Print Friendly, PDF & Email

A Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus (dehonianos) tem, desde ontem, mais dois padres naturais da Madeira. Um é o Pe. João Nélio Pereira que nesta entrevista refere-se a diversos aspectos da sua caminhada vocacional.

— Como surgiu a vocação sacerdotal na sua vida?
— A vocação sacerdotal não é uma profissão, nem uma recompensa de Deus pelos nossos feitos grandiosos, mas é, antes de mais, um chamamento que ele faz a algumas pessoas, para que o sigam mais de perto e o sirvam na pessoa dos mais pobres. Esse chamamento pode dar-se de muitos modos, comigo deu-se de uma forma muito discreta, sem grandes manifestações da parte de Deus.
Desde muito cedo, a vocação sacerdotal foi para mim alvo de uma grande admiração. O meu estilo sereno e calmo fazia com que as pessoas, muitas vezes, dissessem que eu ainda poderia dar um bom padre, mas eu não acreditava que isso pudesse ser possível, porque era preciso estudar muito, de qualquer modo fiquei á espera do chamamento de Deus.
Quando eu andava no 5.º ano, passou um jovem religioso pela minha escola, estava a preparar-se para ser padre, deu um testemunho muito bonito e, no fim deu-nos uns papéis que tinham várias perguntas entre as quais perguntava o que queríamos ser no futuro. Era a minha grande oportunidade de manifestar aquele desejo antigo e então respondi que queria ser padre.
Depois de ter entregue a minha folha, fiquei com medo das consequências da minha resposta, não imaginava o que podia acontecer. Passadas algumas semanas chegou à minha casa uma carta com o meu nome. Era um convite para ir ao Seminário e eu não hesitei nem um segundo. Falei com os meus pais e eles deixaram-me ir. Foi uma experiência única que me ajudou a descobrir e lutar por esta vocação. Mais tarde acabei por entrar para o Seminário, certo de que Cristo me chamava para ser sacerdote do Coração de Jesus, e hoje cá estou para continuar a responder a esse chamamento.

Apoio incondicional familiar

— Que importância teve a sua família nesta opção?
— Desde o primeiro momento, em que eu decidi ir ao Seminário senti um apoio incondicional da minha família. Eu fui criado numa ambiente de forte tradição cristã, frequentava a catequese e tinha mesmo gosto em participar e aprender as histórias interessantes das personagens bíblicas. Todos estes aspectos constituíram, desde logo uma grande vantagem para o acolhimento do chamamento de Deus; quando uma semente cai num terreno que já está minimamente preparado para o acolher, tem muito mais probabilidades de nascer e se desenvolver, foi assim que aconteceu comigo.
A minha família é numerosa (3 irmãos e três irmãs), um dos meus irmãos já era religioso da Ordem dos Irmãos de S. João de Deus, penso que este aspecto terá também tido uma grande influência na minha decisão de entrar para o Seminário.

— Com que apoios contou nesta caminhada?
Nunca me senti só ao longo deste anos, sempre senti um grande apoio da minha família que me dava a liberdade de escolher o meu estilo de vida. Hoje, sinto que esse apoio que eu recebi, dos meus familiares, da Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus, dos meus colegas e dos benfeitores que me foram ajudando na minha caminhada, foi fundamental para que eu tivesse chegado ao dia da Ordenação Sacerdotal com o mesmo desejo de me consagrar a Deus que eu tinha quando deu o primeiro passo da caminhada.

A razão de uma escolha

— Porque escolheu os dehonianos?
— Quando eu tive o primeiro contacto com a Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus, ainda não tinha bem a noção da sua espiritualidade, nem dos campos de trabalho, onde ela desenvolve o seu apostolado, digamos que isto foi uma descoberta progressiva que eu fui fazendo ao longo dos últimos 14 anos, mas houve um factor que para mim foi decisivo. Desde o início, que me fez ficar nesta congregação e que ainda hoje mexe muito comigo: as missões.
Desde as primeiras vezes que fui ao Seminário, comecei a alimentar esta vocação missionária, através do testemunho de missionários que passavam pelo Colégio Missionário e contavam as suas experiências e a maneira como ajudavam as pessoas nessas terras longínquas. Isso sempre me marcou profundamente, e deixou em mim o desejo de um dia ser, também eu, missionário.
Depois de eu ter feito o segundo ano do curso de teologia na Universidade Católica, em Lisboa, interrompi os estudos durante dois anos para fazer o chamado “estágio de vida religiosa”. Era o momento ideal para realizar o desejo de ser missionário. Escrevi uma carta ao meu Superior Provincial a pedir para ir para as Missões e a minha alegria foi muito grande quando a resposta chegou: estava destinado às missões de Madagáscar.
Passei lá dois anos inesquecíveis, onde tive de aprender uma nova língua, uma nova cultura, uma nova forma de pensar, tudo isto para estar mais perto daqueles a quem fui enviado, para os compreender e os amar na sua simplicidade.

