02º Domingo da Páscoa - Ano A [atualizado]
12 de Abril, 2026
ANO A
2.º Domingo da Páscoa
Domingo da Divina Misericórdia
Tema do 2.º Domingo da Páscoa
Foi o Papa João Paulo II que, no ano 2000, consagrou o segundo domingo do tempo pascal como o domingo da Divina Misericórdia. A liturgia deste domingo convida-nos a contemplar a comunidade de homens novos que nasce da cruz e da ressurreição de Jesus – a Igreja. Jesus ressuscitado, no próprio dia da ressurreição, confia à sua comunidade a missão de dar testemunho no mundo do amor e da misericórdia de Deus.
O Evangelho apresenta a comunidade da Nova Aliança, nascida da atividade criadora e vivificadora de Jesus. É uma comunidade que se reúne à volta de Jesus ressuscitado, que recebe d’Ele Vida, que é animada pelo Seu Espírito e que dá testemunho no mundo da Vida nova de Deus. Quem quiser “ver” e “tocar” Jesus ressuscitado, deve procurá-l’O no meio dessa comunidade que d’Ele nasceu e que d’Ele vive.
A primeira leitura é uma “fotografia retocada” da primitiva comunidade cristã de Jerusalém. Lucas, o autor dos Atos dos Apóstolos, imprime nela os traços da comunidade ideal: é uma comunidade unida e fraterna, onde os bens são partilhados e onde cada um está atento às necessidades dos outros irmãos; é, também, uma comunidade empenhada em escutar a Boa Notícia de Jesus, em reunir-se para a “fração do pão” e para a oração comunitária. O estilo de vida desta “família” é contagiante e faz com que muitos outros homens e mulheres sintam vontade de integrar a Igreja de Jesus.
Na segunda leitura um “catequista” dos finais do séc. I lembra a todos os batizados em Cristo a sua condição de homens novos, felizes beneficiários da misericórdia de Deus. Cristo, o vencedor da morte, salvou-os e abriu-lhes as portas da vida definitiva. Certos da vida nova que os espera, os cristãos devem encarar a sua caminhada pela terra com uma “esperança viva”, com uma “alegria inefável e gloriosa”, com um otimismo contagiante.
LEITURA I – Atos dos Apóstolos 2,42-47
Os irmãos eram assíduos ao ensino dos Apóstolos,
à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações.
Perante os inumeráveis prodígios e milagres
realizados pelos Apóstolos,
toda a gente se enchia de terror.
Todos os que haviam abraçado a fé
viviam unidos e tinham tudo em comum.
Vendiam propriedades e bens
e distribuíam o dinheiro por todos,
conforme as necessidades de cada um.
Todos os dias frequentavam o templo,
como se tivessem uma só alma,
e partiam o pão em suas casas;
tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração,
louvando a Deus e gozando da simpatia de todo o povo.
E o Senhor aumentava todos os dias
o número dos que deviam salvar se.
CONTEXTO
O livro dos “Atos dos Apóstolos” constitui a segunda parte da obra de Lucas. Depois de ter apresentado, na primeira parte (o “Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas”), “o tempo de Jesus”, Lucas completa a sua obra apresentando “o tempo da Igreja”: é o “tempo” em que a proposta de salvação de Deus é levada ao encontro do mundo pela comunidade de Jesus (a “Igreja”), animada e conduzida pelo Espírito Santo.
Podemos dividir o livro dos Atos dos Apóstolos em três partes. Na primeira (cf. At 1,12-6,7), Lucas apresenta-nos a Igreja de Jerusalém, nascida de Jesus e do testemunho que os seus discípulos deram sobre Ele logo após a sua morte e ressurreição. Na segunda (cf. At 6,8-12,25), Lucas descreve a expansão da Igreja de Jesus fora de Jerusalém, nomeadamente na Samaria, em Damasco, na faixa costeira palestina e em Antioquia. Na terceira (cf. At 13,1-28,31), Lucas conta-nos as viagens missionárias de Paulo, o seu esforço em levar a Boa Nova de Jesus ao mundo greco-romano, e a chegada de Paulo a Roma, o coração do Império. No entanto, a preocupação de Lucas, ao escrever-nos estas páginas, não é fazer-nos conhecer a “história” da Igreja dos primeiros anos, mas sim apresentar-nos as grandes coordenadas teológicas da missão dos discípulos de Jesus. Essas coordenadas devem ser assumidas e concretizadas pelos discípulos de todos os tempos e lugares.
O texto que a liturgia deste segundo domingo do tempo pascal nos propõe como primeira leitura, pertence à primeira parte do livro dos Atos. Nela Lucas expõe materiais dispersos (histórias, discursos, reflexões, gestos interpelantes, ações de Deus, orações) que dão conta de momentos significativos da Igreja de Jerusalém… Mas, a certa altura intercala na narrativa três “sumários” (cf. At 2,42-47; 4,32-25; 5,12-16) com informações gerais sobre a comunidade e a forma como ela vive o seu compromisso cristão. Esses “sumários” são uma espécie de “fotos” que nos permitem, com um simples olhar, “contemplar” a “comunidade ideal”, a comunidade que os crentes de todas as épocas devem ter como referência. O primeiro desses sumário – o que nos é exposto pela primeira leitura deste domingo – é dedicado ao tema da unidade e ao impacto que o estilo cristão de vida provocou no povo da cidade.
