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  • IV Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    Categoria: Semanal IV Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    1 de Fevereiro, 2022

    Tempo Comum - Anos Pares
    IV Semana - Terça-feira
    Lectio

    Primeira leitura: 2 Samuel 18, 9-10.14b.24-25ª.30 - 19, 3

    Naqueles dias, 9Absalão, montado numa mula, encontrou-se, de repente, em frente dos homens de David. A mula passou sob a ramagem espessa de um grande carvalho, e a cabeça de Absalão ficou presa nos ramos da árvore, de modo que ficou suspenso entre o céu e a terra enquanto a mula, em que ia montado, seguia em frente. 10Alguém viu isto e informou Joab: «Vi Absalão suspenso num carvalho.» 14Joab respondeu: «Não tenho tempo a perder contigo.» Tomou, pois, três dardos e cravou-os no coração de Absalão. 24David estava sentado entre duas portas. A sentinela que tinha subido ao terraço da muralha por cima da porta, levantou os olhos e viu um homem que corria sozinho. 25Gritou para dar a notícia ao rei, que disse: «Se vem só, traz boas notícias.» 1Então, o rei, muito triste, subiu ao quarto que estava por cima da porta e pôs-se a chorar. E dizia, caminhando de um lado para o outro: «Meu filho Absalão, meu filho, meu filho Absalão! Porque não morri eu em teu lugar? Absalão, meu filho, meu filho!» 2Disseram a Joab: «O rei chora e lamenta-se por causa de Absalão.» 3E naquele dia a vitória converteu-se em luto para todo o exército, porque o povo soube que o rei estava acabrunhado de dor por causa do filho. 4Por isso, o exército entrou na cidade em silêncio, como entra, coberto de vergonha, um exército derrotado.

    Já na fase da decadência do reino, David enfrenta a revolta do seu filho Absalão. Desejando dominar a revolta, David pede que seja poupada a vida do filho. Mas o jovem, ao fugir, fica pendurado nos ramos de um carvalho e é morto por Joab que, com isso, pensa agradar ao rei.
    A liturgia apenas nos faz escutar alguns versículos desta dramática narrativa. David espera novidades da frente de batalha. Os servos começam por lhe dar as boas notícias. O drama explode quando, a uma pergunta directa do rei, têm de lhe comunicar a morte do filho. David desata a chorar amargamente. O filho, morto em combate, já não é um inimigo, mas um simples rapaz. O júbilo da vitória transformou-se em luto intenso. David tinha perdoado a vida a Saul (1 Sam 24 e 26); como não havia de perdoar ao filho?
    O mais específico, mas também o mais difícil do cristianismo, é o perdão dos inimigos: «Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, abençoai os que vos amaldiçoam, rezai pelos que vos caluniam... Se amais os que vos amam, que agradecimento mereceis? Os pecadores também amam aqueles que os amam...Também os pecadores fazem o mesmo». Neste sentido, David foi um cristão antes do cristianismo.

    Evangelho: Mc 5, 21-43

    21Naquele tempo, depois de Jesus ter atravessado, no barco, para a outra margem, reuniu-se uma grande multidão junto dele, que continuava à beira-mar. 22Chegou, então, um dos chefes da sinagoga, de nome Jairo, e, ao vê-lo, prostrou-se a seus pés 23e suplicou instantemente: «A minha filha está a morrer; vem impor-lhe as mãos para que se salve e viva.» 24Jesus partiu com ele, seguido por numerosa multidão, que o apertava. 25Certa mulher, vítima de um fluxo de sangue havia doze anos, 26que sofrera muito nas mãos de muitos médicos e gastara todos os seus bens sem encontrar nenhum alívio, antes piorava cada vez mais, 27tendo ouvido falar de Jesus, veio por entre a multidão e tocou-lhe, por detrás, nas vestes, 28pois dizia: «Se ao menos tocar nem que seja as suas vestes, ficarei curada.» 29De facto, no mesmo instante se estancou o fluxo de sangue, e sentiu no corpo que estava curada do seu mal. 30Imediatamente Jesus, sentindo que saíra dele uma força, voltou-se para a multidão e perguntou: «Quem tocou as minhas vestes?» 31Os discípulos responderam: «Vês que a multidão te comprime de todos os lados, e ainda perguntas: 'Quem me tocou?'» 32Mas Ele continuava a olhar em volta, para ver aquela que tinha feito isso. 33Então, a mulher, cheia de medo e a tremer, sabendo o que lhe tinha acontecido, foi prostrar-se diante dele e disse toda a verdade. 34Disse-lhe Ele: «Filha, a tua fé salvou-te; vai em paz e sê curada do teu mal.» 35Ainda Ele estava a falar, quando, da casa do chefe da sinagoga, vieram dizer: «A tua filha morreu; de que serve agora incomodares o Mestre?» 36Mas Jesus, que surpreendera as palavras proferidas, disse ao chefe da sinagoga: «Não tenhas receio; crê somente.» 37E não deixou que ninguém o acompanhasse, a não ser Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago. 38Ao chegar a casa do chefe da sinagoga, encontrou grande alvoroço e gente a chorar e a gritar. 39Entrando, disse-lhes: «Porquê todo este alarido e tantas lamentações? A menina não morreu, está a dormir.» 40Mas faziam troça dele. Jesus pôs fora aquela gente e, levando consigo apenas o pai, a mãe da menina e os que vinham com Ele, entrou onde ela jazia. 41Tomando-lhe a mão, disse: «Talitha qûm!», isto é, «Menina, sou Eu que te digo: levanta-te!» 42E logo a menina se ergueu e começou a andar, pois tinha doze anos. Todos ficaram assombrados. 43Recomendou-lhes vivamente que ninguém soubesse do sucedido e mandou dar de comer à menina.

    Marcos apresenta-nos, hoje, dois gestos decisivos de Jesus contra a morte: a cura da mulher que sofria de um fluxo de sangue e a cura da filha de Jairo. A perda de sangue era, para a mulher hebreia, uma frustração vital, porque, não poder ter descendência, equivalia à morte prematura (cf. Gen 30, 1). A filha de Jairo estava mesmo morta e teve que ser «ressuscitada». Jesus livra ambas da morte mostrando que é o verdadeiro Messias, porque a sua palavra suscita vida.
    Os dois episódios estão entrelaçados um no outro, revelando pontos de contacto e diferenças. No caso da filha de Jairo, a súplica do pai recebe uma resposta pronta de Jesus, que imediatamente se dirige para sua casa. Mas a caminhada é abruptamente interrompida com a intervenção da mulher que sofria do fluxo de sangue. Contrasta o comportamento de Jairo, homem influente, e o da hemorroíssa que se aproxima furtivamente de Jesus. Mas ambos têm a mesma confiança em Jesus e obtêm uma resposta pronta. A mulher, primeiro é secretamente curada da sua doença física; depois é curada da sua timidez, dos seus complexos: a mulher ganha coragem, fala com Jesus, estabelece uma relação com Ele. Foi curada e foi salva.
    No caso da menina, Jesus tem uma reacção diferente: enquanto tinha incitado a mulher, que se apresentara em segredo, a mostrar-se diante de todos, aqui ordena a Jairo, que fizera publicamente o seu pedido, que não divulgasse o milagre.

    Meditatio

    O amor de David para com o seu filho Absalão dá-nos uma ideia, ainda que pálida do amor de Deus, nosso Pai, para com todos os seus filhos, ainda que pecadores. Ao receber a notícia da morte de Absalão, David não pensa na revolta, na ingratidão, na falta de amor do filho. Pensa no jovem Absalão, que já não é um inimigo, mas um pobre rapaz, um filho morto. Por isso, chora a
    margamente e a vitória transforma-se em luto pesado.
    É assim que Deus trata os seus filhos pecadores: «É assim que Deus demonstra o seu amor para connosco: quando ainda éramos pecadores é que Cristo morreu por nós» (Rom 5, 8). Diante dos filhos mortos pelo pecado, Deus como que Se esquece de Si e dos seus direitos para os fazer voltar à vida.
    O evangelho está cheio de lições muito concretas para nós. Aqueles que se dirigem a Jesus, para obter graças, fazem-no de diversos modos. Jesus também responde de diferentes modos. Por vezes, parece não querer ouvir quem lhe faz a súplica. Outras vezes, antecipa-se a conceder a graça, ainda antes que alguém lha peça.
    Jairo, um homem importante, não hesita em pedir, com humildade, a cura da filha. A hemorroíssa, pelo contrário, tem vergonha em pedir, porque a sua doença a excluía do contacto com os outros. Além disso, temia mais uma desilusão, depois de tantas que tivera com os médicos.
    Jesus atende-os os dois, porque ambos revelam uma grande fé. Mas trato-os de modo diferente. Obriga a mulher a dar a cara, talvez para ensinar que nenhuma doença, nenhuma condição humana, são motivo de exclusão, e que basta a fé para ser curado por Ele. Jairo, pelo contrário, ocupando um lugar de prestígio na sociedade, é, por assim dizer, convidado à sobriedade e à reserva: poucos discípulos assistem à ressurreição da menina, e Jairo não deve fazer publicidade do facto. Estando em causa uma criança, era preciso respeitar-lhe os sentimentos, evitar os excessos da curiosidade pública, e fazê-la voltar rapidamente a uma vida normal: «mandou dar de comer à menina».
    O evangelho dá-nos lições de respeito pela privacidade das pessoas...
    Quanta felicidade sinto em ser filho do Pai que está no Céu. Mas sou ainda mais feliz quando penso que "Deus mostrou o Seu amor por nós porque, quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós" (Rm 5, 8). Amou-nos quando "éramos (Seus) inimigos!" (Rm 5, 10). Então sinto uma ilimitada gratidão no coração por Deus-Pai, por Cristo e sinto-me tão feliz que, como S. Paulo, exclamo: "Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores e eu sou o primeiro" (Tm 1, 15).
    A Igreja, Povo de Deus, é comunidade-comunhão, que não pode comportar qualquer tipo de exclusão. A sua lei fundamental, o amor, implica respeito pela dignidade de todo o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus. O amor, sobre o qual se funda a comunhão, é o amor-oblativo, idêntico ao do Pai e de Cristo, um amor criativo, gratuito, universal, que sabe compreender, perdoar, salvar, transformar...

    Oratio

    Senhor Jesus, dá-me a fé e a confiança da mulher doente, e a humildade de Jairo, para que, indo ao teu encontro e procurando tocar-te e falar-te, me deixe tocar por Ti e escute a tua palavra salvadora. Tu sabes bem do que eu preciso. Derrama sobre mim o amor e a misericórdia do Pai. O teu poder venceu a morte e deu-nos a vida. Cura em mim tudo quanto me impede de viver com a dignidade de um filho do Pai que está no Céu. Dá-me a vida, para que a tenha em abundância. Amen.

    Contemplatio

    A juventude com a sua franqueza, os seus ardores e a sua generosidade, com as esperanças que faz conceber, não é menos cara ao Coração do bom Mestre do que a infância. As graças de ressurreição que concede na sua vida mortal são para a juventude: Lázaro é ainda um jovem; a filha de Jairo é uma criança de doze anos; o terceiro é um adolescente, o filho único da pobre viúva de Naim.
    Como Jesus se mostra solícito e dedicado em todas estas circunstâncias! A sua emoção trai o seu coração.
    «Mestre, dizem as irmãs de Lázaro, aquele que amais está doente. - O nosso amigo Lázaro dorme, diz Jesus. Desde que Jesus vê Madalena e os amigos de Lázaro a chorar, estremece, perturba-se: «Onde o colocaram?», diz, e chora; e os Judeus diziam: «Vede como o amava». - E chegado junto do túmulo, Jesus chamou o seu amigo Lázaro com grandes gritos e Lázaro levantou-se (Jo 11).
    Jesus dirige-se a casa de Jairo junto do cadáver de uma menina de doze anos. Toma-a pela mão gritando-lhe: «Menina, levanta-te, sou eu que o quero». E ordena que lhe dêem de comer (Mt 9, 18).
    Para o filho da viúva de Naim, Jesus emociona-se de compaixão. Diz à mãe: «Não chore». Toca no caixão, diz em alta voz: «Jovem, eu te ordeno, levanta-te». Depois, entrega-o à sua mãe (Lc 7, 11).
    Jesus ama os jovens, e quer ganhar o seu coração para o dar a seu Pai (Leão Dehon, OSP 4, p. 41).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Filha, a tua fé salvou-te; vai em paz e sê curada do teu mal» (Mc 5, 34).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • IV Semana - Quarta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    Categoria: Semanal IV Semana - Quarta-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    2 de Fevereiro, 2022

    Tempo Comum - Anos Pares
    IV Semana - Quarta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 2 Samuel 24, 2.8b-17

    2Naqueles dias, David ordenou a Joab, chefe do exército: «Percorre todas as tribos de Israel, de Dan a Bercheba, e faz o recenseamento do povo, de maneira que eu saiba o seu número.» 8Percorreram, assim, todo o país e voltaram a Jerusalém, ao fim de nove meses e vinte dias. 9Joab apresentou ao rei a soma do recenseamento do povo. Havia em Israel oitocentos mil homens de guerra, que manejavam a espada e, em Judá, quinhentos mil homens. 10Feito o recenseamento do povo, David sentiu remorsos e disse ao Senhor: «Cometi um grande pecado, ao fazer isto. Mas perdoa, Senhor, a culpa do teu servo, porque procedi como um insensato.» 11Pela manhã, quando David se levantou, o Senhor tinha falado ao profeta Gad, vidente de David, nestes termos: 12«Vai dizer a David: 'Eis o que diz o Senhor. Dou-te a escolher entre três coisas; escolhe uma das três e a executarei.'» 13Gad foi ter com David e referiu-lhe estas palavras, dizendo: «Que preferes: sete anos de fome sobre a terra, três meses a fugir diante dos inimigos que te perseguem, ou três dias de peste no teu país? Reflecte, pois, e vê o que devo responder a quem me enviou.» 14David respondeu a Gad: «Vejo-me em grande angústia. É melhor cair nas mãos do Senhor, cuja misericórdia é grande, do que cair nas mãos dos homens!» 15O Senhor enviou a peste a Israel, desde a manhã daquele dia até ao prazo marcado. Morreram setenta mil homens do povo, de Dan a Bercheba. 16O anjo estendeu a mão contra Jerusalém para a destruir. Mas o Senhor arrependeu-se desse mal e disse ao anjo que exterminava o povo: «Basta, retira a tua mão.» O anjo do Senhor estava junto à eira de Araúna, o jebuseu. 17Vendo o anjo que feria o povo, David disse ao Senhor: «Fui eu que pequei, eu é que tenho culpa! Mas estes, que são inocentes, que fizeram? Peço que descarregues a tua mão sobre mim e sobre a minha família!»

    O recenseamento do povo, por David, é um pecado porque, com ele, o rei mostra confiar mais nos efectivos humanos do que em Deus. Por isso é que o rei sente remorsos e o profeta Gad anuncia um castigo. David pode escolher entre uma das três punições previstas pela Lei para quem atraiçoe a Aliança (cf. Dt 28, 21-26). David prefere a peste à guerra porque, um castigo vindo da mão de Deus, permite esperar na misericórdia divina (v. 14). De facto, Deus sente compaixão por Jerusalém, e poupa-a (v. 17). O próprio rei intercede pelo povo inocente, e assume as responsabilidades pelo sucedido (v. 1). Vemos, neste relato, a dialéctica da história da salvação: pecado, castigo, arrependimento, perdão. Vemos também nele a doutrina da retribuição colectiva: a conduta de uma pessoa pode repercutir-se, para o bem e para o mal, em toda a comunidade. Essa repercussão acentua-se se a pessoa em causa tiver responsabilidades em relação à comunidade, por exemplo, se for rei. Foi David que pecou; mas o castigo ameaça todo o povo.

    Evangelho: Mc 6, 1-6

    1Naquele tempo, Jesus foi para a sua terra, e os discípulos seguiam-no. 2Chegado o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Os numerosos ouvintes enchiam-se de espanto e diziam: «De onde é que isto lhe vem e que sabedoria é esta que lhe foi dada? Como se operam tão grandes milagres por suas mãos? 3Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós?» E isto parecia-lhes escandaloso. 4Jesus disse-lhes: «Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes e em sua casa.» 5E não pôde fazer ali milagre algum. Apenas curou alguns enfermos, impondo-lhes as mãos. 6Estava admirado com a falta de fé daquela gente.

    Depois de apresentar alguns milagres de Jesus, Marcos abre uma nova secção do seu evangelho para falar de uma série de viagens, dentro e fora da Galileia. Começa por ir à «sua terra», a Nazaré e, em dia de sábado, entra na sinagoga. Usa o direito de comentar a Escritura na sinagoga, que era reconhecido a qualquer homem adulto. Mas a sua doutrina é diferente da dos outros rabis. Marcos não cita, ao contrário de Lucas (4, 17ss.) os versículos de Isaías lidos por Jesus. Mas regista o espanto de quantos o ouviram. Esse espanto era motivado pela origem das palavras pronunciadas por Jesus, pela sabedoria que demonstrava e pelos prodígios que fazia. Tudo parecia estar em contradição com o conhecimento que tinham dele e da sua família. Mas é nesta contradição que se revela a verdadeira identidade de Jesus (v. 3). Também os profetas foram muitas vezes perseguidos por aqueles que tinham maior obrigação de os compreender (v. 4). A falta de fé dos seus conterrâneos impede Jesus de fazer entre eles milagres e prodígios, como tinha feito noutras terras.

    Meditatio

    S. Marcos apresenta-nos o episódio de Jesus na sinagoga de Nazaré, sublinhando a incredulidade dos seus conterrâneos. Estes conheciam bem Jesus e a sua família. E não são capazes de se abrir à novidade que Deus coloca diante deles. Jesus devia continuar a ser o que sempre fora. Por isso, não aceitam os seus milagres nem a sua pregação.
    Esta tentação pode atingir, ainda hoje, a comunidade dos discípulos, seja no seu conjunto, seja nas comunidades particulares. Se Jesus, pelo seu Espírito, surpreende com novas iniciativas, facilmente se levantam oposições, porque se pensa que tudo deve continuar como sempre foi. E assim se impede o Senhor de realizar todos os prodígios que pode e quer fazer entre nós.
    As palavras e as acções proféticas de Jesus desencadeiam uma oposição violenta da parte dos nazarenos. Jesus, como israelita conhecedor da história do seu povo, não se espanta e, serenamente, afirma: «Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria» (Lc 4, 24).
    Também os discípulos de Jesus se encontram numa situação parecida com a de Jesus. Sendo discípulos, julgam saber tudo sobre Ele. É por isso que as nossas comunidades cristãs, tantas vezes, já quase não escutam a sua palavra. Sabem-na de cor. Já não lhes causa espanto. Já não os interpela. Mas, se interpela, arranjam mil e uma desculpa para não se moverem, não se renovarem. Quantas vezes, também nos nossos dias, as vozes proféticas são silenciadas!
    A fé verdadeira leva a reconhecer que Jesus é o enviado de Deus, que traz toda a novidade e revela toda a criatividade de Deus. Por isso, pode surpreender-nos a cada momento, fazer coisas novas, graças à sabedoria e ao poder do Pai. A história da Igreja é bem elucidativa de tudo isto.
    Na primeira leitura, Deus sugere a David um recenseamento (2 Sam 24, 1). O Primeiro Livro das Crónicas atribui essa ideia a Satanás (1 Cr 21, 1). Na verdade, estamos perante uma leitura teológica: Satanás não é mais do que um instrumento nas mãos de Deus (cf. Jb 1, 6), por meio do qual põe à p
    rova a fé dos seus. Deus julga obedecer a uma sugestão vinda de fora dele; na verdade apenas obedece à sua sede de poder que o leva a tentar controlar o povo. Esquece que não é o dono, mas apenas o administrador do Povo de Deus.
    Para David, como para os nazarenos, a questão está em deixar-se conduzir pela palavra de Deus, sem querer saber mais ou julgar se no filho de um carpinteiro se pode ou não manifestar a Sabedoria de Deus.
    As nossas Constituições, ao tratarem da nossa participação na "missão da Igreja" (cf. nn. 26-34) afirmam: "Como todo o carisma na Igreja, o nosso carisma profético coloca-nos ao serviço da missão salvífica do Povo de Deus no mundo de hoje" (n. 27). Como filhos do Pe. Dehon, devemos ser também nós, no meio dos homens do nosso tempo "profetas do amor" e "servidores da reconciliação" (Cst. 7), testemunhas proféticas, pela "mística", mas também pela "política", isto é, pela vivência da nossa espiritualidade e pelas nossas iniciativas, colaborando para o "advento de um mundo mais humano" (Cst. 37) e mais justo, especialmente trabalhando pelos "pequenos", pelos "humildes", pelos "pobres" (Cst. 31), e empenhando-nos totalmente ao serviço do Reino (Cst. 48). Naturalmente tudo isso pode trazer incompreensões e mesmo oposições. Mas há que avançar, «tendo os olhos em Jesus» (Heb 12, 2).

    Oratio

    Senhor, suscita em mim a atitude da verdadeira fé. Perdoa o meu orgulho, os meus preconceitos, que me impedem tantas vezes de Te reconhecer e reconhecer a tua acção à minha volta. Pretendo controlar os acontecimentos e escandalizo-me quando as coisas não correm conforme as minhas previsões.
    Muitas vezes penso que estás longe, que não me escutas. Mas sou eu que ando afastado de Ti e surdo às tuas palavras. Por isso, não podes fazer prodígios em meu favor. Não podes perdoar-me, porque não reconheço o meu pecado.
    Vem, Senhor, em meu auxílio. Eu sei que estás perto, que me queres surpreender com as tuas palavras e com as tuas iniciativas maravilhosas. Que me encontres atento e disponível. Amen.

    Contemplatio

    Jesus veio à terra para curar e consolar os que sofrem. - O velho Simeão saudou-o no templo como a consolação de Israel.
    Nosso Senhor aplica a si mesmo, no seu discurso de Nazaré, esta passagem do profeta Isaías: «O Espírito do Senhor está sobre mim, por isso me marcou com a sua unção; enviou-me a evangelizar os pobres, a curar os que têm o coração partido, anunciar a libertação aos cativos, dar a vista aos cegos, libertar os oprimidos, e publicar o ano da misericórdia do Salvador e o dia da retribuição». - «E hoje, diz o Salvador, fechando o volume, realiza-se a passagem do Evangelho que acabais de escutar» (Lc 4, 16).
    Que vinha fazer ao mundo, senão trazer-lhe uma consolação maior ainda que a sua infelicidade? Consolar os que sofrem, era o fim da sua vida. Era por isso que multiplicava os seus encorajamentos, os seus milagres, os seus benefícios. Foi pela nossa consolação que sofreu, que morreu e que instituiu a sua Igreja com os seus sacramentos (Leão Dehon, OSP 4, p. 138).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Estava admirado com a falta de fé daquela gente» (Mc 6, 6).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • IV Semana - Quinta-feira -Tempo Comum - Anos Pares

    Categoria: Semanal IV Semana - Quinta-feira -Tempo Comum - Anos Pares


    3 de Fevereiro, 2022

    IV Semana - Quinta-feira -Tempo Comum - Anos Pares

    Lectio

    Primeira leitura: 1 Reis 2, 1-4.10-12

    1Ao aproximar-se o dia da sua morte, David deu a seu filho Salomão as ordens seguintes: 2«Eu avanço pelo caminho por onde vai toda a gente; tem coragem e sê um homem! 3Observa os mandamentos do Senhor, teu Deus, andando nos seus caminhos, guardando as suas leis, seus preceitos, seus costumes e exigências, conforme está escrito na Lei de Moisés; assim terás êxito em todos os teus planos e acções. 4Assim o Senhor fará cumprir a sua palavra que me dirigiu quando disse: 'Se os teus filhos velarem pela sua conduta e andarem na minha presença com lealdade, com todo o seu coração e toda a sua alma, então sim, jamais algum dos teus filhos deixará de se sentar sobre o trono de Israel.'
    10David morreu, juntando-se a seus pais e foi sepultado na cidade de David. 11A duração do reinado de David sobre Israel foi de quarenta anos. Em Hebron reinou sete anos e em Jerusalém trinta e três. 12Salomão sentou-se no trono de David, seu pai, e o seu reinado consolidou-se enormemente.

    Tal como os patriarcas e os grandes chefes de Israel, David, ao ver aproximar-se a morte, reúne os seus filhos para lhes ditar as últimas vontades e pronunciar sobre eles a bênção final (Gn 49; Dt 33; Jos 23-34; 1 Sam 12). Apesar dos seus erros e pecados, David «seguiu os caminhos do Senhor» e pôde juntar-se aos seus pais, de acordo com as expressões do Deuteronómio de dos livros históricos (v. 10). A escola deuteronomista deu forma literária ao testamento de David e deixou nele sinais da sua teologia. A permanência de Salomão no trono fica condicionada à observância dos mandamentos e preceitos da Lei de Moisés, enquanto na formulação da profecia de Natan não havia quaisquer condições (cf. 2 Sam 7, 14-16). Deduz-se, por isso, que o nosso texto foi composto durante o exílio e constitui um chamamento implícito à conversão. Os desterrados deviam saber que a restauração da monarquia, e a continuidade dinástica estavam condicionadas ao cumprimento das cláusulas da Aliança.

    Evangelho: Mc 6, 7-13

    7Naquele Tempo, Jesus chamou os Doze e começou a enviá-los dois a dois e deu-lhes poder sobre os espíritos malignos. 8Ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser um cajado: nem pão, nem alforge, nem dinheiro no cinto; 9que fossem calçados com sandálias e não levassem duas túnicas. 10E disse-lhes também: «Em qualquer casa em que entrardes, ficai nela até partirdes dali. 11E se não fordes recebidos numa localidade, se os seus habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra eles.» 12Eles partiram e pregavam o arrependimento, 13expulsavam numerosos demónios, ungiam com óleo muitos doentes e curavam-nos.

