03º Domingo da Quaresma - Ano A [atualizado]
8 de Março, 2026
ANO A
3.º DOMINGO DA QUARESMA
Tema do 3.º Domingo da Quaresma
Estamos no terceiro domingo da Quaresma. Não é fácil nem isento de obstáculos o caminho que, através do deserto quaresmal, nos leva em direção à vida nova. Conseguiremos superar os obstáculos deste caminho de conversão e de renovação? A Palavra de Deus que escutamos no terceiro domingo da Quaresma deixa-nos uma indicação verdadeiramente reconfortante: Deus acompanhar-nos-á em cada passo e nunca deixará de saciar a nossa sede de vida.
A primeira leitura relembra-nos um dos momentos determinantes da caminhada dos hebreus pelo deserto, após a libertação do Egito: o povo, apoquentado pela sede e afundado em dúvidas, questiona o desígnio de Deus e pergunta-se se Deus pretende salvá-lo ou perdê-lo. A esta bizarra dúvida Deus responde com um gesto extraordinário: faz brotar água de um rochedo e sacia a sede do seu povo. Não se trata de um caso isolado: o Deus salvador e libertador esteve, está e estará sempre empenhado em saciar a sede de vida do seu povo enquanto este atravessa o deserto da história.
No Evangelho Jesus, em diálogo com uma mulher da Samaria, junto do poço de Jacob, propõe-se oferecer-lhe uma “água viva” que matará todas as sedes e que se tornará “uma nascente que jorra para a vida eterna”. A samaritana mostra-se disponível para acolher e beber a água que Jesus tem para lhe oferecer. Estaremos, também nós, dispostos a saciar a nossa sede com a água que Jesus nos quer oferecer?
A segunda leitura não evoca o tema da água, como a primeira leitura e o Evangelho; mas reafirma o empenho de Deus em oferecer vida e salvação ao seu povo. Garante-nos que, sejam quais forem as nossas falhas e infidelidades, Deus “justifica-nos”. A sua misericórdia falará sempre mais alto do que o nosso pecado. Deus oferecer-nos-á sempre, de forma gratuita e incondicional, a sua salvação.
LEITURA I – Êxodo 17,3-7
Naqueles dias,
o povo israelita, atormentado pela sede,
começou a altercar com Moisés, dizendo:
«Porque nos tiraste do Egipto?
Para nos deixares morrer à sede,
a nós, aos nossos filhos e aos nossos rebanhos?»
Então Moisés clamou ao Senhor, dizendo:
«Que hei de fazer a este povo?
Pouco falta para me apedrejarem».
O Senhor respondeu a Moisés:
«Passa para a frente do povo
e leva contigo alguns anciãos de Israel.
Toma na mão a vara com que fustigaste o rio
e põe te a caminho.
Eu estarei diante de ti, sobre o rochedo, no monte Horeb.
Baterás no rochedo e dele sairá água;
então o povo poderá beber».
Moisés assim fez à vista dos anciãos de Israel.
E chamou àquele lugar Massa e Meriba,
por causa da altercação dos filhos de Israel
e por terem tentado o Senhor, ao dizerem:
«O Senhor está ou não no meio de nós?»
CONTEXTO
Um dos grandes temas do livro do Êxodo é a marcha pelo deserto dos hebreus libertados por Javé da escravidão do Egito. A secção de Ex 15,22-18,27 refere as vicissitudes da primeira etapa dessa marcha: a que vai desde a passagem do mar até à chegada do povo diante da montanha do Sinai.
Nesta primeira fase do caminho do deserto, está bem presente a imaturidade daquele grupo de homens e mulheres que ainda funcionam com mentalidade de escravos e ainda não assumiram o risco da liberdade. As dificuldades do caminho desorganizam-nos e incomodam-nos; e eles, perante as contrariedades, não se coíbem de criticar Moisés e de murmurar contra Deus (cf. Ex 15,22-27; 16,1-21; 17,1-7). O esquema é sempre o mesmo: diante das dificuldades que encontra no caminho, o Povo murmura, revolta-se contra Moisés e acusa Deus pelos desconfortos da caminhada; Moisés intervém e intercede junto de Deus; finalmente, Deus acaba por conceder ao Povo os bens de que este sente necessidade. Os relatos apresentam-se sempre de uma forma dramática, num crescendo de intensidade até ao desfecho final.
Provavelmente, estes relatos têm por base dificuldades concretas sentidas pelos hebreus no seu caminho pelo deserto em direção à Terra Prometida. Não é fácil sobreviver nas condições hostis do deserto. No entanto, os beduínos conheciam diversos “truques” que lhes permitiam enfrentar com êxito a sua luta diária pela existência. Um desses “truques” consistia em procurar água em rochas porosas que, quando quebradas em certo lugar, proporcionavam o acesso à água que armazenavam no seu interior. É possível que o episódio narrado no texto que a liturgia hoje nos propõe como primeira leitura nos situe neste cenário.
Seja como for, a verdade é que os teólogos de Israel recolheram essas tradições e utilizaram-nas com um objetivo catequético. Os catequistas que nos legaram estes relatos não se propuseram fazer uma reportagem factual dos acontecimentos históricos vividos ao longo do caminho percorrido pelos hebreus, mas sim fazer catequese. Percebe-se nas entrelinhas que a grande preocupação de quem compôs estes relatos é pôr o Povo de sobreaviso contra a tentação de procurar refúgio e segurança longe de Javé.
Portanto, a dado passo da sua caminhada pelo deserto, os hebreus deparam-se com a falta de água e queixam-se a Moisés. O episódio é situado em Refidim (cf. Ex 17,1), no sul da península do Sinai (cf. Nm 33,14-15). Curiosamente uma outra tradição refere um episódio muito semelhante e coloca-o a norte, nos arredores de Kadesh (cf. Nm 20,7-11). Serão dois episódios semelhantes, ligados a grupos distintos de nómadas que, em épocas diferentes, fugiram do Egito, ou tratar-se-á do mesmo episódio narrado por duas tradições diferentes? Não o sabemos. O que é evidente é que os teólogos de Israel utilizaram esta história para reafirmar o empenho de Deus em “salvar” o seu povo e em conduzi-lo em segurança da escravidão para a liberdade.