Naturalmente, este sumário não será um retrato histórico rigoroso da comunidade cristã de Jerusalém, no início da década de 30 (embora possa ter algumas bases históricas). Quando Lucas escreve este relato (no final da década de 80 do primeiro século), arrefeceu já o entusiasmo inicial dos cristãos: Jesus nunca mais veio para instaurar definitivamente o “Reino de Deus” e posicionam-se no horizonte próximo as primeiras grandes perseguições… Há algum desleixo, falta de entusiasmo, monotonia, divisão e confusão (até porque começam a aparecer falsos mestres, com doutrinas estranhas e pouco cristãs). Neste contexto, Lucas recorda o essencial da experiência cristã e traça o quadro daquilo que a comunidade deve ser.
MENSAGEM
Como será, então, essa comunidade ideal, que nasce do Espírito e do testemunho dos apóstolos?
É uma comunidade que consolida a sua experiência de vida à volta de quatro pilares fundamentais: 1) o ensino dos apóstolos, 2) a comunhão fraterna, 3) a fração do pão, 4) a oração.
Os apóstolos tinham sido testemunhas oculares da proposta de salvação que Jesus apresentou enquanto andava pelos caminhos da Galileia e da Judeia. Na pregação dessas testemunhas privilegiadas das palavras e dos gestos de Jesus ecoa agora a verdade sobre o Reino de Deus. A comunidade reúne-se à volta dos apóstolos porque quer chegar a Jesus e à Boa Notícia que Ele veio propor. Através do testemunho dos apóstolos quer conhecer a pessoa de Jesus, o seu projeto, os seus valores, o seu estilo de vida, o seu amor até ao extremo, a sua entrega ao Pai e aos homens. A catequese recebida dos apóstolos aproxima de Jesus os membros da comunidade e mostra-lhes como devem viver para se identificarem com Jesus. Construindo a sua fé sobre o testemunho verídico dos apóstolos, os cristãos de Jerusalém estão livres da mentira, das doutrinas falsas, dos falsos profetas que querem afastá-los da verdade do Evangelho.
A comunidade de Jerusalém é também uma comunidade que vive em comunhão fraterna. Os membros da comunidade veem-se como irmãos e irmãs; consideram-se família em Cristo. Todos eles se identificam com Cristo e são membros do mesmo Corpo de Cristo. Essa fraternidade não é algo abstrato, que se fica pelo discurso teórico e doutrinal; mas é uma fraternidade que se sente, se vê e se expressa na realidade da vida, nos gestos concretos de todos os dias. Significava a renúncia a uma vida vivida em registo de egoísmo, de autossuficiência e de fechamento em si próprio. Implicava terem tudo em comum, partilharem os próprios bens com os irmãos, cuidarem dos mais pobres e frágeis (cf. At 2,44-45). É uma comunidade que assume um compromisso verdadeiro com o amor, com a partilha, com o dom da vida. A caridade é a sua marca distintiva.
A comunidade cristã de Jerusalém também era assídua à “fração do pão”. Inicialmente a expressão designava o gesto do chefe de família que, no início da refeição, partia o pão e o distribuía aos convivas. Contudo, na linguagem cristã, a “fração do pão” torna-se uma expressão técnica para designar o memorial da “ceia do Senhor”, a “eucaristia”. Era a celebração que resumia toda a vida do Senhor Jesus, feita doação da vida e entrega até à morte. Acompanhada, em geral, de uma refeição fraterna, ela comportava ainda orações, uma pregação e, talvez, gestos de comunhão e de partilha entre os cristãos. Era um momento de alegria, em que a comunidade celebrava a sua união a Jesus e a comunhão fraterna que daí resultava. Os crentes saíam da “fração do pão” mais identificados a Jesus e sentindo mais fortemente os laços que os uniam aos irmãos com quem tinham partilhado o mesmo pão, o pão dado por Jesus aos seus.
Temos, ainda, as “orações”. Os primeiros cristãos continuaram a frequentar o Templo (“todos os dias frequentavam o Templo” – At 2,46) e a participar da oração da comunidade judaica; no entanto, é bastante provável que, bastante cedo, a comunidade cristã tenha começado a sentir a necessidade de se encontrar para a oração tipicamente cristã, centrada na pessoa de Jesus; e é, talvez, a esta oração comunitária cristã que Lucas se refere. A comunidade de Jesus é, portanto, uma comunidade que se junta para rezar, para louvar o seu Senhor; e a oração comum constituía um momento de comunhão, de aprofundamento dos laços que uniam os membros da comunidade.
Lucas acena, finalmente, ao testemunho que a comunidade cristã dava aos outros habitantes de Jerusalém. Os gestos realizados pelos apóstolos enchiam toda a gente de temor (cf. At 2,43) – quer dizer, infundiam em todos aqueles que os testemunhavam a inegável certeza da presença de Deus e dos seus dinamismos de salvação. Além disso, a piedade, o amor fraterno, a alegria e a simplicidade dos crentes provocavam a admiração e a simpatia de todo o povo. O estilo de vida dos seguidores de Jesus desafiava os habitantes de Jerusalém e fazia com que aumentasse todos os dias o número dos que aderiam à proposta de Jesus e à comunidade da salvação (cf. At 2,47).