    A proclamação do reino não se faz de modo ocasional. Jesus cria uma «instituição» que põe em movimento e planifica o anúncio da Boa Nova. São os Doze que, depois da visita a Nazaré, Jesus envia em missão, dando-lhes os seus próprios poderes (cf. v. 7).
    Distinguimos no texto três momentos: no primeiro, Jesus dá orientações quanto ao estilo de vida dos missionários: não devem levar provisões, mas confiar na generosidade daqueles a quem se dirigem; no segundo, define o método de pregação: deter-se em casa de quem os acolhe, mas abandonar sem lamentações as daqueles que os não recebam; o terceiro momento é o da execução: os discípulos partem, pregam a conversão, fazem exorcismos e curas com sucesso (vv. 12s.).
    Contentar-se com o essencial da vida, que se apoia na absoluta confiança no Senhor, é condição indispensável para estar ao serviço da Palavra. Isto tem a ver com cada um dos missionários, mas também com a própria Igreja que, não só há-de ser Igreja dos pobres, mas também Igreja pobre.

    Meditatio

    David, antes de dar ao filho Salomão orientações sobre o modo de tratar os inimigos do reino, recomenda-lhe a obediência fiel aos preceitos da Lei, única condição para o sucesso de qualquer empresa em que se venha a meter.
    Num mundo que pretende organizar-se como se Deus não existisse, os crentes hão-de fazer-se eco desta advertência de David a Salomão. Num mundo de abundância, é fácil, para os próprios crentes, esquecer-se do essencial. A pressão dos media também pode levar-nos a orientar a nossa vida pelos lugares comuns em voga, ou a deixar-nos guiar por sondagens televisivas, quando ordenamos a nossa escala de valores.
    Bem diferentes são os parâmetros propostos pelas leituras de hoje. Escutámos as recomendações de David a Salomão. Mas também Jesus, no evangelho, manda aos discípulos dispensar coisas que nos parecem indispensáveis. Nas suas viagens missionárias não hão-de levar «nem pão, nem alforge, nem dinheiro no cinto». Podem ir «calçados com sandálias» mas não devem levar «duas túnicas» (cf. Mc 6, 8-9).
    É verdade que precisamos de alimentação e de umas tantas coisas para sobrevivermos. É verdade que a saúde, a família e o trabalho são importantes. Mas nada disso se há-de sobrepor a Deus. Nada disso se há-de sobrepor ao Reino e à missão que nele nos é confiada. Nada disso é condição indispensável para ser discípulos do Senhor ou para O servir. Em vez de nos desculparmos com essas necessidades e com esses valores para não nos comprometermos no voluntariado, para não darmos o devido tempo à oração, para não nos dedicarmos o tempo ao serviço dos irmãos e ao apostolado, procuremos primeiro a palavra do Senhor, e tudo o resto virá por acréscimo.
    O valor do homem não está em "ter" muito, mas no "ser", e o "ser" do homem é tanto mais perfeito quanto mais experimenta que «só Deus basta» e vive na sua intimidade: "Procurai primeiro o Reino dos Céus e tudo o resto vos será dado por acréscimo" (Mt 6, 33).
    Este ensinamento de Jesus torna-se eficaz quando é testemunhado com a vida, quando um cristão demonstra, com a sua existência, que se torna cada vez mais pessoa humana, prescindindo de tantos bens, que os homens consideram indispensáveis. Se esse cristão for também religioso e missionário, o absoluto de Deus, o desapego dos bens e a confiança na Providência divina, não só devem ser realidades, mas também aparecer como tais aos olhos dos outros cristãos. Se assim não for, o religioso, o missionário, podem tornar-se contra-testemunho.
    E também não basta o testemunho pessoal deste ou daquele religioso, deste ou daquele missionário. É indispensável o testemunho comunitário, o testemunho das próprias comunidades eclesiais.

    Oratio

    Senhor, quando devo partir em missão, faço uma lista de muitas coisas a levar, porque as julgo nec
    essárias. Hoje, Tu confundes-me, apresentando-me uma lista... do que não devo levar. Eu sei que não me queres desmazelado, mas apenas ensinar-me que não devo preocupar-me com demasiadas coisas... para não esquecer a confiança em Ti. Além disso, se aqueles a quem me envias me vissem excessivamente preocupado comigo mesmo, a minha pregação seria um contra-testemunho. Se me vissem utilizar meios poderosos, poderia tornar-se menos visível o poder da tua graça. Por isso, Te peço: afasta de mim a tentação de pôr a segurança da minha vida e o êxito da minha missão nas coisas ou nos meios a utilizar. Que eu me abra a Ti com um coração cada vez mais livre. Amen.

    Contemplatio

    Nosso Senhor indica aos apóstolos três condições requeridas para o sucesso da sua missão. A primeira é o espírito de desinteresse. «Recebestes gratuitamente, dai gratuitamente». Que os vossos ouvintes vejam que não é por ganho, mas pela salvação das almas e pela felicidade dos homens que trabalhais.
    A segunda é o desapego das coisas da terra e o amor da santa pobreza: «Não leveis convosco nem ouro nem provisões».
    A terceira é a mais inteira confiança nos cuidados e na protecção da divina Providência: «O trabalhador tem direito ao seu alimento».
    Estas condições são ainda hoje as do sucesso.
    Nosso Senhor previne depois os seus discípulos contra as perseguições que virão, e é para o ministério apostólico do futuro que os instrui, porque as perseguições não deviam surgir para eles senão depois do Pentecostes. «Envio-vos, diz-lhes, como cordeiros para o meio de lobos. Sede simples como as pombas, pela vossa doçura e pela vossa caridade, mas também sede prudentes como serpentes para evitardes as armadilhas que vos serão armadas... Não vos inquieteis com o que tereis de responder, se vos conduzirem diante dos juízes, o Espírito Santo assistir-vos-á... Não enfrenteis temerariamente a perseguição, fugi antes para outra cidade... As perseguições não devem, aliás, assustar-vos, elas hão-de preparar-vos uma recompensa incomparável. Quem perseverar será salvo, e em recompensa de sofrimentos passageiros, receberá a eterna felicidade dos céus e um peso imenso de glória (Leão Dehon, OSP 4, p. 267s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Procurai primeiro o Reino dos Céus e tudo o resto vos será dado por acréscimo» (Mt 6, 33).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • IV Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    Categoria: Semanal IV Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    4 de Fevereiro, 2022

    Tempo Comum - Anos Pares
    IV Semana - Sexta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Sir 47, 2-13

    2Assim como a gordura da vítima se separa da carne, assim David foi separado dentre os filhos de Israel. 3Brincou com os leões, como se fossem cabritos, e tratou os ursos como cordeirinhos. 4Não foi ele quem, na sua mocidade, matou o gigante e tirou o opróbrio do seu povo, levantando a mão, com a pedra da sua funda e abatendo a arrogância de Golias? 5Invocou, na realidade, o Senhor Altíssimo, o qual deu à sua dextra força para derrubar o temível guerreiro e, assim, exaltar o poder do seu povo. 6Também foi celebrado por causa da morte dos dez mil homens; tornou-se ilustre com as bênçãos do Senhor e foi-lhe oferecida uma coroa de glória. 7Porque desbaratou os inimigos de todas as partes e exterminou os filisteus, seus adversários, destruindo, até ao dia de hoje, o seu poder. 8Em todas as suas obras, deu graças ao Santo, ao Altíssimo com palavras de louvor. Com todo o seu coração cantou hinos e amou aquele que o tinha criado. 9Estabeleceu cantores diante do altar entoando, com as suas vozes, doces melodias, dia a dia louvando-o com seus cantos. 10Deu esplendor às festividades, brilho perfeito aos dias solenes, para que louvassem o santo nome do Senhor e fizessem ressoar o santuário desde a aurora. 11O Senhor perdoou-lhe os seus pecados, engrandeceu o seu poder para sempre e assegurou-lhe, por sua aliança, a realeza e um trono de glória em Israel. 12Depois, sucedeu-lhe seu filho, cheio de sabedoria; por amor dele, teve um vasto e pacífico reino. 13Salomão reinou em dias de paz. Deus circundou-o de tranquilidade, para que levantasse um templo ao seu nome e lhe preparasse um santuário eterno.

    O livro de Bem Sirá foi provavelmente composto no começo do século II a. C. Trata-se de um livro sapiencial que, na última parte, mostra como a Sabedoria de Deus se realizou na história de Israel. O nosso texto fala-nos do cuidado e predilecção com que David foi eleito por Deus (cf. 1 Sam 16, 4-13).
    A força e a bravura de David tornaram-se lendárias: para ele, os leões eram como cabritos e os ursos como cordeiros. Enfrentou Golias e abateu a arrogância dos filisteus com a sua funda de pastor, retirando a afronta do povo de Israel (1 Sam 17).
    A grandeza de David consistiu em submeter-se ao Senhor e invocar a sua protecção: «Invocou, na realidade, o Senhor Altíssimo, o qual deu à sua dextra força para derrubar o temível guerreiro e, assim, exaltar o poder do seu povo (v. 5)... Estabeleceu cantores diante do altar» (v. 9).
    Foi a fidelidade de David, e não a sua força de guerreiro, que lhe alcançou o perdão dos pecados, o trono de Israel (v. 11) e a descendência messiânica, fazendo dele o rei ideal.

    Evangelho: Mc 6, 14-29

    14Naquele tempo, o rei Herodes ouviu falar de Jesus, pois o seu nome se tornara célebre; e dizia-se: «Este é João Baptista, que ressuscitou de entre os mortos e, por isso, manifesta-se nele o poder de fazer milagres»; 15outros diziam: «É Elias»; outros afirmavam: «É um profeta como um dos outros profetas.» 16Mas Herodes, ouvindo isto, dizia: «É João, a quem eu degolei, que ressuscitou.»
    17Na verdade, tinha sido Herodes quem mandara prender João e pô-lo a ferros na prisão, por causa de Herodíade, mulher de Filipe, seu irmão, que ele desposara. 18Porque João dizia a Herodes: «Não te é lícito ter contigo a mulher do teu irmão.» 19Herodíade tinha-lhe rancor e queria dar-lhe a morte, mas não podia, 20porque Herodes temia João e, sabendo que era homem justo e santo, protegia-o; quando o ouvia, ficava muito perplexo, mas escutava-o com agrado. 21Mas chegou o dia oportuno, quando Herodes, pelo seu aniversário, ofereceu um banquete aos grandes da corte, aos oficiais e aos principais da Galileia. 22Tendo entrado e dançado, a filha de Herodíade agradou a Herodes e aos convidados. O rei disse à jovem: «Pede-me o que quiseres e eu to darei.» 23E acrescentou, jurando: «Dar-te-ei tudo o que me pedires, nem que seja metade do meu reino.» 24Ela saiu e perguntou à mãe: «Que hei-de pedir?» A mãe respondeu: «A cabeça de João Baptista.» 25Voltando a entrar apressadamente, fez o seu pedido ao rei, dizendo: «Quero que me dês imediatamente, num prato, a cabeça de João Baptista.» 26O rei ficou desolado; mas, por causa do juramento e dos convidados, não quis recusar. 27Sem demora, mandou um guarda com a ordem de trazer a cabeça de João. O guarda foi e decapitou-o na prisão; 28depois, trouxe a cabeça num prato e entregou-a à jovem, que a deu à mãe. 29Tendo conhecimento disto, os discípulos de João foram buscar o seu corpo e depositaram-no num sepulcro.

    Flávio José diz-nos que Herodes Antipas, temendo possíveis desordens políticas desencadeadas pelo movimento de João Baptista, prendeu o profeta em Maqueronte, onde o mandou executar. O relato de Marcos, mais subjectivo, e menos exacto, levou a ver João Baptista apenas como vítima da vingança de uma mulher irritada.
    O segundo evangelho apresenta-nos Herodes que, atormentado pelos remorsos, julga reconhecer em Jesus o profeta que mandara matar (v. 16). E assim começa a narrativa do martírio de João, mais longa que a de Mateus ou a de Lucas: prisão, acusação, denúncia corajosa do rei pelo profeta (vv. 18-20), trama de Herodíades que usa Salomé, fraqueza de Herodes, sentença de morte e execução da mesma (vv. 26-28). Mas o remorso persegue o rei. O relato termina com um toque de piedade: o corpo do profeta é entregue aos discípulos que lhe dão sepultura (v. 29).
    Esta narrativa popular realça a atitude ridícula de Herodes, por um lado, escravo das suas paixões, e, por outro, interessado na figura austera de João Baptista. Para Marcos, o martírio de João, e a liquidação do seu movimento, indica que a comunidade cristã, criada por Jesus, era completamente nova, ainda que conservasse a memória veneranda do maior de todos os profetas.

    Meditatio

    Para Ben Sirá, a grandeza de um homem mede-se pela sua coragem e fidelidade à Lei do Senhor. Neste sentido, as figuras de David e de João Baptista aproximam-se. Ambos são corajosos: David vence os inimigos, especialmente Golias, e vence a si mesmo quando reconhece o seu pecado. João Baptista enfrenta Herodes, denunciando a situação de pecado em que o rei se encontra. David mantém-se fiel ao Senhor, mesmo nas provações; João Baptista, fiel à sua missão profética, enfrenta a prisão e a morte.
    Também Jesus juntou em si a coragem e a piedade. Manifestou a sua coragem, não matando os outros, como David, mas deixando-se matar, como João Baptista. Assim se tornou o «cordeiro de Deus».
    Na última Ceia, à oferta de si mesmo, Jesus acrescentou a acção de graças. Ofereceu a sua vida num movimento de acção de graças. Na Eucaristia, a acção de graças, o dom da vida, a morte sacrificial e a glorificação de Deus estão de tal modo un
    idos que não se distinguem.
    Como cristãos, e como religiosos dehonianos, somos educados nesta escola. Em Cristo, também a nossa oferta se torna sacrifício e acção de graças ao Pai: «O culto eucarístico torna-nos atentos ao amor e à fidelidade do Senhor» (Cst 84), estimulando a nossa própria fidelidade e a coragem necessária para a realizarmos a nossa missão, mesmo com sacrifício, mesmo que tenhamos de enfrentar a morte. A oblação pode chegar à imolação.
    A fé é um dom ao mesmo tempo frágil e pesado. É frágil porque é preciso pouco para a sufocar em nós; é pesado porque implica uma mudança radical dos nossos critérios e de toda a nossa vida. Crer tem consequências que não podemos ignorar ou escamotear. Ao dom da fé só podemos responder com o dom de nós mesmos, até ao ponto que a nossa fidelidade a Deus e à missão que nos confia exigirem. Por isso, pode ser um dom pesado. Mas o termo pesado, em hebraico, tem a mesma raiz que o termo glória. A glória do Senhor que acolhe David e João Baptista, é a contrapartida de um «peso» levado com alegria, porque é «um jugo suave e a carga leve» (cf. Mt 11, 30).

    Oratio

    Senhor, confirma a minha fé e a minha fidelidade. Dá-me a coragem e a fortaleza de João Baptista para dar testemunho de Ti diante do mundo, que pretende ignorar-Te e caminhar fora da tua Lei. Que, perante as dificuldades e as oposições, saiba manter-me coerente e fiel à tua vontade. Que, diante da fraqueza dos Herodes, do oportunismo das Herodíades, e da superficialidade das Salomés, saiba manter-me do lado de João Baptista, do lado da vida. Que não dê mais valor à minha cabeça do que à tua palavra de vida. Amen.

    Contemplatio

    Que energia neste adolescente! A força de alma é o seu carácter próprio. Não é uma cana, é um carvalho ou um cedro: «Aquele que fostes ver ao deserto, diz o Salvador, não é uma cana agitada pelo vento em todos os sentidos». Não é um homem inconstante, ligeiro, frívolo, hoje cheio de ardor pela verdade e pelo bem, e amanhã inclinado do lado oposto pelo sopro da opinião ou da paixão.
    É um homem grave, sério e firme, que compreendeu, quis, e que permanece imutavelmente agarrado à sua convicção e à sua resolução.
    «Não é um homem molemente vestido», um homem sensual, amigo dos salões e dos lugares de prazeres; é o maior dos filhos nascidos da mulher. - Desde os dias de João Baptista, o Reino dos céus é tomado de assalto; os bravos arrebatam-no» (Mt 11).
    Jesus faz-se o panegirista da força de alma de João Baptista. Que lição de energia nos dão os dois! As grandes obras, os grandes empreendimentos e o reino dos céus não são para as canas, mas para os cedros. A energia e o carácter temperam-se na vida austera, no hábito de se vencer a si mesmo, no desapego do mundo, das suas vaidades e da sua moleza. O Coração de Jesus e o de João Baptista foram mais fortes do que a morte.
    É este o caminho que segui até aqui? Que é que tenho de fazer para superar a corrente de uma vida mole e tíbia? Não é preciso bruscamente romper com um hábito ou uma relação?
    E pelas almas para as quais tenho uma missão de educação, que fiz até ao presente? Formei-as para a obediência, para a austeridade, para o sacrifício? Tomarei conta das suas vidas como da minha (Leão Dehon, OSP 3, p. 208).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Em tudo deu graças ao Altíssimo» (cf. Sir 47, 8).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • V Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    Categoria: Semanal V Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    7 de Fevereiro, 2022

    Tempo Comum - Anos Pares
    V Semana - Segunda-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 1 Reis 8, 1-7.9-13

    Naqueles dias, 1o rei Salomão reuniu junto de si em Jerusalém os anciãos de Israel. Todos os chefes das tribos, os chefes das famílias dos filhos de Israel, para transladarem da cidade de David, em Sião, a Arca da aliança do Senhor. 2Todos os homens de Israel se reuniram na presença do rei Salomão no mês de Etanim, que é o sétimo mês, durante a festa solene. 3Quando todos os anciãos de Israel acabaram de chegar, os sacerdotes transportaram a Arca. 4Fizeram subir a Arca do Senhor, a tenda da reunião, com todos os utensílios sagrados que estavam na tenda; foram os sacerdotes e os levitas quem a transportou. 5O rei Salomão e toda a assembleia de Israel reunida junto dele caminhavam à frente da Arca e iam sacrificando tão grande quantidade de ovelhas e bois que não se podiam contar nem enumerar. 6Os sacerdotes levaram a Arca da aliança do Senhor para o seu lugar no santuário do templo, o Santo dos Santos, sob as asas dos querubins. 7Com efeito, os querubins estendiam as suas asas sobre o lugar da Arca, cobrindo-a e aos seus varais com suas asas. 9Na Arca não havia senão as duas tábuas de pedra que Moisés lá colocara no monte Horeb, quando o Senhor concluiu a Aliança com os filhos de Israel, ao saírem da terra do Egipto. 10Quando os sacerdotes saíram do santuário, a nuvem encheu o templo do Senhor. 11Deste modo, os sacerdotes não puderam ficar ali para exercerem o seu ministério, por causa da nuvem, já que a glória do Senhor enchia o templo do Senhor. 12Disse então Salomão: «O Senhor escolheu habitar em nuvem escura! 13Por isso é que eu te edifiquei um palácio, um lugar onde habitarás para sempre.»

    A inauguração do Templo de Jerusalém marca uma data importante da história bíblica. Completa-se a história começada com a promessa de Deus no Sinai: «Construir-me-eis um santuário, para que resida no meio deles.» (Ex. 5, 8). O povo de Israel constituiu-se à volta da Aliança, de que a arca é a memória itinerante. A arca peregrinou com o povo no deserto. Ao entrar na Terra Prometida, foi instalada sucessivamente em Guilgal, em Siquém e em Silo. Acompanhou o povo nas batalhas contra os seus inimigos e caiu nas mãos dos filisteus. David recuperou-a e levou-a para Jerusalém, instalando-a em casa de Obedom e, depois, na tenda. Hoje, finalmente, entra no templo. Daí sairá apenas para algumas procissões, até à destruição da cidade e do templo, em 587aC. Nessa altura, Deus seguirá os desterrados para Babilónia (Ez 11, 22-24). Ezequiel irá descrever o regresso da glória ou presença divina à sua morada em Jerusalém, como um novo êxodo (Ez 43, 1-12).
    O êxodo é a história de uma caminhada guiada por Deus-presente, que a nuvem esconde e revela, de uma relação entre Deus e o homem cada vez mais profunda e pessoal, de que a glória do Senhor é um sinal luminoso, resplendor consistente que brilha no rosto de quem Deus encontrou. É esta história que o templo encerra, no sinal da arca. O mistério da presença de Deus no meio dos homens atinge a sua máxima expressão na Encarnação, quando Deus vem viver pessoalmente no meio de nós (cf. Jo 1, 14).

    Evangelho: Marcos 6, 53-56

    Naquele tempo, 53Jesus e os seus discípulos fizeram a travessia do lago e vieram para a terra de Genesaré, onde aportaram. 54Assim que saíram do barco, reconheceram-no. 55Acorreram de toda aquela região e começaram a levar os doentes nos catres para o lugar onde sabiam que Ele se encontrava. 56Nas aldeias, cidades ou campos, onde quer que entrasse, colocavam os doentes nas praças e rogavam-lhe que os deixasse tocar pelo menos as franjas das suas vestes. E quantos o tocavam ficavam curados.

    Jesus acaba de atravessar o lago de Genesaré, unindo a margem leste, onde habitam os pagãos, com a margem oeste, onde habitam os hebreus. A descrição de Marcos lembra-nos as promessas messiânicas: «Acorrerão ao monte do Senhor todas as gentes, virão muitos povos e dirão... Ele nos ensinará os seus caminhos» (cf. Is 2, 2-3); «Virão povos e habitantes de grandes cidades. E os habitantes de uma cidade irão para outra, dizendo: 'Vamos implorar a face do Senhor!» (Zc 8, 21). Todos os que se reconhecem carecidos de salvação dirigem-se a Jesus. Diante dele são expostas todas as misérias humanas. As pessoas não se deixam dominar pela vergonha, mas agem com confiança: basta que os Senhor lhes toque apenas com «as franjas das suas vestes». Assim se cumpre a palavra do profeta: «Assim fala o Senhor do universo: Naqueles dias, dez homens de todas as línguas das nações tomarão um judeu pela dobra do seu manto e dirão: 'Nós queremos ir convosco, porque soubemos que Deus está convosco'» (Zc 8, 23). Não precisamos de nos esforçar para demonstrar que, no Evangelho, se tratava sempre de verdadeiros milagres, e não de casos idênticos àqueles de que fala hoje a parapsicologia. Uma correcta cristologia não exige que Jesus fosse um super-homem. Marcos não usa métodos racionalistas para demonstrar a divindade de Jesus. Aliás, para ele, a fé é um dom gratuito de Deus que geralmente precede os «milagres». O interessante é que as pessoas perceberam que a mensagem do Evangelho não era algo de abstracto de puramente filosófico, mas que implicava a melhoria da sua situação. Se, intuindo que Deus estava com Jesus, acorriam a Ele, depois de estarem com Ele, partiam gritando: Deus está connosco e a nossa favor... em Jesus.

    Meditatio

    A nuvem que enche o templo, onde foi colocada a Arca da Aliança, é sinal da presença de Deus, tal como o fora durante o êxodo. «A glória do Senhor enchia o templo do Senhor» (v. 11), infundindo o sentido da majestade de Deus e da adoração que Lhe é devida. O templo tinha enorme importância na religiosidade do povo hebreu. Mas era apenas símbolo do verdadeiro templo, que é o corpo de Jesus, como Ele mesmo disse certo dia: «Aqui está o verdadeiro templo»; «Destruí este templo, e em três dias Eu o levantarei!» (Jo 2, 19); «falava do templo que é o seu corpo», explica João. Jesus é a Presença divina no meio dos homens. O seu corpo é o novo templo repleto da «glória do Senhor». É isso que perceberam os habitantes da margem ocidental do lago de Genesaré. Daí a corrida para se encontrarem com Ele, a ânsia em Lhe tocarem. Os galileus tinham-se apercebido daquilo que, um dia, também Paulo havia de perceber: «nele habita realmente toda a plenitude da divindade» (Col 2, 19). Jesus é o verdadeiro e definitivo templo, onde habita a plenitude de Deus «somatizada». E nós «participamos da sua plenitude». O corpo de Cristo, a sua humanidade, é a realidade que o templo prefigurava: Deus no meio do seu povo. Mas, em Jesus, a arca da Aliança não quer permanecer fechada no Santo dos Santos: anda pelos caminhos dos ho
    mens e vai-lhes ao encontro. Alguns morreram por terem tocado na arca (cf. 2 Sam 6, 7). Mas Jesus deixa-se encontrar e deixa-se tocar. O Santo dos Santos era inacessível ao povo, que devia permanecer fora dele. Em Cristo, nós entramos em Deus, unidos a Ele como varas à cepa, como membros do seu corpo.
    A Igreja é, hoje, para nós o corpo de Cristo. A Igreja prolonga-Lhe a humanidade na história e no espaço, para que toda a família humana se torne santuário do encontro entre Deus e os homens.
    Escutemos as nossas Constituições: «... o Pai enviou-nos o seu Filho... constituiu-O Senhor, Coração da humanidade e do mundo, esperança de salvação para quantos ouvem a sua voz» (n. 19; cf. n. 25). «Na nossa maneira de ser e de agir, pela participação na construção da cidade terrena e na edificação do Corpo de Cristo... empenhando-nos sem reserva, no advento da nova humanidade em Jesus Cristo» (nn. 38.39). É na Eucaristia que, de modo particular, se realiza a nossa união com Cristo, e se anuncia «a esperança para o mundo» (n. 81), e «acolhemos Aquele que nos reúne em comunidade, que nos consagra a Deus e nos lança, incessantemente, pelos caminhos do mundo ao serviço do Evangelho» (n. 82).

