Festa da Exaltação da Santa Cruz - Ano C [atualizado]

14 de Setembro, 2025

ANO C

FESTA DA EXALTAÇÃO DA CRUZ

Tema da Festa da Exaltação da Santa Cruz

No séc. II o imperador Adriano (117-138), para dissuadir o culto cristão em Jerusalém, soterrou o local onde Jesus tinha sido crucificado e sepultado. No local do Santo Sepulcro, colocou a estátua de Júpiter; no local da crucifixão de Jesus, erigiu uma estátua em honra de Vénus. Os cristãos, contudo, continuaram a frequentar esses lugares, aí evocando a morte e a ressurreição de Jesus. Mais tarde, em 13 de setembro de 326, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, por indicação de um habitante de Jerusalém, descobriu no local do Calvário o madeiro da cruz onde Jesus tinha sido crucificado. Demolidas as construções pagãs erigidas por Adriano, foi construída uma basílica cristã, cuja dedicação aconteceu em 13 de setembro de 335. No dia a seguir, 14 de setembro, a cruz lá encontrada foi exposta à adoração dos fiéis. É este facto que está na origem da chamada Festa da Exaltação da Santa Cruz. A cruz de Jesus – que a liturgia deste dia nos convida a contemplar – é a expressão suprema do amor de um Deus que veio ao nosso encontro, aceitou partilhar a nossa humanidade, quis fazer-se servo dos homens, deixou-se matar para que o egoísmo e o pecado fossem vencidos. Ao entregar a sua vida na cruz, em dom de amor, Jesus indicou-nos o caminho para chegar à vida plena.

A primeira leitura traz-nos uma história do tempo em que os israelitas vagueavam pelo deserto. Deus propõe-se corrigir a tendência de Israel para a murmuração e a ingratidão; mas, constatando que o “remédio” podia “matar o doente”, Deus engendra uma estratégia de salvação. A serpente de bronze levantada sobre um poste, através da qual Deus cura o seu Povo, sinaliza o amor e a bondade de Deus; e é, por outro lado, um símbolo dessa força salvífica que alguns séculos mais tarde brotará da cruz de Cristo, o homem levantado ao alto para dar vida a todo o mundo.

No Evangelho Jesus, em conversa com um fariseu chamado Nicodemos, desvela-lhe o sentido e o significado da Sua presença no meio dos homens: Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna”. O amor de Deus tornar-se-á particularmente evidente quando, na cruz, Jesus entregar a sua vida por todos. Os que olharem para o Crucificado e acolherem a lição de amor que Ele oferece, encontrarão vida em abundância.

Na segunda leitura, Paulo apresenta aos crentes de Filipos a sua leitura da incarnação de Cristo. Jesus, o Filho de Deus, despojou-se da sua dignidade divina e veio ao encontro dos homens, revestido da nossa frágil natureza. Ele escolheu o caminho da obediência ao Pai e do serviço aos homens, até ao dom da vida. A cruz é a expressão máxima desse caminho e dessa opção. Paulo pede aos filipenses – e aos “discípulos” de todas as épocas e lugares – que aceitem percorrer o mesmo caminho que Jesus percorreu.

 

LEITURA I – Números 21,4b-9

Naqueles dias,
o povo de Israel impacientou-se
e falou contra Deus e contra Moisés:
«Porque nos fizestes sair do Egipto,
para morrermos neste deserto?
Aqui não há pão nem água
e já nos causa fastio este alimento miserável».
Então o Senhor mandou contra o povo serpentes venenosas
que mordiam nas pessoas
e morreu muita gente de Israel.
O povo dirigiu-se a Moisés, dizendo:
«Pecámos, ao falar contra o Senhor e contra ti.
Intercede junto do Senhor,
para que afaste de nós as serpentes».
E Moisés intercedeu pelo povo.
Então o Senhor disse a Moisés:
«Faz uma serpente de bronze e coloca-a sobre um poste.
Todo aquele que for mordido e olhar para ela
ficará curado».
Moisés fez uma serpente de bronze e fixou-a num poste.
Quando alguém era mordido por uma serpente,
olhava para a serpente de bronze e ficava curado.

 

CONTEXTO

O “Livro dos Números” é assim designado na versão grega da Bíblia Hebraica pelas frequentes listas de censos, de registos e de listas, que aparecem ao longo do livro (começando inclusive com os números do recenseamento do Povo de Deus, tribo por tribo, feito por Moisés por mandato de Deus – cf. Nm 1,1-47). Apresenta, sem grande preocupação de coerência e de lógica, um conjunto de tradições sobre a estadia no deserto dos hebreus libertados do Egipto. São tradições de origem diversa, que os teólogos das escolas javista, elohista e sacerdotal utilizaram com fins catequéticos.