A comunidade cristã de Jerusalém era, de facto, esta comunidade ideal? Possivelmente, não (outros textos dos Atos falam-nos de tensões e problemas – como acontece com qualquer comunidade humana); mas a descrição, que Lucas aqui faz, aponta para a meta a que toda a comunidade cristã deve aspirar, confiada na força do Espírito. Trata-se, portanto, de uma descrição da comunidade ideal, que pretende servir de modelo à Igreja e às igrejas de todas as épocas.
INTERPELAÇÕES
• O autor dos Atos dos Apóstolos refere-se à comunidade cristã de Jerusalém como uma comunidade unida e fraterna, uma família de irmãos e de irmãs “tocada” por Jesus, onde há lugar para todos, onde se cuida dos mais frágeis e necessitados, onde se partilham os bens, onde todos vivem “como se tivessem uma só alma”. Parece demasiado belo para ser verdade, não é? Talvez achemos que Lucas, o autor dos Atos dos Apóstolos, está a exagerar um pouco ao propor-nos um ideal tão elevado… Mas uma comunidade nascida de Jesus, que se reúne à volta de Jesus, que escuta Jesus, que segue Jesus, que conhece o estilo de Jesus, não deveria viver assim? Ora, isto representa um desafio para as nossas comunidades cristãs… Como são e como vivem as comunidades onde a que pertencemos e onde fazemos a nossa experiência de fé? São comunidades onde se sente e respira o amor que Jesus ensinou? São comunidades onde se cuidam das necessidades dos mais pobres e dos mais frágeis? São comunidades onde todos – mesmo aqueles que falharam ou que passaram por experiências traumatizantes – podem fazer uma experiência de misericórdia, de perdão e de acolhimento?
• A comunidade cristã de Jerusalém era também, de acordo com Lucas, uma comunidade assídua “ao ensino dos Apóstolos”. A “fonte” onde a comunidade alimentava a sua fé era a sã doutrina recebida daqueles que acompanharam Jesus desde a Galileia a Jerusalém, que ouviram as suas palavras e que viram os seus gestos. Não era uma comunidade onde cada um acreditava naquilo que lhe apetecia ou vogava ao sabor dos palpites de qualquer “mestre” interessado em impor aos outros as suas teses ou a sua particular visão da fé. Era uma comunidade interessada em procurar a verdade de Deus. As nossas comunidades cristãs são comunidades que se constroem à volta da Palavra de Deus, que escutam, que partilham e que se guiam pela Palavra de Deus? O nosso caminho de fé assenta na fé da Igreja, ou constrói-se à volta das nossas teorias mais ou menos rebuscadas, das nossas convicções pessoais, das nossas “visões” particulares, das nossas manias e preconceitos? Procuramos descobrir as propostas de Deus num diálogo comunitário e numa partilha sincera com os irmãos, ou achamos que sabemos tudo, que somos os únicos depositários da verdade e que os outros não têm nada a propor-nos?
• A comunidade cristã de Jerusalém era, ainda, uma comunidade que celebrava liturgicamente a sua fé e que, correspondendo ao convite que Jesus tinha deixado aos discípulos na ”última ceia”, se reunia à volta da mesa eucarística para a “fração do pão”. Era uma comunidade que fazia questão de celebrar o memorial da vida, da morte e da ressurreição do Senhor. Era uma comunidade peregrina, que ao longo do caminho encontrava momentos para parar, para se juntar à volta de Jesus, para escutar a Palavra de Jesus e para se alimentar com o Pão de Jesus. Era uma comunidade que, na fração do pão, aprofundava os laços que a uniam a Jesus e fortalecia a comunhão comunitária. Era uma comunidade que saía da celebração comunitária da fé mais fortalecida, mais consciente da vida que unia todos os seus membros, mais adulta e com mais força para ser testemunha da salvação. Era uma comunidade que vivia da eucaristia. O que é que significa, para nós, a celebração comunitária da fé? A celebração eucarística é um rito aborrecido, a que “assistimos” por obrigação ou por tradição, ou é uma verdadeira experiência de encontro com Jesus e de comunhão com os irmãos que se sentam connosco àquela mesa onde Jesus nos serve a sua Palavra e o seu Pão?
• O autor dos Atos dos Apóstolos insiste numa realidade que o impressiona sobremaneira: os outros habitantes de Jerusalém sentiam-se “tocados” por aquilo que viam acontecer naquela jovem comunidade nascida de Jesus: os gestos extraordinários que testemunhavam essa vida que Jesus lhes tinha deixado; o amor que os unia e a maneira como todos os membros da comunidade se davam uns com os outros; a alegria, a simplicidade, a bondade que marcavam a vida daqueles seguidores de Jesus… A forma como aquele grupo vivia era tão fascinante e interpelante que, a cada dia, mais e mais gente queria viver daquela forma e se juntava à comunidade. Agora, olhemos para as nossas comunidades cristãs: que testemunho é que nós damos aos nossos contemporâneos que, de fora, olham para nós? Também os “tocamos” com o nosso estilo de vida? A nossa forma de viver a fé diz aos outros homens e mulheres que caminham ao nosso lado que Jesus está vivo e que continua a dar vida ao mundo? A nossa maneira de viver suscita nos nossos irmãos não crentes a vontade de aderir a Jesus e de fazer parte da comunidade de Jesus?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 117 (118)
Refrão: Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom,
porque é eterna a sua misericórdia.
Diga a casa de Israel:
é eterna a sua misericórdia.