MENSAGEM
Há já algum tempo que Israel, liberto da “noite” do Egito, deixou a escravidão para trás e caminha em direção ao “dia novo” da liberdade. Ao longo do difícil caminho que o povo tem vindo a percorrer, Deus tem-no acompanhado a par e passo e tem-lhe manifestado, de mil e uma formas, o seu cuidado, a sua bondade, o seu amor… No episódio da passagem do mar (cf. Ex 14,15-31), no episódio da água amarga transformada em água doce (cf. Ex 15,22-27), no episódio do maná e das codornizes (cf. Ex 16,1-20), Deus mostrou, sem margem para dúvidas, estar empenhado na salvação do seu Povo. Depois dessas experiências, Israel devia estar absolutamente seguro da bondade e da fidelidade de Deus. O povo, depois dessas provas, devia confiar totalmente em Deus e no projeto de vida que Ele estava a concretizar em favor do seu povo.
No entanto, não é isso que acontece. Apesar de todas as provas que Deus deu, os hebreus continuam desconfiados, de pé atrás em relação a Deus, duvidando da fidelidade de Deus. Na verdade, Israel não confia em Javé. Qualquer obstáculo que lhes apareça no caminho é visto como uma traição de Deus. Será possível continuar a avançar tendo como base este horizonte?
O episódio de Refidim é mais um momento nesta lamentável história de desconfiança e de ingratidão por parte dos hebreus. O povo instala o acampamento, mas constata que não tem água para saciar a sua sede. Depois de discutirem com Moisés, os hebreus chegam ao cúmulo de sugerir que foram enganados por Deus e que Javé os libertou do Egito para matá-los de sede no meio do deserto (cf. Ex 17,3). Cego pela ingratidão, aquele povo de vistas curtas e mentalidade de escravo vê no projeto de vida que Deus iniciou em favor deles um projeto destinado a arrastá-los para a morte. Acusam Deus de os enganar, de os arrastar para um beco sem saída.
Naquele lugar Israel entrou em conflito com Deus e acusou-o de conduzir o seu povo em direção à morte (o nome “meribá” vem da raíz “rib” – “entrar em contencioso”); naquele lugar Israel “provocou” Deus e desafiou-O (o nome “massa” vem da raiz “nsh” – “tentar”, no sentido de “provocar”). O catequista bíblico informa-nos que aquele lugar ficou a chamar-se “Meribá” e “Massá” por causa da altercação dos filhos de Israel e por terem tentado o Senhor, ao dizerem: ‘O Senhor está ou não no meio de nós?’” (Ex 17,7). Afinal, depois de tantas provas, de tanta bondade, de tantos cuidados, de tantos gestos de amor por parte de Deus, Israel ainda não fez uma verdadeira experiência de fé: não aprendeu a confiar em Deus e a entregar-se nas suas mãos.
Como é que Deus reage à ingratidão e à falta de confiança do seu Povo? Desistindo de se relacionar com esse povo ingrato e abandonando-o à sua sorte? Não. Com “paciência divina”, Deus responde com gestos concretos e oferece ao seu povo a água que dá vida. Deus prova uma vez mais que está com o seu povo e faz brotar de um rochedo a água de que o povo necessita para saciar a sua sede. Uma lenda rabínica posterior assegurará que, a partir daqui, a “rocha” que proporciona a água que dá vida nunca mais cessou de acompanhar o povo de Deus ao longo da sua marcha pela história. O apóstolo Paulo irá mesmo sugerir, muitos séculos mais tarde, que Cristo – o Filho de Deus que veio ao encontro dos homens para lhes dar vida – é a verdadeira rocha de onde brota a água que mata a nossa sede de vida (cf. 1Co 10,4).
A catequese de Israel deixa-nos uma garantia que vale para os crentes de todas as épocas e lugares: o Senhor Deus saciará sempre a nossa sede de vida e assistirá o seu povo em cada passo do seu caminho pela história.
INTERPELAÇÕES
- Talvez a nota mais decisiva e interpelante, neste episódio de Massá e Meribá, seja a confirmação da fidelidade de Deus aos seus desígnios de amor e de vida, ao seu projeto de salvação. O comportamento imaturo daquele grupo de hebreus que ainda não se libertaram de uma mentalidade de escravos não fazem Deus desistir do seu projeto de salvação; as contínuas desconfianças daqueles caminhantes que parecem não saber o que querem, não desarmam a bondade, a misericórdia, o amor de Deus. É uma perspetiva reconfortante, que talvez nos ajude a olhar com mais esperança para as nossas pobres vidas, para as nossas hesitações, dúvidas e incongruências, para as nossas contradições e para os nossos passos mal dados… Se Deus não nos condena definitivamente, se Ele se conserva ao nosso lado apesar das nossas decisões estúpidas, se Ele continua a olhar para nós com amor apesar das nossas desconfianças e cobardias, se a nossa futilidade e as nossas aspirações rasteiras O não dececionam definitivamente, então não caminhamos em direção a um desastre anunciado. Deus vai connosco, assiste-nos e ampara-nos em cada passo do caminho, dá-nos uma e outra vez a oportunidade de recomeçar… Como é que isso nos faz sentir? Que implicações tem isso na nossa vida?
- Quando saíram do Egito e deixaram para trás a escravidão, os hebreus sentiram-se profundamente reconhecidos ao Deus que os salvou. Mas a gratidão que sentiam evaporou-se quando tiveram de enfrentar as dificuldades do caminho: a fome, a sede, o calor, o cansaço, as ciladas dos inimigos, as decisões difíceis, os riscos da liberdade… Então, murmuraram contra Deus, duvidaram da sua bondade e do seu amor, acusaram-n’O até de ter posto em marcha um projeto de morte destinado a fazê-los perecer no deserto. Isto não nos soa familiar? Quando o caminho nos parece demasiado longo e solitário, quando tropeçamos nos obstáculos inevitáveis que a vida nos traz, quando experimentamos os nossos limites e fragilidades, quando nos sentimos cansados, desiludidos e perdidos, quando nos enganamos e optamos por valores errados, quando nos entrincheiramos atrás da nossa autossuficiência e nos damos mal, criticamos Deus, acusamo-l’O de nos abandonar, duvidamos do seu amor… Parecemos crianças mimadas que passam a vida a lamentar-se e a acusar Deus pelos “dói-dóis” que a vida nos faz. Já pensamos que muitas das coisas que nos fazem sofrer resultam das nossas escolhas erradas e não da ação de Deus? Já pensamos que muitas das dificuldades que temos de enfrentar talvez façam parte da pedagogia de Deus para nos fazer crescer, para nos ajudar a descobrir o sentido da vida, para nos renovar e transformar?