    Oratio

    Senhor Jesus, o teu corpo é o verdadeiro templo, onde Deus se encontra connosco e nós podemos encontrar-nos com Deus. Tu és a presença divina estabelecida para sempre no meio dos homens, Tu que és o Verbo de Deus, igual ao Pai e, simultaneamente, homem como nós, acessível, cheio de bondade. O novo templo, que és Tu, foi inaugurado, não com festas de triunfo, não com a imolação de inumeráveis ovelhas e bois, mas com o sacrifício que Te levou a morrer na cruz e que nos abriu de par em par a porta de acesso a Deus, e a uma vida de intimidade com Ele. Em Ti, entramos em Deus! Glória a Ti, Senhor Jesus! Glória a Ti para sempre! Amen.

    Contemplatio

    Não é somente pelos doentes que o Coração de Jesus é compassivo, é por todos os que sofrem e que se encontram em dificuldade.
    Como é bom para com as almas provadas pela perda daqueles que lhe são caros, com Jairo, cujo filho bem-amado acaba de morrer; com a pobre viúva de Naím que leva o seu filho único à sepultura, com Marta e Madalena que choram o seu irmão. Está emocionado até ao fundo da sua alma, chora. As suas lágrimas comovem os próprios judeus. Apela ao poder divino para ressuscitar os mortos.
    A sua compaixão sobre Jerusalém é imensa, chora sobre as tribulações futuras desta cidade ingrata e culpável.
    Num movimento de compaixão sem medida, abre os seus braços a todos os infortúnios: «Vinde a mim, diz, vós todos que sofreis e que sois esmagados sob o peso do trabalho e da dor; vinde e vos aliviarei».
    No caminho do calvário, esquece os seus próprios sofrimentos para se compadecer das filhas de Jerusalém e convidá-las a chorar pelos castigos que cairão em breve sobre a sua pátria (Leão Dehon, OSP4, p. 139s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Em Cristo habita toda a plenitude da divindade» (cf. Col 2, 19).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • V Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    Categoria: Semanal V Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    8 de Fevereiro, 2022

    Tempo Comum - Anos Pares
    V Semana - Terça-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 1 Reis 8, 22-23.27-30

    Naqueles dias, 22o rei Salomão colocou-se diante do altar do Senhor, perante toda a assembleia de Israel; levantou as mãos para o céu 23e disse:«Senhor, Deus de Israel, não há Deus semelhante a ti, nem no mais alto dos céus nem cá em baixo, na terra, para guardar a misericordiosa Aliança para com os servos, que andam na tua presença, de todo o coração. 27Será que Deus poderia mesmo habitar sobre a terra? Pois se nem os céus em os céus dos céus te conseguem conter! Quanto menos este templo que eu edifiquei?
    28Mesmo assim, atende, Senhor, meu Deus, a oração e as súplicas do teu servo. Escuta o grito e a prece que o teu servo hoje te dirige. 29Estejam os teus olhos abertos dia e noite sobre este templo, sobre este lugar do qual disseste: 'Aqui estará o meu nome.' Ouve a oração que neste lugar te faz o teu servo. 30Escuta a súplica do teu servo e a do teu povo, Israel, quando aqui orarem. Ouve-os do alto da tua mansão, no céu; ouve-os e perdoa!

    Salomão, pelo carácter sagrado que lhe vem da unção, e como rei de um povo teocrático, preside à cerimónia da dedicação do templo. O centro da sua oração, onde brota o louvor e a invocação, é o espanto do homem diante de Deus-presente, diante de um Deus que quer habitar no meio dos homens: «Será que Deus poderia mesmo habitar sobre a terra?» (v. 27). Estas palavras revelam-nos a eterna tensão entre transcendência e imanência. Como é possível habitar num templo Aquele que nem os céus podem conter? Para Salomão, mais importante que o ouro que reveste o altar e as portas do templo, mais importante que as colunas de bronze e as alfaias sagradas, é a presença de Deus, no templo por ele edificado, é a Aliança com que Deus quis ligar-se ao seu povo. O templo é memória estável e silenciosa da Aliança. Não é uma morada para encerrar a Deus. Nenhuma morada construída pelos homens O pode conter. E está presente onde quer que se viva a Aliança.

    Evangelho: Marcos 7, 1-13

    Naquele tempo, 1reuniram-se à volta de Jesus os fariseus e alguns doutores da Lei vindos de Jerusalém, 2e viram que vários dos seus discípulos comiam pão com as mãos impuras, isto é, por lavar. 3É que os fariseus e todos os judeus em geral não comem sem ter lavado e esfregado bem as mãos, conforme a tradição dos antigos; 4ao voltar da praça pública, não comem sem se lavar; e há muitos outros costumes que seguem, por tradição: lavagem das taças, dos jarros e das vasilhas de cobre. 5Perguntaram-lhe, pois, os fariseus e doutores da Lei: «Porque é que os teus discípulos não obedecem à tradição dos antigos e tomam alimento com as mãos impuras?» 6Respondeu: «Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas, quando escreveu:Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. 7Vazio é o culto que me prestam e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos. 8Descurais o mandamento de Deus, para vos prenderdes à tradição dos homens.» 9E acrescentou: «Anulais a vosso bel-prazer o mandamento de Deus, para observardes a vossa tradição. 10Pois Moisés disse: Honra teu pai e tua mãe; e ainda: Quem amaldiçoar o pai ou a mãe seja punido de morte. 11Vós, porém, dizeis: "Se alguém afirmar ao pai ou à mãe: 'Declaro Qorban' - isto é, oferta ao Senhor - aquilo que poderias receber de mim...", 12nada mais lhe deixais fazer por seu pai ou por sua mãe, 13anulando a palavra de Deus com a tradição que tendes transmitido. E fazeis muitas outras coisas do mesmo género.»

    O texto que hoje escutamos parece dar-nos a perceber que Marcos escreve para uma comunidade judeo-cristã que procurava ultrapassar certos dados da sua origem. Provavelmente tratava-se de judeo-cristãos de cultura helenista, isto é, de judeus da dispersão, cujas formas e costumes tinham sido influenciados pela cultura grega. Marcos procura mostrar-lhes que a nova relação entre os discípulos e Jesus de Nazaré também implicava uma nova relação entre os eles e as regras estabelecidas pelos homens para o encontro com Deus, nomeadamente no que se refere à pureza ritual: «Porque é que os teus discípulos não obedecem à tradição dos antigos e tomam alimento com as mãos impuras?» (v. 5). Mais do que nas suas palavras, é na sua Pessoa que encontramos a resposta à questão que Lhe é posta. Ao revelar-se como o Filho de Deus, o Mediador entre Deus e os homens, Jesus relativiza as regras e preceitos humanos. Não os anula, mas mostra que são válidos se estiverem relacionados com Ele. Ele é a norma, Ele é a incarnação do mandamento de Deus, a Palavra viva.

    Meditatio

    Salomão está consciente da imensa distância que existe entre Deus e o homem. Por isso assume uma atitude de grande humildade e de sentido religioso diante de Deus. Não há proporção entre Deus e o homem. Por isso, havemos de fazer tudo para glorificar a Deus, e não a nós mesmos. Por muito que tenhamos feito por Deus, sempre havemos de recorrer à sua misericórdia, e contar com a sua bondade, e não com os nossos méritos. A nossa oração há-de assumir sempre a atitude do publicano e não a do fariseu convencido dos seus méritos.
    O que mais nos pode espantar na vida é dar-nos conta de que Deus, o totalmente Outro, o inacessível, está connosco, entrou na nossa história, que, por isso, decorre no quadro da Aliança, se desenrola na sua casa. O que dá sentido e dignidade à minha vida, não são as minhas obras, mais ou menos espectaculares, mas a Aliança, isto é, a ligação que Deus quis estabelecer connosco e realizou definitivamente em Jesus Cristo, quando ainda éramos pecadores (cf. Rm 5, 8). A oração nasce do espanto que nos causa saber que Deus nos amou por primeiro e, por isso, gratuitamente. Mas também nasce da experiência de liberdade que a redenção nos alcançou, uma liberdade que nos permite entreter-nos com Deus, num clima de amizade. Como acontece esta ligação? Como se vive a Aliança? Acolhendo a Palavra que desce ao coração e desmascara as poses de fachada, tornando-nos autênticos, verdadeiros. Esta relação nova dá vida à nossa vida. Os esquemas rígidos, não só não atraem a Deus, mas afastam-no. Não vale, pois, a pena agarrar-nos a esquemas, a praxes, a cerimónias, a tradições antigas... O importante é abrir-se a novas relações com Deus e com os homens inspiradas na sua Palavra sempre viva e actual.
    Jesus não quis mudar o homem a partir de fora. Quis mudá-lo a partir de dentro, transformando-lhe o coração, entendido biblicamente, como o eu profundo do homem, onde se dão as s
    uas decisões pelo bem ou pelo mal, por Deus ou contra Deus. Diz Jesus: «Do coração procedem os maus pensamentos, os assassínios, os adultérios, as prostituições, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfémias. Eis o que torna o homem impuro; mas comer com as mãos por lavar não torna o homem impuro» (Mt 15, 19-20). Por essa razão é que Jesus manda aprender d´Ele a mansidão e a humildade do "coração" (Mt 11, 29). «Bem-aventurados os puros de coração...» (Mt 5, 8), isto é, os homens genuínos, sinceros, coerentes com as convicções da sua consciência. Todos os cristãos, e particularmente os religiosos, «pelo seu estado» deveriam testemunhar «de modo esplêndido e singular que não se pode transfigurar o mundo e oferecê-lo a Deus sem o espírito das bem-aventuranças», isto é, sem a autenticidade, sem a coerência, sem a pureza de coração (LG 31; Cst 29).

    Oratio

    Senhor, liberta-nos do formalismo, do legalismo mesquinho, que dá grande importância ao que a não tem, para que não transformemos a religião em algo de externo, sem valor diante de Ti. Ajuda-nos a pôr cada coisa no seu lugar, a dar-lhe apenas a importância que merece. Tu não queres que, diante de qualquer preceito, nos diminuamos a nós mesmos, mas permaneçamos conscientes, livres e amigos do bem. As tradições humanas podem mudar com os tempos. Mas o amor ao pai, à mãe, ao filho, ao próximo, está acima de todos os preceitos e tradições humanas. O que realmente nos pedes, e queres de nós, é a fidelidade à tua Palavra e à nossa vocação de homens. Que jamais o esqueçamos. Amen.

    Contemplatio

    Há orações de regra ou de costume geral. As orações da manhã e da tarde e alguns exercícios cada dia estavam já nos hábitos do povo de Deus. «Louvo a Deus sete vezes por dia», dizia David. Iam à sinagoga no dia de sábado e a Jerusalém nas grandes festas, pelo menos na Páscoa.
    A Sagrada Família observava todos os bons costumes e todas as regras do culto, não somente por rotina, como tantos outros, mas com um fervor sempre crescente. «Cumprem tudo segundo o costume e a lei», diz o Evangelho. Vão todos os anos a Jerusalém (Lc 2, 27). Nós vemos Nosso Senhor revelar o costume da Sagrada Família rezando antes e depois da refeição, indo à sinagoga, prolongando a sua oração durante a noite.
    No Templo, que recolhimento! Maria e José não olham para a multidão. Prostram-se, adoram, rezam, saem sem notar mesmo que Jesus ficou. Só pensam em Deus, não escutam senão Deus. Oh! Que contraste com o meu naturalismo!...
    Rezar exactamente, fielmente e rezar bem, tal deve ser a minha resolução (Leão Dehon, OSP3, p. 177).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    "Bem-aventurados os puros de coração..." (Mt 5, 8),

    | Fernando Fonseca, scj |

  • V Semana - Quarta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    Categoria: Semanal V Semana - Quarta-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    9 de Fevereiro, 2022

    Tempo Comum - Anos Pares
    V Semana - Quarta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 1 Reis 10, 1-10

    Naqueles dias, 1a rainha de Sabá, tendo ouvido falar da fama que Salomão alcançara para glória ao Senhor, veio pô-lo à prova por meio de enigmas. 2Chegou a Jerusalém com um séquito muito importante, com camelos carregados de aromas, enorme quantidade de ouro e pedras preciosas. Tendo-se apresentado a Salomão, falou-lhe de tudo quanto trazia na ideia. 3Salomão respondeu-lhe a tudo; nenhuma questão foi tão enredada que o rei lhe não desse solução. 4A rainha de Sabá viu toda a sabedoria de Salomão bem como a casa que ele tinha construído; 5viu as provisões da sua mesa e o alojamento dos seus criados, as habitações e os uniformes dos seus oficiais, os copeiros do rei e os holocaustos que imolava no templo do Senhor, e ficou deslumbrada. 6Disse então ao rei: «É realmente verdade o que tenho ouvido na minha terra acerca das tuas palavras e da tua sabedoria. 7Não quis acreditar nisso antes de vir aqui e ver com meus próprios olhos; ora o que me diziam não era sequer metade; tu ultrapassas em sabedoria e dignidade tudo quanto até mim tinha chegado. 8Felizes os teus homens, felizes os teus servos que estão sempre contigo e ouvem a tua sabedoria! 9Bendito seja o Senhor, teu Deus, a quem aprouve colocar-te sobre o trono de Israel. É porque o Senhor ama Israel com amor eterno que Ele te constituiu rei para exercer o direito e a justiça.» 10Depois ela deu ao rei cento e vinte talentos de ouro e grande quantidade de perfumes e pedras preciosas. Jamais se tinha acumulado tão grande quantidade de perfumes como os que a rainha de Sabá ofereceu ao rei Salomão.

    O texto que escutamos hoje conclui a primeira parte do Primeiro Livro dos Reis, onde se narra a história de Salomão. Na verdade, com a subida de Salomão ao trono, foi consolidada a dinastia de David (cf. 1 Re 2, 12). O Reino de Israel tornou-se esplendoroso, rico e estável. Floresceu o comércio com os povos vizinhos. O relato do encontro com a rainha de Sabá, com muitos pormenores legendários, reflecte a realidade histórica de Salomão, que estabeleceu relações comerciais com todo o Médio Oriente.
    Mais do que referência a um país concreto, Sabá simboliza os confins meridionais, tal como Társis simbolizava os extremos do Ocidente. Por isso, quando o Salmo 72, 10 diz: «Os reis de Társis e das ilhas oferecerão tributos;os reis de Sabá e de Seba trarão suas ofertas», o que se pretende indicar são as amplas fronteiras do reino de Israel e, portanto, do reino messiânico. Salomão é o rei sábio, isto é, justo desse reino. A sua sabedoria veio-lhe de Deus, a Quem a pediu (cf. 3, 5-15; 5, 9-14). Por isso, a rainha de Sabá pode exclamar: «Felizes os teus homens, felizes os teus servos que estão sempre contigo e ouvem a tua sabedoria!» (v. 8).

    Evangelho: Marcos 7, 14-23

    Naquele tempo, 14Jesus chamou de novo a multidão e disse-lhes: «Ouvi-me todos e procurai entender. 15Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro. Mas o que sai do homem, isso é que o torna impuro. 16Se alguém tem ouvidos para ouvir, oiça.» 17Quando, ao deixar a multidão, regressou a casa, os discípulos interrogaram-no acerca da parábola. 18Ele respondeu: «Também vós não compreendeis? Não percebeis que nada do que, de fora, entra no homem o pode tornar impuro, 19porque não penetra no coração mas sim no ventre, e depois é expelido em lugar próprio?» Assim, declarava puros todos os alimentos. 20E disse: «O que sai do homem, isso é que torna o homem impuro. 21Porque é do interior do coração dos homens que saem os maus pensamentos, as prostituições, roubos, assassínios, 22adultérios, ambições, perversidade, má fé, devassidão, inveja, maledicência, orgulho, desvarios. 23Todas estas maldades saem de dentro e tornam o homem impuro.»

    Jesus dirige-se agora ao povo simples e, num segundo momento, apenas aos discípulos. Enfrenta questões legais delicadas para a mentalidade dos judeus piedosos e observantes. Jesus difere dos profetas e dos judeus de cultura helenista. Não se pode distinguir a esfera religiosa, divina, e a vida, como esfera quotidiana, que não pertence a Deus. As coisas do mundo não são «impuras» em si mesmas. São os homens que as podem tornar impuras. A comunidade de Jesus acredita na bondade da criação.
    Podemos distinguir no texto três momentos: o ensinamento de Jesus à multidão (vv. 14-16); a sentença de Jesus (v. 15); o ensinamento aos discípulos (vv. 17-23); a verdadeira impureza, o coração, o catálogo dos vícios. Mas o mais importante é o comportamento dos homens diante das exigências do reino de Deus. A pureza ou a impureza das coisas depende do coração do homem. É a atitude do homem perante elas, é o uso que faz delas que as pode tornar impuras. Não há nada sagrado ou profano, puro ou impuro em si. A criação é «secular»: pode ser profana e pode ser sagrada. A sacralidade e a pureza vêm ao homem e ao mundo, não de modo automático pelo contacto com determinadas coisas, lugares ou pessoas, mas unicamente através do canal do diálogo entre Deus e o homem.

    Meditatio

    Como noutros textos do Evangelho, também hoje encontramos um enigma que não é fácil de interpretar: «Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro. Mas o que sai do homem, isso é que o torna impuro» (v. 15). Talvez por isso mesmo é que Jesus começou por dizer: «Ouvi-me todos e procurai entender» (v. 14).
    Na lei moisaica havia muitas impurezas rituais concernentes aos alimentos. Mas também aqueles que comiam sem lavar as mãos cometiam uma impureza ritual. Daí as observações dos fariseus e doutores da lei a Jesus por causa dos discípulos, que não lavavam as mãos antes de comer. Mas também havia impurezas legais motivadas pelo que saía do homem, por exemplo, perdas de sangue. Segundo a Lei de Moisés, tudo isso contaminava o homem.
    Mas a distinção de Jesus não se refere ao que o homem come ou bebe, nem àquilo que lhe sai do corpo. O que Jesus distinguia como externo ou interno tinha a ver com o físico e com o moral e espiritual no homem. No fundo, o que afirmava era que as coisas materiais são menos importantes para a pureza religiosa. Jesus dessacraliza coisas até aí consideradas sagradas. Para Jesus, tudo está relacionado com Deus, mas não deve ser sacralizado, nem ser tido em maior consideração do que a conveniente, seja um alimento, seja o gesto de lavar ou não lavar as mãos. Se quisermos, até podemos admitir que estamos perante um novo princípio da moral cristã: tudo o que faço é puro na medida em que está em relação com a pessoa do Senhor Jesus. S. Paulo dirá: «No que fizerdes, trabalhai de todo o coração, como quem o faz para o Senhor» (Cl 3, 23s.)
    O homem é posto diante de si mesmo e das inten&c
    cedil;ões profundas que motivam as suas opções e decisões. É colocado diante de Deus e sob o seu olhar. Por isso, não pode esconder-se. Só lhe resta deixar-se penetrar e transformar pela surpreendente novidade de Deus, quando entra na nossa vida e nos fala. Escutá-lo torna-se um critério de juízo e de discernimento.
    A voz de Deus chega-nos por mediações a que devemos estar atentos. Precisamos de ouvir o que nos diz a história contemporânea, a história da Igreja. Precisamos de escutar o grito dos pequenos e dos pobres, dos indefesos da sociedade e da comunidade, o clamor dos que sofrem, dos oprimidos. Não dar atenção a esses clamores, em nome de duns tantos ritos ou normas, podemos ser um modo de fechar os ouvidos à Palavra de Deus, a Cristo, presente e vivo no meio de nós. Escutá-lo nos explorados, nos pobres, nos indefesos, pode ser ocasião para ultrapassar esquemas, que habilmente construímos para justificar o nosso desinteresse e o nosso comodismo...
    «A Igreja dos pobres!», «opção fundamental pelos pobres!», são expressões que, desde o Concílio até aos nossos dias, aparecem em muitos documentos da Igreja, nos discursos dos papas, dos bispos, na boca dos sacerdotes, dos religiosos e dos cristãos comprometidos. As nossas Constituições dizem que somos «participantes da missão da Igreja» (p. II, A § 4); «Como todo o carisma na Igreja, o nosso carisma profético coloca-nos ao serviço da missão salvífica do Povo de Deus no mundo de hoje (cf. LG 12).» (Cst 27); «tomamos consciência da miséria que aflige muitos homens de hoje: ouvimos o clamor dos pobres» (ET 17) Cst 50); «estaremos dispostos a pôr tudo em comum entre nós e a ir ao encontro dos pobres e necessitados» (Cst 51); tal como a Igreja, cada vez mais, se deu conta de que deve ser ela a ir ao mundo, também nós, «Oblatos-Sacerdotes do Coração de Jesus» (Cst 6), devemos estar «atentos aos apelos do mundo» (p. II, A. § 5), devemos partilhar as «aspirações dos nossos contemporâneos» (Cst 37), ser «solidários com a sua vida» (Cst 38), participar «na construção da cidade terrestre e na edificação do corpo de Cristo» (Cst 38), «empenhando-nos sem reserva, no advento da nova humanidade em Jesus Cristo» (Cst 39).

    Oratio

    Senhor Jesus, Tu propões um enigma e dás a sua explicação: «Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro. Mas o que sai do homem, isso é que o torna impuro» (v. 15). Assim redimensionas as prescrições da Lei, fazendo convergir a nossa atenção para o interior, para o coração. É o nosso coração que deve ser purificado, porque «o que sai do homem, é que o torna impuro» (v. 15). E Tu, que vês o nosso coração, sabes que ele é mau. Por isso nos queres dar um coração novo. Com esse objectivo, vieste ao mundo, nos deste a tua Palavra, morreste e ressuscitaste por nós. Glória a Ti para sempre. Ao renovares a tua oblação, na celebração eucarística, une os nossos corações à tua oferta, a fim de que sejam purificados e reconduzidos à sua correcta orientação. Na comunhão, quando vieres até nós, renova o nosso coração. Torna-o digno do Pai. Torna-o sensível às necessidades dos nossos irmãos. Amen.

    Contemplatio

    Muitas homenagens são prestadas hoje a Nosso Senhor, mas pode aplicar-se a um grande número a censura do profeta: O meu povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim...
    ... Segundo as aparências exteriores, faz-se muito, dispensa-se mesmo muito, mas muitas vezes, é pelo ídolo da vaidade e do amor-próprio. Antes de tudo, é o coração, a boa e pura intenção que tem um valor aos olhos de Nosso Senhor, mas não é raro que o coração não esteja lá, e, sem ele, todos os outros dons não têm valor. Quantos interesses mesquinhos ou satisfações pueris muitas vezes se tem em vista, mesmo nas coisas santas!... No entanto, há por aqui e por ali na multidão almas verdadeiramente amantes; são estas almas ignoradas e esquecidas que consolam o Sagrado Coração (Leão Dehon, OSP3, p. 637).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Fazei tudo pelo Senhor» (cf. Cl 3, 23s.)

    | Fernando Fonseca, scj |

  • V Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    Categoria: Semanal V Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    10 de Fevereiro, 2022

    Tempo Comum - Anos Pares
    V Semana - Quinta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 1 Reis 11, 4-13

    4Na idade senil de Salomão, as suas mulheres desviaram-lhe o coração para outros deuses; e assim o seu coração já não era inteiramente do Senhor, seu Deus, contrariamente ao que sucedeu com David, seu pai. 5Foi atrás de Astarté, deusa dos sidónios, e de Milcom, abominação dos amonitas. 6Salomão fez o mal aos olhos do Senhor e não seguiu inteiramente o Senhor, como David, seu pai. 7Por essa altura, ergueu Salomão um lugar alto a Camós, deus de Moab e a Moloc, ídolo dos amonitas, sobre o monte que fica mesmo em frente de Jerusalém. 8E fez o mesmo por todas as suas mulheres estrangeiras, que queimavam incenso e sacrificavam aos seus deuses. 9O Senhor irritou-se contra Salomão, pois o seu coração se afastara do Senhor, Deus de Israel, que se lhe tinha revelado por duas vezes, 10e lhe ordenou sobre estas coisas para não seguir os deuses estrangeiros. Ele, porém, não cumpriu o que o Senhor lhe prescrevera. 11Então o Senhor disse-lhe: «Já que procedeste assim e não guardaste a minha aliança nem as leis que te prescrevi, vou tirar-te o reino e vou dá-lo a um dos teus servos. 12Entretanto, não o farei durante a tua vida, por causa de David teu pai; é das mãos de teu filho que Eu o arrancarei.

    O reinado de Salomão, glorioso sob tantos aspectos, teve as suas sombras que se podem resumir numa só palavra: idolatria. Havia uma lei que proibia o casamento com mulheres estrangeiras, exactamente para evitar o pecado de idolatria. Salomão seguiu uma política de alianças em boa parte baseada em combinações matrimoniais. As suas mulheres pagãs exigiam templos onde prestar culto aos seus deuses. Salomão cedeu a esses pedidos e ele mesmo e alguns dignitários da corte, bem como populares, caíram na idolatria. Salomão afastou-se do Senhor, Deus de Israel. E o Senhor rejeitou-o. Em consequência dessa rejeição acontecerá o cisma do reino.
    Estes textos, escritos na época do exílio e do pós-exílio, tempos de grande sofrimento, fizeram Israel repensar a sua história em perspectiva teológica. Porquê o exílio, a dispersão, e tanto sofrimento e humilhação? Que fundamento tinha o anseio da restauração da unidade e da paz do reino de David, tão sentido por todos? Os autores sagrados tinham uma resposta: apesar da infidelidade do homem, Deus permanece fiel à sua aliança e à sua promessa de paz.