Diga a casa de Aarão:
é eterna a sua misericórdia.
Digam os que temem o Senhor:
é eterna a sua misericórdia.
Empurraram me para cair,
mas o Senhor me amparou.
O Senhor é a minha fortaleza e a minha glória,
foi Ele o meu Salvador.
Gritos de júbilo e de vitória nas tendas dos justos:
a mão do Senhor fez prodígios.
A pedra que os construtores rejeitaram
tornou se pedra angular.
Tudo isto veio do Senhor:
é admirável aos nossos olhos.
Este é o dia que o Senhor fez:
exultemos e cantemos de alegria.
LEITURA II – 1 Pedro 1,3-9
Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo,
que, na sua grande misericórdia, nos fez renascer,
pela ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos,
para uma esperança viva,
para uma herança que não se corrompe,
nem se mancha, nem desaparece,
reservada nos Céus para vós
que pelo poder de Deus sois guardados, mediante a fé,
para a salvação que se vai revelar nos últimos tempos.
Isto vos enche de alegria,
embora vos seja preciso ainda, por pouco tempo,
passar por diversas provações,
para que a prova a que é submetida a vossa fé
– muito mais preciosa que o ouro perecível,
que se prova pelo fogo –
seja digna de louvor, glória e honra,
quando Jesus Cristo Se manifestar.
Sem O terdes visto, vós O amais;
sem O ver ainda, acreditais n’Ele.
E isto é para vós fonte de uma alegria inefável e gloriosa,
porque conseguis o fim da vossa fé,
a salvação das vossas almas.
CONTEXTO
A primeira Carta de Pedro é uma carta dirigida aos cristãos de cinco províncias romanas da Ásia Menor (a carta cita explicitamente a Bitínia, o Ponto, a Galácia, a Ásia e a Capadócia – cf. 1 Pe 1,1). O seu autor apresenta-se com o nome do apóstolo Pedro; no entanto, a análise literária e teológica não confirma que o apóstolo Pedro seja o autor deste texto… Em termos literários, a qualidade literária da carta parece estar bem acima daquilo que seria a maneira de escrever de um pescador pouco instruído, como era o caso de Pedro; em termos teológicos, a “catequese” apresentada parece situar-nos numa época bem posterior à de Pedro, quando a reflexão cristã já tinha conhecido uma significativa evolução. A tudo isto devemos acrescentar um outro dado significativo: o “ambiente” descrito na carta corresponde, claramente, à situação das comunidades cristãs na fase final do séc. I. Ora, se Pedro morreu em Roma durante a perseguição de Nero (por volta do ano 67), não pode ser o autor deste escrito. O autor da carta será, portanto, um cristão anónimo culto – provavelmente um responsável de alguma comunidade – e que conhece profundamente a situação das comunidades cristãs da Ásia Menor. Ele escreve em finais do séc. I (nunca antes dos anos 80), provavelmente a partir de uma comunidade cristã não identificada da Ásia Menor.
Os destinatários desta carta são as comunidades cristãs que vivem em zonas rurais da Ásia Menor. A maioria dos membros dessas comunidades são camponeses pobres, que cultivam as propriedades da gente rica. Também há, nestas comunidades, pequenos proprietários que vivem em aldeias, à margem das grandes cidades. Trata-se, em qualquer caso, de gente que vive no meio rural, economicamente débil, vulnerável à hostilidade que o Império começa a manifestar para com o cristianismo.
O autor da carta conhece as provações que estes cristãos sofrem todos os dias. Exorta-os, no entanto, a manterem-se fiéis à sua fé, apesar das dificuldades. Convida-os a olharem para Cristo, que passou pela experiência da paixão e da cruz, antes de chegar à ressurreição; e exorta-os a manterem a esperança, o amor, a solidariedade, vivendo com alegria, coerência e fidelidade a sua opção cristã.
A segunda leitura que a liturgia deste domingo nos propõe apresenta-nos os primeiros versículos da carta. Trata-se de uma espécie de prólogo teológico-cristocêntrico onde se formulam os temas principais que irão ser desenvolvidos ao longo da carta.
MENSAGEM
O texto apresenta-se na forma de um hino de ação de graças, ao estilo das bênçãos judaicas. Nele, o autor louva a Deus pela sua obra salvadora em favor dos homens. Há quem veja neste hino uma espécie de “credo abreviado” do povo de Deus.
Foi Deus que tomou a iniciativa de oferecer ao homem a salvação. Fê-lo por meio de Jesus Cristo, o Filho que entendeu enviar ao encontro dos homens (cf. 1Pe 1,2). A vitória de Jesus sobre a morte ocupa um lugar central nessa história de salvação que Deus quis escrever para nós (cf. 1Pe 1,3). Os que aderem a Cristo e se identificam com Ele – isto é, os que são batizados – participam da sua ressurreição e renascem para uma vida nova. A vida que os anima é a vida do Ressuscitado. Abre-se para eles um novo horizonte, um horizonte que a fragilidade e a morte não conseguirão manchar. A vida dos batizados em Cristo é marcada “por uma esperança viva, por uma herança que não se corrompe, nem se mancha, nem desaparece” (1Pe 1,3-4). Os que se identificam com Cristo e participam da sua ressurreição estão destinados à vida eterna, à “salvação que se vai revelar nos últimos tempos” (1Pe 1,5). Conscientes de que estão destinados à salvação, os crentes caminham na alegria e na esperança: eles sabem que, aconteça o que acontecer, lhes está reservado o encontro com a vida plena e definitiva. No seu horizonte de vida não há lugar, portanto, para o pessimismo e para o desânimo.
