05º Domingo da Quaresma - Ano A [atualizado]

22 de Março, 2026

ANO A

5º DOMINGO DA QUARESMA

Tema do 5º Domingo da Quaresma

Na quinta etapa do nosso caminho quaresmal, a Palavra de Deus continua a desafiar-nos à conversão, ao reencontro com Deus, à vida nova. Este é o tempo de desatar os nós que nos prendem à morte, de sair dos cantos sombrios do nosso comodismo e de abraçar aquela oferta irrecusável de vida que Deus insistentemente nos faz.

Na primeira leitura, através da voz profética de Ezequiel, Javé promete aos habitantes de Judá exilados numa terra estrangeira, desesperados e sem futuro, uma vida nova. “Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo” – diz-lhes Deus. O desígnio de Deus para os seus queridos filhos é e sempre será um desígnio de vida; por isso, Ele nunca deixará de vir ao encontro do seu povo e de o guiar, pela sua própria mão, até às fontes da vida eterna.

O Evangelho oferece-nos – a partir da história de um amigo de Jesus chamado Lázaro – uma magnífica catequese sobre o projeto de vida que Deus tem para o homem. Diz-nos que Jesus veio ao nosso encontro, enviado por Deus, para nos oferecer uma vida que a morte nunca poderá vencer. Àqueles que manifestam interesse em acolher essa vida, Jesus garante-lhes: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá”. Chegamos à vida se ousarmos seguir atrás de Jesus, como discípulos.

Na segunda leitura o apóstolo Paulo convida os cristãos de Roma – e os discípulos de Jesus de todos os tempos e lugares – a relembrarem o compromisso que assumiram no dia do seu batismo e a viverem sob o domínio “do Espírito”. Aqueles que escolheram Cristo e que vivem no Espírito, pertencem a Deus e integram a família de Deus. Estão destinados à vida eterna, à vida plena e verdadeira.

 

LEITURA I – Ezequiel 37,12-14

Assim fala o Senhor Deus:
«Vou abrir os vossos túmulos
e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo,
para vos reconduzir à terra de Israel.
Haveis de reconhecer que Eu sou o Senhor,
quando abrir os vossos túmulos
e deles vos fizer ressuscitar, ó meu povo.
Infundirei em vós o meu espírito e revivereis.
Hei de fixar-vos na vossa terra
e reconhecereis que Eu, o Senhor, o disse e o executarei».

 

CONTEXTO

Em 598 a.C. Nabucodonosor, rei da Babilónia, irritado pelas tentativas de Joaquim, rei de Judá, para se libertar do domínio babilónico, pôs cerco à cidade de Jerusalém. O rei Joaquim parece ter morrido durante o cerco da cidade (na versão de 2 Cr 36, contudo, Joaquim foi aprisionado e levado prisioneiro para a Babilónia). Sucedeu-lhe, no trono de Judá, o seu filho Joiaquin, que reinou apenas três meses (cf. 2Re 24,8-9), antes de cair nas mãos dos babilónios (cf. 2Re 24,10-16). O rei, a classe dirigente e todos aqueles que tinham alguma influência em Jerusalém foram deportados para a Babilónia (597 a.C.).

Nabucodonosor instalou, então, no trono de Judá um tal Sedecias. Durante algum tempo, Judá manteve-se tranquilo, pagando pontualmente os tributos devidos aos babilónios; mas, ao fim de algum tempo, aproveitando a conjuntura política favorável, Sedecias aliou-se com os egípcios e deixou de pagar o tributo. Nabucodonosor enviou imediatamente um exército que cercou novamente Jerusalém. Apesar do socorro de um exército egípcio, Jerusalém teve de se render aos babilónios (586 a.C.). Sedecias tentou fugir da cidade; mas foi feito prisioneiro, viu os seus filhos serem assassinados e ele próprio foi levado prisioneiro para a Babilónia, onde acabou os seus dias.

Ezequiel, chamado “o profeta da esperança”, deve ser colocado neste cenário. Pertencendo a uma família com alguma influência em Jerusalém, fez parte do primeiro grupo de exilados de Judá, levados para a Babilónia em 597 a.C. (no reinado de Joiaquin, quando Nabucodonosor conquista Jerusalém, pela primeira vez). Será na Babilónia que Ezequiel irá exercer a sua missão profética.

A primeira fase do ministério de Ezequiel decorre entre 593 a.C. (altura em que sentiu o chamamento de Deus) e 586 a.C. (data em que Jerusalém é arrasada pelas tropas de Nabucodonosor e uma nova leva de exilados é encaminhada para a Babilónia). Nesta fase, Ezequiel procura destruir falsas esperanças e anuncia que, ao contrário do que pensam os exilados, o cativeiro está para durar… Eles não só não vão regressar em breve a Jerusalém, mas os que ficaram em Jerusalém (e que continuam a multiplicar os pecados e infidelidades contra Javé) vão fazer companhia aos que já estão desterrados na Babilónia.

A segunda fase do ministério de Ezequiel desenrola-se a partir de 586 a.C., até cerca de 570 a.C. Instalados numa terra estrangeira, sem Templo, sem sacerdócio e sem culto, os exilados estão desesperados e duvidam da bondade e do amor de Deus. Nessa fase, Ezequiel procura alimentar a esperança dos exilados e transmitir ao Povo a certeza de que o Deus libertador e salvador não os abandonou. As palavras que, nesta fase, Ezequiel dirige aos seus concidadãos são palavras de ânimo e de esperança.

O texto que nos é proposto como primeira leitura pertence à segunda fase do ministério profético de Ezequiel. Faz parte da famosa de um conjunto de “oráculos de salvação” (cf. Ez 33,1-39,29) que inclui a famosa “visão dos ossos calcinados” (cf. Ez 37). Nessa visão Ezequiel fala de uma planície cheia de ossos calcinados e sem vida; mas, esses ossos, vivificados pelo Espírito do Senhor, são revestidos de pele, de músculos e ganham nova vida. Nesta parábola, esses ossos calcinados representam o Povo de Deus, que jaz abandonado, sem esperança e sem futuro no meio da planície mesopotâmica.

 

MENSAGEM

Depois de vários anos exilados no meio da planície mesopotâmica, os habitantes de Judá perderam a esperança. Estão à mercê dos seus inimigos e têm saudades da sua terra. Crêem-se abandonados por Deus e pelos homens. No horizonte não vislumbram nenhuma mudança, nenhum futuro, nenhuma saída. É uma situação “de morte” para a qual não parece não haver remédio. O texto usa uma imagem bem expressiva para definir a triste situação dos exilados: são como “ossos ressequidos” que apodrecem lentamente num túmulo. Para Judá, estará tudo terminado?