    Evangelho: Marcos 7, 24-30

    Naquele tempo, 24Jesus partindo dali, foi para a região de Tiro e de Sídon. Entrou numa casa e não queria que ninguém o soubesse, mas não pôde passar despercebido, 25porque logo uma mulher que tinha uma filha possessa de um espírito maligno, ouvindo falar dele, veio lançar-se a seus pés. 26Era gentia, siro-fenícia de origem, e pedia-lhe que expulsasse da filha o demónio. 27Ele respondeu: «Deixa que os filhos comam primeiro, pois não está bem tomar o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos.» 28Mas ela replicou: «Dizes bem, Senhor; mas até os cachorrinhos comem debaixo da mesa as migalhas dos filhos.» 29Jesus disse: «Em atenção a essa palavra, vai; o demónio saiu de tua filha.» 30Ela voltou para casa e encontrou a menina recostada na cama. O demónio tinha-a deixado.

    Depois de ter curado muitos doentes e discutido com os fariseus em Genesaré, Jesus prossegue a sua viagens por Tiro, Sídon e Decápole, terras pagãs. E também aí realiza milagres: a cura da filha da mulher cananeia, que escutamos hoje, e a do surdo-mudo, que escutaremos amanhã.
    No diálogo com a mulher cananeia emerge a tensão entre o papel proeminente de Israel na história da salvação e o universalismo da mesma salvação. Não só os «filhos», os judeus, mas também os «cães», os pagãos, segundo a metáfora, são chamados à salvação. A única condição é escutar a Boa Nova e acolher Jesus como Senhor: «Dizes bem, Senhor...», exclama a mulher. «Em atenção a essa palavra, - diz-lhe Jesus - vai; o demónio saiu de tua filha». A fé da cananeia dissolveu a tensão e alcançou-lhe o milagre. A filha foi libertada do demónio.
    No diálogo entre Jesus e a mulher aparecem as expressões «pão dos filhos» e «migalhas dos cachorrinhos». É já um anúncio do milagre da multiplicação dos pães, que Marcos narrará pouco depois (cf. Mc 8, 1-10).
    Jesus também continua a rebater, com palavras e acções, o legalismo dos judeus, dando atenção ao mundo e à cultura grega. Não esqueçamos que Marcos escreve para uma comunidade cristã grega.

    Meditatio

    A promessa de Deus a David foi cumprida: «Não serás tu que vais construir uma casa para eu habitar mas serei eu a construir uma casa para ti» «Um teu filho vai suceder-te e será ele a construir uma casa para o meu nome», (cf. 2 Sm 7, 5ss.). Salomão construiu efectivamente um templo para o Senhor. Mas, por influência das suas mulheres, acabou por cair na idolatria e também construiu templos para os deuses pagãos. O seu coração dividiu-se entre Deus e os seus interesses políticos: «o seu coração já não era inteiramente do Senhor, seu Deus» (v. 4).
    As tentações de Salomão continuam actuais, também para nós. É preciso grande fortaleza de alma para resistir e permanecer fiéis a Deus. Os deuses que, hoje, nos podem seduzir, talvez se chamem sucesso, ambição, dinheiro, sensualidade, paixões amorosas... Mas Deus não admite divisões e quer ser amado com todo o nosso coração: «Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças» (Dt 6, 5).
    O verdadeiro filho de David, que resistiu a todas as tentações, foi Jesus. Para permanecer dócil ao Pai, aceitou a humilhação e a morte. Foi ele quem construiu o verdadeiro Templo de Deus, ao morrer e ressuscitar. Como ensina S. Pedro, trata-se um templo feito de pedras vivas. E nós fazemos e faremos parte dele, se permacemos fiéis ao Senhor.
    Na mulher estrangeira, em terra estrangeira, de que nos fala o evangelho, identifica-se a igreja, missionária e católica, isto é, universal. A igreja, estrangeira no meio dos entrangeiros, pobre entre os pobres, continua a obra da Encarnação. Como Cristo assumiu toda a humanidade, também o cristão se insere e compromete no esforço da humanidade que tende para a sua plenitude, no movimento do espírito humano que tende para Cristo. Trata-se de um movimento de inclusão, de integração, de assimilação da humanidade na humanidade de Cristo. A «católica» é esta mulher estrangeira que, em terra estrangeira, procura Cristo, humilde entre os humildes, e que descobre ao mundo a verdade que Cristo lhe revela sobre si mesma
    : «Sim, Senhor» (v. 28). E suplica para todos que as migalhas, os elementos da humanidade, sua filha - ferida, doente, desorientada, confusa - sejam reorientados, recompostos, assumidos, integrados, curados, reentregues à plenitude de Cristo.
    Como dehonianos, queremos uma fraternidade cada vez mais universal que aproxime os povos de toda a terra. É uma utopia; mas agora, como dizia Paulo VI, a utopia é o nome da realidade. A fraternidade entre todos os povos é uma utopia pela qual trabalhamos, para que se torne realidade na civilização do amor, com a promoção humana integral (cf. Os Religiosos e a Promoção humana, SCRIS, 25 de Abril de 1978).

    Oratio

    Senhor, no corpo do consagrado renova-se, de algum modo, o mistério da tua Encarnação. O teu corpo era o verdadeiro templo, o lugar de manifestação e do encontro com a tua divindade. Além disso, ofereceste-o como oblação santa ao Pai. Ao entrar no mundo rezaste: Pai, «não quiseste sacrifícios nem holocaustos, mas deste-Me um corpo... Então Eu disse: Eis-Me aqui para fazer a Tua vontade» (Hbr 10, 5.7). Em ti, o cristão é também templo de Deus e sacerdote chamado a oferecer sacrifícios, a começar pelo de si mesmo. O consagrado, de modo particular, faz do seu corpo uma oblação santa, realizando de modo permanente a exortação de Paulo «oferecei os vossos corpos, como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o vosso culto espiritual» (Rom 12, 1). Por isso, queremos, hoje, unir-nos a ti presente na vida do mundo e, em solidariedade contigo... oferecer-nos ao Pai como oblação viva, santa e agradável «como oferenda e sacrifício de agradável odor» (Ef 5,2). Amen.

    Contemplatio

    O patriarca Jacob promete à tribo de Aser um pão suculento e digno dos reis (Gen 49). O pão verdadeiramente real é o que nós possuímos. É o pão divino, é o pão do céu. É a Eucaristia. O povo de Israel teve o maná, mas não sustentava senão a vida terrestre. O nosso maná entretém a vida espiritual. «Eu sou o pão da vida, diz-nos o bom Mestre. Os vossos pais tiveram o maná, um pão terrestre, eu sou o pão da vida, descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente; o pão que eu hei-de dar é a minha carne para a vida do mundo» (Jo 6).
    Vós ofereceis este pão, Senhor, à minha pobre alma. Podíeis dizer-me como à Cananeia: não é bom tomar o pão dos filhos para o atirar aos cães. Mas o vosso coração é infinitamente compassivo e misericordioso.
    Dais-me este pão para me alimentar e para me fortificar contra todo o desfalecimento: o pão que fortalece o coração do homem (Sl 103). A minha acção de graças dirige-se ao vosso coração (Leão Dehon, OSP3, p. 634).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Sim, Senhor» (Mc 7, 28)».

    | Fernando Fonseca, scj |

  • V Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    Categoria: Semanal V Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    11 de Fevereiro, 2022

    Tempo Comum - Anos Pares
    V Semana - Sexta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 1 Reis 11, 29-32; 12, 19

    Naqueles dias, 29quando Jeroboão saía de Jerusalém, o profeta Aías de Silo encontrou-o no caminho. Aías estava coberto com um manto novo, e estavam só os dois no campo. 30Então, Aías tomou o manto novo com que se cobria e rasgou-o em doze pedaços. 31E disse a Jeroboão: «Toma dez pedaços para ti, pois assim diz o Senhor, Deus de Israel: 'Eis que Eu vou tirar o reino das mãos de Salomão e dar-te-ei as dez tribos. 32Ficar-lhe-á, porém, uma tribo por causa do meu servo David e da cidade de Jerusalém, que Eu escolhi de entre todas as tribos de Israel. 19Israel esteve em revolta contra a casa de David até ao dia de hoje.

    O autor sagrado apresenta a divisão do reino como um castigo pela apostasia idolátrica de Salomão. No capítulo seguinte, Jeroboão, um dos funcionários de Salomão, pede a Reboão que reduza os impostos. Reboão recusa o pedido de um modo surpreendente: «já que meu pai vos carregou com um jugo pesado, eu vou torná-lo ainda mais pesado; meu pai castigou-vos com açoites; pois eu vos castigarei com azorragues!» (1 Rs 12, 11). E assim ficou aberta a porta ao cisma político. O profeta Aías anuncia simbolicamente esse facto ao rasgar o manto em doze pedaços. O seu gesto profético é uma advertência e uma denúncia motivada pelas injustiças sociais que Jeroboão herdou de seu pai. O profeta, e a sua acção, são sinal da presença de Deus e anúncio da sua intervenção na história do povo. Trata-se de uma intervenção salvífica, porque Deus não se diverte a rasgar «mantos novos», mas é Aquele que faz novas todas as coisas. Este texto mantém ainda hoje a sua actualidade por causa da nostalgia ecuménica que nele percebemos. A divisão do reino davídico tem paralelismo na divisão da Igreja cristã.

    Evangelho: Marcos 7, 31-37

    Naquele tempo, 31Jesus deixou de novo a região de Tiro, veio por Sídon para o mar da Galileia, atravessando o território da Decápole. 32Trouxeram-lhe um surdo tartamudo e rogaram-lhe que impusesse as mãos sobre ele. 33Afastando-se com ele da multidão, Jesus meteu-lhe os dedos nos ouvidos e fez saliva com que lhe tocou a língua. 34Erguendo depois os olhos ao céu, suspirou dizendo: «Effathá», que quer dizer «abre-te.» 35Logo os ouvidos se lhe abriram, soltou-se a prisão da língua e falava correctamente. 36Jesus mandou-lhes que a ninguém revelassem o sucedido; mas quanto mais lho recomendava, mais eles o apregoavam. 37No auge do assombro, diziam: «Faz tudo bem feito: faz ouvir os surdos e falar os mudos.»

    Desta vez, Jesus cura um surdo tartamudo, cuja capacidade intelectual estava condicionada pela sua deficiência. Por isso, ao tocar-lhe os órgãos doentes com saliva, Jesus não quer fazer magia à maneira dos taumaturgos da época, mas apenas dirigir-se à consciência daquele que ia ser objecto do prodígio. Noutros casos bastavam as palavras. Aqui, tratando-se de um surdo tartamudo, são precisos gestos. E Jesus fá-los.
    É o segundo milagre que Jesus faz em território pagão e este texto, exclusivo de Marcos, pretende continuar a descrição da actividade missionária da primeira comunidade cristã e assinalar a abertura dos pagãos à fé em Jesus Cristo.
    O assombro dos que presenciam os milagres de Jesus lembra-nos Gn 1: «E Deus viu que tudo era bom», mas também Isaías: «O mudo gritará de alegria» (Is 35, 6). Em Jesus realizam-se as promessas de salvação. Não se trata, pois, de triunfalismo político-messiânico, mas de um reconhecimento gozoso da eficácia desalienante da presença do reino de Deus.

    Meditatio

    Onde chega Jesus, chega a salvação, que cria novas relações, finalmente libertadas, entre os homens e Deus, e entre os próprios homens. Jesus, em terra de pagãos, faz ouvir os surdos e falar os mudos. São milagres físicos que simbolizam milagres espirituais iniciados no baptismo, e que podem ser motivo de reflexão e de oração para nós. Sendo participantes da humanidade sofredora, não é difícil dar-nos conta de que as feridas mais graves das pessoas, hoje, dizem respeito sobretudo às relações. Daí o isolamento, o clima de suspeição e de medo em que tantas vivem.
    Jesus toca nos sentidos do surdo-mudo para lhe tocar no coração. Abrir o coração - effathá! - é a condição para re-ligar os pontos com a Vida. O homem precisa de se abrir a Deus, à sua Palavra, ao encontro com Ele, para se poder abrir ao encontro com os outros, ao diálogo, às relações com todos.
    A Igreja tem a missão de continuar, em certo sentido, este milagre de Jesus, fazendo ouvir a todos os povos que são amados por Deus e que, por isso, podem falar. Fazer «ouvir» e fazer «falar» é a missão da Igreja, para que todos os povos possam louvar a Deus. Mas também cada um de nós precisa de ouvidos abertos e língua solta para escutar o Senhor, que nos fala, e proclamar os seus louvores. Ouvir e falar são meios para viver a aliança: escutar a Deus para saber escutar os irmãos, e falar como Deus quer.
    Como dehonianos, queremos estar ao serviço das novas relações que Deus quer estabelecer com os homens e entre os homens: «Sensíveis a tudo aquilo que, no mundo de hoje, constitui obstáculo ao amor do Senhor, queremos testemunhar que o esforço humano, para chegar à plenitude do Reino, tem de se purificar e transfigurar constantemente pela Cruz e Ressurreição de Cristo» (Cst 29). «Verificamos que o mundo de hoje se agita num imenso esforço de libertação: libertação de tudo quanto lesa a dignidade do homem e ameaça a realização das suas mais profundas aspirações: a verdade, a justiça, o amor, a liberdade» (Cst 36). Estas novas relações passam pela escuta da Palavra e pela visão das maravilhas realizadas por Deus em Jesus Cristo. É nossa missão proclamar a Palavra e ajudar a todos a se tornarem sensíveis à contemplação do que Deus fez e continuar a fazer nós. No sinal da comunidade religiosa, manifesta-se eficazmente a Igreja-comunidade-comunhão, como realidade social, mas também como mistério divino, como sacramento de novas relações com Deus e com os irmãos. A comunidade religiosa, na Igreja, torna-se sinal de «que a fraternidade por que os homens anseiam é possível em Jesus Cristo» (Cst 65), Aquele que faz ouvir os surdos e falar os mudos.

    Oratio

    Senhor Jesus, que fizeste ouvir os surdos e falar os mudos, dá-nos a graça de escutar o Pai e de saber falar com os irmãos e irmãs, mesmo nas circunstâncias mais difíceis. Quantas vezes nos vemos dominados por reacções espontâneas, que dificultam falar como cristãos, e nos levam a falar como pagãos. Nã
    o é suficiente ter língua e ouvidos para comunicar como Tu queres que comuniquemos, para entrar em comunhão com os outros. Repete sobre nós a tua palavra: «Effathá!», para que o nosso coração se abra à generosidade para contigo e para com os irmãos e irmãs. Ajuda-nos a permanecer abertos à tua voz e a responder-te generosamente. Amen.

    Contemplatio

    «Vistes os meus milagres, diz Nosso Senhor, fareis os mesmos, se crerdes em mim. Em verdade vos digo, as obras que faço, aquele que acredita em mim as fará também e até ainda maiores. Curareis doentes, ressuscitareis os mortos, falareis as línguas e convertereis ao Evangelho o universo inteiro. A vossa fé será todo-poderosa».
    Tais são as promessas de Nosso Senhor. E eu, creio ter a fé, creio conhecer Nosso Senhor, trabalho pela sua glória, porque é que então as minhas obras são estéreis? É que a minha fé não é bastante viva.
    Nosso Senhor pode dizer-me: «Não acreditais em mim com a fé ardente dos santos. Não acreditais na santidade da minha vida, na perfeição dos meus sentimentos e dos meus actos, porque vos aplicais tão pouco a imitar-me; não acreditais com uma fé viva na Eucaristia, porque sois tão frios na minha presença; não acreditais no meu Coração, na sua bondade, na sua generosidade, na sua misericórdia, porque o invocais tão friamente. Daí vem a esterilidade da vossa vida e a inutilidade das vossas obras».
    Isto é verdade, Senhor, bem pouco vos conheço até ao presente. A minha fé em vós é quase irrisória. Falo-vos com distracção e negligência. E, por conseguinte, a minha confiança é hesitante e o meu amor tíbio. Mudai o meu coração, dai-me uma fé viva e ardente. (Leão Dehon, OSP3, p. 448s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Faz ouvir os surdos e falar os mudos» (Mc 7, 37).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • VI Semana – Segunda-feira – Tempo Comum – Anos Pares

    Categoria: Semanal VI Semana – Segunda-feira – Tempo Comum – Anos Pares


    14 de Fevereiro, 2022

    Tempo Comum – Anos Pares

    VI Semana – Segunda-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Tiago 1, 1-11

    1Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo, saúda as doze tribos da Dispersão. 2Meus irmãos, considerai como uma enorme alegria o estardes rodeados de provações de toda a ordem, 3tendo em conta que a prova a que é submetida a vossa fé produz a constância. 4Mas a constância tem de se exercitar até ao fim, de modo a serdes perfeitos e irrepreensíveis, sem falhar em nada. 5Se algum de vós tem falta de sabedoria, que a peça a Deus, que a todos dá generosamente e sem recriminações, e ser-lhe-á dada. 6Mas peça-a com fé e sem hesitar, porque aquele que hesita assemelha-se às ondas do mar sacudidas e agitadas pelo vento. 7Não pense, pois, tal homem que receberá qualquer coisa do Senhor, 8sendo de espírito indeciso e inconstante em tudo. 9Que o irmão de condição humilde se glorie na sua exaltação, 10e o rico na sua humilhação, pois ele passará como a flor da erva. 11Com efeito, ao despontar o Sol com ardor, a erva seca e a sua flor cai, perdendo toda a beleza; assim murchará também o rico nos seus empreendimentos.

    A carta que hoje começamos a ler, atribuía a Tiago, irmão do Senhor e bispo de Jerusalém, é dirigida às Doze tribos da diáspora, tal como a Primeira Carta de Pedro. A diáspora era formada pelos judeus que viviam fora da Palestina. Aqui o termo é usado metaforicamente, para indicar a Igreja, novo Israel, dispersa entre os povos.
    A carta de Tiago, para além da introdução, apresenta-se como uma homilia onde o seu autor oferece normas práticas de vida cristã. É uma carta «católica» porque contém verdades universalmente válidas, isto é, aplicáveis à vida de todos os crentes. Resumidamente, podemos indicar algumas: a devoção e a piedade só são verdadeiras quando se reflectem na vida dos crentes. As aparências de devoção não agradam a Deus. A verdadeira devoção não é simples aspiração da alma, nem palavreado fácil. São as obras que revelam a autenticidade da fé proclamada.
    Para além de alertar a todos para a necessidade de uma fé que se traduza em obras, a carta de Tiago quer também responder a duas preocupações: por um lado, revelar aos pobres o valor da provação, das suas angústias; por outro lado, revelar aos ricos o perigo que as riquezas encerram. O clima de sabedoria vetero-testamentária é iluminado, ainda que não muito directamente, pela luz de Cristo.
    Hoje escutamos a introdução e parte da exortação inicial, cujos temas serão retomados ao longo da carta: a providencialidade da provação, a necessidade de rezar para adquirir a sabedoria e saber orientar-se no meio das dificuldades da vida, o carácter ilusório das riquezas.

    Evangelho: Marcos 8, 11-13

    Naquele tempo, 11apareceram alguns fariseus e começaram a discutir com Ele, pedindo-lhe um sinal do céu para o pôr à prova. 12Jesus, suspirando profundamente, disse: «Porque pede esta geração um sinal? Em verdade vos digo: sinal algum será concedido a esta geração.» 13E, deixando-os, embarcou de novo e foi para a outra margem.

    A perícopa que hoje escutamos situa-se na no contexto da «secção dos pães» (Mc 6, 30-8,26) e mais precisamente na reacção dos fariseus (8, 11-13) e dos discípulos (8, 14-21) à revelação cristológica. Os fariseus não reconhecem o valor do milagre da multiplicação dos pães realizado por Jesus. Daí a provocação: dá-nos «um sinal do céu» (v. 11). Jesus apercebe-se imediatamente da intenção dos fariseus e responde-lhes categoricamente: «sinal algum será concedido a esta geração» (v. 12). Não há prodígio (dýnamis) nem sinal (semêion), – aqui Marcos usa o termo sinal -, capaz de convencer quem não quer deixar-se convencer.
    A expressão «esta geração» (v. 12), na literatura profética, indica o povo de Israel infiel à Aliança, que exige sempre de Deus novas manifestações do seu poder. A expressão aparece por vezes seguida de adjectivos como «adúltera e pecadora» (8, 38; Mt 12, 39.45;16,4) ou «infiel e perversa» (9, 19; cf. Mt 17, 17). Nesta perícopa a expressão «esta geração» parece indicar, não só os fariseus, mas também todos aqueles que procuram sempre novos sinais para acreditar.

    Meditatio

    Bento XVI, na encíclica Spe salvi, lembra-nos que o sofrimento é um lugar para aprender a esperança. Devemos certamente fazer tudo para diminuir o sofrimento; todavia «não é a fuga diante da dor que cura o homem, mas a capacidade de aceitar a tribulação e amadurecer nela, e encontrar sentido para ela na união com Cristo, que sofreu com infinito amor». O Papa refere os exemplos de Santa Josefina Bakhita e o do mártir vietnamita Paulo Le-Bao-Thin, verdadeiras testemunhas da esperança no meio dos seus sofrimentos (cf. nn. 36-39).
    A primeira leitura lembra-nos que as dificuldades e sofrimentos, põem à prova a nossa fé e revelam em quem pomos a nossa esperança: se em Deus ou em nós mesmos. O mesmo texto afirma que só a sabedoria, que vem de Deus, permite considerar as provações como perfeita alegria. A sabedoria do mundo considera-a loucura. Há que pedir a sabedoria da cruz, na certeza de que no-la dará. E essa certeza vem-nos da fé que não hesita e se manifesta nas obras.
    O evangelho mostra-nos os fariseus que, em tom polémico, se dirigem a Jesus que tinha acabado de multiplicar os pães, «pedindo-lhe um sinal do céu» (v. 11). Trata-se de uma provocação. Jesus apercebe-se das suas intenções e recusa-lhes o sinal, porque não há sinal que convença quem está dominado por preconceitos, quem não se quer deixar convencer. Os fariseus dão continuidade à incredulidade e à dureza de coração do Povo de Deus tantas vezes verberada pelos profetas. Não há sinais nem provas do amor de Deus que os satisfaçam.
    Qual é a nossa posição? Talvez também nós sejamos vítimas da miopia religiosa que afectava os fariseus. Jesus é o sinal dado aos homens para que acreditem. Como é a nossa fé, a nossa adesão, a nossa confiança em Jesus? Como reagimos perante os sofrimentos da vida? Somos homens e mulheres de esperança?
    Para o Pe. Dehon, o Lado aberto e o Coração trespassado do Salvador, são o sinal por excelência do amor de Deus por nós e do amor do Filho de Deus, que aceita a morte para nos salvar. Contemplando esse sinal, chega à fé-adesão e à confiança inabalável que as provações não fazem esmorecer. Consegue até lê-las de modo positivo: são ocasiões para se unir à Paixão do Senhor, em espírito de am
    or e de reparação, na esperança segura de igualmente participar na glória da Ressurreição.

    Oratio

    Senhor Jesus, ensina-me a considerar perfeita alegria toda a provação, todo o sofrimento. Tu sabes que prefiro a tranquilidade, e que vejo as dificuldades como tropeços no caminho para Ti. Mas também elas são perfeita alegria porque, como ensina teu apóstolo Paulo, as provações da fé produzem a paciência e a paciência completa em nós a obra, para nos tornarmos perfeitos e íntegros, sem qualquer falta.
    Senhor, faz-me compreender que é nas provações que produzes em mim a virtude, que não é derrota, mas progresso no amor; faz-me compreender que é nas provações que me unes à tua Paixão gloriosa e à tua vitória sobre o mal e sobre a morte. Amen.

    Contemplatio

    A cruz devia ser o sinal do cristão. Devia ser honrada sobre todos os nossos altares e marcar com o seu sinal salutar todas as cerimónias do culto. Nosso Senhor conduz-nos como quer pela sua doce providência. A cruz mal aparece nas catacumbas, torna-se o sinal universal de todo o acto cristão no tempo de Constantino. É ela que nos pregará o amor de Nosso Senhor, aguardando a revelação do Sagrado Coração (Leão Dehon, OSP3, p. 511).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «A provação produz a constância» (Tg 1, 3).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • VI Semana – Terça-feira – Tempo Comum – Anos Pares

    Categoria: Semanal VI Semana – Terça-feira – Tempo Comum – Anos Pares


    15 de Fevereiro, 2022

    Tempo Comum – Anos Pares

    VI Semana – Terça-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Tiago 1, 12-18

    12Feliz o homem que resiste à tentação, porque, depois de ter sido provado, receberá a coroa da vida que o Senhor prometeu aos que o amam. 13Ninguém diga, quando for tentado para o mal: «É Deus que me tenta.» Porque Deus não é tentado pelo mal, nem tenta ninguém. 14Cada um é tentado pela sua própria concupiscência, que o atrai e seduz. 15E a concupiscência, depois de ter concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte. 16Não vos enganeis, meus amados irmãos. 17Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, no qual não há mudanças nem períodos de sombra. 18Por sua livre decisão, nos gerou com a palavra da verdade, para sermos como que as primícias das suas criaturas.