A vida dos batizados é então uma vida sem obstáculos nem crises, uma caminhada triunfal e indolor ao encontro dessa vida definitiva que os espera? Não. O caminho que os homens percorrem na terra será sempre um caminho marcado por numerosas aflições e provações (cf. 1Pe 1,6); e os que optaram por Jesus não estão isentos dessa experiência. Os sofrimentos e as perseguições, no entanto, são uma espécie de “prova”, durante a qual a fé dos crentes é purificada, decantada de interesses mesquinhos, fortalecida; e, nesse processo, o crente vai sendo transformado pela ação do Espírito, até se identificar com Cristo e chegar à vida nova. A título de exemplo, o autor da carta lembra-nos que o próprio ouro tem de ser purificado pelo fogo, antes de aparecer em todo o seu esplendor (cf. 1Pe 1,7).
De qualquer forma, o percurso existencial dos crentes – cumprido simultaneamente na alegria e na dor – é sempre uma caminhada animada pela esperança da salvação definitiva.
O grande apelo que o autor da primeira carta de Pedro nos deixa é este: identifiquemo-nos com Cristo, aquele a quem amamos mesmo sem o termos visto; acreditemos n’Ele e sigamo-l’O incondicionalmente, mesmo que as suas indicações nos levem em direção à cruz. Do lado de lá da cruz está a vida nova à nossa espera. Assim chegaremos à salvação (cf. 1Pe 1,9) e daremos sentido pleno às nossas vidas.
INTERPELAÇÕES
• O autor da primeira Carta de Pedro coloca a ressurreição de Cristo no centro do projeto salvador de Deus e no centro do nosso caminho de fé. Lembra-nos, a nós que fomos batizados em Cristo, que com Ele renascemos para uma vida nova e eterna. O egoísmo, a maldade, a violência, a injustiça, a morte, já não determinam o sentido último da nossa vida. Cristo, pela sua ressurreição, derrotou tudo isso. Identificados com Cristo, caminhamos na esperança, ao encontro de Deus. A nossa fragilidade, as nossas limitações, as nossas opções duvidosas não põem um ponto final no caminho da nossa plena realização. Deus espera-nos de braços abertos para nos oferecer a vida plena e eterna. É uma mensagem sublime, que encaixa perfeitamente neste longo “dia de Páscoa” que continuamos a celebrar. Estamos conscientes das implicações e do alcance de tudo isto? A certeza da vida gloriosa que nos espera alimenta a nossa caminhada pela terra com uma “esperança viva”, com uma “alegria inefável e gloriosa”, com um otimismo contagiante? Procuramos viver de forma coerente com os compromissos que assumimos no dia do nosso batismo, o dia em que morremos para o pecado e nascemos para a vida nova?
• Os destinatários da primeira Carta de Pedro faziam o seu caminho de fé em condições difíceis. A hostilidade do Império em relação aos seguidores de Cristo fazia prever, a breve prazo, um ambiente de perseguição e de martírio. Sim, a nossa peregrinação pela terra está marcada por infinitas provações. Porque é que, de uma forma ou de outra, o sofrimento aparece sempre na nossa vida? Porque é que temos de enfrentar tantas crises e dificuldades? Qualquer resposta que possamos dar a estas questões será sempre parcial e insatisfatória. O sofrimento – sobretudo o sofrimento dos justos – continua a ser, para nós, um mistério insondável. No entanto, o autor da Carta propõe-nos um raciocínio que não é destituído de sentido: o sofrimento pode ser uma forma de purificação; ajuda-nos, muitas vezes, a crescer, a amadurecer, a despirmo-nos de orgulhos e autossuficiências, a confiar mais em Deus… Qual é a nossa experiência em relação a isto? Acreditamos que o sofrimento pode ser um caminho purificador? Acreditamos que o sofrimento nos transforma e nos pode ajudar a ressuscitar para uma vida nova?
ALELUIA – João 20,29
Aleluia. Aleluia.
Disse o Senhor a Tomé:
«Porque Me viste, acreditaste;
felizes os que acreditam sem terem visto».
EVANGELHO – João 20,19-31
Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou Se no meio deles e disse lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser lhes ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».
Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo,
não estava com eles quando veio Jesus.
Disseram lhe os outros discípulos:
«Vimos o Senhor».
Mas ele respondeu lhes:
«Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos,
se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado,
não acreditarei».
Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa
e Tomé com eles.
Veio Jesus, estando as portas fechadas,
apresentou Se no meio deles e disse:
«A paz esteja convosco».
Depois disse a Tomé:
«Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos;
aproxima a tua mão e mete a no meu lado;
e não sejas incrédulo, mas crente».
Tomé respondeu Lhe:
«Meu Senhor e meu Deus!»
Disse lhe Jesus:
«Porque Me viste acreditaste:
felizes os que acreditam sem terem visto».
Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos,
que não estão escritos neste livro.
Estes, porém, foram escritos
para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus,
e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.
