Eventos Julho 2024

  • XIII Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    XIII Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    1 de Julho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    XIII Semana - Segunda-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Amós 2, 6-10. 13-16

    6Assim fala o Senhor:«Por causa do triplo e do quádruplo crime de Israel, não revogarei o meu decreto. Porque vendem o justo por dinheiro e o pobre, por um par de sandálias; 7esmagam sobre o pó da terra a cabeça do pobre, desviam os pequenos do caminho certo. Porque o filho e o pai dormem com a mesma jovem, profanando o meu santo nome. 8Porque se estendem ao pé de cada altar sobre as roupas recebidas em penhor, e bebem no templo do seu Deus o vinho dos que foram confiscados. 9Fui Eu que, diante deles, exterminei os amorreus, que eram altos como cedros e fortes como os carvalhos. Destruí-lhes por cima os frutos e por baixo as raízes. 10Eu é que vos tirei da terra do Egipto, e vos conduzi, através do deserto, durante quarenta anos, a fim de vos dar a posse da terra dos amorreus. 13Pois bem! Eis que vos vou esmagar contra o solo como esmaga um carro bem carregado de feno. 14O homem ágil não poderá fugir, o forte em vão recorrerá à sua força, o valente não salvará a sua vida. 15O que maneja o arco não resistirá, nem o homem de pés ligeiros escapará, nem o cavaleiro salvará a sua vida. 16E o mais corajoso entre os valentes fugirá nu, naquele dia.

    Este oráculo foi preparado pelos seis anteriores. A repetição progressiva da expressão «triplo ou quádruplo» criou expectativa e preparou os leitores para a mensagem que hoje escutamos: Javé não um simples Deus nacional de Israel, semelhante a deuses, mas é o Deus de todos os povos, o juiz e senhor da história. Por isso, pede contas a cada um deles. São enumerados sete, o número perfeito, que indica a totalidade dos povos. O monoteísmo dá um passo decisivo. O Deutero-Isaías definirá melhor esta universalidade de Deus.
    A denúncia dos pecados de Israel é seguida pela recordação dos benefícios divinos. Seguem-se as ameaças contra o pecado concretamente apresentado na alteração das relações de justiça e de respeito entre os homens, a substituição das pessoas por coisas, a opressão dos pobres, a perda da dignidade nas relações.
    A violência das ameaças devia levar o povo a voltar-se para Deus. Em vez disso, revolta-se contra o profeta. O castigo torna-se inevitável. Mas, ao menos para nós, o salmo abre uma perspectiva de esperança, pois termina apontando a relação feliz entre Deus, que mostra a salvação, e o homem que honra a Deus, avançando pelo caminho recto.
    Evangelho: Mateus 8, 18-22

    Naquele tempo, 18vendo Jesus em torno de si uma grande multidão, decidiu passar à outra margem. 19Saiu-lhe ao encontro um doutor da Lei, que lhe disse: «Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores.» 20Respondeu-lhe Jesus: «As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.» 21Um dos discípulos disse-lhe: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar o meu pai.» 22Jesus, porém, respondeu-lhe: «Segue-me e deixa os mortos sepultar os seus mortos.»

    Jesus decide «passar à outra margem» (v. 18). Mas, antes de executar a sua decisão, ilustra as exigências requeridas a quem O quer seguir, as exigências da fé. Quem quiser seguir a Cristo, como o escriba, deve saber ao que se compromete, qual o modo de vida que o espera, quem é Aquele a quem escolheu. Sabendo isso, há-de estar disposto a aceitar os sofrimentos, as adversidades e a paixão como passagens obrigatórias. Foi esse o caminho do Senhor e Mestre, Jesus Cristo. A expressão «as raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça» está construída em estilo oriental: depois de duas imagens positivas, vem uma negativa. Alguns exegetas vêem aqui uma alusão ao celibato de Jesus: não tem casa, não tem família. O expressão «Filho do Homem», que aparece pela primeira vez no evangelho, indica a precaridade de Jesus, o seu ser sem casa nem raiz, sem referência nem refúgio. A contraposição entre Jesus e «os mortos» indica a ruptura que «Aquele que vive» veio inserir na experiência dos homens. Aquele que é a Vida, aponta o Caminho: não ter onde reclinar a cabeça, para dormir e para morrer, é condição para que a vida seja restituída à sua verdade.
    Meditatio

    As palavras duras e polémicas de Amós ecoam na vida e nos ensinamentos de Jesus. O Mestre divino usa uma linguagem mais branda e ensina, sobretudo, com o seu exemplo. Mas nem por isso é menos radical.
    A ganância é fonte de muitos males. Paulo reconhece-o, quando escreve: «os que querem enriquecer caem na tentação, na armadilha e em múltiplos desejos insensatos e nocivos que precipitam os homens na ruína e na perdição. Porque a raiz de todos os males é a ganância do dinheiro. Arrastados por ele, muitos se desviaram da fé e se enredaram em muitas aflições» (1 Tm 6, 9-10). Amós denuncia a perversão provocada pela ganância, que faz perder o sentido de justiça e o respeito devido às pessoas, transformadas em meios para alcançar determinados lucros. «Vendem o justo por dinheiro e o pobre, por um par de sandálias», diz Amós (v. 6). A pessoa humana, criada à imagem de Deus, torna-se artigo de troca, é reduzida à escravidão por causa de um lucro miserável. Amós também denuncia o desprezo da mulher, vítima de imoralidade sexual, talvez até por questões de dinheiro e de lucro. Violar uma jovem é culpa grave, porque também Deus é ofendido, e o seu nome profanado.
    Os gananciosos perdem o respeito devido a Deus quando oprimem os outros para acumular riquezas. O culto que eventualmente prestarem a Deus não Lhe será agradável: «Estendem-se ao pé de cada altar sobre as roupas recebidas em penhor, e bebem no templo do seu Deus o vinho dos que foram confiscados», denuncia Amós (v. 8). O profeta alude a refeições sagradas que concluíam certos sacrifícios rituais. Como poderia um tal culto agradar a Deus? Jesus não se deixa impressionar com as ofertas chorudas dos ricos. Apreciava mais a dádiva dos poucos cêntimos da viúva pobre (Mc 12, 41-44), e convidava todos ao desapego do dinheiro. Ele mesmo não tinha «onde reclinar a cabeça» (v. 20). Não tinha casa, não tinha bens próprios, não tinha esposa e filhos, não tinha projectos pessoais. Era verdadeiramente pobre e desapegado de tudo; procurava e fazia a vontade do Pai. E tudo por causa do Reino. Se Amós clama por justiça e rectidão, Jesus, pela sua palavra e pelo seu exemplo, convida à radicalidade do desapego de tudo, mas também à alegria, à pressa, que havemos de ter, em possuir o tesouro, a pérola, que é o Reino, que é Ele mesmo, Cristo (cf. Cst 14). Paulo dá-nos testemunho e exemplo desse desapego radical, para tudo possuir: «Tudo isso, que para mim era lucro, reputei-o perda por Cristo. Na verdade, em tudo isso só vejo dano, comparado com o supremo conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor. Por Ele tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo» (Fl 3, 7-8).
    Oratio

    Senhor, liberta-me da ganância, mas também de todo o apego aos bens deste mundo. Faz-me generoso contigo e com os meus irmãos. Que eu saiba dar e, sobretudo, dar-me, sem nada reservar para mim. Enche-me do teu Espírito para que me torne dom agradável para Ti e dom eficaz para os meus irmãos. Enche-me do teu Espírito para que, como Amós, saiba denunciar a ganância, e as injustiças a que ela conduz. Enche-me do teu Espírito para que, como Tu, viva a pobreza, a castidade e a obediência, por causa do Reino, tornando-me sinal claro do mundo que há-de vir. Amen.
    Contemplatio

    Jesus escolheu a pobreza como sua parte: «Jesus, rico de todos os bens do céu e da terra, fez-se pobre, diz-nos S. Paulo, para nos enriquecer com a sua pobreza» (2Cor 8, 9). Repara a nossa sensualidade. Desde o seu nascimento e toda a sua vida, Jesus quis conhecer o desnudamento. Ele, Filho de Deus e Filho de David, é repelido por todos em Belém, e nasce num estábulo como o mais pobre dos pobres. Durante o exílio no Egipto, ninguém saberia dizer a penúria da Sagrada Família. Viveram sem dúvida de esmolas, e o Filho de Deus ensaiou sem dúvida os seus primeiros passos estendendo a mão à caridade pública. Em Nazaré, o criador do mundo afadiga-se no trabalho para ganhar o pão quotidiano. Os Nazarenos, espantados com a sua sabedoria, exclamam: «Não é este um carpinteiro e o filho de um carpinteiro?». Na sua vida apostólica, percorre vastas províncias a pé, vive de pão de cevada e de peixes secos; para se alimentar a si e aos seus e para ajudar aos pobres nada mais tem do que as esmolas de algumas piedosas mulheres. Assim como viveu no desnudamento, morre despojado de tudo sobre a cruz, e o seu corpo vai repousar num sepulcro emprestado (Leão Dehon, OSP 4, p. 135).
    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra
    «O Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça» (Mt 8, 20).
    | Fernando Fonseca, scj |

  • XIII Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    XIII Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    2 de Julho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    XIII Semana - Terça-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Amos 3, 1-8; 4, 11-12

    1Ouvi esta palavra que o Senhor pronuncia contra vós, filhos de Israel, contra toda a família que fez sair do Egipto: 2«De todas as nações da terra, só a vós conheci.
    Por isso vos castigarei, por todas as vossas iniquidades.» 3Porventura andarão dois homens juntos, sem se terem posto de acordo? 4Porventura rugirá o leão na floresta, sem ter achado uma presa? Gritará o leãozinho no covil, sem ter lançado a garra a alguma coisa? 5Cairá uma ave no laço posto na terra, se o laço não estiver armado? Irá levantar-se a armadilha da terra, antes de ter apanhado alguma coisa? 6Tocar-se-á a trombeta na cidade, sem que o povo se assuste? Acontecerá alguma calamidade numa cidade, sem ser por disposição do Senhor? 7Porque o Senhor Deus nada faz sem revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas. O leão ruge: quem não temerá? O Senhor Deus fala: quem não profetizará? 11Causei no meio de vós uma confusão enorme semelhante à de Sodoma e Gomorra. Ficastes como um tição que se tira do fogo. Mas não voltastes para mim - oráculo do Senhor. 12Portanto, eis como te vou tratar, ó Israel!E como é assim que te vou tratar, prepara-te para comparecer diante do teu Deus, ó Israel!

    Amós foi muito claro em alertar o povo para o perigo em que a sua infidelidade o colocava. Mas a classe erudita dirigente ripostava dizendo que Israel não era um povo como o outro qualquer. Era o povo eleito de Javé, sua propriedade particular, povo chamado a prestar-lhe culto. Estava, portanto, ao abrigo de perigos que pudessem destrui-lo como povo. Se assim não fosse, quem Lhe prestaria culto? Deus só podia protegê-lo.
    Amós opõe-se a esta doutrina. Deus é pai, mas não ´padrinho`, e não é nem pode tornar-se cúmplice dos crimes do seu povo. As sete perguntas retóricas do nosso texto preparam uma clarificação: Deus tem que falar, e o profeta tem que exercer a sua missão. Mas, o que acaba por ficar bem esclarecido, é a relação de aliança entre Deus e o povo de Israel. O povo está subordinado à aliança e não vice-versa: a escolha de Israel por Deus confere ao povo maior responsabilidade. Por isso, o encontro com Deus, para o antigo povo de Deus, mas também para o novo povo de Deus, é simultaneamente maravilhoso e terrível, assustador e apaixonante.

    Evangelho: Mateus 8, 23-27

    Naquele tempo, 23Jesus subiu para o barco e os discípulos seguiram-no. 24Levantou-se, então, no mar, uma tempestade tão violenta, que as ondas cobriam o barco; entretanto, Jesus dormia. 25Aproximando-se dele, os discípulos despertaram-no, dizendo-lhe: «Senhor, salva-nos, que perecemos!» 26Disse-lhes Ele: «Porque temeis, homens de pouca fé?» Então, levantando-se, falou imperiosamente aos ventos e ao mar, e sobreveio uma grande calma. 27Os homens, admirados, diziam: «Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?»

    De modo muito estilizado, Mateus refere o episódio da tempestade acalmada. O propósito de Mateus não é tratar o acontecimento em si, mas indicar o seu significado. A Igreja é uma barca em tormenta, onde está Jesus e os discípulos. «Os discípulos seguiram-no», diz-nos o texto (v. 23). Esta palavra traduz, para Mateus, o aspecto essencial do discipulado: «seguir» Jesus. De facto, o verbo «seguir» é utilizado unicamente quando se trata de Jesus. Indica a união do discípulo com o Jesus da história, a participação na sua vida, a entrada no Reino através da pertença a Cristo pela obediência e pela confiança. Dizer a Jesus: «Desperta, Senhor, porque dormes?» (Sl 44, 24) e «Senhor, salva-nos, que perecemos!», significa reencontrar-se como crentes, como fiéis, como discípulos, e encontrar Jesus como Senhor e Cristo. Na sua presença não há tempestade, não há paixão, não há morte que resistam. A sua auroridade e o seu poder restauram a ordem da graça. Os discípulos nem sempre correspondem com fé e confiança ao senhorio de Jesus. O sono de Jesus representa o drama da morte do Filho do homem, que desafia a Igreja à fé e à serena confiança no Pai como Aquele que «se fez obediente até à morte e morte de cruz» (Fl 2, 8).

    Meditatio

    As perguntas, que se repetem, no livro de Amós, levam idealmente da sabedoria à profecia, da observação atenta da realidade natural à emersão de uma palavra e de uma acção que lhe manifestam o sentido e a verdade. No fim, a profecia torna-se uma necessidade incontornável: «O Senhor Deus fala: quem não profetizará?» (v. 8).
    Amós lembra aos israelitas a situação especial de que gozam diante de Deus: «De todas as nações da terra, só a vós conheci» (v. 2). Mas o profeta também tira consequências dessa situação: «Por isso vos castigarei, por todas as vossas iniquidades» (v. 2). Ser povo de Deus é um privilégio que há-de estimular a correspondência adequada ao dom. Não pode ser pretexto para a injustiça, para fazer o que apetece, julgando-se impunes. Jesus dirá algo que nos ajuda a compreender esta palavra de Amós: «a quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito será pedido» (Lc 12, 48).
    Isto pode parecer-nos contraditório. Um privilégio torna-se desvantagem? Deus, em vez de indulgente e compreensivo com o seu povo, pode mostrar-se intransigente? Na verdade, Deus apresentou-se, desde o princípio, como «um Deus zeloso» (Ex 20, 5; Dt 4, 24; 5, 9), que não admite infidelidades ao povo, que recebeu como esposa, e que pune severamente a «culpa» (Ex 20, 5; Dt 5, 9). Mesmo quando perdoa, não deixa de punir (Ex 34, 7). Mas não há contradição entre severidade e amor. A severidade mostra a autenticidade e a profundidade do amor. Deus faz o seu povo descontar as próprias infidelidades, porque o ama, porque o quer libertar do mal, porque o quer purificar. A severidade divina é provocada pelo amor e em vista do amor. Deus purifica o seu povo para tornar possível uma comunhão mais estreita com ele: «Tu, Senhor, pouco a pouco corriges os que caem, os admoestas e lhes recordas o seu pecado, para que se afastem do mal e creiam em ti, Senhor» (Sab 12, 2). Toda a provação há-de ser acolhida como ocasião para regressar a Deus. Em toda a pena, merecida ou não, em todo o sofrimento, em toda a provação, somos tentados a revoltar-nos, a endurecer o coração, a afastar-nos de Deus. Mas, do sofrimento e da provação, podem surgir graças preciosas. O Senhor convida-nos a aprofundar a nossa relação com Ele.
    Foi o que sucedeu com os Apóstolos, quando Jesus, em plena tempestade, dormia no barco. Deram-se conta da sua fragilidade e gritaram pelo Mestre para que os ajudasse. Jesus acalmou a tempestade falando imperiosamente aos ventos e ao mar. Perante tal facto, os discípulos inte
    rrogaram-se sobre a verdadeira identidade de Jesus: «Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?» (v. 27). E aprofundaram a sua fé e a sua relação com o Senhor.
    O tempo do sofrimento, tanto o das provações morais e espirituais, como o da doença e da velhice, há-de ser vivido como tempo de purificação, como tempo preparatório de mais íntima união com o Senhor, como tempo de «eminente e misteriosa comunhão» na oblação de sofrimento e de amor de Cristo. Pensemos na Agonia, na Paixão e na Morte. E, então, além de purificação, as nossas provações e sofrimentos, serão tempo de disponibilidade pura, de pura oblação.

    Oratio

    Senhor, que soubeste dormir e soubeste morrer, ensina-nos a descobrir na disponibiliade e na obediência amorosa, um caminho de purificação, de liberdade e de união mais íntima contigo. A tua morte foi o segredo da nossa vida. O teu sono, o mistério da nossa vigilância.
    Que o teu Espírito nos torne atentos e sensíveis à profecia que se ergue dos lugares mais insuspeitos da terra, do mar e do céu. De toda a parte, ecoam as notas mais sublimes da tua indefectível solicitude.
    Dá-nos uma palavra firme nas incertezas da vida e um olhar que penetre além das ondas da vida, para que a autoridade do teu Filho se torne presente no Espírito que sempre visita e anima a Igreja. Amen.

    Contemplatio

    «Os pecadores encontrarão no meu coração o Oceano infinito da misericórdia», disse Nosso Senhor. - «Que deveis temer para nele entrardes, acrescenta Margarida Maria, dado que Ele vos convida a irdes lá? Não é Ele o trono da misericórdia onde os miseráveis são mais bem recebidos, desde que o amor os apresente no abismo da sua miséria? - O Pai eterno, por um excesso de misericórdia, fez deste ouro precioso uma moeda inapreciável, marcada pelo cunho da sua divindade, a fim de que os homens pudessem com ela pagar as suas dívidas e negociarem o grande negócio da sua salvação. - Permanecereis no Sagrado Coração como um criminoso que, pela pena e pela dor das suas faltas, deseja apaziguar o seu juiz encerrando-se nesta prisão de amor. - Deu-me a conhecer que o seu Sagrado Coração é o santo dos santos, que quis que fosse conhecido no presente para ser o mediador entre Deus e os homens, porque é todo-poderoso para fazer as suas pazes e para obter misericórdia. - Ele faz-nos entrar nesta fornalha de amor para aí nos purificar, como se purifica no cadinho». Encontramos portanto lá todos os biblioteca para a primeira etapa da perfeição, que é a purificação.
    O Coração de Jesus é, primeiro, um lugar de refúgio e de segurança contra os inimigos da salvação. «É preciso retirar-nos, diz Margarida Maria, para a chaga do Sagrado Coração, como um pobre viajante que procura um porto seguro onde se colocar ao abrigo dos escolhos e das tempestades do mar agitado do mundo, onde estamos expostos a um contínuo naufrágio. - O Coração adorável é um adorável retiro onde vivemos ao abrigo de todas as tormentas (Leão Dehon, OSP 4, p. 334s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Senhor, salva-nos, que perecemos!» (Mt 8, 25).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • S. Tomé, Apóstolo

    S. Tomé, Apóstolo


    3 de Julho, 2024

    O martirológio jeronimiano do século VI coloca no dia 3 de Julho a transladação do corpo de S. Tomé para Edessa, na atual Turquia. Este apóstolo, também chamado Dídimo, é-nos dado a conhecer sobretudo por S. João evangelista. É Tomé que convida os outros apóstolos a acompanharem Jesus para a Judeia, para morrerem com Ele (Jo 11, 16). É a pergunta de Tomé que leva Jesus a definir-se: "

    Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida." (Jo 14, 5s.). Finalmente, Tome, com a sua incredulidade, ajuda-nos a fortalecer a nossa adesão a Jesus, por meio de uma profissão de fé muito clara: "Meu Senhor e meu Deus!" (Jo 20, 24-29).Como escreve S. Gregório Magno, "A incredulidade de Tomé foi mais útil à nossa fé do que a fé dos discípulos crentes". Após o Pentecostes, partiu em missão. Mas não temos dados precisos acerca do seu apostolado.

    Lectio

    Primeira leitura: Efésios 2, 19-22

    Irmãos: Já não sois estrangeiros nem imigrantes, mas sois concidadãos dos santos e membros da casa de Deus, 20edificados sobre o alicerce dos Apóstolos e dos Profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus. 21É nele que toda a construção, bem ajustada, cresce para formar um templo santo, no Senhor. 22É nele que também vós sois integrados na construção, para formardes uma habitação de Deus, pelo Espírito.

    Para Paulo, Cristo é a nossa paz. Por isso, na Igreja, não fazem sentido as divisões, as discriminações, as discórdias. Em Cristo, fomos todos reconciliados e unidos, seja que tenhamos vindo de longe, como os pagãos, seja que tenhamos vindo de mais perto, como os judeus. Já não existem dois povos, mas um só povo. Tudo isto é dom de Deus Pai, por meio de Cristo Senhor, no Espírito Santo. A Igreja é como que um grande edifício, um templo santo, onde habita Deus. Os Apóstolos e os Profetas são fundamento desse edifício onde todos estamos e vivemos como "concidadãos dos santos e membros da casa de Deus" (v. 19), e que tem Cristo como "pedra angular".

    Evangelho: João 20, 24-29

    Naquele tempo, Tomé, um dos Doze, a quem chamavam o Gémeo, não estava com eles quando Jesus veio.25Diziam-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor!» Mas ele respondeu-lhes: «Se eu não vir o sinal dos pregos nas suas mãos e não meter o meu dedo nesse sinal dos pregos e a minha mão no seu peito, não acredito.» 26Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez dentro de casa e Tomé com eles. Estando as portas fechadas, Jesus veio, pôs-se no meio deles e disse: «A paz seja convosco!» 27Depois, disse a Tomé: «Olha as minhas mãos: chega cá o teu dedo! Estende a tua mão e põe-na no meu peito. E não sejas incrédulo, mas fiel.» 28Tomé respondeu-lhe: «Meu Senhor e meu Deus!» 29Disse-lhe Jesus: «Porque me viste, acreditaste. Felizes os que crêem sem terem visto!»

    A incredulidade de Tomé, como referimos na introdução a esta festa, citando S. Gregório Magno, foi "mais útil à nossa fé do que a fé dos discípulos crentes". Aproveitando o episódio, João abre diante de nós uma pista nova para chegarmos à libertadora experiência da fé em Jesus ressuscitado. Na aparição seguinte aos seus discípulos, Jesus convida Tomé a percorrer o caminho de busca, que os seus colegas já tinham feito. Tomé, disponível e dócil à ordem de Jesus, chega a um ato de fé claro e convicto: "Meu Senhor e meu Deus!" (v. 28). A bem-aventurança, que Jesus proclama em seguida, dirige-se a nós que, percorrendo um itinerário de fé, em atitude de completo abandono, chegamos a Jesus morto e ressuscitado.

    Meditatio

    No episódio narrado no evangelho, Tomé não é, certamente, um modelo para nós. Jesus di-lo claramente: "Porque me viste, acreditaste. Felizes os que crêem sem terem visto!" (v. 29). Mas, como já referimos, a sua incredulidade foi útil para nós.
    O que mais impressiona é que Tomé acompanhara Jesus, tal como os outros apóstolos. Conhecia bem o seu rosto e as suas palavras. Mas, agora, para acreditar, quer ver os sinais da Paixão: "Se eu não vir o sinal dos pregos nas suas mãos e não meter o meu dedo nesse sinal dos pregos e a minha mão no seu peito, não acredito." (v. 25). Mas, exatamente nisto, Tomé torna-se modelo para nós, pois sabe discernir o que carateriza Jesus. Depois da Paixão, Jesus é caraterizado pelas suas chagas. Esses sinais do seu amor são suficientes para O reconhecermos. Por isso, as conserva na sua carne gloriosa: "Olha as minhas mãos: chega cá o teu dedo! Estende a tua mão e põe-na no meu peito. E não sejas incrédulo, mas fiel." (v. 27). Tomé, podemos dizê-lo, foi o primeiro devoto do Coração de Jesus. Quis contatar, também fisicamente, com esse Coração trespassado por nosso amor. Quantos cristãos contemplaram o Lado aberto e o Coração trespassado de Jesus. O P. Dehon compara-o ao livro escrito por fora e por dentro, referido no Apocalipse, e que nos fala só de amor.
    A contemplação do Lado aberto e do Coração de Jesus levou Tomé à sua fortíssima expressão de fé: "Meu Senhor e meu Deus!" (v. 28). Que essa mesma contemplação do mais expressivo sinal do amor do nosso Salvador nos leve a uma fé clara, decidida, forte, apostólica.

    Oratio

    Meu Senhor e meu Deus! Quero tirar das vossas chagas a bebida da salvação. Sede condescendente comigo como fostes com S. Tomé. Emprestai-me as vossas mãos e os vossos pés para que aí cole os meus lábios. Tenho tanta necessidade de forças. Ousarei mesmo aproximar-me do vosso Coração para dele tirar o arrependimento e o fervor. Perdoai-me! (Leão Dehon, OSP 3, p. 297).

    Contemplatio

    S. Tomé exprimiu a sua fé: «Meu Senhor e meu Deus!». Meu Senhor, é o Filho do homem, é o Cristo, é o Messias. Meu Deus, é o Filho de Deus, é o Verbo incarnado. A fé é completa e explícita. «Tu és feliz, Tomé, diz-lhe Nosso Senhor, viste e acreditaste; mas mais felizes, isto é, mais meritórios, serão os que acreditarem sem terem visto». Eu devia ser destes, Senhor. Não vi as chagas, mas tenho tantos motivos de fé: o testemunho do Evangelho, a Igreja e as suas graças, os santos, a ação sobrenatural sempre viva na Igreja. E não toquei, por assim dizer, com o dedo a vossa ação e a vossa graça, em mil circunstâncias da minha vida, seja em mim mesmo seja nas almas com as quais estive em contacto? Não seria mais culpado do que Tomé, se não tivesse uma fé viva? E porque é que a minha fé é ainda tão fraca, tão inerte e quase morta? Creio, mas vivo como se não tivesse fé. Quero hoje pedir o milagre da minha conversão às cinco chagas. Contemplo-as em espírito. Aproximo delas os meus lábios. Queria beber nestas fontes de água vivificante de que fala S. João. (Leão Dehon, OSP 3, p. 296s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "Meu Senhor e meu Deus!" (Jo 20, 28).

    ----
    S. Tomé, Apóstolo (03 Julho)

    XIII Semana - Quarta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    XIII Semana - Quarta-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    3 de Julho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    XIII Semana - Quarta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Amós 5, 14-15. 21-24

    14Buscai o bem e não o mal, para que vivais, e o Senhor, Deus do universo, estará convosco, como vós dizeis. 15Detestai o mal, amai o bem, fazei reinar a justiça no tribunal. Talvez, então, o Senhor, Deus do universo, tenha compaixão do resto de José.» 21«Eu detesto e rejeito as vossas festas; e não sinto nenhum gosto nas vossas assembleias. 22Se me ofereceis holocaustos e oblações, não as aceito, nem ponho os meus olhos nos sacrifícios das vossas vítimas gordas. 23Afastai de mim o vozear dos vossos cânticos, não quero ouvir mais a música das vossas harpas. 24Antes, jorre a equidade como uma fonte, e a justiça como torrente que não seca.

    Tal como a eleição e os privilégios estavam sujeitos a condições, nomeadamente à fidelidade à aliança, também agora, o juízo condenatório de Javé, e os inerentes castigos, estão sujeitos à resposta de Israel. Se se obstinar na sua malícia, não poderá fugir ao castigo; mas se buscar o Senhor, viverá (cf. 5, 6). Ora, buscar a Deus é «detestar o mal e amar o bem, restabelecer a justiça no tribunal» (v. 15). Se buscarem a Deus, hão-de viver, porque Deus é o princípio de toda a existência. «Detestar o mal, amar o bem», permite viver na presença do Senhor. Sem justiça, não há culto que agrade a Deus, que o torne presente ao seu povo. O culto sem justiça é um culto sem verdade. É mentira e hipocrisia, que não só não agrada, mas ofende ao Senhor. Os sacrifícios agradam a Deus, quando os que os oferecem respeitam a equidade e a justiça.

    Evangelho: Mateus 8, 28-34

    Naquele tempo, 28quando Jesus chegou à outra margem, à região dos gadarenos, vieram ao seu encontro dois possessos, que habitavam nos sepulcros. Eram tão ferozes que ninguém podia passar por aquele caminho. 29Vendo-o, disseram em alta voz: «Que tens a ver connosco, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo?» 30Ora, andava a pouca distância dali, a pastar, uma grande vara de porcos. 31E os demónios pediram-lhe: «Se nos expulsas, manda-nos para a vara de porcos.» 32Disse-lhes Jesus: «Ide!» Então, eles, saindo, entraram nos porcos, que se despenharam por um precipício, no mar, e morreram nas águas. 33Os guardas fugiram e, indo à cidade, contaram tudo o que se tinha passado com os possessos. 34Toda a cidade saiu ao encontro de Jesus e, vendo-o, rogaram-lhe que se retirasse daquela região.

    Mais uma vez, Mateus retoma uma história do Evangelho de Marcos (Mc 5, 1-20), contando-a de modo mais sintético. Por exemplo, ao falar dos porcos, refere uma grande vara, e não de cerca de dois mil porcos, como diz Marcos (5, 2ss.). Mas também amplia pormenores. Por exemplo, em vez de um possesso, como faz Marcos, fala de dois.
    Fundamentalmente, a cena pretende descrever um encontro de Jesus com os pagãos, dominados pelas forças do mal, como já aconteceu no episódio do centurião (Mt 8, 1-17). Mas, enquanto o centurião acreditou e aceitou Jesus, os habitantes de Gádara não crêem e rejeitam-no.
    A imagem dos «sepulcros», a força de Jesus diante dos demónios e a sua «fraqueza» diante dos homens faz desta cena o claro reflexo de uma meditação sobre a paixão, incluindo a rejeição pelos homens, bem expressa no pedido dos gadarenos para que Jesus se retire da sua cidade. A expressão «antes do tempo» (v. 29) também indica a relação desta cena com a paixão, quando Jesus, ainda que expulso da cidade santa, irá vencer sobre a força negativa da morte, da dispersão da Igreja, abrindo passagem para que fosse possível «passar por aquele caminho» (v. 28). O poder de Jesus só se revela no mistério insondável da cruz.

    Meditatio

    A tendência para separar o culto da vida é bastante espontânea. Facilmente se organizam belas festas, pensando que elas agradam a Deus, enquanto se vive de modo egoísta, procurando obter proveito mesmo à custa dos outros, da verdade e da justiça. Os profetas nunca aceitaram esta separação entre o culto e vida real. Deus exige coerência entre o culto e a vida. Na primeira leitura, Amós denúncia o culto meramente exterior, sem coerência de vida. Proclama Amós, fazendo-se arauto de Deus: «Detesto e rejeito as vossas festas; e não sinto nenhum gosto nas vossas assembleias... Antes, jorre a equidade como uma fonte, e a justiça como torrente que não seca» (vv. 22.24). Isaías e Jeremias vão na mesma linha. O culto que Deus exige de nós é uma vida em consonância com a sua vontade, com a sua justiça, com a sua generosidade. Se assim não for, de nada servem cerimónias pomposas: «Afastai de mim o vozear dos vossos cânticos, não quero ouvir mais a música das vossas harpas» (v. 23). O importante é buscar «o bem e não o mal» (v. 14).
    Também o culto cristão não se pode limitar "a assistir" passivamente à Eucaristia, ou a participar em qualquer outra celebração religiosa. O cristão há-de participar na celebração da Eucaristia acolhendo o dinamismo posto em acção por Jesus na Última Ceia: «Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo» (Jo 13, 1). A Eucaristia encerra um extraordinário dinamismo de amor. Não faz sentido ir à missa sem se deixar envolver por esse dinamismo, sem, como Jesus, nos pormos generosa e humildemente ao serviço dos outros. Celebrar a Eucaristia é pôr-se ao serviço de Deus, para que Ele nos ponha ao serviço dos irmãos. Não se trata de imolar animais, como nos sacrifícios que Amós criticava, mas de se imolar a si mesmo ao serviço de Deus e ao serviço do próximo. «Exorto-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais os vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus. Seja este o vosso verdadeiro culto, o espiritual» (Rm 12, 1).
    Admiramos a fé, a coragem e a extrema coerência de João Paulo II, que fez da sua vida uma eucaristia, um culto espiritual agradável a Deus, e ao serviço da humanidade. Mas também nos espantam tantos cristãos que, fascinados pela Eucaristia, vivem uma completa e sincera doação a Deus, no serviço às missões e aos mais carenciados dos homens. Será possível que esta sua fé, a mentalidade que dela deriva, o estilo de vida em tantas obras ao serviço dos mais pobres e marginalizados dos homens, não tenha influência sobre o desenvolvimento do mundo? Santos apóstolos, missionários, numerosos leigos cooperaram para o progresso de povos inteiros, não só como fundadores de escolas, hospitais, obras sociais, ensinando artes e ofícios, mas também dando Cristo como verdade, como amor, como perdão. É uma civilização do amor, uma civilização eucar&iac
    ute;stica que, centrada na liturgia e realmente vivida, transforma o homem a partir de dentro, "penetrado por aquele sopro de vida que provém de Cristo" (RH, 18).

    Oratio

    Senhor, faz-me compreender e praticar fielmente o culto que de verdade Te agrada. Que jamais eu viva na ilusão de Te satisfazer com gestos exteriores, aos quais não corresponda um verdadeiro compromisso de vida. Que eu saiba acolher o dinamismo de vida e de amor, que brota da Eucaristia, e que, unindo-me estreitamente ao teu Coração, me enche de alegria e me torna generoso com os irmãos. Perdoa se me agitei inutilmente com o rumor dos cânticos, se te expulsei dos meus territórios. Dirige-me, mais uma vez, a tua palavra de verdade. Derrama sobre mim o teu Espírito, que ilumine a minha oração, inspire a minha gratidão e o meu culto, para que viva na justiça e na paz. Amen.

    Contemplatio

    A inocência e a rectidão de coração são muitas vezes louvadas pela Escritura. «Job não teve semelhante, porque era simples e recto: Simplex et rectus (Job 1). Um homem simples segundo o espírito do Evangelho, é um homem que só tem uma opinião, que só quer Deus e que o procura pela via mais direita. A simplicidade, diz Cassiano, é um hábito da alma que a torna incapaz de qualquer duplicidade. Uma alma simples não procura conciliar Deus e o mundo. Procura fazer o que Deus quer, e é tudo. Que importa que os outros a considerem singular! Tobias parecia singular quando evitava o contacto com os idólatras e ia sozinho a Jerusalém prestar as suas homenagens ao verdadeiro Deus (Tob 1,6). Daniel parecia singular quando no meio de uma corte idólatra, se voltava três vezes por dia para o lado da cidade santa para oferecer as suas orações ao Senhor (Dan 6,10). Todavia, fora das coisas de necessidade e de regra, a simplicidade evita o extraordinário na vida exterior. Faz consistir a verdadeira santidade sobretudo nas virtudes interiores: a doçura, a paciência, a mortificação.
    Parece que os maiores santos amaram menos a prudência da serpente do que a simplicidade da pomba. «Não sei, dizia S. Francisco de Sales, o que me fez esta virtude da prudência: tenho dificuldade em amá-la, e se a amo é apenas por força e por necessidade; sim, as pombas parecem-me mais amáveis, e daria cem serpentes por uma pomba». S. Francisco de Sales tinha eminentemente o espírito de infância tão recomendado por Nosso Senhor aos seus apóstolos (Leão Dehon, OSP 3, p. 47s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Jorre a equidade como uma fonte, e a justiça como torrente» (Am 5, 24).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • XIII Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    XIII Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    4 de Julho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    XIII Semana - Quinta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Amós 7, 10-17

    Naqueles dias, 10Amacias, sacerdote de Betel, mandou dizer a Jeroboão, rei de Israel: «Amós conspira contra ti, no meio da casa de Israel. A terra não pode suportar mais os seus oráculos. 11Pois Amós disse o seguinte: 'Jeroboão morrerá pela espada e Israel será deportado para longe da sua terra.'» 12Amacias disse, então, a Amós: «Sai daqui, vidente, foge para a terra de Judá e come lá o teu pão, profetizando. 13Mas não continues a profetizar em Betel, porque aqui é o santuário do rei e o templo do reino.» 14Amós respondeu a Amacias: «Eu não era profeta, nem filho de profeta. Era pastor e cultivava frutos de sicómoros. 15O Senhor pegou em mim, quando eu andava atrás do meu rebanho, e disse-me: 'Vai, e profetiza ao meu povo de Israel'. 16Ouve, pois, agora, a palavra do Senhor: Tu dizes-me: 'Não profetizes contra Israel, nem profiras oráculos contra a casa de Isaac.' 17Por isso, diz o Senhor: 'A tua mulher será desonrada na cidade, os teus filhos e as tuas filhas cairão à espada, e a tua terra será repartida a cordel; tu morrerás numa terra impura, e Israel será levado cativo para longe da sua terra!'»

