06º Domingo do Tempo Comum - Ano A [atualizado]

15 de Fevereiro, 2026

ANO A

6.º Domingo do Tempo Comum

Tema do 6.º Domingo do Tempo Comum

Como devemos responder à oferta de salvação que Deus nos faz? A liturgia do sexto domingo comum propõe-nos algumas respostas. Entre as diversas considerações que as leituras nos trazem, sobressai esta: somos chamados por Deus a um destino transcendente, a uma vocação sublime, a uma felicidade completa e eterna; não podemos, por desleixo, por comodismo, por falta de compromisso, ignorar uma proposta que nos garante a vida em plenitude.

Na segunda leitura, o apóstolo Paulo apresenta o plano salvador de Deus (aquilo a que ele chama a “sabedoria de Deus” ou o “mistério”). É um projeto que Deus preparou desde sempre “para aqueles que o amam”, que esteve oculto aos olhos dos homens, mas que Jesus Cristo revelou com a sua pessoa, com as suas palavras, com os seus gestos e, sobretudo, com o dom da sua vida até ao extremo. Na cruz onde Jesus entregou a vida vemos – ao vivo e a cores – o amor que Deus tem por nós; nesse amor descobrimos o caminho que leva à salvação, à nossa plena realização.

A primeira leitura diz-nos, no entanto, que somos livres de escolher entre as propostas de Deus (que conduzem à vida e à felicidade) e a nossa autossuficiência (que conduz, quase sempre, à morte e à desgraça). Para aqueles que escolhem a vida, Deus oferece-lhes os seus “mandamentos”: são os “sinais” que mostram o caminho da salvação.

No Evangelho, Jesus pede aos seus discípulos – àqueles que aceitam a oferta da salvação que Ele traz e se dispõem a caminhar com Ele – que não se limitem a “serviços mínimos”, isto é, ao cumprimento da letra da “Lei”, mas adiram a Deus de todo o coração e busquem a vontade do Pai com paixão, com entusiasmo, com total compromisso.

 

LEITURA I – Ben Sirá 15, 16-21 (15-20)

Se quiseres, guardarás os mandamentos:
ser-lhe fiel depende da tua vontade.
Deus pôs diante de ti o fogo e a água:
estenderás a mão para o que desejares.
Diante do homem estão a vida e a morte:
o que ele escolher, isso lhe será dado.
Porque é grande a sabedoria do Senhor,
Ele é forte e poderoso e vê todas as coisas.
Seus olhos estão sobre aqueles que O temem,
Ele conhece todas as coisas do homem.
Não mandou a ninguém fazer o mal,
nem deu licença a ninguém de cometer o pecado.

 

CONTEXTO

O Livro de Ben Sirá (chamado, na sua versão grega, “Eclesiástico”) é um livro de carácter sapiencial que, como todos os livros sapienciais, tem por objetivo deixar aos aspirantes a “sábios” indicações práticas sobre a arte de bem viver e de ser feliz. O seu autor terá sido um tal Jesus Ben Sirá, um “sábio” israelita que viveu na primeira metade do séc. II a.C. (cf. Sir 51,30).

A época de Jesus Ben Sirá é uma época conturbada para o Povo de Deus. Quando Alexandre da Macedónia morreu, em 323 a.C., o seu império foi dividido por duas famílias: os Ptolomeus e os Selêucidas. Inicialmente, a Palestina ficou nas mãos dos Ptolomeus; e, nos anos de domínio Ptolomeu, o Povo de Deus pôde, em geral, viver na fidelidade à sua fé e aos seus valores ancestrais. Em 198 a.C., contudo, depois da batalha de Pânias, a Palestina passou para o domínio dos Selêucidas (uma família descendente de Seleuco Nicanor, general de Alexandre). Os Selêucidas, sobretudo com Antíoco IV Epífanes, procuraram impor, por vezes pela força, a cultura helénica. Nesse contexto muitos judeus, seduzidos pelo brilho da cultura grega, abandonavam os valores tradicionais e a fé dos pais e assumiam comportamentos mais consentâneos com a “modernidade” e com a pressão exercida pelas autoridades selêucidas. A identidade cultural e religiosa do Povo de Deus corria, assim, sérios riscos… Jesus Ben Sirá, um “sábio” judeu apegado às tradições dos seus antepassados, entendeu desenvolver uma reflexão que ajudasse os seus concidadãos a manterem-se fiéis aos valores tradicionais. No livro que escreveu para esse efeito, Jesus Ben Sira apresenta uma síntese da religião tradicional e da “sabedoria” de Israel e procura demonstrar que é no respeito pela sua fé, pelos seus valores, pela sua identidade que os judeus podem descobrir o caminho seguro para serem um povo livre e feliz.

Nos capítulos 14 e 15 do seu livro, Jesus Ben Sira reflete sobre a forma de encontrar a verdadeira felicidade. É nesse enquadramento que a primeira leitura deste domingo nos propõe: dirigindo-se aos seus concidadãos, seduzidos pela cultura grega, Ben Sira sugere-lhes o caminho da verdadeira sabedoria e convida-os a percorrê-lo.