CONTEXTO
Jesus foi crucificado na manhã de uma sexta-feira – dia da “preparação” da Páscoa – e morreu pelas três horas da tarde desse dia. Já depois de morto, um soldado trespassou-lhe o coração com uma lança; e do coração aberto de Jesus saiu sangue e água (cf. Jo 19,31-37). O evangelista João vê no sangue que sai do lado aberto de Jesus o sinal do seu amor dado até ao extremo (cf. Jo 13,1): do amor do pastor que dá a vida pelas suas ovelhas (cf. Jo 10,11), do amor do amigo que dá a vida pelos seus amigos (cf. Jo 15,13); e vê na água que sai do coração trespassado de Jesus o sinal do Espírito (cf. Jo 3,5), desse Espírito que Jesus “entregou” aos seus e que é fonte de Vida nova. Da água e do sangue, do batismo e da eucaristia, nascerá a nova comunidade, a comunidade da Nova Aliança. Contudo, os discípulos que tinham subido com Jesus a Jerusalém e que seriam o embrião dessa comunidade da Nova Aliança, desapareceram sem deixar rasto. Estão escondidos, algures na cidade de Jerusalém, paralisados pelo medo. O projeto de Jesus falhou?
No final da tarde dessa sexta-feira, o corpo morto de Jesus foi sepultado à pressa num túmulo novo, situado num horto ao lado do lugar onde se tinha dado a crucificação (cf. Jo 19,38-42). Depois veio o sábado, o último dia da semana, o dia da celebração da Páscoa judaica. Durante todo aquele sábado o túmulo de Jesus continuou cerrado.
A partir daqui a narração de João muda de tempo e de registo. Chegamos ao “primeiro dia da semana”. É o primeiro dia de um tempo novo, o tempo da humanidade nova, nascida da ação criadora e vivificadora de Jesus. “No primeiro dia da semana”, Maria Madalena, a mulher que representa a nova comunidade, vai ao túmulo e vem de lá confusa e desorientada porque o túmulo está vazio (cf. Jo 20,1-2). Logo depois, ainda “no primeiro dia da semana”, Pedro e outro discípulo correm ao túmulo e constatam aquilo que Maria Madalena tinha afirmado: Jesus já não está encerrado no domínio da morte (cf. Jo 20,3-10). A comunidade de Jesus começa a despertar do seu letargo; começa a viver um tempo novo. “Ao entardecer do primeiro dia da semana” (“ou seja, ao concluir-se este primeiro dia da nova criação) a comunidade dos discípulos faz a experiência do encontro com Jesus, vivo e ressuscitado (cf. Jo 20,19-29).
MENSAGEM
O texto do Evangelho que a liturgia deste segundo domingo do tempo pascal nos propõe divide-se em duas partes.
Na primeira (vers. 19-23), narra-se um encontro de Jesus ressuscitado com os discípulos. João começa por descrever a situação em que estavam os discípulos antes de Jesus lhes aparecer: o “anoitecer”, as “portas fechadas”, o “medo”, traduzem a insegurança e o desamparo que eles sentem diante desse mundo hostil que condenou Jesus à morte.
Mas de repente o próprio Jesus apresenta-se “no meio deles” (vers. 19b). O crucificado está vivo; a morte não o derrotou. Os discípulos já não estão órfãos, abandonados à hostilidade do mundo. Ao colocar-se “no meio deles”, Jesus ressuscitado assume-Se como ponto de referência, fator de unidade, fonte de Vida, videira à volta da qual se enxertam os ramos (cf. Jo 15,5). A comunidade está centrada em Jesus, apenas em Jesus. Ele é o centro onde todos vão beber a água que dá a Vida eterna.
A esta comunidade que se reúne à sua volta, Jesus transmite duplamente a paz (vers. 19 e 21). Não é apenas o tradicional cumprimento hebraico (“shalom”); significa, para além disso, que Jesus venceu tudo aquilo que assustava os discípulos: a morte, a opressão, a mentira, a violência, a hostilidade do mundo. Doravante os discípulos de Jesus não têm qualquer razão para viverem paralisados pelo medo.
Depois (vers. 20a), Jesus mostra aos discípulos as mãos com a marca dos pregos e o lado que foi trespassado pela lança do soldado. Nesses “sinais” está, antes de mais, a prova da sua vitória sobre a morte e a maldade dos homens; mas também está a marca da sua entrega até à morte por obediência ao Pai e por amor aos homens. Neles está impressa, por assim dizer, a “identidade” de Jesus: é nesses sinais de amor e de doação que a comunidade reconhece Jesus vivo e presente no seu meio. A permanência desses “sinais” indica a permanência do amor de Jesus: Ele será sempre o Messias que ama e do qual brotarão a água e o sangue que constituem e alimentam a comunidade.
A esta “apresentação” de Jesus, os discípulos respondem com a alegria (vers. 20b): eles estão alegres porque Jesus está vivo; mas também estão alegres porque sabem que começou um tempo novo, o tempo em que a morte já não assusta, o tempo do Homem Novo, do Homem livre, do Homem que se encontrou com a Vida definitiva.
Em seguida, Jesus convoca os discípulos para a missão (vers. 21). Que missão? Precisamente a mesma que o Pai Lhe confiou a Ele: realizar no mundo a obra de Deus. Os discípulos concretizarão esta missão sempre em ligação com Jesus (eles são ramos ligados à videira/Jesus, pois só assim darão fruto – cf. Jo 15,1-8).