    A pregação de Amós tinha despertado as consciências adormecidas das classes dirigentes de Israel. Amasias, cansado das denúncias e ameaças do profeta, tenta liquidá-lo apresentando-o ao rei como simples conspirador da casa real e do estabelecimento do povo na terra prometida. Nada diz sobre os verdadeiros fundamentos das ameaças do homem de Deus, isto é, sobre o pecado e a necessidade de conversão. E, sem esperar pela palavra do rei, Amasias dá ordem de expulsão a Amós: «Sai daqui, vidente, foge para a terra de Judá e come lá o teu pão, profetizando» (v. 12). As palavras do sacerdotal de Betel são insultuosas, como se Amós andasse a servir-se da sua missão profética para sobreviver, como outros faziam em Israel. Por isso, responde com o testemunho de uma identidade legitimada e querida por Deus: «Eu não era profeta, nem filho de profeta... O Senhor pegou em mim, quando eu andava atrás do meu rebanho, e disse-me: 'Vai, e profetiza ao meu povo de Israel'» (vv. 14-15). Amós não é, pois, um qualquer ganha-pão profissional. Podia viver folgadamente do seu trabalho. Foi o Senhor que o tirou detrás do seu rebanho e o enviou a profetizar.

    Evangelho: Mateus 9, 1-8

    Naquele tempo, 1Jesus subiu para um barco, atravessou o mar e foi para a sua cidade. 2Apresentaram-lhe um paralítico, deitado num catre. Vendo Jesus a fé deles, disse ao paralítico: «Filho, tem confiança, os teus pecados estão perdoados.» 3Alguns doutores da Lei disseram consigo: «Este homem blasfema.» 4Jesus, conhecendo os seus pensamentos, disse-lhes: «Porque alimentais esses maus pensamentos nos vossos corações? 5Que é mais fácil dizer: 'Os teus pecados te são perdoados', ou: 'Levanta-te e anda'? 6Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem, na terra, poder para perdoar pecados - disse Ele ao paralítico: 'Levanta-te, toma o teu catre e vai para tua casa.» 7E ele, levantando-se, foi para sua casa. 8Ao ver isto, a multidão ficou dominada pelo temor e glorificou a Deus, por ter dado tal poder aos homens.

    A cura do paralítico é-nos contada pelos três Sinópticos. Como em outros casos, também aqui Marcos está por detrás dos relatos de Mateus e de Lucas. Mateus, mais uma vez, estiliza a cena, reduzindo-a ao essencial. A chave para descobrirmos a intenção do evangelista está nas palavras: «Vendo Jesus a fé deles, disse ao paralítico: «Filho, tem confiança, os teus pecados estão perdoados» (v. 2). Jesus tem poder para perdoar os pecados. A cura do paralítico prova-o. Mas Jesus dá outra prova desse poder: sabe o que os escribas estavam a pensar, sem que ninguém lho tivesse dito. Por conseguinte, Jesus tem um poder sobre-humano, sobrenatural, concedido pelo Espírito. E assim se revela a sua dignidade única e se justifica o seu poder único, que Lhe permite perdoar pecados. A multidão compreende e dá glória a Deus «por ter dado tal poder aos homens» (v. 8).
    O poder Jesus para perdoar pecados foi comunicado à Igreja e, dentro da Igreja, aos homens escolhidos por Ele para desempenharem directamente a missão do perdão. O poder de perdoar os pecados é inseparável da pessoa de Jesus e da sua Igreja.

    Meditatio

    Amós anunciava catástrofes terríveis. As suas palavras não eram agradáveis de ouvir. Predizia a ruína de Israel, a morte de Jeroboão, o exílio do povo. Por isso, foi considerado um adversário político da casa de Jeroboão e, por conseguinte, "aconselhado" a ir-se embora. O sacerdote de Betel disse-lhe: «Sai daqui, vidente, foge para a terra de Judá e come lá o teu pão, profetizando. Mas não continues a profetizar em Betel, porque aqui é o santuário do rei e o templo do reino» (vv. 12-13). Ao anunciar os castigos de Deus, o profeta Amós é considerado um homem politicamente perigoso. Por isso, é mandado para o exílio. O mesmo acontece com Jeremias: quando anuncia a queda de Jerusalém, a destruição do templo, é considerado um derrotista, um homem politicamente suspeito, sendo preso e ameaçado de condenação à morte. E assim se calam os profetas, na ilusão de que, uma vez silenciados, não se concretizem as ameaças anunciadas. Mas, quem assim pensa e faz, só acrescenta pecado ao pecado, atraindo um castigo maior. Por isso, a melhor atitude é tomar a sério as palavras dos enviados de Deus, convertendo-se. Foi a atitude do rei e da povoação de Nínive, quando Jonas lá foi pregar: «Os habitantes de Nínive acreditaram em Deus, ordenaram um jejum e vestiram-se de saco, do maior ao menor» (Jn 3, 5). Os ninivitas procuraram remédio eficaz contra os perigos anunciados pelo profeta. Assim, «Deus viu as suas obras, como se convertiam do seu mau caminho, e, arrependendo-se do mal que tinha resolvido fazer-lhes, não lho fez» (Jn 3, 10). Também nós podemos tomar uma das duas atitudes, quando escutamos qualquer aviso da parte de Deus, através de um homem de Deus, de uma leitura ou de um acontecimento. Ignorar a mensagem pode ser uma atitude fácil. Mais fácil ainda pode ser criticar os pastores da Igreja ou os superiores que no-las comunicam. Mas a melhor e mais útil atitude será acolher a graça da conversão. Quando o Senhor nos quer purificar, faz-nos chegar diferentes formas de aviso. Nesses casos, convém tomar a sério o salmo: «Hoje, se escutardes a sua voz, não endureçais os vossos corações» (Sl 95, 7-8). Os avisos de Deus são inspirados pelo seu amor para connosco. Quer que nos convertamos para nos conduzir à vida em plenitude.
    O perdão do pecado, plasticamente realizado na cura do paralítico, significa o poder do Filho do homem na terra, que in
    augura uma nova criatura, um novo povo, novos céus e nova terra. Mas tudo passa pelo acolhimento do convite à conversão: «Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho» (Mc 1, 15).
    Também na vida do religioso há sempre a necessidade da renovada conversão, proposta na catequese apostólica. Os Apóstolos falam de conversão a cristãos que já têm experiência de uma prolongada permanência na Igreja... Pode ser o nosso caso. Há muito que somos cristãos. Há muito que somos consagrados. Mas «primado do amor exige uma conversão permanente» (Cst 95). Jamais estaremos completamente mortos para o «homem velho» e revestidos do «homem novo» (cf. Ef 4, 22-23). Quantas vezes, temos de fazer nossa a súplica que se inspira na oração do velho Tobias: «Converte-me, Senhor, e converter-me-ei a Ti» (cf. Tb 13, 6). Se lermos as sete cartas aos sete bispos das igrejas da Ásia Menor (cf. Apoc 2-3) recolhemos esta preocupação de fundo: acordar o primitivo fervor, porque chegou um período do cansaço, da má doença da habituação; pende sobre nós o risco da tibieza. É o Espírito de Jesus que fala. Há que escutá-lo!

    Oratio

    Senhor Jesus, como é forte e pura a tua palavra: quem pode resistir-lhe? Como é grande o teu amor por nós: quem pode acolhê-lo compreendê-lo totalmente, e corresponder-lhe em plenitude? Pai santo, a tua misericórdia continua a parecer-nos fraqueza e o teu juízo, demasiado duro. Manda-nos o teu Espírito, para que possamos corresponder ao teu amor, dando-lhe o primeiro lugar na nossa vida. Que Ele nos ilumine, para que saibamos acolher a nossa responsabilidade no teu juízo e a nossa fragilidade no teu perdão. Assim poderemos dar-te graças e louvar-te pelas bênçãos com que, permanentemente, nos cumulas. Amen.

    Contemplatio

    O reino de Deus sobre a terra realiza-se pela penitência e pelo perdão dos pecados. - «Fazei penitência, pregava João Baptista, porque o reino dos céus está próximo». - Isaías tinha dito: «Preparai o caminho do Senhor, endireitai diante dele as suas veredas; enchei os vales, abaixai as montanhas, aplanai as vias; então todo o homem verá a salvação que vem de Deus». - Todo o país de Judeia, todos os habitantes de Jerusalém e todas as regiões vizinhas do Jordão, vinham ter com João Baptista, confessando os seus pecados, e baptizava-os no rio.
    Esta pregação e este baptismo preparavam e figuravam o reino da misericórdia, o tempo em que os pecados seriam remetidos facilmente, seja pelo baptismo, seja pela penitência. (Leão Dehon, OSP 4, p. 218).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Filho, tem confiança, os teus pecados estão perdoados» (Mc 9, 2).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • XIII Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    XIII Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    5 de Julho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    XIII Semana - Sexta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Amós 8, 4-6. 9-12

    4Ouvi isto, vós que esmagais o pobre e fazeis perecer os desvalidos da terra, 5dizendo: «Quando passará a Lua-nova, para vendermos o nosso trigo, e o sábado, para abrirmos os nossos celeiros, diminuindo o efá, aumentando o siclo e falseando a balança para defraudar? 6Compraremos os necessitados por dinheiro e o pobre por um par de sandálias, e venderemos até as alimpas do nosso trigo.» 9Naquele dia - oráculo do Senhor meu Deus farei com que o Sol se ponha ao meio-dia,e em pleno dia cobrirei a terra de trevas. 10Converterei as vossas festas em luto e os vossos cânticos em lamentações. Porei o cilício sobre todos os rins, e a navalha sobre todas as cabeças. O luto será como o que se faz por um filho único, e o seu fim, um dia de amargura. 11Eis que vêm dias - oráculo do Senhor Deus em que lançarei fome sobre o país. Não será fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do Senhor. 12Vaguearão de um mar a outro mar, indo à toa desde o Norte até ao Oriente, à procura da palavra do Senhor, e não a encontrarão.

    As denúncias de Amós são tão realistas e objectivas, que mantêm uma enorme actualidade. A ambição dos poderosos é tal que já não suportam os dias de festa e de culto a Deus, esperando ansiosamente que terminem, para continuarem os seus negócios, muitas vezes à custa da exploração dos pobres e fracos, falseando os pesos e as medidas, aumentando os preços. Os abusos atingiam proporções tão desumanas, que os pobres, para sobreviverem, vendiam a própria liberdade e identidade, em que nem o próprio Deus ousa tocar. Amós revela uma espantosa coragem na denúncia do pecado social. Infelizmente, esse pecado continua a reinar nas sociedades do nosso tempo. Mas Deus jura fazer justiça naquele dia tão impreciso como certo (vv. 7-8), que, na literatura profética e apocalíptica, irá adquirindo características escatológicas.

    Evangelho: Mateus 9, 9-13

    Naquele tempo, 9Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: «Segue-me!» E ele levantou-se e seguiu-o. 10Encontrando-se Jesus à mesa em sua casa, numerosos cobradores de impostos e outros pecadores vieram e sentaram-se com Ele e seus discípulos. 11Os fariseus, vendo isto, diziam aos discípulos: «Porque é que o vosso Mestre come com os cobradores de impostos e os pecadores?» 12Jesus ouviu-os e respondeu-lhes: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. 13Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.»

    O autor do primeiro evangelho apresenta-nos uma catequese sobre o pecado e sobre a reconciliação, unificando duas narrativas originariamente diferentes: uma sobre a vocação de Mateus e outra sobre a discussão suscitada pelo comportamento de Jesus, que andava na companhia de pecadores e de publicanos. A vocação de Mateus é apresentada em duas pinceladas que resumem o essencial: Mateus estava sentado à mesa dos impostos, pelo que ficamos a saber que era publicano; e, depois, a sua obediência imediata à palavra de Jesus, que o manda segui-Lo. O centro de interesse do evangelista está na palavra exigente de Jesus: «Segue-me». O chamamento feito por Jesus tem o mesmo tom imperativo, que Javé usara no Antigo Testamento. Por isso, era indiscutível e irrecusável. Mateus responde generosamente com plena liberdade e obediência. A obediência da fé.
    A pergunta dos fariseus aos discípulos traduzia o escândalo e o descrédito que as «más companhias» de Jesus suscitavam nos bem-pensantes. A resposta de Jesus é desconcertante. A partir dela poderíamos raciocinar assim: Já que Deus se preocupa mais com o pecador do que com o justo, sejamos pecadores. Paulo refere que havia quem assim pensasse (cf. Rm 6, 1). Mas Jesus não glorifica o pecado nem o pecador. Apenas o quer libertar, perdoar, e não considerá-lo inimigo, como faziam os teólogos da época. Quer reintegrá-lo na comunidade dos homens e na amizade de Deus.

    Meditatio

    Amós continua a denunciar a ganância dos negociantes e de todos os que são ávidos de dinheiro. Para realizarem «bons» negócios e amontoarem riquezas, não tem respeitam pelo próximo nem por Deus. Esmagam os pobres e fazem perecer os desvalidos da terra (cf. v. 4); esperam ansiosos pelo fim das festas religiosas para levarem por diante os seus intentos gananciosos (cf. v. 5). Não hesitam em ser desonestos para aumentar os lucros (v. 5). Todas estas injustiças bradam ao céu. Por isso, Deus, por meio do profeta, anuncia castigo severo: «Converterei as vossas festas em luto e os vossos cânticos em lamentações» (v. 10). E não será preciso um grande empenhamento de Deus para infligir o castigo. Ao pecar, do modo denunciado pelo profeta, Israel "reduz o tempo" (a Lua-Nova e o Sábado) a um calendário oportunista e pessoal, a simples ocasião para fechar negócios, com lucro imediato. E assim obtém, por si mesmo, o castigo. Perde o sentido do tempo, como amor e misericórdia, que encontraria «comendo com os pecadores», partilhando a necessidade de perdão que abre a porta à salvação e à alegria. É o que nos ensina Jesus quando responde aos fariseus, que se julgam «justos»: «Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores» (v. 13).
    Também nós podemos cair na tentação de nos considerarmos «justos», vendo como pecadores só os outros. Mas, a verdade é que também pertencemos a um mundo onde reina a ganância, fonte de enormes injustiças. O nosso egoísmo contribui para agravar a situação. Arranjamos tempo para o que nos interessa. Mas não o encontramos para ajudar certas pessoas, para visitar doentes, e até para rezar. Assim nos tornamos semelhantes aos negociantes desonestos, cujos actos são verberados por Amós. Também nós corremos o risco do temível castigo anunciado pelo profeta: «Vaguearão... à procura da palavra do Senhor, e não a encontrarão» (v. 12). Todos os outros castigos anunciados por Amós são muito pouco, em comparação com este: procurar a Palavra de Deus e não conseguir encontrá-la. A infidelidade, e a falta de docilidade ao Senhor, podem levar à desolação espiritual. Nesse caso, nada mais nos resta senão a penitência, a procura perseverante da Palavra de Deus, a aceitação da própria desolação como castigo merecido pelos nossos pecados, na esperança de reencontrar o Senhor e de enveredar por uma vida mais fiel aos seus desejos.
    O n. 22 das Constituições, para nos falar da oblação, alma do nosso carisma, começa por reconhecer a nossa condição de pecadores: «implicados no pecado...». Mas logo a seguir, reconhece outra realidade não menos importante: &l
    aquo;mas participantes da graça redentora...». Somos certamente pecadores, sempre carecidos de conversão. Mas, «participantes da graça redentora, queremos... unir-nos a Cristo presente na vida do mundo e, em solidariedade com Ele e com toda a humanidade e a criação inteira, oferecer-nos ao Pai como oblação viva, santa e agradável (cf. Rm 12,1). A nossa «solidariedade com Ele e com toda a humanidade e a criação inteira», não vem de uma consciência errada que nos leve a julgar-nos justos. Vem da consciência certa de que fomos beneficiados pela «graça redentora», e a ela queremos corresponder, cooperando com Cristo na obra da redenção do mundo, para Glória e Alegria de Deus, aceitando a recomendação de Paulo: "Caminhai no amor segundo o exemplo de Cristo que nos amou e Se entregou por nós a Deus, como oferenda e sacrifício de agradável odor" (Ef 5,2).

    Oratio

    «Santo apóstolo Mateus, tenho inveja da graça que tivestes em conhecer Jesus, manso e humilde de coração, e em conversar com Ele. Mas eu tenho o favor de o possuir na Eucaristia e de estar unido a Ele pela graça. Quero aproveitar desta união cada vez melhor, renovando-a um grande número de vezes durante o dia».
    Assim te rezava, Apóstolo S. Mateus, o venerável Pe. Dehon. Hoje, faço minha a sua oração. Ajuda-me a tomar consciência de que Jesus só é meu hóspede porque, Ele mesmo, me recebe como seu hóspede. Só neste mistério de comunhão, que permite ultrapassar o pecado e acolher o dom da salvação, posso evitar que os meus actos de culto se transformem em lamentações, ou em vão cumprimento de certas práticas. Que a Palavra e o sangue de Jesus me tornem pronto para o desígnio que o Pai tem para mim desde toda a eternidade. Amen.

    Contemplatio

    S. Mateus tinha um zelo ardente e uma grande austeridade de vida. Não comia carne. Pregou Jesus Cristo no Egipto, depois na Etiópia, e é a ele que este reino deve a fé. Encontrou lá o eunuco da rainha de Candace, baptizado por S. Filipe. Com a sua ajuda, converteu o povo e a família real. Teve de lutar contra os mágicos que operavam prodígios pelo poder do demónio. Pelo sinal da cruz ressuscitou o filho do rei e este milagre conquistou toda a província ao Evangelho. S. Mateus tinha persuadido a filha do rei, Efigénia, a guardar a virgindade. Quando o rei morreu, o seu irmão Hirtário, que lhe sucedeu, quis desposar Efigénia e pediu a ajuda de S. Mateus para a decidir. O santo, ao contrário, confirmou-a no seu desígnio de guardar a virgindade. O rei, furioso, mandou degolar S. Mateus no momento mesmo em que celebrava os santos mistérios. Foi assim que o apóstolo foi, como disse Santo Hipólito, a hóstia e a vítima da virgindade (Leão Dehon, OSP 4, p. 276s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores» (Mt 9, 13).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • XIII Semana - Sábado - Tempo Comum - Anos Pares

    XIII Semana - Sábado - Tempo Comum - Anos Pares


    6 de Julho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    XIII Semana - Sábado

    Lectio

    Primeira leitura: Amós 9, 11-15

    Eis o que diz o Senhor: «Naquele dia, levantarei a cabana arruinada de David,repararei as suas brechas, restaurarei as suas ruínas, e hei-de reconstruí-la como nos dias antigos, 12para que conquistem o resto de Edom e de todas as nações sobre as quais o meu nome foi invocado - oráculo do Senhor, que cumprirá todas estas coisas.
    13Eis que vêm dias - oráculo do Senhor em que o lavrador seguirá de perto o ceifeiro e o que pisa os cachos, seguirá o semeador. Os montes destilarão mosto; todas as colinas se derreterão. 14Restaurarei o meu povo de Israel. Hão-de reconstruir e habitar as cidades devastadas. Plantarão vinhas e beberão do seu vinho, cultivarão pomares e comerão dos seus frutos. 15Hei-de plantá-los na sua terra, e nunca mais serão arrancados da terra que lhes dei!» - diz o Senhor, teu Deus.

    O Livro de Amós, depois de tantas denúncias e acusações, depois de tão duras e amargas predições, termina com palavras de alento e de esperança. Deus usará graça e misericórdia para com Israel, e há preparar-lhe um futuro de harmonia e de paz. Deus voltará a erguer a esburacada e arruinada tenda de David. A restauração de Israel assume características claramente messiânicas, com imagens do mundo agrícola, da radicação na terra e da permanente residência nela. Comer e beber em paz, na própria terra, é uma imagem do futuro reconciliado de Israel.
    Os exegetas não conseguem determinar se este oráculo esperançoso e messiânico é de Amós ou de algum dos seus discípulos que tivessem conhecimento da ruína de Jerusalém, no ano de 587. Mas basta-nos saber que estamos perante um oráculo profético inspirado que reafirma claramente a graça, a fidelidade e a misericórdia infinita de Deus para com o seu antigo povo, mas também com o seu novo povo, e para cada um de nós.

    Evangelho: Mateus 9, 14-17

    Naquele tempo, foram ter com Ele os discípulos de João, dizendo: «Porque é que nós e os fariseus jejuamos e os teus discípulos não jejuam?» 15Jesus respondeu-lhes: «Porventura podem os convidados para as núpcias estar tristes, enquanto o esposo está com eles? Porém, hão-de vir dias em que lhes será tirado o esposo e, então, hão-de jejuar.» 16«Ninguém põe um remendo de pano novo em roupa velha, porque o remendo puxa parte do tecido e o rasgão torna-se maior. 17Nem se deita vinho novo em odres velhos; de contrário, rompem-se os odres, derrama-se o vinho e estragam-se os odres. Mas deita-se o vinho novo em odres novos; e, desta maneira, ambas as coisas se conservam.»

    Jesus apresenta-se como o Messias esperado. Na linguagem simbólica oriental, as bodas simbolizavam o tempo da salvação. A imagem de Deus-Esposo, e das bodas como tempo da salvação, é recorrente no Antigo Testamento, particularmente em Oseias e em Isaías. O que havia de realmente novo nas palavras de Jesus era que Ele se apresentasse, realizando na sua pessoa, o conteúdo de um símbolo utilizado por Deus para descrever a sua relação de amor com o povo eleito (cf. Os 2, 18-20; Is 54, 5-6). A esperança de que Deus se mostraria a Israel como esposo fiel, como verdadeiro marido, estava realizada em Jesus. O que agora importava era fazer parte dos amigos do noivo para se alegrarem nas suas bodas. O acto de comer já não podia ser conotado com renúncia, sacrifício, luto. Passara o que era velho. Chegara a plenitude dos tempos. Na presença de Jesus, o esposo ressuscitado da Igreja, o jejum, como sinal de luto, não é atitude conveniente. Se o cristão jejua, é para manifestar a sua espera confiante no regresso do Senhor. Aliás, a morte do Ressuscitado é celebrada, não no jejum, mas no comer o pão e beber o vinho, até que Ele volte!
    A novidade introduzida no mundo por Jesus é ainda significada pelas imagens do pano novo e do vinho novo. A sua mensagem só pode ser recebida por um mundo novo, por homens novos, isentos de preconceitos, que se deixem moldar pelo Espírito.
    Passou o que era antigo. Mas isso não queria dizer que tudo o que era antigo não tivesse valor. Por isso, Mateus acrescenta: «Desta maneira, ambas as coisas se conservam» (v. 17).

    Meditatio

    Alegremo-nos com as esplêndidas promessas de Deus ao seu povo. Graças à sua misericórdia e generosidade infinitas, depois do castigo, vem a festa, vem a alegria. O último versículo do livro de Amós promete essa festa, essa alegria definitiva: «Hei-de plantá-los na sua terra, e nunca mais serão arrancados da terra que lhes dei!» (9, 15).
    A restauração de Israel e as núpcias de Cristo com a Igreja ligam-se intimamente com a eucaristia, como contexto em que é proclamada a leitura. A esperança de Israel realiza-se no mistério pascal do Filho de Deus. O jejum, como tensão para o banquete do fim dos tempos, é já totalmente possível, já autorizado, mas apenas como memória da morte do Senhor. O Crucificado ressuscitou, mas o Ressuscitado continua crucificado, com as suas chagas. O espaço para o jejum cristão já não é o da esperança de um evento absolutamente novo: este evento já está dentro da história. O jejum cristão, pelo contrário, tem a ver com a vigilância, a paciência, a reserva histórica, com o «ainda não» daquele «já» que, na cruz de Cristo, se afirmou de uma vez para sempre.
    As nossas Constituições apresentam Cristo Senhor como «Coração da humanidade e do mundo, esperança de salvação para quantos ouvem a sua voz» (n. 19). O n. 20 explica como se realiza a salvação: «Cristo realiza esta salvação, suscitando nos corações, o amor para com o Pai e entre nós: amor que regenera, fonte de crescimento para as pessoas e para as comunidades humanas...». É aquele «já», é aquela «presença activa» (Cst 2) do amor de Cristo que, essencialmente, é uma profunda experiência de vida, é um movimento de amor, que invade o mundo inteiro, o regenera, o faz reflorir, o recapitula. Nestes três verbos, essencialmente positivos, resume-se a realidade da salvação, que é objecto de esperança para todos aqueles que escutam a voz de Cristo, salvação que Cristo realiza pelo Seu amor presente e activo no mundo. Estamos, assim, perante uma teologia da redenção centrada no «movimento do amor redentor» (Cst 21), que tem a sua influência também na concepção da reparação, entendida como «acolhimento do Espírito (sim ao amor)», «como resposta ao amor de Cristo por nós, comunhão no seu amor pelo Pai e cooperação com a sua obra redentora no coração do mundo» (Cst 23).
    Oratio
    Senhor Jesus, ensina-nos o jejum festivo, mostra-nos a alegria no luto, guia-nos para a vida na morte. Deus Pai, na paixão do teu Filho
    , assumiste os nossos sofrimentos; na ressurreição de Jesus, resgataste a nossa morte; conduz cada um dos teus filhos ao encontro de Cristo Esposo, sempre presente na Igreja, templo do Espírito e esposa d´Aquele que é ontem, hoje e sempre. «Vem, Senhor, Jesus!». Amen.

    Contemplatio

    S. Lucas fala-nos das mãos e dos pés de Jesus furados pelos cravos, S. João fala do seu lado aberto pela lança. Estas chagas são os títulos de glória de Jesus. Elas recordam a força e a coragem com as quais superou todos os sofrimentos sem se lamentar. Elas exprimem a sabedoria com a qual escolheu este martírio, para expiar todas as acções das nossas mãos, todas as caminhadas dos nossos pés, todos os pensamentos e todos os afectos dos nossos corações. Manifestam também toda a sua bondade, toda a sua ternura por nós, toda a generosidade com a qual suportou a crucifixão dos escravos para nos resgatar. Dizem, finalmente, todo o seu zelo apostólico que nos prega a santidade das acções e das caminhadas, a pureza das intenções e dos afectos. Os anjos e os santos exaltam estas chagas adoráveis todas as vezes que dizem a glória do Cordeiro imolado. Com Santa Gertrudes, «Eu vos saúdo, Jesus, esposo divino, decorado com as vossas chagas como de outras tantas flores; com as complacências do vosso Pai em vós, com o amor do universo inteiro, abraço-vos e beijo estas feridas que o amor vos fez». Beijarei sobretudo o meu crucifixo neste espírito. (Leão Dehon, OSP 3, p. 388).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Os convidados não podem estar tristes, enquanto o esposo está com eles» (cf. Mt 9, 15).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • XIV Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    XIV Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    8 de Julho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    XIV Semana - Segunda-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Oseias 2. 16. 17b-18. 21-22

    Eis o que diz o Senhor: «É assim que a vou seduzir: ao deserto a conduzirei, para lhe falar ao coração. 17Aí, ela responderá como no tempo da sua juventude, como nos dias em que subiu da terra do Egipto». 18Naquele dia - oráculo do Senhor ela me chamará: «Meu marido» e nunca mais: «Meu Baal.» 21Então, te desposarei para sempre; desposar-te-ei conforme a justiça e o direito, com amor e misericórdia. 22Desposar-te-ei com fidelidade, e tu conhecerás o Senhor.

    Oseias é o único profeta escritor do reino do Norte. Escreve no tempo de Jereboão III (713-743 a. C.), um período próspero para Israel, mas minado pela prostituição do povo a Baal e a Anat, deuses cananeus da sexualidade, da fecundidade e da vegetação. Embora contemporâneo de Amós e de Isaías, profetas originários de Judá, mas que também actuam em Israel, Oseias exerce o seu ministério de um modo próprio. Enquanto os dois profetas do Sul pregam, diríamos, do púlpito, Amós integra-se nas vivências dos seus ouvintes e, a partir delas, transformando os elementos, oferece-lhes um autêntico testemunho de vida, muito mais eloquente do que todos os sermões. Por isso, casa com uma das prostitutas cultuais, que ama extremosamente. Esta mulher dá-lhe dois filhos, cujos nomes são uma mensagem para Israel, mas atraiçoa-o voltando à prostituição num templo de Baal. De coração despedaçado, Oseias é introduzido no significado mais profundo daquele adultério: também Israel é adúltero na relação com Deus. Por mandato divino, o profeta retoma a esposa infiel para manifestar o drama de um Deus de tal modo fiel a Israel, que não hesita em atraí-lo novamente para si, para o renovar num encontro de profunda intimidade.

    Evangelho: Mateus 9, 18-26

    Naquele tempo, estava Jesus a falar aos seus discípulos, quando um chefe se prostrou diante dele e disse: «Minha filha acaba de morrer, mas vem impor-lhe a tua mão e viverá.» 19Jesus, levantando-se, seguiu-o com os discípulos. 20Então, uma mulher, que padecia de uma hemorragia há doze anos, aproximou-se dele por trás e tocou-lhe na orla do manto, 21pois pensava consigo: 'Se eu, ao menos, tocar nas suas vestes, ficarei curada.' 22Jesus voltou-se e, ao vê-la, disse-lhe: «Filha, tem confiança, a tua fé te salvou.» E, naquele mesmo instante, a mulher ficou curada. 23Quando chegou a casa do chefe, vendo os flautistas e a multidão em grande alarido, disse: 24«Retirai-vos, porque a menina não está morta: dorme.» Mas riam-se dele. 25Retirada a multidão, Jesus entrou, tomou a mão da menina e ela ergueu-se. 26A notícia espalhou-se logo por toda aquela terra.

    A ressurreição da filha de Jairo e a cura da mulher que sofria de um fluxo de sangue, dois episódios embutidos na página evangélica, que hoje escutamos, mostram-nos que Jesus tem poder sobre a morte, que é o vencedor da morte, que é a ressurreição e vida. Sendo o Messias, vem trazer o reino de Deus, onde a morte não tem a última palavra. O Reino de Deus é vida. A existência de Jesus é uma parábola em acção: caminha para a morte, para a vencer na ressurreição. A fé em Jesus faz passar da morte à vida.
    Jairo chega a casa de Mateus, onde Jesus fala de núpcias, de pano novo e de vinho novo (cf. 9, 16s.). As palavras do «chefe» da sinagoga (cf. Mc 5, 35; Lc 8, 41) introduzem o lamento pela morte da filha de 12 anos, e a súplica a Jesus para que lhe dê novamente a vida. Jesus levanta-se e vai a caminho da casa da defunta, quando uma mulher, que sofria de hemorragias, lhe toca na borla do manto. A sua fé dizia-lhe que isso bastava para ser curada. Efectivamente, Jesus diz-lhe: «Filha, tem confiança, a tua fé te salvou» (v. 22). Se perder sangue significa risco de morte, a cura da mulher preludia a vitória da Vida, em casa de Jairo: «a menina não está morta: dorme» (v. 24). Jesus é o vencedor da morte. É a Vida. Acreditar n´Ele, dar-Lhe espaço em nós, acolher a sua pessoa, é acolher a Vida, porque Jesus que, por nós experimentou a morte, a tragou pela sua ressurreição (cf. 1 Cor 15, 55). Para o crente, a morte corporal é como um simples sono e, deixar-se «tocar» por Jesus, é certeza de ressurreição. A vida, como caminho para a plenitude das núpcias de amor eterno, confiando em Jesus, tem nesta página uma exemplar interpretação. Viver é caminhar na fé, tocar e deixar-se tocar por Cristo vivo na Palavra, na eucaristia e no próximo.

    Meditatio

    A fidelidade do Senhor é a nossa esperança. Também nós, como os israelitas, podemos deixar-nos seduzir pelos ídolos de morte denunciados por Oseias: o dinheiro, os bens materiais, o culto da imagem, o sexo, o hedonismo e mesmo o subtil domínio do egoísmo que, ainda quando fazemos o bem, nos leva a buscar-nos a nós próprios e aos nossos interesses, mais do que a glória de Deus e o seu Reino. E o nosso coração permanece profundamente insatisfeito e inquieto. É preciso escutá-lo quando grita o vazio que o preenche, e a desolação daquele adultério que consiste em esquecer a Deus no frenesim de um activismo exacerbado, no afã de se prostituir aos ídolos supramencionados. E é preciso deixar-se conduzir novamente, pelo Senhor, ao deserto. A meditação pode abrir-nos os olhos para a idolatria da vida comprometida com as lógicas deste mundo, verdadeiro insulto ao Senhor, mas também progressiva perda da vida, como acontecia com a mulher, antes de tocar na borla do manto de Jesus. Pouco a pouco, perde-se o gosto pela oração, a alegria de fazer o bem, a sensibilidade em fazer-nos próximos dos que precisam da nossa ajuda. Pouco a pouco, apaga-se a vida espiritual. E tornamo-nos mortos ambulantes, mesmo mergulhados no activismo e na aparência de fazer o bem.
    Mas «o Senhor é clemente e cheio de compaixão», como canta o salmo responsorial. Há-de transformar «o vale de Acôr em porta de esperança» (Os 2, 17). Acôr fora o lugar do acto de infidelidade duramente punido por Deus. Mas, graças ao amor eterno do Senhor, tornara-se porta de entrada na terra santa.
    Quando o amor humano se perde, é muito difícil voltar ao tempo do namoro, ao tempo do encanto, quando se pensa que o dom recíproco jamais irá desaparecer. Mas, com Deus, não é assim. Jesus venceu a morte, e vence toda a morte. Tudo pode ser renovado, porque Deus é fiel e o seu amor é eterno: «vou seduzir-te... vou falar-te ao coração... vou desposar-te com fidelidade, e tu conhecerás o Senhor». Estas palavras vêm-nos à mente e ao coração, com mais intensidade, quando desconfiamos de nós mesmos e temos confiança n´Ele, no seu poder purificador, capaz de fazer reflorir o mais belo amor.
    A vida cristã, e particularmente a vida religiosa dehoniana, exige momentos de recolhimento,
    de deserto, para nos renovarmos e crescermos na intimidade com o Senhor. É fundamental darmos espaço a Jesus na nossa vida, mesmo no meio das mais intensas actividades. É o tempo de oração comunitária e pessoal, é o tempo da meditação ou da lectio divina, é o tempo da adoração. São os brevíssimos momentos das jaculatórias, a que recorrem as almas fervorosas, porque ajudam a pessoa, o religioso, a não se deixar absorver a cem por cento pelas ocupações, pelo trabalho, pelo estudo, quando sessenta por cento são suficientes para cumprir com diligência o próprio dever. O espaço que sobra deve pertencer unicamente a Jesus. Então também o trabalho, o estudo, o descanso, serão de Jesus, serão permeados pela Sua presença, pelo Seu amor. Então seremos curados das nossas perdas de vida, como a mulher de que nos fala o evangelho, ou ressuscitados do torpor espiritual em que tivermos caído, pior que o «sono» da filha de Jairo.

    Oratio

    Senhor, quanto me reconheço idólatra e adúltero. Mas Tu falas-me ao coração, com grande amor. Quero escutar-te e voltar ao fervor da minha juventude, ao fervor do meu baptismo, da minha primeira profissão religiosa... Infunde em mim o teu Espírito, para que me deixe seduzir e levar ao deserto interior que, de lugar de horrível vazio e de morte, se torne lugar de intimidade nupcial Contigo. Aumenta a minha fé, a experiência de tocar-te e deixar-me tocar por Ti na oração, na eucaristia, no próximo carente dos meus cuidados. E aquela perda de forças, e aquela sensação de morte, que experimento quando me afasto de Ti, serão vencidas. Amen.