    A provação não é mais do que isso mesmo, provação. Mas pode tornar-se tentação, quando nos leva a inclinar-nos para o mal. Pode-se então concluir que, se a provação vem de Deus, também a tentação vem dele? Não, porque esse pensamento leva ao fatalismo, contrário à fé judaica e à fé cristã. A própria natureza de Deus exclui esse modo de pensar: «porque Deus não é tentado pelo mal, nem tenta ninguém» (v. 13). A origem das nossas tentações está na concupiscência que nos leva ao pecado. Por sua vez, o pecado leva-nos à morte, não tanto física, mas espiritual. Ora, Deus é «o Pai das luzes» (cf. Job 38, 7.28), isto é, o Transcendente, que está acima de tudo, também dos astros e que, por isso, não está sujeito às mudanças que neles observamos. O v. 18 alude ao novo nascimento que está na origem do ser cristão (cf. Jo 3, 3-5) e que é possível, não com o nosso esforço, mas por dom de Deus, graças à «palavra da verdade», isto é, ao Evangelho. Os que renascem pelo baptismo são primícias da nova humanidade porque, aos cristãos, há-de seguir-se a colheita para Deus de todos os povos, de toda a humanidade.

    Evangelho: Marcos 8, 14-21

    Naquele tempo, 14os discípulos tinham-se esquecido de levar pães e só traziam um pão no barco. 15Jesus começou a avisá-los, dizendo: «Olhai: tomai cuidado com o fermento dos fariseus e com o fermento de Herodes.» 16E eles discorriam entre si: «Não temos pão.» 17Mas Ele, percebendo-o, disse: «Porque estais a discorrer que não tendes pão? Ainda não entendestes nem compreendestes? Tendes o vosso coração endurecido? 18Tendes olhos e não vedes, tendes ouvidos e não ouvis? E não vos lembrais 19de quantos cestos cheios de pedaços recolhestes, quando parti os cinco pães para aqueles cinco mil?» Responderam: «Doze.» 20«E quando parti os sete pães para os quatro mil, quantos cestos cheios de bocados recolhestes?» Responderam: «Sete.» 21Disse-lhes então: «Ainda não compreendeis?»

    Continuamos na mesma «secção dos pães» e, agora, mais concretamente, no contexto da reacção dos discípulos à revelação cristológica (8, 14-21)
    Jesus pergunta aos discípulos: «Tendes o vosso coração endurecido?» (v. 17). O tema do coração endurecido, tão dramático e complexo nos Profetas e, de modo geral, no Antigo Testamento, aparece nos Evangelhos a propósito da compreensão e da aceitação do mistério do Reino proposto em parábolas (Mc 4, 10-12; Mt 13, 10-14; Lc 8, 9s.; cf. Jo 12, 37-41). O Reino era novidade com que Deus surpreendia a todos. Só os corações simples, abertos e disponíveis o podiam acolher. Por isso, era necessário não se deixar contaminar «com o fermento dos fariseus e com o fermento de Herodes» (v. 15), isto é, com o orgulho e com a soberba dos fariseus e de Herodes. Os fariseus provavelmente esperavam um Messias triunfador que, com prodígios grandiosos, submetesse o mundo ao poder de Israel. Mas não era essa a lógica de Jesus. A salvação que nos oferece será realizada na partilha que multiplica o pão, e na carne «mastigada», que se torna fonte de vida eterna, isto é, na sua passagem pela morte. Será também esse o caminho dos discípulos e da Igreja, se quiserem ser fiéis aos ensinamentos e ao exemplo de Jesus.

    Meditatio

    Tiago afirma categoricamente que «Deus não é tentado pelo mal, nem tenta ninguém» (v. 13). Sendo assim, devemos fixar a nossa atenção sobre outro ponto: o homem-criatura. Nele está a concupiscência que, satisfeita, leva à morte: «Cada um é tentado pela sua própria concupiscência, que o atrai e seduz. E a concupiscência, depois de ter concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte» (v. 14-15). Felizmente, o homem pode resistir à concupiscência e ser «como que as primícias das criaturas de Deus» (v. 18), geradas por sua vontade «com a palavra da verdade» (v. 18). Deus é bondade, e dele só provêm pensamentos bons e generosos: «Todo o dom perfeito vem do alto» (v. 17). De coração agradecido, acolhamos todos os seus dons para vencermos o mal e caminharmos na esperança ao seu encontro, com todos os nossos irmãos.
    No evangelho, Jesus como que martela os discípulos, fixados em preocupações materiais, com uma série de perguntas para os levar a fazer anamnese dos prodígios a que já tinham assistido para os animar na fé e na esperança: «Porque estais a discorrer que não tendes pão? Ainda não entendestes nem compreendestes? Tendes o vosso coração endurecido? Tendes olhos e não vedes, tendes ouvidos e não ouvis? E não vos lembrais de quantos cestos cheios de pedaços recolhestes, quando parti os cinco pães para aqueles cinco mil?» (vv. 17-19). Assim os leva a reler o «sinal» da multiplicação dos pães.
    A utilização da terminologia dos antigos profetas por Jesus é provocatória, não só porque revela a indisponibilidade dos fariseus e de Herodes para acolherem o que tinham visto, mas também porque manifesta a mesma indisponibilidade nos discípulos, que ficaram amarrados ao «pão» e não chegaram a Ele, «palavra de verdade».
    Uma anamnese semelhante também é útil para cada um de nós, pois pode abrir-nos os olhos e os ouvidos para chegarmos a conhecer que: «Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes» (v. 17).
    A comunidade cristã e, de modo particular, a comunidade religiosa são bons lugares para fazermos anamnese dos dons de Deus, nos animarmos na fé-adesão a Jesus Cristo, confirmarmos a nossa esperança e vivermos a caridade. A comunidade é “um lugar teológico”, onde todos havemos de chegar, s
    ob o influxo do Espírito, a uma profunda exigência de amor filial para com o Pai, fonte de “toda a boa dádiva e do dom perfeito” (Tg 1, 17) e do amor nupcial para com Cristo, em cujo nome a comunidade está reunida” (cf. Cst 67), e que é o verdadeiro centro de atracção da comunidade e de cada religioso. A mesma comunidade, e cada um dos seus membros, há-de esforçar-se por “testemunhar a Cristo” (Cst. 67), reservando todos os dias um tempo ou tempos particulares de intimidade com Ele, que é a «palavra de verdade».

    Oratio

    Senhor, meu Deus, não permitas que as preocupações desta vida se tornem empecilho na caminhada para Ti. Mantém-me longe das coisas pelas quais anseia a vaidade do mundo. Liberta-me também das misérias que dolorosamente pesam sobre mim. Guarda-me dos maus pensamentos que falsificam a tua imagem, e podem levar-me a dizer: «Estou a ser tentado por Deus». Faz-me compreender e integrar na minha vida o ensinamento do teu apóstolo Tiago, que diz: «Deus não é tentado pelo mal, nem tenta ninguém; Cada um é tentado pela sua própria concupiscência, que o atrai e seduz». Tu és bondade. De Ti só vêm pensamentos bons e generosos. Tu és o Pai maravilhoso, que «nos gerastes com a palavra da verdade, para sermos como que as primícias das tuas criaturas». A Ti o louvor e a glória para sempre! Amen.

    Contemplatio

    Deus é amor, ama a sua bondade infinita, compraze-se nela, é a sua vida. – Em relação a nós, Deus Pai é amor, amor de clemência; Deus Espírito Santo é amor, amor de santificação. Neste sentido, a redenção é obra da santa Trindade. Deus amou-nos e quis salvar-nos.
    Num sentido mais preciso, o amor pessoal em Deus é o Espírito Santo. Deus Pai e Deus Filho amam-se infinitamente e o seu amor infinito é o princípio do Espírito Santo.
    Deus compraze-se no Espírito Santo, que é o amor de seu Filho. Mas quis alargar esse amor. Quis ser amado por muitos corações, dos quais um seria ainda um Coração divino, o Coração divino de Jesus e os outros corações criados à imagem e à semelhança do Coração divino.
    O objecto principal da criação no plano divino era, portanto, o Coração de Jesus, que devia ser o corifeu do louvor divino e do amor divino. Deus disse para Si mesmo: «Façamos o Coração de Jesus, como extensão do Coração divino, e façamos corações humanos como extensão do Coração de Jesus».
    Estes pensamentos são bem desenvolvidos pelo venerável Padre Eudes, no seu livro sobre o coração admirável de Maria (Leão Dehon, OSP4, p. 513).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Todo o dom perfeito vêm do alto» (Tg 1, 17).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • VI Semana – Quarta-feira – Tempo Comum – Anos Pares

    Categoria: Semanal VI Semana – Quarta-feira – Tempo Comum – Anos Pares


    16 de Fevereiro, 2022

    Tempo Comum – Anos Pares

    VI Semana – Quarta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Tiago 1, 19-27

    Caríssimos irmãos: 19cada um seja pronto para ouvir, lento para falar e lento para se irar, 20pois uma pessoa irada não faz o que é justo aos olhos de Deus. 21Rejeitai, pois, toda a imundície e todo o vestígio de malícia e recebei com mansidão a Palavra em vós semeada, a qual pode salvar as vossas almas. 22Mas tendes de a pôr em prática e não apenas ouvi-la, enganando-vos a vós mesmos. 23Porque, quem se contenta com ouvir a palavra, sem a pôr em prática, assemelha-se a alguém que contempla a sua fisionomia num espelho; 24mal acaba de se contemplar, sai dali e esquece-se de como era. 25Aquele, porém, que medita com atenção a lei perfeita, a lei da liberdade, e nela persevera – não como quem a ouve e logo se esquece, mas como quem a cumpre – esse encontrará a felicidade ao pô-la em prática. 26Se alguém se considera uma pessoa piedosa, mas não refreia a sua língua, enganando assim o seu coração, a sua religião é vazia. 27A religião pura e sem mácula diante daquele que é Deus e Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo.

    Para receber eficazmente a Palavra de Deus, ou outro qualquer dom, é precisa disposição recta, com capacidade de escuta, autocontrolo da língua e dos impulsos do coração, que levam ao exibicionismo, ao aborrecimento ou à indignação. É preciso cultivar a moderação. A ira do homem não realiza a justiça de Deus, isto é, o que Lhe agrada, o que Ele aprova. O que salva é o acolhimento dócil da Palavra, isto é, do Evangelho semeado no coração dos crentes pela pregação. Essa palavra, para ser eficaz, deve ser permanentemente actualizada e aplicada às situações e relações concretas da vida. A fé deve levar à acção e caracterizá-la. Se assim não for, torna-se inútil. De nada serve mirar-se ao espelho, se não se limparem as manchas observadas no rosto por meio dele. Do mesmo modo, a Palavra torna-se inútil se não se traduzir em acção.
    A observância da lei cristã é caminho de felicidade, porque é a lei perfeita que gera a liberdade, e não jugula o homem. Mais ainda: a observância da lei manifesta-se na beneficência e na benevolência para com os necessitados e no esforço para levar uma vida pura neste mundo contaminado e secularizado.

    Evangelho: Marcos 8, 22-26

    Naquele tempo, 22Jesus e os seus discípulos chegaram a Betsaida e trouxeram-lhe um cego, pedindo-lhe que o tocasse. 23Jesus tomou-o pela mão e conduziu-o para fora da aldeia. Deitou-lhe saliva nos olhos, impôs-lhe as mãos e perguntou: «Vês alguma coisa?» 24Ele ergueu os olhos e respondeu: «Vejo os homens; vejo-os como árvores a andar.» 25Em seguida, Jesus impôs-lhe outra vez as mãos sobre os olhos e ele viu perfeitamente; ficou restabelecido e distinguia tudo com nitidez. 26Jesus mandou-o para casa, dizendo: «Nem sequer entres na aldeia.»

    A cura do cego de Betsaida, propositadamente colocada por Marcos num contexto onde se fala da cegueira dos fariseus e dos discípulos, encerra a «secção dos pães».
    Jesus, mais uma vez, usa a linguagem táctil, não à maneira dos magos, mas para que a pessoa, que recebe o prodígio, esteja consciente do que se passa. O milagre realiza-se em dois tempos: primeiro o cego vê confusamente: «Vejo os homens; vejo-os como árvores a andar» (v. 24); depois, quando a cura está completa, vê claramente: «ficou restabelecido e distinguia tudo com nitidez» (v. 25).
    Jesus não quer atitudes triunfalistas. Por isso, ao despedir o cego curado, recomenda-lhe que não entre na aldeia (v. 26). O verdadeiro crente crê nos milagres, e não por causa dos milagres. Os milagres vêm depois da fé, de tal modo que, se não há fé, ou se ela é fraca, nem sequer acontecem milagres. Além disso, os milagres nunca são enquadrados numa cristologia ou eclesiologia triunfalista. São testemunhos da vinda do Messias que hão-de ser contados de modo discreto por aqueles que os receberam. De qualquer modo, Marcos insiste na «reserva messiânica».
    Os crentes não têm que medir forças com os não-crentes. Por um lado, podem perfeitamente admitir que muitos «prodígios» foram efeitos de simples forças naturais desconhecidas pela razão humana; por outro lado, estão conscientes de que a sua fé não vem dos milagres, mas que os milagres a pressupõem. Mas também têm todo o direito a pressupor que certos acontecimentos são verdadeiros «prodígios», pois crêem na força «sobrenatural» de Deus, embora não a possam demonstrar racionalmente.

    Meditatio

    Tiago dá-nos um conselho muito simples e claro, mas muito prático e útil: «cada um seja pronto para ouvir, lento para falar e lento para se irar». Esta serenidade nas relações com os irmãos, à primeira vista, só parece ter a ver com as boas maneiras naturalmente apreciadas por todos. Mas, quando é uma atitude interior de respeito e aceitação do outro, só pode brotar de um coração pacificado, dum coração que acolheu a Palavra nele semeada. Todavia é fácil iludir-nos, pensando que somos acolhedores e ouvintes fiéis da Palavra. A prova real de que a ouvimos e acolhemos é pô-la em prática. A Palavra acolhida é Palavra que incarna.
    A Palavra de Deus, «que pode salvar as nossas almas» foi semeada em nós, é verdade. Mas continuamos a precisar da graça para ver claramente a «glória do Filho de Deus», para termos uma «religião pura e sem mácula diante daquele que é Deus» (v. 17).
    O milagre de hoje, de certo modo, surpreende-nos. Estamos habituados a ver Jesus curar os doentes com uma só palavra, e não por fases. Hoje, Marcos faz-nos ver Jesus que põe saliva nos olhos do cego, lhe impõe as mãos e lhe pergunta: «Vês alguma coisa?» (v. 23). O homem começa a ver e diz o que vê: «Vejo os homens; vejo-os como árvores a andar» (v. 24). Jesus repete o gesto da imposição das mãos sobre os olhos e «ele viu perfeitamente; ficou restabelecido e distinguia tudo com nitidez» (v. 24).
    Marcos não colocou ao acaso as curas de cegos no seu evangelho. Colocou-os em momentos especiais. O milagre que hoje escutamos vem imediatamente antes do episódio de Cesareia de Filipe, onde Jesus pede aos discípulos que declarem quem ele é. A outra cura de um cego encontra-se no termo do caminho para Jerusalém, antes do grande mistério da Paixão. Jesus quer levar os discípulos a compreender que, para terem a luz, precisam duma intervenção dele. Só quem é tocado por Jesus pode compreender quem ele é. Só uma graça especial de Jesus permite entrar no mist&e
    acute;rio da sua Paixão. Resumindo: os discípulos precisavam de contactar com a humanidade de Jesus. Ele quis servir-se do seu corpo humano para realizar a obra de Deus. Por isso, usa a saliva, impõe as mãos… O cego é curado em fases sucessivas. É também através do contacto sucessivo com Jesus que os discípulos avançam, pouco a pouco, na luz. Para sermos iluminados, precisamos do contacto com Jesus e aceitar que a iluminação aconteça por etapas.
    Como tudo isto é importante para nossa caminhada de fé! Vivemos na era do «digital» e queremos tudo depressa e de uma só vez. Mas não é essa a pedagogia de Deus, como verificamos nas autobiografias dos santos. A serenidade que provém de um coração pacificado, a iluminação interior, exigem repetidos e prolongados contactos com o Senhor. E paciência para aceitar o seu ritmo!
    Se a pusermos em prática a Palavra, com a ajuda do Espírito Santo, experimentaremos uma profunda serenidade interior, seremos criaturas de paz, de alegria, de bondade e de mansidão. E, na comunhão, mesmo para além dos conflitos, e no perdão recíproco, mostraremos que a fraternidade por que os homens anseiam é possível em Jesus Cristo e dela queremos ser fiéis servidores (cf. Cst 65).

    Oratio

    Senhor Jesus, dá-me a graça de escutar a Palavra e de a pôr em prática, fixando o olhar na lei perfeita, na lei da liberdade, permanecendo-lhe fiel e deixando que ela mude em mim o que encontrar disforme. Sei que a luz é um dom teu, e que também é dom teu colaborar com a graça que nos impele a mudar. Que eu descubra, ao espelho da tua Palavra, as minhas más inclinações naturais, os meus desejos e impulsos, mas também os saiba corrigir e rectificar para me abrir aos teus. Numa palavra: que eu saiba servir-me do espelho, que é a tua Palavra, com humildade, com sinceridade, com grande confiança, porque ela é a lei da liberdade, que nos dás por amor, a fim de podermos crescer. Amen.

    Contemplatio

    Devemos receber cada inspiração como uma palavra de Deus, que procede da sua sabedoria, da sua misericórdia, da sua bondade infinita, e que pode operar em nós maravilhosos efeitos, se não lhe pusermos nenhum obstáculo.
    Consideremos o que uma palavra de Deus pôde fazer; ela criou o céu e a terra, tirou todas as coisas do nada tornando-as participantes no ser de Deus, porque não encontrou resistência no nada. Ela operaria em nós algo de mais se não lhe resistíssemos. Tirar-nos-ia do nada moral para a participação sobrenatural da santidade de Deus no estado da graça, e a participação da felicidade de Deus no estado da glória; e por bagatelas, por algumas satisfações do amor-próprio ou dos sentidos, impedimos estes grandes efeitos da palavra de Deus, das suas inspirações e das impressões do seu Espírito. Depois disso, não havemos de confessar que a sabedoria teve razão ao dizer que o número dos loucos é infinito?
    As inspirações de Deus permanecem na superfície da nossa alma, por causa da oposição que encontram em nós; mas penetram docemente nas almas que são possuídas por Deus e enchem-nas desta admirável paz que acompanha sempre o Espírito de Deus (Leão Dehon, OSP3, p. 546).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Recebei com mansidão a Palavra em vós semeada» (Tg 1, 21).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • VI Semana – Quinta-feira – Tempo Comum – Anos Pares

    Categoria: Semanal VI Semana – Quinta-feira – Tempo Comum – Anos Pares


    17 de Fevereiro, 2022

    Tempo Comum – Anos Pares

    VI Semana – Quinta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Tiago 2, 1-9

    1Meus irmãos, não tenteis conciliar a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo glorioso com a acepção de pessoas. 2Suponhamos que entra na vossa assembleia um homem com anéis de ouro e bem trajado, e entra também um pobre muito mal vestido, 3e, dirigindo-vos ao que está magnificamente vestido, lhe dizeis: «Senta-te tu aqui, num bom lugar», e dizeis ao pobre: «Tu, fica aí de pé»; ou «Senta-te no chão, abaixo do meu estrado.» 4Não é verdade que, então, fazeis distinções entre vós mesmos e julgais com critérios perversos? 5Ouvi, meus amados irmãos: porventura não escolheu Deus os pobres segundo o mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? 6Mas vós desonrais o pobre. Porventura não são os ricos que vos oprimem e vos arrastam aos tribunais? 7Não são eles os que blasfemam o belo nome que sobre vós foi invocado? 8Se cumpris a lei do Reino, de acordo com a Escritura: Amarás o teu próximo como a ti mesmo, procedeis bem; 9mas, se fazeis acepção de pessoas, cometeis um pecado e a lei condena-vos como transgressores.

    A autenticidade da fé manifesta-se nas obras. Tiago inculca esta verdade com um exemplo muito concreto tirado da vida das comunidades cristãs. Fazer acepção de pessoas é um pecado, porque vai contra a fé abraçada pelos cristãos. Há que lembrar-se de Cristo que se esvaziou e rebaixou a si mesmo (Fl 2, 6ss.). Os discípulos de Cristo não têm qualquer razão para estabelecer distinções entre as pessoas. Se o fizerem estão a agir contra Cristo, tornando-se semelhantes ao juiz sem consciência que se deixa levar por parcialidades e favoritismos ao pronunciar sentenças injustas. Se Deus escolheu os pobres segundo o mundo, a Igreja e os membros que a integram não podem conceder especiais atenções e privilégios aos ricos como faz a sociedade secular. É verdade que o mandamento do amor é universal. Mas uma coisa é amar e outra é prestar honras a alguém por ser rico ou por ocupar determinada posição social. Essas pessoas, por vezes, tornam-se opressoras. Por isso, nada de servilismos. Além do mais, são contra a lei da liberdade que deve regular o comportamento humano.

    Evangelho: Marcos 8, 27-33

    Naquele tempo, 27Jesus partiu com os discípulos para as aldeias de Cesareia de Filipe. No caminho, fez aos discípulos esta pergunta: «Quem dizem os homens que Eu sou?» 28Disseram-lhe: «João Baptista; outros, Elias; e outros, que és um dos profetas.» 29«E vós, quem dizeis que Eu sou?» – perguntou-lhes. Pedro tomou a palavra, e disse: «Tu és o Messias.» 30Ordenou-lhes, então, que não dissessem isto a ninguém.
    31Começou, depois, a ensinar-lhes que o Filho do Homem tinha de sofrer muito e ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos doutores da Lei, e ser morto e ressuscitar depois de três dias. 32E dizia claramente estas coisas. Pedro, desviando-se com Ele um pouco, começou a repreendê-lo. 33Mas Jesus, voltando-se e olhando para os discípulos, repreendeu Pedro, dizendo-lhe: «Vai-te da minha frente, Satanás, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens.»

    O texto que escutamos é central na teologia do segundo evangelho. Aqui se opõe claramente uma cristologia do filho do homem a uma cristologia e a uma eclesiologia triunfalista, inspirada no conceito político-imperialista do Messias. O povo interrogava-se: «Quem é este?». Agora é o próprio Jesus que pergunta aos discípulos o que é que se diz sobre Ele. Em síntese, os discípulos informam que o povo O vê, não só como um profeta, mas como maior dos profetas, o precursor dos tempos messiânicos. Mas Jesus quer ir mais longe, e interpela directamente os discípulos: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (v. 29). Pedro responde em nome da comunidade: «Tu és o Messias» (v. 29). Mas Jesus impõe-lhes novamente o chamado «segredo messiânico» e começa a falar-lhes do mistério da cruz, que está no centro da sua messianidade: Ele é o Servo sofredor que veio carregar sobre si os nossos pecados para nos fazer passar da morte à vida. E quem quiser ser seu discípulo tem de seguir o mesmo caminho da cruz. Pedro parece perceber tudo muito bem, e é o primeiro a reagir ao escândalo da cruz. Mas Jesus chama-o à ordem: «Vai-te da minha frente» (v. 33), isto é, põe-te atrás de Mim se segue-Me.
    Pôr-se atrás de Jesus, e segui-Lo como discípulos, é a posição correcta que havemos de tomar para sermos salvos.

    Meditatio

    Na primeira leitura, Tiago sempre muito realista e concreto, evidencia a incoerência de quem julga os outros segundo os critérios do mundo e não segundo os pensamentos de Deus, que «escolheu os pobres segundo o mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam» (v. 5). Quantas vezes, também nós, nos deixamos levar por essas reacções espontâneas!
    O episódio da confissão de Pedro, que hoje escutamos, está no centro do evangelho de Marcos. Até agora, Jesus foi guiando progressivamente os discípulos para se aproximarem do seu mistério. Agora interroga-os sobre a sua identidade: «Quem dizem os homens que Eu sou» (v. 27). Pedro responde em nome do grupo: «Tu és o Messias» (v. 29). O mesmo é dizer: «Tu és Nosso Senhor Jesus Cristo, o «Senhor da glória», como sugere a carta de Tiago. Mateus informa-nos que Jesus declarou Pedro bem-aventurado por causa desta confissão: «feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que to revelou, mas o meu Pai que está no Céu» (Mt 16, 17).
    Mas não basta dizer: «Senhor, Senhor». Reconhecê-lo como Senhor da nossa vida, quer dizer também acreditar que está vivo e presente nos irmãos. O Filho de Deus, o Dominador do universo por quem tudo foi criado, quis assumir por nosso amor o rosto do Servo sofredor, do Homem das dores, «sem figura nem beleza» (Is 53, 2). E assim nos revelou a nossa incomparável grandeza.
    Também a nós, como a Pedro, pode ser dado intuir, em alguns momentos de graça, o mistério do Deus vivo no seu esplendor. Mas a prova da nossa fé só se realiza quando não nos deixamos vencer – como Pedro – pelo escândalo da cruz. Reconhecer o Senhor Jesus, implica saber que o seu caminho passa inevitavelmente pelo Calvário, e que também nós temos de passar por lá, abraçando a nossa cruz. Ele vai à nossa frente, marcando o caminho com as suas pegadas vermelhas de sangue, até consumar a sua oblação na imolação. Não caminha como alguém que enfrenta de má vontade um destino inevitável, uma fatalidade. Caminha como um homem livre, que vive plenamente o Seu ser de Filho, que faz da vontade e, portanto, do amor do Pai o seu alimento (cf. Jo 4, 34), que livre
    mente realiza, não só a Sua missão de Messias, mas também a de Servo de Javé: «Tenho de receber um baptismo, e que angústias as minhas até que ele se realize» (Lc 12, 50). Jesus refere-se ao Seu baptismo de sangue (cf. Mc 10, 38). Lucas apresenta-nos Jesus que avança «à frente dos outros subindo para Jerusalém» (19, 28), com a mesma decisão com que tinha começado a sua última viagem: «Como estavam a chegar os dias de ser levado deste mundo, Jesus dirigiu-Se resolutamente para Jerusalém» (Lc 9, 51) e tudo isto com a máxima liberdade: «Por isto, o Pai ama-Me, porque dou a Minha vida, para tornar a tomá-la. Ninguém Ma tira; sou Eu que a dou por Mim mesmo» (Jo 10, 17-18).