Não. Deus conhece a situação do seu povo e prepara-se para intervir. O profeta Ezequiel, voz de Deus no meio dos exilados, anuncia que Javé vai ressuscitar o seu povo, vai tirá-lo do túmulo, vai libertá-lo, vai devolver-lhe a esperança, vai oferecer-lhe um futuro novo e cheio de vida. O que é que Deus se propõe fazer?

Deus irá infundir o seu Espírito sobre os exilados. Revitalizados pelo Espírito de Deus, os habitantes de Judá conhecerão uma vida nova. Poderão então pôr-se a caminho de Jerusalém, de regresso à sua terra, aos seus lares, às suas raízes. O projeto de morte será vencido pelo projeto de vida que Deus desenhou para o seu povo.

A referência à ação do Espírito de Deus na revivificação do homem coloca-nos no mesmo cenário de Gn 2,7: no homem que criou do barro, Deus infundiu o seu “hálito de vida” (“neshamá”) para o tornar um ser vivente; aqui, sobre o Povo que jaz no túmulo, Deus “infunde o seu Espírito” (“ruah” – Ez 37,14). A ação de Deus em favor do seu povo é uma nova criação.

No “ruah” de Deus que aqui é dado ao Povo que jaz no túmulo, devermos ver bem mais do que uma simples “força vital” que é responsável pela vida física ao homem… O “ruah” de Deus transmite ao homem a vida divina e transforma radicalmente o coração do homem. Ele fará com que os “corações de pedra” – duros, insensíveis, autossuficientes – dos habitantes de Judá se transformem em “corações de carne”, sensíveis e bons, capazes de amar Deus e de viver de acordo com os mandamentos de Deus (“dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um espírito novo: arrancarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Dentro de vós porei o meu espírito, fazendo com que sigais as minhas leis e obedeçais e pratiqueis os meus preceitos” – Ez 36,26-27). Esta nova criação vai bem mais longe do que a antiga criação, reportada na narração do livro do Génesis.

A promessa do regresso dos exilados a Judá concretizou-se alguns anos mais tarde (538 a.C.) quando o rei persa Ciro os autorizou a deixarem a Babilónia e a retornarem a Jerusalém. No entanto, a tradição rabínica posterior irá reinterpretar esta “promessa” de Deus e pô-la em ligação com a chegada dos tempos messiânicos. Em alguns círculos religiosos judaicos via-se nesta promessa de Deus a afirmação de que, com a chegada do Messias, todos os justos ressuscitariam e participariam na alegria do Reino messiânico.

Para além disso, este texto ajudou a catequese de Israel a sedimentar uma das suas convicções mais profundas: Javé é o Deus da vida, que nunca abandona o seu povo e que encontra sempre formas de transmitir vida ao seu Povo; em cada instante da história Ele está presente, recriando o seu Povo, transformando-o, renovando-o, encaminhando-o para a vida plena.

 

INTERPELAÇÕES

  • O desânimo, a frustração, o desalento que, no séc. VI a.C. afetaram os habitantes de Judá exilados na Babilónia não são experiências completamente desconhecidas para nós. São realidades que a cada passo nos esperam ao virar da esquina. Sentimo-las quando somos obrigados a encarar a morte de alguém que nos é querido, quando enfrentamos o desmoronar dos laços familiares, quando somos surpreendidos pela traição de um amigo ou de alguém a quem amamos, quando carregamos o peso da solidão, quando temos de deixar para trás os nossos sonhos, quando nos sentimos afogados pelo medo, quando os nossos melhores esforços resultam em nada… A constatação da nossa fragilidade, das nossas limitações, da nossa impotência paralisa-nos. Olhamos à volta à procura de Deus e Ele parece infinitamente distante; interpelamo-lo e Ele parece não nos responder… Estamos sozinhos, sem apoio e sem defesa? Deus não se interessa minimamente por nós? O profeta Ezequiel garantia aos exilados de Judá que Deus iria ajudá-los a “sair do sepulcro” e trazê-los de volta à terra nova da liberdade e da esperança. Como é que isto nos soa? Acreditamos que Deus é capaz de “escrever direito por linhas tortas” e tirar vida da morte? Apesar dos “acidentes” que a vida insiste em trazer-nos, conseguimos sentir a mão de Deus que nos segura e que nos dá confiança?
  • Pela voz profética de Ezequiel, Deus dizia ao seu povo: “infundirei em vós o meu espírito e revivereis”. Sim, Deus está mesmo disposto a fazer-nos “sair do sepulcro” em que muitas vezes nos deixamos encerrar. Esse espírito que Ele nos promete pode renovar-nos e transformar-nos: é o Espírito de Deus que elimina dos nossos corações o egoísmo, o orgulho, a ambição, a autossuficiência, a maldade, tudo isso que estraga a nossa vida; é o Espírito de Deus que gera nos nossos corações sentimentos de bondade, de generosidade, de misericórdia, de amor… Deus, no entanto, nunca forçará a nossa vontade, nunca nos obrigará a uma transformação que não queremos aceitar. Queremos acolher o Espírito de Deus? Existe em nós uma vontade sincera de nos deixarmos transformar por Ele?
  • É Deus que vem em nosso auxílio para nos tirar dos “túmulos” onde estamos encerrados; é Deus que infunde em nós o seu Espírito, esse Espírito que nos transforma, que nos renova, que nos faz reviver… No entanto Deus, tantas e tantas vezes, vem ao nosso encontro através de pessoas – como Ezequiel – que nos oferecem, em gestos concretos, a bondade, a misericórdia, a vida e o amor de Deus. Deus age no mundo e na vida dos homens através dos seus enviados. Talvez Deus também conte connosco para sermos, junto dos nossos irmãos, testemunhas e sinais da sua bondade e do seu amor. Dispomo-nos a colaborar com Deus e a gastar algum do nosso tempo a “curar” os males que ferem os irmãos que caminham ao nosso lado?

 

SALMO RESPONSORIAL – SALMO 129 (130)

Refrão 1: No Senhor está a misericórdia e abundante redenção.

Refrão 2: No Senhor está a misericórdia, no Senhor está a plenitude da redenção.