 

MENSAGEM

De quem é a responsabilidade pelas más ações do homem? Qual a origem do pecado que desfeia o mundo e traz sofrimento e morte à vida do homem? E como é que Deus – o todo-poderoso, Aquele que é fonte de tudo e que tudo controla – se encaixa em tudo isto? Foi Deus que corrompeu o homem e o extraviou para que ele fizesse ações erradas? É sobre estas questões que a reflexão de Jesus Ben Sirá se debruça (cf. Sir 15,11-12).

Ben Sirá conhece bem aquele belo poema sobre as origens que aparece em Gn 1. Ele sabe que Deus criou um “mundo bom” e o confiou ao cuidado do homem. Também sabe que, depois de mostrar ao homem os caminhos que devia percorrer para ter vida, Deus o deixou tomar as suas decisões. Deus criou o homem livre (cf. Sir 15,14-15).

É aqui, precisamente, que encaixa o texto de Ben Sira que hoje nos é dado por primeira leitura. Para descrever a definição por Deus da liberdade do homem, Ben Sirá recorre à linguagem e aos conteúdos que a catequese de Israel popularizou.

Há muito que os teólogos deuteronomistas falavam da opção que o homem tem de fazer entre “dois caminhos”. De um lado está o caminho da vida e da felicidade e do outro o caminho da morte e da desgraça. Essa é, para os catequistas de Israel, a grande questão que condiciona o sentido da vida do homem e o sentido da história: se o homem escolhe caminhos de orgulho e de autossuficiência, à margem de Deus e dos mandamentos, prepara para si e para a comunidade em que está inserido um futuro de morte e de desgraça; mas se o homem escolhe viver no “temor” de Deus e no respeito pelas propostas de Javé, então constrói para si e para o seu Povo um futuro de felicidade, de bem estar, de abundância, de paz. Esta doutrina é muito bem desenvolvida em Dt 30,15-20.

Ben Sirá mantém a sua reflexão dentro dos mesmos parâmetros. Dirigindo-se aos israelitas tentados pelas propostas da cultura helénica, coloca-os diante das grandes lições da história: sempre que o povo respeita as indicações de Deus e vive de acordo com elas, constrói uma sociedade fraterna, livre, solidária, onde todos têm o que é necessário para viver de forma equilibrada e feliz; mas quando o Povo escolhe caminhos à margem de Javé e faz “orelhas moucas” às propostas de Deus, acaba por resvalar por caminhos de egoísmo, de injustiça, de exploração, de divisão, de ambição e, portanto, de sofrimento e de morte. Aliás, as grandes catástrofes que marcaram a história do povo, nomeadamente o exílio na Babilónia, resultaram de opções por caminhos à margem de Deus e dos seus mandamentos.

Um pormenor particularmente relevante reside na convicção (aqui muito bem expressa) de que Deus respeita absolutamente a liberdade do homem. O homem não é, segundo Ben Sira, um títere nas mãos de Deus, ou um robot que Deus liga e desliga com um comando; mas é um ser livre, que faz as suas escolhas – escolhas que condicionam, necessariamente, o seu futuro – e que tem nas suas mãos o próprio destino. Deus indica ao homem os caminhos para chegar à vida e à felicidade; mas, depois, respeita absolutamente as opções que o homem faz. A opção pela vida e felicidade ou pela morte e desgraça é uma opção que resulta do livre-arbítrio do homem.

 