    Oratio

    Senhor Jesus, livra-me da incoerência de Pedro, para que aceite serenamente os momentos de graça em que nos revelas o teu mistério de modo esplendoroso, mas também aqueles em que nos manifestas os aspectos de sofrimento e de morte desse mesmo mistério. Ninguém, nem o próprio Pai, me dá uma luz melhor que a tua. Como o cego de Betsaida foi curado, pouco a pouco, também Pedro precisou de aceitar por etapas todo o teu mistério. Dá-me a luz do teu Espírito para que, também eu, pouco a pouco, consiga ultrapassar os limites das minhas perspectivas humanas. Amen.

    Contemplatio

    «E vós, diz então Nosso Senhor, vós que sois meus discípulos, que viveis comigo, que sois as testemunhas diárias dos meus milagres e do cumprimento das profecias, estais ainda cegos como este povo? Estais suficientemente esclarecidos para que vos faça os pregadores do meu Evangelho? Numa palavra, «quem dizeis que Eu sou?».
    Simão Pedro, antecipando-se a todos os outros pelo ardor da sua fé, apressou-se a responder: «Senhor, vós sois o Cristo, vós sois o Filho de Deus; sois o Messias libertador prometido pelos profetas, sois mais do que o Filho do homem, sois o Filho do Deus vivo, o Filho único do Pai eterno».
    Nosso Senhor apressa-se a louvar esta confissão de fé tão cordial: «És feliz, diz, Simão filho de João, porque não foi nem a carne nem o sangue que te revelaram estes profundos mistérios», tu os compreendeste graças a uma luz superior; foi o meu Pai que está nos céus quem te revelou o que a razão humana, entregue às suas próprias forças, nunca teria compreendido.
    Pedro falou aqui por todos os apóstolos e em nome de todos, e assim será em todos os séculos. Terá merecido esta graça pela simplicidade da sua fé, pela docilidade da sua alma. Que lição para nós, que temos uma fé tão fraca e tão adormecida! (Leão Dehon, OSP4, p. 291s.)

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Tu és o Messias» (Mc 8, 29).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • VI Semana – Sexta-feira – Tempo Comum – Anos Pares

    Categoria: Semanal VI Semana – Sexta-feira – Tempo Comum – Anos Pares


    18 de Fevereiro, 2022

    Tempo Comum – Anos Pares

    VI Semana – Sexta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Tiago 2, 14-24.26

    14Meus irmãos, de que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? 15Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, 16e um de vós lhes disser: «Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome», mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? 17Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta. 18Mais ainda: poderá alguém alegar sensatamente: «Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me então a tua fé sem obras, que eu, pelas minhas obras, te mostrarei a minha fé. 19Tu crês que há um só Deus? Fazes bem. Também o crêem os demónios, mas enchem-se de terror.» 20Queres tu saber, ó homem insensato, como é que a fé sem obras é estéril? 21Não foi porventura pelas obras que Abraão, nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaac? 22Repara que a fé cooperava com as suas obras e que, pelas obras, a sua fé se tornou perfeita. 23E assim se cumpriu a Escritura que diz: Abraão acreditou em Deus e isso foi-lhe contado como justiça, e foi chamado amigo de Deus. 24Vedes, pois, como o homem fica justificado pelas obras e não somente pela fé. 26Assim como o corpo sem alma está morto, assim também a fé sem obras está morta.

    Tiago continua a sua reflexão sobre a relação fé e obras. A fé sem obras é morta, afirma, parecendo responder a alguém que afirmava o contrário. De facto, no tempo de Tiago havia pessoas que, sob a influência de várias filosofias de origem grega, centravam toda a sua atenção e interesse no «conhecimento de Deus», descuidando absolutamente a moral e as boas obras. Provavelmente também havia quem interpretava mal as afirmações de Paulo sobre a justificação pela fé, sem as obras da lei (cf. Gal 3). Recorrendo à diatribe, Tiago responde a estas questões envolvendo os seus ouvintes. Não é um absurdo despedir os irmãos necessitados sem lhes dar o que precisam? Também a fé sem obras é um absurdo, é um cadáver. A fé e as obras são inseparáveis. Não é suficiente proclamar a fé com palavras. Para ser cristãos, não é suficiente acreditar. Também os demónios acreditam… por conhecimento intelectual. Uma fé unicamente intelectual é «diabólica». O verdadeiro crente, tal como Abraão, confirma nas obras aquilo que conhece. A fé sem obras é morta, é um corpo sem alma.
    Sabemos as controvérsias que este texto suscitou a partir da leitura que dele fez Lutero e que contrapunha o pensamento de Tiago ao de Paulo. Os exegetas actuais vêem nestes textos formulações complementares, que nascem de mentalidades e de posições diferentes. Paulo tinha diante de si judeo-cristãos que procuravam a salvação nas «obras da lei», contrapondo-lhes a salvação realizada por Cristo e acolhida na fé (cf. Rm 4, 2ss. E 3, 28). Tiago sublinha a necessidade de que a fé não permaneça apenas teórica, mas se manifeste de modo activo e em obras. É esta a mensagem que a Palavra hoje nos traz.

    Evangelho: Marcos 8, 34 – 9, 1

    Naquele tempo, 34Jesus, chamando a si a multidão, juntamente com os discípulos, disse-lhes: «Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. 35Na verdade, quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, há-de salvá-la. 36Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? 37Ou que pode o homem dar em troca da sua vida? 38Pois quem se envergonhar de mim e das minhas palavras entre esta geração adúltera e pecadora, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai, com os santos anjos.» 1Disse-lhes também: «Em verdade vos digo que alguns dos aqui presentes não experimentarão a morte sem terem visto o Reino de Deus chegar em todo o seu poder.»

    Jesus quer afastar definitivamente a tentação de uma cristologia e de uma eclesiologia «satânicas», isto é, de uma cristologia e de uma eclesiologia que não aceitassem Jesus como filho do homem, que pretendessem «salvar a vida» por outros caminhos que não o da cruz. Por isso, chama, não só os «discípulos», mas também «a multidão» (v. 34). Estando Jesus nas imediações de Cesareia de Filipe, esta multidão era formada sobretudo por pagãos. Parece, pois, que Jesus queria deixar bem claro, para todos, o futuro que os esperava como discípulos. Quem quiser seguir Jesus não pode pretender para si o lugar central, mas há-de cedê-lo a Jesus, dando-Lhe o primado em tudo, também sobre a própria vida. Há que tomar a cruz e, seguindo os passos de Jesus, sair com Ele da cidade, rumo ao suplício. Só ganha a Vida – que é Jesus – quem estiver disposto a renunciar a si mesmo. E para que serve ter tudo, se não se ganha a Vida?
    É agora, durante a nossa vida terrena, «entre esta geração adúltera e pecadora» (v. 37), que somos chamados a dar testemunho de Cristo. Se não nos envergonharmos dele, nem das suas palavras, também Ele não se envergonhará de nós e nos reconhecerá como seus.

    Meditatio

    Na primeira leitura encontramos o célebre texto em que Tiago parece contradizer a Paulo, que afirmava a justificação só pela fé: «De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo?» (v. 14). Mas a contradição é só aparente. Paulo fala da fé como base da vida divina em nós, da justificação que Cristo nos alcançou ao morrer por nós pecadores e que nos comunica no Baptismo. É um absurdo pensar que nos salvamos pelas nossas obras. É Deus que, pelo seu amor, nos salva, e não as nossas obras. No Evangelho, Jesus exige sempre a fé em quem se dirige a Ele: «Credes que tenho poder para fazer isso?» (Mt 9, 27); «A tua fé te salvou!» (Mc 10, 40). Mas não podemos ficar por aqui. Tiago, tal como Paulo, afirma noutro lugar que a base é a fé, uma fé que transforma a vida; Paulo, por sua vez, também fala de obras, as obras de quem é dócil ao Senhor, da fé que actua na caridade. E apresenta-se, ele mesmo, como exemplo de uma fé operante: «São ministros de Cristo? – Falo a delirar – eu ainda mais: muito mais pelos trabalhos, muito mais pelas prisões, imensamente mais pelos açoites, muitas vezes em perigo de morte… Viagens a pé sem conta… trabalhos e duras fadigas…» (2 Cor 11, 23ss.). É esta a fé, que nos põem ao serviço de Deus e dos irm&a
    tilde;os, que também nos justifica e salva.
    No evangelho, Jesus ensina que não podemos viver como discípulos tímidos e descomprometidos. A fé é viva quando se concretiza em obras. Quem não sabe amar a Deus e aos irmãos, mais do que a si mesmo, quem não é capaz de tomar a cruz e de seguir a Cristo, passando, como Ele, pelo Calvário, acabará por se dar conta de que atravessou a vida sem a saborear, de que não conseguiu salvar os seus dias neste mundo. As palavras do Senhor são muito duras, mas dizem-nos claramente quais as obras de fé a realizar durante a nossa vida: «Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me» (v. 34). Há, pois, que carregar a cruz e segui-lo, para que se realize em nós o seu mistério até à morte e à ressurreição. Só assim a fé nos salvará e nos fará salvadores com Ele.
    A fé operante une-nos a Cristo missionário, a Cristo benfeitor da Humanidade, a Cristo sacerdote e vítima, para completarmos o que falta aos seus sofrimentos pelo Seu Corpo que é a Igreja (cf. Col 1, 24).

    Oratio

    Senhor, ensina-nos o que tem valor para a eternidade. Dá-nos uma fé viva, uma fé sincera, que se traduza em generosidade, em serviço incansável e humilde em prol da tua glória, e em favor dos irmãos. Dá-nos uma fé corajosa diante dos sofrimentos desta vida, uma fé que seja luz, uma fé que nos permita seguir a Cristo, teu Filho, carregando a nossa cruz de cada dia. Faz que, desde já, pela graça do teu Espírito, saboreemos a alegria do teu reino de amor. Amen.

    Contemplatio

    A cruz tornou-se na linguagem cristã sinónimo de sacrifício, de penitência, de reparação.
    Se a cruz nos grita que Nosso Senhor nos amou, ela diz-nos também que sofreu por nós, que expiou cruelmente os nossos pecados. Amou a cruz porque ela reparava a glória de seu Pai e porque pagava as nossas dívidas. Ele carregou-se com os nossos pecados, mas quis reservar-nos a honra de o seguirmos neste caminho. Não nos aplica os frutos das suas reparações, a não ser que neles tomemos alguma parte. Quer que partilhemos as suas disposições, os seus sentimentos. É preciso que tenhamos também o desejo, a vontade de reparar a glória do seu Pai e de pagar as nossas dívidas. É preciso, portanto, que, atrás da sua grande e dolorosa cruz, levemos a nossa pequena cruz: a cruz do trabalho quotidiano, da penitência, da obediência, do desapego; a cruz da paciência nas provações da vida. «Aquele que quiser vir atrás de mim e partilhar do meu reino, deve tomar a sua cruz e seguir-me». Aqui está o resumo do Evangelho. Nosso Senhor pregou a penitência e enviou os seus apóstolos a pregá-la em toda a terra. Não há outro caminho para ir ao céu. É preciso alguma coragem e boa vontade. O reino dos céus exige alguma força de alma e algum vigor da parte daqueles que o querem conquistar: O Reino dos céus sofre violência. (Leão Dehon, OSP3, p. 512s.)

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Se alguém quiser vir após mim, tome a sua cruz e siga-me» (Mc 8, 34).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • VII Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    Categoria: Semanal VII Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    21 de Fevereiro, 2022

    Tempo Comum - Anos Pares
    VII Semana - Segunda-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Tiago 3, 13-18

    Caríssimos: 13Existe alguém entre vós que seja sábio e entendido? Mostre, então, pelo seu bom procedimento, que as suas obras estão repassadas da mansidão própria da sabedoria. 14Mas, se tendes no vosso coração uma inveja amarga e um espírito dado a contendas, não vos vanglorieis nem falseeis a verdade. 15Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é a terrena, a da natureza corrompida, a diabólica. 16Pois, onde há inveja e espírito faccioso também há perturbação e todo o género de obras más. 17Mas a sabedoria que vem do alto é, em primeiro lugar, pura; depois, é pacífica, indulgente, dócil, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem hipocrisia; 18e é com a paz que uma colheita de justiça é semeada pelos obreiros da paz.

    Depois de ter aconselhado os mestres a dominarem a língua, Tiago pergunta: «Existe alguém entre vós que seja sábio e entendido?» (v. 13). Depois, detém-se a apresentar a verdadeira e a falsa sabedoria, realçando-lhes os contrastes. Os neo-convertidos eram tentados a sentar-se na cátedra e a apresentar soluções para todas as questões e problemas, pois julgavam possuir um profundo conhecimento de Deus e do mundo. Tiago pede-lhes moderação. Já Paulo tivera que haver-se com os que possuíam uma «sabedoria» meramente intelectual (cf. 1 Cor 1). A sabedoria intelectual, ou terrena, leva à discórdia; a sabedoria que vem do alto leva à comunhão.
    A sabedoria que vem do alto inspira a comunhão que, por sua vez dá bom testemunho e permite viver na mansidão e na paz. A sabedoria terrena, pelo contrário, inspira a discórdia e faz crescer sentimentos de inveja, de contendas, que alimentam a soberba.
    O fruto da verdadeira sabedoria é a justiça e a paz (v. 18), tal como a desordem e toda a espécie de obras más provêm da falsa sabedoria (v. 16).

    Evangelho: Marcos 9, 14-29

    Naquele tempo, tendo Jesus descido do monte, 14ia ter com os seus discípulos, quando viu em torno deles uma grande multidão e uns doutores da Lei a discutirem com eles. 15Assim que viu Jesus, toda a multidão ficou surpreendida e acorreu a saudá-lo. 16Ele perguntou: «Que estais a discutir uns com os outros?» 17Alguém de entre a multidão disse-lhe: «Mestre, trouxe-te o meu filho que tem um espírito mudo. 18Quando se apodera dele, atira-o ao chão, e ele põe-se a espumar, a ranger os dentes e fica rígido. Pedi aos teus discípulos que o expulsassem, mas eles não conseguiram.» 19Disse Jesus: «Ó geração incrédula, até quando estarei convosco? Até quando vos hei-de suportar? Trazei-mo cá.» 20E levaram-lho.Ao ver Jesus, logo o espírito sacudiu violentamente o jovem, e este, caindo por terra, começou a estrebuchar, deitando espuma pela boca.
    21Jesus perguntou ao pai: «Há quanto tempo lhe sucede isto?» Respondeu: «Desde a infância; 22e muitas vezes o tem lançado ao fogo e à água, para o matar. Mas, se podes alguma coisa, socorre-nos, tem compaixão de nós.» 23«Se podes...! Tudo é possível a quem crê», disse-lhe Jesus. 24Imediatamente o pai do jovem disse em altos brados: «Eu creio! Ajuda a minha pouca fé!» 25Vendo, Jesus, que acorria muita gente, ameaçou o espírito maligno, dizendo: «Espírito mudo e surdo, ordeno-te: sai do jovem e não voltes a entrar nele.» 26Dando um grande grito e sacudindo-o violentamente, saiu. O jovem ficou como morto, a ponto de a maioria dizer que tinha morrido. 27Mas, tomando-o pela mão, Jesus levantou-o, e ele pôs-se de pé. 28Quando Jesus entrou em casa, os discípulos perguntaram-lhe em particular: «Porque é que nós não pudemos expulsá-lo?» 29Respondeu: «Esta casta de espíritos só pode ser expulsa à força de oração.»

    Jesus não permitiu que os discípulos acampassem no Tabor. Mas nem Ele lá ficou muito tempo. Ao chegar junto dos discípulos, viu-os rodeados por uma multidão, que não esperava a sua vinda. Surpreendida, suspendeu a discussão com os discípulos, e acorreu a saudá-lo. É então que o pai de um jovem endemoninhado Lhe fala do estado de saúde do filho, acrescentando que os discípulos não tinham conseguido curá-lo.
    O carácter iracundo de Jesus, várias vezes realçado no segundo evangelho, vem ao de cima: «Ó geração incrédula, até quando estarei convosco? Até quando vos hei-de suportar? Trazei-mo cá» (v. 19). Jesus verifica que a sua pregação e os milagres realizados não tinham conseguido consolidar a fé dos discípulos, nem da multidão. Daí a sua indignação. Todavia não abandona aqueles que sofrem.
    O pai do jovem também tinha uma fé inconsistente. Mas, pelo menos, reconhecia-o com humildade: «se podes alguma coisa, socorre-nos, tem compaixão de nós» (v. 22). Era já um princípio de fé, que Jesus intuiu. Partindo dessa fé inicial, e escutando a sua oração - «Eu creio! Ajuda a minha pouca fé!» - Jesus concede-lhe uma fé mais robusta. Depois, realiza o milagre pedido, libertando o jovem do espírito mudo e deixando um breve intervalo de tempo para que se revelem a grandeza e o poder do amor. A multidão pensa que o jovem estava morto mas, pelo contrário, estava livre e podia iniciar uma nova vida.
    Quando os discípulos interrogam Jesus sobre a sua incapacidade em curar o jovem, o divino Mestre acena, mais uma vez, à necessidade da oração.

    Meditatio

    Tiago leva-nos a meditar na relação sabedoria e fé: uma e outra se entrelaçam, formando como que um tecido compacto que cobre e aquece o homem, fazendo-o caminhar para o bem e para o amor. De facto, o homem sábio e crente tem, com os outros, um relacionamento fundado no acolhimento e na escuta. Por isso, é manso, pacífico, prestável, misericordioso, imparcial e verdadeiro na relação com os seus semelhantes. Na relação com Deus, reconhece-se que precisa d´Ele e que necessita de encontrar a Jesus, no seu caminho, Está consciente de que, por si mesmo, não é capaz de fazer o bem e de caminhar no amor.
    A fé faz crescer a sabedoria e a sabedoria aumenta a fé. O verdadeiro sábio e crente não cairá numa justiça meramente terrena. A humildade é a fé escondida, e a confiança daquele que tudo espera, e por isso tudo cobre na caridade. De mesmo modo, a oração é o pão quotidiano que fermenta a massa da existência e faz erguer os olhos para Aquele que é o Senhor da vida, de Quem precisamos para expulsar o mal que nos atormenta.
    O evangelho apresenta-nos esse Senhor em acção. Marcos narra com pormenor mais um milagre de Jesus que, provavelmente, servia para uma catequese baptismal. Duas vezes o jovem é comparado a um morto: &
    laquo;O jovem ficou como morto, a ponto de a maioria dizer que tinha morrido» (v. 26); «Jesus levantou-o, e ele pôs-se de pé» (v. 27). No v. 27, temos dois verbos, - levantar-se, erguer-se -, que o Novo Testamento usa para falar de ressurreição. Morte e vida: imagem do Baptismo, por meio do qual «fomos, pois, sepultados com Ele (Cristo) na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela glória do Pai, também nós caminhemos numa vida nova» (Rm 6, 4). É, pois, necessário que o «homem velho» morra, que seja destruída inveja amarga, o espírito de contendas, a sabedoria carnal, diabólica, para que chegue ao pleno desenvolvimento em nós a novidade de vida que é dom de Cristo.
    Este dom, brotou do Lado aberto do Senhor: «Do Coração de Cristo, aberto na cruz, nasce o homem de coração novo, animado pelo Espírito e unido aos seus irmãos na comunidade de amor, que é a Igreja» (cf. Leão Dehon, Études sur le Sacré-Coeur, I, p. 114). O sangue e a água, que jorram do Lado de Cristo aberto pela lança simbolizam o dom do Espírito, que será derramado, e da Eucaristia, sacramento do amor, de que somos convidados a alimentar-nos para crescer na caridade. Mas o sangue derramado é também um sinal de morte, e convida-nos a morrer ao homem velho (Cf. Rm 6, 6; Ef 4, 22), tal como a água é um sinal de vida que nos impele a viver do «homem novo, criado segundo Deus na justiça e na santidade verdadeira» (Ef 4, 22); é sinal do baptismo: «Fomos baptizados em Cristo Jesus... na Sua morte» (Rm 6, 3; Cf. Col 2, 2); «O amor de Deus foi derramado nos vossos corações por meio do Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5, 5).

    Oratio

    Senhor Jesus, faz morrer em mim toda a desordem, para que reine na minha mente e no meu coração a sabedoria que vem do alto, uma sabedoria pura, pacífica, mansa, prestável, cheia de misericórdia e de bons frutos.
    Se for preciso, renova em mim os teus prodígios, para que a minha fé se torne sólida. Tu disseste: «tudo é possível a quem crê». E eu respondo com humildade e confiança: «Eu creio! Ajuda a minha pouca fé!». Ajuda-me a não abandonar-te e a descobrir a tua presença na vida de cada dia. Dá-me a graça de olhar para Ti quando penso fazer boas acções, especialmente em favor do próximo, para que não perca qualquer dom do que infundiste em mim. Amen.

    Contemplatio

    Os discípulos exorcizam em vão o doente. Os escribas triunfam; procuram desacreditar os discípulos e o Mestre. Repetem os seus ultrajes do costume: «Estas pessoas, dizem, expulsam os demónios pela virtude de Belzebu, quando Belzebu quer». Os discípulos defendem-se, Jesus intervém: «De que disputais?», diz. Não respondem. As lamentações dolorosas e a ardente súplica do pobre pai interrompem o silêncio. Está de joelhos, chorando e com o coração partido: «Mestre, diz, conjuro-vos, lançai um olhar sobre o meu filho, o meu filho único. Se podeis alguma coisa, ajudai-me, tende piedade de nós, curai-o; os vossos discípulos não puderam». E Jesus diz à parte aos seus discípulos: «Este demónio não se pode expulsar senão pelo jejum, pela penitência e pela oração». É a grande lição deste milagre.
    Depois o Salvador interessa-se pelo pobre doente e pelo seu pai: «Desde quando sofre?» - «Desde a sua infância, diz o pai, é terrivelmente atormentado. Esperava que os vossos discípulos o salvassem!» - «Raça incrédula!», exclamou Jesus. Os apóstolos tinham tido pouca fé; o pai do doente e todo o seu acompanhamento também. «Se tu podes crer, diz o Salvador a este homem, tudo é possível a quem crê». - «Senhor, eu creio, ajuda a minha incredulidade». Mesmo assim Jesus sente-se tocado: «Trazei-me aqui o vosso filho», diz. A raiva do espírito maligno duplica contra a sua vítima, logo que viu Jesus, seu Senhor todo-poderoso. O ar retine com os seus gritos. O menino, atirando-se ao chão, escuma e rebola-se sobre a terra.
    Que espectáculo! O demónio triunfa momentaneamente, porque os apóstolos não tinham sido bastante fiéis ao espírito de reparação e de penitência, ensinado todos os dias pelo seu Mestre. Eis também o segredo do poder que o demónio ainda guarda sobre a nossa alma, sobre as nossas casas, sobre a nossa sociedade: a falta de espírito de reparação e de penitência (Leão Dehon, OSP3, p. 193s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Eu creio! Ajuda a minha pouca fé!» (Mc 9, 24).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • VII Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    Categoria: Semanal VII Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    22 de Fevereiro, 2022

    Tempo Comum - Anos Pares
    VII Semana - Terça-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Tiago 4, 1-10

    1De onde vêm as guerras e as lutas que há entre vós? Não vêm precisamente das vossas paixões que se servem dos vossos membros para fazer a guerra? 2Cobiçais, e nada tendes? Então, matais! Roeis-vos de inveja, e nada podeis conseguir? Então, lutais e guerreais-vos! Não tendes, porque não pedis. 3Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para satisfazer os vossos prazeres. 4Almas adúlteras! Não sabeis que a amizade com o mundo é inimizade com Deus? Portanto, quem quiser ser amigo deste mundo torna-se inimigo de Deus! 5Ou pensais que a Escritura diz em vão: O Espírito que habita em nós ama-nos com ciúme? 6No entanto, a graça que Ele dá é mais abundante, pelo que diz:Deus opõe-se aos soberbos,mas dá a sua graça aos humildes.
    7Submetei-vos, portanto, a Deus; resisti ao diabo, e ele fugirá de vós. 8Aproximai-vos de Deus e Ele aproximar-se-á de vós. Lavai as mãos, pecadores, e purificai os vossos corações, ó gente de alma dividida. 9Reconhecei a vossa miséria, lamentai-vos e chorai; que o vosso riso se converta em pranto e a vossa alegria em tristeza. 10Humilhai-vos na presença do Senhor, e Ele vos exaltará.

    Se a verdadeira sabedoria, aquela que vem do alto, é pacificadora e condescendente, de onde vêm as lutas que dividem a comunidade? Vêm da sabedoria terrena. É ela que suscita na comunidade contendas, cobiças, invejas, lutas. Tiago, depois de ter tratado dos aspectos negativos que levam à divisão, penetra mais profundamente no coração daqueles que se armam em mestres da comunidade. A sua falta de correcção leva a guerras e litígios suscitados pelas paixões humanas que matam moralmente os outros. Como se pode alcançar o que se deseja, quando se pede movidos pela cobiça e pela inveja? O apóstolo chama a essas pessoas «almas adúlteras» (v. 4), porque amam as coisas mundanas e odeiam as coisas de Deus. Ora, «Deus... dá a sua graça aos humildes» (v. 8), ama os humildes, que Lhe são fiéis. Tiago parte desta afirmação para apelar à conversão dos seus ouvintes. É preciso acabar com toda a cobiça e inveja, pois cada um vale diante dos outros ou que vale diante de Deus. E só Ele exalta aqueles que Lhe obedecem.