    Contemplatio

    O Coração de Jesus é a fonte da nossa vida sobrenatural. - Jesus comunica-nos a sua vida divina unindo-se a nós pela graça: «Eu sou a vida, diz, e vim para a espalhar nas almas» (Jo 10, 10). - «Eu vivo e vós viveis da minha própria vida» (Jo 4, 19). - «Quem tem o Filho de Deus em si, tem a vida» (Jo 5, 12).
    É pelo seu Coração que Jesus nos comunica a sua vida divina. «Este Coração sagrado, diz o Padre Eudes, é o princípio da vida não só do Homem-Deus, mas da mãe e dos filhos de Deus. O Coração espiritual de Jesus, isto é, a sua alma santíssima, unido à sua divindade, é o princípio da sua vida espiritual e moral. É também o princípio da vida da Mãe de Deus. O Filho-Deus recebia de Maria a vida material e transmitia-lhe a vida espiritual e sobrenatural. O Coração de Jesus é também o princípio da vida sobrenatural de todos os filhos de Deus. Como é a vida da cabeça, é também a vida dos membros. Em Jesus, diz S. Tomás, está a plenitude da graça ou da vida das almas. Ela está depositada no seu Coração, como num reservatório universal, de onde ela corre para a humanidade a fim de a santificar». Nosso Senhor disse-nos isso várias vezes: «Se alguém me ama, o meu Pai amá-lo-á, e nós viremos a ele, e faremos nele a nossa morada» (Jo 14, 23). Jesus habita em nós pela sua graça, e o seu Coração une-se ao nosso coração para aí se tornar o princípio vivo da vida espiritual e divina em nós. (Leão Dehon, OSP 3, p. 508).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra
    «Tem confiança, a tua fé te salvou» (Mt 9, 22).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • XIV Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    XIV Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    9 de Julho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    XIV Semana - Terça-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Oseias 8, 4-7. 11-13

    Eis o que diz o Senhor: «Elegeram reis sem minha aprovação, estabeleceram chefes sem o meu conhecimento. Da sua prata e do seu ouro fizeram ídolos para sua própria perdição. 5Rejeito o teu bezerro, ó Samaria! A minha cólera inflamou-se contra eles. Até quando serão incapazes de purificar-se? 6Porque ele é de Israel; foi um artista quem o fez, não é Deus. Será, pois, despedaçado o bezerro da Samaria. 7Semearam ventos, colherão tempestades. Não terão espigas, e o grão não dará farinha; e mesmo que a desse, seria comida pelos estrangeiros. 11Efraim multiplicou os altares, e os seus altares só lhe serviram para pecar. 12Tinha-lhes escrito todos os preceitos da minha lei, mas ela foi tida por eles como uma lei estrangeira. 13Imolam e oferecem vítimas e comem-lhes as carnes, mas o Senhor não as aceita. Antes se lembrará da sua iniquidade e castigará os seus pecados. Voltarão para o Egipto».

    Oseias proclama o amor de Deus, sempre fiel e rico em misericórdia. Mas também manifesta que Deus desaprova o comportamento corrupto de Israel, que não pode ficar sem castigo. Deus não é caprichoso. Mas é justo.
    À morte de Jereboão II, seguiram-se tempos de egoísmos desenfreados e de religião insincera. Em vista de interesses mesquinhos, elegeram-se reis não designados por Deus. O culto, cada vez mais exterior, corrompeu-se ao ponto de erguer um bezerro de ouro em Samaria. Inicialmente, pretendia-se que fosse apenas expressão da presença invisível de Javé no meio do seu povo. Mas rapidamente descambou para a idolatria. Oseias acusa o povo de ter violado a Aliança e de ter transgredido a Lei. O castigo está iminente: «Semearam ventos, colherão tempestades» (v. 7). A reflexão de Oseias, em estilo proverbial, é uma alusão aos cultos cananeus das estações do ano. Embora se espere o contrário, esses cultos só trarão ruína: tempestades, secas, searas sem espigas. Israel escusa de invocar os seus numerosos altares, a solenidade das suas luas-novas. Tudo isso só lhe multiplica os pecados, por causa do baalismo latente, e porque a vida não está em sintonia com o culto. A aliança nupcial (berith) entre Deus e o seu povo inclui condições precisas expressas na Lei. Um culto, que não inclua o respeito pela Lei, é falso e há-de conduzir ao novo Egipto, isto é, ao exílio em Babilónia.

    Evangelho: Mateus 9, 32-38

    Naquele tempo, apresentaram-lhe um mudo, possesso do demónio. 33Depois que o demónio foi expulso, o mudo falou; e a multidão, admirada, dizia: «Nunca se viu tal coisa em Israel.» 34Os fariseus, porém, diziam: «É pelo chefe dos demónios que Ele expulsa os demónios.» 35Jesus percorria as cidades e as aldeias, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do Reino e curando todas as enfermidades e doenças. 36Contemplando a multidão, encheu-se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida, como ovelhas sem pastor. 37Disse, então, aos seus discípulos: «A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. 38Rogai, portanto, ao Senhor da messe para que envie trabalhadores para a sua messe.»

    Ao narrar a cura de um mudo, e ao referir a reacção dos adversários de Jesus, Mateus antecipa a luta renhida que o Senhor irá travar com os seus inimigos, e que será amplamente abordada no capítulo 12, a fim de preparar, para ela, os seus leitores. Além desta razão pedagógica, Mateus tem uma razão teológica. Fora anunciado que o Messias, entre outros prodígios, faria ouvir os surdos e falar os mudos, situações atribuídas ao demónio, inimigo do homem. Se Jesus realiza tais maravilhas, libertadoras da escravidão e limitações humanas, quebra o poder de Satanás, e só pode ser o Messias. O povo, mais propenso a reconhecer as maravilhas de Deus, reage com admiração. Os fariseus atribuem tais maravilhas ao poder satânico, que, segundo eles, actua por meio de Jesus.
    Mateus, logo a seguir, introduz o tema da missão, apresentando a itinerância de Jesus. Ele não permanece num determinado lugar, à espera dos discípulos, como faziam os rabis, mas percorre a Galileia, e vai até à terra dos gentios, proclamando o evangelho e curando todas as doenças (cf. v. 35). Há, em tudo isto, um ar de universalidade.
    O centro do nosso texto é aquele em que o evangelista capta o coração de Cristo que se enche de compaixão pela multidão cansada e abatida, «como ovelhas sem pastor» (v. 36). Para compreender bem este «encher-se de compaixão», convém saber que essa expressão traduz o verbo grego splanknízomai reservado à expressão dos sentimentos de Jesus e do Pai. Esse verbo expressa o amor materno de Jesus para connosco. O nosso sofrimento toca-o até ao ponto de o fazer com-padecer-se, com-sofrer connosco, de carregar sobre si as nossas dores, no seu mistério de morte e ressurreição.
    Jesus convida os discípulos a rezar ao Pai para que suscite pessoas dispostas a segui-Lo na tarefa da evangelização, semelhante ao trabalho da ceifa, pela sua urgência.

    Meditatio

    Oseias verbera um culto formal, que não estava em sintonia com a Aliança de Deus com o seu povo, nem tinha correspondência na vida. Não será também essa, muitas vezes, a nossa forma de culto? Talvez por isso é que, tantas vezes, sentimos a aridez invadir-nos o coração e a vida. Não vivemos centrados e unificados em Deus.
    É fácil pagar o tributo de práticas religiosas, vividas como hábitos rotineiros, sem correspondência na vida de cada dia. Mas podem tornar-se idolatria! «Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim» (Mc 7, 6). É fácil «multiplicar altares», que acabam povoados de ídolos, para nossa perdição! (Os 8, 4). Todas as crises de fé, e até de identidade, nascem da separação entre religiosidade e vida. Mas, como evitar um tal perigo?
    Não é o voluntarismo que nos salva. O nosso compromisso, o nosso método e o nosso itinerário espiritual, podem ajudar. Mas só Senhor, que tem compaixão das nossas situações mais ou menos escabrosas e difíceis, da nossa sede d´Ele, pode valer-nos. É pois absolutamente necessário contactar, na fé, com o amor paterno e materno de Deus, que Jesus manifestou ao «encher-se de compaixão» pela multidão, que andava como ovelhas sem pastor. É preciso que o nosso coração seja tocado pelos «entranhas de misericórdia do nosso Deus».
    A nossa vida, para ser verdadeiro caminho espiritual, há-de mover-se a partir de uma Palavra revelada, fulcro luminoso do nosso crer, esperar e amar: «É nisto que está o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele mesmo que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos peca
    dos» (1 Jo 4, 10). Se assim for, então, mesmo nas tentações, quando formos perturbados pela corrida do activismo ou pelo fascínio dos aplausos, quando a desilusão do fracasso nos abater, seremos apoiados pela força de Deus-Amor, de Jesus-Presença na nossa vida.
    O Senhor procura colaboradores para, como Ele, se encherem de compaixão e usarem de misericórdia para com as multidões, que povoam o nosso mundo: «A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos» (Mt 9, 37). Como cristãos, e como dehonianos, somos sensíveis às palavras de Jesus, e queremos cooperar com Ele na obra da redenção do mundo. A evangelização pode e deve tornar-se um verdadeiro culto, agradável a Deus. Na carta aos Romanos, Paulo fala do seu ministério apostólico, usando o vocabulário cultual e sacrificial do Antigo Testamento: oferecer os pagãos em «oblação agradável, santificada pelo Espírito», como sacrifício espiritual a Deus (cf. TOB, nota c a Rm 15, 16). A exemplo do Apóstolo, o missionário deve viver o seu «serviço do Evangelho» como uma liturgia, de que ele é o celebrante: "Ser um ministro (liturgo) de Jesus Cristo entre os pagãos, exercendo o ofício sagrado do Evangelho de Deus, a fim de que os pagãos se tornem uma oblação agradável, santificada pelo Espírito Santo" (Rm 15, 16).
    O apostolado missionário inclui-se na dimensão eclesial e social da nossa «oblação reparadora», que deve ser preparada pela oblação pessoal, conforme recomenda Paulo: «Exorto-vos, pois, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais os vossos corpos (vós mesmos) como hóstia viva, santa e agradável a Deus: tal é o culto espiritual que lhe deveis prestar" (Rm 12, 1). Visto nesta "perspectiva espiritual" (Cst 26), descobrimos uma convergência profunda entre o apostolado missionário e a nossa espiritualidade, como nota uma carta do Superior Geral, Pe. António Panteghini: «A nossa espiritualidade é particularmente apta para alimentar e sustentar o compromisso missionário: disponibilidade de coração e de vida, abandono e esperança, alegria em anunciar o amor de Deus em Cristo, testemunhar este amor na vivência do dom de si mesmo, no serviço aos afastados, aos pequenos, aos pobres, pobreza partilhada e acolhimento dos outros, na sua raça, na sua cultura, com as suas qualidades e defeitos, tudo isto em comunhão com o Coração de Cristo na Sua paixão pelo anúncio do Reino de Deus a todos os homens".

    Oratio

    Senhor, a «messe» é, na verdade, imensa e os trabalhadores são poucos. Quantos biliões de homens esperam o anúncio do Evangelho, e quão poucos são os missionários! A maior parte dos nossos contemporâneos, provavelmente, não está consciente da necessidade de Te conhecer e amar. Mas, que é a sede de transcendência, de bondade, de certezas, senão sede de Ti? Só Tu és a água viva, que sacia a nossa sede!
    Queremos, pois, juntar a nossa prece à tua compaixão, para rezarmos ao Pai: «Mandai, Senhor, trabalhadores para a vossa messe». Que muitos jovens ouçam o teu chamamento e lhe correspondam, abraçando o sacerdócio, a vida consagrada, a vida religiosa, a vida missionária, para responderem ao grito do mundo carecido de salvação. Que a sua vida e o seu trabalho sejam oblação, para que a humanidade e a criação inteira se tornem também oferenda santa e agradável ao teu nome. Amen.

    Contemplatio

    O bom Mestre, depois de receber o baptismo de João Baptista, e antes de se entregar à organização da sua Igreja, mergulhou numa profunda oração de quarenta dias no deserto. Queria acumular graças para os seus apóstolos e os seus discípulos.
    Depois destes quarenta dias, começa a sua propaganda. Ganha primeiro João e André que ficam apaixonados por Ele e passam todo um dia a escutá-lo: Apud eum manserunt die illo (Jo 1, 35). - Depois das suas primeiras pregações, passa ainda uma noite em oração, depois no dia seguinte faz o seu grande apelo a Pedro, a André, a Tiago, a João: Sequere me, segui-me. «Passou a noite a orar a Deus. Quando nasceu o dia, convocou os discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de Apóstolos» (Lc 6, 12).
    E antes de completar o colégio dos seus apóstolos e dos seus discípulos, rezou ainda e mandou rezar. Percorreu a Galileia. Viu as multidões miseráveis e mal conduzidas pelos rabinos e pelos fariseus. «São ovelhas sem pastores, diz com emoção! Rezai, portanto, ao Mestre supremo para enviar trabalhadores para a sua vinha e pastores para o seu rebanho» (Mt 9, 38).
    Quantas lições para nós! Estimemos de elevado valor a vocação; peçamos a Deus que multiplique os santos sacerdotes (Leão Dehon, OSP 4, p. 255).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Mandai, Senhor, trabalhadores para a vossa messe» (cf. Mt 9, 38).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • XIV Semana - Quarta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    XIV Semana - Quarta-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    10 de Julho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    XIV Semana - Quarta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Oseias 10, 1-3. 7-8. 12

    Israel era uma vinha frondosa, que dava muitos frutos. Quanto mais abundavam os seus frutos, tanto mais multiplicou os seus altares. Quanto mais prosperou a sua terra, mais ricas estelas construiu. 2O coração deles é falso: vão sofrer o devido castigo; Ele mesmo derrubará os seus altares e deitará abaixo as suas estelas. 3E dizem: «Não temos um rei, porque não tememos o Senhor; e que poderá fazer por nós o nosso Rei?» 7Samaria está aniquilada, o seu rei é como uma palha à deriva sobre a superfície da água. 8Os lugares altos de Bet-Aven, o pecado de Israel, serão destruídos. Os espinhos e os abrolhos crescerão sobre os seus altares. Dirão então às montanhas: «Cobri-nos!» E às colinas: «Caí sobre nós!» 12Lançai sementes de justiça, colhei segundo a misericórdia, lavrai terras incultas. É tempo de buscar o Senhor, até que venha e faça chover a justiça para vós.

    Oseias insiste na denúncia da infidelidade de Israel, bem como na chamada de atenção para o castigo inevitável dessa mesma infidelidade. E termina incitando à conversão: «É tempo de buscar o Senhor» (v. 12).
    O profeta começa por recorrer à imagem da vinha, tão ao gosto dos autores bíblicos. Israel é semelhante a um agricultor que, tendo enriquecido com os produtos da sua vinha, descambou para o materialismo, para o esquecimento de Deus, e para a idolatria. Oseias percute com violência o formalismo religioso, bem como a erecção de estelas, colunas com pretensões artísticas, mas que apenas contribuíam para a depravação idólatra.
    O povo lamenta-se por não ter um rei como os outros povos. Mas o profeta afirma que, sem Javé, Israel está perdido, tenha ou não um rei. Samaria será destruída, e o seu rei arrastado como palha pelas águas impetuosas. Os espinhos e os abrolhos povoarão os altares e a cidade deserta. O povo, finalmente consciente dos seus erros, pedirá aos montes que desabem sobre ele e o enterrem, para fugir à vergonha (cf. Mt 23, 30). Mas Deus é um esposo fortemente apaixonado, fiel e misericordioso. Daí o convite final à conversão, à sementeira da «justiça», isto é, da obediência à vontade de Deus. E virá o tempo da ceifa, num clima de «bondade». Quem semeia justiça, colhe misericórdia.

    Evangelho: Mateus 10, 1-7

    Naquele tempo, Jesus chamou doze discípulos e deu-lhes poder de expulsar os espíritos malignos e de curar todas as enfermidades e doenças. 2São estes os nomes dos doze Apóstolos: primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão; 3Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; 4Simão, o Zelota, e Judas Iscariotes, que o traiu. 5Jesus enviou estes doze, depois de lhes ter dado as seguintes instruções: «Não sigais pelo caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos. 6Ide, primeiramente, às ovelhas perdidas da casa de Israel. 7Pelo caminho, proclamai que o Reino do Céu está perto».

    Mateus apresentou várias vezes Jesus como novo Moisés, que funda o novo povo de Deus. O antigo povo de Deus era formado por 12 tribos. O novo povo de Deus tem as características da universalidade, que o número 12 significa. Jesus, novo Moisés, funda o novo povo de Deus, a Igreja. Os Doze são chamados para «estarem» com o Senhor e «ser enviados» por Ele aos irmãos. Foram chamados pelo nome, isto é, dentro da própria identidade, desde sempre pensada por Deus que, por amor, começa por chamar à vida. Em Mateus, como em Lucas (9, 1), Jesus confere o seu mesmo «poder» que se manifesta na vitória sobre as forças demoníacas e na cura de males parciais (as doenças) como antecipação e sinal da libertação total do mal.
    Mateus apresenta a lista dos nomes dos apóstolos, seguindo a mesma ordem de Marcos ( 3, 16-19) e de Lucas (6, 14-16). Encabeça a lista «Simão, chamado Pedro» (v. 2). Seguem os outros nomes, dois a dois. Mateus não se envergonha de acrescentar ao seu nome próprio, o de ofício: publicano. Encerra a lista Judas Iscariotes, «que o traiu» (v. 4). Seguem-se algumas instruções de Jesus: começar a «missão» pelos israelitas, e anunciar o Reino de Deus. Assim se cumprirá a promessa feita a Abraão: «Na tua descendência serão abençoadas todas as famílias da Terra» (cf. Act 3, 25). A realização desta bênção, de que Israel, se se converter, será portador, é o «Reino de Deus», isto é, a presença de Deus-Amor que, em Jesus, liberta e salva.

    Meditatio

    Quantas vezes nos deixamos embalar no eficientismo! Como a vinha de Oseias, produzimos frutos, mas não do Senhor e para o Senhor. O nosso coração endurece e perde sensibilidade. Cobre-se de «espinhos e abrolhos» (Os 10, 8), que são as preocupações, a ansiedade, a falta de sentido para a vida e para a acção. Mas, se voltarmos a procurar o Senhor na «justiça», que é santidade de vida com Deus e para Deus, poderemos colher «bondade» para nós e para os outros. É o que também nos diz Jesus, ao chamar os Doze, e ao dar-lhes poder para libertar do mal e anunciar o reino de Deus, o amor e a misericórdia do Pai, próximos de quem O procura na rectidão, e disposto a cumprir a sua vontade.
    É importante entrarmos nesta dinâmica de vocação. Jesus chama-nos pelo nome, tal como fez com os Doze. Também nós somos únicos e irrepetíveis. Deus conhece-nos e ama-nos desde sempre e para sempre. O seu projecto de salvação passa, não só por nos retirar da falsidade de uma vida centrada em interesses mesquinhos, mas também por fazer, de cada um de nós, instrumento de salvação para os outros. O importante é que acreditar no poder que nos dá, para nos tornarmos luz no mundo, desde que permaneçamos unidos a Ele em oração, orientados para Ele e para os interesses do Reino.
    O reino de Deus começou por ser reservado a Israel. Daí as palavras de Jesus: «Não sigais pelo caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos. Ide, primeiramente, às ovelhas perdidas da casa de Israel» (Mt 10, 5-6). Mas, com a morte e a ressurreição de Cristo, começou uma nova fase em que a salvação, rejeitada por Israel, é oferecida a todos os povos. A gradualidade do plano de Deus é uma lição para a nossa impaciência: queremos tudo imediatamente e não sabemos agradecer os pequenos passos que o Senhor nos faz dar no caminho para Ele e para os outros.
    Mateus mostra-nos que Jesus chamou os Doze pelo próprio nome. Deus escolhe os seus apóstolos, com um imenso respeito pela dignidade de cada um: «Chamei-te pelo nome...» (Is 4
    3, 1). Já antes, com esse mesmo respeito, os tinha chamado à vida, pondo neles o selo trinitário, de acordo com a revelação completa que nos veio por Cristo, por meio da qual compreendemos a fundo a intenção de Deus no princípio da humanidade: «Façamos o homem à nossa imagem e semelhança... Deus criou o homem à Sua imagem, à imagem de Deus os criou, homem e mulher os criou» (Gn 1, 26-27). Três vezes é repetido o termo "imagem". Nós somos à imagem do Deus trino como criaturas humanas, pela inteligência, a memória, a vontade e como filhos de Deus (cf. 2 Pe 1, 4; 1 Jo 3, 1), por meio do qual somos espírito no Espírito (cf. Jo 3, 6) e amamos com o amor típico da Trindade, o amor oblativo. É este amor oblativo que nos leva a consagrar-nos ao Senhor, para estarmos com Ele, partilharmos a sua vida e a sua missão de proclamar: o reino de Deus está perto, está no meio de vós!

    Oratio

    Senhor, livra-me de cair no erro do teu povo, tornando-me uma vinha que produz muitos frutos, que não vêm de Ti, nem são para Ti, mas que nascem do meu eficientismo e visam satisfazer a minha vaidade e o meu orgulho. Em vez disso, ajuda-me a semear segundo a justiça, respondendo ao teu chamamento para Contigo, pelo poder do Espírito, realizar aquilo que o Pai quer de mim. Dá-me a graça de cultivar o campo novo que é viver e anunciar o reino de Deus, que é reino de amor, de paz, de paciência, de mansidão e de uma esperança que sabe ver para além das dificuldades presentes. Continua a chamar-me pelo nome, cada dia, para que não me torne vinha idólatra, mas ramo vivo da cepa que é Tu. E produzirei frutos para o Reino, em Ti e por Ti. Amen.

    Contemplatio

    «Ide à vinha». É o que nos diz o bom Mestre em todas as idades da nossa vida e em todas as horas do dia. A vinha, é a nossa alma para cultivar, é também o campo onde deve exercer-se o nosso apostolado segundo a vocação de cada um de nós.
    O que é que se faz na vinha? Cava-se, planta-se, corta-se, protege-se o campo, trabalha-se todo o dia. - Cavar, trabalhar profundamente! É sacudir fortemente a nossa consciência endurecida, pelos retiros, pela meditação das grandes verdades.
    Plantar e mergulhar a videira, é fixar nos nossos corações as virtudes fundamentais: uma fé viva, uma caridade ardente, a humildade e a pureza, e isto faz-se pelo trabalho quotidiano da oração, da vigilância, dos exames. - Aparar as cepas, é cortar pela mortificação cristã, as solicitudes mundanas e o apego aos prazeres e às alegrias que amolecem. - Prender a cepa, é unir-nos a Nosso Senhor e ao seu divino Coração pelo hábito da presença de Deus, pela submissão da nossa vontade e pela vida de amor e de reparação. - Envolver a vinha com uma sebe ou com um muro de defesa, é velar sobre a nossa alma e defendê-la pela oração contra os seus inimigos: a carne e o mundo.
    O apostolado pede de nós o mesmo trabalho em favor das almas que nos são confiadas. Plantar, é instruí-las e formá-las na virtude; sachar e envolver a vinha, é protegê-las pela vigilância, pela disciplina, pela oração.
    Em que ponto me encontro no meu trabalho por mim mesmo e pelas almas? Aqui está um longo exame para fazer. O meu trabalho é quotidiano, assíduo e constante? Que progressos fiz? Que progressos tenho levado a fazer aos outros que devo ajudar? (Leão Dehon, OSP 3, p. 130).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Ide, proclamai que o Reino do Céu está perto» (cf. Mt 10, 6-7).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • S. Bento, Abade, Padroeiro da Europa

    S. Bento, Abade, Padroeiro da Europa


    11 de Julho, 2024

    S. Bento, patriarca dos monges ocidentais, nasceu em Núrcia, no ano 480. Ainda muito jovem, seduzido e impelido pelo Espírito, abraçou um período de absoluta solidão numa gruta em Subiaco. A sua fama atraiu-lhe discípulos. Organizou para eles a vida cenobítica, inicialmente em doze pequenos mosteiros à volta de Subiaco e, depois, no célebre cenóbio de Monte Cassino. Escreveu uma Regra que resume sabiamente a tradição monástica oriental, adaptando-a ao mundo latino. Esta escola de "serviço ao Senhor" é construída à volta da Palavra de Deus (Lectio divina), da Liturgia de louvor realizada em coro, e do trabalho em ambiente de fraternidade, de humilde e obediente serviço. S. Bento faleceu com 67 anos de idade, em Monte Cassino, no ano 547.

    Lectio

    Primeira leitura: Provérbios 2, 1-9

    Meu filho, se receberes as minhas palavrase guardares cuidadosamente os meus mandamentos,2prestando o teu ouvido à sabedoria, e inclinando o teu coração ao entendimento; 3se invocares a inteligência e fizeres apelo ao entendimento, 4se a buscares como se procura a prata e a pesquisares como um tesouro escondido,5então, compreenderás o temor do Senhor e chegarás ao conhecimento de Deus. 6Porque o Senhor é quem dá a sabedoria e da sua boca procedem o saber e o entendimento. 7Ele reserva a salvação para os rectos e é um escudo para os que procedem honestamente. 8Protege os caminhos dos justos e dirige os passos dos seus fiéis. 9Então, compreenderás a justiça e a equidade, a rectidão e todos os caminhos que conduzem ao bem.

    Só a busca interessada da verdade permite estabelecer uma relação correta com Javé, que dá a sabedoria e protege o sábio. É o ensinamento preciso que um pai dá ao seu filho, segundo esta página do livro dos Provérbios.
    S. Bento utiliza o mesmo estilo literário ao introduzir a Regra que escreve para os seus monges: "Escuta, filho, os preceitos do Mestre, e inclina o ouvido do teu coração; recebe de boa vontade e executa eficazmente o conselho de um bom pai,..." Acolher a Palavra de Deus é o caminho seguro para nos conformarmos a Cristo, Sabedoria do Pai.

    Evangelho: Mateus 19, 27-29

    Naquele tempo, disse Pedro a Jesus: «Nós deixámos tudo e seguimos-te. Qual será a nossa recompensa?»28Jesus respondeu-lhes: «Em verdade vos digo: No dia da regeneração de todas as coisas, quando o Filho do Homem se sentar no seu trono de glória, vós, que me seguistes, haveis de sentar-vos em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel. 29E todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá por herança a vida eterna

    Jesus responde a Pedro com a linguagem figurada do profeta Daniel (cf. Dn 7, 9-14), onde se fala de tronos e do Filho do homem. Jesus realça o aspeto judicial desta figura misteriosa. Os discípulos, a quem foi dado conhecer o mistério do Reino (13, 11), estão intimamente associados a Jesus. O prémio prometido por Jesus parece que terá lugar "no dia da regeneração de todas as coisas" (v. 28), isto é, no mundo renovado, que resultou da última intervenção de Deus na história, que já teve lugar, quando enviou o seu Filho. A "regeneração" é a nova vida do homem novo concedida pela ação de Deus. Indica, pois o tempo da Igreja e refere-se a todos os crentes, àqueles que se submetem à senhoria de Deus e participam dela. Os discípulos são "juízes", isto é, "dirigentes" do povo de Deus, que devem administrar e defender esse povo.

    Meditatio

    S. Bento, depois de longo tempo na presença de Deus, a escutar a sua Palavra, vivendo em total desapego do mundo, em completo silêncio e em austera solidão, tornou-se um homem, capaz de orientar outros, que buscavam a Deus. Só dá fruto quem acolhe no coração e medita a Palavra de Deus, quem se deixa transformar por ela. As comunidades criadas por S. Bento caraterizam-se pela busca apaixonada de Deus, pela escuta atenta da Palavra, meditada e guardada no coração. Assim descobrem Jesus Cristo como sabedoria do Pai, como o verdadeiro tesouro, ao qual nada se deve antepor. Permanecendo estavelmente unidos a Ele, os discípulos permitem ao Espírito produzir neles os seus frutos. Esses frutos são o melhor prémio para quem deixa tudo para estar com o Senhor e "permanecer" n´Ele.
    A união de S. Bento com Deus explica a sublimidade da sua Regra, exigente e equilibrada, e a sua influência perene na vida de perfeição da Igreja. Bossuet falou assim da Regra de S. Bento: "Suma do cristianismo, resumo douto e misterioso do Evangelho, das instituições dos Santos Padres, de todos os conselhos de perfeição, na qual atingem o seu mais alto apogeu a prudência e a simplicidade, a humildade e o valor, a severidade e a doçura, a liberdade e a dependência, na qual a correção encontra toda a firmeza, a condescendência todo o encanto, a voz de comando todo o vigor, a sujeição todo o repoiso, o silêncio a sua gravidade, a palavra a sua graça, a força o seu exercício e a debilidade o seu apoio".
    Chamado por Pio XII "Pai da Europa", S. Bento foi proclamado por Paulo VI patrono do mesmo continente, em 1964.

    Oratio

    Senhor, nosso Deus e nosso Pai, eis-nos aqui, como filhos que se sentem amados por ti. Os nossos ouvidos estão atentos à tua palavra. Queremos corresponder ao teu amor. Sabes como ainda somos instáveis na fé e frágeis na caridade. Faz-nos, uns para os outros, sinais e sacramentos da tua mansidão e da tua bondade. Que todos possam verificar como é bom amar-nos como filhos do mesmo Pai, que és Tu, e servir-nos e honrar-nos uns aos outros em teu santo Nome. Ámen.

    Contemplatio

    S. Bento teve também a graça de trabalhar pelas almas. Na sua solidão, catequizava os pastores da montanha. Mais tarde, aceitou fazer a educação de alguns jovens piedosos de Roma, que as suas famílias lhe confiavam em Subiaco. Foi entre eles que recrutou S. Mauro e S. Plácido, seus amáveis discípulos. Sabia falar corajosamente aos grandes e recordar-lhes os seus deveres. Repreendeu ao bárbaro Tótila as suas depredações e as suas crueldades. Ordenou-lhe que não abusasse das suas vitórias, especialmente na ocupação da cidade de Roma. Que variedade nas suas obras e na sua ação social! Os seus discípulos, ao longo dos séculos, dedicar-se-ão também ao apostolado em todas as suas formas, segundo os tempos e as necessidades da Igreja. É preciso tomar forças no recolhimento, especialmente em cada manhã, e dedicar-se depois às obras, segundo a nossa vocação, segundo a vontade de Deus que nos é conhecida. É um dever para nós hoje rezar pela conservação da vida regular e monástica através das dificuldades que o demónio lhe suscita. Senhor, não priveis a vossa Igreja dos asilos que lhe destes para pôr os seus filhos ao abrigo das tempestades do século; mas fazei que, ao renunciarem ao mundo, se entreguem verdadeiramente à perfeição no claustro. (Leão Dehon, OSP 3, p. 314s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "O Senhor é quem dá a sabedoria" (Prov 2, 6).

    ----
    S. Bento, Abade, Padroeiro da Europa (11 Julho)

    XIV Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    XIV Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    11 de Julho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    XIV Semana - Quinta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Oseias 11, 1-4. 8c-9

    1Quando Israel era ainda menino,Eu amei-o, e chamei do Egipto o meu filho. 2Mas, quanto mais os chamei, mais eles se afastaram; ofereceram sacrifícios aos ídolos de Baal e queimaram oferendas a estátuas. 3Entretanto, Eu ensinava Efraim a andar, trazia-o nos meus braços, mas não reconheceram que era Eu quem cuidava deles. 4Segurava-os com laços humanos, com laços de amor, fui para eles como os que levantam uma criancinha contra o seu rosto; inclinei-me para ele para lhe dar de comer. O meu coração dá voltas dentro de mim, comovem-se as minhas entranhas. 9Não desafogarei o furor da minha cólera, não voltarei a destruir Efraim; porque sou Deus e não um homem, sou o Santo no meio de ti, e não me deixo levar pela ira.

    Estamos diante de um dos mais importantes textos em ordem à revelação de Deus-Amor. O melhor comentário seria a contemplação silenciosa e reconhecida dos intensos e manifestos sentimentos paternais de Deus. Mas diremos breves palavras, na esperança de não perturbar excessivamente a amorosa contemplação dos nossos leitores.
    Depois de nos ter falado de um Deus-Esposo (Os 2), o profeta fala-nos de Deus como Pai extremamente terno, que recorda ao filho, Israel, os tempos remotos em que, arrancando-o da escravidão do Egipto, o conduziu suavemente pela mão. O povo repetidas vezes tombava na idolatria. Mas Deus estava sempre ao seu lado, para o retomar nos braços e lhe manifestar amor, com expressões que tocavam as mais íntimas cordas da humana sede de ser amado, procurando persuadi-lo sobre a força, a fidelidade e a misericórdia desse amor pelo homem.
    No texto, que escutamos, transparece uma tal vontade de salvação da parte de Deus, que ultrapassa, em muito, a sua indignação pelo pecado do homem. Deus conhece a fragilidade do coração humano, um «coração incircunciso», um «coração endurecido», incapaz de corresponder ao amor de Deus. Só quando for alcançado e penetrado pelo Espírito, pode tornar-se um «coração de carne», capaz de amar a Deus e nele, os irmãos (cf. Ez 36, 26s.). Só o «rugido» de Javé, isto é, a sua palavra viva e eficaz, fará voltar Israel, com a docilidade de um passarinho e a obediência de uma pomba à voz do dono. Deus, se castiga e corrige, é sempre para salvar.

    Evangelho: Mateus 10, 7-15

    Naquele tempo, disse Jesus aos seus Apóstolos: 7«Ide e proclamai que o Reino do Céu está perto. 8Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes de graça, dai de graça. 9Não possuais ouro, nem prata, nem cobre, em vossos cintos; 10nem alforge para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem cajado; pois o trabalhador merece o seu sustento. 11Em qualquer cidade ou aldeia onde entrardes, procurai saber se há nela alguém que seja digno, e permanecei em sua casa até partirdes. 12Ao entrardes numa casa, saudai-a. 13Se essa casa for digna, a vossa paz desça sobre ela; se não for digna, volte para vós. 14Se alguém não vos receber nem escutar as vossas palavras, ao sair dessa casa ou dessa cidade, sacudi o pó dos vossos pés. 15Em verdade vos digo: No dia do juízo, haverá menos rigor para a terra de Sodoma e de Gomorra do que para aquela cidade.»

    Os discípulos devem anunciar a presença do Reino, tal como fizera João Baptista (cf. Mt 3, 2) e, sobretudo, Jesus (4, 17). Quem acreditar que o Reino é o Senhor, e viver como Ele, torna-se "sinal" da sua presença e pode realizar curas, ressuscitar mortos, curar leprosos, expulsar demónios (v. 8). O mais importante é estar conscientes das forças divinas que nos enchem, graças à paixão, morte e ressurreição de Cristo. Recebemos de graça. Podemos projectar a nossa vida pessoal e comunitária sobre a gratuidade.
    O conteúdo da pregação dos discípulos está expresso nas afirmações relativas à paz. Os judeus saudavam-se desejando-se mutuamente a paz. Mas, aqui, há algo mais. É atribuída à paz a mesma eficácia que tem a Palavra de Deus. Onde se deseja a paz, acontece a paz. Esta paz equivale ao reino de Deus, a Cristo, nossa paz (cf. Mc 5, 34; Rm 5, 1; Ef 2, 14). Anunciar a paz é anunciar a Cristo e tudo o que Ele significa para o homem.
    O missionário deve avançar "desarmado": «Não possuais ouro, nem prata, nem cobre, em vossos cintos; nem alforge para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem cajado» (vv. 9-10). Sabe que tem direito ao sustento (v. 10; cf. Lc 10, 7), à recompensa. Mas contenta-se com o necessário. Permanecerá junto de quem for digno de acolhê-lo (v. 11). Levará consigo o sinal distintivo, que é a paz. Quem a acolhe, acolhe o reino de Deus e todas as suas promessas de bênção. Quem não a acolhe, exclui-se de tudo. Por isso, tem sentido «sacudir o pó dos pés» (cf. v. 14), gesto de quem, ao entrar em Israel, deixava para trás a terra dos infiéis. Tal como Sodoma e Gomorra, foram arrasadas por não terem acolhido os enviados de Deus (Gn 19, 24ss.), assim também acontecerá àqueles que não acolherem o irmão e, portanto, o reino.