INTERPELAÇÕES

  • É verdade que não nascemos todos iguais. Desde o primeiro instante da nossa existência o nosso caminho está marcado por fatores hereditários, pelo contexto familiar e social, pela condição económica e por outras variantes que irão ter influência no nosso desenvolvimento e no nosso enquadramento no mundo. Mas, apesar dessa “bagagem” que transportamos desde a nossa entrada no mundo, há uma realidade incontornável: nascemos livres e somos responsáveis pelo nosso destino. Jean Paul Sartre falava de sermos seres "condenados" à liberdade pois, embora não tenhamos escolhido nascer, a partir do momento em que somos lançados no mundo, tornamo-nos inteiramente responsáveis por todas as nossas escolhas e ações. A reflexão do sábio Ben Sirá que a primeira leitura deste domingo nos apresenta lembra-nos isso. “Condenados” à liberdade, assumimos o supremo desafio de escolher o nosso destino. Sentimos essa responsabilidade e procuramos responder ao desafio, ou passamos a vida a encolher os ombros e a deixar-nos ir na corrente, ao sabor das modas, das “ordens” dos influenciadores, dos interesses que nos governam? Demitimo-nos da nossa responsabilidade na definição do caminho que percorremos e aceitamos que sejam os outros a impor-nos os seus esquemas, os seus valores, a sua visão das coisas?
  • Entre as escolhas possíveis está, segundo Jesus Ben Sirá, um caminho que conduz à vida. De acordo com a catequese de Israel, encontra-se “vida” cumprindo a Lei dada por Deus. O caminho que conduz à vida e à felicidade é, portanto, o caminho que está balizado pelos mandamentos de Deus. Percorrer esse caminho implica confiar em Deus, acreditar que o seu interesse supremo é o bem dos seus queridos filhos. Quando um crente está certo da bondade e do amor de Deus, então não hesita em viver numa escuta permanente de Deus, num diálogo nunca acabado com Deus, numa descoberta contínua das propostas de Deus, numa obediência radical a Deus. As indicações de Deus não lhe soam como uma imposição de um Deus exigente, mas sim como os conselhos amorosos de um Pai que só quer o bem dos seus filhos. Estamos interessados em escolher o caminho que conduz à vida? Que importância damos, na definição das nossas prioridades e dos nossos valores fundamentais, aos mandamentos e às propostas de Deus?
  • De acordo com Ben Sirá, há uma outra escolha possível: o caminho que conduz à morte. É o caminho perigoso seguido por aqueles que escolhem o egoísmo, a autossuficiência, o orgulho, o isolamento em relação a Deus e às suas sugestões. Fechando-se em si próprio e ignorando deliberadamente as propostas de Deus, o homem acaba por privilegiar os seus interesses egoístas e por introduzir no mundo desequilíbrios que geram injustiça, miséria, exploração, sofrimento, violência e morte. Vemos isso acontecer todos os dias à nossa volta. De onde vêm as guerras, as divisões, os conflitos que todos os dias ameaçam a vida de tantos homens e mulheres inocentes? De onde vêm a ganância, a corrupção, a exploração dos mais fracos, os mecanismos de injustiça que roubam a vida e a dignidade a tantas pessoas? De onde vem a ganância que leva os poderosos a pilharem a natureza e a guardarem, para benefício próprio os recursos que pertencem a todos? O que será ainda necessário acontecer para percebermos que ignorar as indicações de Deus é um caminho que nos arrasta, inevitavelmente, em direção a um beco sem saída?
  • De onde vêm os males que sombreiam o caminho e a história dos homens? Resultarão da negligência de um Deus que “não quer saber” dos seus filhos? Serão castigos de Deus por nos termos portado mal e por termos escolhido caminhos inadequados? O problema do mal é complexo e não tem respostas simples. No entanto, a reflexão de Ben Sirá deixa-nos, desde logo, uma certeza: muitos dos males que desfeiam o mundo e que causam sofrimento aos homens provêm das escolhas erradas que fazemos. Deus não castiga, nem “inventa” males para nos travar; mas as nossas opções sem sentido podem resultar em dor e infelicidade para nós e para todos aqueles que caminham ao nosso lado. Se, no exercício da nossa liberdade, escolhermos ignorar as indicações de Deus e avançar por caminhos sem sentido, poderemos atribuir a Deus as culpas pelo dano que isso nos traz?

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 118 (119)

Refrão: Ditoso o que anda na lei do Senhor.

Felizes os que seguem o caminho perfeito
e andam na lei do Senhor.
Felizes os que observam as suas ordens
e O procuram de todo o coração.

Promulgastes os vossos preceitos
para se cumprirem fielmente.
Oxalá meus caminhos sejam firmes
na observância dos vossos decretos.

Fazei bem ao vosso servo:
viverei e cumprirei a vossa palavra.
Abri, Senhor, os meus olhos
para ver as maravilhas da vossa Lei.

Ensinai-me, Senhor, o caminho dos vossos decretos
para ser fiel até ao fim.
Dai-me entendimento para guardar a vossa lei
e para a cumprir de todo o coração.

 

LEITURA II – 1 Coríntios 2, 6-10

Irmãos:
Nós falamos de sabedoria entre os perfeitos,
mas de uma sabedoria que não é deste mundo,
nem dos príncipes deste mundo,
que vão ser destruídos.
Falamos da sabedoria de Deus, misteriosa e oculta,
que já antes dos séculos
Deus tinha destinado para a nossa glória.
Nenhum dos príncipes deste mundo a conheceu;
porque se a tivessem conhecido,
não teriam crucificado o Senhor da glória.
Mas, como está escrito,
«nem os olhos viram, nem os ouvidos escutaram,
nem jamais passou pelo pensamento do homem
o que Deus preparou para aqueles que O amam».
Mas a nós Deus o revelou por meio do Espírito Santo,
porque o Espírito Santo penetra todas as coisas,
até o que há de mais profundo em Deus.

 

CONTEXTO

Corinto, capital da Província romana da Acaia, era uma cidade nova e muito próspera. Abrigava vários templos importantes, como o famoso templo de Apolo e o templo de Afrodite no topo da Acrópole, onde se praticava a prostituição sagrada. Disfrutando de uma localização geográfica vantajosa, entre o Mar Egeu e o Mar Jónico, tornou-se um centro comercial crucial para o transporte de mercadorias no Mediterrâneo. Servida por dois portos de mar (um que acolhia pessoas e mercadorias do ocidente e outro que recebia pessoas e mercadorias do oriente), possuía as características típicas das cidades marítimas: uma população de todas as raças e local onde estavam sediados todos os cultos e religiões. Além disso, Corinto era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após meses de navegação. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.

Paulo passou pela primeira vez em Corinto durante a sua segunda viagem missionária (anos 50-52). Como resultado da pregação de Paulo, nasceu a comunidade cristã de Corinto. A maior parte dos membros da comunidade eram de origem grega, embora em geral, de condição humilde (cf. 1Co 11,26-29; 8,7; 10,14.20; 12,2); mas também havia elementos de origem hebraica (cf. At 18,8; 1Co 1,22-24; 10,32; 12,13). De uma forma geral, a comunidade era viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta (cf. 1Co 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1Co 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1Co 1,19-2,10).