    Evangelho: Marcos 9, 30-37

    Naquele tempo, 30Jesus e os discípulos, partindo dali, atravessaram a Galileia, e Ele não queria que ninguém o soubesse, 31porque ia instruindo os seus discípulos e dizia-lhes: «O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens que o hão-de matar; mas, três dias depois de ser morto, ressuscitará.» 32Mas eles não entendiam esta linguagem e tinham receio de o interrogar.
    33Chegaram a Cafarnaúm e, quando estavam em casa, Jesus perguntou: «Que discutíeis pelo caminho?» 34Ficaram em silêncio porque, no caminho, tinham discutido uns com os outros sobre qual deles era o maior. 35Sentando-se, chamou os Doze e disse-lhes: «Se alguém quiser ser o primeiro, há-de ser o último de todos e o servo de todos.» 36E, tomando um menino, colocou-o no meio deles, abraçou-o e disse-lhes: 37«Quem receber um destes meninos em meu nome é a mim que recebe; e quem me receber, não me recebe a mim mas àquele que me enviou.»

    O segundo anúncio da paixão é mais seco do que o primeiro (8, 31). Não se diz quem serão os autores da morte de Jesus. Os discípulos nem se atrevem a fazer perguntas. Talvez porque conhecem as reacções de Jesus, e a sua própria cegueira. Além disso, andavam ocupados com outros pensamentos. Sabiam que Jesus queria fundar uma comunidade e que os elementos fundadores eram eles. Preocupava-os a organização da comunidade. Até aí, não havia falta. Mas também discutiam sobre quem deles seria o primeiro nessa comunidade. Jesus admite que tem que haver um «primeiro», mas não à maneira da sociedade civil. Por isso, faz-lhes saber que será primeiro aquele que se dispuser a servir com humildade. «Servir», em sentido bíblico, é servir a Deus e, portanto, também ao próximo. Este «serviço» liberta do egoísmo, vício dominante do homem. Quem quiser ser o primeiro «há-de ser o último de todos e o servo de todos» (v. 35). Há aqui uma lição de humildade e de entrega de si na dor e no sofrimento, mas, sobretudo, no amor oblativo e desinteressado. Aquele que sabe ser o último e o servo, reconhece que tudo quanto possui lhe foi dado por Deus. Por isso, coloca-se em atitude de acolhimento: «quem me receber, não me recebe a mim mas àquele que me enviou» (v. 37). É comparável a uma criança que recebe tudo e a todos com simplicidade, humildade e pobreza, e se abandona confiadamente nos braços dos pais, ou de quem dela cuida.

    Meditatio

    A tentação de correr aos primeiros lugares é muito antiga nas nossas comunidades cristãs, e mesmo nas comunidades de consagrados e consagradas. Por vezes, essa tentação apresenta-se de modo subtil e sob forma de bem: o interesse da comunidade, o bom êxito da sua missão, o Reino de Deus. Pode acontecer que, no começo, nem nos demos conta do engano em que o nosso egoísmo nos está a induzir. Mas, a tentação, pouco a pouco, vai sugerindo coisas cada vez mais afastadas da verdade de Cristo, que, sendo de condição divina, tomou a condição humana, fazendo-se homem, e homem pobre de bens e de poder. Como refere Paulo, tomou a condição de servo (cf. Fl 2, 5), e, como narra João, prestou serviços de servo (cf. Jo 13, 1ss). Por amor, e para servir, ocupou o último lugar, que ninguém era tentado a tirar-Lhe.
    O serviço à comunidade, não pode ser um pretexto para alguém se afirmar, se impor, dar nas vistas, mas há-de ser prestado com os sentimentos de Jesus. João, ao narrar o lava-pés, revela-nos os sentimentos com que Jesus prestou esse serviço aos seus discípulos. Prestou-o por amor e com humildade: «Tendo amado os seus... começou a lavar-lhes os pés») (Jo 13, 1ss). Vivemos numa sociedade onde há muitos «serviços» organizados em favor dos cidadãos. O serviço evangélico distingue-se de qualquer outro pela motivação (o amor) e pelo modo como é prestado (com humildade). Não bastam o profissionalismo, nem o sentido de solidariedade humana, ainda que sejam importantes. O amor e a humildade tornam o serviço evangélico, imitação de Cristo.
    O evangelho mostra-nos os discípulos, que seguem Jesus, mas não O compreendem, nem compreendem o sentido da sua vida. Jesus é, na verdade, o servo de Deus e dos homens. Eles falam de poder, de domínio. Quando o Mestre fala de dificuldades graves, e mesmo de morte, ainda compreendem menos. Permanecem nos seus pensamentos, que os afastam de Senhor. Por isso, Jesus lhes diz claramente: «Se alguém quiser ser o primeiro, há-de ser o último de todos e o servo de todos» (v. 34).
    Jesus est&aa
    cute; consciente da provação que O espera, e avança decidido e sereno. Procura inculcar nos discípulos o verdadeiro espírito de serviço, motivado pelo amor e praticado com humildade. As suas palavras «Fazei isto em memória de Mim» (Lc 22, 19; 1 Cor 11, 24-25) pronunciadas na instituição da Eucaristia são também um convite a todo o discípulo de Jesus, para que sirva como Ele serviu, para que se torne "pão partido" e "sangue derramado" por todos. Na eucaristia, como no lava-pés, Jesus oferece-se-nos um exemplo claro de como se deve servir os irmãos: depõe as "vestes" (Jo 13, 4) e, como um servo, lava os pés aos discípulos. Pedro tenta impedir o Senhor de fazer tal serviço (Cf. Jo 13, 6). Mas Jesus diz-lhe: «O que eu faço, tu não podes entendê-lo agora, mas hás-de sabê-lo depois» (Jo 13, 7).
    O Lava-pés preanuncia a morte de Jesus, o dom de toda a sua vida pelos homens: uma verdadeira "diaconia" ou serviço da vida, uma vida que se torna "pão partido pelo mundo". Tal como foi a vida do Mestre, assim deve ser a vida de discípulos. Depois da descida do Espírito Santo, Pedro compreende a lição e escreve na sua primeira carta: «Cada um de vós viva segundo a graça (carisma) que recebeu, pondo-a ao serviço (diaconia) dos outros» (1 Pe 4, 10). Os carismas são para o serviço (Cf. 1 Cor 12, 7; Ef 4, 12). Daqui se compreende o espírito de serviço, que deve caracterizar todo o discípulo do Senhor, que não age por sede de lucro ou por orgulho, mas unicamente animado pela oblação de amor: «Jesus... tendo amado os Seus, que estavam no mundo, amou-os até ao fim» (Jo 13, 1). O verdadeiro serviço, é imitação de Jesus que amou «não só com palavras e com língua, mas com obras e em verdade» (1 Jo 3, 18; Cst n. 18).

    Oratio

    Ó Jesus, na provação, Te tornaste sacerdote misericordioso. Ajuda-me a acolher as minhas próprias provações como momentos de educação salutar, e como motivos de alegria, porque me unem a Ti. Ajuda-me a acolher e a entender as palavras de Pedro: «exultais de alegria, se bem que, por algum tempo, tenhais de andar aflitos por diversas provações» (1 Pe 1, 6), bem como as de Paulo: «Estou cheio de consolação e transbordo de alegria no meio de todas as nossas tribulações» (2 Cor 7, 4). Que jamais me desoriente nas dificuldades e que, fixando o olhar em Ti, encontre, para elas, uma saída inspirada no teu amor por mim e no meu amor por Ti. Amen.

    Contemplatio

    Os apóstolos tinham acabado de ter uma discussão entre eles relativamente às honras que esperavam no novo reino, que julgavam dever ser temporal. Nosso Senhor repreende-os: Deixai, diz-lhes, estas vãs pretensões aos grandes do mundo. Esses gostam dos títulos de honra. Entre vós, que o primeiro se torne o servidor dos outros.
    Depois o bom Mestre quis apoiar este ensinamento com uma lição concreta: Quem é maior, diz-lhes, aquele que é servido, ou o que serve? É o que é servido. Ora bem! Vede, eu faço-me vosso servidor. E tomou uma bacia, como um escravo, e deitou-lhe água, e lavou-lhes os pés. Que lição de humildade!
    «Vós chamais-me Mestre e Senhor, diz-lhes, e dizeis bem, porque o sou. Então, se vos lavei os pés, se me humilhei até desempenhar a vosso respeito o ofício de um escravo, Eu que sou vosso Senhor e vosso Mestre, também vós deveis então lavar os pés uns aos outros, isto é, deveis prestar-vos os serviços mais humildes...».
    Não queria com isto excluir a hierarquia, porque acrescentava: «Como meu Pai me preparou um trono, também vos preparei o vosso; e tu Pedro, rezei para que a tua fé não desfaleça e tu hás-de confirmar os teus irmãos» (Lc 22,32).
    «Sereis apóstolos, deveis mesmo assim ser humildes, porque Eu, que sou vosso Mestre, faço acto de humildade. O apóstolo não é maior do que aquele que o enviou» (Jo 13,16).
    Quais são as minhas disposições de humildade? Sou verdadeiramente o servidor dos meus irmãos pela minha caridade e pelo meu zelo? (Leão Dehon, OSP 3, p. 266s.)

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Se alguém quiser ser o primeiro, faça-se servo de todos.»(cf. Mc 9, 35).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • VII Semana - Quarta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    Categoria: Semanal VII Semana - Quarta-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    23 de Fevereiro, 2022

    Tempo Comum - Anos Pares
    VII Semana - Quarta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Tiago 4, 13-17

    Caríssimos: 13agora, escutai-me, vós dizeis: «Hoje ou amanhã iremos a tal cidade, passaremos ali um ano, faremos negócios e ganharemos bom dinheiro.» 14Vós, que nem sequer sabeis o que será a vossa vida no dia de amanhã! O que é, afinal, a vossa vida? Sois fumo que aparece por um instante e logo a seguir se desfaz! 15Em vez disso, deveis dizer: «Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo.» 16Pelo contrário, gloriais-vos das vossas prosápias: toda a vaidade deste género é má. 17Quem sabe praticar o bem e não o faz comete pecado.

    Estas palavras de Tiago dirigem-se aos ricos da comunidade, homens habituados a viajar e a fazer negócios que lhes trazem elevados lucros. Ávidos de dinheiro e de poder, julgam controlar o futuro. A sua presunção torna-os semelhantes ao fumo: tão depressa sobem como descem e se desfazem, porque são pessoas inconsistentes.
    O apóstolo sublinha a importância de voltar os olhos e os pensamentos para o Senhor. Só assim poderemos tomar decisões sábias, mesmo no que se refere ao nosso dia a dia. «Se Deus quiser», diz o nosso povo cristão, quando se refere ao futuro. Parece que os cristãos, aos quais se dirigia Tiago, não usavam esse modo de falar e, programando o futuro, como se tudo dependesse unicamente deles, apenas projectavam o que convinha aos seus interesses. Para eles, enriquecer era uma vaidade, um modo de se afirmarem sobre os outros, uma tentativa de obter direitos e privilégios. O seu pecado consistia em que, conhecendo o bem, faziam o mal.

    Evangelho: Marcos 9, 38-40

    Naquele tempo, 38João disse a Jesus: «Mestre, vimos alguém expulsar demónios em teu nome, alguém que não nos segue, e quisemos impedi-lo porque não nos segue.» 39Jesus disse-lhes: «Não o impeçais, porque não há ninguém que faça um milagre em meu nome e vá logo dizer mal de mim. 40Quem não é contra nós é por nós.

    Ao terminarmos a leitura do capítulo 9 de Marcos, podemos fazer um pequeno resumo de alguns temas: a fé dos discípulos é frágil, não é suficiente para expulsar demónios; os próprios discípulos têm a mania das grandezas, orgulhando-se diante daqueles que não pertencem ao grupo dos discípulos. Parece-lhes que só eles têm capacidade para realizar acções correspondentes aos ensinamentos de Jesus. Mas o Mestre mostra que a sua missão e os seus ensinamentos não podem ser encerrados atrás de portas ou muros. O Espírito Santo sopra onde quer. Fazer prodígios «em nome» de Jesus, é actuar com liberdade, acolhendo o amor, e em total dependência de Deus, que não exclui ninguém. Os discípulos não podem pretender um monopólio absoluto sobre Jesus. A Igreja deve estar aberta àqueles que não lhe pertencem expressamente, mas demonstram simpatia e benevolência em relação a ela. As exortações finais apresentam exactamente alguns princípios para a boa convivência comunitária.

    Meditatio

    É rico, não quem acumula muitos bens, mas quem é feliz, e quem sabe estar atento aos outros e às suas necessidades. Mas também é preciso estar atentos aos sentimentos com que damos algo aos irmãos carenciados, às motivações com que o fazemos. Quando a nossa generosidade é movida pela caridade de Cristo, sentimo-nos impelidos a novas iniciativas e a acções que nunca antes pensámos poder fazer. E pode acontecer que também nos admiremos de ver outros capazes de gestos de amor ainda maiores que os nossos.
    É então que nasce o verdadeiro sentido de comunidade, de encontro entre pessoas que, reunidas no amor oblativo, têm como dinamismo vital o Espírito Santo, que assim realiza a sua missão: «onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt 18, 29).
    O mesmo Espírito pode actuar por meio de pessoas que não pertencem à comunidade, ao nosso grupo. Jesus ensina-nos a sabedoria espiritual e a abertura do coração para enfrentarmos esses casos. João e os seus companheiros pensaram proibir a outros de fazerem o bem em nome do Senhor: «vimos alguém expulsar demónios em teu nome, alguém que não nos segue, e quisemos impedi-lo porque não nos segue» (v. 38). Também nós, cristãos do século XXI, podemos cair na tentação de não admitir que outros, que não são católicos como nós, façam o bem. Mas a Igreja assumiu, no Concílio Vaticano II, o ensinamento de Cristo, incitando-nos a alegrar-nos com todo o bem feito no mundo, ainda que não seja feito por nós (cf. GS). Não possuímos o monopólio do bem.
    Não é fácil admitir que, pessoas que não estão de acordo connosco, possam fazer o bem. Mas Deus quer que o reconheçamos e nos alegremos com isso, porque «não há ninguém que faça um milagre em meu nome e vá logo dizer mal de mim», disse Jesus (Mt 9, 39). Uma boa acção leva a outra boa acção. Por isso, não a critiquemos, ainda que não estejamos de acordo com quem a faz.
    Há que aprender a descobrir «os sinais da sua presença» (Cst. 28) também em homens que não são "dos nossos". Pode até acontecer que os que nos parecem mais afastados sejam os mais próximos do Senhor. Assim aconteceu na vida de Jesus: Nicodemos e os judeus de Jerusalém são entusiastas dos sinais que Jesus realiza. Acreditam n´Ele e reconhecem-n´O como enviado de Deus. Mas não chegam à fé perfeita. E Jesus não Se fia neles, porque sabe o que há no coração do homem (cf. Jo 2, 23-25; 3, 1-10). Pelo contrário, chegam à fé os desprezados, os cismáticos samaritanos: «Este é, na verdade, o salvador do mundo» (Jo 4, 42) e mais ainda o pagão funcionário real, que acredita à palavra de Jesus: «Vai, o teu filho está salvo. Aquele homem acreditou na palavra de Jesus e pôs-se a caminho» (Jo 4, 50). O seu filho estava verdadeiramente curado: «Acreditou ele e toda a sua família» (Jo 4, 53).

    Oratio

    Senhor, abre o meu coração para que possa receber toda a tua alegria e comunicá-la ao mundo. Perdoa-me a presunção com que, por vezes, realizo obras em teu nome. Tenho a boca, as mãos, o coração e a mente cheios de Ti, mas os meus sentimentos levam-me a procurar interesses e resultados egoístas. Não permitas que os tente justificar, porque, só Tu os podes justificar pela tua morte na cruz. Que a minha única riqueza seja ver a pobreza dos outros, para ir em sua ajuda. E que a minha pobreza seja colmatada pela riqueza que os outros têm para me dar. Amen.

    Contemplatio

    Vigiemos para contentar Nosso Senhor, para alegrar o seu Coração, para nos lembrarmos d' Ele que é nosso amigo, para o servirmos fiel e delicadamente. Vigiemos para salvar
    mos a nossa alma, à qual Nosso Senhor tanto quer. Vigiemos, se amamos Nosso Senhor, para conservarmos a sua presença na nossa alma e a nossa união com o seu divino Coração! A sua graça, a sua amizade, não são o mais precioso dos tesouros?
    Não é estranho que os homens sejam tão zelosos e tão vigilantes pelos seus interesses temporais, para satisfazerem a sua avareza ou a sua ambição, e que o sejam tão pouco para adquirirem e para conservarem o mais precioso dos tesouros, a graça, a amizade de Nosso Senhor, a sua presença na sua alma.
    Vigiai porque estais envolvidos de perigos: perigos do lado do demónio, perigos do lado das criaturas, perigos do lado das vossas paixões. Escutai S. Pedro, que tinha conhecido as graves consequências da falta de vigilância. «Meus irmãos, dizia, sede sóbrios e estai vigilantes, porque o vosso inimigo, o demónio, ronda como um leão para vos devorar. Resisti-lhe permanecendo firmes na fé (e na caridade)» (Pd 5) (Leão Dehon, OSP4, p. 496).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Quem sabe praticar o bem e não o faz comete pecado» (Tg 4, 17).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • VII Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    Categoria: Semanal VII Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    24 de Fevereiro, 2022

    Tempo Comum - Anos Pares
    VII Semana - Quinta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Tiago 5, 1-6

    1Agora vós, ó ricos, chorai em altos gritos por causa das desgraças que virão sobre vós. 2As vossas riquezas estão podres e as vossas vestes comidas pela traça. 3O vosso ouro e a vossa prata enferrujaram-se e a sua ferrugem servirá de testemunho contra vós e devorará a vossa carne como o fogo. Entesourastes, afinal, para os vossos últimos dias! 4Olhai que o salário que não pagastes aos trabalhadores que ceifaram os vossos campos está a clamar; e os clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do universo! 5Tendes vivido na terra, entregues ao luxo e aos prazeres, cevando assim os vossos apetites... para o dia da matança! 6Condenastes e destes a morte ao inocente, e Deus não vai opor-se.

    Tiago dirige agora uma invectiva contra os ricos. É a mais forte e veemente que encontramos na Bíblia (cf. Is 5, 8-10; Jer 5, 26-30; Am 8, 4-8; Miq 2, 89). É um solene aviso, ao estilo dos profetas, à sociedade em que vive, onde os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.
    O apóstolo, primeiro descreve a sorte dos ricos; depois fala da sua culpa. Para isso, retoma, com tons mais duros, o que já antes dissera (cf. Tg 2, 6s.) sobre a relação pobres e ricos. Fá-lo com verbos fortemente expressivos. Os ricos hão-de chorar compulsivamente, e com brados semelhantes ao ulular das feras porque as suas riquezas estão podres, as suas vestes comidas pela traça e o seu ouro e a sua prata enferrujados. As suas garantias de vida estão destruídas e, pior ainda, pesa sobre eles o juízo de Deus (v. 3b). O salário que não pagaram aos trabalhadores clama contra eles aos ouvidos do Senhor (v. 5). A vida frívola tornou-os semelhantes aos animais que engordam para a matança.
    O pobre, pelo contrário, é amado por Deus, que não afasta dele o olhar e que está sempre atento aos seus clamores.

    Evangelho: Marcos 9, 41-50

    Naquele tempo, 41disse Jesus aos seus discípulos: «quem for que vos der a beber um copo de água por serdes de Cristo, em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa.»
    42«E se alguém escandalizar um destes pequeninos que crêem em mim, melhor seria para ele atarem-lhe ao pescoço uma dessas mós que são giradas pelos jumentos, e lançarem-no ao mar. 43Se a tua mão é para ti ocasião de queda, corta-a; mais vale entrares mutilado na vida, do que, com as duas mãos, ires para a Geena, para o fogo que não se apaga, 44onde o verme não morre e o fogo não se apaga. 45Se o teu pé é para ti ocasião de queda, corta-o; mais vale entrares coxo na vida, do que, com os dois pés, seres lançado à Geena, 46onde o verme não morre e o fogo não se apaga. 47E se um dos teus olhos é para ti ocasião de queda, arranca-o; mais vale entrares com um só no Reino de Deus, do que, com os dois olhos, seres lançado à Geena, 48onde o verme não morre e o fogo não se apaga. 49Todos serão salgados com fogo. 50O sal é coisa boa; mas, se o sal ficar insosso, com que haveis de o temperar? Tende sal em vós mesmos e vivei em paz uns com os outros.»

    Jesus continua a sua caminhada para Jerusalém e chega a Cafarnaúm. Marcos insere aqui uma colecção de ensinamentos sobre o discipulado, aparentemente desligados entre si. Mas neles encontramos algumas palavras-chave que os ligam uns aos outros: a expressão «em nome» de Cristo, ou «por serdes de Cristo» (v. 41), já fora anunciada no v. 37; o termo «escândalo» (v. 42) antecipa a secção seguinte (vv. 43-48); a sentença conclusiva do «sal» (v. 50) apela para o versículo anterior.
    No texto que escutamos, Jesus começa a tratar do acolhimento, apontando alguns gestos simples, feitos em seu nome, porque é Ele que dá significado às acções humanas, e lhes confere valor de eternidade (v. 41). Depois, fala do escândalo: quem põe obstáculos àqueles que ainda são frágeis na fé, merece uma pena severa. Nos vv. 43-47, Marcos adopta a linguagem paradoxal para indicar a radicalidade e a dureza do juízo: é melhor sacrificar os órgãos vitais do que aderir ao pecado e cair na condenação eterna.
    As imagens do sal e do fogo servem para retomar o tema do sacrifício de si mesmo em vista da preservação ou da purificação do pecado. A sabedoria de Cristo deve dar sabor a todas as nossas acções; o fogo do amor deve arder sempre para pôr a nossa vida ao serviço da comunhão. É preciso dispor-se a perder... para tudo ganhar: «quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, há-de salvá-la» (Mc 8, 35).

    Meditatio

    Apoiados na Palavra recebida, os Profetas interpelam-nos e fazem-nos erguer dos sofás do nosso egoísmo. Deus suscita-os em todas as épocas para erguerem a chama da esperança na escuridão circundante, denunciar as injustiças, e ajudar os pobres e erguer o seu grito para os céus.
    Também nós, cristãos e consagrados, precisamos de ser incomodados e acordados para olharmos a realidade, não com os nossos olhos, mas com os olhos de Deus.
    Os desafios que, no nosso tempo, nos são postos pela globalização estão à vista de todos. Também o apóstolo Tiago via, no seu tempo, o desequilíbrio entre ricos e pobres, e se dava conta do pecado de uns e da grandeza dos outros. Observando a realidade, em perspectiva divina, vemos o que é invisível à simples lógica humana.
    Também cada um de nós é chamado a ser profeta no nosso tempo. Há que devorar a Palavra, há que deixar-se queimar por ela, para que os nossos gestos, mesmo os mais simples, sejam realizados em nome de Deus, e deixem a sua marca. Possuídos pela Palavra, seremos verdadeiros Profetas, e não poremos obstáculos à verdade.
    No evangelho, Jesus exige que resistamos às tentações e renunciemos decididamente às ocasiões de pecado. A sua linguagem, como geralmente acontece, é fortemente expressiva: «Se a tua mão é para ti ocasião de queda, corta-a... Se o teu pé é para ti ocasião de queda, corta-o... se um dos teus olhos é para ti ocasião de queda, arranca-o...» (cf. vv 43-47). É precisa coragem heróica para corresponder a este mandato do Senhor!
    A palavra de Cristo faz-nos tomar consciência da nossa falta de coerência quando é preciso renunciar a pequenas coisas para progredirmos espiritualmente. A palavra de Cristo é semelhante ao bisturi de um cirurgião. O cirurgião usa o bisturi para salvar a vida, para curar o doente. A palavra de Deus, por vezes é mais cortante que um bisturi, quando actua em nós, para nos salvar a vida, para nos curar. E «mais vale entrares mutilado na vida, do que, com as duas mãos, ires para a Geena... mais vale entrares coxo na vida, do que, com os dois pés, seres lançado à Geena...mais vale entrares
    com um só olho no Reino de Deus, do que, com os dois olhos, seres lançado à Geena...» (cf. vv. 45.48). A intenção de Jesus é positiva: quer dar-nos a vida em plenitude. Cada um de nós, inspirado por esta linguagem metafórica de Jesus, deve discernir o que deve efectivamente cortar para entrar na Vida. Para um, será uma certa relação ambígua, para outro será um determinado espectáculo ou leitura, para outro ainda, um certo modo de fazer carreira na política, de aumentar o volume de negócios e de rendimentos... A carta de Tiago pode ajudar ao discernimento.
    «O Padre Dehon espera que os seus religiosos sejam profetas do amor». A nossa "vida religiosa" deve ser «um testemunho profético» (Cst 39). Ser "profetas" é, para nós, um "carisma" em vista da missão salvífica do Povo de Deus (cf. Cst 27).
    O "profeta", em sentido bíblico, é aquele que é chamado por Deus a falar "em nome de Deus" diante dos homens e a "falar em alta voz". Geralmente o profeta do Antigo Testamento é alguém que tem uma profunda experiência pessoal de Deus. Por isso, não só anuncia em alta voz a palavra de Deus, mas testemunha com a sua vida a vontade de Deus e como deve ser a vida do homem segundo Deus.
    Para nós, Oblatos-Sacerdotes do Coração de Jesus, o confronto deve acontecer especificamente com a "oblação reparadora de Cristo ao Pai pelos homens" (Cst 6). Sabendo como é exigente o carisma da oblação, é espontâneo o confronto com o Coração trespassado de Cristo e com todas as realidades expressas pelo mistério da transfixão do Seu Lado (Cst 21); é espontâneo o apelo para as profundas exigências da reparação (Cst 23) e da imolação (Cst 24), para as exigências da Eucaristia (Cst nn. 80-84) que devem tornar a nossa vida, tal como a do Pe. Dehon, "uma missa permanente" (Cst 5), "para Glória e Alegria de Deus" (Cst 25).