    Meditatio

    Nada de mais tranquilizante para o nosso espírito agitado e dividido que a certeza de um Pai, que nos ergue da nossa pequenez e da nossa fragilidade, para nos apertar ternamente contra o seu rosto cheio de amor e misericórdia. Esse, Abbá do Céu, retira-nos dos vários Egiptos de escravidão, onde nos retêm o nosso «fazer» frenético, que nos faz esquecê-l´O. Mas Ele não nos esquece. Ele sabe esperar com paciência, porque deseja a vida e não a morte do homem, a paz e não a discórdia. Há que tomar consciência, não só intelectualmente, mas também existencialmente, de que Deus cuida de nós. Se assim não for, caímos no desconforto, na angústia, e até no sentimento de traição, quando formos provados pelo sofrimento, pelas dificuldades da vida. Quando se faz a experiência de que Deus é «Deus e não homem», a paz e a serenidade impregnam-nos o coração e a vida, até às suas raízes mais profundas. A certeza de que Deus é amor, nos ama e cuida de nós, leva-nos a tomar a atitude de que nos fala Jesus no evangelho: «Recebestes de graça, dai de graça» (Mt 10, 8). É pois na gratuidade que devemos dirigir-nos aos irmãos para lhe oferecer a paz, para lhes anunciar o reino de Deus, que é a luz, o sentido e a alegria da nossa vida. «Ide..., proclamai..., curai..., ao entrar numa casa saudai-a...» Anúncio de salvação, acção de cura, saudação e desejo de paz. Mas tudo isto pode ser recusado. Ainda nessa circunstância, o discípulo não há-de perder a paz: «Se essa casa não for digna, vossa paz volte para vós», isto é, permanecei em paz. Filhos da paz, h
    avemos de comunicá-la. Isso é possível porque a paz não é um sentimento nosso ou obra nossa, mas tem fundamento no dom de Jesus, o Espírito Santo.
    O Coração de Cristo é a manifestação suprema da ternura e da misericórdia de Deus. A espiritualidade que decorre da contemplação do Trespassado coloca-nos «no coração do Evangelho» e impele-nos a inserir-nos «no coração do mundo» sedento de amor, de paz, de alegria, de fraternidade, que só a descoberta de Cristo pode satisfazer plenamente: «Ele é o homem perfeito... Pela Sua Encarnação... o próprio Filho de Deus uniu-se de certo modo a cada homem. Trabalhou com mãos de homem, pensou com mente de homem, actuou com vontade de homem, amou com coração de homem... Ele é o Redentor do homem!», escreveu João Paulo II (Redemptor Hominis, n. 8). Só dando Cristo ao mundo, somos «profetas do amor e servidores da reconciliação dos homens... em Cristo» (Cst 7). É isto que o Pe. Dehon espera dos seus religiosos.

    Oratio

    Senhor Jesus, toma posse do meu coração, tantas vezes presa fácil de depressões, de euforias, de ansiedade. Que a experiência do teu amor terno de pai e de mãe, manifestado no teu Coração trespassado, me faça sentir a tua presença todos os dias da minha vida, para me libertar dos Egiptos e dos destroços de uma vida superficial e naturalista. Só Tu podes fazer de mim um dom perene, generoso e gratuito aos irmãos. Só Tu podes fazer de mim um missionário da paz, um arauto do Reino. Que eu Te saiba dar aos meus irmãos, para ser profeta do amor e servidor da reconciliação. Amen.

    Contemplatio

    Há uma luta que é de todos os dias, o demónio não repousa. Mas há dias mais difíceis, dias de provas e de combates; é para esses dias, que é preciso estarem armados com a espada.
    Jesus adverte os seus apóstolos para que estejam preparados, especialmente para o dia seguinte, o grande dia da sua Paixão, para também para o futuro, para a luta espiritual que deve fazer deles suas sangrentas testemunhas e os vencedores do mundo.
    «Noutras vezes, diz o Salvador, enviei-vos sem bolsa e sem cajado, mas hoje digo-vos: se alguém tem uma bolsa, que a tome, e se não tem, que venda a sua capa para comprar uma espada». Os apóstolos tomam as coisas no sentido literal: «Temos aqui duas espadas, dizem». Ora bem, diz o Salvador, e não tem tempo para lhes explicar o sentido alegórico das suas palavras, que Judas já está lá com o seu bando.
    É evidentemente uma espada espiritual que Jesus nos quer ver preparar. E qual será esta arma invencível? Uma só, o amor do Salvador, o amor do Sagrado Coração. Como o diz S. Paulo, só o amor nos pode manter indissoluvelmente unidos a Cristo. «Quem poderá separar-nos de Cristo, se o amarmos ardentemente? Nada, nem a tribulação, nem a angústia, nem a fome, nem a espoliação, nem os perigos, nem as perseguições, nem a espada. Alcançaremos sempre a vitória pelo amor daquele que nos amou tanto» (Rm 8, 35) (Leão Dehon, OSP 4, p. 425s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Ide e proclamai que o Reino do Céu está perto» (Mc 10, 7).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • XIV Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    XIV Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    12 de Julho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    XIV Semana - Sexta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Oseias 14, 2-10

    Assim fala o Senhor: 2«Volta, Israel, ao Senhor teu Deus, porque caíste por causa dos teus pecados. 3Tomai convosco palavras de arrependimento. E voltai ao Senhor, dizendo-lhe: «Perdoa todos os nossos pecados, e acolhe favoravelmente o sacrifício que oferecemos, a homenagem dos nossos lábios. 4A Assíria não nos salvará; não montaremos a cavalo, e nunca mais chamaremos nosso Deus a uma obra das nossas mãos, pois só junto de ti o órfão encontra compaixão.» 5Curarei a sua infidelidade, amá-los-ei de todo o coração, porque a minha cólera se afastou deles. 6Serei para Israel como o orvalho: florescerá como um lírio e deitará raízes como um cedro do Líbano. 7Os seus ramos estender-se-ão ao longe, a sua opulência será como a da oliveira, o seu perfume como o odor do Líbano. 8Regressarão os que habitavam à sua sombra; renascerão como o trigo, darão rebentos como a videira e a sua fama será como a do vinho do Líbano. 9Efraim, que tenho Eu ainda a ver com os ídolos? Sou Eu quem responde e olha por ele. Eu sou como um cipreste sempre verdejante; é de mim que procede o teu fruto». 10Quem é sábio para compreender estas coisas, inteligente para as conhecer? Porque os caminhos do Senhor são rectos, os justos andarão por eles, mas os pecadores tropeçarão neles.

    Oseias, num arrebatamento lírico-afectivo, proclama, mais uma vez, o apaixonado amor de Deus por Israel. No primeiro versículo, que não se encontra no texto litúrgico, é descrito o fim dramático de Samaria. Um cume de horror. Mas, a esse cume, corresponde outro: o do amor de Deus.
    E estrutura do capítulo 14 é o de uma celebração penitencial. Há que tomar consciência do próprio pecado (v. 2). É um convite muitas vezes repetido pelos profetas (cf. Am 5, 21-24; Is 1, 10-17; Mq 6, 6-8; Sl 50, 8-21; 51, 18s.). Diante do arrependimento do povo, já convencido da inutilidade e do prejuízo do recurso a potências estrangeiras (Assur-Assíria), e da ilusória confiança nas próprias iniciativas (v. 4), Deus vai garantir o futuro esperançoso do povo: «Curarei a sua infidelidade, amá-los-ei de todo o coração, porque a minha cólera se afastou deles» (v. 5). A decisão de Javé provoca uma reviravolta que o profeta expressa com imagens de extraordinária beleza: «Serei para Israel como o orvalho: florescerá como um lírio e deitará raízes como um cedro do Líbano. Os seus ramos estender-se-ão ao longe, a sua opulência será como a da oliveira, o seu perfume como o odor do Líbano. Regressarão os que habitavam à sua sombra; renascerão como o trigo, darão rebentos como a videira e a sua fama será como a do vinho do Líbano» (vv. 6-8). E seguem outras imagens igualmente belas, até ao v. 10, que confia aos sábios a compreensão de todos os oráculos. Mas a verdadeira sabedoria pode resumir-se a percorrer com rectidão os caminhos do Senhor.

    Evangelho: Mateus 10, 16-23

    Naquele tempo, disse Jesus aos seus Apóstolos: 16«Envio-vos como ovelhas para o meio dos lobos; sede, pois, prudentes como as serpentes e simples como as pombas. 17Tende cuidado com os homens: hão-de entregar-vos aos tribunais e açoitar-vos nas suas sinagogas; 18sereis levados perante governadores e reis, por minha causa, para dar testemunho diante deles e dos pagãos. 19Mas, quando vos entregarem, não vos preocupeis nem como haveis de falar nem com o que haveis de dizer; nessa altura, vos será inspirado o que tiverdes de dizer. 20Não sereis vós a falar, mas o Espírito do vosso Pai é que falará por vós. 21O irmão entregará o seu irmão à morte, e o pai, o seu filho; os filhos hão-de erguer-se contra os pais e hão-de causar-lhes a morte. 22E vós sereis odiados por todos, por causa do meu nome. Mas aquele que se mantiver firme até ao fim será salvo. 23Quando vos perseguirem numa cidade, fugi para outra. Em verdade vos digo: Não acabareis de percorrer as cidades de Israel, antes de vir o Filho do Homem.»

    O nosso texto reflecte a profecia de Jesus sobre a sorte dos seus discípulos, mas também a experiência posterior da Igreja, que descobriu todo o sentido das palavras do seu Senhor e Mestre. Quando Mateus escreveu, já muitos discípulos tinham sido presos, levados aos tribunais e executados por causa do «nome» de Jesus. O judaísmo oficial, pelo ano 70, declarou excomungados da Sinagoga todos aqueles que confessassem que Jesus é o Messias. E surgiu, ou acentuou-se a divisão e o ódio nas famílias: uns a favor de Jesus e outros contra. Os discípulos, particularmente os missionários, são comparados ao Cordeiro «que tira o pecado do mundo» (Jo 1, 29), Aquele que carregou sobre si os nossos pecados e os nossos sofrimentos (cf. Is 59, 11), para realizar o projecto de Deus, que quer salvar todos os homens (1 Tm 2, 4). A mansidão e a não-violência do missionário não são fraqueza nem masoquismo, mas vivência de duas virtudes aparentemente opostas: a prudência da serpente, como exercício de inteligência vigilante, realista e crítica, que evita o engano; a simplicidade da pomba, como exercício de um procedimento límpido e confiante, próprio de quem sabe estar nas mãos de Deus-Pai, poderoso e bom. Nos tribunais, há que confiar na presença e na acção do Espírito.
    O futuro do discípulo não é róseo. O mal gera o mal e abala as próprias relações familiares. Mas quem suportar ser odiado, não pelos seus crimes, mas por causa de Cristo, será salvo.

    Meditatio

    A primeira leitura ensina-nos que não há poderes humanos capazes de nos salvar: «A Assíria não nos salvará» (v. 4). Também projectos baseados na auto-suficiência, tal como uma religião imaginada e construída à nossa medida, não são fiáveis: «nunca mais chamaremos nosso Deus a uma obra das nossas mãos» (v. 5). Só Deus pode salvar: «só junto de ti o órfão encontra compaixão» (v. 5). É Deus que constrói o Reino em nós e a nossa volta. O segredo para a vida, para a ultrapassagem das situações difíceis, é o coração habitado por Deus. Fazer memória, re-cordar permanentemente a Deus, é um modo eficaz para ser habitado por Deus, e produzir frutos, ou, melhor dizendo, deixar que o seu Espírito produza os seus frutos em nós, e por meio de nós, no apostolado.
    Jesus não promete facilidades aos seus discípulos. Pelo contrário, apresenta-lhes um quadro espantoso de provações, de perseguições, de traições. O mundo resistirá à graça da mensagem evangélica, porque ela exige conversão profunda. Mas o Senhor promete estar com eles, para lhes dar coragem e inspirar as palavras adequadas: «quando vos entregarem, não vos preocupeis nem como haveis de fa
    lar nem com o que haveis de dizer; nessa altura, vos será inspirado o que tiverdes de dizer. Não sereis vós a falar, mas o Espírito do vosso Pai é que falará por vós» (Mt 10, 19-20).
    Também nós, nas pequenas e grandes dificuldades da vida e do nosso ministério, havemos de confiar no Espírito Santo, o Espírito de Jesus, presença viva em nós, comportando-nos como instrumentos dóceis, aos quais Ele dá pensamentos, palavras e acções. A nossa vida de cristãos, e de missionários do Reino, não é fácil. Mas o Senhor é «orvalho» de Espírito Santo, sugerindo-nos o modo como enfrentar e relacionar-nos com o mundo em que vivemos. Ajudar-nos-á a ser simples na busca de Deus e de tudo o que é verdade de amor: ajudar-nos-á a ser prudentes no discernimento dos caminhos que não nos afastem dessa verdade.
    Jamais compreenderemos suficientemente a maravilha que é a presença de Deus em nós, a força e a eficácia apostólica de um coração habitado por Deus, a grandeza dos dons de Cristo e do Espírito. Eles constroem-nos pessoal e comunitariamente, são uma força imparável nas dificuldades da vida e do apostolado: «Tudo posso n´Aquele que me dá força» (Fl 4, 13). São luz, são dinamismo de memória de Cristo, da sua doutrina, do que fez por nós: «O Consolador, o Espírito Santo que o Pai há-de enviar em Meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo aquilo que vos tenho dito» (Jo 14, 26). São força de vida e acção cristã: «O amor de Deus foi derramado nos nossos corações por meio do Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5, 5). O mundo não pode compreender estas realidades maravilhosas, porque, tendo recusado a Cristo, não pode receber o seu Espírito (cf. Jo 14, 17).

    Oratio

    Eu Te bendigo, Senhor, que quiseste habitar em mim. Que eu Te procure a cada instante, e viva em perene intimidade Contigo. A tua maravilhosa presença permitir-me-á corresponder ao projecto de amor e salvação em que me quiseste envolver. O orvalho do teu Espírito tornar-me-á capaz de florir e produzir frutos de amor vital e esponsal para Contigo e de bem generoso e perene para com os irmãos.
    Faz-me manso, na força do teu amor; faz-me capaz de perdoar, de compreender os outros, ainda que não possa ou não deva partilhar das suas ideias, do seu credo ou das suas acções.
    Que eu, habitado por Ti, seja sempre, para todos, presença do teu amor que salva. Amen.

    Contemplatio

    A Igreja colocou a festa da dispersão dos apóstolos depois de todo o ciclo dos mistérios de Nosso Senhor, no momento em que ela nos vai fazer reler, na liturgia, durante os meses de Verão, o relato da vida apostólica levada durante três anos pelo Salvador em companhia dos seus apóstolos.
    Mais tarde, Nosso Senhor dir-lhes-á que os envia como cordeiros para meio de lobos. Precisarão de uma grande coragem, sustida por um grande amor de Deus, porque serão perseguidos, como os profetas o foram outrora.
    Este mundo corrompido e corruptor, diz-lhes, é a vós, meus apóstolos e meus discípulos escolhidos, e fundadores da minha Igreja, que pertence convertê-lo, reconduzi-lo a mim pelo espectáculo das vossas virtudes não menos que pelo poder da vossa palavra. Sereis os profetas do novo povo de Deus. Como os de outrora, sereis perseguidos, mas sede orgulhosos e felizes, porque a vossa recompensa será grande no céu (Leão Dehon, OSP 4, p. 47s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Não sereis vós a falar:
    o Espírito do vosso Pai é que falará por vós» (Mt 10, 20).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • XIV Semana - Sábado - Tempo Comum - Anos Pares

    XIV Semana - Sábado - Tempo Comum - Anos Pares


    13 de Julho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    XIV Semana - Sábado
    Lectio
    Primeira leitura: Isaías 6, 1-8
    1No ano em que morreu o rei Uzias, vi o Senhor sentado num trono alto e elevado; as franjas do seu manto enchiam o templo. 2Os serafins estavam diante dele, cada um tinha seis asas; com duas asas cobriam o rosto, com duas asas cobriam o corpo, com duas asas voavam. 3E clamavam uns para os outros:«Santo, santo, santo, o Senhor do universo! Toda a terra está cheia da sua glória!» 4E tremiam os gonzos das portas ao clamor da sua voz, e o templo encheu-se de fumo. 5Então disse: «Ai de mim, estou perdido, porque sou um homem de lábios impuros, que habita no meio de um povo de lábios impuros, e vi com os meus olhos o Rei, Senhor do universo!» 6Um dos serafins voou na minha direcção; trazia na mão uma brasa viva, que tinha tomado do altar com uma tenaz. 7Tocou na minha boca e disse: «Repara bem, isto tocou os teus lábios, foi afastada a tua culpa, e apagado o teu pecado!» 8Então, ouvi a voz do Senhor que dizia: «Quem enviarei? Quem será o nosso mensageiro?» Então eu disse: «Eis-me aqui, envia-me.»
    Este texto de Isaías, escrito cerca de 724 a. C., é muito importante para compreendermos a sua mensagem. Morto o rei Ozias, termina um período de prosperidade e de autonomia para Israel. O profeta aproveita a ocasião para proclamar a santidade e a grandeza de um Deus que transcende em muito a grandeza humana e que é, por excelência, «o Santo de Israel». Isaías sente-se chamado por esse Deus a ser profeta. Tudo acontece num dia de festa, no templo de Jerusalém. Isaías, no meio da assembleia, dá-se conta do seu carisma. Senaquerib, que devastara 46 cidades e muitas aldeias, ameaçava Jerusalém. Os dirigentes do povo, interesseiros, procuravam ganhar os favores de Javé à custa de uma religião vazia e de uma liturgia aparatosa, enquanto continuavam a oprimir as camadas sociais mais carenciadas, nomeadamente os órfãos e as viúvas.
    O profeta faz uma descrição antropomórfica de Deus, sentado num trono e rodeado de serafins (criaturas com semelhança humana, mas dotados de seis asas), muito ao estilo das representações do Médio Oriente. Mas a visão de Isaías diz muito mais. A tripla aclamação «Santo, santo, santo» procura expressar a infinita santidade de Deus, a sua transcendência, a sua absoluta alteridade em relação ao que é terreno. A vibração das portas do templo e o fumo manifestam a presença de Deus. Isaías sente-se aterrado por causa da sua indignidade, devida aos seus pecados e aos do povo. A sua reacção lembra-nos Ex 33, 20: «Pode um homem ver a Deus e não morrer?» Mas Deus não quer a morte do homem. Por isso, intervém com um gesto simbólico de purificação (vv. 7s.). Resumindo: Deus interpela e chama Isaías para que, investido da glória e da santidade de Deus, vá profetizar em seu nome. Isaías corresponde com a total disponibilidade de quem se sabe invadido por um Deus que salva: «Eis-me aqui, envia-me» (v. 8).
    Evangelho: Mateus 10, 24-33
    Naquele tempo, disse Jesus aos seus Apóstolos: 24«O discípulo não está acima do mestre, nem o servo acima do senhor. 25Basta ao discípulo ser como o mestre e ao servo ser como o senhor. Se ao dono da casa chamaram Belzebu, o que não chamarão eles aos familiares! 26Não os temais, portanto, pois não há nada encoberto que não venha a ser conhecido. 27O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia; e o que escutais ao ouvido, proclamai-o sobre os terraços. 28Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma. Temei antes aquele que pode fazer perecer na Geena o corpo e a alma. 29Não se vendem dois pássaros por uma pequena moeda? E nem um deles cairá por terra sem o consentimento do vosso Pai! 30Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados! 31Não temais, pois valeis mais do que muitos pássaros.» 32«Todo aquele que se declarar por mim, diante dos homens, também me declararei por ele diante do meu Pai que está no Céu. 33Mas aquele que me negar diante dos homens, também o hei-de negar diante do meu Pai que está no Céu.
    As exigências da missão são extremas, podendo incluir a perseguição e a morte, como lemos ontem. Hoje, Jesus introduz no seu discurso a expressão «Não temais», que ocorre 366 vezes na Bíblia. O nosso texto está estruturado sobre a repetição, a modo de imperativo, do convite a não ter medo (vv. 26.28.31), seguido das razões pelas quais a confiança deve sempre vencer. A primeira razão é: ainda que o bem esteja, por agora, velado, e a astúcia e a virulência do mal pareçam escondê-lo, acontecerá uma reviravolta completa e veremos, no triunfo de Cristo, a vitória dos que escolheram praticar o bem. Eis a razão pela qual os discípulos de Jesus são encorajados à audácia do anúncio. O que recebemos é pequeno como uma luzinha nas trevas, como um sussurro ao ouvido, mas deve ser dado à plena luz do dia, gritado sobre os telhados. Inicialmente, o Evangelho era algo de oculto e misterioso, que era preciso manter em segredo, dado a conhecer a poucos e com as devidas precauções, para não desencadear a perseguição. Mas chegou o tempo de o dar a conhecer ao mundo inteiro! O pior que pode acontecer aos missionários do Reino é a morte do corpo. Mas seria muito pior a morte da alma, a perda da vida (alma significa vida). Ora, só Deus pode tirar a vida. Mas não o faz àqueles que O amam e O temem. Jesus conclui a sua argumentação com duas imagens muito ternas: a dos pássaros que, valendo pouco, são amados pelo Pai, e a dos cabelos da cabeça, contados por Ele. Não há, pois, que temer: «Ide: proclamai que o Reino do Céu está perto!» (Mt 10, 7).
    Meditatio
    Perante a visão de Deus, Isaías treme de medo porque se dá conta da sua fragilidade e necessidade de purificação, e porque é membro de um povo também ele carecido de ser purificado: «Ai de mim, estou perdido, porque sou um homem de lábios impuros, que habita no meio de um povo de lábios impuros» (v. 5). Deus purifica-o, e Isaías dispõe-se a ser profeta no meio do seu povo: «Um dos serafins...trazia na mão uma brasa viva... tocou na minha boca e disse: foi afastada a tua culpa, e apagado o teu pecado!.. Então eu disse: «Eis-me aqui, envia-me».
    O temor de Deus é uma atitude complexa em que confluem o respeito reverente, a obediência, a adesão profunda, a adoração, o amor. Foi sentido por muitos profetas e santos, que fizeram a experiência do encontro com Deus, três vezes santo. Diante d´Ele, damo-nos conta da nossa condição de criaturas e da impureza da nossa vida. Já o salmista rezava: «Senhor, nosso Deus, como é admirável o teu nome em toda a terra! Adorarei a tua majestade, mais alta que os céus... que é o homem para te lembrares dele, o filho do homem para com ele te preocupares?&raq
    uo; (Sl 8, 2.5). Mas, se nos deixarmos penetrar por esta atitude, também poderemos ter toda a confiança na sua misericórdia. Jesus une o temor de Deus e a confiança: «Não se vendem dois pássaros por uma pequena moeda? E nem um deles cairá por terra sem o consentimento do vosso Pai! ... Não temais, pois valeis mais do que muitos pássaros» (vv. 29.31)
    Ambas as leituras nos falam da experiência de temor na presença de Deus, que Se nos revela e chama a uma missão. Mas também em ambas as leituras escutamos a palavra do Senhor que nos diz: «não tenhas medo», «não temais». Aquele que nos ama, nos chama e nos envia, purifica-nos e está connosco: «Não temas: eu estarei contigo»; «não temais, eu estarei convosco» (Ex 3, 12; Dt 31, 6; 31, 15; 1 Cr 28, 20; Jr 1, 17; 46, 28; 30, 11). A Virgem Maria também experimentou a sua condição de criatura limitada e frágil perante a grandeza e poder de Deus, no dia da Anunciação. Por isso, o Anjo lhe diz: «Não tenhas medo, Maria » (Lc 1, 30).
    O medo e a desconfiança, na relação com Deus, mas também na relação connosco ou com os outros, paralisam-nos, transformam-nos em escravos. Mas Paulo adverte-nos: «Vós não recebestes um espírito de escravidão para recair no medo, mas recebestes um espírito de filhos adoptivos, por meio do qual gritamos: "Abbá, Pai!". O mesmo Espírito atesta ao nosso espírito que somos filhos de Deus» (Rm 8, 15-16). «Se vivemos do Espírito, caminhemos segundo o Espírito» (Gl 5, 25). Na relação com Deus, embora conhecendo os nossos limites e os nossos pecados, temos consciência de estar perante um Pai, cheio de amor e de misericórdia. No exercício da missão que nos confia, na sua obra de salvação do mundo, sabemos que não estamos sós, mas que Ele está connosco.
    Oratio
    Senhor, purifica os meus lábios, mas purifica, sobretudo, o meu coração. Quantas vezes alimento pensamentos e desejos, que não nascem da certeza do teu amor, da vontade de lhe corresponder, da confiança em Ti. Quantas vezes, me deixo dominar pelo temor, quando surgem dificuldades e problemas no caminho para Ti, ou na missão que me confiaste. Faz-me escutar novamente a tua palavra: «Não temas; Eu estou contigo!». Purifica-me, Senhor, e dá-me coragem e confiança para aceitar a purificação! Dá-me agilidade no combate espiritual contra as paixões, para que deseje e queira, sempre, em tudo, e somente a tua glória. Assim encontrarei também a paz e a serenidade, que tornarão mais felizes e plenos os breves dias da minha vida. Amen.
    Contemplatio
    As piedosas mulheres, enquanto vão ao sepulcro, dizem entre si: Quem é que nos vai tirar a pedra que fecha o túmulo? Esperam encontrar alguém. As almas amantes não duvidam de nada. Mas Nosso Senhor providenciou, e, ao chegarem lá, vêem a grande pedra afastada. Se tivéssemos mais confiança, quantos obstáculos não se dissipariam!
    Entram na gruta do sepulcro. Está lá um jovem sentado à direita do túmulo, vestido com uma túnica branca resplandecente. São tomadas de espanto. Mas o anjo diz-lhes: «Não temais». Nolite timere, vos. Faz alusão aos guardas, a Pilatos, a todos aqueles que não amam nem conhecem Jesus. Não temais, vós que procurais Jesus, vós que enfrentais os terrores da noite, os horrores do túmulo, a violência dos guardas. Não temais, mas eles, os inimigos, os traidores, os deicidas, esses têm tudo a temer e devem tremer... Não temais, entrai. É Jesus que procurais, já não está aqui, ressuscitou como tinha dito. Vede, foi ali que o puseram. E agora, regressai, depressa, ide ao encontro dos discípulos, e dizei-lhes que ressuscitou, que os precederá na Galileia e que lá o verão». Estão mudas de espanto. Saem do túmulo. Depois, a alegria apodera-se delas, e ei-las que correm para levarem aos discípulos a mensagem angélica (Leão Dehon, OSP 3, p. 378s).
    Actio
    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Não temais» (Mt 10, 26.28.31).
    | Fernando Fonseca, scj |

  • XV Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    XV Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    15 de Julho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    XV Semana - Segunda-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Isaías 1, 10-17

    10Ouvi a palavra do Senhor, ó príncipes de Sodoma; escutai a lição do nosso Deus, povo de Gomorra: 11«De que me serve a mim a multidão das vossas vítimas? - diz o Senhor. Estou farto de holocaustos de carneiros, de gordura de bezerros. Não me agrada o sangue de vitelos, de cordeiros nem de bodes. 12Quando me viestes prestar culto, quem reclamou de vós semelhantes dons, ao pisardes o meu santuário? 13Não me ofereçais mais dons inúteis: o incenso é-me abominável; as celebrações lunares, os sábados, as reuniões de culto, as festas e as solenidades são-me insuportáveis. 14Abomino as vossas celebrações lunares, e as vossas festas; estou cansado delas, não as suporto mais. 15Quando levantais as vossas mãos, afasto de vós os meus olhos; podeis multiplicar as vossas preces, que Eu não as atendo. É que as vossas mãos estão cheias de sangue. 16Lavai-vos, purificai-vos, tirai da frente dos meus olhos a malícia das vossas acções. Cessai de fazer o mal, 17aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo, socorrei os oprimidos, fazei justiça aos órfãos, defendei as viúvas.

    Isaías exerce a sua acção profética em Judá, na segunda metade do século VIII a. C., um período de notável desenvolvimento económico, mas também de relaxamento moral. O profeta clama contra o formalismo religioso. Os ricos, fechados no seu egoísmo, mostram-se insensíveis aos carenciados, cada vez mais numerosos. Mas continuam a praticar o culto, oferecendo numerosas vítimas em holocausto, no templo. Deus, pela boca de Isaías, compara o seu povo às cidades pecadoras de Sodoma e Gomorra, porque não respeita os direitos de Deus nem os deveres da Aliança. O seu culto, desligado da vida, não agrada ao Senhor. Não se pode pretender glorificar a Deus e pisar os fracos e pobres: «Quando levantais as vossas mãos, afasto de vós os meus olhos» (v. 15). Não se podem oferecer holocaustos com as mãos machadas pelo sangue de homicídios. Para beneficiar da Aliança, é preciso converter-se ao Senhor, e abandonar todas as formas de injustiça: «Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo, socorrei os oprimidos, fazei justiça aos órfãos, defendei as viúvas» (vv. 16b-17). Se o povo escutar o profeta, poderá gozar de muitos bens terrenos, prelúdio dos bens celestes. Se não o escutar, será devorado pela espada dos assírios, que pairam no horizonte como terrível ameaça.

    Evangelho: Mateus 10, 34 - 11, 1

    Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos: 34Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada. 35Porque vim separar o filho do seu pai, a filha da sua mãe e a nora da sua sogra; 36de tal modo que os inimigos do homem serão os seus familiares. 37Quem amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Quem amar o filho ou filha mais do que a mim, não é digno de mim. 38Quem não tomar a sua cruz para me seguir, não é digno de mim. 39Aquele que conservar a vida para si, há-de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de mim, há-de salvá-la.» 40«Quem vos recebe, a mim recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou. 41Quem recebe um profeta por ele ser profeta, receberá recompensa de profeta; e quem recebe um justo, por ele ser justo, receberá recompensa de justo. 42E quem der de beber a um destes pequeninos, ainda que seja somente um copo de água fresca, por ser meu discípulo, em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa.» 1Quando Jesus acabou de dar estas instruções aos doze discípulos, partiu dali, a fim de ir ensinar e pregar nas suas cidades.

    «Não vim trazer a paz, mas a espada». Estas palavras contradizem as esperanças messiânicas do príncipe da paz (Is 9, 5), as esperanças de todos aqueles que trabalham e lutam pela paz, bem como as próprias palavras de Jesus, que declarou bem-aventurados os que trabalham pela paz (5, 9). Estamos diante de um paradoxo que não pode justificar a «guerra santa», certos apetites humanos ou determinadas intransigências religiosas. A luta não é dos discípulos contra os outros homens, mas dos outros homens contra os discípulos, nomeadamente contra os missionários do Reino. Mateus continua a tratar das exigências radicais da missão. Nada pode impedir o seguimento de Jesus, ainda que possa causar sofrimentos e provocar rupturas, mesmo dentro da própria família. A sorte do discípulo é semelhante à do seu Mestre. Jesus foi ignorado e não-acolhido pelos seus próprios familiares (cf. Mc 3, 21; Jo 1, 11). O amor à família é um valor. Mas o seguimento e o amor a Cristo devem sobrepor-se a tudo e a todos, devem ser vividos «com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças» (Mc 12, 30). Para o cristão, isso é possível porque Ele nos amou primeiro, até ao ponto de dar a vida por nós.

    Meditatio

    A nossa relação com Deus não pode limitar-se a umas tantas conveniências. Acreditar em Deus, isto é, acolher o dom da fé, que Ele mesmo nos oferece gratuitamente, é assunto de coração, que não pode ficar pela fachada, ou limitar-se a determinados momentos. Deus ama-nos por primeiro e a tempo inteiro. Não podemos amá-lo diferentemente. Por isso, ao nosso culto, deve corresponder uma vida coerente: «De que me serve a mim a multidão das vossas vítimas?... quem reclamou de vós semelhantes dons, ao pisardes o meu santuário? ... Quando levantais as vossas mãos, afasto de vós os meus olhos... as vossas mãos estão cheias de sangue» (cf. vv. 11-15). Não agradam a Deus as ofertas, quando a vida de quem as faz é má: «Lavai-vos, purificai-vos, tirai da frente dos meus olhos a malícia das vossas acções...», - eis o que realmente quer. Uma vez purificados, sim, há que praticar a justiça: «aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo» (vv. 16-17). Só agrada a Deus o sacrifício que está em harmonia com a vida.
    O culto dos chefes de Jerusalém, a quem Isaías dirigia a sua invectiva, era apenas sombra do verdadeiro culto inaugurado por Jesus. Agora podemos rezar, com o salmo responsorial «Aceita, Senhor, o nosso sacrifício de louvor». O sacrifício de Jesus tornou-se também nosso. E podemos oferecê-lo ao Pai, unindo-nos a Jesus, com todo o nosso ser, com toda a nossa vida. Jesus, que Se ofereceu inteiramente ao Pai, insere-nos no seu próprio caminho, desde que sejamos coerentes, desde que Lhe demos o primeiro lugar na nossa vida, como exige o evangelho de hoje: «Quem amar o pai ou a mãe... o filho ou filha mais do que a mim, não é digno de mim» (v. 37); «aquele que perder a sua vida por causa de mim, há-de salvá-la» (v. 39).
    O Espírito, por meio do P. Dehon, suscit
    ou-nos na Igreja como «Oblatos - Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus» (Cst 6.16), isto é, como chamados a unir a nossa vida religiosa e apostólica à oblação reparadora de Cristo ao Pai pelos homens. Toda a nossa vida há-de tornar-se oferenda de amor ao Pai, em comunhão com o sacrifício de Cristo, motivado pelo amor e nele realizado. Mas o amor é algo de muito concreto. Amar a Deus comporta amar o irmão, a irmã, amá-los no seu ser concreto, na situação em que se encontram. Fazer-lhes o bem pode traduzir-se em grandes gestos ou, mais provavelmente, em gestos quotidianos, que facilmente definimos como pequenos, e a que nem sempre damos a devida atenção. São exactamente esses gestos, aparentemente banais, os que mais nos custam a fazer com amor, principalmente quando temos pela frente pessoas difíceis, ou simplesmente desagradáveis. Mas passa por aí o nosso seguimento dos «passos de Cristo», que não nos deixa faltar a sua graça para os realizarmos com amor e fidelidade. Está sempre connosco «Aquele que nos precedeu neste caminho, que o tornou praticável e que deixou atrás de Si, como sinais dos seus passos, pegadas sangrentas» (Directório Espiritual). O seu caminho é o nosso caminho (Cst 12).

    Oratio

    Obrigado, Senhor, por me teres chamado a percorrer o teu próprio caminho de oblação total, até à imolação. Obrigado, porque vais à frente, estimulando os meus passos com o teu exemplo e amparando-os com a tua graça. Sabes como sou fraco e como, tantas vezes, cambaleio para um lado e para o outro, ao sabor das minhas inclinações. Mas Tu tens uma paciência infinita para me esperares, me fazeres ouvir a tua voz, me estenderes a tua mão misericordiosa. Que, jamais, me falte a tua graça, para arriscar à tua palavra, para ousar perder a vida por Ti e para fazer o bem aos meus irmãos. Não me deixes cair no formalismo de uma vida rotineira. Mantém-me na autenticidade do amor para contigo e para com o meu próximo, no quotidiano da vida, sabendo que é lá que me esperas, e queres recompensar. Amen.

    Contemplatio

    Nestas palavras: Ecce vento, Deus ut faciam voluntatem tuam: Eís que venho, ó Deus, para fazer a tua vontade (Heb 10, 7), e nestas outras: Ecce ancília Domini, fiat mihi secundum verbum tuum: Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1, 38), encontram-se toda a nossa vocação, a nossa finalidade, o nosso dever, as nossas promessas.
    Em todas as circunstâncias e acontecimentos, tanto para o futuro como no presente, o ecce venio é quanto basta, desde que esteja gravado na mente e no coração ao mesmo tempo que nos lábios. Ecce venio: Eis que eu venho, ó Deus, para fazer a vossa vontade. Eis-me pronto a fazer, a empreender, a sofrer o que Vós quiserdes, a sacrificar o que me pedirdes.
    Podemos viver sem inquietações, uma vez que a vontade de Deus se faz conhecer a cada instante; e, se, devido à obscuridade, a incerteza invadir o espírito e o coração, perseveremos com paciência e amor neste estado até que praza à sabedoria e à bondade de Deus fazer brilhar de novo a sua luz.
    Uma vítima sabe que nada tem a escolher ou a desejar para si. A sua escolha está feita; o seu futuro está marcado, Quando e como se realizará o seu sacrifício, em que circunstâncias, que duração terá, tudo isso é deixado à livre escolha d'Aquele a quem ela pertence inteiramente.
    Assim, a nossa atitude é o abandono total, o completo deixar fazer, de olhos postos n'Aquele que nos precedeu neste caminho, que o tornou praticável e que deixou atrás de Si, como sinais dos seus passos, pegadas sangrentas. Tal é a nossa vocação.
    Se alguém se entrega deste modo a Nosso Senhor, Nosso Senhor dá-Se-lhe também e então nada lhe poderá faltar. Até os cabelos da vossa cabeça estão contados (Mt 10, 30), dizia Nosso Senhor aos seus discípulos. Não se vendem dois passarinhos por um asse? Todavia nem um deles cairá por terra sem consentimento do vosso Pai (Mt 10, 29).
    Nosso Senhor olha por todas as nossas necessidades, no tempo oportuno, se nos abandonarmos a Ele (Leão Dehon, DSP, ed. portuguesa, nn. 8-9).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Quem não tomar a sua cruz para me seguir,
    não é digno de mim» (Mt 10, 38).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • XV Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    XV Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    16 de Julho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    XV Semana - Terça-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Isaías 7, 1-9

    No tempo em que, 1em Judá, reinava Acaz, filho de Jotam e neto de Uzias. Aconteceu que Recin, rei de Damasco e Pecá, filho de Remalias, rei de Israel, marcharam contra Jerusalém para a combater, mas não puderam apoderar-se dela. 2Chegou a notícia ao herdeiro de David: «Os sírios acampam em Efraim.» Ao ouvir isto, agitou-se o coração do rei e do seu povo, como se agitam as árvores das florestas impelidas pelo vento. 3Então o Senhor disse a Isaías: «Sai ao encontro de Acaz com o teu filho Chear-Yachub, na extremidade do aqueduto da piscina superior, junto à Calçada do Bataneiro, 4e diz-lhe: 'Tranquiliza-te, tem calma, não temas nem te acobardes diante do furor de Recin, rei da Síria, e de Pecá, filho de Remalias: não passam de dois tições fumegantes. 5De facto, a Síria, Efraim e o filho de Remalias decidiram a tua ruína dizendo: 6Vamos contra Judá e sitiemo-la, e proclamaremos rei o filho de Tabiel.'» 7Assim diz o Senhor Deus: «Tal não acontecerá nem se realizará. 8Assim como é verdade que a capital da Síria é Damasco, e que o chefe de Damasco é Recin; 9que a capital de Efraim é Samaria, e que o chefe da Samaria é o filho de Remalias; também é verdade que daqui a cinco ou seis anos Efraim será destruída, deixará de ser povo. Se não o acreditardes, não subsistireis.»