 

Do profundo abismo chamo por Vós, Senhor,
Senhor, escutai a minha voz.
Estejam os vossos ouvidos atentos
à voz da minha súplica.

 

Se tiverdes em conta as nossas faltas,
Senhor, quem poderá salvar-se?
Mas em Vós está o perdão,
para Vos servirmos com reverência.

Eu confio no Senhor,
a minha alma espera na sua palavra.
A minha alma espera pelo Senhor
mais do que as sentinelas pela aurora.

Porque no Senhor está a misericórdia
e com Ele abundante redenção.
Ele há de libertar Israel
de todas as suas faltas.

 

LEITURA II – Romanos 8,8-11

Irmãos:
Os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus.
Vós não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito,
se é que o Espírito de Deus habita em vós.
Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo,
não Lhe pertence.
Se Cristo está em vós,
embora o vosso corpo seja mortal por causa do pecado,
o espírito permanece vivo por causa da justiça.
E, se o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos
habita em vós,
Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos,
também dará vida aos vossos corpos mortais,
pelo seu Espírito que habita em vós.

 

CONTEXTO

Em meados do séc. I, Roma era a maior cidade do mundo, com aproximadamente um milhão de habitantes. Neste número estavam incluídos cerca de 50.000 judeus.

Provavelmente, o cristianismo chegou a Roma levado por judeus palestinos convertidos ao Evangelho de Jesus. Uma antiga tradição diz que foi Pedro quem anunciou o Evangelho em Roma, por volta do ano 42, e que da sua pregação resultou uma florescente comunidade cristã. No entanto, não temos evidências que comprovem esta tradição.

Paulo escreveu a sua Carta aos Romanos por volta do ano 57 ou 58. Estava, por essa altura, prestes a terminar a sua terceira viagem missionária. Sentia que tinha concluído a sua missão no Mediterrâneo oriental, pois as igrejas que fundara e acompanhara nessas paragens estavam organizadas e já podiam caminhar por si próprias. Depois disso, Paulo tinha a intenção de anunciar o Evangelho no ocidente: queria passar por Roma, deter-se algum tempo nessa cidade e viajar depois para a Espanha para aí dar testemunho de Jesus (cf. Rm 15,24-28).

Ao dirigir-se por carta aos cristãos de Roma, Paulo pretendia estabelecer laços com eles; mas também aproveitou a oportunidade para lhes apresentar os principais problemas que então o preocupavam, entre os quais sobressaía a questão da unidade. Tratava-se de um problema que se sentia um pouco por todo o lado e que também inquietava a jovem comunidade cristã de Roma, afetada por dificuldades de relacionamento entre cristãos de origem judaica e cristãos vindos do mundo greco-romano. Com serenidade e lucidez, evitando qualquer polémica, Paulo expôs aos cristãos de Roma as linhas mestras do Evangelho que anunciava. A Carta aos Romanos é uma espécie de resumo da teologia paulina e, do ponto de vista teológico, o escrito mais completo de Paulo.

Na primeira parte da Carta (cf. Rm 1,18-11,36), Paulo vai fazer notar aos cristãos divididos que o Evangelho é a força que congrega e que salva todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Embora o pecado seja uma realidade universal, que afeta todos os homens (cf. Rm 1,18-3,20), a “justiça de Deus” dá vida a todos, sem distinção (cf. Rm 3,1-5,11); e é em Jesus Cristo que essa vida se comunica e que transforma o homem (cf. Rm 5,12-8,39). Batizado em Cristo, o cristão morre para o pecado e nasce para uma vida nova. Passa a ser conduzido pelo Espírito e torna-se filho de Deus; libertado do pecado e da morte, produz frutos de santificação e caminha para a Vida eterna.

O nosso texto integra a primeira parte da Carta. Refere-se à “vida nova” daqueles que aderiram a Jesus e vivem “no Espírito”. Todo o capítulo oitavo é dedicado à vida no Espírito. É uma das mais ricas e mais belas páginas da catequese paulina.

 

MENSAGEM

A reflexão desenvolvida no capítulo oitavo da Carta aos Romanos, sobre a “vida no Espírito”, tem como cenário de fundo uma das mais famosas antíteses paulinas: “carne”/”Espírito”. A que se referem estes dois conceitos, segundo Paulo?

A “carne” designa a situação do homem frágil e destinado à morte; mas designa especialmente, na teologia paulina, a situação do homem pecador, do homem que se opõe a Deus e que vive à margem de Deus: o “homem carnal” é o homem que vive no egoísmo e na autossuficiência, que cultiva atitudes e apetites desordenados – o ódio, a ambição, a inveja, o ciúme, a fúria, a devassidão, a discórdia, a libertinagem (cf. Gl 5,19-21). O “Espírito” designa tudo aquilo que faz do homem uma realidade transcendente; mas designa especialmente, na linguagem paulina, a realidade do homem que está aberto a Deus: o “homem do Espírito” é o homem que escuta Deus e que obedece a Deus, que pauta a sua vida pelo amor, pela alegria, pela paz, pela paciência, pela benignidade, pela bondade, pela fidelidade, pela mansidão, pelo autodomínio (cf. Gl 5,22-23). Estas duas realidades estão, evidentemente, em profunda contradição.

Deus, dando cumprimento à sua vontade de salvar o homem, enviou ao mundo o seu Filho Jesus. Jesus apresentou-se numa “carne” semelhante à dos homens; mas Ele não conheceu o pecado e nunca escolheu o pecado. Cristo recusou sempre viver à margem de Deus; escolheu viver segundo o Espírito, numa obediência total ao Pai. Trouxe à nossa “carne” o dinamismo do Espírito.

Quem adere a Cristo recebe vida d’Ele e passa a ser animado pelo mesmo dinamismo que o animou a Ele. O batizado deixa de estar sob o domínio da carne e, como Cristo, passa a viver sob o dinamismo do Espírito (cf. Rm 8,9). Se alguém ainda vive de acordo com a “carne”, é sinal de que não é cristão, não se identifica com Cristo, não pertence a Cristo (cf. Rm 8,10).

Esses que se identificam com Cristo e que vivem “no Espírito”, estão destinados à vida. Assim como Cristo – depois de uma vida vivida “no Espírito” – isto é, depois de uma vida de renúncia ao egoísmo e ao pecado e de opção por Deus e pelas suas propostas – ressuscitou e foi elevado definitivamente à glória do Pai, assim o cristão está destinado à vida nova, à vida plena, à vida eterna (cf. Rm 8,11).