Presença em Madagáscar

— E como foi caracterizada a sua passagem por Madagáscar?
— Contactei de perto com as necessidades das pessoas a nível espiritual, a nível da saúde, da educação, de infra-estruturas. No meio de tantas necessidades, o pouco que eu pude fazer por eles foi motivo de uma grande alegria para eles e para mim, porque, como diz a Sagrada Escritura, “…há mais alegria em dar, do que em receber”.
Se a espiritualidade dos dehonianos assenta na disponibilidade da própria vida para o serviço do Reino de Deus, o trabalho pode ser variado: Seminários, paróquias, obras sociais, Missões, educação. Foi também este espírito de disponibilidade e de entrega a Deus que me fez entrar nesta congregação para servi-lo na pessoa daqueles que mais precisam de ajuda.

— Considera que a Madeira é uma terra de vocações?
— Já faz praticamente doze anos que eu não vivo, na Madeira. Quando eu entrei no Seminário, em 1990, os tempos eram totalmente diferentes do que temos hoje. Havia uma maior prática cristã, as famílias eram mais numerosas, ainda não havia os meios informáticos e científicos que temos hoje, portanto houve uma grande evolução na sociedade a nível religioso, científico, cultural e social, e a Madeira não ficou alheia a toda esta evolução.
Com todos estes factores, claro que se alterou, também, o número de ordenações na diocese do Funchal, tanto a nível diocesano, como a nível religioso, mas a Madeira continua a ser uma terra de vocações e de Missionários. Daqui têm partido Missionários para Madagáscar, para Angola e para outras partes do mundo, e têm dado um testemunho muito importante na Igreja desses países de missão.

— A sociedade actual ainda é propícia ao aparecimento de novas vocações sacerdotais?
— A sociedade actual deu-nos muito. Deu-nos progresso ao n&iacut
e;vel da saúde, da informação e da ciência, deu-nos um nível de vida melhor e ao mesmo tempo encheu-nos de muitas coisas.
Penso que os meios materiais que temos, muitas vezes, não favorecem o relacionamento entre as pessoas e estas tornam-se individualistas. Habituamo-nos a ver a guerra em directo na televisão, habituamo-nos a assistir impávidos e serenos ao sofrimento dos outros, certos de que aquilo não tem qualquer influência na nossa vida; mas quanto a mim, o que é ainda mais grave, é que as pessoas já não têm necessidade de Deus.
De facto a sociedade actual não é muito propícia ao aparecimento de novas vocações, porque ela promete riqueza, e nós escolhemos a pobreza, ela promete estabilidade num local, e nós andamos de terra em terra a anunciar o Evangelho, ela promete poder, e nós escolhemos servir. Este foi o desafio de Cristo, e continua a ser o nosso maior desafio.
Creio que hoje o grande desafio para quem se sente chamado à vocação sacerdotal é sentir a liberdade de responder com coragem a esse chamamento, apesar dos obstáculos da sociedade ao que é diferente e sai fora do comum. Mas este chamamento é mais forte do que nós, é algo de divino que nos toca e nos transforma para sempre.
 

Caminhada vocacional

João Nélio Simões Pereira tem 26 anos e é natural da paróquia da Encarnação. Entrou no Seminário em 30 de Setembro de 1990, tendo feito os Votos Perpétuos no dia 15 de Setembro de 2002. A sua Ordenação Diaconal teve lugar no dia 25 de Julho de 2003. A Missa Nova será celebrada no dia 8 de Agosto às 16h30 na igreja da Encarnação.

| Sílvio Mendes, in Jornal da Madeira, 25.07.2004 |