Print Friendly, PDF & Email

Paulatinamente, temos vindo a despertar uma nova sensibilidade na nossa relação com o meio ambiente. Uma renovada consciência social para o cuidado da natureza está a germinar, a partir da constatação de que o nosso planeta está doente e que se aproxima, a passos largos, de uma situação irreversível de ruptura. Começamos a intuir que estamos destinados a acompanhar este mundo, seja na vida, seja na morte…

Na origem desta situação dramática, pode-se detectar que reduzimos a natureza a um mero utensílio ao nosso serviço, destinado a satisfazer os nossos desejos ilimitados e imoderados. Ela era apenas mais um objecto que podíamos utilizar, sem nos preocuparmos com as consequências de um uso potencialmente abusivo. Interpretamos a sua extrema disponibilidade como um livre-trânsito para a nossa arbitrariedade. Ao mesmo tempo, apagou-se-nos a memória dos seus grandes segredos, precisamente porque deixamos de a escutar com atenção e de reconhecer espiritualmente a sua verdadeira forma.

Este mundo visível é um véu e «tudo o que existe ou acontece visivelmente esconde e ao mesmo tempo insinua – e acima de tudo serve – um sistema maior de pessoas, factos e eventos que está para além de si mesmo» (J. H. Newman). A nossa vida seria muito diferente, se fôssemos capazes de aceitar este véu, mas mais ainda se conseguíssemos sentir que «a natureza deseja que escutemos e observemos a grande história do amor de Deus para a qual ela aponta» (H. Nouwen).

A natureza torna-se opaca e não nos revela a sua verdadeira essência, sempre que consideramos que as árvores, os rios, as montanhas, os campos e os oceanos são unicamente objectos, que existem para dar satisfação às nossas pretensas ou reais necessidades. «Quando uma árvore não é mais do que uma potencial cadeira, deixa de nos revelar tudo o que pode sobre crescimento; quando um rio é apenas um depósito para os desperdícios industriais, não pode mais falar-nos acerca de movimento; e quando uma flor não é mais do que o modelo para um ornamento de plástico, tem muito pouco a dizer sobre a beleza da vida» (H. Nouwen). A poluição dos rios, a contaminação do ar e a desflorestação indicam uma falsa relação com a natureza e são sintoma de um apagamento do Espírito no nosso coração e no coração da criação.

Deste modo, são verdadeiros missionários aqueles que se mostram sensíveis ao enorme problema ecológico deste nosso tempo. Realizam uma verdadeira missão, ao permitir que, «além das pessoas, também as plantas e os animais nos transmitam ensinamentos sobre o ciclo da vida e o cuidado com os que estão sós, falando-nos do grande amor de Deus» (H. Nouwen). Este salto da opacidade para a transparência na relação com a natureza «restitui-nos o sentimento da nossa dignidade, leva-nos a uma maior profundidade existencial, permite-nos experimentar que vale a pena a nossa passagem por este mundo» (LS 212). Em verdade, «tudo é carícia de Deus» (LS 84).

José Domingos Ferreira, scj