    Oratio

    Senhor, queremos, hoje, pedir-te a abundância do teu Espírito, porque estamos confusos, e já não sabemos distinguir o bem do mal. O pecado acumulou-se em nós, e tornou-se a nossa riqueza, o tesouro guardado nos cofres cerrados dos nossos corações. Que o teu Espírito, Senhor, volte a arder em nós e nos reconduza ao essencial, ao que verdadeiramente tem valor. Que Ele nos dê um olhar límpido, capaz de ver a criação e as criaturas; que nos dê braços abertos capazes de acolher os irmãos e partilhar com eles o que somos e temos; que nos dê pés seguros capazes de percorrer os caminhos da esperança. Então, seremos teus profetas, arautos da vida nova, que tem a marca e a sabedoria da tua cruz. Amen.

    Contemplatio

    Nosso Senhor, na sua bondade, quis acautelar-nos e premunir-nos contra a danação... Ora exprime simplesmente a danação, ora chama a nossa atenção para a pena do fogo e para a eternidade do castigo.
    Percorramos estes textos... Nosso Senhor ensina-nos primeiro que podemos perder a nossa alma, se quisermos satisfazer as nossas inclinações naturais e as nossas paixões. A condição da salvação é vencer a natureza, imitar o Salvador e levar a cruz atrás d' Ele (Mt 16).
    E se perdermos a nossa alma, quais serão então as consequências? Nosso Senhor di-no-lo em diversos momentos... «Povos do Oriente e do Ocidente hão-de converter-se, diz-nos, e entrarão no reino de Deus, enquanto que os filhos de Israel serão lançados nas trevas exteriores, onde reinam os choros e os rangeres de dentes» (Mt 7) ... Os condenados são submetidos ao suplício do fogo. O tormento deste suplício guarda em si algum mistério, mas Nosso Senhor chama-o sempre o suplício do fogo... Várias vezes, deu ao inferno, ou lugar dos condenados, o nome de Gehenna... Ora aqui está uma boa figura do inferno, um vale sinistro onde o fogo queima sempre. Ora Nosso Senhor tanto o chama simplesmente Gehenna, ou a Gehenna do fogo.
    «Mais vale, diz, arrancar o membro que causa escândalo, do que ver-se lançado inteiro na Gehenna» (Mt 5). - Noutra vez, diz: na Gehenna do fogo (Mt 18; Mc 9, 44).
    «Escribas e fariseus hipócritas, dizia ainda, fechais aos homens que vos escutam o reino dos céus; fazeis deles filhos da Gehenna... Como é que haveis vós mesmos de escapar ao juízo que condena à Gehenna?».
    Numa outra vez tinha dito: «Do mesmo modo que o cultivador queima as ervas más depois da colheita, assim o Filho do homem há-de enviar os seus anjos para atirar os escandalosos para o braseiro: para a fornalha ardente» (Mt 3, 42) (Leão Dehon, OSP 4, p. 510s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    Quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, há-de salvá-la» (Mc
    8, 35).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • VII Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    Categoria: Semanal VII Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    25 de Fevereiro, 2022

    Tempo Comum - Anos Pares
    VII Semana - Sexta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Tiago 5, 9-12

    Irmãos: 9Não vos queixeis uns dos outros, irmãos, para não serdes julgados.Olhai que o Juiz já está à porta.
    10Irmãos, tomai como modelos de sacrifício e de paciência os profetas, que falaram em nome do Senhor. 11Vede como nós proclamamos bem-aventurados aqueles que sofreram com paciência; ouvistes falar da paciência de Job e vistes o resultado que o Senhor lhe concedeu; porque o Senhor é cheio de misericórdia e compassivo. 12Mas, sobretudo, meus irmãos, não jureis, nem pelo Céu, nem pela Terra, nem façais qualquer outro juramento. Que o vosso «sim» seja sim e que o vosso "não" seja não, para não incorrerdes em condenação.

    Tiago volta-se finalmente para toda a comunidade exortando-os a viver o tempo presente de modo positivo e confiante. No meio das injustiças e atropelos, devem erguer os olhos para o Senhor que há-de melhorar a sua situação, quando vier como juiz. O apóstolo recorda dois exemplos do Antigo Testamento: os profetas e Job. Deus não os desiludiu, nem nos desiludirá a nós, porque «é cheio de misericórdia e compassivo» (v. 11). Há pois que permanecer fiéis à Palavra que devemos anunciar, e perseverar na fé. Finalmente, para que a esperança da parusia seja um tempo de serenidade e de edificação mútua, Tiago convida, não só a evitar a murmuração, mas também os juramentos (cf Mt 5, 33-37). A nossa palavra há-de ser garantida, não invocando o nome de Deus, mas vivendo com seriedade, autenticidade e transparência.

    Evangelho: Marcos 10, 1-12

    Naquele tempo, 1Jesus saindo dali, foi para a região da Judeia, para além do Jordão. As multidões agruparam-se outra vez à volta dele, e outra vez as ensinava, como era seu costume. 2Aproximaram-se uns fariseus e perguntaram-lhe, para o experimentar, se era lícito ao marido divorciar-se da mulher. 3Ele respondeu-lhes: «Que vos ordenou Moisés?» 4Disseram: «Moisés mandou escrever um documento de repúdio e divorciar-se dela.» 5Jesus retorquiu: «Devido à dureza do vosso coração é que ele vos deixou esse preceito. 6Mas, desde o princípio da criação, Deus fê-los homem e mulher. 7Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher, 8e serão os dois um só. Portanto, já não são dois, mas um só. 9Pois bem, o que Deus uniu não o separe o homem.» 10De regresso a casa, de novo os discípulos o interrogaram acerca disto. 11Jesus disse: «Quem se divorciar da sua mulher e casar com outra, comete adultério contra a primeira. 12E se a mulher se divorciar do seu marido e casar com outro, comete adultério.»

    A comunidade messiânica deve ultrapassar a moral exclusivamente legalista, característica dos fariseus. Eles, com a pergunta sobre o divórcio, querem «experimentá-lo», pô-lo em apuros. O divórcio hebraico era regulado por Dt 24, 1-4, cujo propósito inicial era tutelar a mulher e garantir-lhe uma certa liberdade. Mas as escolas rabínicas discutiam os motivos de divórcio. As mais liberais achavam que bastava a mulher deixar queimar a comida, ou o marido encontrar outra mais bonita, para haver divórcio. Outras achavam que só o adultério justificava o divórcio. De qualquer modo, o divórcio era concedido pela legislação em vigor com muita facilidade, o que naturalmente acabava por prejudicar a mulher.
    Como é seu costume, Jesus responde à questão com outra questão, obrigando os seus interlocutores a aprofundar o sentido da sua objecção. No juízo moral, há que distinguir o que é regra humana, por muito aceitável que ela seja, e a perspectiva de Deus. As prescrições mosaicas sobre o divórcio reflectem a mediocridade humana e não o projecto primordial de Deus sobre a união do homem e da mulher. A moral farisaica fundamentava-se na não confessada inferioridade da mulher, que era considerada propriedade do homem. Para Jesus, à luz do Génesis, a união do homem e da mulher é a meta de uma plenitude humana. Não é o homem que toma posse da mulher, nem o contrário, mas, ao casarem, ambos se enriquecem mutuamente. A união matrimonial procede de Deus e é um verdadeiro «sacrilégio» contrapor-lhe um projecto de separação e divergência.
    O homem e a mulher levam em si a imagem de Deus-Amor e, ainda que na diferença, são chamados a ser uma só coisa no matrimónio (v. 8). A ninguém é permitido quebrar essa união (v. 9).

    Meditatio

    O apóstolo Tiago convida-nos a viver com transparência, sem duplicidade nem ambiguidade, de tal modo que as nossas acções sejam credíveis por si mesmas. E lembra-nos que há um passado de que podemos tirar lições úteis para o presente, e que o futuro não é uma realidade nebulosa, longínqua, mas algo que já se constrói hoje e que, de algum modo, já se pode saborear.
    A história humana desenrola-se entre dois grandes momentos: o da criação e o da vinda gloriosa de Cristo. No princípio e no fim dos tempos, encontramos o sentido profundo da nossa vida: Deus, que nos chama e nos quer em comunhão com Ele. O tempo presente, por influência das sugestões mediáticas dominantes, pode parecer-nos o hoje absoluto, e fazer-nos cair na tentação de cortar com o passado, como se não fosse nosso, e de não nos projectarmos para um futuro possível, fechando-nos em nós mesmos. Mas a Palavra de Deus diz-nos que o momento em que vivemos é tempo de paciência, é tempo de espera activa e confiante do Senhor que vem. A nossa vida é também tempo para darmos corpo e história à «imagem e semelhança» divinas impressas em nós no acto criador, pelo qual cada um realiza o projecto originário de comunhão na diferença e na harmonia do amor.
    No tempo, somos chamados a palpitar da própria vida de Deus Trino e Uno. O homem e a mulher, unidos pelo sacramento do matrimónio, são «sacramento», sinal e actuação dessa vida, dentro dos limites da linguagem humana. Por isso é que o matrimónio é indissolúvel, e só por causa da dureza do coração humano é que Moisés permitiu que se passe o documento de repúdio. Os próprios discípulos acharem excessivamente dura a posição de Jesus em relação ao divórcio: «Se é essa a situação do homem perante a mulher, não é conveniente casar-se!» (Mt 19, 10). Mas é d´Ele que vem a força para amar com paciência e misericórdia. «Bem-aventurados aqueles que sofreram com paciência» (Tg 5, 11). E esta bem-aventurança destina-se, não só aos que são fiéis ao matrimónio, mas a todas as relações interpessoais.
    Parece-nos lógico que os outros tenham paci&ec
    irc;ncia connosco. Mas temos alguma dificuldade em aceitar ter paciência com os outros: «Não vos lamenteis uns dos outros», exorta-nos o Apóstolo (Tg 5, 9). Deus não se lamenta de nós, «porque é rico em misericórdia e compaixão» (cf. Ef 2, 4).
    A paciência, a misericórdia, a tolerância são necessárias em todo o tipo de relações interpessoais, particularmente no matrimónio, mas também na vida comunitária. Os nossos irmãos de comunidade, particularmente os idosos, os doentes, os feridos pelas agruras da vida, precisam de muita compreensão, amor e paciência. A paciência é um fruto do Espírito: é aceitação, compreensão, misericórdia, perdão. Realize-se em nós e nestes nossos irmãos feridos a profecia de Ezequiel: "Dar-vos-ei um coração novo, infundirei em vós um espírito novo; retirarei o vosso coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne" (36.26). A caridade deve ser uma esperança activa daquilo que os outros podem vir a ser com a ajuda do nosso apoio fraterno (Cst 34).

    Oratio

    Bendito és Tu, Senhor, que me lembras que hás-de vir julgar os vivos e os mortos. Ouvindo-te, sou levado a mudar a minha relação com a vida e com os outros. Não existo por acaso, nem avanço na vida sem rumo: Tu és a minha meta, a meta dos meus irmãos. Só Tu dás sentido e dás sabor às relações comigo mesmo e com os outros.
    Fortalece a minha vontade sempre frágil, para que conheça o teu projecto original para cada homem e para cada mulher, esse projecto de amor e de alegria que a tua Palavra me revela e que, em Jesus, assumiu carne humana. Que eu saiba dar o justo valor ao que é humano, e colher no meu tempo fugaz fragmentos duradouros, reflexos de eternidade. Amen.

    Contemplatio

    Nosso Senhor não veio destruir a lei; explicou, desenvolveu a lei moral com mais clareza, mais extensão; deu-lhe o sentido verdadeiro; purificou-a das falsas interpretações farisaicas; acrescentou-lhe o que faltava, e elevou-a a um ideal de perfeição que nunca tivera até então, e que deve conservar até ao fim dos séculos.
    Deus tinha-nos dado a lei sumariamente no Sinai: resumia-se em dois preceitos: amarás o teu Deus de todo o coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e amarás o teu próximo como a ti mesmo.
    Era necessária a delicadeza do Coração de Jesus para bem compreender toda a plenitude do mandamento divino e todo o seu alcance, e para o explicar sem mistura de vistas terrestres.
    Só Ele tinha poder para acrescentar ao preceito a força do exemplo no cumprimento perfeito de toda a lei, de maneira a poder dizer: dei-vos o exemplo, para que façais como me vistes fazer.
    Nosso Senhor restabeleceu-a em vários pontos.
    O decálogo diz: «Não matarás». Os fariseus tomavam isto à letra e desculpavam as outras violências. Nosso Senhor recorda-nos que o preceito interdita toda a cólera, toda a injúria, mesmo todo o sentimento interior de hostilidade contra o próximo. Recomenda o suporte mútuo e a pronta reconciliação depois da ofensa.
    O decálogo proíbe o adultério. Ao contrário dos Fariseus, Nosso Senhor diz-nos que este preceito interdita até os mínimos desejos, olhares e pensamentos maus, até ao ponto que mais valeria perder um olho ou uma mão, se forem para nós ocasião de escândalo.
    A lei de Moisés autoriza o divórcio em certos casos. Nosso Senhor diz-nos que isso era uma tolerância divina por causa da fraqueza do povo judeu, mas que devia cessar na lei nova, e restabeleceu a indissolubilidade do matrimónio (Leão Dehon, OSP3, p. 27s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Bem-aventurados aqueles que sofreram com paciência» (Tg 5, 11).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • VIII Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    Categoria: Semanal VIII Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    28 de Fevereiro, 2022

    Tempo Comum - Anos Pares

    VIII Semana - Segunda-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 1 Pedro 1, 3-9

    3Bendito seja Deus, Pai do Nosso Senhor Jesus Cristo, que na sua grande misericórdia nos gerou de novo - através da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos - para uma esperança viva, 4para uma herança incorruptível, imaculada e indefectível, reservada no Céu para vós, 5a quem o poder de Deus guarda, pela fé, até alcançardes a salvação que está pronta para se manifestar no momento final. 6É por isso que exultais de alegria, se bem que, por algum tempo, tenhais de andar aflitos por diversas provações; 7deste modo, a qualidade genuína da vossa fé - muito mais preciosa do que o ouro perecível, por certo também provado pelo fogo - será achada digna de louvor, de glória e de honra, na altura da manifestação de Jesus Cristo. 8Sem o terdes visto, vós o amais; sem o ver ainda, credes nele e vos alegrais com uma alegria indescritível e irradiante, 9alcançando assim a meta da vossa fé: a salvação das almas.

    A Primeira Carta de Pedro começa com um hino de louvor a Deus pela obra da regeneração da humanidade realizada na ressurreição de Cristo. Este hino é também uma espécie de credo abreviado, que dava ânimo e optimismo aos cristãos, no seu esforço de fidelidade, quando enfrentavam as primeiras dificuldades. Deus precedera-os nesse esforço, - tinha-os regenerado pela ressurreição de Cristo de entre os mortos (cf. v. 4) - estava com eles, e tinha-lhes reservada nos céus uma herança incorruptível (cf. v. 4). A regeneração para uma «esperança viva», realizada por Deus, permitia-lhes perseverar no bem (cf. 4, 119) e dar um bom testemunho de Cristo, tanto na alegria como na dor.
    A fé introduz-nos no domínio de Deus omnipotente, que protege e apoia na batalha os que estão encaminhados para a salvação, para a manifestação do Senhor da glória (1, 9). A linha de continuidade e a distinção entre a regeneração já acontecida e já presente como herança em Cristo glorioso, e a manifestação que acontecerá quando Ele se manifestar, estrutura o tempo da fé. Este tempo caracteriza-se pela não-visão, entretecida de esperança na caridade. Amar e acreditar sem ver é um caminho que leva à purificação da fé e do amor, a nível pessoal e comunitário.

    Evangelho: Marcos 10, 17-27

    Naquele tempo, 17Jesus ia Jesus pôr-se a caminho, quando um homem correu para Ele e se ajoelhou, perguntando: «Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?» 18Jesus disse: «Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão um só: Deus. 19Sabes os mandamentos: Não mates, não cometas adultério, não roubes, não levantes falso testemunho, não defraudes, honra teu pai e tua mãe.» 20Ele respondeu: «Mestre, tenho cumprido tudo isso desde a minha juventude.» 21Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele e disse: «Falta-te apenas uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.» 22Mas, ao ouvir tais palavras, ficou de semblante anuviado e retirou-se pesaroso, pois tinha muitos bens. 23Olhando em volta, Jesus disse aos discípulos: «Quão difícil é entrarem no Reino de Deus os que têm riquezas!» 24Os discípulos ficaram espantados com as suas palavras. Mas Jesus prosseguiu: «Filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! 25É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus.» 26Eles admiraram-se ainda mais e diziam uns aos outros: «Quem pode, então, salvar-se?» 27Fitando neles o olhar, Jesus disse-lhes: «Aos homens é impossível, mas a Deus não; pois a Deus tudo é possível.»

    O diálogo entre Jesus e o homem rico é referido pelos três sinópticos. Mas a versão de Marcos apresenta alguns pormenores interessantes: o homem ajoelha-se diante de Jesus (v. 17); Jesus verifica que se trata de um homem religiosamente sincero e, por isso, sente afeição por ele e fala-lhe (v. 21); tendo ouvido as palavras de Jesus, o homem ficou de semblante anuviado e retirou-se pesaroso (v. 22).
    Jesus está a caminho de Jerusalém. A pergunta deste israelita praticante é séria. Mas Jesus apresenta-lhe uma proposta mais vasta: despojar-se dos seus bens e aderir à comunidade dos discípulos. Assim daria prova da sinceridade com que buscava a vida eterna. Mas o homem, que «tinha muitos bens» (v. 22), não é capaz de dar essa prova. Jesus aproveita a ocasião para sublinhar que as riquezas são um grave obstáculo para entrar no reino de Deus, porque impedem de centrar o coração e os afectos em Deus, de tender para Ele, que é o fim de todos e cada um dos mandamentos e prescrições. Os discípulos ficam espantados, pois sabem que Jesus não quer uma comunidade de esfarrapados Mas o Senhor repete a afirmação servindo-se da riqueza metafórica oriental: «É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus» (v. 25). «Quem pode, então, salvar-se?» (v. 26), perguntam os discípulos. Então, Jesus acrescenta: «Aos homens é impossível, mas a Deus não; pois a Deus tudo é possível» (v. 27). É a «teologia da gratuidade», característica do segundo e evangelho, e em consonância com o pensamento paulino (cf. Rm 11, 6; Ef 2, 5; 1 Cor 15, 10; etc.). Jesus coloca-se numa posição oposta ao «automatismo farisaico», que supunha que o cumprimento de certas regras de pobreza assegurava a vida eterna. Mas nada deve ser absolutizado. Só Deus é absoluto.

    Meditatio

    No começa da sua primeira Carta, Pedro fala-nos da vida celeste. Ocupados e preocupados com tantas coisas, nem sempre temos presente essa «esperança viva» que Deus acendeu em nós pela ressurreição do seu Filho Jesus Cristo. O Apóstolo exulta, e não encontra adjectivos suficientes para qualificar essa «herança incorruptível... reservada no Céu para nós» (v. 4).
    No evangelho, Jesus promete esse tesouro ao homem rico, que deseja alcançá-lo: «vai, vende tudo o que tens...; depois, vem e segue-me» (v. 21). Mas este homem não estava animado pela «esperança viva», nem disposto a obedecer a Jesus Cristo e receber a aspersão do seu sangue (cf. 1 Pe 1, 2). Confiava mais em si mesmo, no seu voluntarismo, no seu próprio projecto de santidade, do que no dom gratuito da regeneração realizada pela ressurreição do Senhor. Por isso, não teve coragem para deixar tudo e seguir Jesus. Retirou-se «de semblante anuviado» (v. 22). Jesus, a quem o Pai quer que obedeçamos, é Aquele que nos alimenta com o seu sangue e nos pede que O sigamos para que se cumpra o desígnio de Deus. Esse desígnio, realizado na pessoa de Jesus, avan&ccedil
    ;a agora no seu Corpo Místico, que é a igreja peregrina na terra, até ao seu regresso glorioso, no fim dos tempos. Seguir a Jesus é caminhar na comunidade de salvação que o seu Espírito vivifica.
    Para ser verdadeiro discípulo, preciso de discernir o Caminho por onde avança o povo de Deus, obedecer àqueles que foram designados para autenticar a rota e as suas exigências concretas, trabalhar e colaborar no projecto comum, pôr ao serviço de todos os dons e carismas recebidos. Ninguém vive para si mesmo e ninguém morre para si mesmo. Ser discípulo implica fé em Cristo, o «pastor» invisível do rebanho (1 Pe 5, 4), e docilidade para caminhar com Ele. Obedecer é alimentar-se do seu sangue, que recebemos na Igreja, e perseverar na partilha da missão comum. A única riqueza do crente é Jesus.
    As nossas Constituições lembram-nos Cristo que Se fez pobre, para nos enriquecer a todos com a sua pobreza: «Conheceis a generosidade de N. S. Jesus Cristo: que, sendo rico, Se fez pobre por vós, para vos enriquecer pela sua pobreza» (2 Cor 8,9). Cristo convida-nos à bem-aventurança dos pobres, no abandono filial ao Pai (cf. Mt 5,3). Recordaremos o seu insistente convite: «Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres; depois vem e segue-Me» (Mt 19,21)» (n. 44). A pobreza de Cristo foi uma "graça" ("karis") para nós (cf. 2 Cor 8, 9); também nós havemos de nos tornar uma «graça» para Deus e para os irmãos: uma «graça... em favor dos santos» (cf. 2 Cor 8, 2-4).

    Oratio

    Senhor, hoje quero pedir-te a graça de procurar a esperança viva que me ofereceste na tua Ressurreição. Que essa esperança viva me dê forças para ultrapassar as dificuldades, para me desapegar alegremente de tudo quanto me impede ou dificulta caminhar para a herança incorruptível, imaculada e indefectível que me reservas no Céu. Dá-me, sobretudo, a graça de me desapegar de mim mesmo: dos meus pensamentos, dos meus projectos, dos meus desejos para assumir os teus. Então serei repleto da alegria indizível e gloriosa de que fala o teu Apóstolo Pedro, essa alegria que vem de Ti, meu bom Jesus, fonte viva de felicidade eterna. Amen.

    Contemplatio

    Desde o sermão da montanha, Nosso Senhor tinha indicado os conselhos de perfeição: «Há, dizia, um caminho estreito, mas são raros os que o encontram». Propunha já a pobreza voluntária: «Não acumuleis tesouros sobre a terra, onde a traça e os vermes os corroem, onde os ladrões escavam e roubam. Vendei o que tendes e fazei esmolas. Preparai tesouros no céu... Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração» (Mt 6).
    Depois vem a aplicação. Um jovem de nobre família vem lançar-se aos pés de Jesus, perguntando-lhe qual é o melhor caminho a seguir. O Coração de Jesus é tocado, observa com afecto o jovem, ama-o, propõe-lhe os conselhos de perfeição. É uma vocação: «vai, diz-lhe, vende o que tens, dá-o aos pobres, e vem comigo. Que graça insigne! Ser chamado por Jesus a viver com ele, abandonando-se à sua providência!
    «Mas ele, ouvindo aquilo, afligido com esta palavra foi-se embora triste, porque era muito rico. E Jesus, vendo-o triste, olhou à sua volta e disse aos seus discípulos: Ah! Como é difícil àqueles que têm grandes bens entrar no reino dos céus!» - Ficou triste, porque era convidado a caminhar no desprezo das coisas temporais, a seguir mais de perto, na pobreza, o seu Mestre pobre. A via real da cruz abre-se diante dele, mas falta-lhe a coragem. As riquezas têm tanto poder sobre o coração humano! Jesus viu-o ir-se embora e ficou triste também; como este olhar de Jesus devia ser pungente! Mas este jovem não se voltou para trás, não olhou para Jesus, teria sido tocado. Ter-se-ia tornado um discípulo bem amado, um discípulo do Coração de Jesus, como S. João. Este jovem tem um coração puro e bom, mas sem coragem, porque não está desapegado.
    Jesus suspirou e disse: «Ah! Como é difícil aos ricos entrar no reino dos céus!»
    Pedro estava lá com os outros. Tinha seguido tudo com os olhos. Experimentou uma alegria nova por ter deixado a sua barca e as suas redes: «Nós, Senhor, diz, deixámos tudo por vós, dar-nos-eis, não é, este reino dos céus, e o que será?»
    Nós deixámos tudo! Este tudo é pouca coisa: um pouco de fortuna? Mas o pão não nos faltará, e teremos menos cuidados; - a liberdade? Mas ela é tantas vezes perigosa e funesta; - o mundo? É tão vão, tão enganador, tão cheio de injustiças; - a amizade? É muitas vezes tão efémera; - os laços de família? São tão cedo rompidos pela morte! - Ah! Deixemos tudo, de coração ou na realidade, por Jesus, para ser tudo para Ele, ao seu serviço, ao seu amor, ao seu divino Coração. Senhor, eis-me aqui, quero deixar tudo por vós (Leão Dehon, OSP4, p. 105s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Bendito seja Deus que nos regenerou para uma esperança viva» (1 Pe 1, 3).

    | Fernando Fonseca, scj |

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