É, pois, o Espírito – presente naqueles que renunciaram à vida da “carne” e aderiram a Jesus – que liberta os crentes do pecado e da morte, que os transforma em homens novos e que os leva em direção à vida plena, à vida definitiva.

 

INTERPELAÇÕES

  • Jesus, ao despedir-se dos discípulos, enviou-os a “batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (“ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado” – Mt 28,19). O momento do batismo ficou a ser, para os que seguidores a Jesus, o momento da opção pela proposta de Jesus, pela “vida no Espírito”. É possível que tenhamos sido batizados quando ainda não tínhamos consciência das coisas e que, mais tarde, não tenhamos tido vontade ou oportunidade de “validar” essa opção inicial; é possível, também, que as nossas opções de vida nos tenham levado por caminhos diferentes e que hoje, de forma consciente nos sintamos afastados desse “vida no Espírito” de que fala Paulo… Nós, os que fomos batizados e que estamos contentes com essa opção, temos procurado viver de forma coerente a nossa vocação batismal e caminhamos “no Espírito”? Nós os que fomos batizados mas depois nos desleixamos e deixamos de dar importância ao seguimento de Jesus, não gostaríamos de renovar o nosso compromisso batismal, de retomar o nosso contacto com Jesus e de viver de forma coerente com a opção que fizemos quando fomos batizados? Nós os que desistimos de Jesus e optamos conscientemente por outros caminhos, não estaríamos interessados em redescobrir a beleza de “viver no Espírito”, de procurar um sentido e uma realização mais completa da nossa vida?
  • O apóstolo Paulo assegura aos cristãos de Roma que quem escolheu identificar-se com Cristo – isto é, viver na obediência aos planos do Pai e no dom da vida em favor dos irmãos – está destinado a encontrar uma vida nova e plena, uma “vida eterna”. Aquilo que aconteceu com Cristo aponta exatamente nesse sentido. Ele recusou o egoísmo e a autossuficiência e escolheu cumprir o plano do Pai até às últimas consequências; Ele amou os seus irmãos até ao extremo e quis dar a própria vida para derrotar a injustiça, a violência, a maldade, a arrogância, a morte. Apesar de ter sofrido o vexame da cruz, na manhã de Páscoa saiu vitorioso do túmulo, foi glorificado e sentou-se à direita do Pai. Jesus mostrou-nos que uma vida vivida “no Espírito” não termina no fracasso e na morte, mas aponta à vida definitiva, à realização plena, à vida eterna. Evidentemente, a nossa vida nesta terra há de ter um fim; mas o Espírito que ressuscitou Jesus far-nos-á viver eternamente como filhos de Deus. Acreditamos nisto? A certeza dessa vida nova que nos espera dá-nos ânimo para, ao longo do caminho que percorremos na terra, fazermos escolhas segundo o Espírito?

 

ACLAMAÇÃO ANTES DO EVANGELHO – João 11, 25a.26

Escolher um dos refrães:

Refrão 1: Louvor e glória a Vós, Jesus Cristo, Senhor.

Refrão 2: Glória a Vós, Jesus Cristo, Sabedoria do Pai.

Refrão 3: Glória a Vós, Jesus Cristo, Palavra do Pai.

Refrão 4: Glória a Vós, Senhor, Filho do Deus vivo.

Refrão 5: Louvor a Vós, Jesus Cristo, Rei da eterna glória.

Refrão 6: Grandes e admiráveis são as vossas obras, Senhor.

Refrão 7: A salvação, a glória e o poder a Jesus Cristo, Nosso Senhor.

 

Eu sou a ressurreição e a vida, diz o Senhor.
Quem acredita em Mim nunca morrerá.

 

EVANGELHO – João 11,1-45

Naquele tempo,
estava doente certo homem, Lázaro de Betânia,
aldeia de Marta e de Maria, sua irmã.
Maria era aquela que tinha ungido o Senhor com perfume
e Lhe tinha enxugado os pés com os cabelos.
Era seu irmão Lázaro que estava doente.
As irmãs mandaram então dizer a Jesus:
«Senhor, o teu amigo está doente».
Ouvindo isto, Jesus disse:
«Essa doença não é mortal, mas é para a glória de Deus,
para que por ela seja glorificado o Filho do homem».
Jesus era amigo de Marta, de sua irmã e de Lázaro.
Entretanto, depois de ouvir dizer que ele estava doente,
ficou ainda dois dias no local onde Se encontrava.
Depois disse aos discípulos:
«Vamos de novo para a Judeia».
Os discípulos disseram-Lhe:
«Mestre, ainda há pouco os judeus procuravam apedrejar-Te
e voltas para lá?»
Jesus respondeu:
«Não são doze as horas do dia?
Se alguém andar de dia, não tropeça,
porque vê a luz deste mundo.
Mas se andar de noite, tropeça,
porque não tem luz consigo».
Dito isto, acrescentou:
«O nosso amigo Lázaro dorme, mas Eu vou despertá-lo».
Disseram então os discípulos:
«Senhor, se dorme, está salvo».
Jesus referia-se à morte de Lázaro,
mas eles entenderam que falava do sono natural.
Disse-lhes então Jesus abertamente:
«Lázaro morreu;
por vossa causa, alegro-Me de não ter estado lá,
para que acrediteis.
Mas, vamos ter com ele».
Tomé, chamado Dídimo, disse aos companheiros:
«Vamos nós também, para morrermos com Ele».
Ao chegar, Jesus encontrou o amigo sepultado havia quatro dias.
Betânia distava de Jerusalém cerca de três quilómetros.
Muitos judeus tinham ido visitar Marta e Maria,
para lhes apresentar condolências pela morte do irmão.
Quando ouviu dizer que Jesus estava a chegar,
Marta saiu ao seu encontro,
enquanto Maria ficou sentada em casa.
Marta disse a Jesus:
«Senhor, se tivesses estado aqui,
meu irmão não teria morrido.
Mas sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus,
Deus To concederá».
Disse-lhe Jesus: «Teu irmão ressuscitará».
Marta respondeu:
«Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição, no último dia».
Disse-lhe Jesus:
«Eu sou a ressurreição e a vida.
Quem acredita em Mim,
ainda que tenha morrido, viverá;
E todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá.
Acreditas nisto?»
Disse-Lhe Marta:
«Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus,
que havia de vir ao mundo».
Dito isto, retirou-se e foi chamar Maria,
a quem disse em segredo:
«O Mestre está ali e manda-te chamar».
Logo que ouviu isto, Maria levantou-se e foi ter com Jesus.
Jesus ainda não tinha chegado à aldeia,
mas estava no lugar em que Marta viera ao seu encontro.
Então os judeus que estavam com Maria em casa
para lhe apresentar condolências,
ao verem-na levantar-se e sair rapidamente,
seguiram-na, pensando que se dirigia ao túmulo para chorar.
Quando chegou aonde estava Jesus,
Maria, logo que O viu, caiu-Lhe aos pés e disse-Lhe:
«Senhor, se tivesses estado aqui,
meu irmão não teria morrido».
Jesus, ao vê-la chorar,
e vendo chorar também os judeus que vinham com ela,
comoveu-Se profundamente e perturbou-Se.
Depois perguntou: «Onde o pusestes?»
Responderam-Lhe: «Vem ver, Senhor».
E Jesus chorou.
Diziam então os judeus:
«Vede como era seu amigo».
Mas alguns deles observaram:
«Então Ele, que abriu os olhos ao cego,
não podia também ter feito que este homem não morresse?»
Entretanto, Jesus, intimamente comovido, chegou ao túmulo.
Era uma gruta, com uma pedra posta à entrada.
Disse Jesus: «Tirai a pedra».
Respondeu Marta, irmã do morto:
«Já cheira mal, Senhor, pois morreu há quatro dias».
Disse Jesus:
«Eu não te disse que, se acreditasses,
verias a glória de Deus?»
Tiraram então a pedra.
Jesus, levantando os olhos ao Céu, disse:
«Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido.
Eu bem sei que sempre Me ouves,
mas falei assim por causa da multidão que nos cerca,
para acreditarem que Tu Me enviaste».
Dito isto, bradou com voz forte:
«Lázaro, sai para fora».
O morto saiu, de mãos e pés enfaixados com ligaduras
e o rosto envolvido num sudário.
Disse-lhes Jesus:
«Desligai-o e deixai-o ir».
Então muitos judeus, que tinham ido visitar Maria,
ao verem o que Jesus fizera, acreditaram n’Ele.