Para que os discípulos possam concretizar a missão, Jesus realiza um gesto inesperado, mas bem significativo: “soprou” sobre eles (vers. 22). O verbo aqui utilizado é o mesmo do texto grego de Gn 2,7 (quando se diz que Deus soprou sobre o homem de argila, infundindo-lhe a vida de Deus). Com o “sopro” de Gn 2,7, o homem tornou-se um ser vivente; com este “sopro”, Jesus transmite aos discípulos a Vida nova, o Espírito Santo, que fará deles Homens Novos e que os capacitará para viverem como testemunhas de Jesus ressuscitado. Trata-se, em boa verdade, de uma nova Criação. Da atividade de Jesus, do seu testemunho, do seu amor, do seu dom nasceu uma nova humanidade, capaz de amar até ao extremo, de dar a vida, de realizar a obra de Deus. É este Espírito que, pelo tempo fora, constitui e anima a cada instante a comunidade de Jesus.
Eis a comunidade da Nova Aliança, nascida da ação e do amor de Jesus!
Na segunda parte (vers. 24-29), o evangelista João apresenta uma catequese sobre a maneira de os discípulos de Jesus de qualquer época chegarem à fé em Cristo ressuscitado. A história de Tomé, chamado Dídimo (“gémeo”), poderia ser a nossa história. Tomé é o nosso “gémeo”: também nós nem sempre nos contentamos com o testemunho que nos chegou dos primeiros discípulos; também nós gostaríamos de “ver”, de “tocar”, de ter provas palpáveis… Como podemos fazer a experiência de encontro com Jesus ressuscitado?
Jesus ressuscitado apresenta-se aos discípulos “no primeiro dia da semana”, quando a comunidade está reunida. A comunidade dos discípulos é o lugar natural onde se manifesta e irradia o amor de Jesus; é o lugar onde desponta a Vida nova de Jesus. Por isso, é lá que se faz a experiência da presença de Jesus vivo. Mas Tomé “não estava com eles” (vers. 24). Estava fora da comunidade. “Se eu não vir o sinal dos pregos nas suas mãos e não meter o meu dedo nesse sinal dos pregos e a minha mão no seu lado, não acredito” – diz Tomé quando lhe falam do Ressuscitado (vers. 25). Em lugar de integrar-se e participar da mesma experiência que os outros discípulos fizeram em comunidade, pretende obter para si próprio uma demonstração particular de Deus. Tomé representa aqueles que vivem fechados em si próprios (está fora), que não fazem caso do testemunho da comunidade e que, por isso, nem percebem os sinais de Vida nova que nela se manifestam.
Mas, “oito dias depois” (portanto, outra vez no primeiro dia da semana), Tomé já está novamente integrado na comunidade; e é aí que ele se encontra com Jesus ressuscitado, pois é aí que se manifestam os sinais de Vida nova que alimentam a fé no Ressuscitado (vers. 26-27). Esta experiência é tão impactante que, do coração rendido de Tomé, brota uma extraordinária declaração de fé, uma das mais belas de toda a Bíblia: “Meu Senhor e meu Deus!” (vers. 28). Também nós, os “gémeos” de Tomé, os que somos chamados a acreditar sem termos visto nem tocado, poderemos fazer a mesma experiência que Tomé fez: é no encontro com o amor fraterno, com o perdão dos irmãos, com a Palavra proclamada em comunidade, com o pão de Jesus partilhado, que se descobre e se experimenta Jesus ressuscitado. É por isso que a comunidade de Jesus continua a reunir-se “no primeiro dia da semana”, no “dia do Senhor” (o domingo).
INTERPELAÇÕES
• Nos relatos pascais aparece sempre, em pano de fundo, a convicção profunda de que a comunidade dos discípulos nunca estará sozinha, abandonada à sua sorte: Jesus ressuscitado, Aquele que venceu a morte, a injustiça, o egoísmo, o pecado, acompanhá-la-á em cada passo do seu caminho histórico. É verdade que os discípulos de Jesus não vivem num mundo à parte, onde a fragilidade e a debilidade dos humanos não os tocam. Como os outros homens e mulheres, eles experimentam o sofrimento, o desalento, a frustração, o desânimo; têm medo quando o mundo escolhe caminhos de guerra e de violência; sofrem quando são atingidos pela injustiça, pela opressão, pelo ódio do mundo; conhecem a perseguição, a incompreensão e a morte… Mas, apesar de tudo isso, não se deixam vencer pelo pessimismo e pelo desespero pois sabem que Jesus vai “no meio deles”, oferecendo-lhes a sua paz e apontando-lhes o horizonte da Vida definitiva. É com esta certeza que caminhamos e que enfrentamos as tempestades da vida? Os outros homens e mulheres que partilham o caminho connosco descobrem Jesus, vivo e ressuscitado, através do testemunho de esperança que damos?
• O Espírito Santo é o grande dom que Jesus ressuscitado faz à comunidade dos discípulos. É Ele que nos transforma, que nos anima, que faz de nós pessoas novas, que nos capacita para sermos testemunhas e sinais da Vida de Deus; é Ele que nos dá a coragem e a generosidade para continuarmos no mundo a obra de Jesus. No entanto, o Espírito só atua em nós se estivermos disponíveis para o acolher. Ele não se impõe nem desrespeita a nossa liberdade. Estamos disponíveis para acolher o Espírito? O nosso coração está aberto aos desafios que o Espírito constantemente nos lança?
