À medida que os anos passam, cresce em nós a capacidade de olhar para trás e recordar o vivido. Aquilo que na altura parecia não ter tido um significado especial pode passar a tê-lo anos mais tarde.

Na verdade, os mais velhos são verdadeiros arquivos de memórias, de experiências e de conhecimentos; são autênticas bibliotecas vivas, enriquecidas de práticas e saberes. São eles quem «fornece a memória e a sabedoria da experiência, que convida a não repetir tontamente os mesmos erros do passado» (EG 108). São eles os grandes transmissores da cultura e da tradição de um povo.

Os mais velhos ensinam-nos também a ler a nossa história pessoal e a dar-lhe um sentido. A cada passo, abrem o baú da memória e retiram daí um acontecimento ou uma história que foi muito importante para eles e na qual descobriram algo que importa partilhar, ensinar e transmitir. Pouco a pouco, vão encaixando todas as peças das suas vivências no quadro mais harmonioso e compreensível da própria vida. Mais do que ninguém, eles ensinam-nos que «sem memória, nunca se avança; não se evolui sem uma memória íntegra e luminosa. É muito salutar fazer memória do bem» (FT 249).

É importante, portanto, aprender a ler a história pessoal numa perspectiva crente. Quem diz acreditar em Deus, tem de ser capaz de reconhecer a acção e a passagem do divino pela sua vida. O crente é aquele que se descobre, a dada altura, mimado por Deus, isto é, descobre que a sua vida não se explica cabalmente sem a acção de Deus ou, pelo menos, não se explica da mesma forma. Na verdade, «o crente é, fundamentalmente, uma pessoa que faz memória» (EG 13).

Descobrir-se mimado por Deus é tomar consciência de como Deus nos cuida e nos cumula com muitas benefícios e oportunidades. Para Ele, não somos um número nem um mero utente. O seu olhar de amor repousa sobre cada um de nós, de tal maneira que podemos sentir a sua proximidade e a sua generosidade em acção no nosso dia-a-dia. De facto, «como é maravilhosa a certeza de que a vida de cada pessoa não se perde num caos desesperador, num mundo regido pelo puro acaso ou por ciclos que se repetem sem sentido! O Criador pode dizer a cada um de nós: “Antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia” (Jr 1, 5). Fomos concebidos no coração de Deus e, por isso, cada um de nós é o fruto de um pensamento de Deus. Cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um é necessário» (LS 65).

Quando nos descobrimos mimados por Deus, então a gratidão, o agradecimento e a alegria aparecem como respostas conscientes e consequentes. Estes sentimentos não são produzidos à força, mas brotam como uma reacção espontânea de quem descobre que a sua vida é uma verdadeira história de amor. É então que a memória se transforma em «memória agradecida» (EG 13).

José Domingos Ferreira, scj