Paulo escreveu a sua primeira Carta aos Coríntios durante a sua terceira viagem missionária (anos 53-58), provavelmente quando estava em Éfeso. O apóstolo teve conhecimento de notícias que davam conta de problemas graves na comunidade de Corinto: divisões, conflitos e escândalos de vária índole. As divisões resultavam, em boa parte, do facto de os coríntios identificarem a experiência cristã com o mundo das escolas filosóficas gregas. As diversas figuras de referência da comunidade cristã eram vistas, pelos cristãos de Corinto, como mestres que propunham caminhos diversos para se chegar à plenitude da sabedoria e da realização humana. Sendo assim, cada crente escolhia o seu “mestre” e aderia ao “caminho” por ele proposto. Os discípulos desses vários mestres empenhavam-se em demonstrar a excelência e a superior sabedoria do mestre escolhido.

Paulo procura, então, demonstrar aos coríntios que entre os cristãos não há senão um mestre, que é Jesus Cristo; e a experiência cristã não é a busca de uma filosofia que abra ao discípulo as portas da sabedoria, pelo menos dessa sabedoria humana que os gregos buscavam. O caminho cristão é a adesão a Cristo crucificado, o Cristo do amor e do dom da vida. N’Ele manifesta-se, de forma humanamente desconcertante, mas plena e definitiva, a força salvadora de Deus. É em Cristo e na sua cruz que os coríntios devem procurar a verdadeira sabedoria que conduz à vida eterna.

Depois de denunciar a pretensão dos coríntios em encontrar nos homens a verdadeira proposta de sabedoria para chegar a uma vida plena, Paulo vai apresentar-lhes, de uma forma bem assertiva, a “sabedoria de Deus”.

 

MENSAGEM

Paulo não se apresentou aos coríntios na pele de um filósofo, capaz de lhes ensinar uma “sabedoria humana”, um sistema filosófico coerente. Ele veio ter com os coríntios por mandato de Deus e apresentou-lhes apenas a Boa Notícia de Jesus (“julguei não dever saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado” – 1Co 2,2). Não o fez com a linguagem dos sábios, dos filósofos, dos grandes oradores, mas com a convicção de quem se encontrou com Jesus, se apaixonou pela proposta de Jesus e decidiu colocar toda a sua vida ao serviço do Evangelho de Jesus. De resto, foi o Espírito Santo que fez o resto e que tornou possível que, a partir do testemunho de Paulo, a adesão dos coríntios ao Evangelho e o nascimento da Igreja de Corinto (cf. 1Co 2,4-5).

Em qualquer caso, é verdade que Paulo ensinou aos cristãos de Corinto (os “perfeitos”) uma sabedoria; no entanto, trata-se de uma sabedoria que “não é deste mundo, nem dos príncipes deste mundo” (1Co 2,6). A sabedoria que Paulo propões aos coríntios é a “sabedoria de Deus”, da qual a cruz onde Jesus entregou a vida por amar é a expressão mais completa.

Para Paulo, falar da “sabedoria de Deus” é falar do projeto de salvação que Deus preparou para a humanidade. Paulo refere-se a esse projeto recorrendo à palavra grega “mystêrion” (1Co 2,7; cf. Rm 16,25; Ef 1,9-10; 3,3.4.9; Col 1,26; 2,2; 4,3). Trata-se de um plano “que Deus preparou para aqueles que o amam” (1Co 2,9), no sentido de os levar à salvação, à vida plena. Esse plano resulta do amor e da solicitude de Deus pelos seus filhos, os homens. É um plano que o próprio Deus manteve oculto durante muitos séculos e só revelou através do seu Filho, Jesus Cristo. Aliás, antes de revelação feita através das palavras, dos gestos, da pessoa de Cristo, dificilmente os homens estariam preparados para compreender o alcance e a profundidade do plano divino, da “sabedoria de Deus”.

Como podemos descrever o “mystêrion”? Deus escolheu-nos desde sempre e quis que nos tornássemos santos e irrepreensíveis, a fim de chegarmos à vida eterna, à felicidade total, à realização plena. Por isso, veio ao encontro dos homens, fez com eles uma Aliança, apontou-lhes, de mil formas, os caminhos que levam à vida. A certa altura, na plenitude dos tempos, Deus enviou ao mundo o seu próprio Filho, Jesus. Ele lutou contra o pecado e a maldade, venceu-os, inseriu os homens numa dinâmica de amor e de doação da vida. Na cruz de Jesus, está bem expressa esta história de amor que vai até ao ponto de o próprio Filho dar a vida por nós… Esse plano de salvação continua, agora, a acontecer na vida dos crentes pela ação do Espírito: é o Espírito que nos anima no sentido de nascermos, dia a dia, como homens novos, até nos identificarmos totalmente com Cristo.

É desta forma que Paulo apresenta e define a “sabedoria de Deus”.

