais tarde ou mais cedo, a um enorme vazio interior e a situações sem saída. Podemos, evidentemente, no exercício da nossa liberdade “matar Deus”, ignorar as suas indicações, afastar-nos da “casa do pai”, viver como nos apetece; mas será uma opção inteligente? Ao fim de algum tempo, não descobriremos que andamos em círculos, sem rumo e sem objetivo? Isso não será perder tempo? Podemos dar-nos ao luxo de desperdiçar a nossa breve vida em caminhos que não nos levam a lado nenhum?
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 24.º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 24.º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.
2. DESENVOLVER O RITO PENITENCIAL.
O Evangelho deste domingo incide particularmente na caminhada de penitência e de conversão. Esta poderia ser sublinhada no rito penitencial, utilizando a primeira fórmula da recitação do “Confesso a Deus” e cântico do Kyrie: tempo de silêncio após a introdução do rito; tempo de silêncio entre o final de “Confesso a Deus” e a fórmula de conclusão; tempo de silêncio antes da recitação do Kyrie. A seguir, canta-se o “Glória a Deus” para exprimir a alegria da conversão.
3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
“Deus de Israel, Deus das promessas renovadas e da Aliança fiel, Tu que guiaste Moisés para que ele conduzisse o teu povo fora do Egipto, nós Te bendizemos pela paciência e pelo perdão que nos revelas.
Nós invocamos o teu perdão para as nossas infidelidades para contigo, para o esquecimento dos teus ensinamentos e para os nossos afastamentos do caminho da vida”.
No final da segunda leitura:
“Nosso Pai, honra e glória a Ti, Rei dos séculos, Deus único, invisível e imortal, pelos séculos dos séculos. Nós, pecadores, afirmamos o nosso reconhecimento pelo teu perdão, que nos faz levantar todos os dias.
Nós Te pedimos pelos nossos irmãos e irmãs abatidos pelos seus afastamentos e que duvidam do perdão que Tu concedes a todos os que vêm a Ti”.
No final do Evangelho:
“Nosso Pai, Tu que fazes bom acolhimento aos pecadores como nós e que nos convidas à mesa do teu Filho, nós Te bendizemos. Alegras-te pela ovelha e pela moeda reencontradas e pelo regresso do filho perdido.
Nós Te pedimos. Pelo teu Espírito, inspira as nossas intenções. Dá-nos o desejo de voltar para Ti. Partilha connosco a tua alegria pelo regresso dos teus filhos que se afastaram”.
4. BILHETE DE EVANGELHO.
Quando somos incomodados, geralmente recriminamos ou acusamos. Os fariseus e os escribas recriminam Jesus porque acolheu bem os pecadores. O filho mais velho da parábola recrimina o seu pai porque acolhe, com os braços abertos, o filho mais novo. Recriminam porque os seus corações estão fechados, recriminam porque eles próprios não podem acolher. De facto, não estarão eles a recriminar-se a si mesmos? O caminho está em acolher e deixar-se acolher…
5. À ESCUTA DA PALAVRA.
A parábola do filho pródigo é a mais conhecida das três “parábolas da misericórdia”. Mas as duas primeiras dão-nos também uma grande luz. Recordemos que as ovelhas tinham grande importância para o pastor. Não se pode aceitar que ele perdesse uma. Quanto à dracma, era uma soma importante. Basta pensar que uma família inteira podia viver um dia com duas dracmas. Compreende-se que a mulher que a perdeu, tudo faça para a encontrar. Jesus precisa: o pastor procura a sua ovelha perdida “até a encontrar”; a mulher procura a dracma perdida “até a encontrar”. Através destas duas personagens, é o Pai que Jesus nos quer mostrar. Eis como o nosso Pai age: diante dos homens que se afastam d’Ele, que vão por caminhos de perdição, Ele parte à sua procura, mas nunca para esta procura. Quando há um naufrágio, efetuam-se procuras para encontrar as vítimas. Mas, ao fim de um certo tempo, acabam-se estas procuras: já não há mais esperança! Mas não para Deus. Ele vai até ao fim, Ele encontrará de qualquer modo a sua criatura perdida. Mas onde? É na morte, consequência última da recusa do amor, que cai o homem. É na morte que Jesus irá para encontrar a humanidade perdida. E aí, no fundo das nossas trevas, que faz o pastor? Enche-se de cólera, bate na sua ovelha infiel, obriga-a a subir todo o caminho pelos seus próprios meios? Não! Nada disso! Quando a encontra, leva-a aos ombros. Jesus pega o homem aos ombros, poupa-lhe a dificuldade da subida para a luz. Como dizer mais explicitamente a gratuidade da salvação que Ele nos vem trazer? É a mesma luz do Pai que acolhe o seu filho sem nada lhe pedir, que lhe dá gratuitamente a sua dignidade de homem livre o seu lugar de filho, como se nada se tivesse passado. Como não transbordar de alegria diante de um tal Deus?
6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística I para a Reconciliação. As orações que precedem a consagração referem-se aos temas do Evangelho.
7. PALAVRA PARA O CAMINHO…
Entrar na alegria do nosso Pai… No Evangelho de hoje, Lucas oferece-nos três parábolas para nos falar da Misericórdia de Deus nosso Pai: a ovelha perdida, a moeda perdida, o filho pródigo. Ser beneficiários deste perdão pleno de amor do nosso Pai é o desejo de todos nós. Mas não nos acontece, tal como o filho mais velho, considerar que alguns dos nossos irmãos são imperdoáveis e, por vezes, acolher com cólera sanções da justiça que nos parecem demasiado clementes? Vamos recusar entrar na alegria do nosso Pai, que Se compraz a conceder a sua graça?
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA
Grupo Dinamizador:
José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
www.dehonianos.org