SALMO RESPONSORIAL – SALMO 94 (95)
Refrão: Se hoje ouvirdes a voz do Senhor,
não fecheis os vossos corações.
Vinde, exultemos de alegria no Senhor,
aclamemos a Deus nosso salvador.
Vamos à sua presença e dêmos graças,
ao som de cânticos aclamemos o Senhor.
Vinde, prostremo-nos em terra,
adoremos o Senhor que nos criou.
Pois Ele é o nosso Deus
e nós o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.
Quem dera ouvísseis hoje a sua voz:
«Não endureçais os vossos corações,
como em Meriba, como no dia de Massa no deserto,
onde vossos pais Me tentaram e provocaram,
apesar de terem visto as minhas obras.
LEITURA II – Romanos 5,1-2.5-8
Irmãos:
Tendo sido justificados pela fé,
estamos em paz com Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo,
pelo qual temos acesso, na fé,
a esta graça em que permanecemos e nos gloriamos,
apoiados na esperança da glória de Deus.
Ora, a esperança não engana,
porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações
pelo Espírito Santo que nos foi dado.
Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.
Dificilmente alguém morre por um justo;
por um homem bom,
talvez alguém tivesse a coragem de morrer.
Deus prova assim o seu amor para connosco:
Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.
CONTEXTO
Roma era, na altura em que o apóstolo Paulo escreve a sua carta à comunidade cristã da cidade, o centro do mundo antigo. Roma tinha, por essa altura, cerca de um milhão de habitantes, dos quais 50.000 eram judeus.
Não sabemos como foi fundada a Igreja de Roma. A tradição diz que foi o apóstolo Pedro que, de passagem pela cidade, aí teria anunciado o Evangelho de Jesus. O mais provável, contudo, é que a comunidade tenha nascido a partir do testemunho de judeo-cristãos que deixaram Jerusalém e se estabeleceram em Roma poucos anos após a morte de Jesus.
Quando escreve aos Romanos, por volta do ano 57 ou 58, Paulo está prestes a deixar Corinto, a caminho de Jerusalém, no final da sua terceira viagem missionária. O apóstolo sente que terminou a sua missão no oriente (cf. Rm 15,19-20) e quer agora levar o Evangelho a outros cantos do mundo, nomeadamente ao ocidente. Sobretudo, Paulo aproveita a ocasião para contactar a comunidade de Roma e para apresentar aos Romanos os principais problemas que o ocupavam (entre os quais avultava o problema da unidade – um problema bem atual na comunidade cristã de Roma, então afetada por alguma dificuldade de relacionamento entre judeo-cristãos e pagano-cristãos).
Paulo aproveita para dizer aos Romanos e a todos os cristãos que o Evangelho deve unir e congregar todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Para desfazer algumas ideias de superioridade (e, sobretudo, a pretensão judaica de que a salvação se conquista pela observância da Lei de Moisés), Paulo nota que o pecado é uma realidade que atinge todos os homens, sem exceção, e que ninguém está de fora desse cenário (cf. Rm 1,18-3,20). É Deus que, na sua imensa misericórdia, “justifica” o homem pecador e lhe oferece um perdão não merecido. A salvação não vem do mérito do homem, mas sim da “justiça de Deus” que a todos dá a vida (cf. Rm 3,1-5,11).
No texto que a segunda leitura do terceiro domingo da quaresma nos propõe, Paulo refere-se à ação de Deus, por Jesus Cristo e pelo Espírito, no sentido de “justificar” todo o homem.
MENSAGEM
Paulo está absolutamente seguro de uma realidade que o enche de alegria: todos aqueles – judeus, gregos ou romanos – que se encontraram com Jesus e acolheram a sua proposta, estão destinados à salvação. Independentemente das suas origens ou das suas histórias de vida, dos seus pecados ou das suas virtudes, foram “justificados” pela fé. A “justificação pela fé” é um conceito-chave na visão teológica de São Paulo.
No mundo bíblico a “justiça”, mais do que um conceito jurídico reservado ao tribunal, é um conceito relacional. Define a fidelidade de alguém a si próprio, à sua essência, sua maneira de ser, aos compromissos assumidos no âmbito de uma relação. Ora, sempre que se relacionou com os homens, Deus mostrou que a sua essência é amor, é clemência, é compaixão, é bondade, é misericórdia. A ira de Deus dura apenas um instante, enquanto a sua benevolência se mantém para sempre. Sendo assim, dizer que Deus é “justo” não é dizer que Ele responde na mesma moeda ao homem pecador, ou que castiga as faltas do homem quando este infringe determinadas regras; mas é dizer que a bondade e o amor de Deus falam sempre mais alto, mesmo quando o homem não foi correto no seu proceder. A bondade de Deus vem sempre ao de cima; e Deus, mesmo que o homem o não mereça, acaba por emitir um veredicto de graça. Dessa forma, o homem pecador alcança a salvação.
Ora, o amor de Deus e o seu veredicto de graça em favor do homem concretizaram-se em Jesus e através de Jesus. Nós, seres humanos limitados e pecadores descobrimos e contemplamos o amor de Deus quando olhamos para Jesus, para os seus gestos de partilha e de entrega, para a sua morte na cruz. Deus enviou-no-lo para nos mostrar o seu amor e para conhecermos o seu dom. Jesus mostrou-nos o caminho que conduz à vida e deixou-se matar para concretizar o projeto salvador de Deus. Na verdade, nós não merecíamos tanto amor; mas, apesar do nosso pecado, Jesus deixou-se matar para nos apontar o caminho que leva à vida: “Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores” (Rm 5,8).