No seu estado atual, o livro está dividido em três partes. A primeira narra os últimos dias da estadia do Povo de Deus no Sinai, junto do “monte da Aliança” (cf. Nm 1,1-10,10); a segunda descreve a caminhada do Povo pelo deserto, em diversas etapas, desde o Sinai até à planície de Moab, num trajeto geográfico difícil de seguir e de identificar (cf. Nm 10,11-21,35); a terceira apresenta a comunidade dos filhos de Israel instalada na planície de Moab, preparando a sua entrada na Terra Prometida (cf. Nm 22,1-36,13).

Mais do que uma crónica de viagem do Povo de Deus desde o Sinai, até às portas da Terra Prometida, o Livro dos Números é um livro de catequese. Pretende mostrar que a essência de Israel é ser um Povo santo, reunido à volta de Deus e da Aliança. Com algum idealismo, os autores do Livro dos Números vão descrevendo como esse grupo informe de nómadas libertados do Egipto foi ganhando progressivamente uma consciência nacional e religiosa, até chegar a formar a “assembleia santa de Deus”. O autor mostra como, ao longo do caminho, por ação de Deus, Israel vai progressivamente amadurecendo, renovando-se, transformando-se, alargando os horizontes, tornando-se um Povo mais responsável, mais consciente, mais adulto e mais santo.

O episódio que hoje nos é proposto situa-nos no deserto do Neguev, no sul da Palestina. Impedidos de atravessar o território dos Edomitas (cf. Nm 20,14-21), os hebreus dirigiram-se para o sul pelo “caminho do mar dos Juncos” (Nm 21,4), a fim de contornarem a fronteira de Edom, em direção ao golfo da Aqaba.

 

MENSAGEM

A caminhada pelo deserto dos escravos hebreus libertados do Egito foi pontuada pelas dificuldades mais diversas e arrastou-se durante bastante tempo. Algumas delas ficaram especialmente marcadas na memória coletiva. Ao cansaço do caminho e aos ataques dos inimigos somavam-se a fome, a sede e até mesmo o medo das serpentes venenosas que se escondiam nos terrenos pedregosos do deserto do Sinai e que, de vez em quando, mordiam os viajantes.

Quando os israelitas se dirigiam para o golfo da Aqaba, teve lugar mais uma das tantas revoltas do povo contra Moisés e contra o Deus que os tinha arrastado para aquela aventura. Diziam: “Porque nos fizestes sair do Egipto, para morrermos neste deserto? Aqui não há pão nem água e já nos causa fastio este alimento miserável” (vers. 5). Por essa altura, os israelitas ainda estavam presos a uma mentalidade de escravo. Confrontados com os riscos que a liberdade implicava, sentiam saudades dos tempos em que não eram livres mas também não experimentavam a incomodidade dos caminhos.

Os teólogos que redigiram esta história vão utilizar, na sua reflexão, o velho esquema da teologia tradicional: pecado, castigo, conversão, salvação. O pecado do povo consistiu na murmuração contra a ação salvadora de Deus. Deus não quis aceitar passivamente as murmurações dos israelitas ingratos; por isso, enviou contra eles serpentes venenosas que os mordiam e matavam (vers. 6). Diante da resposta de Deus, o povo tomou consciência do seu pecado e pediu perdão (vers. 7). Vendo a reação do povo, Deus ofereceu-lhe os meios para se salvar (vers. 8-9). Moisés, por ordem de Deus, construiu uma serpente de bronze e colocou-a num poste, à vista dos israelitas; quem, depois de mordido, olhasse para essa serpente, era salvo.

Trata-se, provavelmente, de uma narração etiológica (uma história destinada a explicar uma realidade atual, a partir de um acontecimento situado num passado mais ou menos remoto) que pretendia justificar porque é que, a certa altura, houve no Templo de Jerusalém uma serpente de bronze que era objeto de culto. Essa serpente foi destruída pelo rei Ezequias no âmbito de uma reforma religiosa destinada a purificar a religião javista (cf. 2 Rs 18,4). De resto, a história encaixa bem no contexto cultual de Canaã, onde a serpente aparecia ligada a rituais cúlticos de fertilidade e onde muita gente usava amuletos com a figura de uma serpente com o objetivo de se proteger das forças maléficas e de alcançar a cura para as suas enfermidades (as escavações arqueológicas realizadas em Guezer, em Meggido e em Meneiyeh – hoje Timna – muito perto do golfo da Aqaba, permitiram descobrir numerosos exemplares destes amuletos).

