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Provavelmente já escutamos – ou até o tenhamos dito – que os mais novos acham que “o leite vem do pacote”. Com estas palavras, manifestamos a percepção que temos da grande distância que se gerou entre a vida humana – especialmente nas grandes cidades – e a natureza. Também damos conta que tudo o que actualmente entra em nossas casas passa por um grande processo de transformação, a ponto de já não sermos capazes de reconhecer a origem de cada produto.

Porque a nossa consciência a este nível pode estar algo debilitada, é bom lembrar que a criação é a fonte daquilo que precisamos para viver. Dela recebemos a comida que nos alimenta, a bebida que sacia a nossa sede, o oxigénio que inalamos e até os medicamentos que nos curam… Quantos artistas e criadores não tiveram outra intenção que “imitar a natureza”? Por isso, acho que tem todo o sentido falar-se numa dimensão maternal da criação, pois nos cuida e também nos ensina a cuidar, ao jeito de uma mãe. No entanto, a natureza, que tanto se tem prodigalizado por nós ao longo dos tempos, reclama hoje o nosso cuidado, neste momento em que ela se mostra doente, cansada e envelhecida. Parece ter chegado a hora de cada um de nós demonstrar até que ponto aprendeu e desenvolveu a sua vocação de cuidador e custódio.

O paradigma desta atitude maternal de cuidado encontramo-lo em Maria de Nazaré. De facto, “Maria, a mãe que cuidou de Jesus, agora cuida com carinho e preocupação materna deste mundo ferido. Assim como chorou com o coração trespassado a morte de Jesus, assim também agora Se compadece do sofrimento dos pobres crucificados e das criaturas deste mundo exterminadas pelo poder humano. Ela vive, com Jesus, completamente transfigurada, e todas as criaturas cantam a sua beleza. É a Mulher «vestida de sol, com a lua debaixo dos pés e com uma coroa de doze estrelas na cabeça» (Ap 12, 1). Elevada ao céu, é Mãe e Rainha de toda a criação. No seu corpo glorificado, juntamente com Cristo ressuscitado, parte da criação alcançou toda a plenitude da sua beleza. Maria não só conserva no seu coração toda a vida de Jesus, que «guardava» cuidadosamente (cf. Lc 2, 51), mas agora compreende também o sentido de todas as coisas. Por isso, podemos pedir-Lhe que nos ajude a contemplar este mundo com um olhar mais sapiente” (LS 241).

Às portas da Solenidade da Assunção, festa com uma grande tradição no nosso país, reforçada ainda pela presença maciça e contagiante de muitos dos nossos emigrantes, estas palavras do papa Francisco adquirem um peso especial e podem ter uma ressonância mais forte no nosso coração. Num momento em que o drama dos incêndios se volta a abater sobre o nosso país, acudamos à «Mãe e Rainha de toda a criação» e saibamos aprender com ela a cuidar e a reparar a extraordinária obra que o Criador fez com tanto amor e engenho.

José Domingos Ferreira, scj