Esse homem pecador – “justificado” pelo amor de Deus manifestado na cruz de Jesus – é agora uma nova criatura (cf. Gl 6,15): é o homem ressuscitado para a vida nova (cf. Rm 6,3-11), que vive do Espírito (cf. Rm 8,9.14), que é filho de Deus e co-herdeiro com Cristo (cf. Rm 8,17; Gl 4,6-7).
Segundo Paulo, o que é que resulta de tudo isto? O que é que “ganham” os cristãos que se encontram com Cristo, são “justificados” e obtêm o acesso à salvação?
Em primeiro lugar, a paz (cf. Rm 5,1). Esta “paz” não é a simples ausência de guerra ou mesmo a serenidade tranquila de quem se sente bem consigo mesmo; mas é a situação de quem “embarca” numa relação positiva com Deus tendo, através d’Ele, acesso à vida verdadeira e definitiva.
Em segundo lugar, a esperança (cf. Rm 5,2-4 – embora os versículos 3 e 4 não apareçam no texto que a segunda leitura deste domingo nos traz). Trata-se desse dom que nos permite superar as dificuldades e a dureza da caminhada, apontando a um futuro glorioso de vida em plenitude. Tal “esperança” não é uma maneira de alimentar um otimismo irresponsável, que nos permita evadirmo-nos do presente ou iludirmos a adversidade; mas é aquilo que nos permite enfrentar confiadamente as vicissitudes da caminhada, conscientes de que as forças da morte não terão a última palavra e que as forças da vida triunfarão.
Em terceiro lugar, o amor de Deus ao homem (cf. Rm 5,5-8). O cristão não é um “pobre diabo” que se arrasta à toa pela lama do mundo alimentando sonhos irrealizáveis; mas é, fundamentalmente, alguém a quem Deus ama com um amor verdadeiro e eterno. A prova desse amor está em Jesus de Nazaré, o Filho amado que Deus enviou ao mundo e “entregou à morte por nós quando ainda éramos pecadores” (Rm 5,8).
Uma vez mais estamos no âmago da teologia paulina. Na compreensão que Paulo tem da vida e da história dos homens há uma realidade absolutamente central, que ele testemunha com um entusiasmo contagiante: Deus ama-nos com um amor sem limites e faz tudo para se encontrar connosco e para saciar a nossa sede de vida. Paulo, enquanto viver, não conseguirá calar esta “Boa Notícia”.
INTERPELAÇÕES
- Quando Deus fizer a contabilidade final dos nossos dias o que encontrará? As nossas boas obras serão em número suficiente para nos garantir a salvação? No “livro de contas” de Deus a nossa coluna dos débitos será mais extensa do que a coluna dos créditos? Deus atuará como um contabilista rigoroso que, depois de tudo somado, nos apontará, sem contemplações, aquilo que temos em falta? O apóstolo Paulo deixa-nos, na leitura de hoje, uma notícia tranquilizadora: na contabilidade final da nossa vida, a única coisa que contará será o amor de Deus. O nosso Deus é um Deus clemente e compassivo, lento para a ira e rico em misericórdia. Ele “justificar-nos-á” e emitirá sobre nós um veredicto de graça e de misericórdia, mesmo que nós não o mereçamos. A única coisa que Ele exigirá de nós é que acolhamos a sua oferta de salvação. Deus não nos condena; Deus salva-nos sempre. Basta que acolhamos o seu amor e que aceitemos o convite que Ele nos faz para integrar a sua família. Como vemos e sentimos esta “Boa Notícia”?
- Então podemos viver como nos apetecer, sem medo de sermos penalizados pela “justiça” de Deus? Na realidade, aquilo que muitas vezes consideramos “castigos” pelos nossos pecados não são punições que Deus inventa para nos fazer pagar pelo mal que praticamos; são, simplesmente, as consequências naturais das nossas decisões erradas, das nossas atitudes egoístas, da má semente que semeamos, da nossa irresponsabilidade, da nossa futilidade, da nossa aposta no que é efémero e sem sentido. Quando escolhemos caminhos sem saída, somos nós que perdemos e que nos auto-castigamos: a nossa autossuficiência isola-nos, priva-nos de estar em paz com Deus e de usufruir dos seus dons; a nossa falta de fé afunda-nos no desespero e torna-nos prisioneiros do medo e da morte; a falta de confiança no amor de Deus faz com que nos arrastemos sem rumo, perdidos e órfãos, sentindo-nos lixo abandonado na berma dos caminhos… É dessa forma que queremos viver e dar sentido à nossa vida?
- O apóstolo Paulo garante-nos que o amor de Deus não é inconstante, não varia conforme os “estados de espírito” de Deus, não depende dos comportamentos inconstantes do homem. É um amor inquestionável, infalível, absolutamente inabalável. Segundo Paulo, “Deus provou assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores”. Deus não ama apenas os bons, os que se portam bem; ama todos os seus filhos, sem exceção. Nem a nossa insistência no pecado nos afasta do amor de Deus. É difícil entender e aceitar isto? Talvez o seja para alguns, incapazes de entender a lógica de Deus, o alcance do verdadeiro amor. Que Deus anunciamos e testemunhamos? Um deus castigador e vingativo, sempre pronto a fazer cair sobre o homem pecador as suas punições, ou um Deus terno e compassivo, misericordioso e bom, que olha para os seus queridos filhos com a compreensão e o amor de um pai ou de uma mãe?
ACLAMAÇÃO ANTES DO EVANGELHO – cf. João 4,42.15
Escolher um dos refrães:
Refrão 1: Louvor e glória a Vós, Jesus Cristo, Senhor.
Refrão 2: Glória a Vós, Jesus Cristo, Sabedoria do Pai.
Refrão 3: Glória a Vós, Jesus Cristo, Palavra do Pai.
Refrão 4: Glória a Vós, Senhor, Filho do Deus vivo.
Refrão 5: Louvor a Vós, Jesus Cristo, Rei da eterna glória.
Refrão 6: Grandes e admiráveis são as vossas obras, Senhor.
Refrão 7: A salvação, a glória e o poder a Jesus Cristo, Nosso Senhor.
Senhor, Vós sois o Salvador do mundo:
dai-nos a água viva, para não termos sede.
EVANGELHO – João 4,5-42
Naquele tempo,
chegou Jesus a uma cidade da Samaria, chamada Sicar,
junto da propriedade que Jacob tinha dado a seu filho José,
onde estava a fonte de Jacob.