    A partir dos anos 735-733 a. C. a independência política de Judá estava seriamente ameaçada, seja a partir da Assíria, seja a partir de Efraim, aliado à Síria. É com este pano de fundo que abre, no capítulo 7 de Isaías, o chamado «livrinho do Emanuel». Enquanto Acaz prepara a defesa de Jerusalém, e o seu abastecimento de água em caso de assédio, Isaías vai ao encontro dele, com o seu filho simbolicamente chamado «um resto há-de voltar». Não foi um encontro propriamente amistoso, dadas as posições opostas do rei e do profeta no que se referia a política de alianças. Enquanto o rei pretendia aliar-se à Assíria, contra Efraim e a Síria, o profeta opunha-se a essa ideia, insistindo na necessidade de confiar unicamente no Deus da Aliança e das Promessas. O rei pode levar por diante os seus intentos. Judá sofrerá as consequências. Mas Deus não vai faltar à aliança estabelecida com a casa de David. Sobrará «um resto», que garantirá o cumprimento das promessas. Os reis vizinhos são bem pouca coisa diante do rei de Jerusalém, que é o próprio Javé. Há, pois, que confiar plenamente n´Ele!
    Acaz, céptico, deve ter sorrido às palavras de Isaías. O profeta, indignado, ameaça: «Se não o acreditardes, não subsistireis» (v. 9). Acaz devia saber que não era um rei semelhante aos seus vizinhos, mas apenas o representante de Javé, o verdadeiro rei de Jerusalém. Não aceitar essa condição era usurpar o lugar de Deus, era ser infiel à Aliança. Acaz despede-se com uma atitude diplomática de escuta. Mas o profeta não acredita nele.

    Evangelho: Mateus 11, 20-24

    Naquele tempo, 20Jesus começou então a censurar as cidades onde tinha realizado a maior parte dos seus milagres, por não se terem convertido: 21«Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se os milagres realizados entre vós, tivessem sido feitos em Tiro e em Sídon, de há muito se teriam convertido, vestindo-se de saco e com cinza. 22Aliás, digo-vos Eu: No dia do juízo, haverá mais tolerância para Tiro e Sídon do que para vós. 23E tu, Cafarnaúm, julgas que serás exaltada até ao céu? Serás precipitada no abismo. Porque, se os milagres que em ti se realizaram tivessem sido feitos em Sodoma, ela ainda hoje existiria. 24Aliás, digo-vos Eu: No dia do juízo, haverá mais tolerância para os de Sodoma do que para ti.»

    «A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito será pedido» (Lc 12, 48). O texto que hoje escutamos ilustra bem esta afirmação de Jesus. Corazim, Betsaida e Cafarnaúm beneficiaram da primeira actividade taumatúrgica e missionária de Jesus (vv. 21.23). Mas não se converteram. Jesus aponta-as como protótipos da "geração caprichosa" , semelhante às crianças que, em vez de participarem no jogo que outras crianças organizam nas praças, ficam sentadas sem ligarem ao que se passa (cf. Mt 11, 16-19).
    Os milagres, que Jesus realizou nas cidades próximas do lago de Genesaré, levantavam o véu sobre a sua identidade. Eram prova da acção do Espírito, da vitória sobre Satanás, da misericórdia de Deus, que sempre convida o extraviado a regressar à casa paterna. Eram, por assim dizer, obras-palavra, acções pedagógicas, cuja finalidade era levar ao acolhimento de Jesus e da sua mensagem, na fé: «Convertei-vos e acreditai no evangelho» (Mc 1, 15b). Mas as cidades da Galileia não corresponderam ao dom recebido. Tal correspondência pressupõe uma disponibilidade que vem da consciência da necessidade de ser salvo, de ser libertado do mal. Por isso, as cidades pecadoras, tal como Tiro, Sídon e Sodoma, são potencialmente mais dispostas ao evangelho e à conversão.

    Meditatio

    Acaz pensava que a estabilidade do seu reino podia vir da sua política de alianças. Mas Isaías insiste que a única garantia de estabilidade é a fé, que põe à nossa disposição a força de Deus. Na iminência da invasão sírio-efraimita, o rei treme e agita-se «como se agitam as árvores das florestas impelidas pelo vento» (v. 2). Mas Deus, por meio do seu profeta, diz-lhe: «Tranquiliza-te, tem calma» (v. 4). Trata-se de um claro convite à fé e à confiança n´Aquele que pode salvar (cf. Heb 7, 25). Precisamos de regressar a esta atitude de fé e confiança em Deus. Os nossos bons propósitos valem se, em vez de confiarmos em nós, confiamos em Deus. A vida cristã não existe sem a fé, e não subsiste se a fé não for alimentada e não crescer cada dia, porque, sem a fé, é impossível o amor.
    A fé, todavia, não afasta a lucidez da análise do que acontece à nossa volta. Pelo contrário, permite ver em profundidade e tirar as últimas consequências dos fenómenos políticos, sociais, familiares... A fé não impede a aquisição da necessária competência para tratar as questões contingentes. Pelo contrário, estimula-a, com a certeza de que nada se perde, nem mesmo as derrotas e os fracassos, porque Deus é o salvador de tudo quanto existe. A fé alarga os horizontes para além das aparências, e permite reconhecer a obra do Espírito Santo, que orienta o homem para a plena revelação do Pai em Cristo. Abrir-se a este reconhecimento é abrir-se à alegria, mesmo nas dificul
    dades e sofrimentos que a vida nos apresenta.
    Ao analisar a sociedade do seu tempo, com todos os problemas que a afligiam, o Pe. Dehon não o faz como um qualquer sociólogo. O seu olhar de teólogo e de místico, o seu olhar de fé, leva-o a observar a causa mais profunda dos males da sociedade e os remédios adequados para os combater. O mal-estar social é consequência da recusa do amor de Cristo, é consequência do pecado. Para remediar esse mal-estar, é preciso instaurar o Reino de Cristo nas almas e nas sociedades; «a solução da actual questão social» está na «reparação por meio do puro amor...». Esta afirmação do Fundador, perante os seus noviços, pode soar a espiritualismo. Mas a intensa acção social em S. Quintino, os congressos, o jornal, a revista, e os muitos livros de denúncia das injustiças e de divulgação da doutrina social da Igreja, dizem-nos que era um homem com os pés bem assentes na terra. Mas a sua fé mostrava-lhe que, para além de todas as medidas humanas, só a vivência do puro amor pode construir a tão suspirada "civilização do amor".

    Oratio

    Senhor Deus, vivifica em mim o dom da fé, para que possa vivê-lo e testemunhá-lo. Perdoa a dureza do meu coração, que, por vezes, me leva a viver como se Tu não existisses, ou a querer-Te diferente do que és. Perdoa-me escandalizar-me pelo modo como Te revelas na vida de Jesus, e, sobretudo, pelo modo como hoje Te queres revelar na vida da Igreja, e de cada um dos cristãos, também da minha, com todas as contradições, incoerências, fragilidades e infidelidades.
    Dá-me suficiente humildade para acolher-Te no modo como Te queres revelar: no Pão, na Palavra, no irmão, nos acontecimentos da história. Amen.

    Contemplatio

    É na docilidade às inspirações divinas que se encontra a paz, a alegria e a luz. Observemos como as coisas se passavam quando Nosso Senhor ensinava na Palestina. Encontrava corações dóceis, discípulos fiéis que o seguiam com diligência até nos desertos. Acreditavam na sua missão. Consideravam as suas acções, escutavam as suas palavras com fé, com respeito, com edificação. Convertiam-se, agarravam-se a Ele. Eram as ovelhas dóceis do Bom Pastor: Oves vocem ejus audiunt : As suas ovelhas ouvem-no (Jo 10, 3).
    Mas havia também corações indóceis, espíritos rebeldes, como os habitantes de Corozaim, de Cafarnaúm, de Betsaida. Nem os milagres, nem as pregações de Nosso Senhor os convertiam. Procuravam interpretar tudo humanamente e de tudo se escandalizavam. Aos seus olhos, João Baptista era um possesso e Nosso Senhor era o amigo dos pecadores.
    Quais são os escolhos nos quais encalham os espíritos indóceis? É a falta de fé, o orgulho secreto e a lassidão. A nossa pouca fé faz com que prestemos pouca atenção e estima por aquilo que nos vem de Deus; os mistérios não nos tocam, pensamos neles de um modo tão fraco, tão depressa os esquecemos; a sua palavra, as inspirações de Nosso Senhor fazem-nos pouca impressão, somos tão distraídos e tão esquecidos!
    O nosso orgulho secreto coloca-se de parte. Envergonhamo-nos da cruz, não nos podemos decidir a amar os desprezos. A nossa lassidão afasta-nos da doutrina da cruz, recuamos diante da mortificação, a nossa sensualidade tem medo dela. Recordemos as recomendações divinas: já no antigo Testamento o Espírito Santo nos tinha dito: «Tende para com o Senhor sentimentos rectos e buscai-o com sinceridade de coração» (Sab 1). E ainda: «A sabedoria divina entretém-se com as almas simples» (Prov 3, 32).
    Nosso Senhor recomendou a simplicidade dos cordeiros, a das pombas, a das crianças. Esta simplicidade honra-o, alegra-o, ganha o seu coração. (Leão Dehon, OSP 4, p. 570s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Se acreditardes, subsistireis» (cf. Is 7, 9b).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • XV Semana - Quarta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    XV Semana - Quarta-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    17 de Julho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    XV Semana - Quarta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Isaías 10, 5-7. 13-16

    Assim fala o Senhor: 5Ai da Assíria, vara da minha cólera, o bastão das suas mãos é o bastão do meu furor! 6Eu o atirei contra uma nação ímpia, e o lancei contra o povo, objecto do meu furor, para o saquear e despojar e para o calcar aos pés como lama das ruas. 7Mas ele não entendeu assim, nem eram estes os planos do seu coração. O seu propósito era destruir e exterminar muitas nações. 13Realmente ele afirma: «Foi pela força da minha mão que fiz isto, com a minha sabedoria, porque sou inteligente. Mudei as fronteiras dos povos, saqueei os seus tesouros, como um herói derrubei toda aquela gente. 14Apanhei com a minha mão a riqueza dos povos, como quem recolhe os ovos deixados num ninho. Juntei a terra inteira e ninguém bateu as asas, nem abriu a boca para piar.» 15Acaso gloriar-se-á o machado contra quem o maneja? Ou levantar-se-á a serra contra o serrador? Um bastão não pode comandar um homem, é o homem que faz mover o bastão. 16Por isso, o Senhor Deus do universo enfraquecerá com a doença aqueles guerreiros; debaixo do fígado acender-lhes-á uma febre como um fogo de incêndio.

    Este oráculo deve ser entendido no contexto da iminente ameaça da invasão assíria. O rei de Judá, Acaz primeiro, e o seu filho Ezequias, depois, adoptam políticas diferentes diante da super-potência estrangeira. Acaz opta por uma aliança-vassalagem; Ezequias, pela oposição. Mas ambos não escutam Isaías, que prega a fé em Deus, como garantia de estabilidade e de segurança para o reino de Judá. O profeta vê, cada vez mais, a Assíria como instrumento de punição usado por Deus para advertir o seu povo e chamá-lo à conversão. Assim, lança um dos pilares básicos da teologia bíblica: tudo está nas mãos de Deus. A criação e a história estão submetidas aos seus desígnios. Para melhor se fazer compreender, o profeta descreve antropomorficamente a Deus, como se fosse uma pessoa ofendida e ultrajada, e o seu povo espezinhado como pó dos caminhos. A situação não podia durar muito. Se Judá não compreendia o papel da Assíria nos planos divinos, menos ainda Assur o compreenderia. Nunca lhe passaria pela cabeça ser simples instrumento de um Deus estrangeiro. Mas enganou-se, diz Isaías, teólogo da história. A grandeza de um povo, Judá ou outro qualquer, não está na política ou sabedoria humanas, mas na fidelidade aos desígnios de Deus. A história veio a confirmar os oráculos de Isaías.

    Evangelho: Mateus 11, 25-27

    25Naquele tempo, Jesus tomou a palavra e disse: «Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelaste aos pequeninos. 26Sim, ó Pai, porque isso foi do teu agrado. 27Tudo me foi entregue por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai, como ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.»

    O texto que hoje escutamos é como que um meteorito caído do céu joânico. Jesus louva e dá graças ao Pai por actuar de modo tão diferente da lógica humana que exalta o poder e a força em qualquer âmbito da existência. Jesus verifica que são os «pequeninos» que beneficiam da revelação do Pai (v. 25). A revelação da paternidade divina, de que Deus é Pai, sobretudo de Jesus e, por meio d´Ele, dos crentes, é o núcleo fundamental da pregação de Jesus. Na paternidade divina está resumido tudo quanto poderia dizer-se da relação de Deus com os homens. Na filiação divina está resumido tudo o que poderia dizer-se da relação dos homens com Deus. É, pois, o melhor resumo do evangelho.
    O evangelista aproveita a ocasião para declarar a consciência de Jesus e a fé da igreja no mistério das relações trinitárias. O Pai, por amor, dá tudo ao Filho que, por amor, tudo acolhe e tudo restitui ao Pai. O movimento eterno de dom recíproco entre o Pai e o Filho permanece incognoscível à criatura humana. Todavia, por obra do Espírito, efusão perene de amor, o Pai torna-se acessível no Filho e revela-se a si mesmo (v. 27). Tal manifestação é incompreensível à sabedoria humana. Só quem se torna «pequenino», disponível a entrar na lógica da gratuidade de Deus, pode compreendê-la.

    Meditatio

    O homem que recusa a Deus, fecha-se no gueto dos seus instintos, dos seus pontos de vista, de uma inteligência que, por muito que possa percorrer os espaços siderais ou penetrar nas mais pequenas partículas da matéria, não encontra o caminho da alegria, da paz, da plenitude interior. Do mesmo modo, o homem que se sente senhor do mundo, da sua existência e da existência dos outros, não atinge o âmago do que é viver, o seu significado último, que, só por si, lhe dá consistência. Pelo contrário, é isso que é revelado a quem aceita a realidade de ser criatura, pequena diante do Criador, mas tão preciosa para Ele, que a chama a participar da sua vida.
    A primeira leitura apresenta-nos um «entendido» que erra completamente: «Foi pela força da minha mão que fiz isto, com a minha sabedoria, porque sou inteligente. Mudei as fronteiras dos povos, saqueei os seus tesouros... derrubei toda aquela gente» (v. 13). Julga-se inteligente, e não se dá conta de que é um simples instrumento nas mãos de Deus: «Ai da Assíria, vara da minha cólera, o bastão das suas mãos é o bastão do meu furor!... Um bastão não pode comandar um homem, é o homem que faz mover o bastão» (vv. 5.15b).
    Ao contrário do «sábio e entendido» da primeira leitura, os «pequeninos» do evangelho, sobre os quais se inclina o olhar comprazido de Deus, entendem os mistérios do Reino: «Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelaste aos pequeninos» (v. 25).
    É preciso ser «pequeninos» para acolher o dom de reconhecer o mistério de Jesus, para entrar no conhecimento do Pai e do Filho, no segredo da sua vida, conforme é da vontade de Deus. Jesus bendiz o Pai por esta sua vontade, Ele que se fez «pequenino», humilde, manso, completamente disponível a realizar a sua vontade.
    O verdadeiro poder do homem, não depende do que tem, dos meios de que dispõe, mas dos dons do Pai, que os dá a quem é suficientemente pobre para os receber: «Eu Te bendigo, ó Pai, porque revelaste estas coisas aos pobres...» (Mt 11, 25ss). A pobreza cristã, e mesmo a pobreza dos religiosos, não é algo de simplesmente negativo. É bem-aventurança: «Bem-aventurados os pobres» (Lc 6, 20). Bem-aventurados porque lhes é oferecido um encontro de conhecimento e de amor com Jesus e, por meio d
    e Jesus, com o Pai. Bem-aventurados porque, nesse encontro-conhecimento, experimentam a alegria, a paz, o amor, que é Jesus, bem-aventurança de todas as bem-aventuranças.

    Oratio

    Eu Te bendigo, ó Pai, porque nos destes o teu Filho Jesus e, n´Ele, nos revelastes quanto nos amas. Porque decidiste manifestar-Te a nós, posso, agora, falar-Te com a confiança e o atrevimento de um filho.
    Renova no meu coração a certeza da presença do Espírito, que me garanta que és Pai, que Jesus é o Senhor, que sou chamado à bem-aventurança da comunhão Contigo. Sei que sou uma criatura pequena e frágil. Mas também sei que me amas. Que o teu Espírito de sabedoria e de piedade acenda em mim o gosto pela minha pequenez e pela simplicidade, para que possa sempre acolher-Te, qualquer seja o modo com que decidas manifestar-Te. Amen.

    Contemplatio

    São os pobres que Nosso Senhor convida para o festim do reino dos céus (Lc 14, 21). Toda a sua simpatia vai para o pobre Lázaro, abandonado pelo mau rico, e atribui-lhe uma compensação eterna no céu (Lc 16, 19).O único estremecimento de alegria que manifesta na sua vida, vem do facto de que o Pai se digna revelar aos simples e aos pequenos, os mistérios que esconde aos sábios e aos prudentes; e exprime então nitidamente a sua preferência: «O meu Pai colocou tudo nas minhas mãos, diz, chamo quem eu quero ao seu conhecimento, vinde portanto a mim vós que penais e sofreis e vos consolarei» (Mt 11, 25). O Coração de Jesus tem os seus preferidos, amigos que escolheu e que se prendem a ele na vida religiosa, mas é sob a condição de que abracem a pobreza como ele e se façam os amigos dos pobres (Leão Dehon, OSP 4, p. 136s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Eu Te bendigo, ó Pai, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelaste aos pequeninos» (Mt 11, 25).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • XV Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    XV Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    18 de Julho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    XV Semana - Quinta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Isaías 26, 7-9.12.16-19

    7O caminho do justo é recto; é o Senhor quem prepara o caminho do justo. 8Seguindo os caminhos dos teus desejos, Senhor, esperamos em ti. E com que ansiedade pronunciamos o teu nome e nos lembramos de ti! 9A minha alma suspira por ti de noite, e do mais profundo do meu espírito, eu te procuro pela manhã, porque quando exerces sobre a terra os teus julgamentos, os habitantes do mundo aprendem a justiça. 12Senhor, dá-nos a paz, porque és Tu que realizas todos os nossos empreendimentos. 16Senhor, na tribulação, nós recorríamos a ti, quando a força do teu castigo nos abatia.
    17Como a mulher grávida, prestes a dar à luz, se torce e grita nas suas dores, assim éramos nós na tua presença, Senhor. 18Nós concebemos, sofremos dores de parto, e o que demos à luz foi vento. Não demos a salvação ao nosso país, nem nasceram novos habitantes na terra. 19Os teus mortos reviverão, os seus cadáveres ressuscitarão. Despertai e rejubilai vós que jazeis no sepulcro! Pois o teu orvalho é um orvalho de luz, que fará renascer os que não passavam de sombras

    Este texto integra-se num bloco de capítulos (24-27) do livro de Isaías. São versículos extraídos de uma oração (Is 26, 7-19), que faz parte do chamado «Apocalipse de Isaías». O profeta começa com um grito de rectidão e justiça legal, que é todo um programa de vida: «O caminho do justo é recto; é o Senhor quem prepara o caminho do justo» (v. 7). A comunidade reunida em solene liturgia responde, afirmando a sua confiança na justiça de Javé. Isaías serve-se provavelmente de algum salmo popular, retocando-o e incorporando-o no cântico triunfal dos versículos anteriores. Os justos buscam o nome de Javé, isto é, o próprio Deus, na medida em que é possível à limitação humana conhecê-lo, compreendê-lo, amá-lo. Nada poderá desviá-los desse centro de gravidade. Deus realiza as suas obras no meio dos povos, para que todos possam conhecê-lo e viver de acordo com a sua vontade. Sem Deus, todo o empreendimento humano é abortivo. Só na comunhão com Deus podemos alcançar todos os bens e ter sucesso nas nossas iniciativas: «és Tu que realizas todos os nossos empreendimentos» (v. 12). A intervenção de Deus dará novamente a vida a um povo de «mortos», para uma nova e alegre existência (v. 19). O orante proclama uma esperança segura, expressão de fé n´Aquele a quem tudo pertence.

    Evangelho: Mateus 11, 28-30

    Naquele tempo, Jesus exclamou: 28«Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos. 29Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. 30Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.»

    Depois de ter dado graças ao Pai pela revelação recebida, e de ter anunciado o conteúdo dessa revelação (Mt 11, 25-27), Jesus dirige um convite-chamamento a todos «cansados e oprimidos» (v. 28). A imagem do «jugo» (v. 29) fazia parte, primeiramente, da relação «escravo-senhor». Depois foi aplicada à relação «discípulo-mestre». As alianças humanas, também com a divindade, exprimiam-se em categorias de submissão-obediência. A lei de Moisés, tal como a aplicavam os escribas (cf Mt 23, 4), era um «jugo» particularmente duro, um «jugo insuportável» (Heb 12, 10). Cada mestre tinha que impor um «jugo» aos seus discípulos. Os discípulos de Jesus são convidados a pôr-se ao lado d´Ele, a carregar o mesmo jugo, a levar o mesmo estilo de vida: o dos mansos e humildes, dos pobres e pequenos, que compreenderam o mandamento novo da obediência a Deus e do serviço aos irmãos. O jugo, em si mesmo, é pesado. Mas, levá-lo com Jesus, é causa de doçura. O amor exige pesada renúncia aos próprios instintos egoístas. Mas abre os horizontes da verdadeira vida.

    Meditatio

    Isaías convida os seus ouvintes à confiança no Senhor, sempre fiel às suas promessas, atento aos pobres e oprimidos. Do mesmo modo que Deus devasta as cidades pagãs, tornando impraticáveis os seus caminhos, assim também aplana a estrada daqueles que conformam a vida aos seus preceitos. Os que esperam no Senhor, e desejam ardentemente estar em comunhão com Ele, serão saciados de todos os bens, simbolizados na paz.
    O que os homens do Antigo Testamento desejavam e esperavam, foi-nos dado em Jesus Cristo: «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos ... e encontrareis descanso para o vosso espírito». Jesus experimentou os nossos cansaços. Por isso, nos compreende, como compreendeu os Apóstolos, quando, depois de um dia de missão, lhes disse: «Vinde e descansai um pouco» (Mc 6, 31). Ser compreendido já alivia o sofrimento.
    Hoje muitos de nós experimentamos o cansaço e a opressão de uma vida intensa e exigente, muitas vezes marcada por duras tribulações. O Senhor permite-as para que O busquemos: «Senhor, na tribulação, nós recorríamos a ti» (v. 16). É este recurso ao Senhor que nos permite suportar os sofrimentos da vida e torná-los úteis e fecundos, para nós, para o mundo, para a Igreja. E melhor será, se soubermos escutar o convite do Senhor: «Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito» (v. 29). Parece uma contradição: carregar um jugo para descansar! Mas o jugo de Jesus é um jugo de amor. Estando sós, os nossos esforços são vãos, e o sofrimento aproxima-se do desespero, porque não vemos o sentido das nossas fadigas. Mas se aceitarmos o jugo de Jesus, e caminharmos com Ele, tudo ganha sentido, tudo se torna fecundo, e temos a certeza de caminhar para a luz e para a vida.
    «Aprendei de Mim que sou manso e humilde de coração e encontrareis repouso para as vossas almas. O Meu jugo é suave e a minha carga é leve» (Mt 11, 29-30). Jesus não engana ninguém, e muito menos nos engana a nós, chamados a percorrer o seu próprio caminho. As exigências do amor evangélico são um "jugo", uma "carga". Podem, por vezes, exigir-nos heroísmo, como no caso do amor pelos inimigos, no fazer o bem a quem nos faz mal, no rezar pelos nossos perseguidores; mas o "jugo" de Jesus é "suave", a sua "carga leve", porque Ele o carregou antes de nós e agora o leva connosco. Faz-se presente a nós, particularmente no dom dos sacramentos, e na efusão do Espírito Santo, para ser o nosso amparo e guia no caminho das virtudes, possibilitando-nos exercê-las até de modo heróico, irradiando os Seus saborosos frutos na vida comunitária e no apostolado. Assim, podemos transmitir alegria e paz àqueles que encontramos. Assim, como Jes
    us, podemos vencer o mal praticando o bem. Assim, podemos semear esperança, e gritar aos nossos contemporâneos: «Despertai e rejubilai...! O teu orvalho é um orvalho de luz, que fará renascer os que não passavam de sombras» (v. 19).

    Oratio

    Senhor, venho ao teu encontro carregando o peso do meu dia, com o peso dos sofrimentos que oprimem os que me são próximos. Mas dou Contigo a carregar a tua cruz e as cruzes de todos os homens, de quem Te fizeste solidário, irmão. Obrigado Senhor! Como poderia levar sozinho a minha cruz, se nem posso comigo? Obrigado pelo teu convite: «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos». Apoiado por Ti, e em Ti, quero ajudar e levar alívio a tantos irmãos e irmãs, que sofrem muito mais do que eu. No amor, estou certo, todo o peso se torna leve. Amen.

    Contemplatio

    Adoremos Nosso Senhor contemplando no seu Coração sagrado a virtude de humildade e de doçura... Meditamos sobre a virtude de humildade e de doçura. Pode aplicar-se o mesmo método às outras virtudes do divino Coração de Jesus, à sua obediência, à sua pureza, à sua paciência, à sua misericórdia, à sua caridade.
    Consideremos com atenção como Nosso Senhor praticou esta virtude no seu interior e no seu exterior, em Nazaré, na sua vida pública e na sua Paixão.
    Pelo exercício desta virtude, prestou uma glória infinita ao seu Pai; - reparou plenamente as ofensas que lhe tínhamos feito pelos pecados contrários a esta mesma virtude; - libertou-nos das penas eternas que podíamos ter merecido por estes pecados; - ensinou-nos pelo seu exemplo o modo de praticar esta virtude; - finalmente mereceu-nos a graça necessária e conveniente para o fazer.
    Demos-lhe graças por todos estes favores; - ofereçamo-nos a ele para efectuarmos os desejos mais ardentes que ele tem de nos ver ornados com esta virtude; - rezemos-lhe para que nos dê todas as graças de que temos necessidade para cumprirmos em nós os santos desejos do seu Coração (Leão Dehon, OSP 3, p. 535).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração» (Mt 11, 29).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • XV Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    XV Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    19 de Julho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    XV Semana - Sexta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Isaías 38, 1-6.21-22.7-8

    1Naqueles dias, o rei de Judá adoeceu de uma enfermidade mortal. O profeta Isaías, filho de Amós, veio visitá-lo e disse-lhe: «Eis o que diz o Senhor: Faz o testamento, porque vais morrer muito brevemente.» 2Ezequias voltou o rosto para a parede e fez ao Senhor esta oração: 3«Senhor, lembra-te que tenho andado fielmente diante de ti, com um coração sincero e íntegro, pois fiz sempre a tua vontade.» E começou a chorar, derramando lágrimas abundantes. 4Então, a palavra do Senhor foi dirigida a Isaías nestes termos: 5«Vai e diz a Ezequias: 'Eis o que diz o Senhor, o Deus de teu pai David: Ouvi a tua oração e vi as tuas lágrimas; vou acrescentar à tua vida mais quinze anos. 6Hei-de livrar-te, a ti e a esta cidade, das mãos do rei da Assíria e protegê-la-ei.'» 21Depois, Isaías deu esta ordem: «Tragam um emplastro de figos e apliquem-no na parte doente e ficará curado.» 22E Ezequias perguntou: «Qual é o sinal que me garanta que ainda poderei ir ao templo do Senhor?» 7Tomarão até alguns dos teus próprios filhos, para fazerem deles eunucos no palácio do rei da Babilónia.» 8Ezequias respondeu a Isaías: «A palavra do Senhor, que acabas de proferir, é favorável.» E dizia para consigo: «Ao menos assim haverá paz e segurança durante a minha vida.»

    Os capítulos 36 a 39 do livro atribuído a Isaías, donde foi extraída a perícopa com que terminamos a leitura litúrgica do profeta, são obra de um redactor pós-exílico. Os acontecimentos narrados remontam aos últimos anos do século VIII a. C., durante o reinado de Ezequias, estando documentados em 2 Reis e em textos assírios. Estamos antes do assédio posto a Jerusalém, pelo rei assírio Senaquerib, e quinze anos antes da morte de Ezequias. Isaías confirma os seus vaticínios com sinais e milagres. Ezequias adoece gravemente, e o profeta garante que a situação é sem esperança: «vais morrer muito brevemente» (v. 2). O rei, que interpreta a doença como castigo divino, não perde todavia a confiança em Deus e no seu profeta. Reage com uma oração ao estilo dos salmos de súplica, invocando a misericórdia divina. Apresenta a Deus a rectidão da sua vida, cheia de boas obras. Segundo o princípio da retribuição, Deus terá de usar de misericórdia para com ele. Como pode o justo morrer na flor da vida? Javé escuta Ezequias, e acrescenta quinze anos à sua vida de rei. E, não só o rei será curado, mas também Jerusalém, será libertada do rei da Assíria. Afinal estava em causa, não só a vida do rei, mas também a do seu povo.

    Evangelho: Mateus 12, 1-8

    Naquele Tempo, 1Jesus passava, num dia de sábado, através das searas. Os seus discípulos, que tinham fome, começaram a arrancar espigas e a comê-las. 2Ao verem isso, os fariseus disseram-lhe: «Aí estão os teus discípulos a fazer o que não é permitido ao sábado!» 3Mas Ele respondeu-lhes:«Não lestes o que fez David, quando sentiu fome, ele e os que estavam com ele?
    4Como entrou na casa de Deus e comeu os pães da oferenda, que não lhe era permitido comer, nem aos que estavam com ele, mas unicamente aos sacerdotes? 5E nunca lestes na Lei que, ao sábado, no templo, os sacerdotes violam o sábado e ficam sem culpa? 6Ora, Eu digo-vos que aqui está quem é maior que o templo. 7E, se compreendêsseis o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício, não teríeis condenado estes que não têm culpa. O Filho do Homem até do sábado é Senhor.»

    Mateus narra uma das numerosas controvérsias entre Jesus e os especialistas da Lei (os escribas), por um lado, e os leigos piedosos (os fariseus), por outro. Eram confrontos inevitáveis. A religião deve ser libertadora. Mas aqueles dirigentes tinham-me feito escravizante, tinham-na tornado aquele jugo insuportável de que falámos ontem.
    O repouso sabático, inicialmente, era uma lei humanitária, que visava proporcionar descanso a quem trabalhava, aos homens livres e aos escravos, e mesmo aos animais. O sábado era um dia de festa para todos, lembrando a libertação da escravidão do Egipto, e antecipando o repouso escatológico, quando a criatura participar no repouso de Deus (cf. Heb 4, 9-11). Mas essa lei ao serviço do homem, tinha sido transformada na mais sagrada das instituições divinas. Por isso, a afirmação de Jesus «o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado» (Mc 2, 27), soou a verdadeira blasfémia.
    Hoje, encontramos outra grave declaração de Jesus sobre o sábado: «O Filho do Homem até do sábado é Senhor» (v. 8). Uma tal afirmação significa que a autoridade de Jesus é superior à de Moisés, em força da sua relação especial com aquele Deus a quem se pretende honrar com a observância do sábado. Ele, e só Ele, pode definir o que é lícito e o que o não é. Depois de revelar o amor do Pai, Jesus repõe o homem no centro do verdadeiro culto: prestar culto a Deus não pode ser algo de separado da atenção ao homem, que Deus criou e ama. Não pode haver conflito entre a lei religiosa e as exigências do amor ao próximo. A história de Israel confirma-o, uma vez que a sacralidade dos pães da oferenda não impediu David e os seus homens famintos de se alimentarem com eles (vv. 3s.).

    Meditatio

    Deus é o Absoluto, o Infinito, o Imutável. Mas não é rígido, estático e duro como uma pedra. O Deus da Bíblia é vivo, respeitoso das suas criaturas, pronto a acolher as súplicas dos homens, e até a mudar os seus desígnios. As leituras que hoje escutamos apontam nesse sentido.
    Na primeira leitura, Isaías comunica a Ezequias a palavra do Senhor: «Faz o testamento, porque vais morrer muito brevemente» (v. 1). Parece uma decisão irrevogável. Mas Ezequias, amargurado, volta o rosto para a parede, suplica, derrama abundantes lágrimas. Deus deixa-se sensibilizar, e muda a sua decisão: «Vai e diz a Ezequias: 'Eis o que diz o Senhor, o Deus de teu pai David: Ouvi a tua oração e vi as tuas lágrimas; vou acrescentar à tua vida mais quinze anos» (v. 5).
    O evangelho revela-nos algo de semelhante. Os fariseus imaginavam um Deus rígido, inflexível, absolutamente cioso da observância da lei do sábado. Mas Deus, em Jesus, revela-se mais interessado no bem-estar do homem, do que na observância da lei sacralizada do repouso sabático. A lei é para ser observada, com certeza. Mas, mais do que o sacrifício, Deus, bom e compassivo, prefere a misericórdia. Só o amor é absolutamente prioritário. E o amor sabe adaptar-se às circunstâncias, torna-nos versáteis e misericordiosos. Uma religião do amor é mais exigente do que uma religi&atil
    de;o que reduz tudo à observância de leis imutáveis e inflexíveis. A observância desse tipo de leis pode dar segurança, paz de consciência, e até oferecer um critério imediato de juízo do que é justo e do que o não é. Como no tempo de Jesus, é uma operação que continua a ter sucesso, também hoje, quando sentimos necessidade de pontos seguros de referência, verificáveis, mas nem sempre estamos dispostos a formar uma consciência iluminada, capaz de discernimento, para aprendermos a acolher cada pessoa na sua inconfundível unicidade.
    Jesus continua a recordar aos fariseus, de ontem e de hoje, que Deus é misericórdia, e que tudo o que é feito em seu nome, ou apresenta os sinais característicos da misericórdia, ou é falso. Por isso, será bom interrogar-nos: Como é a minha religião? Jesus é, de facto, o meu Senhor e Mestre? Não será a minha religião uma construção minha, aparentemente devota, mas pagã? Se nos comportamos como patrões de Deus e da sua graça, se a nossa relação com Ele fica sempre pelo mínimo, pela lei, pelo dever, excluímo-l´O da nossa vida, julgando-nos senhores de nós mesmos e dos outros. Sirva-nos de exemplo o grito de Ezequias. Deus não se deixa vencer em generosidade, a sua misericórdia derrama-se sobre os que n´Ele confiam, e estão dispostos a alargar o coração à medida do seu Coração.

    Oratio

    Senhor, meu Deus, Tu és amor e revelaste-Te para nos ajudar a viver no amor e não numa passiva sujeição. Quão difícil é viver o teu dom! A liberdade do amor assusta-me e, muitas vezes, prefiro refugiar-me nos meandros da lei sem coração. A partir daí, entrincheirado nas minhas seguranças, disparo sentenças mortíferas como balas. Tu, meu Deus, sempre fiel e misericordioso, ensina-me o engano de uma justiça cega e impiedosa. Faz-me semelhante a Ti, de modo que, para os meus irmãos e irmãs, seja sempre sacramento da tua misericórdia infinita. Amen.