 

INTERPELAÇÕES

  • Assim, “à vista desarmada”, não parece incrível que Deus se tenha dado a tanto trabalho e a um planeamento tão bem arquitetado para nos oferecer – a nós, pequenos grãos de pó perdidos num universo infinito – a possibilidade de chegarmos à vida eterna? Pensando bem, só o amor explica esta “aposta” de Deus. Para Deus, talvez não sejamos apenas pequenos grãos de pó sem significado, mas filhos muito queridos que Ele criou com amor e que Ele continua a amar profundamente, apesar da nossa fragilidade. Por isso, Deus não desiste de “salvar-nos”, de cuidar de nós, de nos mostrar os caminhos que conduzem à vida, de nos inserir na sua família. Ele tem passado toda a história a fazer isso: a oferecer-nos a possibilidade de caminharmos ao encontro de uma vida plena. Até mesmo quando Lhe viramos as costas, O ignoramos, escolhemos caminhos de orgulho e de autossuficiência, Ele continua a amar-nos a mostrar-nos como podemos chegar à felicidade verdadeira. O que é que isso nos sugere? Como sentimos este grande amor, esse infinito amor que Deus nos dedica? Como é que respondemos ao amor de Deus?
  • A “sabedoria humana” – que Paulo denuncia – não é necessariamente, à priori, algo mau. Só será algo mau se nos atirar para caminhos de orgulho, de vaidade, de autossuficiência. Ora, muitas vezes é precisamente isso que acontece. Convencidos da nossa importância e da excelência das nossas “qualidades”, julgamos que podemos bastar-nos a nós próprios. Afastamo-nos de Deus, ignoramos as suas propostas, construímos a nossa história de vida à volta dos nossos interesses, dos nossos motivos, das nossas convicções pessoais. Os “mandamentos” de Deus tornam-se, para nós, um empecilho que fazemos questão de ignorar. Achamos também que não precisamos dos outros. Tornamo-nos arrogantes com os nossos irmãos, desprezamo-los e fazemos com que o mundo gire apenas à nossa volta. Acabamos por nos encontrar em caminhos fechados, que não levam a lado nenhum. Não é aí que está a nossa salvação, não é dessa forma que chegaremos à realização plena, não é assim que daremos sentido à nossa vida. Como é que queremos viver?

 

ALELUIA – cf. Mateus 11, 25

Bendito sejais, ó Pai, Senhor do céu e da terra,
porque revelastes aos pequeninos os mistérios do reino.

 

EVANGELHO – Mateus 5,17-37

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas;
não vim revogar, mas completar.
Em verdade vos digo:
Antes que passem o céu e a terra,
não passará da Lei a mais pequena letra
ou o mais pequeno sinal,
sem que tudo se cumpra.
Portanto, se alguém transgredir um só destes mandamentos,
por mais pequenos que sejam,
e ensinar assim aos homens,
será o menor no reino dos Céus.
Mas aquele que os praticar e ensinar
será grande no reino dos Céus.
Porque Eu vos digo:
Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus,
não entrareis no reino dos Céus.
Ouvistes que foi dito aos antigos:
‘Não matarás; quem matar será submetido a julgamento’.
Eu, porém, digo-vos:
Todo aquele que se irar contra o seu irmão
será submetido a julgamento.
Quem chamar imbecil a seu irmão
será submetido ao Sinédrio,
e quem lhe chamar louco
será submetido à geena de fogo.
Portanto, se fores apresentar a tua oferta sobre o altar
e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti,
deixa lá a tua oferta diante do altar,
vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão
e vem depois apresentar a tua oferta.
Reconcilia-te com o teu adversário,
enquanto vais com ele a caminho,
não seja caso que te entregue ao juiz,
o juiz ao guarda, e sejas metido na prisão.
Em verdade te digo:
Não sairás de lá, enquanto não pagares o último centavo.
Ouvistes que foi dito:
‘Não cometerás adultério’.
Eu, porém, digo-vos:
Todo aquele que olhar para uma mulher desejando-a,
já cometeu adultério com ela no seu coração.
Se o teu olho é para ti ocasião de pecado,
arranca-o e lança-o para longe de ti,
pois é melhor perder-se um dos teus membros
do que todo o corpo ser lançado na geena.
E se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado,
corta-a e lança-a para longe de ti,
porque é melhor que se perca um dos teus membros,
do que todo o corpo ser lançado na geena.
Também foi dito:
‘Quem repudiar sua mulher dê-lhe certidão de repúdio’.
Eu, porém, digo-vos:
Todo aquele que repudiar sua mulher,
salvo em caso de união ilegal,
fá-la cometer adultério.
Ouvistes que foi dito aos antigos:
‘Não faltarás ao que tiveres jurado,
mas cumprirás os teus juramentos para com o Senhor’.
Eu, porém, digo-vos que não jureis em caso algum:
nem pelo Céu, que é o trono de Deus;
nem pela terra, que é o escabelo dos seus pés;
nem por Jerusalém, que é a cidade do grande Rei.
Também não jures pela tua cabeça,
porque não podes fazer branco ou preto um só cabelo.
A vossa linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’.
O que passa disto vem do Maligno».