Jesus, cansado da caminhada, sentou Se à beira do poço.
Era por volta do meio dia.
Veio uma mulher da Samaria para tirar água.
Disse lhe Jesus: «Dá Me de beber».
Os discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos.
Respondeu Lhe a samaritana:
«Como é que Tu, sendo judeu,
me pedes de beber, sendo eu samaritana?»
De facto, os judeus não se dão com os samaritanos.
Disse lhe Jesus:
«Se conhecesses o dom de Deus
e quem é Aquele que te diz: ‘Dá Me de beber’,
tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva».
Respondeu Lhe a mulher:
«Senhor, Tu nem sequer tens um balde, e o poço é fundo:
donde Te vem a água viva?
Serás Tu maior do que o nosso pai Jacob,
que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu,
com os seus filhos a os seus rebanhos?»
Disse Lhe Jesus:
«Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede.
Mas aquele que beber da água que Eu lhe der
nunca mais terá sede:
a água que Eu lhe der tornar se á nele uma nascente
que jorra para a vida eterna».
«Senhor, suplicou a mulher dá me dessa água,
para que eu não sinta mais sede
e não tenha de vir aqui buscá-la».
Disse-lhe Jesus:
«Vai chamar o teu marido e volta aqui».
Respondeu-lhe a mulher: «Não tenho marido».
Jesus replicou:
«Disseste bem que não tens marido,
pois tiveste cinco
e aquele que tens agora não é teu marido.
Neste ponto falaste verdade».
Disse-lhe a mulher:
Senhor, vejo que és profeta.
Os nossos antepassados adoraram neste monte
e vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar».
Disse lhe Jesus:
«Mulher, podes acreditar em Mim:
Vai chegar a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai.
Vós adorais o que não conheceis;
nós adoramos o que conhecemos,
porque a salvação vem dos judeus.
Mas vai chegar a hora – e já chegou –
em que os verdadeiros adoradores
hão de adorar o Pai em espírito a verdade,
pois são esses os adoradores que o Pai deseja.
Deus é espírito
e os seus adoradores devem adorá-l’O em espírito e verdade».
Disse Lhe a mulher:
«Eu sei que há de vir o Messias,
isto é, Aquele que chamam Cristo.
Quando vier há de anunciar nos todas as coisas».
Respondeu lhe Jesus:
«Sou Eu, que estou a falar contigo».
Nisto, chegaram os discípulos
e ficaram admirados por Ele estar a falar com aquela mulher,
mas nenhum deles Lhe perguntou:
«Que pretendes?», ou então: «Porque falas com ela?»
A mulher deixou a bilha, correu à cidade e falou a todos:
«Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz.
Não será Ele o Messias?»
Eles saíram da cidade e vieram ter com Jesus.
Entretanto, os discípulos insistiam com Ele, dizendo:
«Mestre, come».
Mas Ele respondeu-lhes:
«Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis».
Os discípulos perguntavam uns aos outros:
«Porventura alguém Lhe trouxe de comer?»
Disse-lhes Jesus:
«O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que me enviou
e realizar a sua obra.
Não dizeis vós que dentro de quatro meses
chegará o tempo da colheita?
Pois bem, Eu digo-vos:
Erguei os olhos e vede os campos,
que já estão loiros para a ceifa.
Já o ceifeira recebe o salário
e recolhe o fruto para a vida eterna
e, deste modo, se alegra o semeador juntamente com o ceifeiro.
Nisto se verifica o ditado:
‘um é o que semeia e outro o que ceifa’.
Eu «mandei-vos ceifar o que não trabalhastes.
Outros trabalharam e vós aproveitais-vos do seu trabalho».
Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus,
por causa da palavra da mulher, que testemunhava:
«Ele disse-me tudo o que eu fiz».
Por isso os samaritanos, quando vieram ao encontro de Jesus,
pediram Lhe que ficasse com eles.
E ficou lá dois dias.
Ao ouvi l’O, muitos acreditaram e diziam à mulher:
«Já não é por causa das tuas palavras que acreditamos.
Nós próprios ouvimos
e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo».
CONTEXTO
A narração do evangelista João leva-nos até junto de um poço, na cidade samaritana de Sicar. A Samaria era a região central da Palestina – uma região heterodoxa, habitada por uma raça de sangue misturado (de judeus e pagãos) e de religião sincretista.
Na época do Novo Testamento, existia uma animosidade com raízes bem antigas entre samaritanos e judeus. A divisão entre as duas comunidades começou logo após a morte de Salomão (932 a.C), quando as tribos do norte e do centro se recusaram a aceitar Roboão, filho de Salomão, como seu rei. O país dividiu-se: as tribos do norte e do centro escolheram para rei um tal Jeroboão e constituíram o reino de Israel, com capital em Siquém (cf. 1Rs 12); as tribos do sul permaneceram sob a autoridade de Roboão, filho de Salomão, constituindo o reino de Judá, com capital em Jerusalém. A partir daqui, os dois grupos seguiram caminhos separados.
A situação piorou quando, em 721 a.C., o reino de Israel foi tomado pelos assírios e uma parte da população da Samaria (cerca de quatro por cento) foi deportada para a Assíria. Foi o fim do reino de Israel. Na Samaria instalaram-se, por essa altura, colonos assírios que se misturaram com a população local. Para os judeus, os habitantes da Samaria começaram, então, a paganizar-se (cf. 2Rs 17,29). Em 586 a.C. foi a vez de Judá sofrer uma derrota às mãos dos babilónios e de a maior parte da população de Jerusalém ter sido levada para o cativeiro, para a Babilónia.
A relação entre as duas comunidades deteriorou-se ainda mais quando, após o regresso dos judeus do Exílio na Babilónia (538 a.C.), estes recusaram a ajuda dos samaritanos (cf. Esd 4,1-5) para reconstruir o Templo de Jerusalém (ano 437 a.C.) e denunciaram os casamentos mistos. Tiveram, então, de enfrentar a oposição dos samaritanos na reconstrução da cidade (cf. Ne 3,33-4,17). No ano 333 a.C., um novo fator veio agravar o conflito: os samaritanos construíram um Templo no monte Garizim, um templo que pretendia fazer concorrência ao templo de Jerusalém. O Templo samaritano do monte Garizim viria a ser destruído em 128 a.C., por João Hircano.