    Contemplatio

    «A terceira virtude que é preciso honrar no Sagrado Coração, diz ainda o P. Cláudio de la Colombière, é a sua compaixão muito sensível pelas nossas misérias, o seu amor imenso por nós apesar destas mesmas misérias, e, apesar destes movimentos e impressões, a sua igualdade inalterável causada por uma conformidade tão perfeita à vontade de Deus, que não podia ser perturbada por nenhum acontecimento».
    Não foi na misericórdia do seu Coração que ele nos visitou: Per viscera misericordiae in quibus visitavit nos (Lc 1, 78). Quando Jesus encontra doentes, mortos, o seu Coração não pode resistir às lágrimas daqueles que os rodeiam. Emudecido de piedade, cura-os, dá-lhes a vida: misericordia motus (Lc 7, 13). Vendo a multidão sem provisões para a sua refeição, tem compaixão dela: misereor super turbam (Lc 10, 33).
    «Este Coração está ainda, quanto isso ainda possa ser, nos mesmos sentimentos, observa o P. Cláudio de la Colombière, está sempre ardente de amor pelos homens, sempre aberto para espalhar todas as espécies de graças e de bênçãos, sempre tocado pelos nossos males, sempre pressionado pelo desejo de nos dar a participar nos seus tesouros e a dar-se a si mesmo a nós, sempre disposto a nos receber, e a nos servir de asilo, de morada e de paraíso, desde esta vida». Mantendo-me unido ao Coração de Jesus e meditando nos seus mistérios, participarei cada vez mais nas suas virtudes (Leão Dehon, OSP 3, p. 668s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Prefiro a misericórdia ao sacrifício» (Mt 12, 7).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • XV Semana - Sábado - Tempo Comum - Anos Pares

    XV Semana - Sábado - Tempo Comum - Anos Pares


    20 de Julho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    XV Semana - Sábado

    Lectio

    Primeira leitura: Miqueias 2, 1-5

    1Ai dos que planeiam a iniquidade, dos que maquinam o mal em seus leitos, e o executam logo ao amanhecer do dia, porque têm o poder na sua mão! 2Cobiçam as terras e apoderam-se delas, cobiçam as casas e roubam-nas; fazem violência ao homem e à sua família, ao dono e à sua herança. 3Por isso, assim fala o Senhor: «Tenho planeado um mal contra esta raça, do qual não livrareis o pescoço. Não andareis mais com a cabeça erguida, porque será tempo calamitoso. 4Naquele dia será composta sobre vós uma sátira, e cantar-se-á uma elegia: 'Estamos perdidos completamente, a parte do meu povo passa a outros. Ninguém a restituirá. Roubam e distribuem os nossos campos.' 5Por isso, não terás ninguém que meça com cordel as porções, na assembleia do Senhor.»

    No contexto social e religioso da segunda metade do século VIII a. C., tal como Isaías, o profeta Miqueias denuncia os pecados sociais, cometidos pelos chefes, nomeadamente a casa real, os sacerdotes e os profetas, que acabam por arrastar para os mesmos crimes todo o povo. O profeta não faz uma lista exaustiva desses pecados, mas aponta alguns, que ilustram bem a malícia imperdoável da opressão dos fracos. O justo juízo de Deus é inevitável e não tardará. Infelizmente, as situações denunciadas por Ezequias, continuam actuais no mundo em que vivemos. O profeta usa expressões muito duras contra aqueles que praticam tais actos, ameaçando inclusivamente com o exílio, simbolizado pelo jugo ignominioso anunciado ao seu povo: «Tenho planeado um mal contra esta raça, do qual não livrareis o pescoço». «Nesse dia», o dia concreto que não tardará a tornar-se escatológico, a desgraça converter-se-á em motivo de sátiras e lamentações. Será a completa humilhação. Os grandes e poderosos roubaram terras e haveres aos pobres, e perderão a Terra Prometida, com todos os bens. O castigo será feito da mesma matéria que o pecado do homem. Mas, um pequeno «resto» conservou íntegra a fé. Por causa deles, Deus voltará a ter compaixão do seu povo, dar-lhe-á uma nova fecundidade, que lhe garantirá a subsistência.

    Evangelho: Mateus 12, 14-21

    Naquele tempo, 14os fariseus, saindo dali, reuniram-se em conselho contra Jesus, a fim de o matarem. - 15Quando soube disso, Jesus afastou-se dali. Muitos seguiram-no e Ele curou-os a todos, 16ordenando-lhes que o não dessem a conhecer. 17Assim se cumpriu o que fora anunciado pelo profeta Isaías: 18Aqui está o meu servo, que escolhi, o meu amado, em quem a minha alma se deleita. Derramarei sobre Ele o meu espírito, e Ele anunciará a minha vontade aos povos. 19Não discutirá nem bradará, e ninguém ouvirá nas praças a sua voz. 20Não há-de quebrar a cana fendida, nem apagar a mecha que fumega, até conduzir a minha vontade à vitória. 21E, no seu nome, hão-de esperar os povos!

    Jesus atreveu-se a pôr em causa o absoluto da lei sobre o repouso sabático. Isso só não Lhe custou a vida, porque, ao saber que os seus adversários tinham decidido matá-lo, saiu dali, continuando noutros lugares a sua actividade taumatúrgica e missionária. Os milagres narrados por Mateus, logo depois da cura, ao sábado, do homem que tinha a mão paralisada (Mt 12, 10ss.), provam a autenticidade do amor misericordioso de Deus, que Jesus veio anunciar, e que é o centro e o sentido do seu ministério. Mateus vê realizada em Jesus a profecia de Is 42, 1-4, onde é apresentada a figura do Servo de Javé. Escolhido e enviado por Deus, que o encheu do seu Espírito, o Servo realizará a missão de dar a conhecer a todos os povos a verdadeira relação entre Deus e os homens. O estilo do Servo, manso e humilde, alheio a conflitos e a barulhos, atento a valorizar toda a possibilidade de vida, realiza-se totalmente em Jesus «manso e humilde de coração» (Mt 11, 29), e que pede silêncio sobre as suas obras (cf. Mt 12, 16).
    Mateus, mais uma vez, acentua que, em Jesus se realizam as esperanças judaicas, ajuda a interpretar o evento-Jesus, a compreender-lhe o significado, e apresenta-O como modelo de obediência à palavra do Pai.

    Meditatio

    Os profetas do Antigo Testamento com muita frequência se atiram contra as prepotências dos ricos em relação aos pobres, por sensibilidade social, com certeza, mas, sobretudo, por sensibilidade teológica: as injustiças entre os homens quebram a relação com Deus. O mal que se faz ao homem é mal feito a Deus.
    O império da lei da prepotência, dos que são economicamente mais poderosos, continua tragicamente actual. As tragédias que a ganância de poucos provocam, com indizíveis sofrimentos para muitos, repetem-se diariamente, por toda a face da terra. O dinheiro revela-se uma arma mais letal do que as ogivas nucleares, quando usado unicamente em vista dos interesses de alguns. Quando o dinheiro se torna o objectivo da vida, não admite rivais. Quem se entrega ao dinheiro, não consegue ver mais ninguém senão a si mesmo. É por isso que Jesus disse que, ou se serve a Deus, ou se serve ao dinheiro. Não há compromisso possível.
    Mas, um dos sinais do nosso tempo, é também um crescente movimento contra as injustiças. Como cristãos, não podemos deixar de participar nele, com todos os homens de boa vontade. Mas o nosso verdadeiro modelo é Jesus. Ora o Senhor sabe juntar a força e a mansidão, que não levanta contendas e não grita, que não faz gestos espectaculares, mas também não volta atrás e que, se se afasta dos adversários, é para ajudar quem precisa: «Muitos seguiram-no e Ele curou-os a todos» (v. 15).
    É esta a luta que Jesus leva por diante com mansidão e amor para com todos, sabendo que isso O levará à morte.
    Como cristãos e como dehonianos, devemos ser contrários a toda a forma de luta violenta, mas também agir energicamente com todas as iniciativas não violentas, para afirmar a justiça, o respeito pelos direitos humanos e a caridade no mundo, como sugere o Segundo Sínodo dos Bispos sobre a Justiça no mundo, tendo presente os ensinamentos da História acerca da conquista não violenta da liberdade e da independência política em várias nações, desde a Índia de Gandhi, à Polónia, aos povos do Leste europeu.

    Oratio

    Senhor, livra-me de cometer a injustiça, de aceitá-la contra os outros, mas também de a querer combater por meios violentos. Tu, manso e humilde de coração, ensina-me a não-violência, porque a violência é já injustiça, mãe de outras violências e injustiças piores. Tu, que quiseste ser pobre por meu amor, faz-me compreender que não posso enriquecer de qualquer modo e a qualquer custo, mesmo à custa do respeito e dos direitos dos meus irmãos. Tu, que estás atento a todos, ajuda-me a esquecer-me de mim, e a cu
    idar carinhosamente de todos os irmãos, particularmente dos mais frágeis e carenciados. Amen.

    Contemplatio

    O Coração sacerdotal de Jesus foi particularmente dedicado às classes populares. Era necessário renovar o mundo. Em Roma, a escravatura era como um animal de carga. Dez milhões de cidadãos eram servidos por cem milhões de escravos. Na Palestina, os fariseus eram arrogantes e sem coração. Só um Deus podia dizer aos homens: «Vós sois todos irmãos» (Mt 23). «Amai-vos uns aos outros» (Jo 15). É a missão de Jesus, foi sob este aspecto que os profetas no-lo apresentaram: «Será totalmente penetrado pelo Espírito de Deus, trará a boa nova aos pequenos e aos humildes, remediará todos os infortúnios, pregará o grande jubileu, com o perdão das dívidas e a reabilitação dos pobres» (Is 61).
    Toda a reforma económica e social está em germe nos princípios que coloca: a paternidade divina e a fraternidade de todos os homens. Dá o exemplo da simplicidade e do trabalho. Escolheu a oficina para sua morada, os pastores para os seus primeiros adoradores. É operário e filho de operário. Vede-o em Nazaré com a mesa e os utensílios do carpinteiro. Despreza a riqueza, o luxo e as honras. Reclama para os operários a justiça, o respeito, a afeição fraterna. 1º A justiça. - «O trabalhador tem direito ao seu salário, ao seu pão, ao que exige a sua vida quotidiana: Dignus est operarius mercede sua, cibo suo» (Mt 10; Lc 10). S. Tiago desenvolve este preceito: «Ricos avarentos, exclama, os vossos tesouros atrairão a cólera de Deus sobre vós. Os vossos trabalhadores sofreram nos vossos campos e só lhes destes um salário tardio e insuficiente» (Tg 5). 2º Respeito. - «Bem-aventurados os que são mansos, pacíficos e misericordiosos» (Mt 5). - «Aquele que não tem cuidado com os seus servos é mais desprezível do que um pagão» (1 Tim 5). 3º A afeição fraterna. «Vós sois todos irmãos» (Jo 15). «Não deve haver entre vós distinção entre escravos e homens livres. Non est servus neque liber» (Gal 3). «Amai e praticai a fraternidade» (1 e 2Pd; Tes 4). (Leão Dehon, O Coração sacerdotal de Jesus, 26ª meditação, p. 603s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «N´Ele, hão-de esperar os povos!» (Mt 12, 21).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • S. Maria Madalena

    S. Maria Madalena


    22 de Julho, 2024

    Maria, presumivelmente nascida em Magdala, pequena povoação nas margens do lago de Tiberíade, é uma das mulheres que seguiram e serviram o Senhor durante a sua vida pública (cf. Mt 20, 55s.). Diz-se que, libertada por Jesus da opressão dos demónios, O seguiu fielmente até aos pés da cruz. Quando, no primeiro dia da semana, foi ao túmulo de Jesus, e o encontrou vazio, permaneceu junto dele a chorar e a perguntar pelo seu Mestre. Encontrou-O quando O ouviu chamar pelo seu nome: "Maria!". E tornou-se a primeira testemunha da Ressurreição, levando a Boa Notícia aos próprios Apóstolos.

    Lectio

    Primeira leitura: Cântico dos Cânticos 3, 1-4ª

    Eis o que diz a esposa: No meu leito, toda a noite, procurei aquele que o meu coração ama; procurei-o e não o encontrei. 2Vou levantar-me e dar voltas pela cidade: pelas praças e pelas ruas, procurarei aquele que o meu coração ama.Procurei-o e não o encontrei.3Encontraram-me os guardas que fazem ronda pela cidade: «Vistes aquele que o meu coração ama?» 4Mal me apartei deles, logo encontrei aquele que o meu coração ama.

    O livro do Cântico dos Cânticos, não só consagra o amor entre o homem e a mulher, mas é, sobretudo, a expressão simbólica do amor de Deus pelo seu povo. Também aquele e aquela que têm sede de Deus experimentam longas noites de silêncio, de incompreensível ausência, que lhes purificam os desejos, por vezes bastante redutivos. E, então, reacende-se o desejo de Deus, mais ardente, mais desinteressado, mais vital. É preciso perseverar na ânsia de encontrar a Deus, pedir ajuda e conselho a quem possa ajudar a encontrá-lo, sabendo que Ele é maior do que os nossos desejos e do que aqueles que nos ajudam a procurá-lo. Se não desistirmos de O procurar, Ele aparecerá quando e onde menos O esperarmos.

    Evangelho: João 20, 1.11-18

    No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo logo de manhã, ainda escuro, e viu retirada a pedra que o tapava. 11E ficou junto ao túmulo, da parte de fora, a chorar. Sem parar de chorar, debruçou-se para dentro do túmulo, 12e contemplou dois anjos vestidos de branco, sentados onde tinha estado o corpo de Jesus, um à cabeceira e o outro aos pés. 13Perguntaram-lhe: «Mulher, porque choras?» E ela respondeu: «Porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram.» 14Dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus, de pé, mas não se dava conta que era Ele. 15E Jesus disse-lhe: «Mulher, porque choras? Quem procuras?» Ela, pensando que era o encarregado do horto, disse-lhe: «Senhor, se foste tu que o tiraste, diz-me onde o puseste, que eu vou buscá-lo.» 16Disse-lhe Jesus: «Maria!» Ela, aproximando-se, exclamou em hebraico: «Rabbuni!» - que quer dizer: «Mestre!» 17Jesus disse-lhe: «Não me detenhas, pois ainda não subi para o Pai; mas vai ter com os meus irmãos e diz-lhes: 'Subo para o meu Pai, que é vosso Pai, para o meu Deus, que é vosso Deus.'» 18Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: «Vi o Senhor!» E contou o que Ele lhe tinha dito.

    Maria de Magdala, com o seu ardente amor por Jesus, permanece fiel mesmo depois da tragédia do Calvário. Procura-o obstinadamente, e nem o sepulcro vazio a fazem desanimar. Esta mulher é símbolo da Igreja/Esposa, e de toda a alma que procura a Cristo, sabendo que não tem para Lhe oferecer senão lágrimas de amor. O Senhor Ressuscitado e Glorioso deixa-se encontrar por quem assim O procura. Mas só O reconheceremos quando Ele nos chamar pelo nome e nos der a perceber que nos conhece mais a fundo do que pensamos. O encontro encher-nos-á de alegria e far-nos-á viver uma vida nova transfigurada pelo Senhor.

    Meditatio

    Maria Madalena é, para nós, modelo de amor ardente, fiel, reverente, um amor que não sabe e não quer estar longe d´Aquele que ama e que O procura mesmo depois da morte.

    Há diversos tipos de investigação, de procura. A investigação científica, a investigação literária, a procura do sucesso. E todas dão algum sentido à vida. Mas a investigação mais adequada ao homem, mais digna dele é a procura de Deus por amor. Tal procura faz o homem sair de si mesmo em direção ao outro, ao amado, a Cristo, Deus feito homem. "Procurei-o e não o encontrei", diz a esposa dos Cantares. E teve que sair de casa e da cidade para o encontrar. Maria Madalena poderia dizer o mesmo, pois nem sequer encontrou o corpo do seu Senhor. Mas não desistiu de O encontrar, como, tantas vezes, fazemos nós, nos momentos de desolação. Ficou junto ao túmulo, a chorar, a fazer perguntas... E encontrou-O! Encontrou-O quando, Ele mesmo, se deu a conhecer, chamando-a pelo nome: "Maria!". Então, abriram-se-lhe os olhos da mente e do coração: "Rabuni!", exclamou. Os nossos esforços são precisos. Mas não são suficientes para encontrar Jesus. A fé é um dom, uma graça. Há que procurar persistentemente, tenazmente, na oração. Mais tarde ou mais cedo o Senhor revela-nos a sua grandeza e poderemos gritar: "Vi o Senhor!" e dar testemunho do Ressuscitado, como Madalena, os Apóstolos e tantos irmãos ao longo da história, e ainda nos nossos dias. Quem conheceu a longa noite da espera e do desejo tornou-se, muitas vezes, testemunha ardorosa e eficaz da Ressurreição do Senhor.

    Oratio

    Santa Maria Madalena, derramando lágrimas, e procurando Jesus, acabaste por encontrá-lo. Bebeste na fonte da misericórdia, e foste saciada. Tornaste-te a primeira testemunha da Ressurreição, e a evangelizadora dos próprios Apóstolos. Hoje, dirijo-me a ti, confiando na tua poderosa intercessão junto do Senhor Jesus. Também eu sou pecador. Também eu procuro o meu Senhor, no meio de muitas trevas. Alcança-me a graça da compunção, a graça da humildade, e o desejo da pátria celeste. Que lave os meus pecados nas lágrimas do arrependimento e seja saciado do amor e da misericórdia que brotam do Lado aberto e do Coração trespassado do meu Senhor. Ámen.

    Contemplatio

    Jesus pede o amor puro, o amor desinteressado. Quer que aceitemos a aridez, se ela se apresenta, e que mesmo procurando-o, saibamos prescindir da doçura da sua presença. Procuremos Jesus com um amor desvelado, como Madalena, com um amor verdadeiramente dedicado, com o desejo de lhe oferecer o perfume do nosso afeto e da nossa compaixão. Não podemos estar sempre junto de Jesus na oração, saibamos também servi-lo na pessoa dos seus irmãos. Jesus diz a Madalena: «Vai ter com os meus irmãos para lhes participares a minha ressurreição». Vamos ter com os seus irmãos para lhes sermos piedosamente úteis, edificando-os, falando-lhes d'Ele, realizando junto deles algum ato de apostolado. Procuremos Jesus fielmente e de todo nunca o abandonemos, nem por temor, nem por desânimo, nem por causa da nossa vida passada, nem por causa das tentações e das perseguições. Com que ardor Madalena procura o seu bem amado! Ela é a primeira junto do sepulcro no dia de Páscoa. Lá está antes do nascer do dia. Corre a informar-se junto de S. Pedro e de S. João. Volta, mantém-se lá à espera, chora. Dirige-se àquele que ela julga ser o jardineiro, e é Jesus mesmo que a recompensa com o seu afeto tão terno. Mas diz-lhe o «Não me toques!», para lhe recordar que o nosso amor deve ser absolutamente puro, sobrenatural e desinteressado. (Leão Dehon, OSP 4, p. 82s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:

    "Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura" (2 Cor 5, 17)

    ----

    S. Maria Madalena (22 Julho)

    XVI Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    XVI Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    22 de Julho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    XVI Semana - Segunda-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Miqueias 6, 1-4. 6-8

    1Ouvi o que diz o Senhor: «Levanta-te! Advoga a tua causa diante das montanhas, e ouçam as colinas a tua voz! 2Ouvi, ó montanhas, o processo do Senhor, prestai atenção, fundamentos da terra! Porque o Senhor entrou em litígio com o seu povo, e vai litigar com Israel: 3'Povo meu, que te fiz, ou em que te contristei? Responde-me. 4Tirei-te da terra do Egipto, livrei-te da casa da escravidão e enviei, diante de ti, Moisés, Aarão e Míriam. 6Com que me apresentarei ao Senhor, e me prostrarei diante do Deus excelso? Irei à sua presença com holocaustos, com novilhos de um ano? 7Porventura o Senhor receberá com agrado milhares de carneiros ou miríades de torrentes de azeite? Hei-de sacrificar-lhe o meu primogénito pelo meu crime, o fruto das minhas entranhas pelo meu próprio pecado? 8Já te foi revelado, ó homem, o que é bom, o que o Senhor requer de ti: nada mais do que praticares a justiça, amares a lealdade e andares humildemente diante do teu Deus.

    Este oráculo de Miqueias é um significativo exemplo do género literário chamado requisitório judicial, muito usado quando se pretendia fazer justiça. Invocavam-se as divindades como principais testemunhas e também a própria natureza. Javé, «em litígio com o seu povo» (v. 2), não pode arrolar como testemunhas outros deuses, mas arrola toda a criação.
    A acusação de Javé contra Israel tem o tom de uma lamentação cheia de ternura. Israel é o povo de Deus, escolhido e constituído como tal (cf. Dt 32, 6), guiado para a liberdade, ligado a Deus por uma aliança eterna. E tudo apenas porque Deus o ama (cf. Dt 7, 7s.). Mas Israel tornou-se um povo infiel. E é disso que Deus o acusa, recordando-lhe as origens e tudo o que fez por ele. Deus espera que o seu povo tome consciência da própria identidade e a manifeste com uma vida coerente.
    Israel reconhece o seu pecado e dispõe-se a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para aplacar a indignação divina: numerosos sacrifícios cruentos de animais valiosos, abundantes sacrifícios incruentos e, até, a imolação de primogénitos, usada entre os cananeus, mas que a Lei lhes proibia.
    O profeta intervém para reafirmar a vontade de Deus, tantas vezes manifestada pelos profetas. Miqueias sintetiza em três pontos as exigências da vontade divina: justiça social, amor (cf. Ex 20, 12-17; Dt 5, 16-21), submissão obediente e dócil a Deus, vivendo permanentemente na sua "companhia". O orgulho e a arrogância afastam de Deus e separam do próximo. O amor e a humildade restauram a comunhão com Deus e com os irmãos.

    Evangelho: Mateus 12, 38-42

    Naquele tempo, 38 intervieram, então, alguns doutores da Lei e fariseus, que lhe disseram: «Mestre, queremos ver um sinal feito por ti.» 39Ele respondeu-lhes: «Geração má e adúltera! Reclama um sinal, mas não lhe será dado outro sinal, a não ser o do profeta Jonas. 40Assim como Jonas esteve no ventre do monstro marinho, três dias e três noites, assim o Filho do Homem estará no seio da terra, três dias e três noites. 41No dia do juízo, os habitantes de Nínive hão-de levantar-se contra esta geração para a condenar, porque fizeram penitência quando ouviram a pregação de Jonas. Ora, aqui está quem é maior do que Jonas! 42No dia do juízo, a rainha do Sul há-de levantar-se contra esta geração para a condenar, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. Ora, aqui está alguém que é maior do que Salomão!»

    A atitude dos doutores da lei e dos fariseus representa aquilo a que se poderia chamar "racionalismo religioso". É a atitude daqueles que, para crerem, exigem acontecimentos sensacionais extraordinários. Jesus indigna-se com essa posição. Ele e a sua palavra são "o sinal" a acolher por aqueles que querem conhecer os mistérios do reino de Deus (cf. Mt 11, 25-27). Por isso, em Marcos, recusa outros sinais (cf. 8, 11). Em Mateus faz o mesmo, ao lembrar o sinal Jonas. Os ninivitas pagãos souberam reconhecer em Jonas um sinal de Deus e converteram-se. Os doutores da lei e os fariseus nem o sinal da morte e da ressurreição do Filho do homem haviam de reconhecer. É que um sinal de Deus só se compreende a partir da fé! E a fé não resulta de uma evidência, de um cálculo lógico, mas da disponibilidade para acolher o dom de Deus, que é o próprio Jesus. Os doutores da lei e os fariseus não tinham essa disponibilidade. Como poderiam compreender o sinal de Jesus morto e ressuscitado? A rainha do Sul fez uma longa viagem para ouvir Salomão (1 Rs 10). Mas eles recusavam-se a escutar Jesus, que é muito mais do que Salomão, porque é a sabedoria e a Palavra de Deus em pessoa, o sinal definitivo de Deus para o mundo.

    Meditatio

    Na primeira leitura, Deus move um processo contra Israel. Arrola como testemunha a Natureza, que assistiu espantada às maravilhosas intervenções com que tirou o seu povo do Egipto e o conduziu à terra da liberdade. Começa por um requisitório com as perguntas que a Igreja agora utiliza na liturgia de sexta-feira santa: «Povo meu, que te fiz, ou em que te contristei? Responde-me. Tirei-te da terra do Egipto, livrei-te da casa da escravidão e enviei, diante de ti, Moisés, Aarão e Míriam» (vv. 3-4). O povo mostra-se surdo às lamentações amorosas de Deus, e permanece na ingratidão. Mas, de repente, mostra-se disposto à conversão e até a uma exagerada generosidade: «Com que me apresentarei ao Senhor, e me prostrarei diante do Deus excelso? Irei à sua presença com holocaustos, com novilhos de um ano? Porventura o Senhor receberá com agrado milhares de carneiros ou miríades de torrentes de azeite? Hei-de sacrificar-lhe o meu primogénito pelo meu crime, o fruto das minhas entranhas pelo meu próprio pecado?» (vv. 6-7). Contudo, Deus não quer do homem ofertas mirabolantes. Apenas quer as que já lhe foram indicadas: «nada mais do que praticares a justiça, amares a lealdade e andares humildemente diante do teu Deus» (v. 8). O "extraordinário", que Deus pretende de nós, é que caminhemos com Ele na simplicidade, abrindo-nos aos seus dons e às suas inspirações.
    Quantas vezes, também nós, como os doutores da lei e os escribas, exigimos de Deus sinais extraordinários, como se Ele estivesse pronto a satisfazer mecanicamente os nossos caprichos. Mas, o que Deus quer é estabelecer connosco uma relação pessoal na liberdade e na responsabilidade. Quer ajudar-nos a crescer e deseja-nos adultos no espírito. Não pretende que queimemos etapas, mas que nos preocupemos em amadurecer na fé e na relação com Ele. Há, pois, que resistir à tentação de querer «ver» e tocar» para crer. Quanta gente anda, ainda hoje, atrás de magias e superstições, na tentativa de «ver» e tocar» o invisível e intocável, gast
    ando tempo e dinheiro!
    Interroguemo-nos sobre a nossa fé. A atitude que temos perante os irmãos, e na vivência do culto, revela o que vai no nosso coração. Deus, em Jesus, fez-se nosso companheiro de viagem. Abramos com simplicidade e humildade os olhos da fé para O reconhecermos!
    As nossas Constituições apontam a relação pessoal com Cristo como o centro da nossa experiência de fé (Cst 9). Essa relação permite-nos, como ao Pe. Dehon, estar atentos e perceber os sinais da presença do Senhor no meio de nós (Cst 28), bem como aos «sinais dos tempos», para vivermos a nossa vocação respondendo adequadamente às necessidades da Igreja e do mundo.

    Oratio

    Quão ridículo sou, Senhor, quando pretendo novas provas da tua amorosa presença na minha vida, e na vida do mundo, e acabo por não aceitar aquelas que, tão generosamente, me ofereces. Perdoa a minha pretensiosa arrogância, nunca satisfeita com os teus dons. Perdoa as minhas tentativas de Te olhar de cima para baixo, como se eu fosse grande e Tu, pequeno. Sei que nunca Te espantas nem cansas comigo. Tomaste mesmo a iniciativa de Te fazer pequeno, para me ensinares que é percorrendo o caminho da humildade, da confiança e do amor, que me tornarei verdadeiramente humano, e reconhecerei filho do Pai, capaz de ver os sinais da sua amorosa presença no mundo. Por isso, ó Senhor, Te quero louvar e bendizer, hoje e sempre. Amen.

    Contemplatio

    O pecado é um ultraje feito ao nosso Deus, ao nosso Criador, ao nosso Salvador, que não merece senão adoração e amor. É o non serviam (não servirei) de Satanás que nós repetimos todos os dias. É a revolta de um súbdito contra o rei dos reis ao qual tudo deve. É o ultraje de um amigo ao seu amigo, de um filho ao seu pai, e de que amigos se trata aqui? De que filhos? De que pai? É um desprezo de Deus, da sua lei, das suas proibições, das suas justiças e da sua bondade.
    Desprezamos o nosso Deus, que tanto nos amou, para escutarmos Satanás. Renovamos os desprezos com que os judeus oprimiram Nosso Senhor em Jerusalém, os seus desdenhos, os seus levantar de ombros. Gritamos como eles: não queremos Jesus, mas Barrabás!
    O pecado é a mais negra ingratidão. Escutamos o nosso Deus, o qual nos diz pelos profetas Isaías e Miqueias: «Meu povo, que te fiz eu? Em que te contristei para que me trates assim? - Eduquei os meus filhos com bondade, cresceram sob a minha mão, e depois desprezaram-me. - Plantei-te com cuidado, ó minha vinha bem-amada, tu eras uma planta de eleição e eis que te transformaste numa cepa selvagem». (Leão Dehon, OSP 3, p. 113s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra
    «Aqui está alguém que é maior do que Salomão!» (Mt 12, 42).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • S. Brígida, Religiosa, Padroeira da Europa

    S. Brígida, Religiosa, Padroeira da Europa


    23 de Julho, 2024

    Santa Brígida nasceu na Suécia em 1303. Casou muito jovem e teve oito filhos. Já membro da Ordem terceira de S. Francisco, depois da morte do marido, iniciou uma vida de grande austeridade e penitência, continuando a viver na família. Acabou por fundar uma Ordem Religiosa e, partindo para Roma, foi para todos exemplo de grande virtude. Fez diversas peregrinações e escreveu muitas obras em que narra as suas experiências místicas. Morreu em Roma em 1373. É a santa mais famosa dos países escandinavos. Com S. Catarina de Sena e S. Teresa Benedita da Cruz, é padroeira da Europa.

    Lectio

    Primeira leitura: Gálatas 2, 19-20

    Irmãos: Eu pela Lei morri para a Lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo. 20Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. E a vida que agora tenho na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim.

    Paulo diz, "pela Lei morri para a Lei, a fim de viver para Deus" (v. 19). Ele era um daqueles judeus que afirmavam que a aceitação da Lei produzia por si mesma (ex opere operato) a vinculação a Deus. Ao converter-se, morreu para essa conceção pelagiana do religioso: considerar que, nas relações do homem com Deus, é o homem que tem a iniciativa. Pelo contrário, a vida religiosa está, por assim dizer, acima do "eu": "Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim." (v. 20). Não se trata de nenhuma substituição. Paulo não está a fazer antropologia, mas a expor a sua experiência religiosa. Se a presença de Deus no homem fosse o resultado de um esforço puramente humano, "a graça de Deus" seria como que "inútil". A fé é sempre um dom gratuito. Não há mecanismo catequético ou evangelizador que, por si só, produza a graça nos crentes. A "graça" é mesmo gratuidade de Deus. Compete-nos "apenas" acolhê-la e corresponder-lhe.

    Evangelho: João 15, 1-8

    Naquele tempo, Jesus disse aos seus discípulos: "Eu sou a videira verdadeira e o meu Pai é o agricultor. 2Ele corta todo o ramo que não dá fruto em mim e poda o que dá fruto, para que dê mais fruto ainda. 3Vós já estais purificados pela palavra que vos tenho anunciado. 4Permanecei em mim, que Eu permaneço em vós. Tal como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, mas só permanecendo na videira, assim também acontecerá convosco, se não permanecerdes em mim. 5Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanece em mim e Eu nele, esse dá muito fruto, pois, sem mim, nada podeis fazer. 6Se alguém não permanece em mim, é lançado fora, como um ramo, e seca. Esses são apanhados e lançados ao fogo, e ardem. 7Se permanecerdes em mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes, e assim vos acontecerá. 8Nisto se manifesta a glória do meu Pai: em que deis muito fruto e vos comporteis como meus discípulos."

    A alegoria da videira e dos ramos garante-nos que a promessa da presença de Jesus no meio de nós está cumprida. Há que "permanecer" n´Ele para produzir os frutos que Deus espera de nós, ou melhor, permitir ao Espírito, a "seiva" divina, que produza em nós os seus frutos. Por nós mesmos, não podemos produzi-los. A obra de Jesus, que culminou na sua morte, "limpou-nos". No nosso texto é a Palavra que aparece como meio de purificação. Esta Palavra é a comunicação de Jesus aos seus discípulos através da sua vida, da sua morte, da sua pessoa. Há que permanecer n´Ele.

    Meditatio

    Santa Brígida deixou-se purificar pela Palavra. Na capela do SS. Sacramento, na Basílica de S. Paulo, em Roma, há uma estátua de mármore da santa em atitude de quem escuta a voz de Jesus Cristo, que lhe fala da cruz. Aos pés da estátua há uma legenda que diz: "Com o ouvido atento recebe as palavras do seu Deus Crucificado; recebe o Verbo de Deus no seu coração". Efetivamente, uma caraterística de S. Brígida foi a sua intimidade constante com Jesus, a sua familiaridade, as suas íntimas comunicações, e a sua docilidade infantil. O que mais nos espanta nela é a união extraordinária da vida interior e exterior. É uma santa mística que vivia no céu e também uma santa peregrina, em constante movimento de fundações e visitas a santuários.
    Casada com o príncipe Merício, descendente dos reis da Suécia, levou, com o marido, uma vida feliz, no cumprimento fiel dos seus deveres de esposos e de pais. Deus, todavia, tinha um outro projeto de vida para ela. O marido morreu muito mais cedo do que ambos imaginavam. Então, Brígida repartiu equitativamente os bens pelos filhos e consagrou-se inteiramente a Deus, numa vida austera de oração e penitência. Em 1349, Brígida seguiu para Roma com uma filha, a futura S. Catarina da Suécia. Praticou uma vida de grande pobreza, chegando a pedir esmolas. A quem a repreendia, por causa da sua condição nobre, respondeu: "Como Jesus se abaixou sem pedir o vosso consentimento, porque não havia eu de prescindir dele quando me esforço por imitá-lo?".
    Uns dez anos antes de morrer, fundou a ordem de S. Salvador, que ainda hoje existe em diversos países. Depois de peregrinar à Terra Santa, com a filha Catarina e outros dois filhos, regressou a Roma, onde faleceu a 23 de Julho de 1373. Da peregrinação à Terra Santa, dizia: "Foram os mais belos quinze meses da minha vida". Foi na Terra Santa que "se cumpriu o mistério da nossa redenção e donde a Palavra de Deus se difundiu até aos confins do mundo... As pedras sobre as quais caminhou o nosso Redentor permanecem para nós carregadas de recordações e continuam a "gritar" a Boa Nova". É uma espécie de "quinto evangelho". (Exortação Apostólica pós-sinodal Verbum Dei, 89). Como tantos outros cristãos, ao longo dos séculos, S. Brígida, fez essa experiência, no século XIV.

    Oratio

    "Bendito sejais, meu Senhor Jesus Cristo, que, para nossa salvação, permitistes que o vosso Lado e o vosso Coração fossem trespassados pela lança e fizestes brotar abundantemente do vosso peito sangue e água para nossa redenção... Honra sempiterna vos seja dada, meu Senhor Jesus Cristo, que ao terceiro dia ressuscitastes dos mortos e Vos manifestastes vivo àqueles que escolhestes... Louvor e glória eterna a Vós, Senhor Jesus Cristo, que enviastes o Espírito Santo aos corações dos discípulos e comunicastes às almas o vosso imenso amor. Louvor e glória eterna a Vós, Senhor Jesus Cristo". Ámen. (S. Brígida).

    Contemplatio

    Permaneçamos unidos à videira. O agricultor corta da videira os ramos mortos e aqueles que não dão frutos. Limpa os sarmentos que dão frutos, para que produzam ainda mais. «É assim que fará o Pai celeste, diz-nos Nosso Senhor: todo o ramo que não der fruto em mim, cortá-lo-á; atirá-lo-á para longe de mim, será privado da seiva que é a graça e cairá na morte espiritual. Mas os que prometem fruto, podá-los-á, purificá-los-á através de alguma prova e curá-los-á das suas inclinações depravadas, para que deem ainda mais frutos». «Quanto a vós, dizia ainda Nosso Senhor, estais todos podados e purificados pelas instruções que vos dei; mas para que esta purificação se conserve e complete, para que a vossa fecundidade em obras de salvação se desenvolva, uni-vos sempre mais intimamente a mim, permanecei em mim e eu, por minha parte, permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na vinha, se não está aderente à cepa donde tira a seiva vivificante, assim não podeis produzir nada, se não permanecerdes em mim». Sim, Senhor, quero permanecer em vós. Sinto que é a condição da vida, da fecundidade e da felicidade. Quero permanecer em vós pela fidelidade da minha recordação, da minha ternura e da minha dedicação, pela conformidade dos meus pensamentos aos vossos pensamentos, dos meus sentimentos aos vossos sentimentos, das minhas alegrias às vossas alegrias, das minhas tristezas às vossas tristezas, do meu querer à vossa vontade. Só quero ter convosco uma existência, um fim, uma felicidade: a glória de Deus, o reino do Sagrado Coração e a salvação das almas. (Leão Dehon, OSP 3, p. 457s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "Permanecei em mim, que Eu permaneço em vós" (Jo 15, 4).