Seja como for, a verdade é que no relato do livro dos Números que a liturgia desta festa nos propõe como primeira leitura, a serpente de bronze funciona como símbolo da bondade, da misericórdia e do amor de Deus pelo seu Povo. O catequista bíblico diz-nos que as rebeliões de Israel contra Deus e a sua recusa em percorrer caminhos de fidelidade à Aliança, nunca impediram Javé de oferecer ao seu Povo vida em abundância, mesmo quando Israel não o merecia.

A serpente de bronze levantada sobre um poste, através da qual Deus dá vida ao seu Povo e o protege das forças destruidoras que ele enfrenta ao longo da sua peregrinação pelo deserto, irá mais tarde proporcionar ao autor do Quarto Evangelho um bom símbolo para expressar a força salvífica que brota da cruz de Cristo, o homem levantado ao alto para dar vida a todo o mundo.

 

INTERPELAÇÕES

  • O livro dos Números, ao contar a caminhada dos israelitas desde a montanha do Sinai até às portas da Terra Prometida, define um percurso que é mais espiritual do que geográfico. As vicissitudes que vão aparecendo ao longo do caminho ajudam o povo de Deus a libertar-se de uma mentalidade mesquinha, egoísta, comodista, e a adquirir uma mentalidade mais madura, mais desprendida, mais responsável, mais consciente e mais santa. Deus lá está, ao longo de todo o percurso, intervindo e atuando, demonstrando ao Povo o sem sentido das suas opções comodistas e convidando-o a ver mais longe, a não se deixar prender por cadeias de egoísmo e de escravidão. A caminhada dos hebreus pelo deserto reflete a caminhada da nossa vida. Ao longo do nosso percurso de vida vem ao de cima, a cada passo, a nossa fragilidade, a nossa preguiça, a nossa apatia; instalados na nossa zona de conforto, contentamo-nos com valores efémeros e recusamo-nos a ir mais além, a arriscar, a abraçar os valores que exigem mais de nós. Mas, hoje como ontem, Deus aparece-nos em cada curva do caminho, insiste connosco, desafia-nos a nunca parar na busca da verdadeira liberdade. Revemo-nos nesta história? Estamos atentos e recetivos às indicações que Deus nos vai dando em cada passo do caminho?
  • A história da serpente de bronze que proporciona vida e salvação ao povo de Deus sinaliza, de forma muito particular, uma preocupação que Deus nunca deixou de manifestar ao longo da história da salvação: oferecer aos seus queridos filhos que caminham na terra vida em abundância. A solicitude de Deus, o seu cuidado, a sua misericórdia infinita, a sua preocupação em curar as feridas que a vida nos inflige, são as marcas de um amor incomensurável e incondicional. A serpente do egoísmo, da violência, da injustiça, da exploração, do orgulho, da ambição, da mentira, do medo, da maldade, espera-nos oculta nas pedras do nosso caminho e procura envenenar-nos; mas se, mesmo atingidos pelo veneno dessa serpente, levantarmos o olhar para o alto, seremos curados e salvos. “Olhar para o alto” é confiar em Deus, acolher o seu amor, viver de acordo com as suas indicações, optar pelos valores eternos; “olhar para o alto” é escolher a justiça, a verdade, a paz, a solidariedade, a partilha, o serviço, o perdão, a liberdade, o amor aos irmãos; “olhar para o alto” é viver de olhos postos na vida verdadeira e eterna; “olhar para o alto” é apostar em tudo o que dá sentido pleno à nossa vida. Vivemos de olhos postos no alto?
  • A catequese tradicional de Israel considera como “castigos” de Deus determinados acontecimentos que trouxeram sofrimento aos israelitas. A perspetiva, no entanto, é que esses “castigos” não são pura vingança divina contra o pecado do homem, mas sim um meio a que Deus recorre para educar o seu Povo e para o fazer perceber o sem sentido de certas opções. Nós, depois de termos frequentado a “escola de Jesus” e iluminados pela visão que Jesus nos oferece do Pai, acreditamos que o castigo não faz parte da lógica de Deus. Deus ama-nos com um amor verdadeiro e apenas quer a nossa felicidade e a nossa plena realização. É verdade que, muitas vezes, as nossas opções erradas têm consequências que nos fazem sofrer; esse sofrimento, no entanto, não deve ser atribuído a Deus, mas sim às nossas escolhas egoístas e aos efeitos que elas têm na nossa vida. Como é que “lemos” e sentimos os males que nos atingem?

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 77 (78)

Refrão:
Não esqueçais as obras do Senhor.

Escuta, meu povo, a minha instrução,
presta ouvidos às palavras da minha boca.
Vou falar em forma de provérbio,
vou revelar os mistérios dos tempos antigos.