 

CONTEXTO

O Quarto Evangelho, escrito por volta do ano 100, é um belo ponto de chegada da reflexão cristológica feita ao longo do séc. I. Na sua génese estará, certamente, o testemunho do apóstolo João; mas o livro conserva a reflexão que a comunidade joânica (provavelmente a comunidade cristã de Éfeso) desenvolveu sobre Jesus a partir do testemunho deixado pelo apóstolo.

O livro é de uma grande riqueza e não é fácil definir a sua estrutura. Mas diversos estudiosos do Quarto Evangelho fazem questão de dividi-lo em duas partes: o “Livro dos Sinais” (cf. Jo 4,1-11,54) e o “Livro da Hora” (cf. Jo 11,55-19,42). No “Livro dos Sinais” são-nos apresentadas diversas “catequeses” – recorrendo a “sinais” como a água (cf. Jo 4,1-5,47), o pão (cf. Jo 6,1-71), a luz (cf. Jo 7,1-9,41), o pastor (cf. Jo 10,1-42), a vida que vence a morte (cf. Jo 11,1-56) – que mostram como o Messias, agindo de acordo com o projeto de Deus, faz nascer um Homem Novo, um Homem que vive segundo Deus. No “livro da Hora”, o Messias encaminha-se para a cruz e, oferece a própria vida por amor. Com a sua entrega, Ele mostra aos homens como devem viver e como devem amar. Os que aprendem com Jesus a lição do amor e se dispõem a viver como Ele viveu, formarão a nova comunidade, a Igreja de Jesus, vivificada pela água (batismo) e pelo sangue (eucaristia) que brotam do coração de Cristo.

A narrativa da ressurreição de Lázaro integra o “Livro dos Sinais”. É a quinta “catequese” que esse “livro” nos oferece. Trata-se de uma narração única, que não tem paralelo nos outros três Evangelhos. Propõe Jesus como aquele que é capaz de dar aos que a Ele aderem uma vida que supera a morte.

A cena situa-nos em Betânia, uma aldeia situada no lado oriental do monte das Oliveiras, a cerca de 2.700 metros de Jerusalém. Atualmente a localidade tem o nome de El-Azariyeh, nome derivado de Lázaro. Quem a visita pode descer, ainda hoje, os vinte e quatro degraus que conduzem a um espaço onde a tradição situa o túmulo de Lázaro.

O autor da catequese coloca-nos diante de um episódio – um triste episódio – familiar: a morte de um homem. A família em questão, constituída por três pessoas (Marta, Maria e Lázaro), parece conhecida de Jesus: em Jo 11,5 diz-se que Jesus “era amigo” de Marta, de sua irmã (Maria) e de Lázaro. A visita de Jesus a casa desta família é, aliás, mencionada em Lc 10,38-42; e João tem o cuidado de observar que a Maria, aqui referenciada, é a mesma que tinha ungido o Senhor com perfume e lhe tinha enxugado os pés com os cabelos (cf. Jo 11,2, cf. Jo 12,1-8).

 

MENSAGEM

O “sinal” realizado – a “reanimação” de Lázaro, o amigo de Jesus que a morte tinha levado – é descrito de forma muito breve, em apenas dois versículos (cf. Jo 11,43-44). Mas o relato prolonga-se ao longo de quarenta e cinco versículos. Apresenta numerosos diálogos, achegas, comentários, explicações… O autor do Quarto Evangelho, com a competência que todos lhe reconhecem, propõe à sua comunidade mais uma catequese sobre Jesus. O tema dessa catequese é formulado pelo próprio Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá” (Jo 11,25-26).

Comecemos por olhar para família que protagoniza esta história. Trata-se de uma família com algumas caraterísticas que importa sublinhar.

Notemos, antes de mais, que não há referência, por parte do narrador, a outros membros da família, para além de Maria, Marta e Lázaro: não há pai, nem mãe, nem filhos. Além disso, João insiste no grau de parentesco que une os três: são “irmãos” (vers. 1.2b.3.5.19.21.23.28.32.39). A palavra “irmão” (“adelfós”) será a palavra usada por Jesus, após a ressurreição, para definir a comunidade dos discípulos (cf. Jo 20,17); e esta denominação será comum entre os membros da comunidade cristã primitiva para se designarem entre si (Jo 21,23). Reparemos, por outro lado, como é descrita a relação entre Jesus e esta família de irmãos: trata-se de uma família amiga de Jesus, que Jesus conhece e que conhece Jesus, que ama Jesus e que é amada por Jesus, que recebe Jesus em sua casa. A família de Lázaro é uma boa imagem da comunidade cristã.