    ----
    S. Brígida, Religiosa, Padroeira da Europa (23 Julho)

    XVI Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    XVI Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    23 de Julho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    XVI Semana - Terça-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Miqueias 7, 14-15. 18-20

    14Apascenta com o cajado o teu povo, o rebanho da tua herança, os que habitam isolados nas florestas no meio dos prados. Sejam eles apascentados em Basan e Guilead, como nos dias antigos. 15Mostra-nos os teus prodígios, como nos dias em que nos tiraste do Egipto. 18Qual é o Deus que, como Tu, apaga a iniquidade e perdoa o pecado do resto da sua herança? Não se obstina na sua cólera, porque prefere a bondade. 19Uma vez mais, terá compaixão de nós, apagará as nossas iniquidades e lançará os nossos pecados ao fundo do mar. 20Mostrarás a tua fidelidade a Jacob, e a tua bondade a Abraão, como juraste a nossos pais, desde os tempos antigos.

    Miqueias viveu e pregou no século VIII a. C. O texto que concluiu o seu livro, segundo o parecer dos exegetas, é do período pós-exílico. O povo voltou a Canaã, mas a realidade é bem diferente da que fora anunciada pelos profetas, e lhe mantivera viva a esperança durante o exílio em Babilónia. Ao regressar, Israel reencontra as inimizades ancentrais, quer internas quer externas. Os povos vizinhos ocupavam as melhores terras, e Israel tem que contentar-se com zonas menos férteis e de mais difícil acesso. Então, volta-se para Javé, pastor de Israel, para que conduza o seu rebanho a melhores pastagens, como fizera outrora, quando o conduziu da escravidão do Egipto para a liberdade da Terra prometida, no meio de sinais e prodígios. A evocação das "maravilhas de Deus" durante o êxodo, reconduz ao evento da aliança, que fez Israel conhecer o amor de Deus, mas também tomar consciência da sua própria identidade como povo de Deus. Era o que o povo mais precisava naquele momento difícil.
    A oração salmódica, que constitui este texto, termina louvando a misericórdia de Deus que perdoa as culpas (v. 18), porque é «lento para a ira e rico de misericórdia» (Ex 34, 6), não busca o castigo para os homens, mas a sua conversão, a fim de os cumular dos seus dons. Por essa razão, a oração torna-se explícita: «Mostrarás a tua fidelidade a Jacob, e a tua bondade a Abraão, como juraste a nossos pais, desde os tempos antigos» (v. 20).

    Evangelho: Mateus 12, 46-50

    Naquele tempo, 46estava Ele ainda a falar à multidão, quando apareceram sua mãe e seus irmãos, que, do lado de fora, procuravam falar-lhe. 47Disse-lhe alguém: «A tua mãe e os teus irmãos estão lá fora e querem falar-te.» 48Jesus respondeu ao que lhe falara: «Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?» 49E, indicando com a mão os discípulos, acrescentou: «Aí estão minha mãe e meus irmãos; 50pois, todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está no Céu, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe.»

    Marcos informa que os familiares de Jesus não acreditavam nele. Até pensavam que tinha enlouquecido. Por isso, tentavam levá-lo para casa (Mc 3, 21). Mateus achou essas informações demasiado escandalosas para os seus leitores e, em vez delas, oferece-nos um tema que tem paralelo em Marcos (3, 31-35).
    Jesus está a falar à multidão, quando chegam os seus familiares e manifestam vontade de falar com Ele. Jesus, ao levantar a questão sobre quem são os seus parentes, declara que essa condição não é fruto da carne e do sangue, mas da escuta e actuação da sua palavra. Os fariseus e os escribas, que não acreditam n´Ele, fecham-se na busca de um sinal, sem se darem conta de que estavam diante da própria realidade, superior a qualquer sinal (cf. Mt 12, 38-42). Os discípulos, que escutam a sua palavra, abrem-se à comunhão com Ele, superior à que decorre dos laços de consanguinidade.
    Jesus é a Palavra. Quem a acolhe, torna-se, n´Ele, filho do Pai. O verdadeiro filho faz a vontade do Pai, tal como a fez Jesus, ao deixar-se enviar ao mundo (cf. Jo 6, 8). Com estas palavras, Jesus realça a grandeza de Maria, sua Mãe, que o gerou, segundo a carne, fazendo-se discípula, acolhendo a vontade do Pai: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38).

    Meditatio

    Na primeira leitura, um grupo de exilados, que regressou cheio de esperanças a Canaã, mas que se deparou com muitas dificuldades, continua a olhar o futuro com esperança, porque confia em Deus. Por isso, dirige-lhe uma ardente prece: «Apascenta com o cajado o teu povo, o rebanho da tua herança, os que habitam isolados nas florestas no meio dos prados... Mostra-nos os teus prodígios, como nos dias em que nos tiraste do Egipto» (vv. 14-15). Um povo atribulado procura refazer a sua vida e a sua história pela oração humilde e confiante. Deseja os territórios férteis do Carmelo, de Basan e de Guilead, mas sabe que não dispõe de forças para os ocupar. Então, volta-se para Deus. Não fizera Ele maravilhas quando tirou Israel do Egipto? Não exigia o novo êxodo prodígios semelhantes? É certo que Israel pecara e sofria as consequências do seu pecado. Mas Javé é Aquele Deus que «perdoa o pecado e absolve a culpa», pela sua misericórdia e fidelidade.
    A misericórdia e a fidelidade de Deus, que os regressados de Babilónia invocavam, manifestou-se plenamente em Jesus Cristo, morto e ressuscitado. Na Cruz, o Senhor matou a morte e o mal, redimindo-nos e possibilitando-nos uma vida nova e feliz, na comunhão com Deus e com os irmãos. É essa a grande maravilha realizada por Deus: fazer-nos seus «familiares», participantes da sua vida divina. Talvez estejamos muito habituados a estas verdades, e elas já não nos impressionem, nem delas tiremos as devidas consequências. Portamo-nos como crianças mimadas, que se julgam credoras de tudo o que os pais lhes dão, e só sabem fazer novas exigências. Deus é, na verdade, fiel, e oferece-nos sempre o seu amor, o seu perdão. E nós, como nos relacionamos com Ele? Jesus diz-nos que entra em comunhão com Ele quem faz a sua vontade. Interessa-nos a vontade de Jesus, que é também a vontade do Pai? Que fazemos para procurá-la? A vontade de Deus nem sempre coincide com o nosso ponto de vista, com os nossos sentimentos. Deus manifesta-nos a sua vontade, antes de mais, pela sua Palavra. Em Jesus, disse-nos tudo o que queria dizer-nos. Conhecemos a Sagrada Escritura? Como procuramos conhecer, cada vez mais, essa «carta de Deus aos homens»? Conhecer implica «fazer». Vivemos em coerência com a Palavra escutada?
    Não é suficiente escutar a Palavra, é preciso guardá-la e pô-la em prática, como fez a Virgem Maria: «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a Tua palavra» (Lc 1, 38). «Sede daqueles que põem em prática a palavra - exorta Tiago - e não apenas ouvintes, enganando-vos a vós mesmos» (1, 22). «Escutar», em sentido bíblico, é «compreender», «acolher» na vida, «ir a Jesus»; é «acreditar», «guarda
    r no coração»; é «obedecer» e «fazer». A verdadeira «escuta da Palavra» realiza-se quando se ama, não por palavras, mas «com obras e em verdade» (1 Jo 3, 18).
    Encontramos esta «escuta da Palavra» no Pe. Dehon, desde seminarista, como testemunham os dois primeiros cadernos do seu "Diário". Quase todos os conteúdos das suas notas têm raiz na Escritura. As citações são tomadas sem qualquer diferença tanto do Antigo como do Novo Testamento.

    Oratio

    Senhor, o teu gesto e a tua palavra, no evangelho de hoje, impressionam-me vivamente. Com uma expressão paradoxal, sem negares a tua família carnal, ou menosprezares a tua Mãe, ensinas-me que a verdadeira união Contigo se realiza, não pelos laços do sangue, mas pela adesão à vontade do Pai. Assim, fico a saber que a vontade do Pai é um tesouro inestimável. Mas, quantas vezes, me encontro afastado e mesmo em contradição com ela! Queria uma vida diferente, sem lutas, sem sofrimentos; queria ser diferente do que sou fisicamente, psicologicamente, espiritualmente... Faz-me compreender que a vontade do Pai é o melhor para mim e ajuda-me a cumpri-la fielmente, em todas as situações, cada dia da minha vida. Amen.

    Contemplatio

    A Sagrada Família refaz a longa rota do deserto. Jesus tinha seis anos desta vez, percorre a pé estas longas jornadas da rota, e sabemos como o deserto é fatigante.
    Depois chegou para Maria e José a prova da dúvida e da incerteza. O anjo tinha dito: «Regressai à terra de Israel». Mas o país de Israel é vasto. Devia fixar-se em Belém onde a família tinha ainda alguns contactos, onde as recordações do nascimento de Jesus teriam um encanto particular? Deviam escolher Jerusalém onde parecia que deviam desenrolar-se os acontecimentos relativos ao Messias? Compete a S. José, chefe da família, tomar uma decisão. Que responsabilidade! Deus apraz-se muitas vezes a deixar assim as almas tomarem uma decisão por elas mesmas, segundo as circunstâncias. Foi assim que os Magos, em Jerusalém, perderam a estrela e tiveram de consultar Herodes e os escribas.
    José estava em angústia. Em Heliópolis, tinha ignorado os acontecimentos políticos, mas ao aproximar-se de Jerusalém, é informado que foi Arquelau, filho de Herodes, quem sucedeu ao seu pai. Não se dão os mesmos perigos para a vida de Jesus que há seis anos? A atenção de Arquelau pode ser atraída para este menino, que tinha fugido e que agora regressava. Que fazer? S. José reza. Deus não o deixará na dúvida. Inclina-se a retirar-se para a Galileia, onde a pequena casa de Nazaré os espera, e o anjo vem confirmá-lo na sua resolução. Assim os Magos reencontraram a estrela, depois que fizeram o possível para a suprirem. Rezemos, e Deus nunca nos deixará ignorar a sua vontade (Leão Dehon, OSP 3, p. 141s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Quem fizer a vontade de meu Pai, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe»
    (Mt 12, 50).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • XVI Semana - Quarta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    XVI Semana - Quarta-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    24 de Julho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    XVI Semana - Quarta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Jeremias 1, 1.4-10

    1Palavras de Jeremias, filho de Hilquias, um dos sacerdotes que viviam em Anatot, terra de Benjamim: 4A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: 5«Antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta das nações.» 6E eu respondi: «Ah! Senhor Deus, eu não sei falar, pois ainda sou um jovem.» 7Mas o Senhor replicou-me: «Não digas: 'Sou um jovem'. Pois irás aonde Eu te enviar e dirás tudo o que Eu te mandar. 8Não terás medo diante deles pois Eu estou contigo para te livrar» - oráculo do Senhor. 9Em seguida, o Senhor estendeu a sua mão, tocou-me nos lábios e disse-me: «Eis que ponho as minhas palavras na tua boca; 10a partir de hoje, dou-te poder sobre os povos e sobre os reinos, para arrancares e demolires, para arruinares e destruíres, para edificares e plantares.»

    Começamos, hoje, a escutar as «palavras de Jeremias» (v. 1), hebraísmo que indica, não só o que o profeta disse, mas também o que fez e os acontecimentos da sua vida. Jeremias pertencia a uma família sacerdotal. Nasceu em Anatot, cidade levítica da montanha, pertencente à tribo de Benjamim, como Jerusalém. Exerce o seu ministério num período particularmente difícil, e mesmo dramático, que vai desde a tentativa de reforma de Josias até à tomada de Jerusalém (cerca de 526-587 a. C.).
    Hoje escutamos o relato da sua vocação. Jeremias tem cerca de 20 anos. Sabe-se conhecedor de Deus e conhecido por Ele. Esse conhecimento, segundo a cultura hebraica passa pelo coração. Trata-se, pois, de um conhecimento amoroso, que faz dele um consagrado, isto é, alguém separado de tudo o resto e exclusivamente dedicado a Deus e ao seu serviço. Jeremias sente-se concretamente chamado a ser profeta entre as nações. Dá-se conta de que, para isso, fora chamado e destinado, ainda antes de ser formado no seio de sua mãe. Mas Jeremias é um homem tímido, e treme perante a revelação que Deus lhe faz. Não quer ser diferente dos outros homens. Sente-se como uma criança ainda incapaz de falar. «Eu estou contigo para te livrar» (v. 8), diz-lhe o Senhor. Diante do imperativo divino, Jeremias rende-se. De lábios purificados pela «mão» do Senhor, ainda que a tremer, atacou corajosamente a idolatria, a perversão dos costumes. Que grande luta interior! De um lado, as exigências da fé; de outro lado, a fragilidade humana. Em luta idêntica, mas infinitamente maior, até Cristo suou sangue!

    Evangelho: Mateus 13, 1-9

    1Naquele dia, Jesus saiu de casa e sentou-se à beira-mar. 2Reuniu-se a Ele uma tão grande multidão, que teve de subir para um barco, onde se sentou, enquanto toda a multidão se conservava na praia. 3Jesus falou-lhes de muitas coisas em parábolas: «O semeador saiu para semear. 4Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho: e vieram as aves e comeram-nas. 5Outras caíram em sítios pedregosos, onde não havia muita terra: e logo brotaram, porque a terra era pouco profunda; 6mas, logo que o sol se ergueu, foram queimadas e, como não tinham raízes, secaram. 7Outras caíram entre espinhos: e os espinhos cresceram e sufocaram-nas. 8Outras caíram em terra boa e deram fruto: umas, cem; outras, sessenta; e outras, trinta. 9Aquele que tiver ouvidos, oiça»

    Mateus apresenta-nos, no capítulo 13 do seu evangelho, sete parábolas sobre o mistério do reino de Deus. A liturgia propõe-nos, hoje, a primeira. Jesus centra a atenção dos seus ouvintes numa imagem bem conhecida, revelando algo de Si mesmo em relação à Palavra que veio anunciar. Tal como o semeador espalha a semente, sem a preocupação de a poupar, assim Jesus proclama a palavra do Pai a todos, sem distinções nem reservas. É a palavra de vida. E Ele foi enviado pelo Pai para que todos «tenham vida e a tenham em abundância» (Jo 10, 10). Mas, tal como a sorte da semente depende do terreno onde cai, assim a Palavra produz fruto conforme o coração que a recebe. Era essa a experiência de Jesus, que já vira agudizar-se a crise entre Ele, por um lado, e os fariseus e os escribas por outro (cf. Mt 12, 1-14.22-32).
    A parábola tem uma conclusão surpreendente, que é a sua mensagem central: o terreno fértil dá uma colheita extraordinariamente abundante, para além de qualquer razoável expectativa. De igual modo, a palavra proclamada por Jesus, apesar de não suscitar o interesse esperado, e até de sofrer oposição, terá uma fecundidade maravilhosa, que só entende quem tem fé, quem reconhece no evangelho de Jesus a vontade do Pai, e está pronto a acolhê-la e a pô-la em prática (cf. Mt 12, 50).

    Meditatio

    A palavra é importante. Através dela, tomamos consciência de ser pessoas humanas, comunicamos o que pensamos e sentimos, recebemos a comunicação dos outros, contactamos com o património cultural do passado, conhecemos mundos muito afastados dos nossos... Mas a Palavra de Deus é ainda mais importante! Sem essa semente, não há vida, porque falta a comunicação com Deus, única fonte de toda a realidade.
    Para comunicar com os homens, Deus envia os profetas, por Ele escolhidos e chamados, para transmitirem a sua Palavra. Foi o que aconteceu com Jeremias: «Antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta das nações» (v. 5). É uma tarefa superior às forças humanas. Apesar das promessas divinas, o profeta procura esquivar-se: «Ah! Senhor Deus, eu não sei falar, pois ainda sou um jovem» (v. 6). Mas Deus não aceita a desculpa: «Não digas: 'Sou um jovem'... Não terás medo, pois Eu estou contigo» (vv. 6-7). Deus estará efectivamente com Jeremias. O profeta sofrerá muito, porque as palavras que Deus «lhe põe na boca» (cf. v. 9) o irão tornar malvisto pelo povo. Acabará mártir. Mas a sua vida não será um fracasso: depois da morte, a figura de Jeremias será engrandecida cada vez mais; os seus ensinamentos serão lidos, meditados e comentados...
    Jeremias viveu para a missão, guiado pela força irresistível da Palavra de Deus «para arrancar e demolir, para arruinar e destruir, para edificar e plantar» (v. 10).
    O evangelho fala-nos da generosidade com que Deus lança à terra, aos nossos corações, a semente da Palavra. Essa Palavra tal como a chuva e a neve, é eficaz (cf Is 55, 10). Todavia, o homem pode contrariar essa eficácia, quando não acolhe a Palavra, ou a acolhe sem as devidas disposições. Mas, quando um coração bem disposto a recebe, produz muito fruto: «Outras (sementes) caíram em terra boa e deram fruto: umas, cem; outras, sessenta; e outras, trinta» (v. 8).
    O Pe. Dehon espera dos seus religiosos que sejam no mundo «profetas do amor e servidores da reconciliação
    dos homens... em Cristo» (Cst 7). Tal missão só se realiza dando ao mundo Cristo, Palavra de Deus, que antes é preciso escutar e acolher no coração: «Nós conhecemos e cremos no amor que Deus nos tem» (1 Jo 4,16) (Cst 9). Nunca foi fácil ser profeta, como bem ilustra o caso de Jeremias. Nem hoje é fácil. Quantos bispos, sacerdotes, religiosos, leigos, são assassinados, todos os anos, no exercício da sua missão! Só a confiança, o abandono, a disponibilidade de uma vida totalmente oferecida a Deus permitem ser profetas, também hoje.

    Oratio

    Senhor Jesus, hoje, quero pedir-Te que o poder da tua Palavra actue na minha vida, me faça morrer e me faça viver: me faça morrer ao meu egoísmo, ao medo de realizar a dimensão profética do meu baptismo, à timidez em anunciar a Palavra que és Tu; me faça viver cada vez mais para Ti e, Contigo, para o Pai e para os irmãos. Faz-me profeta do teu amor e servidor da reconciliação que, na tua morte e ressurreição, realizaste e ofereceste a todos os homens. Faz-me acreditar na força do teu Espírito. Abre os meus ouvidos e o meu coração à tua Palavra, para que me deixe guiar por ela, a única «que pode salvar a nossa vida». Amen.

    Contemplatio

    Jesus leva com grande dor esta cruz: bajulans sibi crucem. Ela é pesada, esta cruz, mais do que o comportam as forças de um homem, e Jesus já está esgotado pela sua agonia no jardim das Oliveiras, por todas as impressões desta noite, na qual foi traído, julgado, abandonado, pelo jejum, pela flagelação, a coroação de espinhos e os maus tratos de todo o género. A cruz repousa sobre as suas chagas, abertas sobre os seus ombros pela flagelação. E tudo isto ainda não seria nada, se a cruz não representasse para Ele o peso de todos os nossos pecados, cuja carga Ele assumiu.
    É um suplício ignominioso. Jesus é assemelhado aos mais vis culpados, aos escravos criminosos. Está colocado entre dois malfeitores, ladrões e assassinos. Atravessa toda a cidade que O escarnece e despreza. Um arauto público precede-O e anuncia a sua condenação. Era o costume. Os fariseus e os sacerdotes seguem-n'O triunfantes. A multidão é imensa, pois é o tempo das festas da páscoa. Tantos que O aclamavam dias antes, desacreditam-n´O hoje.
    Jesus pode aplicar a si as palavras de Jeremias: «Vós que passais no caminho, vede se é possível imaginar-se dor semelhante à minha!» (Lam 1, 12). (Leão Dehon, OSP 4, p. 284s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Consagrei-te e constituí-te profeta das nações» (Jr 1, 5).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • S. Tiago, Apóstolo

    S. Tiago, Apóstolo


    25 de Julho, 2024

    S. Tiago, chamado "o Maior", para se distinguir de outro apóstolo do mesmo nome, era filho de Zebedeu e de Salomé, e irmão de S. João Evangelista (cf. Mc 15, 40; Mt 27, 56). Com ele, e com Pedro, fez parte do grupo dos primeiros três discípulos de Jesus, o grupo mais íntimo, que acompanhou o Senhor na Transfiguração e na Agonia. Figura proeminente da igreja, Tiago foi preso em Jerusalém, por ordem de Herodes Agripa, sendo o primeiro apóstolo a derramar o seu sangue, em testemunho da sua fé, nos dias da Páscoa (cf. At 12, 1-3), por volta do ano 44. O seu culto desenvolveu-se notavelmente em Compostela que, desde a Idade Média, se tornou um dos centros de peregrinação mais concorridos, em todo o mundo.

    Lectio

    Primeira leitura: Segunda Coríntios 4, 7-15

    Irmãos: Nós trazemos este tesouro em vasos de barro, para que se veja que este extraordinário poder é de Deus e não é nosso. 8Em tudo somos atribulados, mas não esmagados; confundidos, mas não desesperados; 9perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não aniquilados. 10Trazemos sempre no nosso corpo a morte de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifesta no nosso corpo. 11Estando ainda vivos, estamos continuamente expostos à morte por causa de Jesus, para que a vida de Jesus seja manifesta também na nossa carne mortal. 12Assim, em nós opera a morte, e em vós a vida. 13Animados do mesmo espírito de fé, conforme o que está escrito: Acreditei e por isso falei, também nós acreditamos e por isso falamos, 14sabendo que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus, também nos há-de ressuscitar com Jesus, e nos fará comparecer diante dele junto de vós. 15E tudo isto faço por vós, para que a graça, multiplicando-se na comunidade, faça aumentar a acção de graças, para a glória de Deus.

    A liturgia aplica literalmente ao apóstolo Tiago o que Paulo diz a partir da sua própria experiência: "Trazemos sempre no nosso corpo a morte de Jesus" (10ª). Há uma mensagem que começa em Jesus, passa de Jesus a Paulo, de Paulo a Tiago e assim sucessivamente, ao longo da história, formando uma corrente de testemunhas, ou melhor, de "mártires" no sentido próprio do termo. Quem recebe a graça de derramar o sangue por amor de Cristo e dos irmãos, pode dizer, com verdade, que leva em si a morte de Cristo. Mas também o pode dizer quem vive serenamente a radicalidade evangélica no seu dia-a-dia. A Palavra do "mártir" é significativa e eficaz porque, à eloquência da palavra, junta a do sangue derramado.

    Evangelho: Mateus 20, 20-28

    Naquele tempo, aproximou-se de Jesus a mãe dos filhos de Zebedeu, com os seus filhos, e prostrou-se diante dele para lhe fazer um pedido. 21«Que queres?» - perguntou-lhe Ele. Ela respondeu: «Ordena que estes meus dois filhos se sentem um à tua direita e o outro à tua esquerda, no teu Reino.» 22Jesus retorquiu: «Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu estou para beber?» Eles responderam: «Podemos.»23Jesus replicou-lhes: «Na verdade, bebereis o meu cálice; mas, o sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me pertence a mim concedê-lo: é para quem meu Pai o tem reservado.» 24Ouvindo isto, os outros dez ficaram indignados com os dois irmãos. 25Jesus chamou-os e disse-lhes: «Sabeis que os chefes das nações as governam como seus senhores, e que os grandes exercem sobre elas o seu poder. 26Não seja assim entre vós. Pelo contrário, quem entre vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo; e 27quem no meio de vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo. 28Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão.»

    Mateus parece usar de uma fina ironia ao narrar o episódio que hoje escutamos. Facilmente desculpamos a mãe, que, como tal, quere o melhor para os filhos. Mas já não somos tão compreensivos para com os dois irmãos que, sem pensar muito, se declaram prontos a beber o cálice com Jesus. Mas Jesus, muito ao seu jeito, transformando a hipótese em profecia, prediz, efetivamente, a morte que Tiago irá padecer por causa da sua radical fidelidade ao Mestre e ao Evangelho. Ao mesmo tempo, aproveita para dar uma lição de humildade útil a todos, também outros apóstolos irritados e desdenhosos.

    Meditatio

    Partimos, hoje, de uma afirmação de Jesus que nos permite penetrar no seu coração, conhecer as suas disposições mais profundas: "o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão" (v. 28). Jesus tem consciência de ser o Filho imolado por amor, para redenção dos irmãos. Vive conscientemente e decididamente a espiritualidade do Servo de Javé, a espiritualidade do Cordeiro imolado. E não fica por belas palavras ou ideais meramente românticos. A sua espiritualidade "vitimal" ou, se preferirmos, "oblativa" até à imolação concretiza-se no "serviço" vivido no total despojamento de si mesmo e em plena confiança no Pai. É o Servo de Deus, mas também o servo "de muitos", isto é, de todos aqueles que o Pai lhe confiou como irmãos, oprimidos pelo pecado mas abertos ao dom da libertação. Recebeu das mãos do Pai o cálice da paixão, e bebeu-o até à última gota, até à morte de cruz, entregando-se confiadamente nas mãos do Pai.
    Os Apóstolos também "beberam o cálice do Senhor, e tornaram-se amigos de Deus", como diz a antífona da comunhão da festa de S. Tiago inspirada em Mt 20, 22-23. Foi esta a glória dos Apóstolos, e concretamente a de Tiago, que esperava outra bem diferente, quando decidiu seguir Jesus. Quem está com Jesus só pode aspirar a uma glória semelhante à d´Ele: a de participar na sua cruz, nos seus sofrimentos, em profunda união com Ele, em favor de muitos.

    Oratio

    Senhor Jesus, tu és o Filho de Deus Pai que vives e manifestas a tua submissão numa total disponibilidade. Tu és a Palavra que ilumina o nosso caminho: o que dizes vale para ti e vale para nós, e para todos os que livremente te escolheram como Senhor e Mestre. Viveste o teu martírio em todos os momentos da tua vida na terra. Quem te conhece sabe que, para ti, ser servo significa viver tudo por Deus e tudo pelos irmãos. É a "lei real", de que fala na sua carta, o teu apóstolo Tiago. Enche-me do teu Espírito, para toda a minha vida se torne uma oblação santa e agradável ao Pai, pelos homens. Ámen.

    Contemplatio

    Tiago e João, Pedro e André eram muito afetuosos, muito amigos para com Nosso senhor, sobretudo os três primeiros. Eram os discípulos do Sagrado Coração, os amigos de Jesus. Por isso, Nosso Senhor os tinha sempre junto de si. Eram os seus íntimos, os seus confidentes. Muitas vezes os tomava à parte e lhes dava uma confiança que não dava aos outros. Para a ressurreição da filha de Jairo, a exclusão dos outros é fortemente assinalada no Evangelho. S. Marcos diz: «Jesus não permitiu a nenhum dos seus discípulos que o seguisse, exceto Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago». S. Lucas diz: «Não permitiu a ninguém entrar na casa com os pais, exceto Pedro, Tiago e João» (8, 51). Para a transfiguração, S. Mateus (17, 2) e S. Marcos (9, 1) dizem-nos: Jesus tomou à parte Pedro, Tiago e João, sozinhos consigo, e levou-os à montanha para rezar. O privilégio é ainda acentuado. No repouso do Monte das Oliveiras, diante de Jerusalém, da qual Nosso Senhor predisse a destruição, tem alguns privilegiados sentados junto de si. E era sem dúvida normalmente assim. Estes tinham os seus segredos. Interrogavam-no em segredo, secretamente, diz S. Mateus (24, 4) à parte, separadamente, diz S. Marcos (13, 3); mas quem eram estes quatro privilegiados? S. Marcos dá-nos os seus nomes. Era Pedro, Tiago, João e André. Na Ceia, Pedro, João e Tiago estavam sentados junto de Jesus. Se eu pudesse pelo meu amor e pela minha fidelidade merecer ser um verdadeiro discípulo do Sagrado Coração! Para o Getsémani, S. Mateus (26, 36) e S. Marcos (14, 33) dizem-nos: «Jesus deixou os seus discípulos à entrada do jardim, mas tomou consigo Pedro, Tiago e João». Os outros não estavam suficientemente formados para suportarem sem escândalo o espetáculo da agonia, mas estes três fizeram um melhor noviciado, foram tão dóceis e tão afetuosos! (L. Dehon, OSP 3, p. 311-312).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "Beberam o cálice do Senhor, e tornaram-se amigos de Deus"
    (antífona da comunhão da festa de S. Tiago).
    ----

    S. Tiago, Apóstolo (25 Julho)

     

    XVI Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    XVI Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    25 de Julho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    XVI Semana - Quinta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Jeremias 2, 1-3. 7-8. 12-13

    1A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: 2«Vai e grita aos ouvidos de Jerusalém, dizendo: Assim fala o Senhor: 'Recordo-me da tua fidelidade no tempo da tua juventude, dos amores do tempo do teu noivado, quando me seguias no deserto, na terra em que não se semeia. 3Israel era, então, propriedade sagrada do Senhor, primícias da sua colheita. Todos os que ousavam comer dela, pagavam, e sobrevinha-lhes a desgraça' - oráculo do Senhor. 7Introduziu-vos numa terra fértil, para comerdes os seus saborosos frutos. Mas, tendo entrado, profanastes a minha terra e fizestes abominável a minha herança. 8Os sacerdotes não se interrogaram: «Onde está o Senhor?» Os doutores da Lei não me reconheceram, os pastores revoltaram-se contra mim, e os profetas profetizaram em nome de Baal e seguiram deuses inúteis. 12Pasmai, ó céus, acerca disto! Tremei de espanto e de horror! - oráculo do Senhor. 13Porque o meu povo cometeu um duplo crime: abandonou-me, a mim, nascente de águas vivas, e construiu cisternas para si, cisternas rotas, que não podem reter as águas.»

    Em sintonia com a reforma deuteronomista iniciada por Josias, e no estilo dos profetas anteriores, especialmente Oseias, Jeremias pronuncia o seu primeiro oráculo. Chamado a ser profeta entre as nações, começa por Jerusalém, coração de todo o mal. Exprime-se usando o género literário da Aliança e da sua ruptura, vigente no direito internacional do tempo. Convoca o acusado e testemunhas, faz uma revisão histórica dos favores, do elenco das obrigações e pronuncia um ultimatum ou declaração de guerra. Pela boca do profeta, Deus coloca Israel perante as suas responsabilidades e pede-lhe contas pela sua infidelidade à Aliança. Deus recorda-se do tempo do êxodo e da estadia no deserto, tempo idílico de comunhão, quando o povo respondia com docilidade e obediência ao seu amor absoluto (v. 2). Por seu lado, Deus sempre tutelou Israel, sua propriedade (v. 3), e, fiel à promessa, conduziu-o à terra rica e fértil de Canaã (v. 7ª.).
    Mas Israel, posto em segurança, abandonou a Deus e profanou, com o seu pecado, a terra santa que habita. Os primeiros a atraiçoar a Aliança, virando-se para os ídolos, foram os chefes e guias do povo, isto é, os reis, os sacerdotes e os profetas. Por isso, a criação inteira é chamada a testemunhar o absurdo de um povo que, tendo feito uma experiência tão íntima e profunda da vida de amor e de comunhão com Deus, se voltou para os ídolos. Era como abandonar uma fonte de água viva, para ir beber em cisternas rotas.

    Evangelho: Mateus 13, 10-17

    Naquele tempo, 10aproximando-se de Jesus, os discípulos disseram-lhe: «Porque lhes falas em parábolas?» 11Respondendo, disse-lhes:«A vós é dado conhecer os mistérios do Reino do Céu, mas a eles não lhes é dado. 12Pois, àquele que tem, ser-lhe-á dado e terá em abundância; mas àquele que não tem, mesmo o que tem lhe será tirado. 13É por isso que lhes falo em parábolas: pois vêem, sem ver, e ouvem, sem ouvir nem compreender. 14Cumpre-se neles a profecia de Isaías, que diz: Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis; e, vendo, vereis, mas não percebereis. 15Porque o coração deste povo tornou-se duro, e duros também os seus ouvidos; fecharam os olhos, não fossem ver com os olhos, ouvir com os ouvidos, compreender com o coração, e converter-se, para Eu os curar. 16Quanto a vós, ditosos os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem. 17Em verdade vos digo: Muitos profetas e justos desejaram ver o que estais a ver, e não viram, e ouvir o que estais a ouvir, e não ouviram.»

    Que pretendia Jesus, ao servir-se de parábolas que os seus ouvintes não podiam entender? Esta questão preocupava os cristãos das primeiras comunidades, que sentiam a necessidade de explicar e interpretar essa forma de anúncio inacessível de modo imediato e, por outro lado, enfrentavam a oposição e o escândalo do povo eleito que, em grande parte, não tinha acolhido o Messias. A resposta já foi apontada na parábola do semeador: há quem esteja disponível e há quem resista à palavra de Jesus. Essa atitude interior faz toda a diferença. Há quem se converta e atinja a bem-aventurança, e há quem não se converta, ouvindo sem compreender e vendo sem perceber. Deus anunciara a Isaías (6, 9s.) as dificuldades que o profeta havia de encontrar na sua missão. Tudo isso se verificou na vida do profeta, mas, sobretudo, na vida de Jesus e, depois d´Ele, na vida da Igreja. A Bíblia aponta a Deus como causa primeira dos eventos, mas não é Ele que determina a docilidade ou a dureza do coração do homem. Isso depende do próprio homem, chamado a assumir, em primeira pessoa, a responsabilidade pelas suas opções diante da palavra que lhe é dirigida.

    Meditatio

    Jeremias escuta a voz de Deus que lhe diz: «Vai e grita aos ouvidos de Jerusalém» (v. 2). Jerusalém tornara-se dura de ouvidos. Mas Deus força-lhe a surdez, porque a quer como nos inícios da viagem de libertação pelo deserto: «Recordo-me da tua fidelidade no tempo da tua juventude, dos amores do tempo do teu noivado, quando me seguias no deserto» (v. 2). É o tempo do primeiro amor, que ilumina o sentido da vida, ainda que tudo à volta seja deserto. Corre-se sempre o risco de esquecer esse amor, ainda que Deus esteja sempre connosco, eternamente fiel: «Introduziu-vos numa terra fértil... Mas profanastes a minha terra» (v. 7). É o que acontece quando, esquecendo o chamamento de Deus, pecamos.
    Deus, como testemunho do seu amor, cumulou-nos de dons. Justamente espera pela nossa correspondência. Se, em vez de O procurarmos a Ele, nos procuramos a nós mesmos, deixamos de ver as suas intenções divinas, e perdemos a direcção certa. Em vez de caminharmos para o Senhor, «nascente de águas vivas», iremos à procura de «cisternas rotas» (v. 15) para saciar a nossa sede.
    No evangelho, os discípulos perguntam a Jesus: «Porque lhes falas em parábolas?» (v. 10). Jesus responde: «Falo-lhes em parábolas: pois vêem, sem ver, e ouvem, sem ouvir nem compreender» (v. 13). Que quer dizer: ver sem ver, ouvir sem ouvir nem compreender? É a atitude dos fariseus, que, embora escutando as palavras de Jesus, e vendo os seus milagres, lhe pedem um sinal: «Mestre, queremos ver um sinal feito por ti» (Mt 12, 38). Não querem ver, e não vêem. Nós, por graça de Deus, vemos. Mas corremos o risco de ver superficialmente, de escutar sem procurar compreender. Não vemos nem escutamos em profundidade. Nem sequer os dons do Senhor! Ver bem, ver em profundidade, é ver em tudo o amor do Senhor. Escutar bem, é corresponder a esse amor.
    Deus criou livremente o universo e, entre tantas criaturas que O louvam (as ervas, as flores, os pássaros, as estrelas...) quis uma, o homem, que tivesse capacidade para O amar, para corresponder ao Seu amor.
    Por isso lhe deu a liberdade. Um amor forçado não é amor. O pecado consiste em usar a liberdade para se afastar do amor de Deus, para não lhe corresponder. Mas o dom da liberdade consagra-nos ao amor de Deus, e permite-nos corresponder-lhe, de todo o coração.
    Como precisamos todos nós, leigos, religiosos e sacerdotes, de voltar ao primeiro amor, ao fervor na nossa juventude, do nosso baptismo, da nossa profissão religiosa, da nossa ordenação sacerdotal. Não nos tocam também as palavras do Senhor, pelo seu profeta: «Os sacerdotes não se interrogaram... Os doutores da Lei não me reconheceram, os pastores revoltaram-se contra mim, e os profetas profetizaram em nome de Baal e seguiram deuses inúteis»? Voltemos para a «nascente de águas vivas»! Bebamos do Coração de Cristo!