Quando deus castigava os antigos, eles O procuravam,
tornavam a voltar-se para Ele
e recordavam-se de que Deus era o seu protetor,
o Altíssimo o seu redentor.

Eles, porém, enganavam-n’O com a boca
e mentiam-Lhe com a língua;
o seu coração não era sincero,
nem eram fiéis à sua aliança.

Mas Deus, compadecido, perdoava o pecado
e não os exterminava.
Muitas vezes reprimia a sua cólera
e não executava toda a sua ira.

 

LEITURA II – Filipenses 2,6-11

Cristo Jesus, que era de condição divina,
não Se valeu da sua igualdade com Deus,
mas aniquilou-Se a Si próprio.
Assumindo a condição de servo,
tornou-Se semelhante aos homens.
Aparecendo como homem,
humilhou-Se ainda mais,
obedecendo até à morte
e morte de cruz.
Por isso Deus O exaltou
e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes,
para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem
no céu, na terra e nos abismos,
e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor,
para glória de Deus Pai.

 

CONTEXTO

A cidade de Filipos, situada na Macedónia oriental, era uma cidade próspera, com uma população constituída maioritariamente por veteranos romanos do exército. Organizada à maneira de Roma, estava fora da jurisdição dos governantes das províncias locais e dependia diretamente do imperador. Gozava dos mesmos privilégios das cidades de Itália e os seus habitantes tinham cidadania romana. Paulo chegou a Filipos pelo ano 49 ou 50, no decurso da sua segunda viagem missionária, acompanhado de Silvano, Timóteo e Lucas (cf. At 16,1-40). Da sua pregação nasceu a primeira comunidade cristã em solo europeu.

A comunidade cristã de Filipos era uma comunidade entusiasta, generosa, comprometida, sempre atenta às necessidades de Paulo e do resto da Igreja (como no caso da coleta em favor da Igreja de Jerusalém – cf. 2 Cor 8,1-5). Paulo nutria pelos cristãos de Filipos um afeto especial; e os filipenses, por seu turno, tinham Paulo em grande apreço. Apesar de tudo, a comunidade cristã de Filipos não era perfeita: os altivos patrícios romanos de Filipos tinham alguma dificuldade em assumir certos valores como o desprendimento, a humildade e a simplicidade.

Paulo escreve aos Filipenses numa altura em que estava na prisão (não sabemos se em Cesareia, em Roma, ou em Éfeso). Os filipenses tinham-lhe enviado, por um membro da comunidade chamado Epafrodito, uma certa quantia em dinheiro, a fim de que Paulo pudesse prover às suas necessidades. Na carta, Paulo agradece a preocupação dos filipenses com a sua pessoa (cf. Fl 4,10-20); exorta-os a manterem-se fiéis a Cristo e a incarnarem os valores que marcaram a vida de Cristo (“tende entre vós os mesmos sentimentos que estão em Cristo Jesus” – Fl 2,5).

O texto que a liturgia do domingo de Ramos nos apresenta como segunda leitura é o texto mais notável da carta aos filipenses. Trata-se de um antigo hino, provavelmente pré-paulino, que era recitado nas celebrações litúrgicas cristãs (há quem fale, a propósito deste hino, na catequese primitiva de Simão Pedro, conservada na comunidade cristã de Antioquia da Síria). Lembra aos cristãos de Filipos o exemplo de Cristo, a sua humildade e despojamento.

 

MENSAGEM

Cristo Jesus – nomeado no princípio, no meio e no fim – constitui o motivo do hino. Os filipenses, enquanto discípulos de Cristo, são convidados a olhar para Ele e a conformarem as suas vidas com o Seu exemplo. Como é o exemplo de Cristo?

O hino começa por aludir subtilmente ao contraste entre Adão e Cristo: Adão, o primeiro homem, reivindicou ser como Deus, assumiu diante de Deus uma atitude de arrogância e autossuficiência e virou as costas às indicações de Deus (cf. Gn 3,5.22); Cristo, o Homem Novo, assumiu uma atitude de humildade e obediência diante de Deus (vers. 6-7). A atitude de Adão trouxe sofrimento e morte; a atitude de Jesus trouxe exaltação e vida.