 

CONTEXTO

O evangelista Mateus leva-nos hoje, outra vez, até ao cimo de uma montanha da Galileia, onde Jesus pronuncia, diante dos seus discípulos, o famoso “sermão da montanha” (a tradição cristã identifica essa montanha com um pequeno monte com 150 metros de altura, situado a noroeste de Cafarnaum, junto do Mar da Galileia, designado em hebraico como Har HaOsher). É o primeiro de cinco discursos de Jesus que Mateus nos oferece (cf. Mt 5-7; 10; 13; 18; 24-25) e que, na perspetiva do evangelista, correspondem aos cinco livros da antiga Lei (Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio), dada por Deus ao seu povo no Monte Sinai.

O “sermão da montanha (cf. Mt 5-7) reúne um importante conjunto de palavras (“ditos”) de Jesus onde Mateus vê as coordenadas fundamentais da proposta cristã. O evangelista considera que as palavras de Jesus no “sermão da montanha” propõem um novo código ético, uma Lei nova que supera e substitui a velha Lei do Sinai.

Depois de, no preâmbulo do “sermão da montanha”, nos ter apresentado as “bem aventuranças” (cf. Mt 5,1-12) e a definição da missão dos discípulos (cf. Mt 5,13-15), Mateus entra no corpo central do discurso.

Se Jesus vem propor uma “nova Lei”, que será da Lei antiga, a Lei outrora dada por Deus ao seu povo no Sinai? Tratava-se, evidentemente, de uma questão que preocupava bastante a comunidade cristã de Mateus, oriunda maioritariamente do mundo judaico e que continuava apegada à Lei de Moisés. Como é que Jesus se situa face à antiga Lei? Veio aboli-la? Qual é a novidade que Ele traz? A antiga Lei poderá coexistir com a proposta de Jesus?

 

MENSAGEM

Os líderes religiosos judaicos acusavam frequentemente Jesus de oferecer uma doutrina revolucionária, herética, contrária à tradição de Israel. A soberana liberdade de Jesus frente ao sábado (cf. Mc 1,21-28; 2,23-28; 3,1-6), a sua pouca consideração pelas tradições religiosas judaicas (cf. Mc 7,1-23), a novidade das suas palavras e dos seus gestos, a forma como Ele acolhia os “últimos”, os mais desprezados, pareciam apontar nesse sentido. Com Jesus, a Lei antiga deixou de estar vigente?

Jesus começa, no discurso que Mateus Lhe atribui, por expor a sua posição face à Lei tradicional, a Torá: “não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar” (Mt 5,17). Não, Jesus não veio abolir essa Lei que Deus ofereceu ao seu povo no Sinai. A Lei de Deus conserva toda a sua validade, é eterna. No entanto, Jesus acrescenta que veio “completar” a Lei. O verbo usado no texto (“plêrosai”) pode traduzir-se como “levar à perfeição”. Jesus quer “levar à perfeição” a Lei dada por Deus no Sinai, restituindo-a à sua simplicidade e sentido original.

Na verdade, os escribas e os fariseus tinham-se apossado da Lei e tinham-na usado para criar a armadilha do “legalismo”. Para eles, a Lei comportava um conjunto de indicações fechadas que era preciso seguir à letra e que regulavam todos os passos da vida do crente. Se as leis não fossem totalmente explícitas e não abarcassem todas as situações da vida, deviam ser explicitadas por novas e sucessivas leis. Surgia, assim, um emaranhado legal que acabava por complicar enormemente a vida do crente. O crente tornava-se escravo da Lei. Quem, por causa das duras condições de vida, não conseguia cumprir todas as regras da Lei, era visto como um pecador, alguém que estava longe de Deus e da salvação.

Com a vida totalmente encerrada dentro dos limites da Lei, o crente sentia-se seguro: a Lei indicava-lhe exatamente como devia viver para agradar a Deus e ter acesso à salvação. No entanto, isto ajudava frequentemente a desenvolver uma mentalidade errada: a salvação aparecia, ao crente que vivia agarrado ao cumprimento da Lei, como uma conquista do homem e não como um dom do amor de Deus. Daí resultava o orgulho e a autossuficiência.

Este “legalismo” continha um outro perigo grave: convictos de que o cumprimento estrito da Lei assegurava a salvação, os crentes cumpriam as regras sem se envolverem ao nível do coração, da adesão plena a Deus e às suas propostas. Cumpriam a letra da Lei sem aprofundar o seu espírito. Nesse cenário, já não interessava o que se sentia em relação a Deus ou aos irmãos, desde que se cumprisse a letra da Lei. A religião tornava-se uma experiência puramente externa. Havia quem cumpria estritamente a letra da Lei, mas não tinha um pingo de amor a Deus e aos irmãos.

Tudo somado, esta não é a experiência religiosa que Jesus quer propor aos seus discípulos, àqueles a quem chama para integrar a comunidade do Reino de Deus. Por isso, avisa-os: “se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos Céus” (Mt 5,20).

O que é que significa, na perspetiva de Jesus, “levar à perfeição” a Lei? Jesus propõe uma vivência da Lei em plenitude, sem barreiras, indo ao fundo das coisas. Trata-se de não ficar na “epiderme” da Lei, mas de cumprir a vontade de Deus na sua totalidade, mesmo para além da estrita observância da letra da Lei. Trata-se de aderir completamente a Deus, assumindo uma atitude interior de total compromisso com Deus, com as indicações de Deus, com os valores de Deus.