    Oratio

    Senhor, aumenta a minha fé, para que possa ver e reconhecer as intenções do teu amor e corresponder-lhe. Vivo tão mergulhado nesta sociedade de consumo, cheia de coisas prontas a usar, a vestir, a comer, a ouvir, que Te perco de vista, e não Te consigo ouvir. Muitas vezes, prefiro ouvir palavras cintilantes mas inconsistentes, proclamadas pelo charlatão de turno. As tuas palavras são mais difíceis de compreender, mas dão a vida.
    Perdoa-me, Senhor! Apoia misericordiosamente o meu desejo de conversão. Preciso de olhos limpos pela fé, de ouvidos capazes de discernir a tua voz no meio da confusão de tantos sons. Preciso, sobretudo, de um coração disponível para acolher a verdade sobre Ti e a verdade sobre mim; preciso de um coração pronto a amar e suficientemente humilde para se deixar amar no modo que quiseres. É o que Te peço, hoje, com toda a confiança. Amen.

    Contemplatio

    É Jesus e o seu Coração que são o dom de Deus. O seu Pai amou tanto os homens que lhes deu o seu Filho único, para os resgatar, para lhes comunicar a sua graça e os reconduzir a si. É portanto somente por Nosso Senhor que podemos ir ao Pai.
    E o próprio Nosso Senhor ama tanto os homens, aos quais o seu Pai o deu, que Ele mesmo dá os primeiros passos para os ganhar ao seu amor.
    Nós ficamos muitas vezes surdos as estes passos que são as suas doces inspirações e a graça dos seus sacramentos. Se o conhecêssemos melhor, se soubéssemos melhor qual é este nosso amigo que nos fala no segredo do nosso coração e que solicita o nosso amor, apressar-nos-íamos para ir ter com ele e lhe pediríamos estas águas vivas da graça, que tanto deseja espalhar. Ele deseja tanto possuir o coração dos homens e nós pensamos tão pouco nele! Se o conhecessem melhor, todos os corações se abririam a ele. (Leão Dehon, OSP 2, p. 282).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Muitos profetas e justos desejaram ver o que estais a ver, e ouvir o que estais a ouvir» (Mt 13, 17).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • S. Joaquim e S. Ana, Pais de Nossa Senhora

    S. Joaquim e S. Ana, Pais de Nossa Senhora


    26 de Julho, 2024

    O evangelho de S. Tiago, escrito apócrifo do século II, reconstrói, decalcando a história de Ana, mãe de Samuel (cf. 1 Sam 1, 1-28), a história da Virgem Maria. Joaquim, idoso sacerdote do templo de Jerusalém, era casado com Ana, mulher estéril. Depois de uma aparição angélica, concebem a futura Mãe do Redentor, que oferecerão a Deus no templo (cf. 21 de Novembro). Mas não há qualquer referência a estes santos nos evangelhos canónicos. Na tradição da Igreja, Joaquim e Ana são protótipos dos esposos cristãos. De há uns anos para cá, a sua festa é também celebrada como "Dia dos Avós".

    Lectio

    Primeira leitura: Ben Sirá 44, 1.10-15

    Louvemos os homens ilustres, nossos antepassados,segundo as suas gerações.10Foram homens de misericórdia, cujas obras de piedade não foram esquecidas. 11Na sua descendência permanecem os seus bens, e a sua herança passa à sua posteridade. 12Os seus descendentes mantiveram-se fiéis à Aliança, os seus filhos também, graças a eles. 13A sua posteridade permanecerá para sempre, e a sua glória não terá fim. 14Os seus corpos foram sepultados em paz, e o seu nome vive de geração em geração; 15Os povos proclamarão a sua sabedoria, e a assembleia cantará os seus louvores.

    Ben Sirá evoca figuras ilustres que marcaram o passado da história de Israel, em ordem a infiltrar, com o seu exemplo, nova vida no presente e a projetar a esperança do povo na direção do futuro. O bem paticado é um capital precioso e fecundo, que permanece, e de que se pode dispor. Quando é praticado em e por homens virtuosos, tece a verdadeira trama da história da salvação. Deus intervém nessa história, para redimir o homem, mas servindo-se do próprio homem. A fidelidade do Senhor tem o seu fundamento no céu, mas radica na terra, graças aos que permanecem fiéis às suas promessas.

    Evangelho: Mateus 13, 16-17

    Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: "Ditosos os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem.17Em verdade vos digo: Muitos profetas e justos desejaram ver o que estais a ver, e não viram, e ouvir o que estais a ouvir, e não ouviram.»

    Os discípulos de Jesus têm a sorte de ver a realização das promessas. Gerações de profetas e justos construíram, degrau a degrau, uma história de confiança, de espera e de esperança. Esses profetas e justos são ditosos porque, ainda que não tenham visto nem ouvido o que os discípulos veem e ouvem, acreditaram e apostaram a sua vida baseando-se na Palavra da aliança. Os discípulos são ditosos porque veem e ouvem a Palavra feita carne, Jesus Cristo nossa Vida e Salvação. Eles são o último elo da geração herdeira das promessas e o primeiro da que deve transmitir o testemunho da sua realização.

    Meditatio

    Sabemos muito pouco sobre os pais de Maria. Também eles estão sob a lei do silêncio e do escondimento que Deus aplicou à vida de Maria e à maior parte da vida histórica de Jesus.
    Os evangelhos apócrifos falam das suas dificuldades. Um texto da igreja arménia do século XIII diz-nos que Joaquim e Ana eram justos e puros, levavam uma vida piedosa e um comportamento inocente e imune à calúnia. Eram zelosos na oração, no jejum e na abstinência. Eram uma família assídua ao templo, cheia de caridade, incansável no trabalho e, em consequência, rica de bens. Dividiam o rendimento anual em três partes: uma para o Templo e sustento dos sacerdotes; outra para os pobres, e a terceira para eles mesmos. É lógico pensar que Deus os tenha chamado a participar no mistério de Jesus, cuja chegada prepararam. Permanece a glória de terem sido os pais de Nossa Senhora.
    S. Joaquim e S. Ana encorajam a nossa confiança: Deus é bom e na história da humanidade, história de pecado e de misericórdia, o que fica é a glória, é o positivo que construiu em nós.
    Joaquim e Ana foram escolhidos entre o povo eleito, mas de dura cerviz, para que, entre esse povo, florescesse Maria e, dela, Jesus. É a maior manifestação do amor misericordioso de Deus.
    Agradeçamos ao Senhor. Nós somos os ditosos, nós que vemos e ouvimos, o que muitos profetas e justos apenas entreviram na fé e na esperança.
    Lembremos os nossos avós. Um provérbio africano afirma: "Das panelas velhas, tira-se a melhor sopa". Os "avós" são verdadeiras preciosidades. Há que rodeá-los de cuidados e carinhos, e não desperdiçar o muito que têm para nos dizer e ensinar, particularmente a sua fé e a sua esperança.

    Oratio

    Pai Santo, hoje, "invocarei com confiança S. Joaquim e Santa Ana, que Jesus, teu Filho, honra como seus avós. Eles são poderosos sobre o seu Coração. Dai-me a graça de imitar a sua humildade, a sua confiança, o seu espírito de sacrifício. Lembrando-me de Nazaré, levá-los-ei em espírito até junto de Jesus e de Maria. Ámen. (cf. Leão Dehon, OSP 4, p. 95).

    Contemplatio

    S. Joaquim e Santa Ana tinham chegado a uma idade avançada sem terem filhos como a santa mãe de Samuel. Resignados à vontade de Deus, suplicavam, no entanto, ao mesmo Deus que realizasse os seus desejos dando-lhes um fruto da sua união, que consagrariam ao serviço do templo. Ana sobretudo multiplicava as orações e as boas obras para obter este favor. Um dia em que Joaquim rezava sobre uma colina, onde pastava o seu rebanho, e Ana no seu jardim onde ela tinha feito para si uma solidão, um anjo veio anunciar-lhes que o céu tinha atendido os seus pedidos e que eles iam ser consolados com uma criança de bênção. A oração perseverante é a fonte das maiores graças. No dia 8 de Setembro, Ana deu ao mundo uma filha que, segundo a ordem do Senhor, ela chamou Maria. Com que cuidado educou esta criança abençoada! É representada tendo diante de si a sua filha privilegiada e ensinando-a a ler as divinas Escrituras. Quando Maria atingiu a idade de três anos, Ana e Joaquim, lembrando-se da promessa que tinham feito, levaram-na ao templo de Jerusalém para a oferecerem ao Senhor. Segundo a tradição, Sant'Ana vivia ainda nos primeiros anos de Nosso Senhor. Ela pôde, portanto, levá-lo nos seus braços e sentá-lo nos seus joelhos. Contemplou os seus traços infantis tão belos. Teve conhecimento dos milagres do seu nascimento. Oh! As doces emoções que ela sentiu! A recordação destes felizes momentos faz a sua alegria no céu, bem como a contemplação do seu neto, que reina nos céus eternamente. Invejamos a sua sorte, mas não esquecemos que na comunhão nós levamos também Nosso Senhor no nosso coração. (Leão Dehon, OSP 4, p. 93s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "O fruto do justo é uma árvore de Vida" (Prov 11, 30).

    ----
    S. Joaquim e S. Ana, Pais de Nossa Senhora (26 Julho)

    XVI Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    XVI Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    26 de Julho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    XVI Semana - Sexta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Jeremias 3, 14-17

    Assim fala o Senhor: 14«Voltai, filhos rebeldes, porque Eu sou vosso dono - oráculo do Senhor. Tomar-vos-ei um de uma cidade, e dois de uma família e hei-de reconduzir-vos a Sião. 15Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, que vos conduzirão com inteligência e sabedoria. 16E, quando vos multiplicardes e vos tornardes numerosos na terra, então - oráculo do Senhor - não se falará mais na Arca da aliança do Senhor; não lhes virá ao pensamento, não se lembrarão nem sentirão necessidade dela e não se fará outra. 17Naquele tempo, chamarão a Jerusalém 'Trono do Senhor' e hão-de juntar-se a ela, a Jerusalém, em nome do Senhor, todas as nações, e não voltarão a ir atrás da maldade dos seus corações perversos».

    A vocação de Jeremias tinha duas vertentes: edificar e plantar; arrancar e demolir. A perícopa anterior era claramente pejorativa, condenatória, exigente. Agora, o capítulo terceiro apresenta-nos a outra vertente, com um oráculo de consolação certamente introduzido pelo redactor final da obra, depois da queda de Jerusalém. O profeta exorta os seus contemporâneos à conversão: «Voltai» (v. 14) é a palavra-chave do convite à mudança de vida, à conversão (chub, metanoia). O primeiro passo consistirá em reconhecer Javé como único Senhor e guia do povo. Se tal acontecer, Israel terá um futuro ainda mais esplendoroso do que o seu passado, em que Deus será o único rei de Jerusalém. A sua presença tornará supérflua a da Arca da Aliança, e ninguém mais lamentará o seu desaparecimento. O reconhecimento da soberania de Deus juntará todos os povos que, sem dureza de coração, seguirão a sua vontade e não a «maldade dos seus corações perversos» (v. 17).

    Evangelho: Mateus 13, 18-23

    Naqueles dias, disse Jesus aos seus discípulos: 18«Escutai, pois, a parábola do semeador. 19Quando um homem ouve a palavra do Reino e não compreende, chega o maligno e apodera-se do que foi semeado no seu coração. Este é o que recebeu a semente à beira do caminho. 20Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos é o que ouve a palavra e a acolhe, de momento, com alegria; 21mas não tem raiz em si mesmo, é inconstante: se vier a tribulação ou a perseguição, por causa da palavra, sucumbe logo. 22Aquele que recebeu a semente entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza sufocam a palavra que, por isso, não produz fruto. 23E aquele que recebeu a semente em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende: esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta.»

    Ao explicar a parábola do semeador, Jesus desvia a atenção do semeador que lança a semente para as causas da sua diferente recepção. Explicitando a comparação, passa-se da verificação do êxito, combatido mas surpreendente, da pregação do reino de Deus por Jesus e pelos continuadores da sua obra, para a consideração dos motivos que levam os ouvintes e fechar-se ou a abrir-se ao anúncio e, portanto, à conversão.
    O evangelista faz uma releitura da parábola, fazendo realçar como a dureza de coração seja obra do maligno, que peca desde a origem (cf. 1 Jo 2, 22; 3, 8). O homem secunda a obra do maligno quando, deixando-se absorver pelos sofrimentos, pelas incompreensões, pelas riquezas, não permite à palavra de Jesus lançar raízes na sua existência. Pelo contrário, quem é dócil à palavra de Jesus, produz abundantes frutos e entra a fazer parte daqueles «bem-aventurados» e «pequeninos» aos quais são revelados os mistérios do Reino (cf. Mt 13, 16).

    Meditatio

    «Filhos rebeldes», homens desorientados pelo maligno, somos nós, é a humanidade. Mas Deus não esquece o seu povo. Apesar de todas as desorientações e fracassos, podemos confiar n´Ele, que nos garante: «Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, que vos conduzirão com inteligência e sabedoria» (v. 15). E continua: «Quando vos multiplicardes...» (v. 16). Jesus também termina a sua parábola com uma promessa de fecundidade: «Aquele que recebeu a semente em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende: esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta» (v. 23). Deus não se cansa de semear, de chamar, de prometer. Se fala de terrenos áridos, pedregosos, é porque sabe que, também eles, se podem tornar «boa terra», capaz de maravilhosa fecundidade. O que é preciso é «voltar»: «Voltai!» (v. 14), convertei-vos! Onde quer que estejamos, ainda que desorientados, estamos cercados pelo amor misericordioso de Deus, que põe todo o interesse em nós, que está sempre pronto a renovar-nos o dom da vida, que não nos retira a possibilidade de sermos seus amigos. «Voltar» para Deus, e para o seu amor, não é uma experiência humilhante, mas o prelúdio de uma sinfonia de verdadeira vida, capaz de saciar os nossos mais profundos anseios. Ninguém está incapacitado de se abrir à sua Palavra. Não há circunstâncias em que ela não possa ecoar, ser escutada e actuar «para arrancar e demolir, para arruinar e destruir, para edificar e plantar» (Jr 1, 10). Por isso, «não se falará mais na Arca da aliança do Senhor; não lhes virá ao pensamento, não se lembrarão nem sentirão necessidade dela e não se fará outra» (v. 16). Se isto era verdade para os homens do Antigo Testamento, muito mais é verdade para nós. Se Jerusalém se tornou «Trono do Senhor», onde se juntavam «todas as nações» (v. 17), em Jesus, Deus tornou-se Emanuel, Deus connosco, «coração da humanidade e do mundo» (Cst 19).
    Acolhamos o dom destas mensagens, que o Senhor hoje nos oferece, e façamo-las ecoar na vida de cada dia, abrindo-nos confiadamente ao seu poder misericordioso.

    Oratio

    Senhor, meu Deus, que sussurras no mais íntimo do meu ser: «Volta!», faz-me experimentar o amor que tens por mim, o desejo que tens de mim. Tu desejas-me mais do que eu Te desejo. Se me afasto de Ti, continuas a procurar-me. Se não escuto a tua voz, continuas a lançar a semente da Palavra com generosa abundância. Se não atendo o teu pedido, insistes. Obrigado pela tua fidelidade. Como é bom conhecê-la, não para retardar o regresso, mas para não desanimar com as dificuldades do caminho. Continua a pronunciar a tua palavra para mim. Com a força do Espírito, caminharei rumo à tua intimidade, e deixarei que a semente da tua palavra produza em mim muitos frutos. Amen.

    Contemplatio

    Uma parte do grão cai sobre um terreno fértil, mas é sufocado pelos espinhos.
    Os apelos de Jesus são escutados por algumas almas que s&a
    tilde;o como terrenos repletos de raízes e de sementes de ervas daninhas. Estes terrenos não foram mondados. Estes corações não foram purificados. Não são sensíveis ao amor de Nosso Senhor, mas não têm coragem para renunciar aos afectos naturais e sensuais, aos apegos apaixonados. E o amor de Nosso Senhor é depressa sufocado por todos estes afectos e paixões absorventes.
    Nosso Senhor é um Deus ciumento. Não quer corações partilhados. Retira-se destes corações onde o colocam ao nível das criaturas. Como poderia comprazer-se nesta promiscuidade?
    Mas há uma parte da semente que cai na boa terra e que produz o cêntuplo. Nosso Senhor ao dizer-nos isto considerava com alegria as almas fervorosas, a almas unidas a Ele, que recebem abundantemente a semente pela fidelidade da oração, pela regularidade habitual, pelo recolhimento, pela vida interior, pela união aos mistérios do Sagrado Coração. Oh! São então sementeiras de todo o dia e dão frutos ao cêntuplo. Como Nosso Senhor se satisfaz a cultivar estas terras férteis, que dão ao seu Coração tantos frutos de puro amor! (Leão Dehon, OSP 4, p. 121).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «O que recebeu a semente em boa terra dá fruto» (Mt 13, 23).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • XVI Semana - Sábado - Tempo Comum - Anos Pares

    XVI Semana - Sábado - Tempo Comum - Anos Pares


    27 de Julho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    XVI Semana - Sábado

    Lectio

    Primeira leitura: Jeremias 7, 1-11

    1A palavra do Senhor foi dirigida a Jeremias, nestes termos: 2«Coloca-te à porta do templo do Senhor e proclama aí este discurso: «Escutai a palavra do Senhor, habitantes de Judá, que entrais por estas portas para adorar o Senhor. 3Assim fala o Senhor do universo, o Deus de Israel:Endireitai os vossos caminhos e emendai as vossas obras e Eu habitarei convosco neste lugar. 4Não vos fieis em palavras de mentira, dizendo: 'Templo do Senhor, templo do Senhor! Este é o templo do Senhor'. 5Mas, se endireitardes os vossos caminhos e emendardes as vossas obras, se verdadeiramente praticardes a justiça uns com os outros, 6se não oprimirdes o estrangeiro, o órfão e a viúva, nem derramardes neste lugar o sangue inocente, se não seguirdes, para vossa desgraça, deuses estrangeiros, 7então, Eu permanecerei convosco neste lugar, nesta terra que dei desde sempre e para sempre a vossos pais. 8Contudo, eis que vos enganais a vós mesmos, confiando em palavras vãs, que de nada vos servirão. 9Roubais, matais, cometeis adultérios, jurais falso, ofereceis incenso a Baal e procurais deuses que vos são desconhecidos; 10e depois, vindes apresentar-vos diante de mim, neste templo, onde o meu nome é invocado, e exclamais: 'Estamos salvos!' Mas seguidamente voltais a cometer todas essas abominações. 11Porventura, este templo, onde o meu nome é invocado, é a vossos olhos, um covil de ladrões? Ficai sabendo que Eu vi todas estas coisas - oráculo do Senhor.

    Esta perícopa dá início a uma nova secção, na obra de Jeremias. Trata-se de uma colecção de oráculos dispersos certamente feita por um dos discípulos do profeta. Estes oráculos reflectem a situação histórica, moral e religiosa, que seguiu à morte de Josias, durante o reinado de Joaquim.
    A palavra de Deus leva Jeremias até à porta do templo, morada de Deus e lugar santo por excelência. Aí, o profeta estigmatiza a hipocrisia dos que vêm prestar culto a Deus, mas não cumprem os mandamentos. Os injustos, os assassinos, os ladrões, os adúlteros, os que juram falso, os que vivem uma fé sincretista, não escaparão aos castigos divinos, só por entrarem no templo e apresentarem ofertas e sacrifícios ao Senhor (vv. 5-10). É um absurdo pensar que Deus possa ser conivente com tais crimes. Deus é santo e, quem entra no templo, há-de viver em santidade. O templo não pode ser «um covil de ladrões» (v. 11). Os criminosos profanam o templo santo, habitado por Deus santo. Por isso, merecem o castigo divino (v. 11). Para escapar a esse castigo só há um caminho: converter-se, isto é, melhorar o próprio comportamento, as próprias acções, e viver segundo os mandamentos de Deus (vv. 3-5).

    Evangelho: Mateus 13, 24-30

    Naquele tempo, 24Jesus propôs-lhes outra parábola: «O Reino do Céu é comparável a um homem que semeou boa semente no seu campo. 25Ora, enquanto os seus homens dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e afastou-se. 26Quando a haste cresceu e deu fruto, apareceu também o joio. 27Os servos do dono da casa foram ter com ele e disseram-lhe: 'Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem, pois, o joio?' 28'Foi algum inimigo meu que fez isto' - respondeu ele. Disseram-lhe os servos: 'Queres que vamos arrancá-lo?' 29Ele respondeu: 'Não, para que não suceda que, ao apanhardes o joio, arranqueis o trigo ao mesmo tempo. 30Deixai um e outro crescer juntos, até à ceifa; e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio e atai-o em feixes para ser queimado; e recolhei o trigo no meu celeiro.'»

    Jesus apresenta mais uma parábola, desta vez, com dois semeadores. O primeiro lança à terra boa semente de trigo; o segundo lança à terra sementes de joio, erva daninha que irá prejudicar a sementeira. Este campo semeado de bom trigo e de joio é a Igreja, que está nos seus inícios, mas também toda a humanidade. Numa e noutra crescem lado a lado o trigo e o joio. Os servos querem eliminar a erva daninha. Mas o dono do campo tem outra lógica: «Deixai um e outro crescer juntos, até à ceifa» (v. 30). Deste modo, Jesus revela-nos o coração do Pai, que deixa crescer os bons e os maus. Só na altura da ceifa os separará e lhes dará diferente destino. Deus não intervém para arrancar o mal presente na Igreja e no mundo, presente no coração do homem. Só no momento do juízo ficará patente quem praticou o bem e quem praticou o mal. Ao excesso de zelo de quem pretende a todo o custo e imediatamente eliminar o mal, e quem o faz, contrapõe-se a tolerância de Deus, que não é um qualquer pacifista, mas conhece os tempos de crescimento do coração humano. Era o que já verificava, com grande espanto, o autor do livro da Sabedoria: «Tu tens compaixão de todos, pois tudo podes e desvias os olhos dos pecados dos homens, a fim de os levar à conversão» (Sb 11, 23).

    Meditatio

    O povo de Jerusalém sentia-se seguro junto do templo onde Deus habitava. Como podia o Senhor abandonar uma cidade onde tinha a sua morada? Aproveitando esse sentimento de segurança, Jerusalém abandonava-se a todo o género de abusos, levando uma vida incoerente com a Aliança. Jeremias insurge-se contra essas ilusões religiosas do seu povo: «Roubais, matais, cometeis adultérios, jurais falso, ofereceis incenso a Baal e procurais deuses que vos são desconhecidos; e depois, vindes apresentar-vos diante de mim, neste templo, onde o meu nome é invocado, e exclamais: 'Estamos salvos!' Mas seguidamente voltais a cometer todas essas abominações» (vv. 9-10).
    Para agradar a Deus, não é suficiente ir aos lugares sagrados e participar no culto. É indispensável viver segundo a vontade de Deus. Não há que confiar nas palavras mentirosas dos que dizem: «'Templo do Senhor, templo do Senhor! Este é o templo do Senhor'. Mas, se endireitardes os vossos caminhos e emendardes as vossas obrasentão, Eu permanecerei convosco neste lugar» (cf. vv. 4-7).
    Os avisos de Jeremias e, sobretudo, as palavras de Jesus devem fazer-nos pensar! Onde nos leva a nossa confiança em Deus? Se nos permite descurar os nossos deveres, não é verdadeira confiança, porque essa leva à docilidade, à generosidade. E então, sim: Deus jamais faltará com a sua ajuda, e dará a graça para caminharmos no seu amor.
    O evangelho leva-nos a reflectir na paciência de Deus e na nossa intolerância. Perante o mal, é espontâneo revoltar-nos contra quem o faz. Por vezes, até nos escandalizamos com Deus, que não intervém para eliminar o sofrimento provocado pelas doenças, pelas prepotências dos outros, pelo egoísmo de tantos... Quem faz tanto mal, semeando morte e sofrimento, não deveria morrer? Estas e outras perguntas vêm do sentido de impotência que experimentamos diante do mal. Deus não nem sempre responde imediatamente aos nossos clamores. Até esperou três dias para responder ao grito do seu próp
    rio Filho cravado na cruz! Como é grande a paciência de Deus! Como é incómoda, também para Ele, que sofre ao ver sofrer os seus filhos! Mas Deus não pode retirar-nos o grande dom da liberdade que nos concedeu! Seria bom até perguntar-nos como usamos esse dom, se o pomos ao serviço do bem ou ao serviço do mal. Não é possível descer a compromissos e, no momento do encontro face a face com Deus, há-de revelar-se claramente a opção feita por cada um. De nada servirá uma religiosidade que se limite a práticas exteriores, que não envolva o coração e a vida. Mais importante do que perguntar pela razão do mal, é perguntar: «que faço para promover o bem?».
    A paciência de Deus há-de inspirar e motivar a nossa paciência, em todas as circunstâncias, com todas as pessoas. Há que aceitar serenamente os sofrimentos da vida. E são tantos! Há que saber respeitar os passos dos outros. Mesmo na actividade pastoral, há que aceitar o ritmo das pessoas e das comunidades. Na actividade missionária ad gentes, há que respeitar a lentidão de quem não tem a nossa cultura, a nossa longa tradição cristã. Recordemos que «um é o que semeia e outro o que recolhe» (cf. Jo 4, 27) e que há quem planta e quem rega, mas só Deus faz crescer (cf. 1 Cor 3, 6-7). A evangelização deve ter a sabedoria do camponês que respeita os ritmos da natureza. O missionário é sempre um semeador, não um vendedor ambulante de receitas mágicas com efeito imediato.
    A paciência leva-nos também a aceitar o pluralismo: pluralismo de nacionalidade na comunidade, pluralismo de métodos de apostolado, diferenças de sensibilidade, de maneiras de viver e de agir.
    Finalmente, a paciência dá-nos capacidade de colaboração, seja com a Igreja local para realizar honestamente os seus planos pastorais, seja com os confrades, com os outros religiosos e religiosas da diocese, com o clero local, e ainda a capacidade de valorizar e envolver os leigos.

    Oratio

    Senhor, a tua paciência, por vezes, escandaliza-me! Como compreender que toleres o mal, mesmo quando se revela claramente na tua Igreja? Não é sua missão testemunhar a tua santidade? Sempre pronto a apontar o argueiro no olho dos outros, esquecendo a trave que tenho no meu, não entendo, nem quero entender a tua paciência e tolerância, até porque pressinto que me pedes a mesma atitude para com os meus irmãos. Infunde em mim o teu Espírito Santo, para que produza os seus doze frutos, concretamente o da paciência, e torne o meu coração semelhante ao teu. Amen.

    Contemplatio

    Não nos apoiemos sobre a estima do mundo. Um dia nos aclamará e no dia seguinte entregar-nos-á à cruz. Apoiemo-nos no amor de Nosso Senhor. Temos disso uma nova prova em todos os ultrajes e humilhações que quis suportar por nós. Verdadeiramente foi um amor sem limites que nos mostrou em toda a sua Paixão. Até quando havemos de ter um coração duro e insensível?
    Se somos objecto dos desprezos do mundo e dos seus insultos, suportemo-los humildemente. Nosso Senhor está lá, e dá-nos o exemplo. Ele era justo e calava-se. Nós que somos culpados, não poderemos sofrer nada para expiar as nossas faltas?
    Imitemos a paciência, a doçura, a resignação do Coração de Jesus. Que importa que o mundo nos odeie e nos despreze, se Deus está contente connosco e se nos concede a sua protecção e o seu amor paterno?
    Hoje cremo-nos muito inocentes e indignamo-nos contra os judeus, mas infelizmente não fizemos muitas vezes como eles? Não preferimos Barrabás a Jesus Cristo, o demónio ou os seus satélites ao Filho de Deus, uma vil satisfação a um acto de virtude?
    Quando cometemos o pecado, preferimos a criatura a Deus, e muitas vezes, que criatura? Deus diz em Isaías: «Ó meu povo, a quem me comparastes, quando preferistes ídolos?» (Is 46,5). (Leão Dehon, OSP 3, p. 335s).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Deixai um e outro crescer juntos, até à ceifa» (Mt 13, 30).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • SS. Marta, Maria e Lázaro, Hospedeiros do Senhor

    SS. Marta, Maria e Lázaro, Hospedeiros do Senhor


    29 de Julho, 2024

    (Próprio da Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus - Dehonianos)

    Marta é irmã de Maria e de Lázaro de Betânia. No evangelho aparece em apenas três episódios (Lc 10, 38-42; Jo 11, 1-44; Jo 12, 1-11). É uma mulher dinâmica, que acolhe desveladamente Jesus. Maria, também aparece apenas três vezes em cena, nos evangelhos, (Lc 10; Jo 11; Mt 26). É a mulher atenta e contemplativa, que dá mais atenção ao Senhor do que às "coisas do Senhor". De Lázaro sabemos apenas o que dele se diz no evangelho de João (11, 1-14; 12, 1-2). Os três são amigos e hospedeiros do Senhor.

    Lectio

    Primeira leitura: 1 João 4,7-16

    Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus. 8Aquele que não ama não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor. 9E o amor de Deus manifestou-se desta forma no meio de nós: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que, por Ele, tenhamos a vida. 10É nisto que está o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele mesmo que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados. 11Caríssimos, se Deus nos amou assim, também nós devemos amar-nos uns aos outros. 12A Deus nunca ninguém o viu; se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu amor chegou à perfeição em nós. 13Damos conta de que permanecemos nele, e Ele em nós, por nos ter feito participar do seu Espírito. 14Nós o contemplámos e damos testemunho de que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo. 15Quem confessar que Jesus Cristo é o Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus. 16Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele. Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele.

    "Amor com amor se paga", diz o nosso povo. "Deus é amor" e amou-nos por primeiro; "Amemo-nos uns aos outros". São os pensamentos centrais deste texto. No capítulo III da sua carta, João abordou o tema do amor do ponto de vista negativo: quem não ama, comete pecado, e o pecador não pode ver a Deus. Agora expõe o mesmo pensamento, mas do ponto de vista positivo: o amor é necessário porque Deus é amor, "porque o amor vem de Deus".
    O nosso amor a Deus é sempre resposta ao seu amor por nós. O amor de Deus manifestou-se, historicamente, em Cristo. A família de Lázaro de Betânia experimentou esse amor, e correspondeu-lhe acolhendo Jesus com delicadeza e generosidade.

    Evangelho: Lucas 10,38-42

    Naquele tempo, Jesus, continuando o seu caminho, entrou numa aldeia. E uma mulher, de nomeMarta, recebeu-o em sua casa.39Tinha ela uma irmã, chamada Maria, a qual, sentada aos pés do Senhor, escutava a sua palavra. 40Marta, porém, andava atarefada com muitos serviços; e, aproximando-se, disse: «Senhor, não te preocupa que a minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe, pois, que me venha ajudar.» 41O Senhor respondeu-lhe: «Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas; 42mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada.»

    Amar o próximo, como Jesus ensinou na parábola do bom samaritano (Lc 10, 25-37), é necessário. Mas não basta, como verificamos logo a seguir, em Lc 10, 38-42. Jesus entra em casa de Marta e Maria. Marta entrega-se ao trabalho por Jesus; Maria, sentada aos pés do Senhor, escuta-O. Marta protesta, e Jesus diz-lhe: "Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas; mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada." (v. 41s.). Não se trata de opor ação e contemplação. Marta apenas representa aqueles cuja ação não se baseia na palavra de Jesus; Maria, pelo contrário, representa os que dão atenção à palavra, que necessariamente deve traduzir-se em serviço amoroso a Deus e ao próximo.

    Meditatio

    Santa Marta é a mulher eficiente e segura de si mesma. Por isso, se deixa levar excessivamente pelo que deve fazer, perdendo de vista a motivação do seu trabalho. No confronto com Jesus, percebe que a eficiência não é o valor mais alto, e que só é importante na medida em que for equilibrado pelo acolhimento, pela atenção ao outro e pelo "temor de Deus", isto é, movido pelo amor. Se assim não for, a ação pode tornar-se ativismo, que descuida o essencial e se torna fonte de ansiedade e de fragmentação.
    O episódio que hoje escutamos levou Santa Marta, não só a fazer coisas pelo Senhor, mas, sobretudo, a colocar-se diante d´Ele em verdade e diálogo. Dessa atitude resultou aquela fé segura com que, ainda que chorosa e desiludida com a morte do irmão Lázaro, se dirigiu ao Senhor: "Senhor, se Tu cá estivesses, o meu irmão não teria morrido. Mas, ainda agora, eu sei que tudo o que pedires a Deus, Ele to concederá." (Jo 11, 21s.). Marta deixou-se conduzir por Jesus no caminho do sofrimento que a levou a conhecer melhor a Jesus e a si mesma.
    Maria é exemplo do discípulo que descobre a Palavra de Deus em Jesus Cristo e a acolhe com atenção. Ela não é um místico que se eleva até Deus, mas um crente que está atento à palavra concreta que Deus lhe dirige, e a procura pôr em prática.
    Lázaro é o chefe de família que acolhe Jesus, Palavra de Deus feita carne, e se deixa transformar por ela. O amor de Jesus fê-lo regressar da morte à vida. E Lázaro, com as suas irmãs, souberam corresponder ao amor de Jesus, acolhendo com entusiasmo, delicadeza e generosidade em sua casa: "Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde vivia Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos. Ofereceram-lhe lá um jantar. Marta servia e Lázaro era um dos que estavam com Ele à mesa. Então, Maria ungiu os pés de Jesus com uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, e enxugou-lhos com os seus cabelos. A casa encheu-se com a fragrância do perfume." (Jo 12, 1-3).

    Oratio

    Pai santo, que na casa de Betânia, fizeste experimentar ao teu Filho muito amado a alegria da amizade, a solicitude do serviço e a escuta atenta da sua palavra, concede, também a nós, a graça de aderirmos a Ele, nosso único Mestre, pelo ardor da meditação e das obras de caridade, para que, tornando-nos agradáveis aos seus olhos, sejamos acolhidos na alegria eterna. Ámen. (uma das coletas propostas para esta festa).

    Contemplatio

    Marta e Maria têm cuidados assíduos por Nosso Senhor e pelos apóstolos. Assistem-nos nas suas necessidades. Recebem-nos e cuidam deles em Betânia. Nosso Senhor encontra lá o seu repouso, a sua consolação. Volta para lá à noite, depois das suas pregações no templo e é envolvido de cuidados. Marta e Maria são fiéis a Jesus nas suas provações. São vítimas com Ele. Seguem-no até ao Calvário, partilham as suas dores. São humilhadas e insultadas com Ele e por Ele. Madalena não conhece temor nem hesitação. Está ao pé da cruz com a santa Virgem e S. João. É regada com o sangue de Jesus. Recolhe este sangue precioso. Sepulta Jesus. Leva o sudário e os perfumes. O grande sábado mantém-na afastada do sepulcro, mas volta lá na primeira hora depois do sábado. Procura o seu Jesus crucificado. Madalena e as santas mulheres são os nossos modelos para procurarmos Jesus. Procuremo-lo sempre, procuremo-lo por toda a parte. Procuremo-lo, não para fruirmos já, para dele recebermos graças gratuitas e extraordinárias, mas para compreendermos o seu amor, para imitarmos o seu exemplo, para nos imolarmos com ele. O anjo diz às santas mulheres: «Não temais, procurais Jesus crucificado». Nós também já nada temos a temer, se procurarmos Jesus crucificado. Não nos podemos enganar, se seguirmos Jesus até ao Calvário, na humildade e na imolação. Podemos encontrar a ilusão nas consolações espirituais, não temos que a temer na obediência e no sacrifício, no humilde serviço de Jesus e na fidelidade à nossa regra de vida. Vemos em todas as circunstâncias Santa Madalena, aos pés de Jesus, era assim que ela exprimia a sua humildade e a sua fidelidade. Imitemo-la. (Leão Dehon, OSP 4, p. 81s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "Eu estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta,
    Eu entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo" (Ap 3, 20).

    ----
    SS. Marta, Maria E Lázaro, Hospedeiros do Senhor (29 Julho)

plugins premium WordPress