A atitude de Cristo é caraterizada no hino como “aniquilação” ou “despojamento” (“kenosis” – vers. 7). Cristo era de condição divina; mas sem reivindicar, em razão do seu estatuto, quaisquer poderes ou privilégios, pôs-se totalmente ao serviço do projeto salvador do Pai. Aceitou, conforme o plano do Pai, vestir a fragilidade dos seres humanos e tornou-se homem: experimentou as dores e os limites dos homens, conviveu com os dramas dos homens e caminhou com os homens para lhes indicar o caminho que leva à salvação, fez-se servo dos homens, lavou-lhes os pés. Como se tudo isso não bastasse, desceu ainda mais: foi contestado, preso, condenado e sofreu uma morte infame na cruz, a morte reservada aos malditos e abandonados por Deus (vers. 8). Esta história de despojamento parece uma história de fracasso e de morte, uma história “pouco recomendável”. É assim que termina a história de quem obedece a Deus e põe a sua vida ao serviço do plano salvador de Deus?

Não. Exatamente porque cumpriu plenamente o plano do Pai, Deus ressuscitou-O e exaltou-O. Fê-lo vencer a injustiça, o egoísmo e a violência que o tinham condenado a uma morte maldita. Apresentou-O como modelo para todos os homens. Mais: Deus fez dele o “Jesus” (o nome significa “Deus salva”) e o “Kyrios” (“Senhor” – nome que, no Antigo Testamento, substituía o nome impronunciável de Deus); e a humanidade inteira (“os céus, a terra e os infernos”) reconhece esse Cristo que se despojou de tudo para obedecer ao Pai como “o Senhor” que reina sobre toda a terra e que preside à história (vers. 9-11).

Aos filipenses e aos crentes de todas as épocas e lugares Paulo diz: “libertai-vos do orgulho, da autossuficiência, da arrogância, do fechamento a Deus e às suas propostas; aprendei com Cristo a pôr a vossa vida ao serviço do plano de Deus; com humildade e simplicidade, tornai-vos servos de todos; amai sem medida, até ao dom total da vida. Deus garante-vos que esse caminho – o caminho que Cristo percorreu – não conduz ao aniquilamento, mas sim à glória, à Vida plena”.

 

INTERPELAÇÕES

  • O hino cristológico de Flp 2,6-11 constitui uma excelente chave de leitura para interpretar, sentir e viver a Festa da Exaltação da Santa Cruz. Ao “som” deste belíssimo hino podemos compreender o caminho de Jesus, o significado das suas opções, o sentido da sua vida, da sua paixão, morte e ressurreição. Jesus veio ao encontro dos homens e entrou no mundo pela porta da pobreza e da humildade; fez-se da estatura dos homens para nos elevar à grandeza de Deus. Caminhou no meio dos homens, teve fome e frio, experimentou o cansaço e a dor, chorou e irritou-se, aproximou-se dos pecadores e malditos. Foi condenado como subversivo e sofreu o suplício reservado aos piores, ao “lixo” da sociedade. Abraçou o mundo, não a partir de um trono, mas dessa cruz maldita onde morriam os que a sociedade da época queria humilhar especialmente. No final, contudo, Deus ressuscitou-O e exaltou-O, dando-lhe razão e confirmando a verdade da vida que Ele viveu e da proposta que Ele veio fazer-nos. Nós, que somos gente tão ciente da nossa importância, das nossas prerrogativas, dos nossos direitos, como é que avaliamos esse caminho que Jesus percorreu? A cruz foi fracasso, ou foi vitória? Estamos disponíveis para seguir atrás de Jesus, para abraçar a cruz e para fazer da nossa vida um dom de amor?
  • Não há mesmo volta a dar: a lógica de Deus funciona em sentido contrário à nossa lógica humana. Quanto mais nos despojamos da nossa superioridade, quanto mais renunciamos à capa da importância e da autoridade, quanto mais gastamos a nossa vida a fazer o bem, quanto mais nos fazemos “servos” dos nossos irmãos, quanto mais amamos sem esperar nada em troca, mais subimos na “escala” de Deus. Deus disse-nos isto, com todas as letras, através do seu Filho Jesus. De forma inequívoca, de forma irrefutável, com uma linguagem que só não entende quem não quer. Porque é que, depois de dois mil anos a olhar para a cruz de Jesus, isto ainda não é claro para nós? O que mais tem Deus de fazer para nos mostrar o caminho que conduz à Vida verdadeira?
  • Apesar de tudo aquilo que Jesus nos disse, nós continuamos a afirmar, gloriosamente convencidos, que “dos fracos não reza a história”. Queremos dizer com isto que, segundo a nossa experiência, os grandes vencedores do jogo da vida são os poderosos e autossuficientes, os ambiciosos e arrogantes, os que impõem aos outros a sua própria vontade, os que enfrentam o mundo com agressividade, os que fazem por ser melhores mesmo que isso signifique passar por cima dos mais frágeis. Os outros – os fracos, os humildes, os pequenos, os que vivem para servir, os que não ameaçam ninguém, os que não gritam para impor a sua vontade – são gente que não deixa registo no grande livro da memória dos homens. À luz do que sabemos da lógica de Deus, quais serão os nomes que aparecem em primeiro lugar no grande livro da vida, no grande livro de Deus? E o que é que isso nos sugere? Por outro lado, como é que nós, os seguidores do Crucificado, nos situamos num mundo onde é preciso impor-se aos outros e ser competitivo? Teremos de prescindir do “estilo de Jesus” para cumprir o papel que a sociedade espera de nós?

