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Nos últimos tempos, a nossa atenção vai quase exclusivamente para o tema do coronavírus. Eram as informações em massa sobre as medidas urgentes a serem aplicadas e cumpridas por todos e, ao mesmo tempo, apareciam outras a publicitar os melhores métodos ou medicamentos curativos.

Tudo isto a centrifugar em todos os meios de comunicação social durante semanas; consequências de um mundo super tecnológico e rápido nas comunicações. Apesar de vivermos os 7 biliões numa aldeia global, continua a haver muita gente sem informação e, pior, sem acesso às mais básicas medidas de biossegurança: água, sabão, distância social. A estes acrescentamos a dificuldade de acesso aos produtos alimentares mais comuns da ‘cesta básica’. Preços que sobem para o dobro, prateleiras que não são repostas, fome que aumenta com a fome que já havia devido ao longo período de seca do ano passado. É-me difícil ver uma terra que pode produzir 2 ou 3 colheiras por ano e ter uma carência alimentar tão acentuada. É de bradar aos céus, mas a solução está bem debaixo dos nossos pés.

A drástica medida de confinamento para o combate à covid-19 trouxe à tona muitos aspetos essenciais e uns quantos bem dispensáveis. Estamos todos no mesmo barco, em alto mar, e com ondas bem agitadas. Mas há quem prefira dizer que estamos em alto mar mas em barcos diferentes. Qualquer que seja a metáfora, são sempre os pobres e desprotegidos (social e economicamente) que mais sentem a turbulência. O mercado informal de Angola (e um pouco por toda a África) é o sustento da família. As ‘zungueiras’ saem de casa muito cedo com grandes bacias cheias de frutas, vegetais e outros produtos para poderem ter o pão de cada dia. Nestes últimos meses, o pão era pequeno demais para os 6 filhos que, em média, cada família tem. Para elas não há ‘lay-off’ nem qualquer outro subsídio social. São muitas e estão por conta própria. São elas que aguentam esta barra pesada. Todos os filhos em casa, mas não dentro de casa. Porque no cubículo não há nada que fazer. São ainda uma utopia as vídeo-aulas ou a telescola porque nem sequer há televisão nem energia na maioria das casas. Os esforços governamentais para conseguir minimizar esta carência só vêm destapar ainda mais as assimetrias sociais.

O projecto de distribuição de água da Missão do Luau nunca parou nestes meses. E ainda nos associamos a uma campanha municipal de distribuição gratuita de água às populações.

Com o levantamento da cerca sanitária entre as províncias, dois meses depois da inibição de circular para grandes distâncias, a situação parecia controlada e, paulatinamente, se foi retomando as actividades económicas (mercados tradicionais, pequenas lojas e armazéns) e os serviços públicos.  Mas de há umas semanas para cá que os números de infectados e óbitos têm sido constantes e aumentando a cada dia. Não obstante o reforço de 220 médicos cubanos e muito material médico que todos os dias chegava ao país. Mas outra pandemia mais grave e descontrolada esteve a dizimar muito mais. A malária é um do principais problemas de saúde em Angola. Quando ainda não havia casos positivos de Covid-19 em Angola, no primeiro trimestre do ano já tinham morrido 450 pessoas na província da Huila e perto de um milhão de infectados em todo o país. Também fiz parte da estatística no início de Maio. A malária é bastante letal, principalmente para as crianças. Para já, vamos só ouvindo que há uma vacina a ser preparada em Portugal, no Instituto de Medicina Molecular, com 95% de eficácia. Se há urgência para a vacina do coronavírus, para a malária é ainda mais urgente.

Na semana passada foram permitidas as celebrações religiosas. Na diocese de Luena, o bispo celebrou a missa crismal, seguindo todos os requisitos sanitários, e incentivou a que todos, depois desta prolongada quaresma, pudéssemos viver com alegria e em segurança a nossa fé. Para participar nesta celebração, precisei de fazer quase 1200km (ida e volta) porque esta diocese é quase três vezes o tamanho de Portugal. Mas houve ainda outros que fizeram distâncias maiores. E uma boa parte das estradas, além de não terem asfalto, também estão cheias de buracos. É uma aventura todas as vezes que nos metemos à estrada.

Na Missão do Luau retomamos as missas no domingo passado. Uma no pátio da escola e outra dentro da Igreja. Foi com muito entusiasmo que em cada uma delas se intensificou a vivência eucarística. Aprendemos a celebrar com novos hábitos mas não com menor fé.

Apesar deste tempo de recolhimento que todos vivemos e que nos possibilitou reorganizar os nossos hábitos de oração e nos trabalhos da horta, também conseguimos iniciar a nova igreja na comunidade do bairro Catombi, em breve será nova paróquia. Porque seguimos as dicas do Papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium: Não deixem nos vos roubem o entusiasmo missionário; não deixem que vos roubem a alegria da evangelização.

Pe. David Mieiro, scj