• A comunidade cristã gira em torno de Jesus, é construída à volta de Jesus e é de Jesus que recebe Vida, amor e paz. Sem Jesus, seremos um rebanho de gente assustada, incapaz de enfrentar o mundo e de ter uma atitude construtiva e transformadora; sem Jesus, seremos um grupo de gente que se apoia em leis, que vive de ritos, que defende doutrinas e não a comunidade que vive e testemunha o amor de Deus; sem Jesus, estaremos divididos, mergulhados em conflitos estéreis, e não seremos uma comunidade de irmãos e de irmãs; sem Jesus, cairemos facilmente em caminhos errados e iremos beber a fontes que não matam a nossa sede de Vida… Na nossa comunidade, Cristo é verdadeiramente o centro? É para Ele que tudo tende e é d’Ele que tudo parte? Escutamos as suas palavras, alimentamo-nos d’Ele, vivemos d’Ele, estamos ligados a Ele como os ramos estão ligados à videira?
• Não é em experiências pessoais, íntimas, fechadas, egoístas, que encontramos Jesus ressuscitado; mas encontramo-l’O sempre que nos reunimos em seu nome, em comunidade. É no diálogo comunitário, na Palavra partilhada, no pão repartido, no amor que une os irmãos em comunidade de vida, que fazemos a experiência da presença de Jesus vivo no meio de nós. O que é que a comunidade cristã significa para mim? Sinto-me bem a caminhar em comunidade, ou a minha experiência de fé é uma experiência isolada, à margem da riqueza e dos desafios que a comunidade me oferece? E, neste âmbito, o que é que significa, para mim, a participação na celebração da Eucaristia, no “primeiro dia da semana”, o dia do encontro comunitário à volta da mesa de Jesus?
• É nos gestos de amor, de partilha, de serviço, de encontro, de fraternidade, que encontramos Jesus vivo, a transformar e a renovar o mundo; é com gestos de bondade, de misericórdia, de compaixão, de perdão que testemunhamos diante do mundo a Vida nova do Ressuscitado. Quem procura Cristo ressuscitado, encontra-O em nós? O amor de Jesus – amor total, universal e sem medida – transparece nos nossos gestos e na nossa vida?
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 2.º DOMINGO DE PÁSCOA
(adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 2.º Domingo de Páscoa, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.
2. EM RECORDAÇÃO DO BAPTISMO.
Durante o tempo pascal, é recomendado que se faça o rito penitencial sob a forma de aspersão da água benzida, em recordação do batismo. Durante o tempo pascal, pode-se também valorizar o batistério: flores, iluminação, ícone, etc… e convidar os fiéis a irem aí recolher-se em recordação do dia do seu batismo, em que Deus fez aliança com eles.
3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Deus da Vida, nós Te bendizemos pela ressurreição do teu Filho Jesus, e pela vida nova que comunicaste à comunidade dos Apóstolos, pelo teu Espírito Santo, pela alegria e pela partilha fraterna.
Nós Te pedimos por todas as comunidades cristãs nas paróquias e nas dioceses, nos hospitais e nas prisões, nos conventos e nos desertos.
No final da segunda leitura:
Bendito sejas, Deus e Pai de Jesus Cristo nosso Senhor, a Ti louvor, honra e glória, porque nos fizeste renascer graças à ressurreição de Jesus Cristo e suscitas nos nossos corações uma esperança viva.
Nós Te pedimos por todos os nossos irmãos e irmãs que passam provações. Inspira-nos as palavras que possam suscitar neles coragem e esperança.
No final do Evangelho:
Nós Te damos graças por este primeiro dia da semana, que se renova todos os oito dias depois da Páscoa de Jesus, e pelo Sopro do teu Espírito Santo, que renova as nossas comunidades na Eucaristia.
Que a tua paz esteja sempre connosco. Sopra o teu Espírito, que Ele guie a nossa fé e que nós possamos confessar-Te: Meu Senhor e meu Deus.
4. BILHETE DE EVANGELHO.
Domingo de ternura de Deus que perdoa. Os nossos contemporâneos sofrem ao verem imagens de violência, ao ouvirem palavras de ódio, ao serem testemunhas de ajuste de contas. Têm necessidade que se lhes fale de conciliação e de reconciliação, de ternura e de perdão, de fidelidade e de confiança. Não nos podemos contentar em rezar ao nosso Deus “misericordioso, lento na cólera, cheio de fidelidade e lealdade…” Devemos pedir-lhe para nos tornar parecidos com Ele, porque nos criou à sua imagem e semelhança. É preciso que estejamos também prontos a perdoar, a termos um olhar e uma escuta de bondade sobre os outros, a refrearmos os nossos impulsos de cólera, a sermos fiéis aos nossos compromissos, a sermos leais nas nossas palavras e nos nossos atos.
5. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a oração eucarística I.
6. PALAVRA PARA O CAMINHO.
Concretamente… O Livro dos Atos apresenta-nos este belo projeto de vida da primeira comunidade cristã: escutar o ensino dos Apóstolos, viver em comunhão fraterna, partir o pão, participar nas orações, partilhar com os irmãos em necessidade. E nós? Em que ficamos concretamente? Este projeto continua pleno de atualidade para nós, crentes, hoje!
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA
Grupo Dinamizador:
José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
www.dehonianos.org