 

ALELUIA

Aleluia. Aleluia.

Nós Vos adoramos e bendizemos, Senhor Jesus Cristo,
Que pela vossa santa cruz remistes o mundo.

 

EVANGELHO – João 3,13-17

Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos:
«Ninguém subiu ao Céu
senão Aquele que desceu do Céu: o Filho do homem.
Assim como Moisés elevou a serpente no deserto,
também o Filho do homem será elevado,
para que todo aquele que acredita
tenha n’Ele a vida eterna.
Deus amou tanto o mundo
que entregou o seu Filho Unigénito,
para que todo o homem que acredita n’Ele
não pereça, mas tenha a vida eterna.
Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo
para condenar o mundo,
mas para que o mundo seja salvo por Ele».

 

CONTEXTO

Jesus tinha ido a Jerusalém para a celebração da Páscoa (cf. Jo 2,13). Foi lá que se encontrou e conversou com um fariseu chamado Nicodemos, que era “uma autoridade entre os judeus” (Jo 3,1).

Dizer que Nicodemos era fariseu é dizer que ele era um homem da Lei. Os fariseus distinguiam-se pela sua adesão e fidelidade à Lei de Moisés. Os membros deste partido tinham grande influência entre o povo pela sua fama de observância e de prática religiosa. Mas João diz-nos também que Nicodemos era uma autoridade entre os judeus. Isso significa, provavelmente, que era membro do Sinédrio, um representante do judaísmo oficial. O encontro de Nicodemos com Jesus dá-se “de noite”. A indicação pode significar que ele não queria ser visto com Jesus para não prejudicar a sua posição, ou pode ter a ver com o hábito que os fariseus tinham de estudar a Lei à noite. Também pode significar que, nessa altura, Nicodemos ainda está às escuras, pois ainda não foi iluminado pela luz de Jesus. É bem possível que Nicodemos fizesse parte de um grupo, dentro do judaísmo erudito, que se interessava por Jesus e que queria compreendê-lo. Nicodemos aparecerá, mais tarde, a defender Jesus, perante os chefes dos fariseus (cf. Jo 7,50-52). Também estará presente na altura em que Jesus foi descido da cruz e colocado no túmulo (cf. Jo 19,39).

A conversa daquela noite entre Jesus e Nicodemos apresenta três momentos significativos. No primeiro (cf. Jo 3,1-3), Nicodemos reconhece a autoridade de Jesus, graças às obras poderosas que Ele faz; mas Jesus acrescenta que isso não é suficiente, pois o essencial é reconhecê-l’O como o enviado do Pai, como aquele que veio do alto para revelar Deus. No segundo (cf. Jo 3,4-8), Jesus explica a Nicodemos que, para entender a proposta que Ele traz, é preciso “nascer de Deus”; e explica-lhe que esse novo nascimento é o nascimento “da água e do Espírito”. No terceiro (cf. Jo 3,9-21), Jesus descreve a Nicodemos o projeto de salvação de Deus: é uma iniciativa do Pai, tornada presente no mundo e na vida dos homens através do Filho e que se concretizará pela cruz/exaltação de Jesus. O extrato da conversa que escutamos na Festa da Exaltação da Santa Cruz pertence a esta terceira parte. É um texto carregado de densidade teológica.

 

MENSAGEM

Nicodemos é um fariseu bem-intencionado que procura a luz. Vai ter com Jesus, certa noite, porque intui que Jesus é um homem de Deus. Acha que Jesus pode guiá-lo em direção à luz, à vida verdadeira, à “salvação”. Por isso, Nicodemos está pessoalmente interessado em entender o projeto de Jesus, em mergulhar no mistério de Jesus. O que é – pergunta ele – que Jesus pretende com a pregação que anda a fazer pelas aldeias e vilas da Galileia? Qual é o seu objetivo?