As picardias continuaram entre os dois grupos. A mais famosa aconteceu por volta do ano 6 d.C., quando os samaritanos profanaram o Templo de Jerusalém durante a festa da Páscoa, espalhando ossos humanos nos átrios.
Na época neotestamentária era ponto assente, para os judeus, que os samaritanos eram hereges, pois tinham sangue de povos estrangeiros e praticavam uma religião sincretista, que misturava elementos da fé javista com elementos religiosos herdados de outros povos. Os samaritanos, por sua vez, desprezavam profundamente os judeus.
O poço referido na narrativa joânica era conhecido como o “poço de Jacob”. Estava situado no rico vale entre os montes Ebal e Garizim, não longe da cidade samaritana de Siquém (em aramaico, Sicara – a atual Askar). Trata-se de um poço estreito, aberto na rocha calcária, e cuja profundidade ultrapassa os 30 metros. Segundo a tradição, teria sido aberto pelo patriarca Jacob. Os dados arqueológicos revelam que o “poço de Jacob” serviu os samaritanos entre o ano 1000 a.C. e o ano 500 d.C. (embora ainda hoje se possa extrair dele água).
Na tradição religiosa de Israel, o “poço” é um elemento mítico, que parece referido em numerosos textos e evoca a presença de Deus que acompanha o seu povo ao longo da sua peregrinação pela história. Sintetiza os poços abertos pelos patriarcas e a água que Moisés fez brotar do rochedo no deserto (primeira leitura de hoje); mas, sobretudo, torna-se figura da Lei (do poço da Lei brota a água viva que mata a sede de vida do Povo de Deus), que a tradição judaica considerava observada já pelos patriarcas, antes de ser dada ao Povo por Moisés.
O Evangelho segundo São João apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus, enviado pelo Pai para criar um Homem Novo. No chamado “Livro dos Sinais” (cf. Jo 4,1-11,56), o autor apresenta – recorrendo aos “sinais” da água (cf. Jo 4,1-5,47), do pão (cf. Jo 6,1-7,53), da luz (cf. Jo 8,12-9,41), do pastor (cf. Jo 10,1-42) e da vida (cf. Jo 11,1-56) – um conjunto de catequeses sobre a ação criadora do Messias.
O nosso texto é, exatamente, a primeira catequese do “Livro dos Sinais”: através do “sinal” da água, o autor vai descrever a ação criadora e vivificadora de Jesus.
MENSAGEM
O “poço de Jacob” ocupa o centro da cena. À volta do “poço” movimentam-se as personagens principais: Jesus e uma mulher samaritana. A temática que vai ser abordada relaciona-se, portanto, com um poço de água e com gente que procura água para matar a sede.
Olhemos, antes de mais, para a mulher que se encontra junto do poço. Não se diz o seu nome. É apenas “uma mulher” samaritana. O que é que ela faz ali, junto do poço de Jacob? Vai à procura de água para matar a sua sede e para a sede da sua família. Aquela mulher, sem nome próprio, representa provavelmente a Samaria, aquele povo de religião heterodoxa, desprezado pelos judeus, que busca desesperadamente a água capaz de matar a sua sede de vida plena. Sim, também os samaritanos – esse povo herético e desprezado pelos judeus – sentem sede. A “água” que Deus quer oferecer a todos os seus filhos também é para os samaritanos.
Aquele poço que está ali no centro da cena à disposição das gentes da Samaria é um poço histórico bem conhecido – o poço de Jacob. Mas, na narrativa joânica, aquele “poço” representa a Lei, o sistema religioso à volta do qual se consubstanciava a experiência religiosa dos samaritanos. Era nesse “poço” (a Lei) que os samaritanos procuravam a “água” de que necessitavam para saciar a sua sede de vida.
No entanto, a água daquele “poço” já não respondia às necessidades (à sede) da gente da Samaria. Os samaritanos tinham há muito reconhecido a insuficiência do “poço” da Lei e até tinham arriscado procurar a vida plena noutras propostas religiosas, noutros caminhos, noutros deuses. Jesus referir-se-á mesmo, no seu diálogo com a samaritana, aos “cinco maridos” que ela já tinha tido, o que poderá ser uma alusão aos cinco deuses que os samaritanos chegaram a adorar, conforme dizia a tradição judaica (cf. 2Rs 17,29-41).
Está assim lançado o tema desta narrativa. Na Samaria havia um povo, desprezado pelos judeus por causa do seu sincretismo religioso, que sentia sede de vida verdadeira e buscava em caminhos errados a água para saciar essa sede. Procurou-a no poço de Jacob, símbolo da Lei; mas aí só encontrou uma água que não saciava: quem bebia dessa água, rapidamente voltava a sentir sede. Os samaritanos também procuraram essa água noutras “fontes”, noutros deuses, noutras propostas; mas também aí encontraram desilusão e desencanto: já tinham conhecido diversas “soluções” (cinco maridos”) e continuavam a sentir uma sede inapagável de vida verdadeira e eterna.
Os samaritanos estarão condenados a errar eternamente à sede, à procura de uma água que sempre lhes escapa? Deus ter-se-á afastado deles e não quererá oferecer-lhes a água de que eles necessitam para ter vida verdadeira?
É precisamente aqui que Jesus entra na história. O evangelista João diz-nos que Jesus, vindo da Judeia para a Galileia, “tinha de atravessar a Samaria” (Jo 4,4). Na verdade, não tinha. Quem, no tempo de Jesus, viajava entre a Galileia e a Judeia fazia todos os possíveis por não atravessar a Samaria, a fim de evitar as montanhas daquela região e, sobretudo, para não ser confrontado com a hostilidade dos samaritanos. Esta necessidade que Jesus tem de passar pela Samaria não é de ordem geográfica, mas sim teológica: para cumprir plenamente a missão que o Pai Lhe tinha confiado, Jesus “tinha” de passar na Samaria e oferecer aos samaritanos a água de que eles necessitavam para saciar a sua sede de vida.