Um facto abala a vida desta família: um dos irmãos (Lázaro) está gravemente doente (cf. Jo 11,1). As irmãs de Lázaro mostram o seu interesse, preocupação e solidariedade para com o “irmão” doente e informam Jesus (cf. Jo 11,3). Aquela família acredita que Jesus pode “dar vida” àquele “irmão” fragilizado pela doença.

No entanto, apesar do afeto e da amizade que sente pelo seu amigo Lázaro, Jesus não vai imediatamente ao seu encontro; mas parece, até, atrasar-se deliberadamente (cf. Jo 11,4-6). Jesus, sem se inquietar, deixa que a doença de Lázaro siga o seu percurso normal e que a morte física do amigo se concretize. Quererá o narrador dizer-nos que Jesus tinha outras preocupações mais importantes do que a vida do seu amigo Lázaro? Não. Provavelmente o autor do Quarto Evangelho está a querer dizer-nos, desta forma, que Jesus não veio para alterar o ciclo normal da vida física do homem, libertando-o da morte biológica; veio, sim, para dar um novo sentido à morte física e para oferecer ao homem a vida eterna.

Depois de dois dias, Jesus resolve dirigir-se à Judeia ao encontro do amigo Lázaro (cf. Jo 11,7). Os discípulos não estão tranquilos com a decisão e lembram a Jesus que a Judeia é um lugar perigoso, pois é lá que estão aqueles – os líderes religiosos judaicos – que pretendem silenciá-l’O (cf. Jo 11,8). É verdade. Mas Jesus não pretende fugir às suas responsabilidades: o plano do Pai é que Ele dê vida ao homem enfermo, mesmo que para isso corra riscos. A sua preocupação única é realizar o plano do Pai no sentido de dar vida ao homem (cf. Jo 11,9-10). Jesus não pode abandonar o “amigo”: Ele é o pastor que desafia o perigo por amor dos seus.

Ao chegar a Betânia, Jesus encontra o amigo Lázaro sepultado há já quatro dias (cf. Jo 11,17). De acordo com a mentalidade judaica, a morte era considerada definitiva a partir do terceiro dia. Quando Jesus chega, Lázaro está, pois, verdadeiramente morto. Jesus, em conversa com os discípulos, admite-o; mas fala da morte que atingiu Lázaro como de um “sono”. O autor do Quarto Evangelho está, assim a sugerir que Jesus não elimina a morte física; mas, para aqueles que são amigos de Jesus, a morte física não é mais do que um sono, do qual se acorda para descobrir a vida definitiva (cf. Jo 11,11-15).

Por esta altura, entram em cena as “irmãs” de Lázaro. Marta é a primeira. Vem ao encontro de Jesus e insinua uma vaga crítica, misturada com um pedido: Jesus podia ter evitado a morte do seu amigo, se tivesse vindo imediatamente, pois onde Ele está reina a vida; no entanto, ela acredita que, mesmo agora, Jesus poderá interceder junto de Deus: de certeza que Deus O ouvirá e devolverá a vida física a Lázaro (cf. Jo 11,20-22). Marta acredita em Deus; acredita que Jesus é um profeta através de quem Deus atua no mundo; mas ainda não tem consciência de que Jesus é a vida e que Ele próprio dá a vida.

Jesus vai agora expor a Marta (e, através dela, a todos os “irmãos” que a cada momento se encontram com a morte física de alguém a quem amam) a sua catequese sobre a vida que Ele tem para oferecer. Começa por dizer a Marta: “teu irmão ressuscitará” (Jo 11,23). Marta pensa que as palavras de Jesus são uma consolação banal e que Ele se refere simplesmente à crença farisaica, segundo a qual os mortos haveriam de reviver, no final dos tempos, quando se registasse a última intervenção de Deus na história humana. Isso ela já sabe (cf. Jo 11,24); mas isso não lhe basta: esse último dia ainda está tão longe!

Jesus, no entanto, não está a falar de uma “revivificação”, no final dos tempos, conforme as crenças farisaicas. O que Ele diz é que, para quem é Seu amigo, adere a Ele e caminha com Ele, não há morte, sequer. Jesus é “a ressurreição e a vida” (Jo 11,25-26a). Para os seus amigos, a morte física é apenas “um sono”, a passagem desta vida para a vida plena. Jesus não evita a morte física; mas Ele oferece ao homem essa vida que se prolonga para sempre. Para que essa vida definitiva possa chegar ao homem é necessário, no entanto, que o homem adira a Jesus e O siga, num caminho de amor e de dom da vida (“todo aquele que vive e acredita em mim, nunca morrerá”). A comunidade de Jesus (a comunidade dos que aderiram a Ele e ao seu projeto) é a comunidade daqueles que já possuem a vida definitiva. Eles passarão pela morte física; mas essa morte será apenas uma passagem para a verdadeira vida. E é essa vida verdadeira que Jesus quer oferecer.

Confrontada com esta garantia de Jesus (“acreditas nisto?” – Jo 11,26b), Marta manifesta a sua adesão plena ao que Ele afirma e professa a sua fé no Senhor que dá a vida (“acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo” – Jo 11,27).

Maria, a outra irmã, tinha ficado em casa. Está imobilizada, paralisada pela dor sem esperança. Marta – que falara com Jesus e encontrara n’Ele a resposta para a situação que a fazia sofrer – convida a irmã a sair da sua dor e a ir, por sua vez, ao encontro de Jesus (cf. Jo 11,28). Maria vai rapidamente, sem dar explicações a ninguém: ela tem consciência de que só em Jesus encontrará uma solução para o sofrimento que lhe enche o coração (cf. Jo 11,29-31).

Também nas palavras de Maria há uma reprovação a Jesus pelo facto de Ele não ter estado presente, impedindo a morte física de Lázaro (cf. Jo 11,32). Jesus não pronuncia qualquer palavra de consolo, nem exorta à resignação (como é costume fazer nestes casos): vai fazer melhor do que isso e vai mostrar que Ele é, efetivamente, a ressurreição e a vida (cf. Jo 11,33-34).