Em resposta, Jesus expõe a Nicodemos o projeto que o Pai lhe confiou… Ele “desceu do céu”, por mandato de Deus, para vir ao encontro dos homens e para apontar aos homens os caminhos que conduzem à vida verdadeira (vers. 13). Por detrás dessa iniciativa de Deus, está o amor infinito que Ele sente pelos seus filhos que peregrinam na terra. Jesus irá dizer aos homens – com a sua vida, com as suas palavras, com os seus gestos – que Deus os ama com um amor sem igual; e irá convidá-los a acolherem esse amor e a deixarem-se conduzir pelo amor. Chegará até o dia em que Jesus, no exercício da sua missão, enfrentará os mecanismos de injustiça e de morte que destroem a vida, que geram infelicidade e sofrimento; chegará o dia em que Jesus oferecerá a sua vida até ao extremo, até ao dom total de si mesmo, para fazer nascer um mundo novo. Jesus será preso, condenado e levantado na cruz à vista de toda a Jerusalém, por causa da sua ação e do seu testemunho; e todos os que passarem pelo local da sua execução poderão contemplar, naquele homem que entregou a vida para salvar os seus irmãos, a grandeza incomensurável do amor de Deus. Os que olharem para o Crucificado, aprenderem a lição do amor e passarem a viver no amor, terão vida eterna. Serão pessoas renovadas, que se libertaram do egoísmo, da violência, da autossuficiência, da mentira, da maldade; serão homens e mulheres novos que, a exemplo de Jesus, optaram por viver no amor. O amor é sempre fonte de vida nova. Aqueles que o amor transformar estão destinados à comunhão plena com Deus.

Para que tudo isso seja mais claro para Nicodemos, Jesus recorre a um episódio da história de Israel (vers. 14). Durante a caminhada do povo pelo deserto, quando estavam perto do golfo da Aqaba, os israelitas murmuraram contra Deus e contra o seu servo Moisés. Estavam cansados, fartos de passar privações, até sentiam saudades do tempo em que eram escravos no Egito. Deus, para os educar, permitiu que eles fossem mordidos por serpentes venenosas. Os israelitas perceberam, então, o sem sentido das suas críticas à ação de Deus e mostraram-se arrependidos. Então Deus, na sua misericórdia, quis salvá-los. Ordenou a Moisés que construísse uma serpente de bronze e a colocasse no alto, sobre um poste; quem, depois de mordido por uma serpente venenosa, olhasse para a serpente de bronze exposta à vista de todos, seria salvo (cf. Nm 21,4-7). Como essa antiga serpente de bronze, Jesus será, para todos aqueles que o contemplarem, sinal visível do amor de Deus; como essa antiga serpente de bronze, Jesus será, para todos aqueles que o olharem e perceberem a lição do amor, fonte de vida eterna. Nicodemos pensava que a fonte da vida eterna estava na Lei, na Tora. Jesus garante-lhe que a vida plena não brota da Lei, mas sim do amor de Deus, expresso naquela cruz onde Jesus se oferece até ao dom total de si mesmo. Quem “acredita” no Homem levantado na cruz, quem adere a Ele e à sua proposta de Vida, quem aprende com Ele a fazer da própria vida dom total a Deus e aos irmãos, quem está disponível para dar a própria vida por amor, esse está destinado à Vida eterna (vers. 15).

Nesta altura, Nicodemos já percebeu que a presença de Jesus no mundo resulta do amor de Deus pelos seus filhos que caminham no mundo e na história; também já sabe que “acreditar” em Jesus, acolher as suas propostas, segui-l’O, viver ao seu estilo, amar como Ele ama, é fonte de vida eterna (“Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna” – vers. 16). Nicodemos está agora preparado para entender que o desígnio de Deus sobre o homem não é um desígnio de condenação e de morte, mas é um desígnio de salvação e de vida. Jesus não veio julgar e condenar o mundo, mas sim salvá-lo (vers. 17). Ele veio oferecer aos homens – a todos os homens, sem exceção – a Vida definitiva. Jesus chegou ao mundo, dirigiu-se a homens pecadores, egoístas, autossuficientes, violentos, injustos, mentirosos, não para os condenar e ostracizar, mas para lhes oferecer a salvação. Mostrou-lhes o sem sentido da maldade e da injustiça e propôs-lhes uma vida diferente. Dando a vida por amor, inseriu os homens num dinamismo de vida nova, de vida plena. Jesus mostrou-nos, com o seu amor até ao extremo, como é que o mal pode ser vencido.

Sempre que olhamos para a cruz de Jesus, tomamos consciência de tudo isto; celebramos o amor de Deus e a salvação que esse amor nos veio oferecer; comprometemo-nos a seguir os passos de Jesus e a construir um mundo onde o amor esteja presente; tomamos consciência de que somos enviados a dar testemunho do amor de Deus – desse amor que aprendemos com Jesus – junto dos nossos irmãos, particularmente os mais sofredores, os mais abandonados, os mais esquecidos.