Portanto, “por volta do meio dia”, Jesus chega junto do poço de Jacob e senta-se. Ao sentar-se ali, propõe-se Ele próprio tomar o lugar daquele poço: agora é Jesus o novo poço que oferece a água aos samaritanos sedentos de vida. Entretanto, aproximou-se do poço uma mulher samaritana. Vem buscar água.
O poço era visto, na cultura popular palestina, como um cenário de noivado. É junto de um poço que se decide o noivado de Isaac com Rebeca (cf. Gn 24,15-31); é junto de um poço que se decide o noivado de Jacob com Raquel (cf. Gn 29,1-14); é junto de um poço que Moisés descobre Séfora e se apaixona por ela (cf. Ex 2,16-22). É bastante provável que o evangelista João evoque aqui o velho tema profético do “noivado” de Deus com o seu povo: Jesus é o “noivo” que vem ao encontro do seu povo para o desposar e fazer com ele uma nova Aliança. Aqui, junto daquele poço, Jesus é o noiva que vai desposar a sua noiva, a Samaria. Doravante a Samaria já não necessitará de procurar outro “marido”, pois encontrou em Jesus aquele que é capaz de saciar a sua sede de felicidade.
Entre Jesus e a mulher samaritana estabelece-se um diálogo, um dos mais belos do Novo Testamento. Jesus pede à mulher: “dá-me de beber”. Jesus precisa, Ele próprio da água daquele poço? É claro que não. Então, porque se rebaixa Ele – contra todas as convenções sociais e religiosas – a dirigir-se àquela mulher pertencente a um povo impuro e desprezado? O pedido de Jesus é, evidentemente, para introduzir na equação o tema da água. Jesus, desde que se apresentou aos homens no presépio de Belém, nunca teve problema de se rebaixar para descer ao nível dos homens e para sentir as suas necessidades. A água é um bom tema de conversa: todos precisamos de água para viver.
Na continuação da conversa, a mulher (Samaria) descobre que Jesus lhe vem propor uma água que matará definitivamente a sede que ela sente de vida eterna (cf. Jo 4,13-14). Depois de descobrir isso, ela rende-se completamente a Jesus e pede: “Senhor, dá me dessa água!” (Jo 4,15).
Que água é essa? Para o evangelista João, a “água de Jesus” – o seu grande dom – é o Espírito. Na conversa com Nicodemos, Jesus já havia avisado que “quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus” – Jo 3,5; e quando Jesus se apresenta como a “água viva” que matará a sede do homem, João tem o cuidado de explicar que Ele se referia ao Espírito, que iam receber aqueles que acreditassem n’Ele (cf. Jo 7,37-39). O Espírito, uma vez acolhido no coração do homem, transforma-o, renova-o e torna-o capaz de amar Deus e os irmãos. Sacia a sede de vida do homem e dá-lhe a possibilidade de viver uma vida totalmente nova.
Como é que aquela mulher responde à proposta de Jesus? Inicialmente, ela fica confusa. Quer, evidentemente, saciar a sua sede de vida; mas, o que deverá fazer para ter acesso à água do Espírito, à água de Jesus? A Samaria terá de renunciar à sua especificidade religiosa e de ceder às pretensões religiosas dos judeus, para os quais o verdadeiro encontro com Deus só pode acontecer no Templo de Jerusalém e na instituição religiosa judaica (“nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar” – Jo 4,20)?
Jesus responde-lhe, no entanto, que não se trata de escolher entre o caminho dos judeus e o caminho dos samaritanos. Não é no Templo de pedra de Jerusalém ou no Templo de pedra do monte Garizim que Deus está… Quem quiser encontrar Deus e acolher o Espírito que sacia a sede de vida, deve aderir a Jesus, escutar as suas indicações, seguir os seus passos, ir atrás d’Ele no caminho do amor e da entrega. Da adesão a Jesus nascerá um povo novo, a comunidade que vive do Espírito (cf. Jo 4,21-24).
Então – e só então – desaparecerão as barreiras de inimizade que separavam aqueles dois povos: os judeus e os samaritanos. A única coisa que passa a contar é a vida do Espírito que renovará e transformará o coração de todos, que a todos ensinará o amor a Deus e que fará de todos – sem distinção de raças ou de perspetivas religiosas – uma família de irmãos.
A mulher responde à proposta de Jesus abandonando o cântaro (agora inútil), e correndo a anunciar aos habitantes da cidade aquela fantástica proposta que Jesus, em nome de Deus, oferece à Samaria. A narrativa joânica refere, ainda, a adesão entusiástica de todos os samaritanos à proposta de Jesus e a “confissão da fé” proclamada por toda a comunidade. Jesus é reconhecido como “o salvador do mundo” – isto é, como Aquele que dá ao homem a vida plena e definitiva (cf. Jo 4,28-41). Os samaritanos descobriram um novo poço onde poderão saciar a sua sede de felicidade e de vida eterna: Jesus.
INTERPELAÇÕES
- A modernidade criou-nos grandes expectativas de progresso, de emancipação individual, de realização pessoal, e prometeu-nos um futuro de liberdade e felicidade através da razão, da ciência e da tecnologia. Disse-nos que tinha na manga a resposta para todas as nossas procuras e que podia responder a todas as nossas necessidades. Garantiu-nos que a vida verdadeira estava na liberdade absoluta, numa vida vivida sem o controle de Deus; disse-nos que os avanços científicos e tecnológicos iriam tornar a nossa existência cómoda, eliminar a doença e protelar a morte; afirmou que a nossa segurança estava numa conta bancária recheada, no reconhecimento social, no êxito profissional, na adesão às indicações dos líderes de opinião, na conformação com o movimento geral das massas… No entanto, todas as nossas vitórias e conquistas não conseguem calar a nossa sede de eternidade, de plenitude, dessa “mais qualquer coisa” que nos falta para sermos, realmente, felizes e para nos sentirmos plenamente realizados. A afirmação essencial que o Evangelho de hoje faz é: só Jesus Cristo oferece a água que mata definitivamente a sede de vida e de felicidade do homem. Precisamos de escutar Jesus e de abraçar o seu projeto. O que pensamos disso? O que é que Jesus significa para nós? Ele é “a água” sem a qual não conseguimos viver? A sua proposta sacia a nossa sede de vida? O que é preciso para conseguirmos que os homens do nosso tempo aprendam a olhar para Jesus e a tomar consciência da proposta de vida plena que Ele oferece a todos?