Enquanto os fariseus e os doutores da Lei colocavam a Lei num lugar absolutamente central, Jesus coloca no centro de tudo o Reino de Deus. O que Ele pretende é fazer nascer uma comunidade de homens e mulheres que abram o coração a Deus e façam tudo – mesmo para além da letra da Lei – para que nasça um mundo mais justo e mais fraterno.

Para que tudo isto fique mais claro, Jesus vai apresentar seis exemplos concretos da atitude que Ele preconiza face à Lei. O evangelho deste domingo traz-nos apenas os quatro primeiros desses exemplos. Os outros dois serão apresentados noutra oportunidade.

O primeiro (vers. 21-26) refere-se às relações fraternas. A Lei de Moisés exige, simplesmente, o não matar (cf. Ex 20,13; Dt 5,17); mas, na perspetiva de Jesus, o não matar implica o evitar causar qualquer tipo de dano ao irmão… Há muitas formas de destruir o irmão, de o eliminar, de lhe roubar a vida: as palavras que ofendem, as calúnias que destroem, os gestos de desprezo que excluem, os confrontos que põem fim à relação. Os que aceitam o convite para integrar a comunidade do Reino de Deus não podem limitar-se a cumprir a letra da Lei; têm que assumir uma nova atitude, mais abrangente, que os leve a um respeito absoluto pela vida e pela dignidade do irmão. A propósito, Mateus aproveita para apresentar à sua comunidade uma catequese sobre a urgência da reconciliação (o cortar relações com o irmão, afastá-lo da relação, marginalizá-lo, não é uma forma de matar?). Na perspetiva de Mateus, a reconciliação com o irmão deve sobrepor-se ao próprio culto, pois a relação com Deus de alguém que não ama os irmãos é uma mentira que Deus não pode aceitar.

O segundo (vers. 27-30) refere-se ao adultério. A Lei de Moisés exige o não cometer adultério (cf. Ex 20,14; Dt 5,18); mas, na perspetiva de Jesus, é preciso ir mais além do que a letra da Lei e atacar a raiz do problema: o próprio coração do homem. No coração nascem os desejos que depois se traduzem em gestos concretos. Jesus propõe atuar na raiz: uma “conversão” do coração que previna qualquer desejo egoísta que possa evoluir para atitudes que danifiquem a dignidade dos indivíduos e das relações familiares. A referência a arrancar o olho que é ocasião de pecado (o olho é considerado o órgão que dá entrada aos desejos) ou a cortar a mão que é ocasião de pecado (a mão é o órgão da ação, através do qual se concretizam os desejos que nascem no coração) são expressões fortes – bem ao gosto da cultura semita mas que, no entanto, não temos de considerar à letra – para dizer que é preciso atuar lá onde as ações más do homem têm origem e eliminar, na fonte, as raízes do mal.

O terceiro (vers. 31-32) refere-se ao divórcio. A Lei de Moisés permitia ao homem repudiar a sua esposa (cf. Dt 24,1); mas praticamente vedava às mulheres a possibilidade de porem fim ao casamento. Na perspetiva de Jesus, é uma lei machista, que Moisés teve de aceitar por causa da dureza do coração do homem. Jesus considera que essa lei machista não estava nos planos de Deus quando criou o homem e a mulher para se amarem e para se completarem um ao outro (cf. Mt 19,1-9). Aqui Jesus não se limita a “completar” a Lei: propõe uma mudança da Lei no sentido do plano original de Deus para o homem e para a mulher.

Apesar desta regra geral, o texto faz referência a uma exceção: no caso de uma “união ilegal” (literalmente, “porneia”). Discute-se o que esta exceção – provavelmente praticada na comunidade de Mateus – significa. Poderia referir-se a uma concessão feita aos cristãos de origem judaica para que o marido de uma mulher infiel pudesse casar-se outra vez, pois a infidelidade da primeira esposa tornaria a união ilegal.

O quarto (vers. 33-37) refere-se à questão do julgamento. A Lei de Moisés pede, apenas, a fidelidade aos compromissos selados com um juramento (cf. Lv 19,12; Nm 20,3; Dt 23,22-24); mas, na perspetiva de Jesus, a necessidade de jurar implica a existência de um clima de desconfiança que é incompatível com a limpidez da verdade. Para os que estão inseridos na dinâmica do Reino, deve haver um tal clima de sinceridade e confiança que os simples “sim” e “não” bastam. Qualquer fórmula de juramento é supérflua e sinal de corrupção da dinâmica do Reino.

Não há dúvida: a proposta de Jesus está muito para além de um cumprimento casuístico de uma Lei externa. Implica uma atitude interior completamente nova, uma mudança do coração que leve o homem a acolher e a viver “a fundo” as indicações de Deus, um dinamismo novo que transforme os discípulos de Jesus em arautos e testemunhas fiáveis de um mundo mais justo , mais humano e mais fraterno.