A cena da ressurreição de Lázaro começa com Jesus a chorar (cf. Jo 11,35). Não é pranto ruidoso, mas sereno… Jesus mostra, dessa forma, o seu afeto por Lázaro, a sua saudade do amigo ausente. Ele – como nós – sente a dor, diante da morte física de uma pessoa amada; mas a sua dor não é desespero.

Depois, Jesus chega junto do sepulcro de Lázaro (cf. Jo 11,38). A entrada da gruta onde Lázaro está sepultado está fechada com uma pedra, como era costume, entre os judeus. A pedra é, aqui, símbolo da definitividade da morte. Separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos, cortando qualquer relação entre um e outro.

Jesus, no entanto, manda tirar essa “pedra”: para os crentes, não se trata de duas realidades sem qualquer relação. Jesus, ao oferecer a vida plena, abate as barreiras criadas pela morte física. A morte física não afasta definitivamente o homem da vida.

A ação de dar vida a Lázaro representa, para Jesus, a concretização da missão que o Pai Lhe confiou: dar vida plena e definitiva ao homem. É por isso que Jesus, antes de mandar Lázaro sair do sepulcro, ergue os olhos ao céu e dá graças ao Pai (cf. Jo 11,41b-42): a sua oração demonstra a sua comunhão com o Pai e a sua obediência na concretização do plano do Pai. Depois, Jesus mostra Lázaro vivo na morte, provando à comunidade dos crentes que a morte física não interrompe a vida plena do discípulo que ama Jesus e O segue.

Aquela família de Betânia que a catequese joânica nos traz nesta narração representa a comunidade cristã, formada por irmãos e irmãs. Todos eles conhecem Jesus, são amigos de Jesus, acolhem Jesus na sua casa e na sua vida, têm-n’O como a sua grande referência. Essa família também faz a experiência da morte física. Como é que deve lidar com ela? Com o desespero de quem está convencido de que tudo acabou? Com a tristeza de quem acha que a morte venceu, por algum tempo, até que Deus “revivifique” o “irmão” morto, no final dos tempos (como acreditavam os fariseus da época de Jesus)?

Não. Ser “amigo” de Jesus é saber que Ele é a ressurreição e a vida e que dá aos seus a vida plena, em todos os momentos. Ele não evita a morte física; mas a morte física é, para os que aderiram a Jesus, apenas a passagem (imediata) para a vida verdadeira e definitiva. Para os “amigos” de Jesus – para aqueles que acolhem a sua proposta e fazem da sua vida uma entrega a Deus e um dom aos irmãos – não há morte… Podemos chorar a saudade pela partida de um irmão, mas temos de saber que, ao deixar este mundo, esse irmão encontrou a vida plena, na glória de Deus.

 

INTERPELAÇÕES

  • Há em cada um de nós um desejo insaciável de vida e, por isso, passamos cada instante a lutar por mais e mais vida. Agarramo-nos à ciência e, sobretudo, à medicina para prolongarmos a nossa vida biológica tanto quanto possível. Contudo, apesar de todas as possibilidades que a ciência nos oferece para vencer as dores e enfermidades, deparamo-nos a cada instante com a nossa finitude, os nossos limites, o “tempo curto” da nossa caminhada aqui na terra. Sentimo-nos impotentes diante de uma realidade – a morte – que não podemos controlar e que parece pôr um ponto final nos nossos melhores sonhos, anseios, desejos, projetos e realizações. Porque é que não podemos prolongar para sempre a nossa vida? Porque é que temos de, a certa altura, deixar aqueles que mais amamos? Que vai ser de nós quando se esgotar o nosso tempo aqui na terra? O que podemos fazer diante da realidade da morte? Muitos recusam-se a pensar nestas questões e limitam-se a aproveitar cada instante da existência o melhor possível, sem terem em conta qualquer horizonte futuro. Mas podemos, simplesmente, viver cada dia sem assumirmos uma atitude consciente e responsável sobre o nosso fim último, a realidade que nos espera depois da nossa peregrinação pela terra? Como equacionamos estas questões? Como nos situamos face a elas?
  • O autor do Quarto Evangelho oferece-nos hoje uma catequese sobre a temática da morte e da vida. A partir dos acontecimentos que enlutaram uma família amiga de Jesus (a morte de um homem chamado Lázaro, um dos membros dessa família), o nosso catequista diz-nos que a nossa vida nesta terra terá um fim e que isso é inevitável. Trata-se de algo que resulta da nossa finitude, dos nossos limites, da nossa debilidade, da nossa condição de criaturas. Mas a incontornável morte biológica não será o nosso fim, a última palavra de Deus sobre nós. Aquilo a que chamamos “morte” será uma espécie de “sono” do qual acordaremos nos braços amorosos do nosso Pai do céu. O crente não sabe mais do que os outros homens, nem tem uns óculos especiais para ver aquilo que os outros homens não conseguem ver; mas o crente aproxima-se da morte física com uma confiança radical na bondade, na misericórdia e no amor de Deus… Portanto, o crente acredita que a morte física não é destruição e aniquilação, mas sim a passagem para Deus, para a vida definitiva. Jesus, depois de dialogar com Marta, irmã de Lázaro, sobre esse horizonte de eternidade, perguntava-lhe: “acreditas nisto?” E nós, acreditamos nisto?
  • O “catequista” que nos conta a história de Lázaro, está convicto do poder salvador de Jesus. A sua certeza de que Jesus é fonte de vida é tão grande que, a certa altura, põe na boca de Jesus as seguintes palavras: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá”. O que é “acreditar” em Jesus? É aderir a Ele, escutar e acolher as suas palavras, viver ao seu estilo, assumir os seus valores, segui-l’O no caminho do amor, do serviço, do dom da própria vida. Ora, foi precisamente essa a opção que fizemos no dia do nosso batismo: “acreditar” em Jesus; e, ao fazê-lo, escolhemos essa vida plena e definitiva que Jesus oferece aos seus e que lhes garante a vida eterna. Já agora: temos vivido de forma coerente com essa opção? Vivemos conscientes de que a fidelidade a Jesus é fonte de vida eterna?
  • O adeus definitivo a uma pessoa que nos é querida e que a morte nos arrebata mergulha-nos sempre numa dor sem remédio. Porque temos de perder aqueles que amamos e que enchem as nossas vidas de luz? A ausência, a saudade, deixam-nos um enorme vazio, um vazio que não conseguimos preencher senão com lágrimas. É mesmo assim: essas lágrimas são o preço do amor. O próprio Jesus, diante da “partida” do seu amigo Lázaro, chorou. A nossa relação com aquela pessoa que amávamos estará definitivamente terminada? O adeus que lhe dissemos será um adeus até nunca mais? Jesus, depois de chorar pelo seu amigo Lázaro, chegou ao sepulcro onde Lázaro estava e mandou tirar aquela pedra que separava o mundo dos mortos do mundo dos vivos. Queria, talvez, dizer que essa separação não tinha sentido. Avisaram-no de que Lázaro estava morto há quatro dias e que “já cheirava mal”. Jesus limita-se a gritar: “Lázaro, sai para fora”. E, à voz de Jesus, Lázaro sai para fora para mostrar a todos que está vivo. Tem os pés e as mãos “enfaixados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário”. Traz consigo os sinais e as ligaduras da morte. No entanto, sai do sepulcro pelo seu próprio pé. Lázaro, sepultado há quatro dias, está vivo. O que é que o nosso “catequista” quer dizer com isto? Simplesmente que os nossos queridos mortos, aqueles de quem nos despedimos e abandonamos num sepulcro, estão vivos! Deus não os abandonou. Conscientes disso, retiremos a “pedra” que nos afasta dos que já partiram. Não os perdemos. Eles estão vivos. De junto de Deus, eles continuam a acompanhar-nos e a amar-nos. Isso não será, para nós, motivo de consolação e de esperança?
  • Estamos a percorrer o “caminho quaresmal”, o caminho que nos leva em direção à Páscoa, à vida nova, à Ressurreição. É uma boa oportunidade para redescobrirmos o compromisso que assumimos no dia do nosso batismo e para redirecionarmos o sentido da nossa existência. Talvez as nossas mãos, os nossos pés, o nosso coração, estejam enfaixados por ligaduras que nos prendem na morte e que nos impedem de sair dos túmulos sujos em que nos deixamos encerrar pelo nosso egoísmo, pelo nosso comodismo, pelo nosso orgulho, pela nossa ambição, pela nossa autossuficiência… Talvez necessitemos de prestar atenção à voz de Jesus que nos chama (“Lázaro, sai para fora”) e que nos convida a começar uma vida nova, uma vida gloriosa e cheia de sentido. Quais são as “ataduras” que nos mantêm agarrados a uma vida de sombras e de escravidões? Nesta Páscoa, estamos dispostos a ressuscitar com Jesus e a passar com Ele da morte para a vida?