- “Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: ‘Dá Me de beber’, tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva” – diz Jesus à mulher samaritana. A “água viva” de que Jesus fala evoca imediatamente em nós a fonte batismal. Para cada um de nós, o dia do nosso batismo foi o começo de uma caminhada com Jesus… Nesse momento aderimos a Jesus e à vida que Ele oferece, acolhemos em nós o Espírito que transforma, que renova, que nos capacita para vivermos como “filhos de Deus” e que nos leva ao encontro da vida plena e definitiva. Depois disso, percorremos um caminho, fizemos opções, elegemos valores sobre os quais fundamentamos a nossa vida. A nossa vida tem sido verdadeiramente coerente com as opções que fizemos no dia em que recebemos o batismo? Temos procurado deixar-nos conduzir pelo Espírito? O compromisso que assumimos no dia em que fomos batizados é uma realidade que continua a marcar a nossa vida, os nossos gestos, os nossos valores, as nossas opções?
- Atentemos no pormenor do “cântaro” abandonado pela samaritana, depois de se encontrar com Jesus… O “cântaro” significa e representa tudo aquilo que nos dá acesso a essas propostas limitadas, falíveis, incompletas de felicidade. O abandono do “cântaro” significa o romper com todos os esquemas de busca de felicidade egoísta, para abraçar a verdadeira e única proposta de vida plena, a proposta que nos vem de Jesus. Neste tempo de quaresma – tempo de “conversão”, de mudança, de refazer a nossa vida, de reequacionar as nossas opções, de “voltar ao encontro de Deus” – estamos dispostos a abandonar o caminho da felicidade egoísta, parcial, incompleta, e a abrir o nosso coração ao Espírito que Jesus nos oferece e que exige de nós uma vida nova?
- Aquela mulher anónima da Samaria, depois de encontrar o “salvador do mundo” que veio trazer aos homens a água que mata a sede de vida eterna, não guardou para si própria essa experiência inolvidável e não se fechou em casa a gozar a sua descoberta… Correu para a cidade e partilhou com os seus concidadãos a verdade que tinha encontrado e que tinha alterado a sua visão da vida: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será Ele o Messias?”. As experiências que mudam a nossa existência e que nos abrem horizontes novos, não são para ficar confinadas nos nossos mundos pessoais. Quando nos encontramos com Jesus e descobrimos, com Ele, novos horizontes e novas possibilidades, partilhamos essa descobertas com aqueles que caminham ao nosso lado pelas estradas da vida?
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 3.º DOMINGO DA QUARESMA
(adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)
- A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 3.º Domingo da Quaresma, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo…
Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.
- DESENVOLVER O RITO PENITENCIAL.
A antífona de abertura, a primeira leitura e o Evangelho sublinham o tema da água: água do Batismo, água da graça… O rito penitencial pode valorizar a importância da água na história da salvação e na nossa vida cristã: bênção da água, aspersão da assembleia, acompanhada de um cântico de carácter batismal, convidando todos os fiéis a ir à fonte batismal tocar na água e fazendo o sinal da cruz… São algumas ideias… A equipa litúrgica procure preparar bem um gesto, para que signifique o acolhimento da palavra de Deus, através do símbolo da água.
- LER O EVANGELHO A DIVERSAS VOZES.
O Evangelho do encontro de Jesus com a samaritana, um pouco longo, pode ser lido a diversas vozes: narrador, Jesus, samaritana, discípulos. De qualquer modo, a leitura deve ser bem preparada e proclamada, para que seja escutada como Palavra de Deus e não como uma mera encenação…
- BILHETE DE EVANGELHO.
A vida é dom. “Se conhecêsseis o dom de Deus!”, diz Jesus à mulher de Samaria. Deus é alguém que oferece um presente, é o seu modo de fazer aliança connosco. Ele faz-nos viver porque é nosso Criador. Ele faz-nos reviver porque é nosso Salvador. Ele faz-nos viver com Ele e com os nossos irmãos porque é o Espírito que faz a nossa comunhão. Saibamos apreciar estes presentes, saibamos provar o seu sabor. A vida, recebemo-la… que presente! É preciso que a demos… em troca! Nesta semana, procuremos aprofundar esta relação que somos convidados a viver com Deus e com os nossos irmãos. Não sejamos daqueles “mimados” que já não sabem apreciar o que se lhes dá! Não sejamos daqueles “avarentos” que já não sabem o que é oferecer!
- ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Nós Te bendizemos, Deus nosso Pai, porque habitas verdadeiramente no meio de nós. Tinhas tirado o povo de Israel da sua infelicidade, fizeste-o sair do Egipto, pelo teu servo Moisés fizeste jorrar a água do rochedo.
Nós Te pedimos: guarda-nos de toda a impaciência, confirma a nossa confiança na tua presença em nós.
No final da segunda leitura:
Nós Te damos graças porque nos justificas quando temos fé em Ti. Nós Te bendizemos por Jesus, teu Filho, que aceitou morrer por nós, pecadores, e pelo Espírito Santo que foi derramado nos nossos corações.
Nós Te pedimos por todos os nossos irmãos e irmãs cuja esperança está ferida e que atravessam períodos de dúvida, por causa das provações que os atingem.
No final do Evangelho:
Bendito sejas, Senhor Jesus, Tu o Messias, o Salvador do mundo, porque nos revelas a água viva da tua presença e nos levas a adorar o Pai no Espírito e em verdade. Bendito sejas pela água do Batismo.
Nós Te pedimos pelas crianças e pelos jovens que conduzimos para Ti e por todos os futuros batizados: faz com que tenham sede de Te conhecer!
- ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística III.
- PALAVRA PARA O CAMINHO.
Que fonte? Sede do Povo de Israel no deserto! Sede da samaritana! E nós? Temos sede? De quem? De quê? A que poço vamos nós beber para matar todas as sedes que nos habitam? E se nos enganamos na fonte? “Senhor, dá me dessa água, para que eu não sinta mais sede”!
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA
Grupo Dinamizador:
José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
www.dehonianos.org