 

INTERPELAÇÕES

  • O “sermão da montanha” que Jesus um dia dirige aos discípulos no alto de um monte da Galileia tem por objetivo desafiá-los, fazê-los “ganhar altura”, evitar que eles fiquem atascados numa existência fútil e rasteira, levá-los a caminhar de rosto levantado e de olhos postos nas realidades eternas. Não se trata de evitar que eles sujem os pés e as mãos no pó dos caminhos, ou que reneguem essa fragilidade que é inerente à condição humana; trata-se de oferecer-lhes uma perspetiva elevada do sentido da existência, de forma que eles não se conformem com a mediocridade, as meias tintas, as convicções mornas, as coisas efémeras. Talvez devêssemos ler de vez em quando o “sermão da montanha” para não nos resignarmos à mediania e à banalidade, para não nos instalarmos numa existência cómoda mas sem saída. Somos chamados por Deus à santidade, a um destino transcendente, a uma vocação sublime, a uma felicidade completa e eterna. Não podemos aceitar menos do que isso. Estamos disponíveis para aceitar o desafio de Jesus e para abraçar o dinamismo do Reino de Deus e da sua justiça? Estamos dispostos a “voar alto” e a encontrar um sentido pleno para a nossa existência?
  • Quando Jesus sugere aos discípulos que não se deixem apanhar pela armadilha do legalismo, está precisamente a mostrar-lhes como podem libertar-se de uma existência rasteira para “voarem mais alto”. Podemos simplesmente cumprir leis – e assim sentirmo-nos em paz com a nossa consciência – mas sem que isso envolva o nosso coração e nos leve a uma existência comprometida com as exigências de Deus; podemos limitar-nos a executar a letra da Lei, mas a passar ao lado daquilo que é realmente decisivo na construção de um mundo segundo Deus. “Cumprir as leis” é cómodo e relativamente fácil; o que é difícil é assumir plenamente as indicações de Deus e fazer com que essas indicações definam o sentido da nossa existência em todas as suas vertentes. O verdadeiro crente é aquele que, não apenas cumpre uma determinada Lei escrita factual, mas procura escutar Deus a cada passo e deixar-se conduzir em tudo pela vontade de Deus. É isso que se passa na nossa vida? Os “mandamentos” de Deus são, para nós, simples leis que olhamos de esguelha e que nos sentimos obrigados a cumprir, sob pena de receber castigos (o maior dos quais será o “inferno”), ou são indicações que nos ajudam a “voar mais alto”, a potenciar a nossa relação com Deus, a avançar no caminho que conduz à vida? O cumprimento das leis (de Deus ou da Igreja) é, para nós, uma obrigação que resulta do medo, ou o resultado lógico da opção que fizemos por Deus?
  • Vale a pena determo-nos no primeiro exemplo que Jesus dá: “não matar”. Jesus entende-o não apenas no sentido estrito da palavra “matar”, mas no sentido amplo de “privar alguém de vida”. No entendimento de Jesus, “não matar” equivale a evitar tudo aquilo que cause dano aos irmãos que caminham ao nosso lado. Estamos conscientes de que podemos “matar” com certas atitudes de egoísmo, de agressividade, de prepotência, de autoritarismo, de injustiça, de indiferença, de intolerância, de calúnia, de má língua, de palavras e gestos que magoam o outro, que destroem a sua dignidade, o seu bem estar, as suas relações, a sua paz? Estamos conscientes de que brincar com a dignidade dos nossos irmãos, ofendê-los, envergonhá-los, humilhá-los, inventar caminhos tortuosos para os desacreditar ou desmoralizar, julgá-los e condená-los na praça pública, é subverter gravemente a harmonia que Deus quer que reine entre os seus filhos? Estamos conscientes de que ignorar o sofrimento de alguém, ficar indiferente a quem está caído e abandonado na berma da estrada da vida, recusar um gesto de bondade, de misericórdia, de reconciliação, de compreensão, é destruir a vida que Deus quer para todos os seus filhos?
  • Jesus diz aos discípulos, no “Sermão da montanha”: “Não jureis em caso algum… A vossa linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’”. Também aqui há uma indicação que aponta a “levantar a vida”, a subir a um patamar mais elevado. É um convite a viver na verdade, na sinceridade, na total claridade; é um convite a recusar a mentira, os enganos, as meias verdades, as “chico-espertices” de quem apenas pensa em triunfar a qualquer custo. Sentimos que temos um compromisso inquebrantável com a verdade, com a limpidez, com a honestidade? O nosso modo de estar na vida reflete a verdade, a lealdade e a fidelidade de Deus?
  • Jesus pede aos seus discípulos que, se estiverem diante do altar para prestar culto a Deus, mas se recordarem que estão em conflito com algum irmão, procurem primeiro reconciliar-se com o irmão com quem estão desavindos; só depois fará sentido apresentarem-se diante de Deus. Tiramos disto as devidas consequências? O culto celebrado em estado “de guerra”, com o coração desassossegado, não agrada a Deus; a comunhão com Deus é incompatível com a ira, o conflito, a divisão, a recusa em abrir os braços para abraçar o irmão. Deus não consegue entender que nos apresentemos diante d’Ele para lhe manifestarmos o nosso amor e, simultaneamente, vivamos em conflito com os outros seus filhos. Na nossa vida de fé, que lugar ocupa o amor aos irmãos?

 

A LITURGIA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.

Ao longo dos dias da semana anterior ao 6.º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo…

Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa…

 

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA

Grupo Dinamizador:
José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
www.dehonianos.org

 

Visualizar todo o calendário