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Nos passados dias de 23 a 25 de julho, tive oportunidade de participar na ilha da Madeira numa iniciativa chamada “Trilhos de São Tiago”.

E muitos de vocês devem estar a perguntar-se… Não será antes “Caminho de Santiago”?

Sim… não é engano. É mesmo “Trilhos de São Tiago”. E já passo a explicar a génese desta iniciativa.

Nasceu o ano passado, sendo esta a sua segunda edição. Este projeto surge na Escola da Apel, já na parte final do ano lectivo 2018-2019, numa conversa entre o Pe. Fernando Gonçalves, Diretor geral da APEL e um professor de Educação Física, o professor Apolinário. O desafio inicial era organizar uma peregrinação a Santiago… “mas porque não realizá-la na nossa terra, a ilha da Madeira?”, ripostou o Pe. Fernando.

Isto porque a ilha da Madeira tem uma forte devoção a São Tiago Menor, padroeiro da cidade e da diocese do Funchal e, sobretudo, protetor na hora das pandemias, num voto formulado a meados do séc. XVI. Como forma de gratidão, realiza-se no dia 1 de maio uma procissão em homenagem a São Tiago Menor, que parte da igreja de Santa Maria Maior, onde se encontra a sua imagem. Unindo esta dimensão ao São Tiago Maior (mais conhecido como o Santiago de Compostela) e que também tem a sua presença na igreja dos Canhas (Ponta do Sol), nasceu a ideia de organizar os “Trilhos” entre a Igreja de Santa Maria Maior (Socorro) e a Igreja dos Canhas, tendo pontos de passagem na igreja de Santa Luzia (onde se encontram pinturas dos dois Tiagos), na capela do Foro (onde se encontra a imagem de São Tiago Maior) e na igreja do Jardim da Serra (dedicada a São Tiago Menor). Poderíamos dizer que se trata de uma peregrinação de São Tiago Menor ao Maior, algo único no mundo.

Lançada esta contextualização muito sumária, passo então a descrever esta experiência de “trilhar” cerca de 55 km em três dias com um declive de mais de 800m. (Só por estes números podemos já presumir a dificuldade do percurso, entre alcatrão, levadas, caminhos agrícolas, a subir e a descer constantemente.)

No dia 23 pela manhã, às 8h, reunimos os corajosos peregrinos (que nem imaginavam no que se estavam a meter a maior parte deles), na igreja de Santa Maria Maior, para dar a partida, abençoada pelo nosso bispo D. Nuno Braz e lá nos pusemos a caminho. Passando por Santa Luzia para o primeiro pit-stop e pela Escola da APEL para um breve repouso e oração à Senhora do Til, seguimos por entre as ruas e ruelas da cidade do Funchal, desfrutando perspetivas únicas da cidade, apanhamos a Levada dos Piornais que nos conduziu até Câmara de Lobos, onde o Pe. Fernando (o nosso carro de apoio) nos levou a tão ansiada refeição.

Mas o pior chegava pela tarde, quando nos deparamos na íngrime subida que nos conduziria até ao primeiro poiso, o Jardim da Serra. Entre muito cansaço e grossas lágrimas de suor conseguimos chegar à capela do Foro, onde celebramos a Eucaristia, e a D. Germana (mãe do nosso padre Rosário) e a sua família nos ofereceram o lauto banquete, retemperador das nossas poucas forças.

Depois do jantar… já a noite caíra… subimos até ao Jardim da Serra por entre estradas e veredas até ao nosso poiso de descanso cedido pela Junta de Freguesia do Jardim da Serra. Foi só mesmo tomar banho e cair redondo no chão a dormir (falo por experiência própria, pois sei que os outros peregrinos ainda foram dar uma volta pelas redondezas). Por mim dava-me por satisfeito.

Dia 24, logo pela manhã, depois de um pequeno almoço, oferecido por um café local, partimos em direção da igreja do Jardim da Serra. Após o acolhimento do pároco local (Pe. Rui Silva) e a oração da manhã, lá nos pusemos em movimento à procura da Levada do Norte, que nos conduziria à Eira do Mourão (no alto da Ribeira Brava), o segundo poiso da noite. Mas até lá, sob um sol intenso e poucas sombras, remamos contra a maré da levada, atravessando as serras da Quinta Grande, do Campanário e da Ribeira Brava, num percurso sem grandes desníveis mas muito duro por causa do sol abrasador. Pelo meio o nosso assistente de viagem levou-nos um saboroso almoço, que nos deu a força para chegar ao fim desse dia.

Ao final do dia chegamos ao poiso da Eira do Mourão e, depois de uma fria banhoca, foi só esperar pelo jantar, brincar com os gatinhos dos vizinhos que tão bem nos acolheram e jogar ao “Gringo”, sob a batuta do prof. Apolinário, e ir descansar, pois já se aproximava o dia seguinte. Tal como na primeira noite, caí redondo no chão a dormir, mas sei que os outros peregrinos, como me disseram, tiveram alguma dificuldade em habituar-se às aranhas e centopeias que habitavam no nosso poiso.

Dia 25 de julho, sob a proteção de São Tiago Maior (o patrono do dia), dávamos início à derradeira viagem até aos Canhas… à procura do referido santo. Mas para lá chegar ainda muito tínhamos de “sofrer”…

Logo pela fresquinha da manhã, descemos até à Ribeira Brava, numa íngrime descida que pôs à prova o nosso sistema de ABS. Foi o tempo de visitar o São Bento para cumprimentá-lo (oração da manhã), descansar pouco ou mergulhar nas águas refrescantes do mar… Depois, toca reiniciar a nossa viagem sempre a subir até aos Canhas, calcorreando as estradas da Tabúa e Ponta do Sol, procurando poupar as forças para a última derradeira escalada até aos Canhas.

Pelas 15.30h, chegaram estes seis peregrinos com a língua de fora, mas felizes e contentes por cumprirem a sua peregrinação.

Entretanto, chegaram dois corredores de Trail que, em menos de 7 horas, percorreram o que fizemos em 3 dias (é preciso muita coragem… e preparação física); um grupo de cinco ciclistas que partiu do Funchal às 13h; um grupo de oito motards; e cerca de 30 peregrinos que chegaram em carros ligeiros… E, assim, o número de peregrinos foi aumentando, juntando-se a eles a comunidade cristã dos Canhas, até à apoteose final com a celebração da Eucaristia pelas 18h, presidida pelo Pe. Fernando Gonçalves e concelebrada pelo pároco local (Pe. António Paulo) e por mim, Pe. Juan. No fim da celebração, após a entoação do “Hino dos Trilhos”, composto para o evento, seguiu-se um momento de convívio e um lanche partilhado, com bebidas e manjares oferecidos, em boa parte, pela Câmara Municipal da Ponta do Sol.

Tal como disse no início… uma experiência única, sem igual, com belas paisagens e intensos momentos de partilha ao longo destes 3 dias.

É um projeto que está a estruturar-se, mas que tem pernas (e rodas) para andar…

Por isso, quando ouvirem falar nos “Trilhos de São Tiago”… já sabem… é na Madeira e é original porque une dois santos Apóstolos, de nome Tiago, o Menor e o Maior!

Para o ano, se Deus quiser… hei-de voltar a “trilhar” a Madeira, sob a proteção dos Tiagos Menor e Maior.

Ficam algumas fotos que tirei com o meu telemóvel… mas se quiserem saber mais… passem pelo site, página de facebook e Instagram da Escola da Apel!