 

ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 5.º DOMINGO DA QUARESMA

(adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.

Ao longo dos dias da semana anterior ao 5.º Domingo da Quaresma, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. INCLINAÇÃO NO MOMENTO PENITENCIAL.

Neste domingo sob o signo da Ressurreição e da Vida, eis uma sugestão para renovar o rito penitencial. Depois de uma breve introdução, o presidente da assembleia, virado para a cruz, inclina-se profundamente, assim como toda a assembleia. Permanecer assim durante algum tempo, em profundo silêncio… Seguem-se algumas invocações penitenciais que podem ter como resposta: “Senhor, dai-nos a Vida!”

3. RENOVAR A PROFISSÃO DE FÉ.

Habitualmente, dizemos o Credo com um ar demasiado rotineiro e repetitivo… Como transmitir-lhe mais alegria e entusiasmo interior? Uma brevíssima introdução pode motivar a uma maior atenção à recitação do Credo. Pode-se ainda proclamar o Símbolo dos Apóstolos (dando o texto antecipadamente, pois não é sabido de cor). Pode-se também proclamar a fórmula do credo batismal (dialogada)…

4. BILHETE DE EVANGELHO.

A vida é esperança. Estão vivos aqueles que esperam. Depois do momento do nosso nascimento, em que fomos criados, somos habitados pela esperança. Não cessamos de procurar, esperar, desejar. Procuramos os sinais de Deus? Esperamos a sua vinda? Desejamos a sua presença? Neste tempo da Quaresma, somos convidados à conversão. A esperança opera uma mudança nos nossos comportamentos. Não nos contentemos com esperanças que nos podem dececionar. Nós vivemos de esperança, porque Deus não pode dececionar-nos. Porque o nosso Deus é um Deus que fala, somos chamados por Ele. A esperança faz-nos escutar os seus apelos e responder-lhes. Sejamos vivos. Sê-lo-emos se nós esperamos.

5. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.

Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

No final da primeira leitura:
Deus, nosso Pai, nós Te bendizemos, porque és o Deus da Vida. Tu o mostraste, libertando o teu povo, desde o tempo de Isaac, de Moisés e do exílio.

Nós Te pedimos pelo teu novo Povo: levanta as comunidades cristãs de todas as formas de morte, divisões, indiferenças, tédio, isolamento do mundo. Venha sobre nós o teu Espírito de Vida.

 

No final da segunda leitura:
Pai de Jesus Cristo, nós Te damos graças porque o teu Espírito habita em nós e pelo teu Batismo nos incorporaste ao teu Filho.

Nós Te pedimos: vê as nossas fraquezas. Abrimos as nossas mãos para Ti, para Te pedir o teu Espírito: que Ele dê vida aos nossos corpos mortais, que Ele nos justifique com a justiça que está em Ti.

 

No final do Evangelho:
Senhor Jesus, proclamamos a tua glória, porque em Ti irradia a luz da vida e da ressurreição: associaste-te aos nossos lutos, chamas os teus amigos a sair dos seus túmulos, Tu arranca-los ao sono da morte.

Nós Te pedimos: desperta em nós a fé. Tu que libertaste Lázaro das ligaduras, liberta-nos dos laços que nos paralisam diante do próximo.

6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.

Pode-se escolher a Oração Eucarística IV.

7. PALAVRA PARA O CAMINHO.

O passo da confiança… A que “empresa” estamos nós sujeitos? À do Espírito de Cristo ressuscitado? Ou à da carne, isto é, aquela de todas as contingências humanas que esgotam o nosso tempo e a nossa energia? Ousaremos dar o passo da confiança? Ousaremos entregar-nos a este Espírito que habita em nós para nos comprometermos na sua plenitude de Vida? A quem pertencemos nós?

 

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA
Grupo Dinamizador:
José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
www.dehonianos.org

 

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