 

INTERPELAÇÕES

  • João é o evangelista abismado na contemplação do amor de um Deus que não hesitou em enviar ao mundo o seu Filho, o seu único Filho, para apresentar aos homens uma proposta de felicidade plena, de vida definitiva; e Jesus, o Filho, cumprindo o mandato do Pai, fez da sua vida um dom, até à morte na cruz, para mostrar aos homens o “caminho” da vida eterna… O Evangelho que escutamos na Festa da Exaltação da Santa Cruz convida-nos a contemplar, com João, esta incrível história de amor e a espantar-nos com o peso que nós – seres limitados e finitos, pequenos grãos de pó na imensidão das galáxias – adquirimos nos esquemas, nos projetos e no coração de Deus. Temos consciência desse amor, estamos gratos por esse amor, aceitamos que esse amor nos indique o caminho que devemos percorrer e a forma como devemos viver?
  • O amor de Deus traduz-se na oferta ao homem de Vida plena e definitiva. É uma oferta gratuita, incondicional, absoluta, válida para sempre e que não discrimina ninguém. Aos homens – dotados de liberdade e de capacidade de opção – compete decidir se aceitam ou se rejeitam o dom de Deus. Às vezes, os homens acusam Deus pelas guerras, pelas injustiças, pelas arbitrariedades que trazem sofrimento e que pintam as paredes do mundo com a cor do desespero… Mas o texto evangélico que hoje escutamos é claro: Deus ama cada pessoa e a todos oferece a vida. O sofrimento e a morte não vêm de Deus, mas são o resultado das escolhas erradas feitas pelo ser humano que se obstina na autossuficiência e que prescinde dos dons de Deus. Temos consciência de que alguns dos males do nosso mundo poderão resultar do nosso egoísmo, do nosso orgulho, do nosso comodismo, dos nossos preconceitos, da nossa recusa em ouvir Deus e em seguir os caminhos que Ele nos aponta? O que é que precisamos de mudar, nas nossas vidas, para sermos sinais e arautos do amor de Deus?
  • O evangelista João define claramente o caminho que todo o homem deve seguir para chegar à vida eterna: trata-se de “acreditar” em Jesus. “Acreditar” em Jesus não é uma mera adesão intelectual ou teórica a certas verdades da fé; mas é escutar Jesus, acolher a sua mensagem e os seus valores, segui-l’O no caminho do amor e da entrega ao Pai e aos irmãos. “Acreditar” significa olhar para aquele homem levantado na cruz e aprender com Ele o amor até ao extremo, o amor que ultrapassa todo o egoísmo e é dom total; “acreditar” passa por despir o egoísmo, o orgulho, a autossuficiência, os preconceitos, para realizar gestos concretos de dom, de entrega, de serviço que tragam alegria, vida e esperança aos irmãos que caminham lado a lado connosco. A liturgia da Festa da Exaltação da Santa Cruz convida-nos a percorrer, com Jesus, esse caminho de amor, de dom, de entrega total que Ele percorreu. Jesus é para nós essa referência fundamental, que procuramos seguir a cada instante e que nos aponta o caminho? Estamos dispostos a confiar incondicionalmente n’Ele, mesmo quando as suas indicações parecem estar contra a cultura ambiente, os ditames da moda, as doutrinas vigentes, ou as regras do socialmente correto?
  • Contemplar a cruz onde se manifesta o amor e a entrega de Jesus significa assumir a mesma atitude que Ele assumiu e solidarizar-se com aqueles que são crucificados neste mundo: os que sofrem violência, os que são explorados, os que são excluídos, os que são privados de direitos e de dignidade. Olhar a cruz de Jesus significa denunciar tudo o que gera ódio, divisão, medo, em termos de estruturas, valores, práticas, ideologias; significa evitar que os homens continuem a crucificar outros homens; significa aprender com Jesus a entregar a vida por amor… Viver deste modo pode conduzir à morte; mas o cristão sabe que amar como Jesus é viver a partir de uma dinâmica que a morte não pode vencer: o amor gera vida nova e introduz na nossa carne os dinamismos da ressurreição. A contemplação da cruz de Jesus leva-nos ao compromisso com a transformação do mundo? A contemplação da cruz de Jesus faz com que nos sintamos solidários com todos os nossos irmãos que todos os dias são crucificados e injustiçados? A contemplação da cruz de Jesus dá-nos a coragem para lutarmos contra tudo aquilo que gera sofrimento e morte, mesmo que isso implique correr riscos, ser incompreendido e condenado?

 

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA

Grupo Dinamizador:
José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
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